Última atualização: 25/03/2019

Prólogo

Brooklyn, 1940.


Era uma tarde fria de janeiro, e a neve que começava a cair do lado de fora baixava ainda mais a temperatura, fazendo a garota sentada na mesa do canto daquele bar afundar o rosto no cachecol e soltar o lápis para colocar suas luvas.
Ela poderia estar em casa, terminando os desenhos das roupas que sua chefe — aquela estilista francesa arrogante — havia pedido, mas, seria impossível. O apartamento minúsculo que ela dividia com outras três garotas provavelmente estava um caos, ao ponto de um bar ser o local mais tranquilo para ela estar desenhando.
Após colocar suas luvas, ela voltou sua atenção para os desenhos, mas, então, viu um copo ser colocado à sua frente e alguém sentar ao seu lado.
Ela não estava com a mínima paciência para dar atenção a um cara, e, depois de ignorar tantos homens naquele bar, pensou que eles já haviam entendido o recado.
O rapaz limpou a garganta, como se esperasse que aquilo chamasse sua atenção, mas ela permaneceu com os olhos focados no desenho. Em algum momento ele iria desistir.
— Não é educado ignorar os outros, sabia?
Aquela voz. Ela imediatamente soube quem era ele: James Buchanan Barnes.
E aquilo só deu ainda mais motivos para ela ignorá-lo.
Barnes sempre aparecia naquele bar nas sextas-feiras, os mesmos dias em que ela ia ali para concluir os trabalhos da semana. Ele passava a noite toda naquele lugar, bebendo, dançando e sendo disputado por todas as garotas — com exceção dela, é claro. No fim da noite, ele escolhia a melhor garota e saía com ela.
"E eu não sou esse tipo de garota", completou mentalmente.
— Você realmente vai agir como se eu não estivesse aqui? — ele perguntou, colocando um tom dramático na voz.
— Eu estou ocupada — respondeu, apontando para as folhas espalhadas sobre a mesa.
Bucky encarou os desenhos sobre a mesa, balançando a cabeça em concordância, como se aprovasse o que ela havia feito.
— Você é bem talentosa — ele comentou.
— Obrigada — agradeceu, com uma voz doce — Agora, poderia me dar licença para eu terminar? — concluiu no tom mais ácido possível.
Mas, aquilo não o afastou. Na verdade, só fez Bucky se aproximar ainda mais sua cadeira da dela.
— Qual o seu nome?
— Sério? Você ainda está aqui?
Bucky sorriu com o canto da boca, como se tivesse acabado de encontrar o jogo mais divertido para jogar.
— Eu sou Bucky Barnes. — ele estendeu a mão para ela.
Ao invés de estender a mão, ela estendeu o copo que ele havia colocado sobre a mesa.
— Todo mundo sabe quem é você, Barnes. Agora vá oferecer essa bebida a uma garota que esteja realmente interessada. — ela apontou com a cabeça para o balcão, onde cinco garotas mantinham os olhos fixos nele.
As garotas acenaram quando ele olhou para elas, mas a decepção encobriu seus rostos quando ele rolou os olhos e se voltou para a garota ao seu lado na mesa.
— Essas garotas não fazem meu tipo — respondeu, empurrando a bebida novamente para ela.
— É mesmo? Porque nos dois meses que eu tenho frequentado esse lugar, você sempre sai daqui com uma delas.
Um sorriso divertido se formou nos lábios dele.
— Então você deve ter prestado bastante atenção em mim, não é?
— Não foi isso que eu…
— Tudo bem, eu entendo — ele comentou, rindo.
A garota fechou os olhos, inspirando fundo, Barnes já estava lhe dando nos nervos.
— E fazem dois meses e três semanas — ele disse, tomando um gole de sua própria bebida.
— O quê? — a garota indagou.
— Dois meses e três semanas que você frequenta o bar. Na verdade, eu lembro exatamente a primeira vez que eu te vi aqui. Era final de outubro do ano passado, e você usava um casaco laranja, da mesma cor das abóboras da decoração de Halloween — ele riu, mas a garota o encarou com uma expressão séria, indicando que ele só estava piorando as coisas — Você estava linda — afirmou, olhando fixamente nos olhos dela, sua expressão se tornando séria — Você pediu um café preto sem açúcar e sentou aqui, tirou as folhas da bolsa e ficou desenhando enquanto cantarolava a música da Vera Lynn que estava tocando. Naquele momento eu tive certeza de que você era a garota, eu esperei você terminar os desenhos e estava prestes a te chamar para dançar, quando um cara fez isso primeiro, você recusou, ele insistiu, e, então, você deve ter dito algo bem ruim, porque ele saiu daqui quase chorando — ele riu — Foi por isso que eu não vim falar com você antes, mas… Eu precisava saber seu nome e, então, hoje criei coragem.
Ela estava atônita. Como ele conseguia lembrar-se de tantos detalhes? E o pior é que ele havia acertado em cheio todos eles. Ela tinha aquele casaco laranja há anos, era o seu favorito e ela sempre o usava durante o outono, e lembrava-se bem de ter percebido que ele era da mesma cor das abóboras em cima do balcão quando entrou no bar pela primeira vez. E ela também se lembrava de ter dado um fora naquele cara, mas ela não se lembrava de ter visto Bucky naquele dia.
Mas ele tinha visto ela.
— Então você deve ter prestado bastante atenção em mim, não é? — ela repetiu a mesma frase dita por ele com ironia, o fazendo sorrir.
A garota pegou o copo sobre a mesa e tomou um gole, olhando fundo nos olhos claros dele em seguida.
— O meu nome é .

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças

"Nos encontraremos novamente, não sei onde, nem quando.
Mas sei que nos encontraremos novamente em algum dia ensolarado.
Permaneça sorrindo até o fim, apenas como você sempre faz,
Até que os céus azuis levem as nuvens negras para longe"


We'll Meet Again, Vera Lynn

— Precisamos sair logo daqui, eles já estão chegando.
Foi com aquela voz autoritária feminina que acordou, mas ela sabia que não estavam falando com ela. Eles não a deixariam sair dali tão facilmente.
— E o que fazemos com ela? — o carcereiro que a mantinha presa perguntou. — Será que vieram resgatá-la?
levantou a cabeça para encará-los, ela estava no canto escuro da cela, eles não conseguiriam ver que ela estava acordada e muito menos que estava ouvindo eles.
— Quem é ela? — a voz autoritária indagou, impaciente.
Os gritos de dor e barulhos de coisas sendo quebradas se tornavam cada vez mais altos. Eles estavam chegando.
— Eu não sei… Eu não consigo lembrar — o carcereiro murmurou com a voz trêmula.
— Não sabe? Ela está presa há mais de dois meses, como você…
— Eu não me lembro… Ninguém lembra por que ela foi presa, nós não lembramos nem quem ela é…
— Não lembram? — a mulher perguntou com descrença. — Então por que ela ainda está presa?
— Dizem que ela é uma bruxa, que é ela quem está nos fazendo esquecer — o carcereiro sussurrou. — Ela é perigosa.
E ele não estava totalmente errado.
— O que faremos com ela? — indagou o homem, o medo preenchendo sua voz.
A mulher ponderou por alguns segundos e, então, ordenou:
— Deixe-a aí, eles vão dar um jeito nela…

E aquele foi seu maior erro.

II

Wakanda, dias atuais

ajeitou o vestido verde escuro em seu corpo e voltou a observar o sol se erguendo no horizonte, aquele seria outro dia quente como foram todos os outros naquela semana e ela não era uma grande fã de calor, mas, estava satisfeita. Ela finalmente estava livre.
Depois dos três meses naquele cativeiro, sem poder ver a luz do sol, com os braços presos em uma camisa de força e os pés acorrentados, ela havia encontrado refúgio em Wakanda. T'Challa havia dito que eles não a encontrariam ali, que ela estava segura, mas, ela sabia que mais cedo ou mais tarde alguém lembraria a razão de ela ter sido capturada, lembrariam que ela era importante e essencial para o plano deles, e então viriam atrás dela, e a fim de evitar que mais inocentes morressem por sua causa, ela iria fugir, como já fizera tantas vezes.
No entanto, dois meses haviam se passado desde que ela chegara a Wakanda e nenhum incidente havia ocorrido. Ela e sua amiga Alexis, que havia sido resgatada do cativeiro junto com ela, haviam sido acomodadas em um prédio um pouco distante do palácio, e que estava vazio, o que significava total privacidade, e apesar de evitar sair dali — não poderia colocar a vida de mais ninguém em risco —, ela permanecia a maior parte do tempo na varanda onde estava naquele momento. De lá, ela era capaz de ver crianças correndo nas ruas lá em baixo e aquilo lhe dava um pouco de esperança. Talvez um dia, Wakanda pudesse ser sua casa também.
— Trouxe café da manhã!
se virou para encarar uma Alexis animada que entrava no quarto com uma bandeja de comida. Apesar de haver apartamentos o suficiente para cinquenta pessoas naquele prédio elas haviam decidido dividir o mesmo, assim como dividiam o mesmo quarto. Depois do que passaram, era difícil para as duas ficarem sozinhas.
— Não estou com fome — respondeu , voltando a observar o céu azul.
— Nervosa? — perguntou Alexis, colocando a bandeja sobre a cama e caminhando até a varanda.
balançou a cabeça em concordância.
Quando ela chegou ao cativeiro Alexis já estava lá há um mês, a cela dela ficava ao lado da sua e durante todo o tempo em que ficaram presas foram a única companhia uma da outra.
Alexis a conhecia melhor do que qualquer um.
— Eu não sei se consigo ajudar ele — confessou — Eu conversei com o T'Challa e com o Steve ontem e a ideia deles faz muito sentido, mas… Eu só consigo manipular memórias, ele sofreu lavagem cerebral… — não podia evitar a urgência em sua voz — É diferente — deu os ombros — Me diga como eu vou conseguir apagar o que fizeram com ele?
Mas, ela tinha uma dívida com T'Challa, por tê-la resgatado do cativeiro, bem como tinha uma dívida com Steve. Seu nome estava na lista do Projeto Insight e se não fosse a interferência do Capitão — e de Fury, Natasha, Maria e Sam — ela provavelmente já estaria morta. Assim, quando eles pediram que ela ajudasse Bucky Barnes a se livrar do Soldado Invernal, ela foi incapaz de negar.
Um mês atrás, T'Challa viera até ela e contara sobre o homem que ele estava escondendo ali sob criogenia. Ele não dissera de início que era o Soldado Invernal, mas, contou sobre a lavagem cerebral, e como sabia que ela podia manipular memórias, pensou que talvez ela pudesse ajuda-lo. Segundo ele, eles já haviam tentado tudo o que podiam naquele último ano em que ele estivera ali, mas, não haviam encontrado nenhuma solução.
"Você é nossa última esperança, ", foi o que ele dissera.
E ela temia decepcioná-lo.
— Você sempre deu um jeito de resolver tudo — Alexis assegurou — Vai encontrar uma forma de ajudar ele.
suspirou.
Esperava que Alexis estivesse certa.

III

encarava o teto branco daquela sala no palácio enquanto cantarolava mentalmente uma música dos anos 80.
Já havia se passado 30 minutos. Meia hora ouvindo T'Challa, Steve e Bucky discutirem como se ela não estivesse ali, sentada no sofá que estava a menos de dois metros deles. O rei de Wakanda assegurava que ela conseguiria ajudar Bucky, mas, Barnes insistia que era perigoso e que poderia machucar ela, enquanto Steve tentava convencê-lo do contrário.
Mas, nenhum deles havia se importado em dirigir a palavra diretamente a ela.
? — ela ouviu a voz de T'Challa a chamar e imediatamente se levantou.
— Sim?
— Você poderia explicar como seus poderes funcionam? — pediu, apontando para Bucky.
— Claro — ela se aproximou deles, seus olhos fixos em Bucky Barnes, mas, ele insistia em desviar o olhar dela — Eu consigo manipular memórias — explicou — Sou capaz de trazer de volta memórias do passado que você esqueceu e posso apagar as memórias do que a Hydra fez com você.
— Isso vai resolver? — ele perguntou, olhando diretamente para Steve Rogers.
rolou os olhos. Ele sabia que ela estava bem ali e que podia falar com ela, certo?
— Vai? — Steve perguntou para ela.
E então ela sentiu o olhar dos três sobre si.
— Vai. — assegurou, mesmo que não tivesse tanta certeza sobre isso.

IV

— Nós já nos conhecemos?
deu um sobressalto quando Bucky falou.
Ele estivera em silêncio desde o momento em que ela entrou na sala há 15 minutos. Ela havia até mesmo esquecido que ele estava ali.
A garota levou a mão ao peito, tentando normalizar sua respiração. Ela podia jurar que ouviu um risinho escapando da boca dele.
— Eu acho que não — respondeu, finalmente desistindo de tentar acender os incensos e velas que Alexis dera para ela, e que segundo a amiga: "Ajudariam a criar um cenário místico".
Os dois estavam em um dos apartamentos do prédio onde e Alexis estavam hospedadas. As paredes e grande parte dos móveis eram brancos. Cortinas vermelhas cobriam as janelas e uma capa com padrões coloridos estava sobre o sofá branco no qual Bucky estava sentado.
— É estranho, eu sinto que já te conheço — ele insistiu.
franziu as sobrancelhas, ela tinha uma excelente memória, se lembraria de tê-lo visto antes.
— Bom, podemos descobrir se já nos conhecemos quando vasculharmos sua memória, está pronto? — indagou, indo em direção às duas cadeiras de madeira que ela havia pegado na cozinha e colocado uma de frente para a outra perto da janela da sala de estar.
E apesar de Bucky concordar, ele não parecia muito pronto. Na verdade, ele parecia cansado.
Seus cabelos compridos estavam presos e sua barba estava um pouco maior do que da última vez que ela o vira na criogenia algumas semanas antes. T'Challa havia a levado até lá, na expectativa de que ela conseguisse alterar as memórias dele enquanto ele ainda estava hibernando, mas, ela não conseguira.
sentou em uma das cadeiras, vendo Bucky sentar à sua frente.
— Como isso vai funcionar? — perguntou ele.
se ajeitou na cadeira e começou a mexer no bracelete de contas coloridas em seu pulso, o que sempre fazia quando estava nervosa.
— Memórias são complicadas, nossa mente as manipula o tempo todo para nos proteger — ela pensou um pouco, tentando encontrar a melhor forma para explicar tudo aquilo — Por exemplo, se alguma coisa ruim acontece nossa mente tende a modificar os fatos, apagar aquilo que é tóxico para nós, mesmo que muitas vezes, apesar do trauma ficar, as memórias sobre aquilo vão embora. — explicou — Mas, ás vezes nós mesmos nos sabotamos, e não importa quantas memórias boas tenhamos sobre alguma coisa, basta uma única coisa ruim acontecer para que as memórias boas sejam anuladas.
Ela ficou em silêncio, esperando que ele fizesse alguma pergunta, mas, ele não fez, e ela retomou sua explicação:
— É por isso que a linha do tempo das nossas memórias são tão bagunçadas, elas não se organizam em ordem cronológica, geralmente as lembranças mais felizes e as mais dolorosas vêm primeiro, porque elas são mais intensas, mais fortes. Mas, geralmente aquelas memórias esquecidas, as que estão presas no teu subconsciente, são elas que determinam quem você é, e são elas que nós precisamos encontrar e manipular. — esclareceu — É nelas que o Soldado Invernal está se escondendo.
Bucky acenou em concordância, desviando o olhar dela e encarando o chão, como se tentasse absorver tudo o que ela havia falado.
— Só há um pequeno problema… — falou hesitante.
Os olhos claros dele imediatamente se voltaram para ela.
— Para filtrar as memórias, nós precisaremos reviver grande parte delas — tentou explicar, aquela parte era a mais difícil de todas.
— O que você quer dizer? — perguntou Bucky.
se ajeitou na cadeira.
— Bom, é parecido com o que acontece em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças…
A expressão de confusão ainda cobria o rosto dele.
— É um filme… — e então o óbvio a ocorreu — De 2004, é claro que você não sabe do que eu estou falando, eu sou uma idiota — murmurou, passando a mão pelo rosto, vendo um sorriso tímido surgir nos lábios dele.
— Bom, a maioria das memórias nós vamos ver de fora, como se estivéssemos assistindo à cena, mas, para manipular, nós vamos precisar repetir ela em sua mente, sentindo tudo o que você sentiu quando ela aconteceu e isso pode ser bem difícil…
— Espera — ele a interrompeu — Você disse nós?
— Sim — respondeu, sem entender a dúvida — Algum problema?
— Você sabe as coisas que eu fiz? Eu não posso permitir que você passe pelo mesmo que eu passei.
sentiu seu coração apertar. Ele iria reviver os piores momentos da sua vida e estava preocupado com ela?
— Eu aprecio a preocupação, mas, isso é uma decisão minha, Bucky. E acredite, eu já vi coisas bem ruins, posso lidar com isso. — assegurou, mas, ele não pareceu mais confortável.
— Tem certeza? Você vai ficar bem?
sorriu.
Em poucos minutos de conversa já havia percebido que Bucky tinha um coração enorme. Ele não merecia ter passado pelo o que passou.
Vamos ficar bem — assegurou ela.
E então, sem mais nenhum protesto, ela segurou a única mão dele, pedindo para que ele fechasse os olhos, e então envolveu o polegar de Bucky com seus dedos, exercendo uma leve pressão sobre ele.
Aquela era uma técnica de relaxamento que ela aprendera enquanto tentava descobrir como controlar seus poderes. Cada dedo representava uma emoção, e ela os pressionava por cerca de um minuto. A técnica sempre funcionara nela e esperava que funcionasse com Bucky também. Emoções confusas acabavam confundindo as lembranças, e se ela tentasse acessar a mente dele quando as emoções estavam bagunçadas, uma enxurrada de lembranças viria de uma só vez e ela não iria suportar. Isso já acontecera antes e fora uma das piores sensações que ela já sentira. não estava disposta a passar pelo mesmo outra vez.
Por fim, ela pressionou o centro da mão dele e quando terminou percebeu que a respiração de Bucky estava mais lenta do que quando começaram.
— Pronto? — sussurrou.
Bucky abriu os olhos e balançou a cabeça, mas, ela podia ver a hesitação em seu semblante.
— Vai ficar tudo bem — afirmou ela.
levou suas mãos até o rosto de Bucky, seus polegares tocaram as têmporas dele, seus olhos se fecharam e por um momento não houve nada, nada além de escuridão.
O silêncio assustador das memórias começou a se tornar sufocante.
sentia a ansiedade crescendo dentro de si. Suas vias respiratórias se estreitando, impedindo que o ar passasse normalmente. Seus batimentos cardíacos começaram a acelerar, se tornando tão descompassados quanto sua respiração. Ela sentia suas mãos tremendo, a adrenalina se espalhando por seu corpo e então ela entendeu.
Estava prestes a acontecer de novo.
Ela sabia que uma onda de lembranças intensas viria a seguir, ela se preparou para o impacto, tentou se concentrar para segurá-lo, mas, quando veio, foi pior do que ela poderia imaginar.
Uma sequência de imagens e sentimentos preencheu seu corpo. Foi como se uma bomba tivesse explodido a centímetros de onde ela estava. Primeiro veio o clarão, então o estrondo alto, o zumbido em seus ouvidos acompanhava aquela dor excruciante como se seu crânio estivesse sendo pisoteado.
Um grito de dor ficou preso em sua garganta, mas, o de Bucky não.
Ela o ouviu gritar. Um grito cheio de dor e desespero. Ela sabia que precisava dar um jeito naquilo, ela precisava se concentrar ou os dois sofreriam ainda mais.
tentou manter o foco, tentou encontrar uma trilha no meio daquelas lembranças bagunçadas, mas, era difícil quando não sabia o que procurar.
"O que o Steve disse? O que o Steve disse?", ela repetia mentalmente, tentando lembrar-se de qualquer momento que ele houvesse comentado, tentando buscar alguma coisa para norteá-la naquela bagunça, mas, já era tarde demais.
As lembranças acumuladas de 100 anos a atingiram de uma só vez.
Foi como levar uma facada, e então outra, e outra...
Cada lembrança era como uma pontada de dor. Sua cabeça doía, seus braços doíam, seu tórax doía, seu corpo inteiro era preenchido por uma dor excruciante, como se ela estivesse estado em uma briga onde saiu perdendo.
Mas, a dor física não era nada quando comparada com a dor emocional.
Ela queria chorar, queria desesperadamente gritar com todas as suas forças para que aquela tristeza, aquela raiva e aquela mágoa fossem embora. Ela nunca havia sentido tanto sofrimento, ela nunca sentira tanto desespero nas memórias de alguém.
Ela simplesmente não sabia como ele aguentava sobreviver com aquilo.
trancou sua respiração, tentou se concentrar, tentou orientar aquelas memórias, mas, era em vão. Ela tentou se desconectar, mas, era impossível, suas forças estavam sendo sugadas. A dor estava indo embora, mas, um formigamento dominava seu corpo. Ela sentia seus membros amortecendo e por alguns segundos sentiu que iria desmaiar. Na verdade, ela queria desmaiar. só queria que tudo se tornasse escuro, que ela ficasse inconsciente, contanto que aquela dor acabasse.
Foi quando um grito agudo a trouxe de volta, mas, não era Bucky gritando. A voz desesperada saía de sua própria garganta. E com o resquício de forças que ainda tinha, ela conseguiu afastar suas mãos de Bucky, e então as lembranças e a dor foram embora.
A respiração de estava acelerada, suas mãos estavam trêmulas e seus músculos começavam a doer como acontecia após um grande esforço físico. Vagarosamente ela abriu seus olhos, e quando eles se acostumaram com a claridade, foram diretamente ao encontro dos olhos marejados de Bucky.
— Eu sabia que isso ia acontecer. — a voz dele estava embargada, fraca.
Sua respiração pesada indicava que ele estava tão exausto quanto ela, talvez até mais.
No entanto, foi só quando ele levou a mão até o rosto de e secou as lágrimas que caíam por sua bochecha que ela percebeu que estava chorando também.
Bucky levantou da cadeira, sem dizer mais nada e quando estava prestes a se afastar segurou seu pulso.
— Eu sinto muito, eu me distraí… — disse ela, juntando todas as forças que ainda tinha — Podemos tentar amanhã de novo — pediu com a voz trêmula, já imaginando qual seria a resposta dele.
Bucky suspirou.
— Eu sou grato por você querer me ajudar, mas… — ele balançou a cabeça em negação — Você não precisa passar por isso, é melhor eu voltar a hibernar até…
— Por favor, me dê só mais uma chance — o interrompeu — É tudo o que eu estou pedindo, Barnes.
Os olhos de Bucky se arregalaram, como se de repente ele houvesse se lembrado de alguma coisa importante, e imediatamente uma sensação estranha preencheu , aquela sensação de saber alguma coisa, mas, ser incapaz de lembrar-se dela.
Ela tinha certeza de que havia encontrado uma lembrança crucial naquelas memórias bagunçadas, algo que poderia ser vital para livrá-lo do Soldado Invernal.
— Você sentiu isso, não sentiu? — perguntou ela, ainda tentando forçar sua mente a lembrar-se o que era — Tem alguma coisa importante que você precisa lembrar e eu posso te ajudar…
— É perigoso — insistiu ele.
— Eu posso encontrar outro jeito — a voz de já estava desesperada — Só mais amanhã, se eu falhar nós desistimos e você volta para a criogenia sem nenhum protesto meu.
Bucky desviou o olhar dela, observando a janela escondida pelas cortinas vermelhas, ponderando suas opções.
— Tudo bem — concluiu ele — Temos um acordo. Só mais amanhã, se não der certo, nós desistimos.
sorriu, tentando passar alguma confiança, mesmo que achasse que ele tinha razão e que a segunda vez não seria diferente.

Obedientes Sonhos dos QUAIS Podemos Acordar e chorar

"Eu conheço bem aquela melodia,
É engraçado como recorda meu sonho favorito.
Um sonho que trouxe você tão perto de mim,
Eu conheço cada palavra porque eu ouvi aquela canção antes.
Por favor, peça para tocarem novamente
E eu irei lembrar quando eu ouvi aquela adorável canção antes"

I've Heard That Song Before, Harry James and His Orchestra

Os braços dele estavam presos, e não importava o quanto ele tentasse se mover, ou o quanto tentasse se soltar, nada adiantava. Ele não conseguia ver muita coisa, sua visão estava embaçada, mas, ele via aqueles vultos, a silhueta das pessoas usando branco naquele cômodo escuro. Hora ou outra alguém se aproximava de seu rosto, lhe perguntava alguma coisa, mas, ele estava confuso demais para responder, e continuava repetindo aquela mesma frase incessantemente.
Eles não estavam contentes com isso.
Seu corpo estava sonolento, ele sentia-se fraco, mas, todos os seus sentidos se aguçaram quando ele sentiu alguma coisa ser colocada em torno de sua cabeça. Ele voltou a se debater e a gritar, de alguma forma ele sabia que aquilo iria doer, que iria machucar, mas, antes que pudesse entender o que estava acontecendo, seu cérebro explodiu.
Pelo menos, a sensação se pareceu com isso.
Parecia que duas garras estavam dentro de sua cabeça, apertando e torcendo seu cérebro. Uma dor aguda pressionava seus glóbulos oculares, parecendo ser capaz de esmaga-los, forçando-o a fechar os olhos. E aquela dor agoniante se intensificou, como se houvesse uma coroa de ferro pressionando todos os ossos de seu crânio, como se os quebrasse um a um.
Uma corrente elétrica percorreu sua cabeça e logo todas aquelas dores ficaram para trás, porque uma nova e mais intensa passava a tomar conta de seu crânio. Um grito de dor ficou preso em sua garganta, ele sentiu o gosto ferroso de sangue tocar sua boca, um zumbido ecoou por seu ouvido seguido da dor mais angustiante que ele já experimentara em toda a sua vida, não demorou para sentir o sangue quente escorrendo por seu ouvido.
E então tudo começou a ir embora.


II

Quando acordou suas mãos estavam em torno de sua cabeça, lágrimas corriam por seu rosto e os resquícios daquela dor intensa ainda estavam por ali. Mas, conforme ela respirava, conforme observava o ambiente ao seu redor e percebia onde estava, a dor ia se dissipando.
Os olhos de varreram o quarto, a cama do outro lado do cômodo estava vazia. Alexis já havia acordado e agradeceu por isso. Não queria que a amiga tivesse ouvido seus gritos, porque não queria explicar o que eles significavam, e sabia bem o que aquilo era.
Não era um sonho, era uma memória.
No entanto, não era uma memória dela, a frase que ela ouviu ser repetida tantas vezes deixava bem claro a quem aquela memória pertencia.
Sargento James Barnes, 107ª Infantaria… repetiu em um sussurro.
Ela havia acabado de ver a primeira vez em que tentaram quebrá-lo.

III

— Como foi ontem? — Alexis perguntou enquanto entrava na cozinha.
ponderou o quanto deveria contar para a amiga, enquanto ela sentava-se à mesa de frente para ela e enchia um copo com suco de laranja.
— Foi mais complicado do que eu esperava — confessou — Ele… — as imagens daquela memória que apareceu enquanto ela dormia preencheram sua mente — Ele passou por algumas… bem… por muitas coisas bem terríveis. As memórias dele estão uma bagunça, e eu até posso lidar com isso, mas, as emoções dele estão bagunçadas também e isso eu não posso controlar. — ela voltou a bebericar o suco — Queria que eles estivessem aqui, poderíamos lidar melhor com isso juntos.
— Não! — Alexis a repreendeu, batendo na mesa, sua voz se tornando autoritária — , prometemos não falar sobre isso.
— Qual é, Lexis. Não é como se falar sobre eles fosse mau agouro.
, você sabe melhor do que ninguém, sempre somos atraídos uns para os outros, sempre acabamos nos encontrando mesmo que queiramos nos separar e você sabe o que acontece quando ficamos juntos.
A garota desviou o olhar, para Alexis era fácil falar aquilo. Sempre fora mais difícil para .
— Nós não falamos sobre eles desde o cativeiro e tem funcionado. Vamos continuar assim.
concordou com a cabeça, mesmo que sua expressão contrariasse aquilo. A garota observou o pedaço de torta intocado à sua frente e tomou o que ainda restava de suco em seu copo, decidindo deixar a torta para mais tarde. De repente, ela havia perdido a fome.

IV

Aquele era outro dia quente, mas, uma brisa suave ajudava a diminuir o calor. prendeu seus cabelos em um rabo de cavalo e decidiu ir até o terraço do prédio, onde havia um enorme jardim. acreditava que talvez um pouco de ar fresco a ajudasse a encontrar uma forma de ajudar Bucky.
E como que por ironia do destino, foi exatamente lá que ela o encontrou. sabia que ele havia se mudado para o prédio onde ela vivia, mas, não esperava vê-lo fora do quarto tão cedo.
Na verdade, ela ainda não se sentia pronta para vê-lo.
Bucky estava parado na borda do terraço, próximo à coluna de proteção. Ele não vestia mais a camiseta e a calça branca do dia anterior, agora ele usava uma túnica azul, parecida com a que vira alguns homens em Wakanda usarem.
Ele parecia imerso em seus pensamentos, e ela se perguntou o que estaria passando por sua cabeça naquele momento, mas, de certa forma já sabia a resposta.
— Barnes — ela chamou ao se aproximar dele.
Bucky se virou rapidamente, assustado.
— Acho que me cobrei pelo susto de ontem, não é? — brincou .
Ele sorriu, e aquilo foi o suficiente para ela.
— Você pode me chamar de Bucky, sabia? — disse ele em tom brincalhão.
Ela deu os ombros.
— Eu gosto de chamar as pessoas pelo sobrenome — confessou — De alguma forma muito estranha, faz eu me sentir mais confiante.
— De fato é estranho, — retrucou ele.
fez uma careta.
— Não… É estranho quando me chamam pelo meu sobrenome, só está ótimo.
— Só Bucky está ótimo — rebateu ele.
sorriu e ele sorriu de volta para ela.
Bom, dois sorrisos em menos de cinco minutos… Aquele deveria ser um bom sinal, não é?
Mas, tão rápido quando surgiu, o sorriso desapareceu, e logo aquela expressão, um misto de tristeza e decepção voltou a tomar conta do rosto dele.
— Eu sinto muito por ontem — pediu ele, desviando o olhar dela e voltando a encarar as ruas que se estendiam lá em baixo.
— Não foi culpa sua, Bucky, eu me distraí — admitiu ela, e aquela era a verdade.
Alguma coisa — ela era incapaz de lembrar o quê — havia tomado sua atenção, fazendo-a perder o controle.
— Não devemos fazer aquilo de novo — disse Bucky — Não vai ser diferente.
— Vai — assegurou, confiante.
Os olhos dele encontraram os dela, como se avaliassem se ela estava mentindo.
— Noite passada — começou ela — Eu filtrei e organizei algumas das memórias que eu absorvi de você e… talvez se trabalharmos em cima delas primeiro, eu consiga ir mais a fundo e manipular as memórias mais profundas também.
— E se acontecer de novo? — perguntou preocupado.
— Eu desisto, como prometi — respondeu — E você volta a hibernar até encontrarem uma alternativa.
Ele não respondeu, somente desviou o olhar dela novamente, mas, dessa vez observando as pequenas flores coloridas que cresciam sobre a coluna de proteção.
Os dois ficaram em silêncio por alguns minutos. ponderou se era hora de falar sobre o assunto que estava preso em sua mente, mas, no fundo ela sabia que não haveria momento certo para aquela conversa e no fim das contas, para que ele conseguisse encontrar motivação outra vez, ela precisava mostrar aquilo.
— Posso te mostrar uma coisa? — pediu ela.
Bucky a encarou em silêncio por alguns segundos, e quando ela já achava que ele iria negar, ele balançou a cabeça concordando.
Eles ficaram de frente um para o outro, e então estendeu sua mão em direção ao rosto de Bucky. Quando seus dedos tocaram a pele dele, seus olhos se fecharam, e ela o guiou para a lembrança que queria mostrar.
Aquela memória não tinha mais que cinco segundos, eram somente algumas imagens que poderiam parecer desconexas, mas que contavam uma história que era importante e que ele não deveria esquecer. A lembrança mostrava um Bucky e um Steve bem mais jovens, provavelmente com seus 13 anos, em um bairro de Manhattan que reconheceu como o Hell's Kitchen.
Quando afastou sua mão e abriu seus olhos, Bucky sorriu. Não aquele sorriso que ela havia visto até então, era um sorriso sincero, um sorriso da mais intensa e verdadeira felicidade.
— Ele é importante pra você, não é? — indagou ela, sem conseguir evitar sorrir para ele.
Bucky desviou o olhar, seu sorriso aumentando, como se ele estivesse se lembrando de tudo o que já havia passado ao lado do amigo.
— Mais do que importante, ele é tudo pra mim.
sorriu.
Steve havia contado toda a história dos dois para ela e a garota tinha certeza de que nunca vira uma amizade tão forte e verdadeira quanto a dos dois.
Mas, seu sorriso diminuiu quando ela lembrou o que estava prestes a fazer.
A outra memória que ela havia recuperado não era boa, na verdade, iria destruir toda a felicidade que ele estava sentindo naquele momento e ela se odiava por ter que fazer isso, mas, era necessário.
— Bucky, eu… — ela tentou escolher as melhores palavras, como se pudesse diminuir o peso daquela lembrança com isso — Eu recuperei algumas memórias do que… — ela suspirou, tomando coragem para falar tudo de uma vez — Do que aconteceu em Washington, depois que você salvou o Steve do Rio Potomac e… — ela encarou os olhos dele, vendo a tristeza os encobrir como uma sombra, seu sorriso diminuiu e ela tinha certeza que ele sabia onde ela iria chegar — Eu sei o que você pensou — disse ela por fim — Eu sei o que você queria fazer.
A expressão dele se tornou séria. Ela podia ver um tom rubro tomando conta de seus olhos e aquele brilho que indicava que lágrimas estavam se formando. O olhar dele deixava claro que ele não se orgulhava daquela decisão: Suicídio.
Aquela era a palavra que ela não ousaria dizer em voz alta, pois, sabia que era uma das coisas que mais o machucava.
segurou a mão dele, esperando confortá-lo.
— Eu sei que naquele momento parecia a melhor coisa a ser feita — disse ela, Bucky desviou o olhar como se sentisse vergonha por ela saber daquilo, mas, ela depositou um pequeno carinho com o polegar em sua mão, deixando claro que estava ali por ele e que não iria julgá-lo por aquela decisão — Você não se lembrava de nada, não tinha ninguém, sabia o que o Soldado Invernal tinha feito e que ele ainda estava lá, escondido dentro de você. Você achou que aquilo resolveria tudo, mas, não o fez. E por um único motivo…
— Steve — completou Bucky, voltando a fitar os olhos de .
— Ele te motivou a ir em frente, a ir até aquele museu descobrir quem você era de verdade, a tentar levar uma vida normal, a tentar recuperar suas memórias… — disse de uma vez — E eu preciso que você encontre essa força de vontade de novo — pediu — Nós podemos destruir o Soldado Invernal, mas, eu preciso que você encontre motivação para isso, precisamos de algo que canalize tudo o que você sente, tudo o que você passou, se você tiver foco, eu consigo fazer meu trabalho — assegurou — Bucky, a Hydra precisava de dez palavras para te transformar no Soldado Invernal e… — ela tentou sorrir — Por ironia do destino, o Steve precisou igualmente de dez palavras para te trazer de volta.
— Porque eu estou com você até o final da linha — completou ele, a sombra em seus olhos desaparecendo aos poucos.

V

— Você nasceu com essa habilidade de manipular memórias? — Bucky indagou, enquanto ele e caminhavam de volta para o apartamento para mais uma sessão de terapia.
— Acho que sim — deu os ombros — Eu só fui descobrir que isso era uma "habilidade especial" — ela fez aspas com os dedos — Quando me contaram, até então eu achava que as pessoas ao meu redor tinham problemas de memória — ela riu — Eu jamais iria imaginar que era eu quem estava apagando as memórias delas sem querer.
— Sem querer? — provocou Bucky.
balançou a cabeça sorrindo.
— Confesso que algumas vezes, principalmente quando eu aprontava na escola, eu desejava que eles esquecessem o que havia acontecido.
— E quando eles esqueciam? Você não achava estranho? — indagou Bucky.
— Era assustador — admitiu arregalando os olhos — E confesso que as minhas memórias da infância são bem confusas por conta disso. Eu era uma criança com uma imaginação muito fértil, então, eu não sei o que era real, o que era minha imaginação… Porque quando eu converso com alguém que fez parte da minha infância, conto uma história dessa época e a pessoa não lembra, eu fico me perguntando se aquilo de fato aconteceu e eu apaguei da memória dela ou se era só minha imaginação.
— Você deve ter sido uma criança terrível — Bucky comentou rindo.
— Acredite, eu era — ela afirmou — Mas, e você Barnes? Como foi crescer no século passado?
— Bucky — insistiu ele — E tenho certeza de que você vai ver isso com seus próprios olhos. Agora, por que não me conta mais sobre você? Você sabe tanta coisa sobre mim e eu só sei o teu nome e que você tem poderes estranhos.
— Tudo bem, Bucky — disse, enfatizando o apelido — O que você quer saber?
— De onde você é? Como veio parar em Wakanda? E principalmente: por que eu tenho a impressão de que já te conheço?
— Muito bem: eu já morei em vários lugares, mais do que eu consigo lembrar, estou refugiada aqui e eu não faço ideia do que você está falando, porque eu nunca vi você antes — falou de uma vez.
— Não são as respostas que eu queria.
— Não temos tempo para as respostas que você quer, Bucky e elas não são importantes.
Ele bufou, desapontado e sorriu.
— Sério, não tem nada interessante sobre minha história.
E antes que ele pudesse discordar eles chegaram ao apartamento e acelerou o passo, deixando Bucky para trás.

VI

— Se concentre. Lembre-se do que eu falei: Foco. — pediu .
Ela e Bucky estavam sentados um de frente para o outro, como no dia anterior. segurava a mão dele entre as suas, fazendo o mesmo procedimento de relaxamento que ela esperava que funcionasse naquele momento.
— Pronto? — perguntou, sem ter certeza se ela mesma estava pronta.
— Pronto.
E então ela levou suas mãos até a cabeça dele, fechou os olhos e se preparou para outra torrente de memórias. E elas vieram aos montes, mas, dessa vez de uma forma mais calma.
Era como estar em uma exposição de arte, haviam quadros por todos os lados, cada um com uma lembrança, mas, ao invés de escolher, se permitiu levar, e no automático, acabou chegando a uma memória bem antiga.
— Onde estamos? — perguntou ela a Bucky.
— Eu não sei — respondeu ele.
Como ela havia mencionado, quando não se estava manipulando uma memória ela era vista de fora, como se eles fossem fantasmas caminhando pela cena. E naquele momento ela e Bucky estavam parados observando um rapaz no balcão de um bar, ele tinha cabelos curtos e usava roupas típicas da década de 40, haviam várias garotas ao redor dele, mas, ele não dava atenção a nenhuma delas.
— Esse é você? — perguntou , Bucky confirmou — Você era bem diferente sem a barba e com o cabelo curto — observou ela.
— Bom, eu tinha os dois braços nessa época, acho que essa é a maior diferença — comentou ele com bom humor.
riu, balançando a cabeça em desaprovação.
— Eu não acredito que você está fazendo piada com isso, Barnes.
Mas, de repente ele se tornou mais sério:
— Acho que eu reconheço esse lugar — comentou — É um bar que ficava perto de onde eu morava, eu costumava vir aqui toda semana.
— Isso já é um começo, mas, estamos nessa lembrança porque alguma coisa importante aconteceu aqui. Consegue se lembrar o quê?
Bucky ponderou por alguns minutos.
— Eu não consigo lembrar — disse por fim.
— Tudo bem, vamos por partes, me diga o que está acontecendo ao teu redor? Tem alguém falando alguma coisa? Tem música tocando?
— Tem música tocando — Bucky observou — Não tem muita conversa, só essas garotas que não ficam quietas — ele falou impaciente — Se elas parassem de falar eu reconheceria a música.
— O que elas estão dizendo? — perguntou .
— Eu não sei, eu não estou prestando atenção.
— Você está prestando atenção no que então? — insistiu ela.
Ele voltou a ficar em silêncio, mas, então algo lhe ocorreu.
— Nela! — exclamou — Na garota sentada na mesa perto da janela.
encarou o local para onde a atenção dele havia se desviado.
— Quem é ela? — questionou .
— Eu não sei, eu não consigo ver o rosto dela direito, está embaçado — reclamou ele.
— Isso é normal, nossas lembranças não costumam guardar detalhes, principalmente quando são tão antigas assim, mas, geralmente conseguimos deduzir quem é a pessoa. Você tem um palpite?
— Eu não sei — Bucky repetiu — Eu sinto que conheço ela que já a vi em algum lugar, mas… Não consigo lembrar onde.
— Preste atenção nos detalhes, o que tem sobre a mesa onde ela está sentada?
— Folhas — respondeu ele sem hesitar — São desenhos, eu acho que ela desenhava… Eu não consigo lembrar.
— O que ela está desenhando, Barnes?
Barnes.
Naquele momento foi como se o tempo parasse para os dois. Por um segundo nada aconteceu, a sensação de que se está prestes a lembrar de alguma coisa, uma coisa que estava óbvia desde o início tomou conta deles.
Mas, então a chuva de lembranças veio de uma vez só:
"Não é educado ignorar os outros, sabia?"
"Eu estou ocupada"
"Você é bem talentosa"
"Poderia me dar licença para eu terminar?"
"Eu sou Bucky Barnes."
"Todo mundo sabe quem é você, Barnes."
Barnes.
"Eu gosto de chamar as pessoas pelo sobrenome, de alguma forma muito estranha, faz eu me sentir mais confiante."
Não podia ser.
"O meu nome é ."
Era impossível, mas, como poderia se não estava mais vendo a memória pelos olhos de Bucky? Como ela poderia ver tudo aquilo através da garota? Por que ela estava vendo aquela lembrança como se fosse sua?
Talvez ela fosse.
afastou as mãos de Bucky e então eles estavam de volta à sala em Wakanda. Seus olhares se encontraram. A surpresa, a confusão e o pavor se mesclando em suas expressões.
— Como isso é possível? — sussurrou ela.
— Você estava mentindo, parece que a tua história é muito interessante.


Até aqui betada por: Juliana.

Cada Prece é Aceita

"Novamente,
Isto não pode acontecer novamente,
Isso é uma vez na vida
Esta é a emoção divina.
O importante querido é que isso não aconteça novamente,
Nós vamos ter este momento para sempre
Mas nunca, nunca mais"

Again, Doris Day


— Isso é impossível — murmurou , mais para si mesma do que para Bucky que permanecia na cadeira enquanto ela andava de um lado para o outro na sala.
— Não, não é. Você mesma viu, era você eu tenho certeza.
— Bucky, como poderia ser eu? — indagou ela impaciente — Eu tenho muita certeza que eu nasci nos anos 90.
— Mas, era você — insistiu Bucky — A garota era igual a você, o rosto, o cabelo, a forma de falar…
— Eu não sei o que aconteceu, mas, Bucky, isso não está certo, não tem como isso ser real, você… Você tem outras memórias com ela?
— Isso é que é estranho, antes eu não me lembrava de nada, mas, agora as lembranças com ela continuam vindo à tona como se sempre estivessem estado lá.
fechou os olhos, inspirou fundo e tentou encontrar uma explicação lógica para aquilo, mas, era impossível. Aquilo era surreal demais até mesmo para ela, e se ela queria respostas, teria que ir mais a fundo e busca-las.
— Tudo bem, qual era o nome dela? — perguntou, mesmo que já soubesse a resposta.
. — respondeu Bucky.
A garota fechou os olhos, como se houvesse levado um soco no estômago.
— Isso é impossível — sussurrou outra vez — Você lembra o sobrenome dela? — indagou voltando a fitar Bucky.
— Brandon, se eu não me engano.
— Está vendo? é um nome bem comum, qualquer garota nos anos 40 poderia se chamar , não é? — perguntou otimista.
Bucky a encarou com a sobrancelha levantada. "Você realmente acredita nisso?" era o que aquele olhar queria dizer.
— Eu sei, não pode ser só coincidência — admitiu — O que mais você lembra dela?
— Não muita coisa — respondeu Bucky — As memórias estão voltando, mas, devagar. O que eu consigo lembrar é que ela trabalhava com uma estilista francesa que ela odiava, era boa desenhando, gostava de dançar e… — ele hesitou.
— E o quê, Barnes? — insistiu sentindo o pânico que ela estava tentando dominar crescer dentro de si.
Bucky suspirou, fazendo uma careta como se aquela informação não fosse importante.
— Era minha namorada. — concluiu por fim.
A boca de fez um 'O' perfeito, e ela o encarou com uma expressão confusa.
—Você só pode estar brincando — falou pausadamente.
Bucky deu os ombros como se não tivesse culpa sobre aquilo.
— Mas, isso prova algumas coisas — concluiu — Eu nunca tive interesse por moda, desenho muito mal, não sei dançar e…
— Não seria minha namorada? — provocou Bucky.
rolou os olhos.
— Ela é completamente diferente de mim…
— Para de dizer "ela" — pediu Bucky já impaciente — É você , eu não sei como isso é possível, mas, aquela garota é você. É por isso que eu sempre senti que te conhecia de algum lugar…
— Ótimo! — ela exclamou com sarcasmo — Me conhece de uma vida passada?
— Eu não sei como explicar isso, mas…
parou de dar atenção ao que ele falava, de repente a resposta para aquilo tudo se tornou bem clara. Mas, era tão confusa ao mesmo tempo… Ela precisava de respostas, e sabia que poderia encontra-las em um lugar, ou melhor, em alguém.
— Vamos dar uma folga hoje — pediu ela, interrompendo Bucky — Eu acho que sei como descobrir o que é isso, mas, vou precisar de um tempo sozinha. — concluiu saindo da sala em seguida.
Ele não teve tempo de discordar.

II

— Isso é muito estranho — Alexis comentou quando terminou de contar toda a história.
Era início da tarde e as duas estavam no quarto. Alexis sentada em sua cama com as pernas cruzadas e deitada sobre sua própria cama, como se aquela fosse uma sessão de psicanálise.
— Eu sei — concordou ela — Mas, eu vi a memória pelo ponto de vista da garota, ela tinha o mesmo nome que eu e… — ela hesitou.
— E? — incentivou Alexis.
— Tudo o que ele disse, sobre a garota trabalhar com uma estilista, desenhar bem, gostar de dançar… — balançou a cabeça em negação, como se fosse difícil aceitar aquilo — Isso não é estranho pra mim, de alguma forma é como se eu me lembrasse disso.
— Quando você chegou aqui disse que eu era a única que poderia te ajudar. Como eu posso fazer isso? Você não vai pedir para eu usar…
— Não! — assegurou .
Alexis tinha poderes assim como . O dom dela era poder sentir e absorver energias, de pessoas, de animais, basicamente de qualquer coisa que estivesse na natureza. O que de vez em quando era um problema, principalmente com eletrônicos, por absorver muita energia, ela irradiava muita energia e dificilmente algo eletrônico continuaria funcionando com ela por perto. Mas, seu dom por muitas vezes era bem útil. Ela poderia dizer se alguém era bom ou mal somente olhando para essa pessoa, mas, seu dom mais notório era o de conseguir encontrar qualquer coisa seguindo os rastros de energia deixados. Ela já havia ajudado a encontrar pessoas desaparecidas, corpos desovados em lugares onde ninguém poderia encontrar, mas, havia aqueles que tentaram usá-la para encontrar artefatos antigos, riquezas enterradas, e sabia que eles não haviam sido nem um pouco amigáveis com ela. Tratando-a como uma escrava. Por isso, Alexis jurara não usar mais seus poderes, ela temia que tentassem usá-la outra vez.
— Lexis, de todas as pessoas que eu conheço você é a que mais entende de magia e de todas essas coisas sobrenaturais, e aposto que você tem uma teoria pronta na sua cabeça que pode explicar o que aconteceu.
A garota sorriu em resposta.
— Veio até a pessoa certa — Alexis levantou de sua cama e caminhou até a de , sentando de frente para a garota que agora mantinha as costas apoiadas na parede e as pernas esticadas sobre o lençol branco — Como você sabe — começou ela — Minha avó foi uma notória bruxa, ela foi a primeira a descobrir sobre os meus poderes, mesmo que eu nunca houvesse contado sobre eles para ela. Ela era uma mulher muito sábia e sempre me disse que eu deveria ter sido uma bruxa em minhas encarnações passadas, dizem que após muitas vidas praticando magia você acaba renascendo com os poderes que adquiriu nelas, mas, você deve imaginar que eu nunca dei atenção a isso, minha avó tentou me ensinar uns feitiços, mas, eu não levava jeito — ela riu — E depois que eu descobri que havia mais pessoas como eu — apontou para —, eu passei a acreditar menos nas teorias dela.
— Por que eu sinto que tem um "mas," aí? — perguntou .
— Porque tem. — assegurou ela — Minha avó acreditava nessa história de vidas passadas e reencarnações. Algumas pessoas iam até ela para descobrir quem havia sido no passado, e ela me contava algumas dessas histórias. Eu nunca levei a sério, mas, elas eram divertidas de ouvir e havia uma, a minha favorita como eu costumava dizer, que eu lembro até hoje.
ficou em silêncio, esperando que ela continuasse.
— Ela contava a história de um casal que viveu nos anos 20 — começou — Eles eram jovens, apaixonados e planejavam se casar, mas, ela morreu de pneumonia antes que isso acontecesse. O rapaz não conseguiu seguir em frente e acabou tirando a própria vida não muito tempo depois. A história deles ficou inacabada, e não só por não terem conseguido ter a vida juntos que tanto sonhavam, mas, os dois se foram quando ainda eram muito jovens. No entanto, 60 anos depois eles renasceram, ela vivia na Inglaterra, ele na Argentina, não havia chance alguma de eles se encontrarem, mas, quando tinham 17 anos, a mesma idade que tinham quando se conheceram naquela outra vida, uma morte na família a fez ir até a Espanha, onde ele já estava há alguns meses estudando. Os dois se conheceram, se apaixonaram outra vez e tinham aquele sentimento de que já se conheciam, por isso foram até a minha avó, e ela descobriu que aquela era a segunda chance deles.
— É uma história linda — concordou — Mas… Lexis, você realmente acha que foi isso o que aconteceu comigo? Que eu conheci ele nos anos 40, nós nos separamos quando ele foi para a guerra e supostamente morreu e agora eu renasci para que possamos terminar nossa história?
Lexis sorriu, segurando as mãos de entre as suas.
— Parece exatamente o tipo de história que minha avó contaria, mas… — ela deu os ombros — Eu não sou a garota que tem acesso livre às memórias, . Quem pode descobrir isso, quem pode lembrar disso, é você.
E sabia que ela tinha razão.

III

Naquela tarde, decidiu que iria fazer algo que não fazia há muito tempo: vasculhar suas próprias memórias, e se possível, ir atrás de memórias de uma época que ela supostamente nem deveria existir.
Alexis estaria fora. Toda tarde ela ia para um local afastado para meditar, "se eu não fizer isso, fico louca" era o que ela dizia, e conseguia entende-la, se absorver memórias já não era algo tranquilo, ela imaginava como deveria ser sentir a energia de tudo o que passava por ela.
iria fazer algo semelhante, ela sentou na varanda do quarto com as pernas cruzadas, fechou os olhos e começou a pressionar os pontos em sua mão a fim de conseguir se acalmar. Quando começou a aprender a manipular seus poderes, meditação era algo que ela fazia com frequência, mas, conforme o tempo foi passando, ela foi perdendo esse hábito e sentia os efeitos por tê-lo deixado de fazer.
Meditar, no caso dela, era como limpar as memórias que ela havia absorvido naquele dia para que elas não a afetassem, não era como se ela jogasse fora as lembranças, na verdade, uma vez absorvida, a memória ficava pra sempre com ela, mas, conseguia guarda-las. Ela as armazenava em seu subconsciente, escondida o bastante para não causar problemas, mas, à vista o suficiente para que ela pudesse acessar outra vez caso precisasse.
Quando não fazia essa limpeza, as lembranças ficavam livres em sua mente, normalmente aparecendo em seus sonhos, como o que havia acontecido com as memórias de Bucky, mas, ela não tinha planos de armazenar as lembranças dele ainda, não importava quão difíceis elas fossem, ela poderia ver alguma coisa em seus sonhos que não vira quando visitara a memória, e aquela poderia ser a chave para conseguir ajuda-lo.
As mãos de seguiram até sua própria cabeça, seus polegares tocaram suas têmporas e as memórias vieram de uma só vez, como uma retrospectiva de sua vida: as imagens do que acontecera nos últimos dias com Bucky, sua chegada em Wakanda, o cativeiro, sua chegada à África, a despedida de sua família, a última vez que vira seus amigos, e então aquelas lembranças mais dolorosas, o sangue, a dor, o desespero… estava prestes a desistir quando as imagens mudaram para a sua infância e então para uma mancha escura.
Era isso, tinha acabado. Aquela era toda a sua vida, suas memórias mais importantes. Não havia nada antes disso, não tinha uma vida nos anos 40…
Você tem um encontro? — uma voz doce que não conhecia perguntou.
não se lembrava daquela memória, sequer se lembrava daquele lugar ou daquelas pessoas. Mas, era ela. Era o seu reflexo naquele espelho. Ela usava um vestido rosa claro de ombros arredondados, com a cintura marcada e saia reta. Algo que ela jamais imaginaria usar atualmente. As pontas de seus cabelos estavam cacheadas, uma franja ondulada caía suavemente sobre o lado esquerdo de seu rosto enquanto a lateral direita estava presa com grampos. Não havia muita maquiagem em seu rosto, somente um batom vermelho destacando seus lábios.
— Não é um encontro — ouviu seu eu do passado dizer.
Mas, as garotas ao seu redor não estavam muito convencidas disso.
Elas eram três, duas loiras e uma ruiva, e estavam amontadas em cima da cama polindo suas unhas, enquanto tentavam tirar alguma informação de .
— Você está vestida como se fosse um encontro — a ruiva provocou.
rolou os olhos.
— Eu trabalho com uma estilista, é minha obrigação me vestir bem — rebateu.
— Não minta para nós — uma das loiras pediu.
, nós já sabemos que é um encontro, só nos conte com quem você vai sair — pediu a outra.
— Ela nunca sai com ninguém, esse homem deve ser o príncipe encantado para ter convencido ela — a ruiva sussurrou para as outras.
bufou, sabia que suas amigas não a deixariam em paz se não contasse.
— Tudo bem — disse ela, se virando para as amigas com as mãos para o alto como se estivesse se rendendo — Vocês estão certas, é um encontro.
— E quem é ele? — perguntaram elas ansiosas.
— Bucky Barnes — respondeu a antiga , como se não fosse nada demais, se voltando novamente para o espelho.
As outras três ficaram em silêncio, como se estivessem em choque, até que uma das garotas loiras resolveu falar.
— Eu não acredito que você vai sair com o solteiro mais cobiçado daqui.
— Não é pra tanto — pediu rolando os olhos.
— É claro que é! Qualquer uma morreria para sair com o Bucky, e você conseguiu e não nos contou nada — a ruiva protestou — Que tipo de amiga você é?
bufou.
— É só um encontro, nada demais. O Barnes não é o tipo de cara pra mim.

afastou as mãos de sua cabeça e se obrigou a sair daquele transe. Aquilo não poderia ser possível, não havia forma alguma de aquilo ser real, mas, a lembrança recuperada deixava bem claro o oposto disso.
No fim das contas, Bucky tinha razão. A garota de 1940 era ela.

IV

Era o entardecer daquele dia confuso e como sempre fazia quando as coisas se tornavam difíceis demais de suportar, seguiu até o jardim no terraço, e não foi nenhuma surpresa encontrar Bucky lá.
O sol já estava se pondo, e por alguns minutos os dois somente observaram os últimos raios laranja desaparecendo no horizonte.
— Acho que você tinha razão — admitiu ela, por fim.
Bucky a encarou com curiosidade.
— Sobre a garota da tua memória ser eu — explicou — Eu consegui recuperar uma lembrança daquela época, mas, você não está nela, então, não tem como ser sua.
— Pensei que você achasse que isso era impossível.
— E é, mas, uma amiga minha tem uma teoria.
E então ela explicou o que Alexis havia lhe contado.
— Você acredita nisso? — indagou Bucky.
deu os ombros e desviou o olhar dele, observando a borboleta branca que pousava na flor próxima a sua mão.
— Eu não sei direito no que acreditar, mas, essa é a explicação mais plausível até agora.
Bucky balançou a cabeça concordando.
— Sobre o que era a memória que você recuperou? — perguntou ele.
sorriu, lembrando-se da cena, de repente aquilo tudo parecia tão real.
— Ela estava… — corrigiu — Eu estava me arrumando para ir a um encontro com você. Parece que você era o cara mais desejado de todos e minhas amigas insistiam que eu tinha muita sorte em ter conseguido um encontro com você.
Bucky sorriu.
— Tenho certeza que o sortudo era eu.
sentiu suas bochechas esquentarem.
— Mas, a última coisa que eu me lembro de dizer foi: "O Barnes não é o tipo de cara pra mim".
Ele riu, balançando a cabeça em negação.
— Se você de fato era minha namorada, deve ter sido difícil ter te conquistado — comentou ele sorrindo.
— Mas, e você? — perguntou — Conseguiu se lembrar de mais alguma coisa?
— Eu me lembro de ter te levado ao cinema, de termos dançado juntos, de ficarmos até tarde caminhando e conversando sobre qualquer coisa, mas, nada muito significativo.
— Isso não nos dá muitas respostas — comentou.
— Mas, eu falei com o Steve — começou Bucky — Eu perguntei se ele se lembrava de você ou de uma garota com quem eu estava antes de ir para a guerra.
— E o que ele disse?
— Que não se lembra de ninguém, mas… Ele disse ter a mesma sensação de que já te conhecia quando te viu pela primeira vez.
— Isso é muito estranho — sussurrou — Mas, esse não é o nosso foco, precisamos focar nas memórias da Hydra.
— E você acha que eu vou conseguir focar na Hydra quando tem algo tão estranho quanto isso acontecendo? — indagou ele.
— Não é uma opção, Bucky. Me pediram para tirar o Soldado Invernal de você e é o que eu vou fazer…
— Mas, e as nossas memórias? — perguntou ele, a mágoa em sua voz aparente.
E só então ela percebeu o quanto aquilo deveria significar para ele.
Tudo o que havia restado do seu passado era o Steve, mas, agora havia ela, e mesmo que ela só tivesse acesso às memórias, e elas estivessem uma bagunça, ele ainda tinha os sentimentos. Os sentimentos eram os mais difíceis de apagar, eles raramente iam embora, eles poderiam ficar adormecidos por um tempo, mas, quando decidiam voltar eles vinham em sua força máxima.
se virou para Bucky, levou sua mão até o rosto dele depositando um pequeno carinho ali. Ele fechou os olhos e colocou sua mão sobre a dela. E só então, ela percebeu o que estava prestes a fazer. Era aquilo que ela fazia sempre que magoava alguém, sempre que dizia as coisas erradas: ela iria apagar a memória dele, apagar todas as lembranças que havia daquele seu "eu" do passado ali. Seria mais fácil para os dois, mas, não era justo. Bucky já havia perdido tanto, que parecia um ato de crueldade tirar mais alguma coisa dele.
sabia como aquilo terminaria, sabia que no final, para a segurança dele mesmo, ela teria que tomar as lembranças dele onde ela estava presente, ela precisaria apagar-se completamente da memória dele.
E aquilo seria difícil, se tornava cada vez mais difícil, mas, era necessário.
No entanto, por hora, ela se proibiu de pensar naquilo. Ela somente aproveitaria o momento e permitiria que ele aproveitasse também.
No final, pelo menos, ela teria boas lembranças guardadas.

Cada Desejo Atendido

"Os dias tristes acabaram,
Os tempos de depressão se foram.
Cada esperança que eu ansiava há muito tempo, se tornou realidade.
Há muito tempo e muito longe,
Eu sonhei um sonho um dia
E agora esse sonho está aqui ao meu lado."

Long ago and Far away, Jerome Kern

"Missão", aquela era a única palavra que passava pela cabeça de , sendo repetida naquele mesmo tom de voz conhecido por ela.
E ela sabia que estava sonhando com outra memória de Bucky.
A sua visão estava turva, como se ela estivesse vendo a cena passar na janela de um trem. Sua cabeça doía e ela se sentia enjoada, como se ela fosse desmaiar a qualquer segundo, e aquilo somente indicava uma coisa: Aquela não era uma memória fácil de lidar.
"Missão. Missão. Missão."
Aquela palavra continuava se repetindo, como um lembrete, claro como sentir o cano frio de uma arma tocando sua nuca. Ela não conseguia ignorar aquelas palavras, Bucky não conseguiu ignorá-las, da mesma forma que nenhum deles conseguiria ignorar uma arma apontada para sua cabeça.
E podia quase sentir a arma apontada para suas costas.
"Missão".
A voz gritou quando o carro se aproximou, perdendo o controle e indo em direção à árvore fora da estrada, e ela sentiu sua consciência se desligar do corpo.
A consciência de Bucky se desligava aos poucos, ela podia perceber isso, pois a cada segundo a lembrança se tornava mais embaçada. Agora ele estava no modo automático, o Soldado Invernal era quem estava no controle.
"Missão".
A voz repetiu quando ele desceu da moto. E ela podia jurar que ouviu o gatilho da arma em sua nuca ser puxado. E sabia que Bucky sentia o mesmo.
Ele não tinha mais controle sobre o que iria fazer. Ele estava lutando, tentando parar, não queria ir até o fim, sabia o que viria em seguida, sabia o que o Soldado iria fazer, mas, era impossível assumir o controle quando o monstro dentro de si havia tomado as rédeas da situação e decidido. Nada mais importava além de cumprir a missão.
"Missão".
Mesmo que tentasse lutar ele continuou caminhando em direção ao carro.
"Missão".
E então sentiu a arma em sua cabeça… A arma na cabeça de Bucky disparar.
Mas, nada do que ela esperava aconteceu.
Aquilo não fez o Soldado Invernal parar, na verdade só fez com que ele tomasse o controle de vez. A raiva o dominou, o ódio, a sede pela vida dos ocupantes daquele carro… Aquilo era tudo o que importava.
Mas, Bucky ainda estava lá. Preso, acorrentado dentro de sua própria cabeça, gritando para que o Soldado parasse, tentando assumir o controle, mas, já era tarde demais.
Ele só podia assistir, só podia ficar parado vendo o Soldado abrir a porta do carro e puxar o motorista para fora.
"Não!"
Ela ouviu Bucky gritar, mas, o Soldado Invernal gritava mais alto.
"Missão", aquela era a única palavra que importava.
Bucky continuou gritando, tentando tomar o controle outra vez, tentando parar suas próprias mãos, mas, era impossível.
Ele socou o rosto do homem uma vez, e então outra, e outra.
Bucky queria parar, ele gritava dentro de si para que o Soldado parasse, mas, não adiantava, ele estava preso lá dentro e não havia nada que pudesse fazer.
— Socorro… — o homem tentou falar —Minha esposa… Ajude minha esposa.
Mas, o Soldado ignorou suas palavras, puxando-o pelo cabelo, encarando seu rosto coberto por sangue.
E então o reconheceu.
Era Howard Stark, de alguma forma sabia que era ele e isso só tornou tudo pior.
— …Sargento Barnes? — foram suas últimas palavras, antes de seu crânio ser esmagado.
A voz desesperada da mãe de Stark chamando pelo nome do marido foi a última coisa que ouviu antes da memória se apagar.


Ela acordou em pânico. As batidas de seu coração aceleradas, lágrimas se acumulando em seus olhos, soluços presos em sua garganta.
E então ela olhou suas mãos, procurando vestígios de sangue, mas, não havia nada ali. É claro que não havia, era só outra memória, outra lembrança em forma de pesadelo e aquilo a estava destruindo.
Duas semanas se passaram desde que ela começou a tratar Bucky e apesar da melhora dele, as coisas estavam cada vez piores para ela.
Nos últimos dias ela estava tendo insônia, se é que se podia chamar de insônia.
Ela sentia-se exausta, seu corpo implorava por uma boa noite de sono, mas, era impossível fechar os olhos. Ela tinha consciência do que viria quando ela dormisse, as memórias do que o Soldado Invernal havia feito a perturbavam mais que tudo. Mas, quando o cansaço vencia e ela conseguia dormir, aqueles pesadelos apareciam.
Primeiro vieram as torturas da Hydra. Cada vez que ela fechava os olhos a imagem daqueles cientistas aparecia, sempre acompanhadas de uma dor de cabeça insuportável.
Depois vieram as missões do Soldado Invernal. Uma a uma elas se repetiam em sua cabeça. A missão que tirava seu sono naquela noite era a que levara a vida de Howard Stark e sua esposa. Aquela já era a terceira vez que acordava naquela noite, e ainda não eram nem 2 horas da madrugada.
acendeu o abajur ao seu lado e procurou pelo caderno e a caneta no criado mudo ao lado da cama, descrevendo o pesadelo, adicionando mais uma folha a tantas outras com as memórias mais dolorosas de Bucky. E por mais difícil que fosse colocar no papel as memórias que assombravam seu sono, aquilo pelo menos ajudava a aliviar um pouco sua mente.
se questionava como Bucky havia conseguido conviver com aquilo por tanto tempo, ela estava com aquelas memórias há poucos dias e já estava destruída.
Ela não conseguia imaginar como era para Bucky carregar aquilo por todos esses anos. Conseguir viver com aqueles fantasmas em sua mente, mas, aquilo a motivava a tirar aquelas memórias da cabeça dele logo. Ela queria que ele pudesse se livrar da culpa que carregava pelos atos do Soldado Invernal, ela só queria que ele tivesse uma boa noite de sono, porque com aquelas lembranças, ela sabia que ele não dormia bem há muito tempo.

II

estava quase cochilando no sofá quando o barulho da porta sendo aberta a trouxe de volta.
— Bom dia — cumprimentou Bucky enquanto entrava na sala onde ela o esperava para a terapia.
— Bom dia — respondeu bocejando.
— Vejo que não dormiu bem — comentou ele.
— Eu dormi bem sim, isso é só meu corpo sendo preguiçoso — mentiu, não queria que ele tivesse mais uma coisa para se sentir culpado.
— Se quiser podemos adiar a sessão, você parece bem cansada.
— Eu estou tão horrível assim? — indagou em um tom divertido — Nós finalmente estamos fazendo progresso, não vamos parar por causa de uma bobagem.
Ela indicou o espaço vazio no sofá ao seu lado para ele.
— Tem certeza de que está bem? — perguntou Bucky, sentando ao lado dela.
— Tenho — ela mentiu.

III

— Onde estamos? — perguntou ela, assim que acessou uma lembrança de Bucky.
— É a fábrica principal da Hydra, foi aqui que eles nos prenderam depois de nos capturarem durante a guerra — explicou, sua voz trêmula.
E entendia o porquê.
— Foi aqui… — começou ela, sua voz hesitante.
— Foi — ele não permitiu que ela terminasse a frase.
Logo o ambiente ao redor deles se tornou mais nítido, e pôde ver o antigo Bucky deitado sobre uma maca. Seus olhos fechados, hematomas espalhados por seu rosto, repetindo a mesma frase que ela já ouvira tantas vezes em seus pesadelos: James Barnes, 107ª Infantaria.
Bucky segurou o braço de , e ela sentiu que a mão dele estava tremendo. Apesar de estar tentando se controlar, ela sabia que ele estava em pânico, e aquilo não a surpreendia, foi ali que o torturaram pela primeira vez. Foi naquele lugar que Zola o usou como experimento e começou a quebrar sua mente.
— Quer apagar essa memória? — perguntou .
Bucky ponderou por alguns segundos, mas, então negou.
— O Zola está fugindo, é o dia em que o Steve me resgatou. Eu não posso apagar isso.
concordou, e permitiu que a memória continuasse. Não demorou para Steve Rogers aparecer na sala, libertar Bucky e então os dois fugirem.
— Sabe o que é estranho? — perguntou Bucky — Eu não fazia ideia de onde eu estava ou o que havia acontecido, eu só fui me dar conta quando…
E então o momento a que ele se referia surgiu naquela lembrança.
Steve e Bucky estavam parados sobre uma passarela alta, o prédio estava desmoronando, mas, o que tomava sua atenção naquele momento era as duas pessoas do outro lado da passarela: Schmidt e Zola. Mas, os olhos de Bucky não encaravam o Caveira Vermelha, eles estavam presos no cientista que o estivera torturando nas últimas semanas.
— Foi nesse momento que eu lembrei o que ele fez comigo — Bucky confessou, ela nunca havia sentido tanto medo na voz dele — Apague essa parte — pediu ele, desesperado — Por favor.
E ela o fez.

IV

— Você dormiu mal essa noite.
Foi a primeira coisa que Bucky disse quando chegou para a sessão na manhã do dia seguinte, e claramente não era uma pergunta.
— Eu estou bem. — afirmou ela.
Mas, era óbvio que não estava.
Seu rosto parecia cansado, olheiras profundas se formavam sob seus olhos e ela parecia menos atenta e animada do que costumava ser.
— Eu sei o que está acontecendo — disse Bucky, quando ela sentou na poltrona em frente ao sofá — E não posso permitir que continue assim.
suspirou, não queria vê-lo se culpando por mais uma coisa.
— Bucky, não é…
— Não diga que não é culpa minha — pediu com a voz autoritária — Eu sei que é.
E ouvir a mágoa na voz dele a destruiu.
— Foi uma escolha minha Bucky.
— Mas, foi a escolha errada — rebateu ele — Os pesadelos que eu deveria estar tendo, eles estão todos com você e eu sei o que eles fizeram comigo, por isso sei o que estão fazendo com você.
— O que eles estão fazendo comigo não é nada perto do que fizeram com você — assegurou — Confie em mim, eu sei o que eu estou fazendo e eu posso suportar isso… Você não.
Ele não respondeu.
E não fez questão de quebrar o silêncio, sabia que ele estava ponderando, tentando encontrar um argumento que fizesse ela desistir, e antes que ele encontrasse um ela decidiu falar.
— Eu tenho uma teoria — havia um sorriso travesso em seu rosto.
Bucky levantou o olhar e o sustentou nela por alguns segundos.
— Sobre nosso passado? — perguntou ele.
E aquela famosa sensação de borboletas no estômago surgiu nela ao ouvir "nosso passado". Eles não haviam falado muito sobre aquilo nos últimos dias e não se esforçou para trazer outras memórias à tona, o foco deles estava nas memórias relacionadas à Hydra, aquilo poderia esperar.
balançou a cabeça negando.
— Uma teoria sobre você.
Bucky levantou as sobrancelhas, incentivando-a a continuar falando.
— Você tem medo de altura — disse ela de uma vez.
A expressão de Bucky mudou para espanto, como se ela houvesse descoberto seu maior segredo. O que de certa forma era exatamente o que estava acontecendo.
— Eu não… Por que… Por que você acha isso? — ele gaguejou, o que só a fez ter certeza de que estava certa.
— Eu estava pensando naquelas lembranças do dia em que você teve que saltar no trem que carregava o Zola, e nas lembranças de quando o Steve te resgatou na fábrica da Hydra e vocês estavam naquela plataforma alta… — explicou — Você estava em pânico, Bucky — ela se inclinou na direção dele — Eu vi o medo nos seus olhos. Qualquer um era capaz de ver a tua expressão de pavor, mas, você jamais admitiria que tinha medo, e sabe por quê?
— Me diga você.
— Steve. — concluiu ela, se recostando na poltrona outra vez — Você sempre quis parecer forte pra ele, afinal, você era a sua grande inspiração: Três vezes campeão de boxe, corajoso, valente, sem medo de nada, mas… Nós dois sabemos que essa não era a verdade — completou semicerrando os olhos.
Bucky também se recostou no sofá, cruzando os braços, indicando que estava ouvindo o que ela tinha a dizer.
— Você tinha medo, Bucky. Não só de altura, você tinha medo de ir para a guerra. Você não queria ir, mas, tentou parecer confiante para o Steve porque aquele era o sonho dele e você era a sua grande inspiração, você não queria decepcioná-lo, não queria parecer fraco, mas… — ela fez uma pausa.
— Mas?
— Eu não sou o Steve, Bucky. — o tom de voz dela se tornou mais urgente — Você não precisa ser forte o tempo todo quando está comigo, você não precisa agir como se suportasse tudo, porque eu sei que você não suporta. Você tem medos, Bucky. Eu tenho medos, o Steve tem medos, e é isso o que nos torna humanos, então, pare de tentar carregar o peso do mundo nas suas costas — pediu ela, se inclinando na direção dele outra vez.
— Então eu deveria jogar o peso para cima de você?
— Você deveria permitir que eu te ajudasse a carrega-lo, Bucky — ela olhava fundo nos olhos claros dele, sabendo quanta dor eles estavam escondendo. — Eu sou mais forte do que pareço, e em algumas semanas essas memórias vão ter ido embora, o Soldado Invernal vai desaparecer, então, eu acho que vale a pena suportar mais um pouco.
— Isso não é certo, você não deveria sofrer por minha causa — ele ainda estava relutante.
— Bucky — ela chamou — Se o que a minha amiga disse estiver certo, se… — ela balançou a cabeça, ainda era difícil acreditar naquilo — Se nós nos conhecemos em uma vida passada minha, eu devo ter voltado agora por uma razão e… — ela sorriu com o canto da boca — Eu tenho exatamente o dom necessário para ajudar você, isso não pode ser só coincidência, então, pare de tentar me impedir de fazer aquilo que eu vim fazer.
Bucky suspirou, desviando o olhar dela. Por um momento achou que ele iria discordar, mas, ele não o fez.
— Promete que se ficar difícil demais para você suportar, você vai falar comigo?
balançou a cabeça concordando.
— Prometo — mas, aquela era só outra mentira.

V

Algumas horas mais tarde, estava no corredor do prédio, caminhando ao lado do rei de Wakanda, enquanto ele lhe dava péssimas notícias.
— Estamos fazendo todo o possível, mas, ainda não encontramos nada — disse T'Challa.
não conseguiu evitar a expressão de desapontamento em seu rosto.
— Nós aprendemos a nos esconder bem — disse ela, forçando um bom humor, mesmo que aquilo estivesse a corroendo — Mas, obrigada por tudo.
— Nós vamos encontra-lo — assegurou ele.
E ela confiava em T'Challa, mas, sabia que não iria ser fácil acha-lo.
— E aqui está o que eu havia prometido — disse ele, estendendo uma mochila preta para ela — Espero que possa ajudar.
sorriu, agradecida.
— Com certeza vai…
Mas, então, eles encontraram Bucky saindo de seu quarto, e ela se calou. esperava que ele não tivesse ouvido toda a conversa. Não estava pronta para explicar aquilo ainda.
Ele e T'Challa se cumprimentaram, o rei de Wakanda fez algumas perguntas sobre como ele estava se sentindo e como estava sendo a hospedagem em Wakanda, e então seguiu seu caminho até o elevador, onde duas Dora Milaje o aguardavam.
— Pronto para a sessão? — perguntou , colocando a mochila nas costas, não dando espaço para ele questionar.
Bucky concordou, mas, ela tinha certeza que ele faria perguntas mais tarde.

VI

— Sobre o que estava falando com o T'Challa? — Bucky não esperou sequer ela fechar a porta da sala para perguntar.
— Há alguns dias eu pedi uma coisa para ele, e hoje ele veio me entregar — aquilo não era uma total mentira, ela só estava contando metade dos fatos.
tirou a mochila das costas e a estendeu na direção dele.
Por alguns segundos Bucky encarou a mochila preta atônito, sabia que ele havia reconhecido, e então seus olhos se desviaram para ela. E ele sorriu, o que instantaneamente fez com que ela sorrisse também.
— Como…Como você? — ele era incapaz de formular uma frase concreta, tamanha era sua empolgação.
— Eu vi nas suas memórias que a mochila era importante e quando falei com T'Challa, ele disse que conseguia recuperá-la.
Bucky ainda estava extasiado quando sentou no sofá, abriu a mochila e começou a vasculhar seu interior.
Aquela era a mochila que ele escondia sob o chão do apartamento em Bucareste na Romênia, a única coisa que ele levara quando fugiu de lá, mas, que a polícia pegou mais tarde.
— Eles estão todos aqui — disse ele animado, como uma criança que acaba de desembrulhar um presente na manhã de Natal.
O que estava naquela mochila nada mais era que um monte de cadernos, contendo anotações e fotos de tudo o que Bucky conseguia se lembrar, de todas as informações que ele havia conseguido no museu. Os cadernos eram a garantia de que ele conseguiria lembrar, não importa quanto tempo passasse, ou para onde ele fosse. Bucky tinha medo de esquecer de novo.
— Você é incrível! — disse ele, nunca o vira tão feliz.
E então ele veio em sua direção e a envolveu em um abraço.
Naquele momento, a sala branca desapareceu, sendo substituída por um salão de baile como aqueles que costumava ver nos filmes antigos que assistia.
Ela não usava mais o vestido roxo wakandano, ela estava em um vestido azul típico dos anos 40. Uma mão sua estava apoiada no ombro de um rapaz alto que usava um terno preto, ele segurava sua outra mão e os dois se movimentavam em um ritmo lento, acompanhando a música It's Magic de Doris Day que tocava ao fundo.
Ela não precisava olhar para o rosto do rapaz para saber quem ele era.
— When in my heart I know the magic is my love for you — cantarolou ela — Essa é provavelmente minha música favorita.
— Todas as músicas são suas favoritas — provocou Bucky.
A garota sorriu, encostando sua cabeça no peito dele, fechando os olhos e ignorando todos os problemas que tinha. Ela só queria aproveitar o momento.
— Há quanto tempo estamos juntos, mesmo? — perguntou ele.
A garota deu os ombros.
— Você é quem costuma lembrar de detalhes, mas, acho que já faz quase um ano, certo?
Bucky sorriu.
— Irá fazer um ano semana que vem.
— Está vendo, eu quase acertei — murmurou ela.
— Eu fico me perguntando o que teria acontecido se eu não tivesse criado coragem para ir falar com você aquele dia no bar.
ficou em silêncio por alguns segundos. Um riso nasalado antes de falar já indicava que ela tinha uma boa resposta:
— Acho que você ainda teria todas aquelas garotas aos seus pés e eu teria encontrado um marido decente.
Bucky a afastou, somente para olhar em seus olhos com decepção.
— Está dizendo que não sou decente? — fingiu um tom ofendido.
— Estou dizendo que não é meu marido — devolveu ela, voltando a encostar sua cabeça nele.
— Uma vez você me disse que não pensava em casar — lembrou Bucky.
— Eu ainda não sei se estou pronta, mas, é estranho ver todas as minhas amigas casadas e ser a única solteira. Além disso, morar sozinha naquele apartamento tem sido um pesadelo, eu nunca pensei que sentiria falta daquelas três garotas barulhentas. — explicou rindo.
— Talvez possamos fazer isso em breve — disse ele — Quando as condições melhorarem, talvez até lá você esteja pronta. — ela sentiu os batimentos dele se tornando mais intensos, como se ele estivesse criando coragem para falar algo importante — Eu amo você , muito.
fechou os olhos, sentindo seu próprio coração acelerar. Era a primeira vez que ele dizia que a amava.
Ela se afastou dele outra vez, seus olhos indo de encontro aos dele.
— Essa é uma péssima decisão — brincou.
— Não é mais algo que eu posso controlar.
sorriu.
— Eu também amo você.
E então ele segurou o queixo dela, aproximando seus rostos, e quando seus lábios se tocaram, foi como se estivessem se beijando pela primeira vez de novo.

Quando abriu os olhos e voltou para a realidade, ainda podia sentir o toque dos lábios dele sobre os seus, mesmo que não houvesse acontecido de fato. De alguma forma estranha, ela queria beijá-lo outra vez, dessa vez de verdade.
— Você viu isso? — Bucky perguntou com a voz trêmula, afastando-se dela.
balançou a cabeça, ainda surpresa demais para falar.
— Isso parece tão estranho, mas, ao mesmo tempo tão… — ele pensou na palavra certa.
— Real. — ela completou — Ainda estávamos juntos quando você foi pra guerra?
Bucky balançou a cabeça, como se estivesse tentando lembrar.
— Eu não sei... O estranho é que eu me lembro de ter saído com outra garota, uma noite antes de ir para a Inglaterra. — respondeu ele.
— Você não valia nada, Barnes — provocou.
— Ei! — ele soou ofendido — Eu não faria algo assim com você, nós provavelmente terminamos antes disso.
— Então, quando terminamos? Por que terminamos? O que aconteceu para a nossa história ficar inacabada e o universo me mandar aqui de novo? — perguntou apressadamente.
— Só tem um jeito de descobrir — ele lançou um olhar sugestivo pra ela.
— Não, Bucky, eu não vou vasculhar as tuas memórias atrás disso, nós precisamos focar na Hydra — disse ela, começando a mexer no bracelete de contas em seu pulso.
— Eu não estava falando sobre as minhas memórias, estou falando sobre as tuas, e não são nem as memórias dos anos 40…
— Então, quais são? — perguntou ela, impaciente.
— As memórias de agora, a tua história que você insiste em esconder de mim, talvez a resposta esteja lá.
— Não tem nenhuma resposta lá, Bucky. — ela assegurou.
— E se tiver? E se você não conseguiu perceber? Talvez se contar pra mim…
— Não vai ajudar em nada — ela o interrompeu — Isso está no passado, Bucky. E agora, no presente, eu preciso te curar, nós estamos ficando sem tempo.
Ele o encarou com confusão.
— O que você quer dizer?
fechou seus olhos, sentindo uma pontada de dor atravessar sua cabeça. Ela havia falado demais outra vez.
— Eu não vou ficar em Wakanda pra sempre e… — ela passou a mão pelo rosto, nervosamente — Nem você vai.
— Pare de mentir pra mim — ele pediu — Você ainda é a mesma de 70 anos atrás, acha que eu não percebo quando está mentindo? Não tente me enganar.
A respiração de se tornou mais pesada, como se ela estivesse prestes a ter um ataque de pânico e naquele momento ela soube que não poderia mais mentir para ele.
— Tudo bem, acho que está na hora de você saber a verdade.

Esquecendo o Mundo e Pelo Mundo Sendo Esquecida

"Diga-me que é verdade
Diga-me que você concorda
Eu fui feito pra você
Você foi feita para mim."

Dearly Beloved, Rita Hayworth


e Bucky estavam no terraço outra vez, no mesmo local costumeiro, de onde podiam sentir o aroma das flores e ver a cidade lá em baixo. E apesar do sol forte, as cores das flores naquele dia não pareciam tão intensas, ou talvez fosse só o humor dela que fazia tudo ao seu redor parecer mais melancólico.
— Existem outros como eu — começou a explicar.
Ela havia mentido tantas vezes sobre aquilo que era até mesmo estranho ouvir a verdade saindo de sua boca, mas, pela primeira vez ela sentia-se confortável para contar a verdade.
— Outros cinco, na realidade — completou
— Eles podem manipular memórias como você? — perguntou Bucky.
negou, encarando o bracelete em seu pulso enquanto tentava lembrar, ela não havia pensado neles durante um longo período, e as lembranças que ela tinha com eles começavam a se tornar nubladas.
Era engraçado, ela havia convivido com eles por tanto tempo, e… bom, ela era a "garota das memórias", como sempre a chamaram. Era sua obrigação conseguir lembrar-se de tudo, mas, depois de tanto tempo contando mentiras, você passa a acreditar nelas e esquece o que de fato aconteceu.
— Cada um de nós possuía uma habilidade — explicou — Assim como eu consigo manipular memórias, havia uma delas, a Alison, que conseguia curar danos físicos usando somente a própria energia, a irmã dela, Alexis, que veio pra Wakanda comigo, conseguia sentir as energias emitidas por outras pessoas ou qualquer ser da natureza, ela já encontrou algumas coisas bem estranhas enterradas em lugares mais estranhos ainda — comentou rindo — Também tinha essa menina, Luna, que conseguia duplicar a sua imagem, ela literalmente se transformava em duas pessoas. Mas, nada era tão estranho quanto o Joe, o menino que conseguia sair do corpo somente com sua consciência, ele chamava de projeção astral, mas, aquilo me deixava em pânico — a expressão de pavor nos olhos dela fizeram Bucky rir, e era bom vê-lo rindo depois de tanto tempo, ele tinha o sorriso mais sincero que ela já vira — Mas, o que me dava mais medo era Luke, o menino que conseguia prever o futuro.
— Com alguém que se dividia em dois e outro que saía do corpo, você tinha mais medo do que era vidente? —indagou Bucky.
Ela sorriu, dando os ombros.
— Eu sei, é estranho, mas… Quando você sabe o que vai acontecer no futuro você tenta de todas as formas impedir que ele aconteça — e ela entendia aquilo melhor do que ninguém — Mas, muitas vezes, é tentando evita-lo que você acaba encontrando o caminho até ele — explicou, seu tom de voz de repente se tornando sombrio.
— Ele previu algo ruim pra você?
fechou os olhos, lembrando-se das palavras dele, da certeza com a qual ele havia lhe avisado sobre aquilo, então as lágrimas começaram a se formar.
Ela balançou a cabeça afirmando.
— Eu tentei evitar, mas… Foi pior…
Bucky não questionou, somente passou seu braço em torno dos ombros dela, puxando ela contra si e beijando o topo de sua cabeça. envolveu seus braços em torno dele e permitiu que as lágrimas que ela segurava por tanto tempo viessem à tona.
Por um momento, ela desejou ser capaz de apagar as próprias memórias.

II

Bucky não insistiu para que ela contasse o resto da história naquele dia. Ele disse que esperaria até ela estar pronta, mas, não sabia se esse dia iria chegar.
Lembrar-se dos outros já era difícil o suficiente, principalmente quando ela não fazia ideia de onde eles estavam — é claro, com exceção de Alexis — e sabendo que jamais poderiam ficar juntos outra vez. Eles atraíam desastres, e já havia tido desastres o suficiente em sua vida.
A sessão foi realizada à noite. apagou as memórias que ainda restavam das missões do Soldado Invernal, mas, ainda não havia conseguido acessar todas as memórias do que a Hydra fizera com ele, e principalmente, as memórias do momento em que as palavras foram implantadas nele, eram essas lembranças que ela precisava eliminar, mas, elas pareciam ser as mais escondidas.
Naquela noite, foi incapaz de dormir outra vez. Depois de acordar pela quarta vez com pesadelos, ela simplesmente desistiu de tentar dormir, pegou o caderno no criado mudo e ao invés de relatar o sonho, colocou ali as palavras de ativação do Soldado Invernal. sabia quais eram as palavras que o ativavam, elas foram repetidas tantas vezes que com frequência apareciam nas memórias de Bucky. Por um momento ela considerou que se descobrisse o que as palavras significavam, pudesse encontra-las com mais facilidade nas memórias dele e então apaga-las.
A primeira palavra era "Saudade".
"Saudade, saudade…" repetiu ela mentalmente. "Talvez se refira à saudade do passado, da vida que ele tinha antes da guerra".
anotou aquilo. A palavra seguinte era enferrujado.
"Referência ao braço de metal?", ponderou ela "Bom, se a Hydra não o tivesse resgatado e preservado ele, Bucky estaria morto… Enferrujado"
Ela anotou aquelas frases, mesmo que não estivessem bem claras em sua cabeça ainda.
A palavra que vinha a seguir era dezessete. correu os olhos pela folha, percebendo que além daquela havia outras duas palavras que eram números: nove e um.
— 1917 — sussurrou , baixinho para que Alexis não acordasse.
Aquele era o ano em que Bucky havia nascido.
As palavras que vieram a seguir eram Aurora, Forno, Benigno, Volta para Casa e Vagão de Carga.
— Aurora deve se referir ao renascimento dele como Soldado Invernal — murmurou ela — Vagão de Carga deve ser por conta do local onde ele morreu, onde o Bucky Barnes morreu e o Soldado Invernal surgiu — concluiu .
Mas, as outras palavras ainda eram um enigma pra ela.
deixou o caderno de lado e fechou os olhos.
"Onde o Bucky Barnes morreu e o Soldado Invernal surgiu", a mente de continuava repetindo aquela frase como um eco.
Ela sabia que precisava encontrar as primeiras memórias do Soldado Invernal, provavelmente aquelas que vieram logo após o resgatarem, era só tendo acesso a elas que conseguiria eliminá-lo de vez.
E naquele momento ela abriu os olhos, percebendo que havia encontrado a resposta que procurava.
Mesmo que houvessem apagado a memória de Bucky, aquelas memórias ainda estavam lá escondidas, mas, ele as bloqueava porque era um trauma grande demais para ele suportar, mas, o Soldado Invernal… Ele não bloquearia aquelas memórias, ela teria livre acesso àquelas informações se tivesse acesso a ele. Era óbvio o que ela precisava fazer. Ela teria que ativar o Soldado Invernal e então pegar as memórias dele.
Mas, havia um risco. Um risco muito grande.
Ela sabia o que o Soldado Invernal era capaz e não era justo colocar a vida das outras pessoas em risco. Na verdade, mais do que isso, não era justo com Bucky ativá-lo. Ela teria que encontrar outra maneira.

III

Era manhã do dia seguinte e estava outra vez no jardim do terraço com Bucky, os dois estavam sentados em um banco debaixo de uma árvore com folhas azuis cujo nome não conhecia.
Eles permaneciam em silêncio, mas, ficar ali com ele estava sendo uma tortura para ela, que mexia incessantemente no bracelete em seu pulso.
A vontade dela era contar a ideia que tivera noite passada, mas, ela sabia que não deveria. Ela levara um bom tempo para conquistar a confiança de Bucky, e agora que a tinha, sugerir que eles ativassem o Soldado Invernal seria o mesmo que jogar tudo pelos ares. Ela não poderia perdê-lo.
Além disso, aquela não poderia ser a única alternativa, deveria haver mais alguma coisa que eles pudessem fazer.
— Está tudo bem? — perguntou Bucky.
balançou a cabeça em afirmação, sem encará-lo. Já era difícil o suficiente mentir sem olha-lo nos olhos.
… — chamou ele — No que está pensando?
— Em nada… — mentiu, sua voz mais fina do que ela gostaria, o que era um indício claro de que ela estava mentindo.
— Você teve uma ideia, não foi? — perguntou ele — Mas, não acha que é a melhor opção.
o encarou com os olhos arregalados.
— Como você…? — antes que ela pudesse terminar, a voz de Alexis gritando "Olá" em um tom que Wakanda inteira poderia ouvir, a interrompeu.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou, sua voz poderia parecer recriminadora, mas, ela queria abraçar Alexis por ter chegado em um momento tão apropriado.
— Eu estava entediada, então, resolvi te procurar pra gente fazer alguma coisa, mas… Vejo que já está ocupada — Alexis piscou e somente rolou os olhos.
— Bucky, essa é a Alexis — os apresentou — Lembra que eu falei sobre as pessoas que tem poderes como eu? Bom, a Alexis é uma delas.
— Então, você é o famoso Bucky? — Alexis indagou sorrindo — A me falou muito sobre você, na verdade até demais, você acredita que ela até sonhou com…
— Lexis! — a repreendeu — Ignore tudo o que ela fala Bucky, essa garota gosta de exagerar.
Mas, o sorriso no rosto de Bucky deixava claro que ele acreditara no que Alexis tinha falado e que mais tarde provocaria com aquilo.
— Só me diga que você não costuma sair do seu corpo em forma de espírito — ele brincou.
Alexis riu.
— Não, aquele garoto era bizarro, mas, eu posso sentir energias. — explicou — Não é um poder tão legal quanto o da , mas…
— Não é legal? — Bucky indagou com descrença — Parece incrível, a me disse que você já encontrou algumas coisas estranhas.
Alexis fez uma careta, sentando na cadeira em frente ao banco em que eles estavam, indicando que pretendia ficar ali por mais tempo.
— Acredite, algumas eu não queria ter encontrado. Quando eu ainda não tinha pleno controle sobre meus poderes eu acabava confundindo tudo e uma vez encontrei o cadáver de um gato enquanto…
rolou os olhos, afundando o corpo no banco não se dando ao trabalho de ouvir o resto. Quantas vezes Alexis já tinha contado aquela história? Umas mil? já tinha visto aquela memória de Lexis e sabia bem que não havia sido tão interessante quanto ela contava.
— Espera. — Bucky pediu — Você encontrou ouro?
— Pois é, primeiro eu achei que tinha me enganado, mas, debaixo do cadáver tinha ouro, foi quando eu contei para o meu pai…
suspirou, por um momento questionando se deveria contar a verdadeira história, mas, os dois estavam tão imersos na conversa que provavelmente nem a ouviriam.
Por fim, ela decidiu voltar sua atenção para a joaninha que escalava as flores amarelas ao seu lado, e foi só quando a jornada emocionante do pequeno inseto terminou com ele caindo e voando para outra flor, que Alexis terminou a história.
— Isso foi incrível! — Bucky exclamou, fazendo rolar os olhos mais uma vez.
— Bom, agora eu preciso ir, vou deixar vocês sozinhos — Alexis murmurou com um muxoxo — Precisamos nos ver de novo, eu tenho várias histórias para contar.
— Claro, vai ser ótimo — ele respondeu, vendo Alexis levantar da cadeira e se afastar.
Bucky observou enquanto ela se afastava e quando seus olhos voltaram a encarar , sua expressão era de incredulidade.
— O que foi? — perguntou ele, confuso.
— Olhe, eu amo a Alexis — disse com uma voz doce — Mas, tudo o que ela disse é mentira — concluiu impaciente, como se fosse óbvio.
— O quê? — Bucky indagou confuso.
— Eu vi essa lembrança dela e não foi nem um pouco parecida com isso — confessou — Ela estava procurando ouro, mas, encontrou o cadáver do gato. Foi só isso, nada demais.
— Mas, ela disse que o pai virou minerador depois que ela descobriu que havia ouro ali.
— Ela sempre diz isso, mas, a verdade é que o pai dela era minerador antes mesmo de ela nascer, e ele de fato encontrou ouro nessa época, mas, foi do outro lado do país e ela não teve nada a ver com isso — concluiu, esperando alguma reação de Bucky, mas, ele simplesmente deu os ombros.
— É uma história boa de qualquer forma — disse com indiferença.
As sobrancelhas de formaram um V.
— Ela mentiu pra você e você não fala nada? — indagou.
— Você mente pra mim o tempo todo e eu não reclamo — Bucky murmurou, desviando o olhar dela.
— Eu não minto pra você — reclamou ela.
— Tem razão, você oculta informações. — disse ele com sarcasmo.
bufou.
— Tudo bem, o que você quer saber? — perguntou por fim.
— Sobre o que você conversou com T'Challa? — questionou, voltando a se virar para ela.
— Sobre você, a mochila, os cadernos…
— Não minta.
— Eu não estou mentindo.
Bucky a encarou, e ela precisou desviar o olhar dele para não confessar tudo.
— Tem a ver com as outras pessoas que são como eu — aquilo não era totalmente uma mentira.
— O que aconteceu com eles?
— Eu não sei — confessou — O T'Challa está me ajudando a encontra-los.
Bucky ficou em silêncio, e ela imaginou que ele estava satisfeito com aquela resposta, mas, é claro que ela estava errada, ele estava somente formulando sua próxima pergunta.
— Do que você está se escondendo? — Bucky indagou, fazendo-a suspirar — Tudo bem, se for difícil falar sobre isso, você não precisa…
— Não. — ela o interrompeu — Eu preciso terminar de contar a história… Quer ir dar uma volta?

IV

Os dois caminhavam pelos corredores vazios do edifício. Seus passos eram lentos e achou que era melhor assim. Ela tinha muita coisa pra contar.
— De alguma forma descobriram sobre nossos poderes. Eles podiam não ser grande coisa de forma individual, mas, quando combinados, e quando direcionados para um objetivo, eles eram bastante significativos — explicou — Éramos armas poderosas e não demorou para virem atrás de nós.
— Quem foi atrás de vocês? — perguntou Bucky.
deu os ombros, a lista era grande demais para mencionar todos, mas, ela se esforçou para resumir da forma que pôde:
— Líderes do crime organizado, facções criminosas, grupos terroristas, o governo dos Estados Unidos… — ela suspirou — A Hydra disfarçada de S.H.I.E.L.D. Todos queriam nos usar como armas e não havia ninguém para nos defender, ninguém além de nós mesmos. — ela fez uma pausa, lembrando-se dos fatos que ela ignorava há tanto tempo, mas, que pareciam tão frescos em sua memória — Eu tinha 19 anos e ainda não sabia direito quem eu era e nem entendia o que eu conseguia fazer. Eu estava no dormitório da faculdade, eu não faço ideia de como eles descobriram que eu tinha poderes nem como descobriram que eu estava lá, só… — parou, olhando para a janela que cobria a parede ao seu lado de cima a baixo, tentando encontrar alguma coisa que tomasse sua atenção e impedisse que aquelas imagens surgissem em sua cabeça, mas, foi impossível. Os gritos, os tiros, os pedidos de socorro desesperados, os corpos cobertos por sangue continuavam preenchendo sua mente — Eu não sei quantos eles mataram, mas, foram muitos, e tudo isso pra chegar até mim. E eu não fiz nada para detê-los.
Bucky a encarou, passando seu braço sobre os ombros dela.
— Não havia nada que você pudesse fazer. — ele a confortou.
— Na verdade, havia. — confessou com a voz falha, sentindo seus olhos arderem — Eles chamaram meu nome, eles disseram que se aparecesse eles deixariam os outros irem, mas… — ela olhou para cima, tentando impedir que as lágrimas caíssem — Eu não sabia o que fazer, eu estava com tanto medo que mal conseguia me mexer, eu só queria que aquilo fosse um pesadelo horrível, eu só queria me encolher debaixo daquela mesa e desaparecer.
— Eles pegaram você? — perguntou Bucky.
balançou a cabeça em negação, voltando a caminhar, suas mãos estavam trêmulas, Bucky parecendo notar isso a segurou, entrelaçando seus dedos, tentando confortá-la.
— Foi naquele momento que eu descobri que havia outros como eu. Eles entraram na sala, eu não sei exatamente como, foi tudo tão rápido, mas, quando eu vi eles já haviam tomado as armas dos homens que estavam ali, derrubaram eles e então nós fugimos, mas, não demorou pra eles nos encontrarem de novo, e de novo e de novo… Nós estávamos juntos e a cada dia aprendíamos a lidar melhor com nossos poderes, treinamos alguns estilos de luta, conseguimos armas… Nós éramos capazes de nos livrar de qualquer um com facilidade, mas, eles começaram a se aperfeiçoar também e as batalhas se tornaram mais difíceis. — ela apertou a mão de Bucky com força, lembrando-se de todas as pessoas que precisou machucar para fugir, de quantos inocentes acabaram entrando no caminho e saindo feridos — muitas vezes mortos — por culpa deles.
— Foi quando a Hydra conseguiu pegar dois dos nossos. Nossos nomes estavam no Projeto Insight, e quando ele fracassou e nós continuamos vivos, a Hydra percebeu que se não podia nos destruir, poderia nos usar. Eles diziam que éramos só crianças assustadas e eu não posso dizer que eles estavam errados. Quando eles levaram o Luke e a Alison eu entrei em pânico, eu tinha certeza que eles iam pegar todos nós, o Luke já havia previsto isso, ele previu que a Hydra nos pegaria, assim como viu as coisas horríveis que nos obrigariam a fazer — ela fechou os olhos enquanto inspirava fundo — Eu vi as memórias dele, eu vi as imagens daquela visão e… — ela passou a mão livre pelo rosto — Tantas pessoas inocentes iriam morrer… — não conseguia sequer pensar naquela possibilidade — No entanto, eles conseguiram fugir, e nós pensamos que tínhamos mais uma chance, foi aí que decidimos nos separar. Seríamos inúteis se nos pegassem sozinhos, mas, Luke disse que o futuro não mudava, eles iriam atrás de nós, um por um, ele me alertou que viriam até mim, iriam encontrar meus pais e descobrir que machucar eles era a melhor forma de me afetar — prendeu a respiração, como se aquilo pudesse impedir as imagens daquela visão se formando em sua mente — A Hydra iria matar eles — ela fez uma pausa, passando a mão no rosto, limpando uma lágrima que caía por sua bochecha — Eu pensei que houvesse uma alternativa, que pudéssemos fugir deles de alguma forma, mas, então a irmã da Lexis, a Alison, foi assassinada. Então eu percebi que não haveria misericórdia, que eles matariam quem fosse necessário para conseguir pegar os que tinham os poderes que seriam mais úteis pra eles. Eu não podia mais contar com a sorte, eu precisava proteger meus pais, não podia permitir que nada acontecesse com eles, por isso, tomei a decisão mais difícil da minha vida.
Ela sentiu o olhar de Bucky sobre si, mas, não ousou olhar de volta. Não queria que ele visse seus olhos marejados, não queria parecer fraca.
— Eu voltei pra casa e apaguei a memória deles. Eu fiz eles esquecerem de mim, apaguei todas as provas de que eu havia existido, manipulei as memórias para que eu desaparecesse de todas elas. — a voz dela se tornou embargada — Então, eu me candidatei para trabalho voluntário na África, para garantir que eles estariam bem longe de mim, que eles estariam seguros.
Bucky ficou em silêncio. Ele não conseguia imaginar o quanto havia sido difícil para ela fazer aquilo, e não havia nada que ele dissesse que diminuísse a dor que ela estava sentindo.
— Foram necessárias só algumas semanas para um grupo criminoso me encontrar. Eles me prenderam e quando cheguei ao cativeiro Alexis já estava lá, eu sabia que era só uma questão de tempo até eles encontrarem os outros, por isso me esforcei ao máximo pra fugir, mas, meus poderes foram inúteis. — a dor em sua voz foi se transformando em raiva — Eu apaguei a memória de todos que se aproximavam da minha cela. Nos meus últimos dias presa, ninguém mais conseguia lembrar quem eu era, mas – ela riu sem humor — Eu só consigo manipular memórias, não sentimentos, e apesar de nenhum deles saber a razão de eu estar presa, todos sentiam medo de mim, todos sentiam que eu deveria ser mantida fechada. — e então ela olhou para Bucky, sem se importar com sua aparência deplorável — Eu fiquei lá por três meses, até T'Challa aparecer. Aparentemente o grupo que me sequestrou pretendia roubar vibranium de Wakanda. T'Challa me libertou e me ofereceu refúgio, eu achei que aqui eu estaria segura, mas, eles sempre acham uma forma de me encontrar, e… — as lágrimas começaram a se acumular em seus olhos outra vez ela desviou o olhar — Eu não posso aceitar que eles machuquem mais pessoas por minha causa, é por isso que eu não mantinha contato com quase ninguém, porque eu sei que eles vão tentar machucar qualquer um que se aproximar de mim.
Bucky parou de andar e a abraçou.
— Isso não vai acontecer — assegurou — Você está segura aqui, nós vamos te proteger, eu vou te proteger. Eles não vão machucar ninguém.
não gostava de parecer fraca, ela sentia que deveria se manter forte não importava a situação, mas, quando estava com Bucky a máscara que encobria seus sentimentos caía, e ali, lembrando-se de tudo aquilo que prometera jamais relembrar, ela se permitiu chorar.
Mas, ela não chorava somente por seus pais, pelas pessoas que morreram por culpa dela ou pelo medo constante que ela sentia. Ela chorava porque sabia como aquilo iria terminar, ela sabia que não demoraria para ter que fazer com Bucky o mesmo que fez com seus pais.
"Aproveitar o momento", era o que ela vinha repetindo mentalmente para si mesma.
E então ela decidiu fazer algo que ansiava há muito tempo, e que talvez nunca mais fosse ter a chance de fazer.
Ela se afastou de Bucky, o suficiente para encarar seus olhos, segurou o rosto dele e então, ficando na ponta dos pés juntou seus lábios.
Bucky pareceu surpreso a princípio, e ponderou se teria que fazê-lo esquecer daquele momento depois, mas, logo o braço dele envolveu sua cintura e a puxou para mais perto, sentiu seus corpos se encaixarem de forma perfeita, e então aquele sentimento, de ter encontrado algo há muito tempo perdido tomou conta dela.
Os dedos de se entrelaçaram nos cabelos dele, puxando-o para mais perto.
E ali, enquanto o beijava, percebeu que aquela garota dos anos 40 era ela de fato, e que havia uma simples razão para eles terem se encontrado outra vez: eles pertenciam um ao outro, e mereciam viver o resto de suas histórias juntos, uma história que não fosse interrompida pela guerra, uma versão onde eles pudessem ter um final feliz.

V

estava tendo dificuldade para dormir aquela noite, mas, não tinha nada a ver com os pesadelos. O beijo entre ela e Bucky continuava se repetindo em sua mente, a impedindo de conseguir manter os olhos fechados. E no fundo era bom ter algo para tirar seus pensamentos do passado — tanto o passado dela quanto o dele — e era bom ter algo que lhe desse esperança, mesmo que mais tarde aquilo fosse ser tomado dela.
Bucky e ela passaram o resto da manhã no jardim, de mãos dadas o tempo todo, com a impressão de que se soltassem, se perderiam novamente e nenhum deles queria que aquilo acontecesse outra vez.
Durante o tempo em que ficaram lá, eles falaram sobre algumas das coisas que conseguiam se lembrar do passado juntos, tentando despertar aquelas lembranças um no outro.
lembrou que não muito tempo depois de conhecer Bucky, se demitiu do emprego com a francesa chata e começou a criar e vender suas próprias roupas. As matérias primas naquela época estavam escassas, a maioria dos tecidos estavam sendo usados na confecção dos uniformes e paraquedas para a guerra, mas, havia encontrado um jeito de reaproveitar peças antigas conseguindo vende-las por um baixo custo, e pelo o que ela conseguia lembrar havia sido libertador trabalhar por conta própria.
E quando parava para pensar nisso, percebia que sempre houve um traço da antiga naquele seu "eu" de agora. sempre fora fascinada por filmes antigos, ainda gostava de tomar café preto sem açúcar, mesmo que todos achassem horrível, e parando pra pensar, ela nunca havia tentado desenhar roupas, talvez se tentasse, percebesse que tinha talento assim como a antiga. E quanto a dançar… bom, ela nunca de fato havia tentado, mas, Bucky havia prometido que iria lhe ensinar e ela estava ansiosa por isso.
E foi pensando nisso que adormeceu.

VI

Como esperado, uma memória apareceu em seus sonhos naquela noite.
Era uma noite fria de dezembro e sabia que estava voltando para casa tarde demais. Ela precisava acordar cedo no outro dia, mas, por insistência de Bucky, os dois haviam ido ao cinema, depois de terem jantado fora e ela até poderia reclamar, mas, a noite fora perfeita. Os dois assistiram ao filme que ela passara a semana toda dizendo que queria ir ver e jantaram no restaurante favorito dela, restaurante caro o suficiente para eles irem até lá somente em ocasiões especiais e já imaginava a razão de terem ido lá naquela noite. Aquela poderia ser uma das últimas noites que eles teriam juntos, já que podiam chama-lo para a guerra a qualquer momento.
Desde que ouvira que os Estados Unidos estava entrando na guerra, Bucky passou a treinar Steve na Goldie's Boxing Gym. Steve tinha esse ar patriótico e queria a todo custo se juntar ao exército e lutar pelo seu país, mas, sabia que aquela não era a vontade de Bucky. Eles tinham planos, e agora a guerra estava destruindo todos eles.
Bucky estava a acompanhando até em casa. O braço dela estava entrelaçado ao dele e eles estavam em silêncio, qualquer conversa que eles tentassem ter de uma forma ou de outra levava até a guerra e eles estavam tentando viver o momento, sem pensar no que poderia acontecer no futuro.
— ele chamou, inspirando fundo, como se estivesse tomando coragem para falar alguma coisa importante — Eu… Eu queria…
sorriu. Ele estava mesmo gaguejando?
— Bucky Barnes nervoso? — provocou ela — Vamos lá, sou só eu, você não precisa ficar nervoso.
Ele riu.
— Só você? — perguntou — Querida, você tem noção de como eu me sinto quando estou com você?
sorriu, sentindo seu rosto esquentar.
— Vamos lá, Barnes. Já estamos chegando no meu prédio, seu tempo está acabando…
Bucky parou de andar bruscamente, o encarou confusa.
— O que foi? — perguntou.
— Eu queria fazer isso de um jeito romântico, e acredite eu considerei várias formas, mas… — ele começou e sentiu seu coração parar, ela já podia imaginar o que estava prestes a acontecer — Lembra desse lugar? — perguntou ele.
olhou ao redor, eles estavam na rua onde o prédio em que ela morava ficava. Árvores, agora sem folhas, se estendiam pelas calçadas dos dois lados da rua. Mas, eles estavam parados de baixo da luz de um poste e logo entendeu ao que ele estava se referindo.
— Foi o lugar onde nos beijamos pela primeira vez — disse ela sorrindo.
— Você ainda lembra? — perguntou Bucky.
acenou com a cabeça.
— Foi um mês depois do nosso primeiro encontro. Você estava me acompanhando até a minha casa, uma garoa fina começava a cair, você parou para armar o guarda-chuva e… — sorriu — Nós ficamos parados por alguns minutos, somente nos olhando, ouvindo as gotas baterem contra o guarda-chuva, então eu fiquei nas pontas dos pés e te beijei.
Bucky sorriu, acariciando o rosto dela.
— Bom, nós já estamos juntos há 2 anos e 8 meses e desde aquele momento eu já tinha certeza de que você era a garota certa, na verdade, desde o momento em que eu te vi naquele bar pela primeira vez eu soube que você era a garota que eu procurava. Uma mulher forte, independente, e que toma a iniciativa de beijar o homem pela primeira vez — concluiu sorrindo.
O sorriso nos lábios de aumentou.
Bucky voltou a inspirar fundo, colocando a mão no bolso, quando ele se ajoelhou na sua frente, percebeu que ele segurava uma caixinha de veludo azul, e ao abri-la revelou um anel prateado, com uma pedra em seu topo.
Brandon — começou, ela sentiu seus batimentos cardíacos acelerando — Você aceita se casar comigo?
Foi como se o ar tivesse sido sugado de seus pulmões. encarou Bucky atônita, balançando a cabeça em confirmação sem conseguir dizer nenhuma palavra, já sentindo lágrimas teimosas se formando em seus olhos.
— Isso é um sim? — perguntou ele.
— Sim! — afirmou, vendo Bucky colocar o anel em seu dedo anelar, sem conseguir conter o sorriso que se formava em seu rosto.
Bucky levantou, envolvendo seus braços em torno da cintura dela, a levantando no ar, juntando seus lábios em um beijo que se intercalava com sorrisos que não podiam ser contidos.

Quando acordou, teve certeza de que aquela era uma das memórias mais felizes deles juntos, se não a mais feliz. Mas, de alguma forma, sentia que aquela era igualmente uma das mais tristes, porque ela sabia o que vinha a seguir.

Quão Feliz é o Destino de um Inocente sem culpa?

"Eu desejei não ter te amado tanto,
O meu amor por você deveria ter acabado há muito tempo"

I wish I didn't love you so, Betty Huton


acelerava o passo tentando acompanhar o caminhar rápido de Ayo, o que estava sendo quase impossível. A Dora Milaje havia a recebido quando ela chegou ao palácio e agora a levava até o rei.
Naquela manhã, havia recebido um recado avisando que T'Challa queria falar com ela com urgência, mas, sem mais detalhes o que a deixou assustada. Ao chegar ao palácio e questionar sobre o assunto, tudo o que Ayo disse foi: "Ele tem notícias sobre seu irmão", e não tinha um bom pressentimento sobre aquilo.
nunca falava sobre seu irmão — e tinha bons motivos para isso —, mas, ele era a única família que ela ainda possuía, e após sair do cativeiro, a urgência por encontra-lo somente aumentou.
Os dois se distanciaram algum tempo antes de ela ir para a África. Ela não havia apagado a memória dele, assim como fez com seus pais — até porque ela não fazia ideia de onde ele estava —, mas, parecia haver um acordo implícito entre eles: Nunca mais se verem.
Apesar de tudo, não suportava a ideia de seu irmão mais novo estar sozinho. Ele, assim como ela, tinha poderes e constantemente ela se perguntava se ele estava em segurança, se tinham o encontrado ou mesmo se ele ainda estava vivo. Por isso, ela tinha consciência de que as notícias de T'Challa poderiam não ser tão boas quanto ela esperava.
E independente de ser uma notícia boa ou ruim, ela sabia que iria arruinar os últimos dias que haviam sido os mais tranquilos em muito tempo.
Naquelas últimas semanas os pesadelos de começaram a diminuir conforme ela foi armazenando as memórias, eles ainda estavam lá, mas, ela estava conseguindo lidar melhor com eles e sabia que em breve eles iriam embora. Bucky havia ganhado um novo braço feito de vibranium e já havia recuperado a maior parte das memórias de sua vida antes da guerra, com exceção das memórias que envolviam ela, que ainda estavam confusas.
Apesar disso, os dois pareciam estar em seu melhor momento, eles tomavam café da manhã juntos, andavam de mãos dadas pelo prédio vazio, passavam mais tempo no jardim conversando sobre coisas aleatórias e relembrando os pequenos detalhes que conseguiam dos anos 40.
Durante aqueles dias, ele voltou a ser o garoto normal do Brooklyn, e ela voltou a ser só , ela não era mais a garota que manipulava memórias e era uma arma em potencial, ela finalmente significava mais do que isso para alguém, e isso a fazia se sentir normal, fazendo-a esquecer, nem que somente por um breve período o passado turbulento que ela tinha para lidar. Mas, os dois sabiam que aquilo era só uma ilusão, o Soldado Invernal não havia ido embora e o passado ainda estava perseguindo ela.
Só era necessário um estalo, para que eles voltassem para a realidade.
E quando seguiu Ayo para dentro daquela sala e encontrou o rei de Wakanda sorrindo, a realidade a atingiu.

II

havia voltado para seu quarto e encarava a janela à sua frente com os pensamentos longe, sem conseguir decidir nada.
T'Challa havia encontrado seu irmão.
Ele estava em Nova York e em segurança, o rei garantiu, e eles poderiam leva-la até ele quando ela quisesse.
E é claro que ela queria ir naquele exato momento, mas, ela devia? Ele estava em segurança, ela também estava, não havia motivo para eles se encontrarem outra vez, mas, ela sentia tanta falta dele. Mas, ela não poderia trazê-lo para Wakanda, não com Alexis ali.
E por ironia do destino, Alexis entrou no quarto naquele exato momento, com uma informação que não sabia onde ela havia conseguido.
— Por que você não me contou que estava procurando por eles? — ela estava visivelmente irritada — Nós fizemos uma promessa.
— Eu precisava deles — respondeu em tom urgente.
— E pra quê? Você sabe que fica mais fácil para eles nos encontrarem quando estamos juntos.
— Também ficamos mais fortes quando estamos juntos — justificou — Talvez assim eu possa curar o Bucky.
Alexis riu.
— Então é isso? Está disposta a colocar a segurança de todos nós em risco, só por causa de um namorado? — indagou se aproximando de com passos lentos — Ele é um caso perdido desde o início, você sabe que não vai conseguir curá-lo, já estamos nisso há quanto tempo? Três meses? E me diga o que você conseguiu fazer até agora?
— Eu estou quase conseguindo.
— Não, , você não está! — exclamou, seu tom de voz cada vez mais alto — Você quer acreditar que está conseguindo curar ele, mas, isso é só uma ilusão tua, mais cedo ou mais tarde o Soldado Invernal vai aparecer, e então? Você vai conseguir controla-lo? — indagou, sentiu seu corpo tremer conforme ela se aproximava — Ele vai matar todos nós, e tudo porque você está baixando a guarda, . Você disse para eles que era seguro dar um novo braço pra ele porque ele estava praticamente curado, mas, adivinha só? Ele não está! — Alexis berrou.
a encarava atônita, nunca tinha a visto com tanta raiva daquela forma.
Alexis encarou nos olhos, como se tentasse ler seus pensamentos, e então ela deu alguns passos para trás. Sua expressão mudando de raiva para entendimento, como se ela tivesse acabado de perceber algo importante.
— Você sabe disso — Alexis comentou, sua voz mais controlada — É claro que você sabe, mas, você não está fazendo isso só pelo Bucky, você… — os olhos dela se arregalaram, e soube imediatamente que ela havia descoberto — Você não estava procurando todos eles, não é? Você só estava procurando o Luke…
fechou os olhos. Sabia o que iria vir a seguir.
— Eu não acredito, — a voz de Alexis estava repleta de mágoa — Depois de tudo o que ele fez, como você ainda consegue…
— Ele é meu irmão! — gritou , já sentindo lágrimas se formando em seu rosto — É a única parte da minha família que restou, que ainda se lembra de mim.
— E quanto à minha irmã, ? — esbravejou Alexis — Ela também era tudo o que eu tinha, mas, ele a matou! — sentiu um choque percorrer seu corpo ao ouvir aquelas palavras, e o que doía mais era saber que Alexis tinha razão — Ele nem hesitou em mata-la, , como você… — Alexis balançou a cabeça, mordendo o lábio inferior como se para impedir-se de continuar falando.
— Lexis, eu sinto…
— Não! — ela gritou, apontando o dedo para o rosto de — Não me diga que sente muito porque você não sente.
não ousou continuar falando. Não havia mais nada a ser dito.
— Sabe, eu sempre achei incrível a forma como nos completávamos — Alexis comentou, começando a caminhar pelo quarto, sua voz assumindo um tom mais brando — Os irmãos Mitchell… a garota conseguia duplicar sua imagem, o garoto conseguia projetar seu espírito para fora do corpo… De certa maneira, ambos conseguiam estar em dois lugares ao mesmo tempo. — Alexis falava, mas, era incapaz de olhar em seus olhos — Então, havia vocês… Os irmãos , você conseguia ver o passado, através das memórias, enquanto o Luke conseguia ver o futuro. Por fim, havia eu e Alison, as irmãs Pazzi, ela conseguia curar usando a própria energia, o que eu sempre achei que era o melhor poder de todos — ela sorriu, mas, era um sorriso cheio de dor e saudade — Eu em contrapartida, conseguia sentir energias… Um poder ridículo, mas, que se tornava maior quando eu estava com ela, eu identificava as energias, separava o que era bom ou ruim, eu direcionava Alison para o que ela devia curar, conseguimos ajudar tantas pessoas assim, mas, nunca mais vamos ajudar ninguém e sabe por quê? — seus olhos marejados encontraram os de .
Ela engoliu em seco.
— Porque ela está morta, porque o teu irmão a matou! — Alexis gritou com raiva, seu olhar triste voltando a se encher de ódio — Eu aposto que o T'Challa não sabe o que ele fez, não é? Se soubesse, duvido que estaria te ajudando.
— Você está certa — concordou , desistindo de gritar, não adiantava discutir com Alexis quando sabia que ela estava certa — Eu me deixei levar pelas minhas emoções e… — ela suspirou, passando a mão pelo rosto, secando as lágrimas que começavam a se acumular em seus olhos— É loucura ir atrás dele, mas… — ela encarou Alexis — Eu pensei que ele pudesse ter mudado, que… — um soluço escapou de sua garganta — Eu sinto muito Lexis, de verdade — confessou — Eu só pensei em mim mesma e…
— Está tudo bem — disse Alexis, sua voz se tornando mais calma —, Eu sinto muito por ter gritado com você, eu estava com tanta raiva, você é minha melhor amiga e não tem culpa quanto ao que ele fez.
forçou um sorriso, indo até Alexis e a envolvendo em um abraço.
— Eu sinto muito — repetiu .
— Tudo bem, eu já disse que…
— Não — se afastou de Alexis, o suficiente poder ver seu rosto — Eu sinto muito por isso.
Ela levou as mãos até o rosto de Alexis, pressionando seus polegares nas têmporas dela, acessando as memórias, percebendo que Alexis havia escutado somente alguns trechos das conversas entre e T'Challa, por isso havia assumido que estava procurando por todos os outros.
fez questão de apagar essas lembranças também, além de eliminar todos os vestígios da discussão que elas tiveram. Quanto menos Alexis lembrasse, melhor seria para as duas.
Ela não tentaria apagar as memórias do assassinato de Alison, já havia feito aquilo pelo menos duas vezes, e em ambas, Alexis conseguira recuperar as lembranças, ficando com raiva de no fim das contas por ter tentado acobertar seu irmão.
Luke havia agido errado, ela admitia isso, mas, ele ainda era seu irmão e não desistiria de encontra-lo. Ela precisava ouvir dele os motivos que o levaram a agir da forma como ele agiu, e nada impediria de ir atrás dele.
Quando suas mãos se afastaram do rosto de Alexis e ela entrou naquele estado catatônico que todos sempre entravam quando apagava suas memórias, a garota aproveitou para sair do quarto e ir para o mais longe possível dali.
havia tomado sua decisão, mas, precisava falar com Bucky sobre aquilo antes.

III

Três horas mais tarde, após considerar todas as consequências do que estava prestes a fazer, foi até o quarto de Bucky, e quando ele abriu a porta e sorriu para ela, ela já não tinha mais certeza se deveria ir em frente.
— Precisamos conversar — disse ela, sem conseguir esconder a ansiedade.
O sorriso de Bucky desapareceu naquele exato momento.
— Isso nunca é um bom sinal — brincou, dando espaço para ela entrar.
tentou sorrir, para que não parecesse tão grave, mas, seu sorriso deve ter parecido mais uma careta.
— Eu não fui completamente honesta com você — confessou ela, olhando para suas próprias mãos.
Bucky, sentado ao seu lado no sofá, permaneceu em silêncio.
— Lembra que eu falei sobre o Luke? O menino que conseguia ver o futuro? — ele acenou em concordância e continuou — Ele é meu irmão.
E então o monólogo de durou por mais de meia hora. Ela contou sobre seu irmão, sobre ela ter perdido o contato com ele algum tempo antes de apagar a memória dos pais, e sobre T'Challa ter recentemente o encontrado em Nova York.
— Você vai ir atrás dele? — foi a primeira coisa que Bucky perguntou quando ela terminou de falar. E ela podia sentir o medo de ser abandonado na voz dele.
— Não — assegurou ela — Pelo menos, não até eu ter curado você, mas… Tem um problema maior que isso, algo que nem o T'Challa sabe.
Ela sentiu o metal frio da mão esquerda dele segurar a sua mão.
— Ele matou uma pessoa — disse ela — A irmã da Alexis.
Ela esperou que Bucky dissesse alguma coisa, que reagisse de alguma forma, mas, ele permaneceu em silêncio, indicando que ela deveria continuar.
Então explicou o que havia acontecido.
Após ter sido sequestrado pela Hydra, junto a Alison, Luke ficou estranho. pensou que aquele comportamento se devia ao trauma, mas, logo descobriria que havia mais ali.
Em uma de suas últimas fugas eles haviam se dividido, e os irmãos Mitchell foram para o Norte enquanto o irmão de , Alexis e a irmã dela foram para o Sul.
Algumas semanas depois, Alexis os encontrou. Ela estava sozinha e completamente fora de si. Quando o choque passou, ela contou o que havia acontecido.
Após serem sequestrados, a Hydra oferecera um acordo para Alison e Luke. Se eles ajudassem a pegar os outros, se dessem as informações para encontra-los, a Hydra os deixaria livres, além de os recompensarem com uma quantia considerável de dinheiro.
Alison recusou, e acreditou que Luke havia feito o mesmo, mas, poucos dias antes de morrer descobriu a verdade, e contou-a para Alexis: Luke havia aceitado o acordo, e já estava passando informações sobre eles para a Hydra há meses, por isso, sempre os encontravam, não importava para onde eles tentassem fugir.
Quando Alison descobriu ficou revoltada com a traição, o confrontou e foi então que Luke perdeu o controle e tirou a vida dela.
— A Alexis conseguiu fugir a tempo, antes de ele mata-la também — concluiu, e então ergueu o rosto, seus olhos encontrando os olhos claros de Bucky — É errado eu querer encontrar ele? Mesmo depois de tudo o que ele fez?
Bucky acariciou seu rosto com a mão direita, balançando a cabeça em negação.
— Ele é sua família — assegurou — Além disso, as pessoas mudam… Você não pode perder ele também.
— Mas, eu também não quero perder você — choramingou ela.
— Você não vai — afirmou Bucky — 70 anos, . Nós demoramos 70 anos pra nos encontrar de novo, tenho certeza que podemos encontrar o caminho para o outro se nos separarmos outra vez.
tentou sorrir, mesmo que sua vontade fosse chorar.
— Eu… — ela tentou formular uma frase, mas, os soluços em sua garganta a impediam disso.
Bucky então aproximou seus rostos, selando seus lábios.
— Só me prometa uma coisa — pediu ele, após se afastar um pouco, mantendo suas testas unidas — Me prometa que não vai apagar você das minhas lembranças quando for embora — sua voz estava embargada.
Ela inspirou fundo, sentindo seu coração apertar.
Ela não poderia prometer aquilo, ela não poderia se apegar a ele da forma como estava se apegando. Ela sabia como aquilo terminaria, eles não poderiam ficar juntos no final.
— Eu prometo. — mentiu, sentindo seus olhos marejarem.
De qualquer forma, ele não lembraria dela no fim, assim como não lembraria daquela promessa quebrada.

IV

voltou para seu quarto somente na hora de dormir. Ela não suportava a ideia de encarar Alexis depois da discussão que tiveram, ainda mais considerando que a amiga não se lembrava de nada.
Por sorte quando ela entrou no quarto, Alexis já estava dormindo. se arrumou para ir dormir também, mas, estava tão exausta que não se lembrou de pegar o caderno onde ela anotava os sonhos para deixar sobre o criado mudo. Talvez, se tivesse lembrado, teria percebido que o caderno não estava no local onde ela normalmente escondia. Alguém tinha interesse em 10 palavras russas que ela escrevera lá. E naquela noite essa pessoa as usaria.

V

acordou com um estrondo alto, como o de algo se quebrando e seus olhos se moveram imediatamente para a porta.
Ela queria estar sonhando, mas, não estava.
Com o pouco de luz que entrava pela janela, ela pôde ver Bucky parado lá, suas mãos tremiam, sua respiração ofegante e os olhos fixos nela, cheios de raiva, mas, sabia que não era ele ali, que aquele não era o seu Bucky. Ela estava encarando o Soldado Invernal.
Os olhos de percorreram o quarto, tentando encontrar Alexis, seus batimentos estavam acelerados, suas pupilas dilatadas e a adrenalina correndo por seu corpo fazia suas mãos tremerem.
sabia o que tinha que fazer, mas, queria garantir que Alexis estava em segurança antes disso.
Os olhos do Soldado Invermal ainda estavam presos nela. Ele continuava vindo em sua direção, levantou da cama e deu alguns passos para trás, até sentir a parede tocando suas costas.
— Lexis? — chamou ela — Saia agora, sou eu quem ele quer — e então ela a encontrou.
Alexis estava abaixada, do lado de sua cama, abraçada às próprias pernas, uma expressão de pavor cobria seu rosto.
— O que você está fazendo? — sussurrou Alexis com urgência.
— Eu preciso pegar as memórias dele, vá buscar ajuda.
ouviu Alexis murmurar que ela era louca, mas, não teve tempo para responder, os passos do Soldado Invernal se tornaram mais rápidos e antes que ela pudesse fazer qualquer coisa a mão de metal dele estava em torno de sua garganta e ela estava suspensa no ar. sentiu uma pontada atravessar seus pulmões quando ele empurrou seu corpo contra a parede.
E ali, com a luz da lua que entrava pela janela iluminando o rosto dele, pôde encarar pela primeira vez os olhos raivosos do Soldado Invernal, mas, ela também sabia que aquela era a última vez que alguém o veria.
Com a garganta ardendo, quase sem ar e com a visão embaçada, estendeu sua mão, tateando no espaço à sua frente até tocar no rosto dele. Seu polegar tocou a têmpora dele e então as memórias vieram de uma só vez.
Todas as lacunas que faltavam na memória de Bucky foram preenchidas, tudo o que ela precisava estava ali, inclusive a palavra que a salvaria naquele momento.
tentou encher seus pulmões para conseguir falar, mas, era impossível, ela sabia que desmaiaria em poucos segundos e que se não falasse aquela palavra ele iria…
Sua mente começou a se apagar, sendo preenchida por pensamentos desconexos que logo dariam lugar à inconsciência.
Sua garganta ardia, mas, ela conseguiu inspirar e num último esforço, as palavras saíram de sua boca em um sussurro.
— Sputnik…
E quando sentiu os dedos em volta de sua garganta afrouxarem, ela teve certeza de que ele tinha ouvido. Seu corpo se chocou contra o chão e a última coisa que viu foi o Soldado Invernal caindo ao seu lado inconsciente, antes de apagar também.

Retire essa graça, essas dores e aquelas lágrimas

"Você sempre quebra o coração mais gentil
Com uma palavra apressada da qual você não lembra
Então se eu parti seu coração noite passada
É porque eu te amo acima de tudo"

You Always Hurt The One You Love, The Mills Brothers

Era outubro de 1942, de alguma forma sabia daquilo.
Ela estava encarando o anel em sua mão, enquanto já sentia as lágrimas vindo. Ela não queria fazer aquilo, mas, não tinha nenhuma opção. Ela não queria magoar Bucky, mas, aquilo seria tão difícil para ele quanto seria para ela, e como ela continuava repetindo mentalmente: não havia opção.
estava sentada em um dos bancos de madeira naquela praça que ficava perto de sua casa. O vento frio estava se tornando cada vez mais intenso, ela afundou o rosto no cachecol e continuou observando as crianças que corriam em volta da fonte.
Uma parte de si queria que Bucky chegasse logo, para que ela pudesse contar aquilo de uma vez, mas, outra parte sua queria que ele demorasse. ainda não estava pronta para magoá-lo.
— Bom dia, querida. — ela ouviu aquela voz conhecida dizer.
Bucky sentou ao seu lado no banco, colocando o braço sobre seus ombros e selando seus lábios aos delas.
— Como está? — perguntou ele.
não conseguiu responder, somente suspirou.
— Tão mal assim? — perguntou ele.
era incapaz de ficar enrolando, se ela tinha alguma coisa para falar tinha que dizer na hora e naquele momento não foi diferente.
— Eu preciso te contar uma coisa. — começou, olhando fundo nos olhos de Bucky.
Ele permaneceu em silêncio, indicando que ela deveria continuar.
— Eu… — ela mordeu o lábio inferior — Você sabe que tem sido difícil trabalhar por conta própria, eu não tenho muita matéria prima e tenho tentado me virar da forma como eu consigo, mas… — ela voltou a suspirar — Eu tenho tido mais prejuízo do que lucro e não sei quanto tempo mais eu aguento.
havia perdido seus pais quando ainda era bem jovem, e não possuía mais nenhuma família para ajuda-la financeiramente. Ela sempre deu um jeito de conseguir dinheiro, mas, estava se tornando cada vez mais difícil.
— Eu conversei com um estilista esse final de semana — ela prosseguiu — Ele sugeriu uma parceria, eu entro com a parte criativa, com os desenhos e ele patrocina a confecção. Isso acabaria com a preocupação constante que eu tenho com o dinheiro.
— Isso é ótimo! — Bucky exclamou, segurando a mão dela, a mão onde o anel que ele lhe dera um mês atrás estava.
— É… — concordou desanimada.
— Qual o problema?
Ela não conseguiu olhar para Bucky para contar a notícia.
— Ele está indo para Los Angeles semana que vem e quer que eu vá junto pra ficar lá por pelo menos um ano.
Os dois ficaram em silêncio, o barulho do vento soprando e o riso das crianças pareceu cessar também.
— Você vai ir com ele? — perguntou Bucky, sua voz repleta de receio, mesmo que ele tentasse não demonstrar.
— Eu preciso do dinheiro — disse — Além disso, você vai ir para Wisconsin em dezembro para treinar, nosso… Nosso casamento não iria acontecer esse ano de qualquer forma.
Bucky sustentou o olhar nela por alguns segundos, ele sabia que ela tinha razão.
— Um ano — repetiu ele — Quando você voltar eu já vou estar na guerra.
— Eu sei — murmurou — Eu queria que houvesse outro jeito, mas…
— Nosso noivado ainda está valendo? — perguntou ele.
suspirou.
— Bucky, eu não quero que você fique apegado à ideia de eu voltar…
— Você não vai voltar, já decidiu isso — ele a interrompeu.
E queria dizer que ele estava errado, mas, sabia que aquela era a verdade.
— Nós podemos escrever cartas um para o outro, mas, eu sei que em algum momento vamos nos distanciar, vamos parar de nos falar e… — ela passou a mão pelo rosto — Não precisamos estender mais isso, vamos seguir as nossas vidas, em um ano eu volto e se… — ela sentiu sua voz falhar — Talvez possamos voltar a ficar juntos.
Quando ela voltou a encarar Bucky, viu que lágrimas se formavam em seus olhos, mas, ele tentava escondê-las.
— Eu não quero perder você — disse ele com a voz rouca — Eu quero ter certeza, quando estiver na guerra, de que tenho alguém para quem voltar, que vai ter alguém esperando por mim.
— E eu vou estar esperando, Bucky — disse ela, segurando a mão dele com ainda mais força — Se esse novo negócio der certo, nós vamos ter dinheiro o suficiente para nos casarmos, comprarmos uma casa e vivermos juntos depois, mas, pra que isso aconteça vamos precisar nos separar, pelo menos por agora — concluiu.
— Você promete que vai me esperar? — perguntou Bucky.
— Prometo — disse , sem hesitar, aproximando seu rosto do dele, juntando seus lábios em um beijo cheio de dor e mágoa.
— Eu amo você. — disse ela ao se separarem.
— Eu também te amo — sussrrou ele.


II

acordou ouvindo um bipe insistente, e estava prestes a reclamar quando percebeu que não deveria: aquele bipe indicava que seu coração estava batendo.
A garota abriu os olhos, tentando se acostumar com a claridade e logo percebeu que estava em um quarto branco. Ela tentou se mexer, mas, sentiu a agulha em seu braço se mexer, causando um leve incômodo que a fez voltar para onde estava.
— Shh — uma voz suave pediu — É melhor você ficar deitada. Como está se sentindo?
E então, lembrou. As imagens da noite passada preencheram sua mente e as lembranças do Soldado Invernal vieram junto. Aquilo foi demais para que voltou a fechar os olhos.
— Bucky — sussurrou.
— Não, eu sou a Alexis — a voz que estivera falando com ela contestou impaciente.
— Lexis, como está o Bucky? — perguntou com a voz fraca, abrindo os olhos.
Alexis limpou a garganta, como se estivesse montando uma mentira para contar.
— Eu vou chamar o Steve, ele pediu para avisar quando você acordasse — disse, levantando da cadeira onde estava, mas, segurou seu braço, a impedindo de sair.
— Onde está o Bucky? — perguntou com a voz firme.
Alexis bufou, desvencilhando seu braço e voltando a sentar.
— Ele voltou para a criogenia — disse, com a voz emburrada — Agora pode surtar, eu disse pra eles que você ia surtar.
E de fato entrou em pânico.
— Por que eles fizeram isso? — perguntou exasperada — Ele não ia machucar mais ninguém, eu desativei ele, não precisavam coloca-lo na crio…
— Lexis chamou com a voz calma, colocando sua mão sobre a da amiga — Você ainda não entendeu, foi o Bucky quem pediu para voltar para a criogenia.
a encarou por alguns segundos, esperando que Lexis desmentisse, mas, ela não o fez. passou a mão pelo rosto, percebendo que aquele era exatamente o tipo de coisa que Bucky pediria para fazerem.
— Eu preciso falar com o Steve e o T'Challa — disse ela por fim, arrancando a agulha de seu braço e os eletrodos de seu corpo.
, você não pode… — Alexis tentou impedir, mas, já era tarde demais, a garota já estava saindo do quarto.

III

— O que você fez pra pará-lo? — foi a primeira coisa que Steve perguntou.
o encarou perplexa, ele estava mesmo ignorando todas as perguntas que ela fizera?
Rogers, T'Challa e ela estavam sentados em torno de uma mesa, não havia mais ninguém na sala além deles e Nakia, que permanecia de pé junto à porta.
— Eu acessei as memórias do Soldado Invernal e descobri que a Hydra havia implantado uma palavra para desativá-lo caso as coisas saíssem do controle — explicou , encarando suas próprias mãos, era difícil encarar os olhos de alguém quando as memórias continuavam voltando — Sputnik era a palavra. — concluiu, voltando a olhar para Steve e T'Challa — Precisam descongelar ele, agora eu tenho o que preciso.
— Bucky me disse que vocês tinham um acordo — T'Challa lembrou — Se as coisas saíssem do controle você desistiria.
— Eu sei que eu falhei — disse , mexendo as mãos impaciente — Mas, agora que eu acessei as memórias do Soldado Invernal eu tenho o que preciso…
, eu entendo que você queira ajudar, e acredite, o que eu mais desejo é que você consiga curar ele — disse compreensivo — Mas, isso já foi o bastante pra ele. Saber que o Soldado Invernal machucou você foi o limite e ele estava muito abalado, ele não vai aguentar passar por isso de novo.
queria discordar, queria dizer que daquela vez tudo iria funcionar e nada de ruim aconteceria, mas, se falasse isso estaria mentindo.
— 45 — disse , T'Challa e Steve a encararam sem entender — 1945, foi o ano em que a Hydra levou o Bucky.
viu a expressão de dor se formar no rosto de Steve, e soube naquele momento que ele estava se lembrando da queda de Bucky do trem.
— Onde você quer chegar? — perguntou ele.
— 1968, foi o ano da primeira missão do Soldado Invernal — a expressão de dúvida ainda estava presente no rosto deles — A Hydra precisou de 23 anos para conseguir quebrar o Bucky e colocar o Soldado Invernal na cabeça dele, e sabem por quê? Porque ele lutou, ele tentou fugir, diversas vezes — ela se lembrava com clareza das memórias de cada fuga, assim como da punição por tentar fugir que sempre vinha depois — Steve… — chamou ela, o Capitão a encarou — Lembra do uniforme do Soldado Invernal? Aquelas faixas na jaqueta que atravessavam o tórax não te lembram de uma coisa bem comum nos anos 40?
— Camisa de força — respondeu ele sem pensar.
— Exatamente, e você consegue imaginar quantas vezes ele teve que usar uma dessas como garantia de que não iria fugir? A Hydra fez o uniforme dele assim para que ele lembrasse quem estava no controle, para impedir que ele fugisse durante uma missão.
Nenhum deles respondeu, deduziu que entenderam onde ela queria chegar.
— A Hydra fez um bom trabalho, que deu a eles um assassino obediente, mas, foram necessários anos e muita violência e tortura para ele ser assim. E eu sabia desde o primeiro momento em que vi as memórias dele que não seria fácil retirar o que a Hydra colocou nele, mas, agora eu tenho o que preciso para curá-lo e, além disso, também tenho a palavra para desativá-lo. Ele vai ficar bem, eu só preciso de uma chance.
Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, até T'Challa se pronunciar:
— A decisão é sua Steve.
Ele ponderou por alguns segundos, então balançou a cabeça afirmando.
— Eu espero que você consiga convencer ele — disse, sentiu a urgência em sua voz.
E ela sabia que aquela seria a parte mais difícil.

IV

— Eu sinto muito. — foi a primeira coisa que Bucky disse quando entrou na sala onde ele estava a esperando.
Bucky estava sentado em uma maca, usando roupas brancas e sua expressão não poderia estar pior.
— Não peça desculpas, aquilo não era você — disse ela com a voz firme.
Bucky riu sem humor.
— Então, se não fui eu, quem te machucou? — perguntou, apontando para ela e sabia que ele estava olhando para as manchas roxas em volta do seu pescoço.
— A Hydra e a pessoa que disse as palavras, eles são os responsáveis, não você — afirmou — Consegue se lembrar quem foi?
Bucky balançou a cabeça.
— Ninguém aqui teria as palavras — murmurou ele.
desviou o olhar, sentindo a culpa preenche-la. Se ela não tivesse escrito as palavras naquele caderno nada disso teria acontecido.
— Na verdade — a voz dela era hesitante — eu estava mantendo um diário com todas as memórias que eu recuperava de você, era a melhor forma de me organizar para conseguir apaga-las depois e em uma das páginas desse diário estavam as palavras — ela suspirou, voltando a encará-lo — Hoje eu fui procurar o diário, e ele estava no mesmo local onde eu costumava escondê-lo, mas, havia uma página faltando…
Ela esperava que ele fosse ficar com raiva dela por aquilo, mas, Bucky a encarou com um olhar compreensivo, tentando confortá-la, talvez vendo que ela já se culpava o bastante.
— Quem faria isso? — perguntou ele.
deu os ombros.
— O Steve e o T'Challa estão tentando descobrir, mas, não é isso o que importa agora…
— Como não é o que importa? — Bucky perguntou impaciente — Essa pessoa pode tentar fazer isso de novo.
— Mas, não vai conseguir — assegurou — Eu precisava ter acesso às memórias do Soldado Invernal para recuperar o que faltava da tua memória e conseguir apagar tudo o que a Hydra colocou em você, e agora eu tenho.
— Eu não vou colocar você em risco outra vez, nós tínhamos um acordo.
— Você não vai me impedir de te ajudar Bucky! — disse ela exasperada — Uma sessão, é só o que eu preciso, além disso, agora eu tenho a palavra que desativa o Soldado Invernal, se as coisas saírem do controle eu posso pará-lo.
Ele suspirou, como se não tivesse resposta para aquilo.
se aproximou dele, ficando entre suas pernas, passando seus braços em torno do pescoço dele.
— Eu posso apagar as memórias do ataque do Soldado Invernal — sussurrou ela — Vai ser mais fácil pra você.
Bucky fechou os olhos, passando os braços em torno da cintura dela.
— Ninguém está te culpando pelo o que aconteceu, todo mundo sabe que não foi tua culpa — explicou — Ficar se martirizando não vai ajudar em nada, só vai prejudicar você, então… Me deixa apagar.
Bucky olhou fundo em seus olhos, eles estavam marejados e ela conseguia ver a dor que aquela lembrança estava causando nele.
Ele balançou a cabeça levemente, concordando e então apagou aquelas lembranças.
E ela torcia para aquela ser a última memória de um ataque do Soldado Invernal que ela teria que apagar.

V

— Essa vai ser a última sessão — disse , quando eles entraram na sala juntos na semana seguinte.
— Você disse a mesma coisa quatro sessões atrás — brincou ele.
Diferente do que esperava havia sido necessária mais de uma sessão para apagar completamente as memórias do Soldado Invernal, mas, ao menos Bucky estava colaborando.
— Eu estava tentando te poupar — explicou ela — É coisa demais, iria te sobrecarregar, mas, a sessão de hoje vai ser a última, eu prometo.
Bucky sorriu e ela sabia que ele não estava a levando a sério.
Poucos minutos depois, eles estavam em seu local habitual. Sentados em cadeiras, um de frente para o outro. pressionou o centro da mão de Bucky, e então seus dedos foram até a cabeça dele, seus polegares pressionaram as têmporas, e no mesmo instante eles foram levados para uma memória bem específica. A última memória restante, que havia sido a primeira do Soldado Invernal.
Era um lugar frio.
— Onde estamos? — fez a pergunta de sempre.
— Sibéria — respondeu Bucky, sua voz trêmula.
— Consegue se lembrar do que está acontecendo nesse momento? — perguntou ela.
— Eu quero sair daqui — a voz dele era preenchida com horror — Me tira daqui, , por favor…
— Bucky, precisamos passar pela memória inteira para apaga-la.
… — insistiu ele.
— Bucky, você só precisa aguentar mais um…
E então um grito de dor escapou pela garganta dele, e todos os detalhes daquela lembrança vieram de uma só vez.
As palavras sendo ditas, uma a uma. Um choque intenso acompanhando cada uma delas, como se agulhas quentes perfurassem seu cérebro. As ameaças, a dor, a sensação de estar prestes a morrer…
Bucky voltou a gritar, sentiu ele segurar seus pulsos, tentando afastar suas mãos de sua cabeça, mas, ela tentou se manter firme.
— Está quase acabando, Bucky — ela tentou parecer forte, mas, estava sendo impossível até mesmo para ela continuar vendo aquela cena.
— Por favor… — a voz falha dele pediu.
— Só mais um pouco…
E com um último grito de dor a lembrança se tornou uma mancha negra.
sentiu a cabeça de Bucky se tornar mais leve entre suas mãos. Ele havia desmaiado, e ela sentiu que não demoraria a acontecer com ela também.
Ela só teve tempo de chamar por ajuda antes de apagar.

VI

— Eu lembrei de você — Steve disse, ao sentar-se na cadeira ao lado de .
Um dia havia se passado desde a última sessão com Bucky e agora eles estavam prestes a fazer o teste definitivo para saber se o Soldado Invernal havia sido apagado.
Steve, e Bucky estavam aguardando T'Challa para então começarem.
— Eu contei para o Steve sobre a nossa história dos anos 40 — Bucky explicou.
— Eu sempre tive a impressão de te conhecer de algum lugar — Steve comentou — E depois que o Bucky me contou o que havia acontecido, as memórias começaram a voltar.
sorriu.
— Eu provavelmente conseguia manipular memórias naquela época também, talvez por isso ninguém consiga lembrar que essa existiu — comentou — Mas, e então? Como nos conhecemos? Eu não consigo me lembrar de muita coisa também.
— Você estudava comigo na escola de artes — Steve comentou — Eu tive uma crise de asma, estava sem meu remédio e então você me ajudou. Você tinha asma também e me deu o teu remédio.
Os olhos de se arregalaram.
— Stevie. — disse, finalmente lembrando — Você era… menor.
Steve riu.
— Mas, você continua igual — disse ele.
— Isso ainda é um pouco surreal pra mim — comentou .
E então, T'Challa chegou.
e Bucky se entreolharam. Ela segurou a mão direita dele, sussurrando um "vai dar tudo certo".
E ela esperava estar certa.

VII

Steve era quem falaria as palavras, receava que se ela dissesse, pudesse influenciar Bucky de alguma forma, por isso, ela ficou de pé, ao lado do rei de Wakanda. Nakia, Okoye e M'yra estavam do outro lado da sala, prontas para qualquer incidente, e torcia para que não houvesse nenhum.
Bucky sentou em uma cadeira no meio da sala, Steve ficou de pé de frente para ele, e após receber um aceno de cabeça de , ele começou:
— Saudade. — disse em russo.
Bucky permaneceu na mesma posição em que estava, seus braços apoiados nas pernas, encarando o chão.
— Enferrujado… — prosseguiu — Dezessete… Aurora...
pressionava o centro de sua mão com força. Ela não via nenhuma mudança no comportamento de Bucky, mas, sabia que se sua terapia tivesse falhado, o Soldado Invernal poderia aparecer a qualquer minuto.
— Forno… — continuou Steve — Nove… Benigno…
percebeu que Bucky estava fazendo o mesmo que ela, pressionando o centro de sua mão e aquilo não poderia ser um bom sinal, se ele estava tentando se acalmar era porque tinha algo errado.
— Volta para casa… — um sorriso discreto surgiu nos lábios de Steve ao perceber que o amigo não estava reagindo a nenhuma palavra, mas, não gostava de comemorar antes da hora.
— Um…
sentiu suas mãos tremerem, faltava só uma palavra…
— Vagão de Carga. — Steve concluiu.
encarou Bucky por alguns segundos, segurando sua respiração. Ele levantou os olhos e encarou Steve.
— Qual o seu nome? — Rogers perguntou.
Bucky ficou em silêncio por alguns segundos e quando achou que ele iria levantar daquela cadeira como o Soldado Invernal, ele respondeu:
— Bucky. O meu nome é Bucky.
sorriu.
Ela havia conseguido. Ela havia tirado tudo o que a Hydra colocara dentro da cabeça dele. Mas, aquilo também significava que Bucky estava curado, ele não precisaria mais dela.
A hora de ir embora havia chegado.

Esgotado aqui com humilde dor, eu minto

"Os passeios de barco que nós tivemos,
O luar no lago, o jeito que dançamos e cantarolamos nossa música favorita.
As coisas que fizemos no verão passado.
Lembrarei delas por todo o inverno"

The Things We Did Last Summer, The Letterman


Naquela noite, sonhou novamente com outra memória.
O ano era 1943 e ela estava de volta à Nova York depois de oito meses em Los Angeles, e aqueles sete meses haviam sido um pesadelo, ela nunca trabalhara tanto em sua vida, o estilista havia tomado quase todo o lucro para si mesmo e aguentou até onde conseguiu, mas, a pressão, e principalmente estar longe de Bucky, haviam feito ela desistir.
Ela estava de volta há quase uma semana, e a irmã de Bucky havia dito que ele retornaria do treinamento naquele dia. E agora, estava sentada na escadaria do lado de fora do prédio onde ele morava, esperando ele chegar para admitir que estava errada.
Segundo a irmã dele, Bucky estava na exposição de tecnologias junto com Steve e provavelmente chegaria tarde, mas, estava disposta a esperar, talvez ainda não fosse tarde demais. Mas, quando viu ele se aproximando, usando aquele uniforme militar, seu coração apertou. Ele iria para a guerra em breve.
? — perguntou, quase sem acreditar que era ela.
— Barnes. — ela o cumprimentou.
Ela havia imaginado aquela cena de uma forma diferente, os dois se abraçariam, se beijariam, ele a perdoaria e eles ficariam bem, mas, uma atmosfera desconfortável havia se instalado entre eles.
— Sargento Barnes — corrigiu ele, apontando para suas roupas — O que está fazendo aqui?
inspirou fundo, Bucky parecia diferente — o que não era de estranhar, eles ficaram oito meses sem se falar, e na última vez que se viram ela havia desistido de casar com ele.
— Eu fui uma idiota — admitiu ela.
Bucky a encarou com a sobrancelha levantada, um sorriso querendo se formar no canto de seus lábios, quase como se ele quisesse dizer: "Eu te avisei".
— Esses últimos meses foram um inferno, esse estilista conseguiu ser mais insuportável que aquela francesa, eu trabalhei o dobro do que costumava trabalhar e não recebi nem metade do que ele me prometeu, mas... Eu conseguiria aguentar tudo isso Bucky, se não fosse você. Eu senti a tua falta todos os dias, e a cada momento eu me arrependia de ter te deixado — suas mãos se mexiam constantemente, como se palavras não fossem suficiente para expressar o que ela sentia — Eu sempre pensei que a guerra iria nos separar, mas, no fim das contas fui eu quem fez isso e tudo porque eu tinha medo de me comprometer.
Ele cruzou os braços, sua expressão se tornando mais séria.
continuou.
— Bucky, você foi ótimo pra mim durante todos esses anos, e eu deveria saber que você era o homem certo pra mim, mas, você sabe como eu sou… Eu tenho medo de me apegar às pessoas, porque todas as pessoas a quem eu me apeguei me deixaram, primeiro meus avós, depois meus pais, minhas amigas… Eu não tinha mais ninguém Bucky, ninguém além de você e eu tinha tanta certeza de que te perderia um dia que acabei te deixando antes que isso acontecesse. E agora… — ela inspirou fundo — Eu pensei que se eu voltasse poderíamos ficar juntos, mas, parece que é tarde demais — apontou para o uniforme dele — Eu queria ter voltado antes — lamentou, com tristeza percebendo que já era tarde demais.
Bucky ficou em silêncio, e aquilo a torturava. Ela queria que ele dissesse alguma coisa. "Está tudo bem" ou "Você veio tarde demais" até mesmo um "Eu estou com outra garota", não importava, ela só queria uma resposta, ela só poderia continuar vivendo se tivesse uma resposta.
E ainda sem falar nada ele deu alguns passos em sua direção, envolvendo seus braços em torno dela, a abraçando com todas as suas forças, afundando o rosto nos seus cabelos.
fechou os olhos, segurando o casaco dele com força, como se aquilo fosse impedi-lo de ir embora. Ela podia sentir lágrimas se acumulando em seus olhos, os soluços presos em sua garganta querendo sair a todo custo.
— Quando você vai? — sua voz saiu abafada.
— Amanhã — Bucky respondeu com a voz falha e aquilo foi o suficiente para as lágrimas que os dois seguravam corressem livres.
— Eu queria tanto que tivéssemos mais tempo — choramingou ela.
Bucky se afastou dela, o suficiente para poder olhá-la nos olhos. Ele secou as lágrimas do rosto dela, mesmo que seu próprio rosto estivesse coberto por elas.
— Ainda temos essa noite, é suficiente — ele tentou sorrir, mas, foi impossível.
— Uma vida não seria suficiente, Bucky — respondeu ela.
Ele sorriu, concordando.
— Promete que vai me escrever sempre que puder? — pediu .
— Promete que vai me esperar?
balançou a cabeça.
— Quanto tempo for necessário.
Bucky sorriu.
— Então temos um acordo.
E assim ele segurou o rosto dela, encostando seus lábios.
fechou os olhos, tentando gravar cada detalhe daquele momento, de como era a sensação dos lábios dele sobre os seus, tentando lembrar-se do toque dele em sua cintura, do cheiro dele… Porque sabia que eles ficariam muito tempo longe um do outro, e ela não sabia se seria capaz de aguentar a distância outra vez.
— Por que está chorando? — perguntou ele ao se afastar dela — Vai ficar tudo bem.
— Me prometa que vai voltar pra mim — ela pediu — Por favor, me diga que vai voltar pra mim.
— Eu vou voltar — Bucky garantiu, segurando a mão dela, só então percebendo que o anel de noivado ainda estava ali — Você ainda o usa?
observou o anel também.
— De alguma forma, eu sempre soube que voltaria pra você outra vez.
Ele sorriu, acariciando a mão dela.
— Vamos encontrar o caminho para o outro novamente.
— Promete?
— Prometo.


Quando acordou, lágrimas se acumulavam em seus olhos e soluços estavam presos em sua garganta.
Aquela cena estava prestes a se repetir outra vez.

II

— Quando você vai ir? — Bucky fez a pergunta que estivera adiando a noite toda.
Os dois estavam no jardim do terraço, deitados no chão, envoltos por flores azuis enquanto observavam o céu estrelado. Provavelmente já estavam ali há mais de duas horas, mas nenhum deles sabia ao certo, o tempo já não importava mais, pois, ambos sabiam que não restava muito tempo para ficarem juntos.
suspirou, encostando a cabeça no ombro de Bucky, encarando suas mãos entrelaçadas.
— Amanhã — respondeu ela.
— Eu queria que tivéssemos mais tempo — completou Bucky.
fechou os olhos. Aquele momento estava sendo exatamente como quando eles se despediram pela última vez nos anos 40. A mesma escolha de palavras, os mesmos sentimentos, mas, dessa vez era ela quem estava indo embora.
— Ainda temos essa noite — ela repetiu as palavras ditas por ele naquele dia — É suficiente.
— Você lembrou? — perguntou Bucky, podia dizer pela sua voz que ele estava sorrindo.
levantou sua cabeça para olhá-lo nos olhos e acenou em concordância.
— Naquela época eu disse que uma vida não seria o suficiente, mas, agora eu vejo que nem duas vidas são o bastante.
— Não precisa terminar aqui, .
Ela negou.
— Eu preciso ir embora, Bucky. Eu preciso encontrar meu irmão, descobrir por que ele fez o que fez e se ainda há alguma forma de ajuda-lo — explicou — Eu queria ficar com você, mas… Não podemos.
— Estamos cometendo o mesmo erro do passado, — disse Bucky — Nos encontramos de novo por uma razão, não podemos ignorar isso e seguir nossas vidas separados.
desviou o olhar dele. O momento que ela tanto adiara havia chegado.
Ela sentou, vendo Bucky fazer o mesmo, a encarando com um olhar preocupado.
— Você está certo, não podemos ignorar, mas, eu posso apagar essas lembranças de você…
Ela viu a mágoa se acumular nos olhos dele.
— Não! Você prometeu que não iria apagar — ele suplicou, olhando fundo em seus olhos, implorando para que ela não o fizesse.
— Vai ser melhor assim, Bucky…
— Não, não vai! — ele esbravejou — , eu não quero me esquecer de você.
— Eu vou manter as memórias do que aconteceu nos anos 40, Bucky.
, você não pode…
— Eu sei o que é melhor pra você, Barnes…
— Então sabe que é melhor que eu me lembre de você.
— Bucky… — ela pediu com a voz falha — Não torne isso mais difícil do que já é.
, eles tiraram tudo de mim — disse Bucky, segurando as mãos dela entre as suas, seus olhos claros fitando os seus pareciam ser capazes de olhar a sua alma — Eles tiraram a minha família, o Steve, as minhas memórias, a minha opção de escolher, tiraram a minha liberdade… Então, por favor, . Não tire mais uma coisa de mim.
Ela inspirou fundo, só então notando que estivera prendendo a respiração.
desvencilhou suas mãos, levando-as até o rosto dele, secando uma lágrima solitária que corria em sua bochecha.
— Eu sinto muito — ela sussurrou, antes de levar sua outra mão até a cabeça de Bucky e pressionar seus polegares nas têmporas dele.
Ela sentiu ele segurar seu pulso com a mão direita, assim como ouviu os gritos de protestos, mas, ela já estava acessando as memórias.
Aquela seria a pior parte, sabia. Eles teriam que reviver as memórias para conseguir apaga-las e ela temia fraquejar naquele momento.
— Pare com isso! — pediu Bucky, desesperado — Você não pode fazer isso, você não pode…
Ela tentou ignorá-lo, somente observando a cena que se construía à sua frente:
Fora a primeira vez que eles se viram.
Bucky estava de pé conversando com Steve e T'Challa, tentando alertá-los de que poderia machucar a garota que T'Challa havia dito que poderia ajuda-lo, mas, apesar de estar atento ao que os outros dois falavam, seus olhos permaneciam presos à garota sentada no sofá branco a poucos metros deles.
Os olhos dela encaravam o teto branco, seus lábios se mexiam sem emitir som algum, sua cabeça balançava levemente, como se ela estivesse cantarolando alguma música.
De alguma forma ele sentia que já havia visto ela em algum lugar.

, eu não quero apagar você — insistiu ele — Me escuta.
Ela não respondeu.
"Ela estava em alguma missão do Soldado Invernal?" Bucky questionou mentalmente, ainda observando o rosto dela, aqueles traços eram tão familiares para ele.
E então, ela desviou o olhar do teto e encarou diretamente os olhos dele, a troca de olhares durou apenas alguns segundos, antes que Bucky se virasse para Steve que continuava falando alguma coisa sobre estarem ficando sem opções.
Ele conhecia aquela garota, ele tinha plena certeza disso, e mais do que conhecer… Havia um sentimento ali… Por alguma razão ele se importava com ela, apesar de ela ser somente uma estranha, ele queria protege-la, e essa era só mais uma razão para mantê-la longe dele.

, por favor — Bucky suplicou, ela se manteve em silêncio outra vez, mas, um soluço escapou de sua garganta.
Ela estava chorando.
T'Challa chamou o dela: .
Aquele nome soava familiar para Bucky, mas, era difícil lembrar.
Ele pediu para ela explicar como seus poderes funcionavam e após se aproximar deles ela começou a falar.
A voz dela era familiar também.
Ela olhava diretamente para ele, mas, ele não conseguia sustentar o olhar nela por muito tempo. Aqueles olhos eram tão familiares e um sentimento estranho tomava conta dele quando olhava para ela, algo parecido com ansiedade, com pesar, com… culpa?
Ela explicou que poderia trazer as memórias que ele havia esquecido de volta, assim como poderia apagar as memórias deixadas pela Hydra.
" Isso vai resolver?" perguntou ele a Steve.
Ele não conseguia falar diretamente com ela, sentia-se como um adolescente tímido que está convidando a garota popular da escola para o baile.
Bucky nunca se sentira daquela forma.
"Vai?", Steve perguntou para ela.
"Vai", ela afirmou.
Bucky confiou nas palavras dela.

Mas, no minuto seguinte aquela lembrança virou pó, e Bucky não conseguia lembrar mais o que ela havia apagado, mas, sabia que ela continuaria o fazendo.
, por favor, pare com isso… Eu não quero esquecer você.
sabia que deveria se manter firme. As memórias mais difíceis ainda estavam por vir e ela não poderia fraquejar. Ela já havia começado e precisaria ir até o fim, não importava o quanto a machucasse.
Mas, então, ela sentiu a mão gélida de metal segurar seu outro pulso, Bucky não estava impondo força, mas, ela sabia que era uma forma de implorar para que ela parasse.
… — ele pediu outra vez, sua voz embargada. Ela sabia que o que estava fazendo era uma tortura para ele.
— Bucky, eu… — ela cometeu o erro de responder.
Sua voz chorosa deixava claro o quanto ela estava vulnerável.
Bucky, provavelmente percebendo isso soltou seus pulsos e por um momento ela pensou que ele houvesse desistido, mas, então, as mãos dele seguraram seu rosto, não demorou para sentir os lábios contra os seus.
E aquilo foi o suficiente para se desconcentrar.
As memórias e sentimentos se acumularam nela, imagens que ela não conseguia decifrar ou organizar preencheram sua mente, sua visão estava embaçada, como se ela estivesse assistindo aquelas lembranças em uma televisão antiga.
tentou focar-se outra vez, mas, era impossível. Os sentimentos de Bucky estavam intensos demais, as memórias dos dois se repetindo ao mesmo tempo e aquilo era demais para ela aguentar.
Tudo o que ela sentiu foi o corpo de Bucky fraquejar, antes de as memórias se tornarem uma mancha escura.

III

Na tarde do dia seguinte, estava na Quinta Avenida em Nova York, quase ficando tonta pela quantidade de gente andando de um lado para o outro, apressadas.
De fato, depois de meses isolada na África, ela havia desacostumado do ritmo de uma cidade grande, e no fundo estava sentindo falta da paz de Wakanda.
Os carros pararam e acompanhou o fluxo para atravessar a faixa de pedestres, tentando caminhar o mais rápido possível sem tropeçar em seus próprios pés, olhando para os lados, esperando que qualquer coisa tomasse sua atenção, mas, estava impossível.
A quem ela queria enganar? Ela não estava somente sentindo falta de Wakanda, ela sentia falta de Bucky. E era essa a razão para ela olhar tanto para os lados, ela estava procurando por ele ali, mesmo sabendo que não o encontraria.
Na noite anterior, depois que Bucky desmaiara, havia desistido de apagar a memória dele, devolvendo a lembrança de quando eles se viram pela primeira vez, se arrependendo de tê-la apagado. Era injusto fazer aquilo, Bucky já havia perdido tanta coisa, e mesmo que eles não pudessem ficar juntos, ela deveria pelo menos deixar que ele ficasse com as lembranças que os dois tiveram juntos. No fim das contas, são as lembranças que ficam, são elas que fazem tudo valer a pena. não poderia tirar aquelas memórias dele, mas, gostaria de poder tirá-las de si mesma. Era impossível continuar sem ele, sabendo que ele estava em Wakanda, que bastava a decisão de voltar para lá para eles ficarem juntos.
Mas, ela sabia o que era o certo a ser feito. Ela precisava encontrar seu irmão, resolver os assuntos com ele, e depois tentar se resolver com Alexis.
T'Challa havia dito que ela poderia voltar para Wakanda quando quisesse, que poderia levar seu irmão para lá onde eles estariam seguros. Mas, ela precisava garantir que ninguém sairia prejudicado se ela tomasse essa decisão, talvez, se conseguisse resolver tudo, um dia pudesse devolver as memórias aos seus pais. Um dia, talvez, pudesse voltar para Wakanda e reencontrar Bucky, mas, algo dizia que esse dia estava longe de chegar.

IV

agradeceu quando uma garçonete colocou a xícara com café preto sobre a mesa e então voltou a encarar a rua movimentada do lado de fora daquela lanchonete pela janela.
Havia começado a garoar e buscou abrigo no primeiro lugar que encontrou, e só quando entrou lá e sentiu o cheiro de bolo recém-tirado do forno, percebeu que estava faminta e exausta.
Ela havia caminhado durante a manhã toda por aquela região, tentando encontrar seu irmão, mas, não havia tido sinal algum. pegou o caderno em sua bolsa e conferiu o endereço que T'Challa havia lhe dado, segundo ele, era naquele local que Luke estivera se escondendo, mas, ao chegar lá, tudo o que ela havia encontrado era um apartamento vazio.
Ela passou a mão pelo rosto, suspirando. Pegou a caneta na bolsa e começou a rabiscar na folha em branco ao lado do endereço. No início ela não sabia exatamente o que estava desenhando — e se surpreendeu com quão bom o desenho estava ficando — mas, logo percebeu que era a paisagem que ela via todos os dias do jardim do terraço em Wakanda, e logo um rosto começou a se formar, ela o reconheceu como sendo o de Bucky.
Talvez no fundo ela tivesse algum talento para desenhar.
estava tão imersa rabiscando no caderno que não percebeu quando alguém sentou na cadeira ao lado da sua, só percebendo que havia alguém ali quando essa pessoa limpou a garganta.
— Não é educado ignorar os outros, sabia?
Ela reconheceu imediatamente aquela voz.
— Bucky? — perguntou, encarando o homem sentado ao seu lado.
Ele estava diferente. Havia feito a barba, usava um boné, uma jaqueta de couro preta sobre uma blusa azul escura, e luvas pretas, é claro, a fim de esconder a mão de metal.
— O que está fazendo aqui? — sussurrou ela, mesmo que sua voz demonstrasse um tom de empolgação.
— Vim atrás da minha garota, eu lembro que havia prometido que iria ensinar ela a dançar, e sempre cumpro minhas promessas. — explicou ele sorrindo.
Mas, não parecia nem perto de estar feliz.
— Você não deveria estar aqui, é perigoso… E se alguém te reconhecer?
Bucky rolou os olhos.
— Isso não importa, agora eu já estou aqui e você tem que aceitar isso, além de tudo, você deixou que eu ficasse com as memórias, eu entendi como um recado subliminar para eu vir atrás de você.
balançou a cabeça em negação, fechando o caderno e encostando suas costas na cadeira. Um pequeno sorriso passava a se formar em seus lábios, o que fez Bucky sorrir também. Apesar de tudo, ela estava feliz que ele tivesse vindo atrás dela.
— Está brava comigo? — perguntou ele, puxando sua cadeira para mais perto dela.
— Eu estou furiosa, Barnes — respondeu, mas, o sorriso em seu rosto dizia o contrário.
Bucky passou o braço sobre os ombros dela e permitiu-se encostar a cabeça nele. Por um momento, eles se sentiram como um casal normal.
— Conseguiu encontrar ele? — perguntou Bucky.
balançou a cabeça.
— Ainda não, ele não estava no apartamento. Deve ter previsto que alguém iria atrás dele e então fugiu — explicou, a decepção evidente em sua voz.
— Qual o plano agora? — perguntou.
— Vou continuar esperando. É provável que ele tenha uma visão relacionada a mim e venha me encontrar.
— Isso significa que você está livre hoje à noite? — perguntou Bucky, sorrindo.
se afastou dele, somente para encará-lo nos olhos.
— No que está pensando, Barnes?
Ele deu os ombros.
— Quero ter um encontro de verdade com você — explicou, segurando a mão dela com a sua mão livre.
sorriu.
— Não me parece uma má ideia — respondeu, aproximando seu rosto do de Bucky, selando seus lábios aos dele.

V

— Onde estamos? — Bucky perguntou, após eles descerem do táxi.
— Brooklyn — respondeu — Pelo o que eu consigo me lembrar era nesse lugar exatamente que eu morava — ela observou o local ao seu redor, uma pracinha, com algumas poucas árvores e alguns bancos de madeira espalhados por ali, o lugar era cercado por prédios altos — Não era assim que eu me lembrava — concluiu, entrelaçando seu braço ao de Bucky, o puxando para sentarem em um dos bancos.
A garoa havia passado, e apesar do clima frio, o sol começava a aparecer em meio às nuvens. observou o céu por alguns minutos, sua cabeça encostada no ombro de Bucky, ela podia parecer serena, mas, seu pé se mexendo constantemente indicava que ela não estava tão tranquila quanto aparentava.
— No que está pensando? — perguntou Bucky.
suspirou.
— Você escreveu pra mim enquanto estava na guerra, como havia prometido — comentou ela, Bucky balançou a cabeça concordando — Eu lembrei de algumas cartas que você me enviou — um sorriso surgiu em seus lábios ao lembrar das mensagens — Você sempre dizia que me amava e garantia que ia voltar pra mim.
— Essa foi a única promessa que eu não consegui cumprir, não é? — lembrou ele.
levantou sua cabeça, somente para olhar nos olhos dele e balançar a cabeça negando.
— Você está aqui, não está? Acho que a promessa foi cumprida.
Bucky sorriu, envolvendo seu braço em torno da cintura dela, puxando-a para mais perto.
— Mas, não é isso que está te incomodando — disse ele, como se fosse capaz de ler os seus pensamentos.
— Eu só estava pensando… — ela fez uma pausa, procurando as palavras certas — Como deve ter sido quando eu descobri que você tinha morrido na guerra? — questionou — Eu me lembro de ter recebido uma carta, eu pensei que era tua, mas, era do exército, lamentando a tua morte, mas… Eu não me lembro de mais nada depois disso.
Bucky depositou um beijo no topo de sua cabeça, a abraçando com mais força.
— Lembra o que você me disse na nossa primeira sessão? — perguntou ele.
riu.
— Eu disse tanta coisa…
— Você me disse que a nossa mente muitas vezes nos protege das lembranças que podem nos prejudicar, talvez não se lembrar disso seja o melhor pra você. — concluiu ele.
E sabia que ele estava certo, e era justamente isso que a deixava com medo. O que poderia ter acontecido de tão grave após isso para que ela não conseguisse acessar essa memória?
— Não pense muito sobre isso — Bucky pediu — Estamos aqui, agora. É isso o que importa.
Com aquilo, prometeu pra si mesma que se permitiria viver o momento durante o resto daquele dia, sem se importar com o passado ou com o futuro. Eles tinham um ao outro naquele momento, e não sabiam por quanto tempo mais seria assim.

APAGUE CADA IDEIA BRILHANTE DOS CÉUS

"Parece como nos velhos tempos, jantares, encontros e flores,
Como nos velhos tempos, ficando acordado por horas,
Sonhos tornando-se realidade, fazendo coisas que costumávamos fazer,
Parece como nos velhos tempos, estar aqui com você"

Seems Like Old Times
Vaughn Monroe

encarou seu reflexo no espelho do quarto do hotel, ajeitando o vestido rosa claro em seu corpo. As mangas dele iam até a altura de seus cotovelos, a cintura era marcada por uma faixa com um laço nas costas e a saia reta caía até um pouco abaixo de seus joelhos. Os sapatos oxfords em seus pés eram de uma cor semelhante à do vestido, e o batom vermelho em seus lábios somado aos cachos em seu cabelo, faziam ela se sentir de volta aos anos 40.
A garota encarou o relógio em seu pulso, pegando sua bolsa e o sobretudo branco sobre a cama. Bucky havia pedido para ela o encontrar na recepção do hotel onde eles estavam hospedados às 19 horas, e ela já estava quase atrasada.
Ao chegar à recepção os olhos de percorreram todo o local, tentando encontrar Bucky no meio das poucas pessoas que estavam ali, mas, sem muito sucesso. Foi quando ela sentiu uma mão tocar seu ombro, se virou e então pode vê-lo.
Bucky estava bem na sua frente, seus cabelos estavam penteados para trás, dando a ela a visão perfeita de seus olhos claros. Ele usava um terno cinza, sobre uma camisa branca e um colete preto.
— Pronta? — perguntou ele, estendendo a mão coberta por uma luva para .
Ela segurou a mão dele e ele a levou até seus lábios, depositando um pequeno beijo ali.
— Pronta — afirmou, entrelaçando seu braço ao de Bucky, seguindo para fora do hotel.

II

— Eu sou capaz de apostar que o Steve sequer sabe que você está aqui — disse, enquanto tomava mais um pouco de vinho.
Eles já estavam no restaurante há quase uma hora, mas, ainda continuava olhando encantada para a decoração do lugar. Bucky não poderia ter escolhido um lugar melhor para aquele encontro.
A decoração do lugar era inspirada nos anos 40, jazz tocava ao fundo e havia diversos recortes de jornais da época emoldurados nas paredes, assim como fotos em preto e branco.
— A essa altura ele já deve saber — Bucky comentou, dando os ombros.
— Então, você realmente não contou pra ele que estava vindo pra cá? — perguntou ela indignada.
— Ele jamais ia permitir que eu viesse — retrucou ele, enchendo sua taça com mais vinho — O único que sabe que eu vim pra cá é o T'Challa, e com certeza ele já contou para o Steve.
— Aposto que no máximo, até amanhã de manhã, o Steve já vai estar aqui atrás de você — comentou , rindo.
— Mas, eu não vou embora daqui sem você — assegurou ele, o que fez o sorriso no rosto de diminuir.
— Bucky, eu não sei quanto tempo eu… — começou ela, mas, ele a interrompeu.
— Não vamos falar sobre isso, tudo bem? — pediu, segurando a mão dela sobre a mesa — Vamos aproveitar a noite.
sorriu, mas, era difícil aproveitar o momento quando se sabia que eles jamais teriam um encontro como aquele outra vez.

III

— Pensei que tivesse dito que não sabia dançar — provocou Bucky, enquanto eles se moviam lentamente em meio a outros casais, acompanhando a música lenta.
Os braços dele estavam na cintura dela, enquanto os dela estavam apoiados nos ombros dele.
— Eu nunca tinha tentado dançar — explicou ela, dando os ombros.
E então o silêncio se instalou entre eles, tudo o que se podia ouvir era a música, Who am I de Frances Langford e Kenny Baker, e de alguma forma, não sabia exatamente como, ela conhecia toda a letra daquela música, mesmo que aquela fosse a primeira vez que a ouvia.
fechou os olhos, encostando sua cabeça no peito de Bucky, as vozes das outras pessoas de repente se tornando somente murmúrios distantes. Era como se de repente só houvesse os dois ali, sem mais nada, nem ninguém.
— Eu poderia ficar assim pra sempre — sussurrou ela, sentindo os braços de Bucky a puxarem para mais perto dele e um beijo ser depositado no topo de sua cabeça.
Podemos ficar assim pra sempre — respondeu ele.
suspirou.
"Não, não podemos", era o que ela queria dizer. Havia uma lista enorme com todas as razões pelas quais eles não poderiam ficar juntos, mas, ela não ousou mencionar nenhuma naquele momento.
Aquela seria uma das lembranças mais fortes que ela teria, e não ousaria transformá-la em uma memória ruim.

IV

e Bucky caminhavam de volta para o prédio, o braço de enroscado ao dele, enquanto seus olhos estavam fixos no céu estrelado.
— Você nunca me disse no que iria se formar quando teve que deixar a universidade — ele quebrou o silêncio, olhando para ela que ainda mantinha os olhos presos ao céu.
— Direito — respondeu ela — Eu iria ser uma advogada — ela riu, como se aquela ideia parecesse absurda agora.
— Você leva jeito pra isso — respondeu ele — Sabe, você é durona e não aceita ser contrariada.
— Esses sempre foram meus maiores defeitos — comentou ela rindo.
— Acho que são as suas maiores qualidades — disse ele, sério. encarou seus olhos claros — Se não fosse a tua teimosia e insistência, eu ainda estaria na criogenia.
balançou a cabeça concordando, um sorriso se formando em seus lábios.
— Talvez um dia eu consiga terminar a faculdade, sabe… Quando tudo isso passar — comentou ela, mas, no fundo sabia que aquilo estava longe de passar.
A tendência era que as coisas se tornassem cada vez piores.
— Sente falta da tua vida normal? — perguntou Bucky, assim que eles saíram do elevador e começaram a caminhar vagarosamente pelo corredor em direção aos seus quartos.
— Às vezes. — disse ela — Na verdade, o que eu sinto mais falta é dos meus pais, o resto… — ela deu os ombros — Não faz muita diferença pra mim. Além disso, se não fosse essa "vida nova" — ela fez aspas com os dedos da mão livre — Eu não teria conhecido você, e isso já é motivo mais do que suficiente para eu gostar de como minha vida está agora — concluiu sorrindo.
Bucky sorriu também, mas, seu sorriso foi aos poucos se desmanchando.
— Queria que tivéssemos nos conhecido em uma situação diferente — lamentou ele — Sabe… Sem Hydra, sem Soldado Invernal…
— Talvez se tivesse sido assim não teríamos criado os laços que criamos — ela o confortou.
— Eu sei mas… Não seria bom sermos só um casal normal? Sem nada para nos preocupar, sem essa sensação insistente de que pode ser a última vez que nos vemos? — perguntou ele, um tom de urgência preenchendo sua voz.
— Que graça teria? — brincou ela — Assim conseguimos aproveitar o momento. Não é o que você diz, Barnes? — perguntou ela, parando de andar quando chegaram em frente a porta do quarto dela. se virou para ele — Vamos aproveitar o momento — concluiu, envolvendo seus braços em torno do pescoço dele, ficando na ponta dos pés.
Bucky segurou sua cintura e se inclinou, até que seus narizes estivessem se tocando, até sentirem a respiração quente um do outro tocando suas bocas, e logo o espaço entre eles se fora. Seus lábios se tocaram delicadamente, e devagar o beijo fora se intensificando, os desligando do resto do mundo, colocando-os em uma redoma onde nenhum problema poderia tocá-los.

V

ouvia uma música melancólica tocar ao fundo, mas, não a reconheceu. Seus olhos percorreram o espaço ao seu redor. Era um quarto. E considerando os móveis de madeira escura, o papel de parede florido e a decoração típica dos anos 40, ela soube que não se tratava de um sonho. Aquela era outra lembrança.
Havia várias cartas espalhadas sobre a cama onde ela estava, mas, somente uma estava em sua mão. forçou os olhos para conseguir ler o que estava escrito ali e quando conseguiu, sentiu um mal estar se apoderar de si quase que imediatamente.
Os trechos que ela conseguiu ler deixavam bem claro o que aquela carta significava:
"Lamentamos informar… James Buchanan Barnes… Morto em combate…"
sentiu suas pernas fraquejarem, seu coração parecia estar sendo esmagado, suas pernas começaram a tremer, e logo a sensação de que o chão havia sido removido de baixo de seus pés fez com que ela segurasse com força o lençol sobre sua cama.
Ela estava tonta, tonta demais para absorver aquelas palavras, seu eu interior gritava que aquilo era uma mentira, que era um engano, um pesadelo horrível do qual ela não poderia acordar, e foi essa negação que impediu que as lágrimas caíssem a princípio, mas, logo foi impossível segurar.
Os soluços escaparam de sua garganta, as lágrimas começaram a correr por seu rosto, ela se inclinou, afundando o rosto em suas mãos, deixando a carta cair.
Não podia ser verdade, Bucky havia prometido que iria voltar, ele jamais quebrava uma promessa, mas, quando ela voltou a encarar a carta percebeu que aquilo era real. Bucky estava…
voltou a chorar com força, ela se recusava a dizer aquelas palavras, ela se recusava a aceitar que aquilo era verdade.
"Deve ter sido um engano", ela sussurrou mentalmente, escorregando seu corpo para o chão, abraçando suas pernas, tentando consolar a si mesma.
Mas, tudo o que ela conseguiu fazer foi ficar ali, sentada no chão, chorando por horas, esperando alguém dizer que era mentira, esperando aquela dor passar, mas, quando percebeu que nada disso aconteceria, ela entendeu que só havia uma opção.
secou as lágrimas em seu rosto e caminhou com os pés descalços até a sacada do apartamento. Seus olhos encararam a rua pouco movimentada lá em baixo, e ela sentiu seu estômago embrulhar. Mesmo que odiasse altura, ela sabia o que deveria fazer.
Ela era incapaz de viver sem Bucky. Ela não tinha mais seus pais, não tinha nenhuma família. Ela não tinha um emprego, sua situação financeira parecia longe de melhorar… Tudo o que ela tinha era Bucky, e agora sem ele, ela só tinha aquele sentimento de estar morrendo por dentro… Sua vida não iria melhorar, não havia razão nenhuma para continuar se arrastando.
pegou a cadeira que sempre ficava por ali, a encostou na grade de proteção da varanda e então subiu nela.
Seu pé nu se estendeu para frente, ela sentiu o vento gélido tocá-lo e então inspirou fundo.
Ela estava pronta.


VI

acordou com um sobressalto, e como esperado, lágrimas cobriam seu rosto, soluços estavam presos em sua garganta e sua respiração estava acelerada.
— Está tudo bem? — ela ouviu a voz sonolenta de Bucky perguntar.
E secando as lágrimas em seu rosto, ela murmurou um sim, esperando tê-lo convencido.
Ele a abraçou pela cintura, puxando o corpo dela para mais perto do seu. E mesmo que estivesse cansada, ela não tentou dormir outra vez.
não queria saber como aquela lembrança, e provavelmente como sua antiga vida, terminava.

Seu Coração Ainda Dita E Sua Mente Obedece

"Estamos aprendendo a esquecer o medo,
Estamos quase felizes por aqui
Mas às vezes acordamos à noite e choramos.
Minha irmã e eu nos lembramos
Do dia em que nos despedimos e depois partimos.
E pensamos em nossos amigos que tiveram que ficar,
Mas nós não falamos sobre isso."

My sister and I, Jimmy Dorsey


observou o relógio em seu pulso pela décima vez.
Faltavam dois minutos.
Quando acordara naquela manhã ela encontrou um pedaço de papel que havia sido colocado por debaixo da porta. O bilhete era direto:
"Me encontre no endereço abaixo às 8:30 em ponto, .
Não ouse se atrasar"

O endereço era o de um café, e já estava ali o esperando há quinze minutos. Não poderia perder a oportunidade de encontrar seu irmão.
Tem certeza que é ele? — perguntou Bucky, quando ela disse que iria encontra-lo.
— Lembra o que eu falei sobre não gostar de me chamarem pelo meu sobrenome? — perguntou — O Luke é o único que insiste em me chamar de .
Além disso, ela reconheceria aquela letra feia em qualquer lugar.
— E como ele sabia que você estava aqui? — insistiu Bucky.
— Quando estamos próximos ele consegue prever meu futuro mesmo sem tentar, provavelmente viu que eu estava aqui.

E depois disso, foi necessária mais meia hora para conseguir convencê-lo a deixa-la ir sozinha.
Ela tinha certeza de que, independente do que Luke fizera no passado, ele jamais a machucaria.
Pelo menos era nisso que ela acreditava.
— A mais velha chegando na hora? Estamos presenciando um milagre senhoras e senhores.
O corpo de congelou ao ouvir a voz de seu irmão, naquele comum tom bem humorado que ele sempre usava. Ela levantou da cadeira, se virando e ficando de frente para ele.
Apesar do tempo sem se verem, Luke ainda parecia o mesmo.
Seus cabelos estavam um pouco mais curtos, ele estava mais magro do que a última vez que ela o vira, mas, seu rosto continuava o mesmo, aquele sorriso brincalhão ainda estava lá, assim como aquela expressão infantil, mesmo que ele já tivesse vinte anos, aquela expressão de quem não poderia fazer mal a ninguém.
E era por isso que era tão difícil acreditar no que ele havia feito.
deu alguns passos na direção dele e o envolveu em um abraço. Ela sentiu os braços dele a rodearem e a levantarem levemente no ar.
— Eu senti tanta saudade — confessou ele.
— Eu também.
Eles se afastaram, e Luke segurou as mãos dela, tentando lhe transmitir força, como se sentisse que havia alguma coisa errada, como sempre fazia quando previa que alguma coisa ruim estava para acontecer. Ele conseguia ver através da máscara que ela usava, e sempre sabia quando ela estava passando por momentos difíceis.
— O que aconteceu? Por que está aqui? — perguntou Luke.
não respondeu, somente indicou a cadeira vazia na mesa onde ela estava, vendo ele se sentar.
— Eu pedi latte pra você — disse ela, indicando a xícara em frente a ele que havia chegado a pouco — Ainda é o seu favorito?
Luke tomou um gole da bebida.
— Sim, ainda é… — disse sorrindo, mas, logo sua expressão mudou — Eu não sei como você consegue tomar essa coisa horrível — resmungou, apontando para a xícara com café preto sem açúcar dela.
— E o momento fofo acaba de terminar, senhoras e senhores — cantarolou ela.
Luke sorriu.
— Senti falta de implicar com você — brincou ele — Mas, e então? O que tem feito nesses últimos anos?
inspirou fundo, pensando em tudo o que havia acontecido ultimamente e sua cabeça logo começou a doer.
— É uma longa história, mas, basicamente, eu fui pra África, um grupo criminoso me achou, mas, eu fui resgatada e fiquei refugiada em um país lá até vir para Nova York — tentou resumir, evitando demonstrar o quão horrível tudo aquilo havia sido — E você?
Luke suspirou.
— Eu nunca fui tão perseguido em toda a minha vida, nem mesmo quando estávamos todos juntos — explicou, mexendo no bracelete de contas coloridas em seu pulso, idêntico ao que tinha — Fiquei pulando de um lugar para o outro, saber quando iam chegar até mim me dava uma vantagem, o que tornou tudo mais fácil, pelo menos eles não conseguiram me pegar nem me machucar — murmurou ele — Mas, e você? Eles te machucaram?
balançou a cabeça.
— Eu os fiz esquecerem quem eu era e o que eu podia fazer, eles só estavam confusos o tempo inteiro, não sabiam se podiam me matar ou não, além disso eles começaram a achar que eu era uma bruxa, ficaram com medo, então, só me deixavam quieta em um canto — ‘em um cela, acorrentada e com uma camisa de força' ela queria acrescentar, mas, não o fez.
— Está bem, agora? — perguntou ele, um tom preocupado em sua voz.
balançou a cabeça confirmando, voltando a bebericar o café preto.
— Alguma notícia dos nossos pais? — perguntou ela.
Luke baixou a cabeça, como se não se sentisse confortável em falar sobre aquilo.
— Da última vez que eu soube, eles tinham comprado uma fazenda e estavam vivendo lá…
— Esse era o sonho deles — lembrou sorrindo.
— Eles só moravam na cidade por nossa causa, então… — Luke suspirou — Eles estão vivendo bem sem nós, mesmo que a gente não esteja vivendo bem sem eles.
pressionou os lábios, sentindo que poderia chorar a qualquer instante.
— Talvez um dia… — ela deixou a frase no ar, Luke sabia bem como ela terminava.
Talvez um dia ela pudesse devolver as memórias de seus pais e eles pudessem voltar a ser a família que sempre foram.
— Quem sabe… — completou Luke.
Os dois tomaram seus cafés em silêncio, mas, havia uma coisa que continuava martelando na cabeça de .
— Quem estava perseguindo você? — perguntou ela.
Luke deu os ombros.
— Os mesmos de sempre — respondeu como se não fosse nada demais — Eu pensei que depois de tudo o que aconteceu a Hydra desistiria, mas, eles pareciam ainda mais motivados — ele voltou a encarar seu bracelete, como se alguma coisa o estivesse incomodando.
ponderou por alguns segundos. Como assim a Hydra estava atrás dele? Ele havia quebrado o acordo com eles? Aquilo não fazia sentido.
— Não foi você, não é? — Luke perguntou com a voz fraca, encarando nos olhos.
Ela franziu as sobrancelhas, as dúvidas em sua cabeça somente se multiplicando.
— Não fui eu, o quê? — perguntou confusa.
Ele não respondeu, somente desviou o olhar dela, encarando as flores do vaso no centro da mesa como se fossem mais interessantes.
— Luke? — insistiu ela.
Ele inspirou fundo.
— Não foi você que… Que mandou eles atrás de mim, foi? — ele voltou a encará-la.
— Por que eu faria isso? — perguntou indignada — Eu jamais faria algo assim com você, Luke, você sabe que essa história de olho por olho não se aplica a mim.
Foi a vez dele a olhar com confusão.
— Do que você está falando? — perguntou ele.
bufou, não acreditava que ele iria fazer aquele joguinho com ela.
— Luke, eu sei de tudo…Eu sei que o que você fez com a Alison — sussurrou, vendo os olhos dele se arregalarem — Eu sei que você estava ajudando a Hydra a nos encontrar…
eu… — ele colocou as mãos na cabeça — Eu não estou entendendo nada, eram vocês que estavam com a Hydra.
Uma expressão confusa se instalou no rosto dela.
— Luke, era você quem estava fazendo isso, a Alexis me contou.
A expressão no rosto dele mudou, como se ele tivesse acabado de entender tudo.
— Alexis? — perguntou ele, balançou a cabeça concordando — Só podia ser, a maldita enganou a própria irmã também.
— Do que você está falando? — insistiu impacientemente.
Então Luke se inclinou na direção de , ficando mais próximo dela.
— Quando fomos sequestrados pela Hydra, eu e a Alison, eles nos ofereceram um acordo…
Ajudar eles a nos encontrar em troca de liberdade e dinheiro. Eu sei disso Luke, todo mundo sabe que você aceitou o acordo e a Alison recusou…
— Não foi isso o que aconteceu — Luke sussurrou em um tom urgente — Eu recusei.
O tom de voz dele quase parecia sincero.
— Não tente mentir pra mim, Luke. Eu te conheço a minha vida toda, eu vi como você estava estranho depois que voltou do cativeiro.
Luke bufou.
, me escuta — pediu — Eles me disseram que se eu recusasse, eles achariam outra pessoa para fazer isso e eu seria preso.
— Então você aceitou — deduziu ela.
— Eu já mandei você me escutar — os sussurros dele começavam a se tornar altos demais — Eu recusei. Eu vi tudo o que a Hydra nos obrigaria a fazer, lembra? Você viu aquilo também, eu jamais ajudaria eles, mas, eu tinha certeza que alguém do nosso grupo ajudaria, era por isso que eu estava estranho, eu suspeitava de todo mundo, a princípio eu pensei que fosse o Joe Mitchell, ele nunca foi muito confiável, mas, quando eu fugi com as irmãs Pazzi eu descobri que a Alison havia aceitado o acordo, era ela quem estava nos entregando. Você nunca percebeu o padrão? — perguntou ele — Sempre nos separávamos, em trios ou em duplas, e sempre o grupo a ser atacado pela Hydra era aquele em que a Alison estava, porque era o único grupo do qual ela sabia a localização.
sentiu sua cabeça girar.
Aquilo não podia ser verdade, Alison havia sido sua melhor amiga durante aquela época, fora Alison quem ajudara ela a fugir do dormitório da universidade quando aquele massacre começou, ela havia curado o braço quebrado de após o ataque que eles sofreram no Canadá. Ela havia abraçado após seu irmão prever que a Hydra iria atrás de seus pais e os mataria. Ela disse para que tudo ficaria bem, que eles encontrariam uma forma de enfrentar aquilo juntos, quando ela já sabia de tudo. Quando ela era responsável por tudo.
— Você está bem? — perguntou Luke.
balançou a cabeça concordando, mesmo que não se sentisse nada bem.
— A Alexis sabia? — perguntou com a voz trêmula, ela não suportaria saber que foi enganada por suas duas melhores amigas.
Luke balançou a cabeça.
— Eu acho que não, a Alison era manipuladora e não colocaria o plano em risco, e nós dois sabemos que a Alexis nunca foi boa guardando segredos — se viu obrigada a concordar — Além disso, a Lexis não concordaria com o plano da Hydra, talvez por ela ser a mais nova entre nós seis, eu sempre achei ela muito ingênua, a Alison era o exemplo dela, ela tinha a irmã em um pedestal, então, aposto que a Alison encheu a cabeça dela de mentiras e ela acreditou.
ficou em silêncio por alguns segundos. Até fazer a pergunta que tinha mais medo de ouvir a resposta.
— O que aconteceu com a Alison? — perguntou, sua voz falha — Como ela morreu?
Luke suspirou, passando a mão pelo rosto, nervosamente.
— Nós tínhamos alugado um quarto em um hotel que ficava perto de um posto de gasolina, precisávamos de um plano para encontrarmos vocês na Carolina do Norte, como havíamos planejado, mas, eu e a Alison não concordávamos de jeito nenhum. Eu tinha um plano simples, que nos levaria até lá em segurança, mas, ela não concordava de forma nenhuma, o que agora não me surpreende, ela queria que eu fosse pego, e o plano dela me levaria direto para uma armadilha — ele fez uma pausa, tomando mais um gole de latte — Nós discutimos muito naquela viagem, e estava sendo impossível ficar no mesmo carro que ela, por isso paramos no hotel. A Alison ficou no quarto, a Alexis foi comprar alguma coisa para comermos na loja de conveniência e eu fui abastecer o carro. Quando voltei para o hotel, ouvi pelo lado de fora da porta que ela estava conversando com alguém, eu pensei que fosse a Alexis, mas, lembrei que tinha visto ela do lado de fora do hotel antes de entrar, e quando parei para prestar atenção na conversa, percebi que a Alison falava no celular. Ela dizia coisas como: "Em dois dias estaremos aí", "dessa vez eu não vou falhar" e por fim a frase que deixou tudo claro pra mim: "Hail Hydra". — ele se inclinou mais na direção dela, sua voz se tornando mais baixa — Foi então que eu entrei no quarto e a confrontei, ela não tentou mentir, confessou tudo sem que eu a obrigasse, e então me contou que você sabia de tudo, que você estava junto com ela.
— Você acreditou nisso? — indagou , sem conseguir esconder a mágoa em sua voz.
Luke balançou a cabeça negando.
— Não. Eu sabia que você não faria esse tipo de coisa, eu disse para ela que eu encontraria vocês, que eu contaria toda a verdade e que não permitiria que ela continuasse fazendo aquilo.
Tudo ficou claro naquele momento. Alison havia mentindo que estava junto com ela naquele plano para afastar Luke dela, para impedir que ele contasse a verdade para os outros, porque se eles soubesse, tudo estaria arruinado para ela.
— Eu jamais machucaria ela de propósito — o olhar dele estava perdido, como se cada uma daquelas cenas se repetisse em sua mente — Mas, então ela pegou a arma escondida na mala em cima da cama e apontou para mim, eu implorei para que ela abaixasse a arma, eu disse que me matar não mudaria nada, que de uma forma ou outra vocês descobririam a verdade, mas, aquilo não pareceu mexer com ela... Eu não tinha nada a perder, aquele olhar louco dela já deixava claro que ela não mudaria de ideia, então, eu tentei pará-la. Nós estávamos perto o suficiente para eu conseguir segurar o braço dela. Eu tentei fazer ela soltar a arma. Mas, era como se ela já esperasse por isso — pequenas lágrimas começavam a se acumular em seus olhos — Tudo aconteceu muito rápido… Em um momento eu puxava o cano da arma tentando tirar da mão dela, no minuto seguinte nossas mãos se entrelaçavam em torno do gatilho, e por fim o barulho do disparo — Luke fechou os olhos, como se estivesse sentindo uma dor muito forte — Eu não queria que tivesse acabado daquele jeito, eu realmente não queria— lamentou com a voz embargada, estendeu a mão sobre a mesa, Luke a segurou.
— Por que você não me contou isso? Por que não contou para a Alexis? — perguntou .
— A Alexis encontrou o corpo da irmã e não me deu chance para explicar, e mesmo que me desse, eu duvido que ela acreditaria em mim, então eu peguei o carro e fugi de lá, e enquanto fugia eu cometi o erro de pensar no que a Alison havia falado e… — os olhos marejados dele encontraram os dela — Eu sinto muito , mas, naquele momento fazia sentido. Vocês duas eram melhores amigas e você se afastou de mim depois que eu voltei do cativeiro, ficando cada vez mais próxima dela. Além disso, tinha o Plano B, o "plano se tudo der errado", era assim que você o chamava, não era?
concordou.
Aquele era o plano que consistia em apagar as memórias dos pais deles e se afastarem um do outro.
— Eu nunca concordei com aquele plano, parecia loucura deixar nossos pais para trás, mas, você parecia bem determinada com ele e eu achei que fosse tudo parte do mesmo esquema, você se aliava à Hydra, desistia dos seus amigos e da família e ia viver em um lugar bem longe onde ninguém te incomodaria.
— Você sabe que eu apaguei as memórias dos nossos pais pra manter eles em segurança — explicou .
— Agora eu sei, mas, naquela época… naquele dia — ele corrigiu — A minha cabeça estava uma bagunça e pouco depois disso eu perdi você do meu radar, eu fui até a casa dos nossos pais para tentar te encontrar e esclarecer o que havia acontecido, mas, então descobri que você tinha colocado o plano B em ação.
fechou os olhos, ela sabia que não era justo fazer aquilo sem o consentimento de seu irmão, mas, na hora parecia não haver alternativa.
Ela inspirou fundo, colocando o rosto entre as mãos, tentando organizar seus pensamentos.
Ela esperou que Luke falasse mais alguma coisa, mas, ele se manteve em silêncio.
E quando o encarou percebeu que ele observava a mesa. Seus olhos se moviam, como se ele estivesse procurando alguma coisa, mas, ela sabia que a imagem que ele estava vendo existia só em sua cabeça. Ele estava tendo uma visão.
— Quem é aquele cara que estava com você ontem? — perguntou ele, ainda sem olhar para .
— Bucky, é um amigo — respondeu ela, simplesmente.
— Estão indo atrás dele.
— Quem está indo atrás dele? — perguntou , sem se preocupar muito, acreditava que Luke estava se referindo a Steve.
— Eu não sei direito, é tão confuso, mas… — ele franziu as sobrancelhas — Tem alguns homens de uniforme preto, tem algumas letras nas costas deles, mas, eu não consigo definir o que é — seus olhos encontraram os de e ele viu o pânico em seu olhar.
se inclinou sobre a mesa, tocando o rosto de Luke com suas mãos, fazendo seus polegares tocarem as têmporas dele.
A lembrança da visão era clara e não precisava nem decifrar as letras no uniforme daqueles homens para saber o que estava acontecendo: Era a S.W.A.T. que estava indo atrás dele.
Mas, antes que conseguisse se desligar, outra visão apareceu: Ela estava em um lugar fechado, a luz que entrava pela janela grande delineava uma silhueta que não sabia definir se pertencia a um homem ou a uma mulher, mas, ela conseguia ver com clareza a arma apontada para si.
Ela afastou suas mãos de Luke, o encarando com os olhos repletos de mágoa.
— Quando você viu isso? Quando vai acontecer? Por que não me contou nada? — indagou desesperada para o irmão que mantinha um semblante preocupado no rosto.
— Eu vi ontem, eu não sei quando vai acontecer e você sabe a razão de eu não contar.
"Muitas vezes, é tentando evitar o destino que você acaba encontrando o caminho até ele"
Ela sabia bem disso. Aquilo iria acontecer e ela provavelmente não conseguiria evitar, mas, havia um problema maior para ser resolvido naquele momento.
— Quanto tempo para atacarem o Bucky? — perguntou.
Luke se inclinou para mais perto da janela, procurando o sol lá fora.
— Está quase acontecendo — concluiu.
— Precisamos ir — exclamou ela, levantando da cadeira indo em direção à porta, mas, antes que pudesse chegar nela sentiu um corpo se jogando contra o seu fazendo-a ir de encontro ao chão.
Os barulhos de tiros e vidro se estilhaçando vieram em seguida.
— Meu nome é Natasha, sou amiga do Steve, continue abaixada — a mulher loira que havia empurrado para o chão avisou.
Ela derrubou a mesa que estava em frente a elas, transformando-a em uma barreira para protegê-las dos tiros, Natasha então puxou uma arma do coldre e começou a revidar contra os homens que entravam no café.
permaneceu imóvel, seus olhos procuraram por Luke na mesa onde eles estavam, mas, não encontrou sinal algum dele ali. Ela torcia para que ele tivesse conseguido se esconder.
— Vamos! — Natasha anunciou quando o último homem caiu morto no chão — Mais deles vão chegar em breve — ela segurou o pulso de a ajudando a levantar.
— Meu irmão… — tentou reclamar, varrendo o local com os olhos, mas, Luke não estava mais ali.
— Ele fugiu — disse Natasha, puxando em direção à porta — Eu o vi quando estava entrando, ele saiu pela porta dos fundos.
Aquilo deixou um pouco mais aliviada, mas, sua preocupação não diminuiu.
— O que está acontecendo? Quem eram eles? Onde está o Bucky? — perguntou de uma só vez.
— Alguém entregou a localização de vocês, você agora é cúmplice de um dos foragidos mais procurados, então o FBI meio que quer você também para conseguir encontrar ele — explicou ela — O Barnes está com o Steve e o Sam, eles estão indo para um lugar seguro, vamos encontra-los lá.
— Ninguém sabia que estávamos aqui, como podem ter nos entregado? — perguntou ela.
Natasha parou em frente a uma moto, entregou um dos capacetes para e antes de colocar seu próprio capacete, olhou diretamente nos olhos dela.
— Alguém sabia.
entendeu aquele olhar.
Luke sabia.


Continua...


Nota da autora: Sem nota.







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