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Última atualização: 21/09/2017

Capítulo Um – Just the Beggining

Sim. Ela tinha engravidado aos 17, mas aquilo não era o fim do mundo pra ela.
A garota – na época – unia os pontos: 1º As lendas diziam que a maternidade era a coisa mais gostosa que uma mulher poderia vivenciar; 2º O pai ser o amor da sua vida tornava a sensação ainda mais gostosa; 3º Ele ser seu melhor amigo.
Mas é que ela, nem por um segundo, talvez por ser ingênua demais na ocasião, pensou que alguma parte desse raciocínio pudesse dar errado.
Na verdade, de primeira, nada de errado era possível de ser previsto. Ninguém prevê, e muito menos uma adolescente, que algo vá dar errado depois de três anos junto de uma pessoa que aparentava estar bem com a vida que tinha, embora ela soubesse que apenas aparentasse, acreditava que tudo tinha um jeito, que tudo passava.
Mas foi quando perguntou pela quinta vez se realmente queria ir embora, e a resposta fora ‘’sim’’, que teve certeza que sim, era possível tudo dar errado de uma hora pra outra. Nem mesmo , a melhor amiga em comum do casal, que convivera desde os primórdios da amizade, que os apresentou no ensino fundamental e dividiu a amizade com os mesmos, que viu o primeiro beijo de e , e presenciou a gravidez tão precoce da amiga, pode prever que um dia seu melhor amigo e namorado (pois eles não haviam casado) de sua melhor amiga, iria deixá-la.
tinha a perfeita noção de que não estava totalmente satisfeito, ele era seu melhor amigo e, portanto, ela o conhecia muito melhor do que uma namorada poderia conhecer seu namorado, ambos eram maiores que isso; e por isso todo dia olhar nos olhos dele a matava. Por Deus, ela não podia mentir pra si mesma, mas mentia. Sentia que mentindo, um dia aquela mentira poderia tomar conta deles e ser real e era por ter tanta fé nisso que jamais imaginara que poderia realmente deixar ela e sua filha de três anos, sem explicar direito o que tinha acontecido,em apenas dois dias, sumindo pra outro país sem nem ao menos se sensibilizar por estar ás deixando.
A lembrança ainda estava viva nela, como se toda vez que lembrasse estivesse revivendo tudo aquilo outra vez.
Ele tinha chegado tarde outra vez, e embora aquela ação naquela semana estivesse sendo frequente, sabia que aquele olhar em si não era como os outros. A garota entrou em pânico. carregava consigo um envelope e olheiras profundas, a blusa que vestia estava molhada – chovia naquela noite – Seu peito apertou momentaneamente, acompanhado por uma sensação de desespero.

- O que é isso? – Perguntou cautelosa afrouxando o cardigan no corpo; a menina apontou para o envelope amarelo o vendo apertar os lábios.
- Me desculpa, . – murmurou recostando-se na parede do corredor que se formava entre a porta de entrada, e a escada da casa simplória em que viviam.
Era o suficiente para que ela pudesse sentir que era o fim? Era. Mas ela tinha esperança.
- Pelo quê? – Sorriu desconcertada, embora seus olhos já estivessem levemente ardentes.

Ele a olhou de novo.

- Não é por vocês, , é por mim... Eu te amo. Amo nossa pequena, e eu gostaria de coração que você pudesse entender.. – Murmurou choroso caminhando até ela. permaneceu parada, não se sentia capaz nem mesmo de falar. a viu fechar os olhos quando a segurou pelos braços. – Eu prometo que eu...br> - Que você vai voltar? – abriu os olhos. Sua voz tremulou. – Se você vai embora, vai por inteiro. Eu não quero esperar por você, . Eu não vou fazer isso comigo, e nem com a .
- Eu sou o pai dela, , é claro que eu vou voltar. – O garoto procurou os olhos dela, por si só, a menina apenas sorriu de lado.
- Eu não disse que você deixaria de ser.

Um silêncio se instalou por um minuto. Dentre ele, sentou-se na escada escondendo seu rosto com as mãos, não queria chorar, mesmo que ele já tivesse a visto várias vezes daquele jeito, chorar por ele nunca havia acontecido, e talvez por isso, tornasse com que fosse embora uma coisa ainda mais dolorosa.
Na vigésima respirada o olhou de novo, estava lá com a cabeça encostada na parede e os olhos fechados.
Todos diziam que o amor não era egoísta. Fora isso que pensou ao olhá-lo tão profundamente indeciso naquele momento. Era como se ela pudesse ouvir o coração dele batendo e não era pra menos. estava entre sua responsabilidade como pai, e sua vontade de partir..Ela não sabia pra onde, mas sabia que não podia acompanhá-lo e de alguma forma, também sentia que iria perdê-lo, então aquele drama todo que sentia entre o corpo e a mente talvez fossem pela conecxão verdadeira que ambos compartilhavam desde sempre. não podia culpá-lo pela indecisão. Ela não tinha a dádiva da dúvida de ir ou ficar, era sua vida agora, mas tinha, ela definitivamente não podia culpá-lo por isso.
Seu amor por ele era grande demais para que não pudesse dividir com suas vontades, na verdade eles nunca foram assim. Seu amor era genuíno, sempre sustensou que quando decidisse e SE decidisse ser feliz longe dela, aceitaria. Mas vivenciar era totalmente diferente do que pensar. Era horrível. não era tão altruísta na prática. Ele dizia que não iria embora pra sempre, mas, por Deus, ela não queria conhecê-lo tanto pelo olhar.

- Quando você vai? – Perguntou limpando o canto dos olhos.
- Em dois dias. – Respondeu de olhos fechados num murmúrio trêmulo.

Mais segundos se sucederam em silêncio.

- Você realmente quer ir? – perguntou esperançosa, não teve noção que aquela pergunta poderia a matar ainda mais, ainda mais por não receber uma resposta. –
- , eu...
- Só responde, .
- Não me faz essa pergunta.
- Eu preciso saber.
- Eu não quero deixar.
- Então não deixa!
- Não é tão fácil.
- Você quer ir.
- Eu tenho que ir.

Finalmente ela soltou o choro, voltando a se debruçar nos joelhos.


foi embora dois dias depois. Reservou um dia inteiro para com direito a parque de diversões e assistir os desenhos que sempre assistia com ela. não gostava da ideia porque sabia que no dia seguinte perguntaria e ela não saberia responder.
Naquele dia inteiro , como sempre, foi seu alicerce. tinha pais, mas correu para a melhor amiga, até porque não era nada fácil contar para seus pais que o pai da sua filha havia a deixado e agora você havia se tornado uma mãe solteira. Não que isso fosse um problema para seus pais, mas era um problema para ela mesma. nunca desejou aquilo, pensou que com as coisas seriam um pouquinho mais fáceis. Agora, sozinha?
Por um dia inteiro ela entrou em desespero, um dia inteiro era seu tempo até que fosse embora e ela precisasse retomar o controle e cuidar de . Nesse momento ela surtou, e quis matar . Matar e cortá-lo em milhões de pedacinhos. sabia cada ponto fraco de , podia sentir a dor da amiga em si mesma, podia ter ideia do que passava em sua mente, entendia perfeitamente o porquê da intensidade daquele choro dela.
E como toda melhor amiga, foi pensando em inúmeras maneiras de resolver aquilo. Sabia que não iria ser fácil, e que se curaria de maneira homeopática, mas era importante recomeçar, e rápido!

***


O início


A cidadezinha da qual , e nasceram, cresceram e se , conheceram era notadamente popular por conta da universidade que ali residia com vários cursos renomados,de áreas vastas, e somente era repleta de jovens por conta disso. E até toda a tragédia acontecer, ninguém do seu clube de amigos havia tido coragem ou vontade de tentar algo ali.
Era localizada no interior da capital, não ficava muito longe da cidade grande, eram 80km pra ser exata. Configurava-se como uma típica cidadezinha do interior mesmo , era possível ir para todos os lugares a pé mesmo, sem falar na calmaria,muito embora houvessem barzinhos a cada esquina, os jovens que ali habitavam não eram do tipo arruaceiros. E foi nesse cidadezinha que morou por três anos com , até que o mesmo decidiu ir.
A cidade era tão confortável que mesmo sendo tão perto da capital, um lugar mais badalado, completamente cativante para qualquer pessoa, nunca despertou desejo em de se mudar da mesma. Por ela, ficaria por lá pro resto da vida.
Porém, também como toda pequena cidade, os boatos se espalhavam rápido. A garota de 16 anos que ficou grávida já havia sido o bastante pra ela, estar com realmente amenizava as coisas enquanto frequentava a escola ;de mãos dadas com ele, com aquela barriguinha que tentava esconder por causa dos olhares, sempre tentou se esconder ao máximo, apesar disso as pessoas a olhavam com aqueles sorrisos de pena, e era o que ela mais odiava. Tudo com ele era mais fácil porque ele não se importava com isso, e á acalmava e era por isso que sem tudo parecia ter virado um enorme peso que sabia que teria que aguentar, sabia que passaria, mas não sabia quando.
Foi aí que , vendo as olheiras, a cara de choro e a indisposição de causando efeitos em , e nada naquela cidade colaborar pra que ela melhorasse, teve a ideia, por última solução, de se mudar. Tudo bem que ela precisava admitir que ela, diferente de todos, sempre quis renovar seus ares, a situação só a impulsionara mais, ela sabia que sua amiga não podia mais viver germinando aquilo

- Não é tão fácil, , eu não quero ir embora. – disse cansada, seus olhos estavam molhados o que mais uma vez, fez constatar que amiga estava chorando. –
- ,isso aqui não está te fazendo bem! Sempre quisemos fazer algo diferente, lembra? É nossa chance. – sentou-se frente a amiga na mesa. –
- Você sempre quis.E isso pode afetar a ...
- , faz três meses que você – apontou para . – Está afetando a . – A menina ficou em silêncio. – Olha pra você, amiga... – Murmurou. – Eu sei que isso dói, mas é assim que você quer viver?

abaixou a cabeça engolindo em seco. Sentiu seus olhos arderem novamente.

- Eu não consigo parar . – Tremulou tapando o rosto. – Eu sinto muito por isso.
- Ei – abraçou-a pelos ombros. – Eu estou aqui com você. – Por alguns segundos ambas ficaram em silencio abraçadas.- Sabe aquela faculdade que fizemos o teste pro colégio aquela vez?
- Que o não entendeu por quê...
- Sim. – fez uma pausa. – Tiramos uma nota ótima. Eu tenho entrado em contato com ela faz algum tempo... – a olhou. – Não vamos conseguir cem por cento, mas metade da bolsa nós temos, também tenho visto alguns apartamentos pequenos que podemos bancar por hora com aquela conta que nossos pais fizeram. Eu sei que você pretendia guardar pro casamento, mas acho que não vai ser mais necessário. Vamos recomeçar.
- Meus pais jamais vão me deixar levar a embora... – Sorriu de lado sarcástica. fez o mesmo. –
- Eu conversei com eles também.

Duas semanas depois ambas acompanhadas de estavam dirigindo rumo á nova vida que á amiga tanto á infernizou para correr atrás, e por incrível que pareça, pela primeira vez depois de três meses chorando feito condenada, pensou que realmente poderia se recuperar de tudo que estava acontecendo.
Se adaptar talvez tivesse sido a tarefa mais difícil para as três.
De primeira resolveu ficar pelo menos duas semanas a mais com a filha, cuidando dela e levando para a escolinha no tempo em que precisava para se adaptar.
Um mês depois de chegarem a nova cidade, finalmente ingressou na faculdade. Botou a cara no sol, e foi, tanto por insistência da amiga, como por não aguentar mais ficar naquela bolha tão triste que tinha criado. Ela não era assim, seu tempo de “luto” precisava passar, e ela decidiu que todo aquele tempo sofrendo por eram suficientes, até porque não adiantaria de nada. tinha se irritado, agora era ela quem não queria mais aquilo.
Foi sustentada por isso que aguentava as perguntas de sobre o pai. Os chorinhos tristes dela quando apenas acenava com a cabeça e abraçava a filha, mudando de assunto... Foi sustentada por esse ideal que aguentava olhar para e ver reluzir o olhar de ali. Os olhos dela eram completamente iguais aos dele. E mesmo assim segurando-se tão firme e decidida, quando se distraia por cinco minutos ou mais, ainda sentia-se perder o controle, sentia a angústia novamente, especialmente quando era pressionada.
Com estudando o dia todo, e trabalhando e estudando, o tempo era escasso pra se pensar nisso, mas ainda não era uma hipótese descartada. Ela estava melhorando e muito durante os meses, já sentia um ar diferente vindo da amiga naquele tempo pem que estavam vivendo ali. Agora já estava saindo e conversando melhor, ria com muito mais vontade e de certa forma estava melhor quanto a .
Foi num desses momentos que elas conheceram suas colegas de faculdade.
Normalmente em uma das semanas, mais especificamente um mês após o inicio das aulas, a faculdade proporcionava um sistema de palestras de uma semana, das quais englobavam temas de todas as disciplinas,onde basicamente quase nenhum aluno tinha interesse de ir, ou melhor, professores também pareciam não ter esse interesse em palestras, embora incentivassem, e porquê eu disse professores? Porque um deles fora o tema na mesa delas naquela semana de palestras, da qual o dito cujo estava calmamente sentado em uma das mesas da cantina, em horário de palestra junto á mais alguns alunos.

- É engraçado quando eles incentivam e não comparecem né? – Shelley comentou tomando um gole de seu suco natural. –
- Do que você está falando? – Barb se virou para amiga, confusa. –
- Aquele pão ali não é um professor? – apontou com a cabeça para a mesa ao lado, fazendo com que todas as garotas se virassem para a mesma, inclusive e . –
- Ah sim, você está querendo dizer, o galã da faculdade? – Barb continuou trocando olhares com o homem da mesa ao lado por algum tempo antes de se virar. –
- Galã da faculdade? – sorriu de lado. –
- O famoso professor de Direito Criminal. Além de ser ótimo no que faz, é um pedaço de mal caminho. – Barb explicou, sorrindo de lado. –
- É uma pena que não teremos aula com ele... Diz a lenda que ele nunca pega os primeiros anos pra dar aula.. – Joy pela primeira vez se pronunciou. – Em parte eu fico feliz porque dizem que ele é um carrasco... Agora, olhando aquilo ali...
- Ele parece ser tão intocável que chega a ser arrogante – brincou. – Não devíamos falar dele só por isso...
- Do que você está falando? – Shelley perguntou perplexa - Você é maluca? Aquele tipo de beleza precisa ser apreciada e comentada em todas as línguas mesmo que não tenha nada a ver com a gente! – riu de lado voltando a olhar o homem que agora por sua vez havia percebido a movimentação e por esse motivo havia trocado olhares com ela. –
- É, eu acho que aquele tipo de beleza ali notou que estamos falando dela. – fez um gesto imperceptível para apontando no relógio em seu pulso. –
- Bem, enquanto vocês ficam paquerando o gatão ali, eu vou indo, pois tenho uma pequena menininha de três anos me esperando. – levantou-se da mesa. –
- Foco, suas desesperadas. – as reprovou. –
- As vezes eu custo a acreditar que vocês são humanas. – Revirou os olhos. – Eu sou desesperada por um homem desse...
- As vezes eu custo a acreditar que vocês tenham bom senso! Olhem bem pra ele...
Mais uma vez a mesa toda olhou para o homem que mais uma vez havia notado, embora tentasse disfarçar o máximo que sabia disso.
Junto a a garota passou pela mesa onde ‘’galã da faculdade’’ se encontrava, passando por ele intrigada. Assim que passou, pelas costas do mesmo, fez um coração para as amigas do outro lado de maneira sarcástica, jogando uma piscadela de volta. Fora o suficiente para que todas fizessem cara feia.
Naquela circunstância para ela, já era estranho demais imaginar alguém beijando seu professor, embora não pudesse deixar de ser sensata: o cara era bonito, mas talvez não fosse tudo isso. Esse fato ela só descobriria se o conhecesse. E também tinha aquela história de beijo por ponto que quase toda faculdade aderia, mas ninguém era tão doido, ela sabia que existia, aquele não era o caso. Só o que ela conseguia achar era que um absurdo demais.
O primeiro semestre ( o período de seis meses do qual a faculdade dividia entre provas) havia se passado bem tranquilo. Tão tranquilo que até mesmo havia tido tempo para conhecer um cara.
O milagre começara ai. que por sua vez não havia pensado tanto em naqueles seis meses e estava por fim, conciliando ser mãe e dona de casa ao mesmo tempo, e que por um milagre havia se interessado em alguém. Não é que ela não tivesse sentimentos, mas para realmente se apaixonar era complicado. Era um período de fases dos quais nenhum cara até aquele momento tinha passado, a não ser .
Talvez fosse pelo fato de que ele era mais velho que ela, tinha vinte e três anos e fazia apenas algumas matérias pendentes na faculdade, ou seja, ela já havia terminado seu curso de medicina, e tinha muito mais experiência e maturidade pra lidar com todas as picuinhas que ela tinha. de inicio morreu de ciúmes, mas depois se acostumou, levando em conta de que , desde a primeira vez que o viu o amou, foi pela intuição. Dizem que crianças sacam quando a pessoa não é boa como diz ser de primeira, amava , foi por ela.
O semestre seguinte começara com as disciplinas mais especificas, e para a surpresa de todos e delírio das amigas, pela primeira vez na vida, o tal professor havia pegado apenas uma sala de primeiro ano para fazer uma experiência.
Foi aí que começou o problema, porque não trabalhava direito sob pressão e isso era o que novo professor mais fazia.
Durante as aulas a garota tinha a impressão de que ele era daquele jeito por simples vontade de se aparecer, mas com base no que as aulas passavam,foi vendo que o jeito sério e focado dele vinham única e exclusivamente de sua personalidade, e foi diante disso que começou a notá-lo. não pode deixar de notá-lo pois ele chamava a atenção naturalmente, mas aquele jeito á intrigava; era realmente apaixonante, embora fosse extremamente na dele, um tanto tímido pelo que ela percebeu, e talvez fosse esse o motivo de cativar tanto todas as meninas. O máximo que as pessoas sabiam dele era o nome e que era compromissado, mas somente por causa da aliança, e só.
No que tocava os dias, a garota perdera as contas de quantas vezes perdera a explicação por não prestar atenção no que ele falava em si, enquanto olhava diretamente pra ela e sim, por estar observando os olhos dele num contato visual penetrante, ou parte da barba mal feita, ou qualquer outra parte de seu corpo, o que era totalmente involuntário. Parcialmente estranho, mas involuntário. tinha total noção de que se não parasse de reparar no homem não conseguiria estudar direito e foi por esse motivo que seu nervosismo aumentava, e com o nervosismo, tudo voltava de súbito.
sabia que ainda tinha essas recaídas por causa de quando afetavam seu sistema nervoso. Embora parecesse dramático demais, era praticamente um trauma para , aquele que você só se lembra de maneira extrema, quando não está controlada, esse era o caso. Seu maior medo era que voltasse durante esse período em que ainda estava se recuperando e acabasse com todo o trabalho intenso que estava tendo em se reconstruir. Obviamente qualquer um pensaria ao contrário, que se voltasse ficaria totalmente melhor, mas não. Por mais que houvesse sido seu melhor amigo, o tempo já tinha prescrevido. Já tinha se passado um bom tempo desde que ele havia as deixado, e sinceramente, ela poderia parecer radical, mas não achava que a atitude dele fosse digna de perdão.
sabia que não tinha o direito de ter feito o que fez, que não tinha nenhum direito, mas foi por esse motivo que havia evitado, escondido e dificultado a aproximação de naquele período de tempo.
Sim. No dia seguinte á sua ida, tentou fazer contato. Tentou novamente, e novamente, três vezes por semana nos primeiros meses. Muitas vezes ligava sem parar para o celular de onde por pura sorte estava por perto e sem querer derrubava e desligava, ela sempre tinha uma desculpa. Foi quando, cansada de tanto ignorá-lo, sem aguentar mais as ligações de e com uma já desconfiada, que atendeu pela primeira vez a ligação de .

Mais uma vez ela olhara cansada para o celular vendo aquele número conhecido, embora não estivesse gravado no celular de , sabia de cor pelo número de vezes que rejeitou.

- O que você quer, ?
- ? – apertou o celular nas mãos. –
- para de ligar, por favor.
- eu sei que a situação é complicada, mas podemos conversar?
- Eu sinto muito, , você fez uma escolha e agora precisa arcar com as consequências.
- Eu me arrependi.
- Não acha que é tarde demais pra isso?
- Eu acho que nunca é tarde demais pra ir atrás de quem eu amo. , me...
- , você tem noção de quanto tempo elas demoraram pra se acostumar sem você? Onde estava esse amor no dia em que decidiu ir embora e deixar, não só sua família, mas todos nós?
Houve um tempo de silencio na linha, até a garota voltar a falar.
- está conseguindo conciliar as coisas e está finalmente estável , está uma princesa, quase falando tudo... Ela só não sente tanto sua falta porque temos uma figura masculina pra diverti-la, mesmo assim... Como você pôde?
- Do que você está falando? – A voz do garoto pela primeira fez oscilou. –
- Ei, se você quer vê-la, eu vou parar de esconder, só não bagunce a vida delas outra vez, foi doloroso o suficiente.

Assim que finalizou a chamada abriu a porta do banheiro entortando a cabeça imediatamente ao ver a amiga com o celular nas mãos, por não ser a primeira vez, desconfiou ainda mais.

- O que você está fazendo?
- Tirando foto.
- Você tem o seu. – estendeu a mão para que lhe entregasse o celular.
- Você sabe que não é tão bom, sem falar que aquela foto minha e do está nele e eu esqueci de mandar pra mim. – Mentiu correndo para apagar o número.
continuou olhando a amiga de sobrancelha levantada até a mesma terminasse de ‘’mandar a foto’’ e lhe entregasse o celular.
Naquela altura do campeonato, nem por um segundo pensou em algo relacionado a . Sua mente já estava acostumada a desiludir qualquer coisa que viesse em relação a ele, qualquer pontinho de esperança que aparecesse parecendo ser a favor de , portanto apenas ignorou.
Há isso tivesse acontecido há meses...


Mas embora pensasse que aquela fora uma maneira eficiente de acabar com tudo, e estivesse segura de que não fosse mexer com sua amiga novamente depois daquele recado, foi o contrário.
Por estar certa de que estava tudo no controle, deixou de tomar conta do celular de com toda ligação e mensagem. Em parte porque não o largava mais, e em outra porque realmente pensou que quando ligasse, iria saber mediar a situação e sua amiga saberia conduzi-la racionalmente, já que parecia estar bem.
Foi nessa que num dia como outro qualquer, enquanto estudava para a prova que se seguiria naquele dia, que seu celular tocou estrondosamente pelo quarto, a fazendo por um momento agradecer por ter um motivo para parar de estudar e fazer outra coisa. Seus olhos estavam cansados, por esse motivo atendeu quase que de primeira, fechando os olhos sem nem mesmo olhar o número.

-Hey?
- ?

Seu coração parou. Fora como uma reação química; o coração de parecia ter virado uma pedra de gelo de um segundo para o outro.

- ? – Chamou mais uma vez. –
- ? – Houve um suspiro após sua pergunta com a voz trêmula.
- Ah, finalmente você me atendeu. – silêncio. – É o seguinte, eu quero ver minha filha. – Seu tom era ríspido. –
- Você não fala comigo ou dá notícias por meses e é assim? ‘’ Quero ver minha filha? ‘’
- Oh, têm algum problema pra você? – Perguntou irônico. Por mais ridículo que fosse as vezes, aquela atitude dele estava deixando desconcertada.
- Eu não sei se você é capaz de entender a gravidade da situação, , mas vou te lembrar: Você deixou sua filha há oito meses, e ela passou cada segundo perguntando porque diabos o pai dela havia a abandonado, e agora você acha totalmente simples voltar? – A garota aumentou o tom de voz perplexa. – Você pode não ter um coração, , mas sua filha tem, e eu não vou deixar você arruinar o dela de novo.
- Ah sim, e a maneira que você soluciona essa situação é colocando outro cara para substituir o pai dela, não é?
- Do que você está falando?
- Que eu sei que você tem outro, bem rápida pra falar a verdade.
- , eu não estou com ninguém. – Riu nervosa.
- Sinceramente, ? Eu não me importo se você está com alguém ou não está... – Seu estômago embrulhou e como reação, seus olhos se encheram de lágrimas em segundos. –
- você tem noção do quanto eu sofri por nós?– O garoto pigarreou travando a fala dela. –
- Eu achei que estivesse superado isso.
- Eu me recuso a acreditar que você...
- Que o quê? Que eu tenha te esquecido?
- , eu te...
- Se você continuar dificultando as coisas eu vou ser obrigado a... – O garoto a interrompeu. –
- Dificultando? – riu sentindo uma lágrima escapar. – Você me deixou! Esperava que eu reagisse como?
- Quando você vai entender que não é sobre você? É sobre a , ! Eu quero vê-la e isso não compete a você decidir ou não! É sobre mim e minha filha. Eu esqueci você, e não ela.

apertou os olhos ao ouvir aquilo. Seu coração parecia pulsar no peito, mas muito embora estivesse doendo e quisesse desligar e fingir que nunca ouviu aquilo, apenas respirou o mais fundo que conseguiu antes de responder.

- É eu acho que é o melhor você pode fazer não é? – Sorriu de lado, parecia dizer aquilo para si mesma limpando o resto de lágrima que sobrara.
- E quanto a ? – O tom de voz do menino diminuiu como se soubesse que estava machucada, ele ouvira, ele sentira a dor de dela. –
- Vou te mandar o endereço.
- Tudo bem...
- – A garota chamou pela última vez num suspiro. – Não se esquece do aniversário dela.
- Eu não vou.
- Ótimo. Fique... Bem.

Embora tivessem se despedido, tanto quanto continuaram na linha ouvindo suas próprias respirações. podia ouvir as fungadas de . Não era nada alto e nem exagerado, muito pelo contrário, era do jeitinho que ela chorava, aquela maneira que o matava; era como se cada parte boa que houvesse sobrado nele se quebrasse. Ele podia sentir o cheiro dela, podia sentir a textura da sua pele, ainda podia sentir o gosto do beijo dela, tudo isso apenas em uma ligação. Sim, era totalmente mentira. Ele estava quebrado por dentro, e talvez ela fosse a coisa que mais importasse pra ele naquele momento.
não queria dizer aquilo, ele só estava com raiva. Como ela poderia ter ido tão rápido? Como ela podia ter colocado outro cara na vida dela e da própria filha tão rápido? Isso o tirava do sério, porque só o que ele sentia era saudade, e mesmo que ele soubesse de todo o sofrimento que causou, não era justo achar um cara pra suprir aquilo, ele nunca pensou que ela fosse agir tão rápido.
Trinta segundos depois de ainda conectados aquela ligação, foi quem finalizou.
Lentamente a garota tirou o celular do ouvido olhando para a foto dela e de na tela do qual o contato do mesmo formava. não sabia se fora por isso que doeu ainda mais; olhar para a foto deles e querer de volta, ou sentir tanto por estar o odiando naquele momento. Doía mais porque mesmo sabendo que o amava, queria com todas as formas naquele momento odiá-lo, queria mesmo. O fato de querer a machucava.
Com o rosto tapado em cima dos cadernos se curvou na cama voltando a chorar como não fazia a muito tempo. Abraçando o próprio corpo naquela posição, parecia ter perdido tudo que construirá o tempo todo.
Naquele momento ela odiava totalmente e completamente .
E ? Bom, a única coisa que bastaria pra ele, era saber que não havia homem nenhum com ela.

- Ei, vamos! Você sabe que não podemos nos atrasar pra prova do gatão, ops, . – deu dois toques na porta do banheiro onde lutava insistentemente contra a cara de choro. –
- Estou indo. – Deu uma ajeitada de leve finalmente abrindo a porta. –
- Você dormiu a noite? – entortou a cabeça reparando que havia algo errado com a amiga. –
- Tentei... Estou nervosa. – Mentiu. –
- Isso piora as coisas, você sabe. – Disse enquanto ambas desciam as escadas da pequena e simples casa que alugavam. –
- Sim, e você me falando isso está ajudando muito mais. – ironizou dando de cara com a filha no fim da escada, de imediato abaixou recebendo um abraço dela. –
- Você já volta, não é? – Segurou o rosto de . A menina foi obrigada a encarar os olhinhos desesperados de e só o que sentiu foi ainda mais vontade de chorar, sentiu seus olhos se encherem de lágrimas brutalmente. – Mãe?
- Sim, você sabe, o mesmo horário de sempre. – Sorriu de lado puxando para um abraço. – Eu te amo, pequena.
- Eu te amo, mamãe. – se afastou para beijar a testa de . Embora fosse pequena, era incrivelmente esperta e prodígio, haviam pessoas que achavam que ela tinha cinco de tão sabida e falante que era. –
- ? Vamos. – abriu a porta apontando para o relógio. –
- Sim, vem com o tio ! – gritou fazendo desviar a atenção para ele. Em segundos a garotinha se desvencilhou da mãe lhe dando um beijo rápido e correu para o homem.-
- Qualquer coisa, por favor, me liga! – disse limpando o cantinho dos olhos. –
- Eu dou conta desse mini furacão aqui, relaxa . – piscou. –
- Nós vamos tomar muito sorvete e ir até o...
- Shhh! – colocou o dedo indicador na boca fazendo se calar no mesmo momento. –
- Olha lá!
- !
- ... – A mãe ponderou alguns segundos vendo achar graça junto a . –
- Está tudo sob controle. – respondeu sorrindo. –
- Vamos! – disse pela última vez, e só então a garota foi mandando vários beijos no ar para . –

Como já dito, não agia nem um pouco bem sob pressão, e embora ela soubesse por boatos que a prova do carrasco barra gatão era realmente tensa, não imaginou que fosse tanto.
Por um segundo ela pensou que lhe fosse faltar ar por tanta pressão.
passou por todas mesas, sem exceção de nenhuma, revistando um por um, sem falar no olhar de matador e costumeiramente sério, pegando até o celular de com as próprias mãos para desligá-lo. Tudo bem, aquilo poderia não ser demais, e muito provavelmente não era, mas já não estava bem, isso piorou demais as coisas.
Com base no tempo que se passava, de vinte em vinte minutos saia uma pessoa da sala, e continuava lá, quase na mesma questão, demorando horas em uma única simplesmente porque em cada frase, lembrava-se de falando com ela,seu ar chegava a faltar por conta do peito aprtado, lhe obrigando a tentar bloquear aquela sensação o máximo que conseguisse. Isso levara todo o seu foco e energia que tinha reservado pra prova.
Com uma hora e meia de prova terminou, sendo uma das últimas a sair, mas não a última, já que estava ainda na metade da prova. E assim foi indo, até que sobrara somente a mesma dentro daquela sala. Ela e o professor.
Na última questão ela desistiu. Já havia passado tudo que lembrava e que conseguira fazer, fora nesse momento que o homem se dirigiu a ela, quando se apoiou nos cotovelos, afundando o rosto nas mãos com um suspiro.

- Am... Terminou? - Ouviu a voz dele invadir seus ouvidos e quase fazer eco naquela sala vazia. –
- É, eu acho que sim... – Respondeu massageando parte de sua testa, aquela entre os olhos; Novamente ela sentiu vontade de chorar. –
- Ok. – Respondeu retirando a prova da garota. –

se levantou lentamente de onde estava arrumando suas coisas na mesma velocidade. Sentia-se fraca, e não, não era demais. Sentia vontade de sentar e respirar... Era como se não estivesse fazendo isso desde que desligara a ligação com . Era como se não estivesse respirando esse tempo todo e seu corpo clamasse por ar, seu corpo estava reclamando e doendo por isso.
acompanhou cada movimento da menina. Nem mesmo ele que estava por fora de tudo estava se sentindo bem com a feição de ; o olhar dela estava o deixando nervoso porque obviamente havia algo errado e embora ele não fosse do tipo de cara que se importasse com isso ou com o que uma aluna estava sentindo depois de sua prova, sentiu-se completamente responsável por ela naquele momento. Algo nela o despertou a vontade de ajudar, não podia deixá-la ir pra casa daquele jeito e ele não sabia porque, mas não podia.
Foi nesse momento que levantou de súbito da cadeira segurando de leve pelo pulso, a fazendo virar-se preocupada para ele. A garota desviou os olhos das mãos que a seguravam para os olhos do homem dessa vez mais confortantes do que antes.

- Tá tudo bem com você? – Ele perguntou receoso ainda sem soltar o pulso dela. Viu-a desviar o olhar para o chão. –
- Sim, eu só estava um pouco nervosa... – Murmurou voltando a olhá-lo, sorriu de lado ao vê-lo fazer o mesmo. Ele não era bobo, o nervosismo não era o problema dela. –
- Tem certeza? – Dessa vez a soltou. – Tenho histórico de desmaios...

parou de falar quando a viu comprimir os lábios e logo depois tapar parte do rosto com uma das mãos vazias, pois a outra segurava a sua bolsa. estava a um fio de chorar bem ali, na frente de seu professor.

- Eu preciso realmente ir embora. – Virou-se bruscamente sendo segurada novamente por ele. –
- Você não pode ir pra casa assim... Quer dizer... – entortou a cabeça com os olhos encharcados. –
- Olha, professor, eu realmente preciso ir... – E ele a segurou de novo a fazendo arquear a sobrancelha. –
- Vamos tomar um ar, assim você melhora e eu vou pra casa com a consciência limpa. – Dessa vez virou-se totalmente pra ele cruzando os braços. –
- Consciência limpa? – Sorriu. – Você não me deve nada, professor. – Disse perplexa. –
- Primeiramente pare de me chamar de professor, meu horário já acabou e fora dele eu sou o , muito prazer. – Estendeu a mão para a garota que apertou em seguida ainda confusa. – Em segundo lugar, eu realmente não te devo nada, mas eu gostaria de ajudar.
- Não acho que ninguém seja capaz de me ajudar com isso. – A garota murmurou. – Mas obrigada por se oferecer... - Disse dando alguns passos para fora da sala. –
- Eu posso não poder ajudar realmente nisso que você precisa, mas podemos passar o tempo até que você se acalme... – deu de ombros se apoiando no batente da porta. –
- Acho melhor não... – murmurou mordendo os lábios. – Você é meu professor e, não pega bem sabe? Eu realmente quero...
-A resposta é: Sim ou não. Querer é basicamente um sim. – O homem jogou a bolsa que carregava nos ombros desligando as luzes da sala e indo em direção a . –
- Não, não mesmo... Eu agradeço por isso, mas...
- Ei, , certo? – Ele parou em frente a garota. – Nós só vamos respirar um ar juntos. Se você acha que isso é algum tipo de cantada, ou que eu quero algo a mais com você... – Fez um gesto negativo com a cabeça. – Eu tenho namorada, eu realmente estou com intenções puras, só to pedindo pra que você aceite a minha bondade. Mas se não estiver a fim, tudo bem. – Fez um gesto de quem tinha cedido com as mãos. Seus lábios fizeram um biquinho quase imperceptível –

continuou parada por alguns segundos matutando. Ela realmente não estava a fim de voltar pra casa naquele momento e chorar pelo resto do tempo em que ficasse acordada e muito menos queria que sentisse que estava assim, e foi pensando nela que decidiu: Não era lá tão uma proposta horrenda. Ou melhor, o período de trabalho dele havia acabado. Agora ele só era um homem que havia a chamado para tomar um ar e espairecer até que se acalmasse.

- Tudo bem. – Cedeu soltando um suspiro e como resposta ele apenas partiu a andar sem expressão facial, involuntariamente direcionando até seu carro com uma das mãos em suas costas. –

Três mensagens de , e uma de . O coração dela acelerou, tanto que que estava ao seu lado dirigindo conseguiu perceber, olhando rápido para a garota, por hora o homem preferiu ficar calado.

‘’Essa menina é um saco sem fundo? O que eu dou pra ela parar de comer? xx ’’
‘’ Provavelmente você não vai responder, mas só queria deixar registrado aqui que sua filha é doida igual a você. Xx ’’
‘’ já está com a gente e disse pra você avisá-la quando acabar a prova que vamos te buscar. (Precisei de Help com o mini furacão D: xx ’’


riu de leve entre as mensagens, dando um suspiro longo antes de abrir a última.
‘’ Anotado! Peça pra alguém levá-la... Se cuida. ‘’ xx .

Inevitavelmente a garota engoliu seco sentindo novamente aquele gosto amargo subir por sua garganta. Era realmente possível sentir-se tão devastada em segundos? não estava entendendo onde queria chegar. Outro homem? Embora não houvesse homem algum, ela se negava a perguntar, havia a machucado o suficiente porque mesmo que houvesse outro homem, ele não a amava, ele não se importava, e havia deixado isso claro.
Por último ela apertou o play para ouvir o áudio de enviado a menos de cinco minutos.
‘’ Ei, eu pedi pro avisar, mas vou reforçar: Precisei vir embora e não consegui te esperar, a pequena furacão estava deixando o louco!
riu no áudio fazendo sorrir de leve, e que estava ouvindo tudo também.
‘’[...] Assim que terminar me mande um sinal de fumaça e eu irei junto com a sua cópia e meu ilustre namorado te buscar... (Tia ? Tia ?)
ouviu a vozinha de interromper a fala de , colocando o telefone mais perto da orelha para poder ouvir o que a filha sussurrava:
‘’ [...] Sim? – Sussurrou – O tio pode ser meu novo pai? – perguntou inocente. –
sentiu o coração parar, fechando os olhos como reação.
‘’[...] Falamos disso depois, bebê. – respondeu baixinho. – Eu sinto tanta falta do meu pai... – ouviu ao final do áudio a voz chorosa de . –
Bem! Ela deu uma caidinha, mas não ficou nem marquinha então fique sossegada, mãe coruja! ‘’


- É pior do que eu imaginava. – murmurou segundos depois de ouvir o áudio, virando-se com os lábios comprimidos para a menina ao lado; viu-a de olhos fechados com a boca numa linha fina, prestes a chorar. –
- É pior do que eu imaginava. – sussurrou apertando o celular nas mãos. –

O resto do caminho ambos foram em silêncio ouvindo apenas o som das pequenas gotas de uma chuva que ameaçava cair. Vez ou outra olhava para o lado na intenção de verificar se estava realmente bem, por que sinceramente? Ele não sabia o que estava fazendo ou o que pretendia fazer. Sua ação fora totalmente impulsiva em relação a ela, só queria aquela garota perto dele e melhor, ele queria vê-la bem e isso o deixava extremamente confuso porque não sabia por quê!
Com dez minutos de carro ele resolveu parar num bar perto da faculdade do qual frequentava vez ou outra com alguns estudantes que o convidavam, embora não estivesse indo muito por lá por causa da namorada – Ciumenta – não sabia o que era sentar numa mesa de bar e tomar uma cerveja ou qualquer coisa que fosse há muito tempo, entrar ali com fora totalmente fora de sua rotina em três anos...

- Então... – Cortou o silêncio assim que ambos se ajeitaram em uma mesa para dois. – Você tem uma filha? – entrelaçou suas mãos em cima da mesa, estranhamente entusiasmado. –
- Calma... – soltou um riso anasalado fazendo o homem entortar a cabeça, embora também estivesse com um sorriso. – Meu professor cara fechada, super sério, realmente esta entusiasmado com uma conversa alheia a matéria? – O homem retorceu o rosto jogando-se no encosto da cadeira. –
- Enfatizando novamente: Não sou seu professor aqui fora. – Enumerou nas mãos. – Em segundo lugar: Eu sou ser humano, e não uma máquina... Fala sério? Vocês acham que ser professor é o quê? Não ser humano? Viver de terno? Dar aulas e não dormir...
- Não, não... – Foi a vez dela se apoiar na mesa em direção ao professor voltando a sua posição de antes. – Não é qualquer professor, é você.
- Eu?– fez o mesmo que ela, agora á encarando sério, embora sua expressão não fosse irritadiça, e sim, apenas séria, quase que inexpressiva; Por um momento eles só trocaram olhares enquanto ele copiava a posição dela, entrelaçando as mãos em cima da mesa a milímetros das dela. –
- ... – Os dois cortaram a troca intensa de olhares, desviando para uma garçonete parada ao lado da mesa. –
- Oi, Briana!
- Quanto tempo... – Entregou o cardápio alternando o olhar entre e ele. –
- Essa é ... - A mesma estendeu a mão sem dizer uma palavra. –
- E... Como está a Carmen? – observou a feição de mudar como se ele estivesse sacado tudo, ou melhor, não soube descrever, mas sua feição mudou. –
- Ótima. Está em casa pra variar. – Respondeu sorrindo forçado. –
- Oh... – Voltou a olhar . –
- Uma cerveja e... – cortou a frase que seguiria se virando para . –
- Um suco de morango. – Fez um gesto com as mãos nitidamente desconfortável. –
- Tudo bem...

A garçonete se afastou da mesa de ambos trocando um último olhar com os dois. não sabia se era só ela, ou ele também tinha percebido, porém fingia que não. Mas que tinha certeza que Briana, a garçonete, estava pensando mil e uma coisas e que projetariam mil e um boatos, disso ela tinha certeza e já estava estremecendo por dentro por isso e com vontade de estapear seu professor por estar tão calmo daquela forma.

- Que foi? – O mesmo perguntou alguns segundos depois de perceber a feição tensa a sua frente. –
- Você é assim o tempo todo?
- Assim como? – Perguntou indiferente. –
- Assim... Tão... – Gaguejou. – Você sabe que as pessoas estão te observando e falando de você, isso é muito óbvio, e você simplesmente finge que nada está acontecendo! – A garota soltou perplexa o vendo rir um tanto , ele só parou de rir porque continuou na mesma posição de antes, de braços cruzados e muito, muito tensa. –
- O que importa pra mim se eles pensam e me olham com outra pessoa? Eu sei o que está acontecendo aqui, e não é nada do que ela está imaginando então.... Onde está o problema? – Fez um gesto com a mão. – A única parte que eu não entendi foi a do fingimento... – Murmurou. –
- Não seja tão humilde! – retrucou bufando. –
- Não, é sério! Não entendi.
- Não entendeu o quê? Que você é realmente atraente e age como se não soubesse disso?

Na mesma hora que soltou aquilo a boca de fechou rapidamente e seus olhos se arregalaram de leve. Ela podia jurar que havia virado um pimentão, e a situação apenas piorava quando percebeu que a única reação do homem foi sorrir, sorrir e olhar para os pés, parecendo desconcertado.

- E então? Uma filha? – Ele pigarreou voltando a olhá-la depois de mais segundos tensos –
- Ela tem três anos e se chama ... É o amor da minha vida. – tentou relaxar a estatura, se posicionando melhor na cadeira. –





Capítulo Dois - Continuação...

Dali surgiu uma longa conversa.
Ela não precisou beber uma gota de álcool para que em vinte minutos começasse a se sentir confortável. Fato esse fora potencialmente estranho, no entanto ela não estava se importando muito. Em uma hora havia se esquecido da conversa com a um ponto que se viu conversando com seu professor sobre seu medo de palhaços. O assunto era totalmente inútil, mas eles estavam lá rindo do quanto isso era ridículo.
Muito provavelmente eles continuariam conversando por horas se o celular da garota não houvesse começado a tocar enlouquecido em cima da mesa.
Com um gesto e um sorriso pediu um tempo para que assentiu bebericando sua cerveja.

- Sim? – Atendeu mordendo os lábios. –

A garota estava apoiada na mesa e curvada em direção a completamente concentrada na conversa, e ele tirou aquele tempinho para observá-la. Primeiramente o ato foi involuntário, mas mesmo quando ele percebeu que estava a observando, não parou. Ele quis continuar olhando e notando o quanto ela era realmente bonita e cativante... Não era certo, mas como qualquer homem não seria hipócrita a ponto de ignorar aquela cena escancarada na sua frente.

- ... Meu Deus eu esqueci totalmente! – a garota olhou no relógio assustada. – me desculpa!
o viu fazer um gesto do tipo ‘’o que aconteceu?’’ pra ela que botou no viva voz para que ele entendesse:
- ... Ah, eu só vim procurar a senhora quando percebi que a faculdade está completamente vazia e você não está aqui! Puta que Pariu, , onde você está? Quer nos matar do coração? O que deu em você? – esbravejou fazendo e se entreolharem por segundos. –
- Eu estou com nosso professor de criminal. – Falou rápida apertando os olhos ao dizer isso. Novamente ficou a olhando com um meio sorriso. –
- Você está com QUEM?
- Ela está bem... ? – se intrometeu chegando mais perto do celular. Dessa vez tapou o rosto. – Eu percebi que sua amiga não estava muito bem e propus que viéssemos tomar algo pra espairecer, nada demais... Está tudo sob controle...
- Tudo bem, deixa eu pensar direito... – Eles ouviram o murmúrio de e ao fundo. – Não é mentira, você realmente está com ele bem aí do seu lado... – Outros murmúrios. – Eu realmente não estou concebendo essa ideia.
- Qual é a aberração? – perguntou perplexo. –
- Sei lá, você, meu professor, com a minha amiga que por sinal é sua aluna também? – A garota ouviu-o rir, fora só nesse momento que abriu os olhos engolindo seco. –
- Menos . – Repreendeu-a. –
- Não tem nada rolando aqui. – complementou tornando o olhar para . –
- Por enquanto. – Pigarreou. – Enfim, estou indo aí, me manda a localização, está quase se perdendo nessa mata fechada.
- Ok, traz minha pequena.
- Há.

Finalizou a ligação. Novamente os dois trocaram olhares e após dois segundos soltaram um riso alto e sincronizado voltando a se ajeitar na cadeira. Tinha algo muito errado ali.

- Nós dois estarmos aqui é muito ruim assim? – Ele perguntou brincalhão tomando o último gole que restara de sua cerveja; talvez esse fosse o motivo do riso tão espontâneo. –
- Ah sim, professor, é bem ruim se alguém descobrir. – Respondeu. –
- Então esse vai ser o nosso segredinho. – O homem sussurrou curvando-se em cima da mesa em direção a dando uma piscadela em seguida. –

Após dez minutos e chegaram, por sua vez dormia profundamente sob os ombros de homem, totalmente apagada, nem dando a chance de conhecê-la o que era por hora sua intenção.
Ele ficou encantado. Essa era a palavra certa. Encantado pela forma como beijava o rosto da filha desacordada a olhando com aquela preocupação que toda mãe tem, sem aparentar que era tão nova pra isso; pra ser responsável por uma vida.

- E então... – parou na porta do carro, de frente para , enquanto ajeitava no carro outra vez. –
- Espero que você esteja melhor. – Ele sorriu sem mostrar os dentes, mas visivelmente sincero. –
- Obrigada por isso... Eu não sei se não voltaria a estaca zero depois de tanto tempo... – A garota murmurou o fazendo arquear a sobrancelha; ele não sabia da história inteira, aquilo apenas aumentou sua vontade de conhecê-la melhor. – Mas bom, eu espero que eu não tenha te dado algum problema porque, - Ela olhou no relógio. – É tarde.
- Isso não importa agora. – Riu outra vez e com um suspiro continuou. – Eu vou indo e, até mais então?

apena assentiu espremendo os olhos em negação, como se estivesse com vergonha da situação que os levara ali. No mesmo momento o homem riu captando a mensagem a puxando para um abraço, nada intimo, fora apenas um abraço, do qual por sinal, possibilitou que ela sentisse o cheiro dele, um perfume forte masculino, daqueles que ela tinha certeza que não sairia tão cedo nem de suas roupas, e nem de sua mente.
Sem mais palavras ele apenas deu meia volta dando um aceno e caminhou em direção oposta a eles carregando seu terno no antebraço. ainda ficou o encarando por um tempo. Voltou para o carro apenas quando o ouviu ser ligado. Tudo sem dizer ainda uma palavra.
Da mesma forma o caminho todo seguiu. A mente dela não estava trabalhando direito; tudo estava parecendo um devaneio, todos os momentos e até mesmo a dor que antes estava sentindo. Há séculos ela não tinha um momento como aquele: num bar, com outro homem e totalmente solta, como aconteceu. Embora suas amigas convidassem e vez ou outra ela fosse, ia apenas com a ideia fixa de que não podia viver encalacrada numa casa sem viver, nunca fora por livre e espontânea vontade de realmente curtir ou conhecer alguém; Geralmente sempre se pegava pensando em um momento da noite, que fosse por um segundo, em . Geralmente concluía em noites como aquela que não acharia ninguém que fosse capaz de tirá-lo de si e que por mais ridículo que ele fosse, ela ainda iria amá-lo pra sempre, e que em um piscar de olhos ela voltaria por ainda sentir falta.
Mas naquela noite foi diferente. E o que mais a deixava a beira da insanidade era que havia descoberto isso com seu professor, em um bar qualquer, em um dia totalmente improvável.

***


Depois daquele dia a relação dos dois ficou mais amistosa.
Todos os dias durante a aula, quando arrumava um tempo, perguntava da forma mais discreta que conseguia, como estava. Perguntava sobre e por três meses seguiu com esse ato.
Dali fora surgindo uma amizade estranha entre eles, embora em público não demonstrassem muito, sempre que se encontravam sozinhos rolava um papo bem descontraído; e podiam ficar conversando por horas, e foi por esse motivo que cada vez mais ele queria ficar perto dela. Sem saber ao menos que gostava de ficar perto dela. não o olhava com segundas intenções, ou conversava com ele como as outras garotas. Era perceptível que durante o ato ela só queria falar, queria desabafar, e ele se sentia infinitamente bem por isso, adorava ficar perto dela porque além de ajudar, podia ser ele mesmo sem precisar sustentar sua postura que todos cobravam, era libertador poder confiar em alguém num lugar como aquele.
Foi por causa dela que ele pegara leve na prova seguinte; E foi por ela que ele procurou pela faculdade depois da cuja prova ter terminado, como costumavam fazer. Mas não estava onde costumava ficar, onde esteve a semana inteira e por algum motivo aquilo o preocupou. Conversar com ela estava virando sua rotina, tanto que por não encontrá-la se viu na tentação de ir procurar no refeitório. Naquele dia em si, não queria só saber onde a garota estava por se preocupar, mas sim porque ele precisava conversar, e a primeira pessoa que passou em sua mente fora ela.
Há tempos ele não ia pra aqueles lados por justamente preferir ficar isolado num lugar conversando com . Sentiu todos os olhares tornarem para ele e o seguirem enquanto chegava perto da mesa de .

- Oi, ... – Falou rapidamente se apoiando na mesa. – E ai, . – Fez um toque com o mesmo voltando seu olhar para que agora havia entortado a sobrancelha. –
- E ai, professor... – O homem hesitou espremendo os olhos de leve. – Tudo certo?
- Depende do que você define certo. – Ele sorriu sem graça. – Enfim, não vi hoje, tudo bem com ela?
- Sinceramente eu nunca sei quando tudo está bem com ela... – suspirou. – Ela disse que iria pra casa depois da prova...Você quer falar com ela? – A garota desbloqueou o celular já procurando o número da amiga. –
- Pode ser. – Assentiu coçando a barba enquanto esperava o passar. –
- Se conseguir falar com a Lady Love, me avisa.
- Pode deixar.

saiu da mesma forma que entrou: Com todos os olhares petrificados nele.
De fato ele não entendia porque todos olhavam pra ele como se cada ato fosse precisamente calculado para seduzir alguém. Era realmente isso que parecia, porém não era nada que ele quisesse passar. As pessoas só haviam criado um estereótipo dele do qual nem mesmo ele conseguia aguentar.
Assim que fez tudo que precisava fazer pra fechar seu expediente na faculdade, correu até ao seu carro, discando o número de apenas lá, no estacionamento.
Dois toques, três, quatro, cinco; alguém parecia não querer atender, muito embora ele continuasse tentando. estava batucando os dedos no volante insistentemente ansioso, com a respiração presa. Sentiu-se ridículo ao perceber aquilo. Ele tinha 28 anos. Já era muito bem formado e amadurecido e pior, tinha uma namorada, ou uma ex namorada. O que fosse, nada explicava sua ação tão imatura diante daquela garota oito anos mais nova que ele. Não tinha nada a ver com a diferença de idade entre eles, ou com o que os outros fossem pensar, na pura verdade ele estava pouco se ferrando pra o que iam pensar sobre ele e ela; No entanto o que o incomodava era o fato de agir como um adolescente perante e o significado disso. Das duas uma: Ou ele estava apaixonado, ou ele estava apaixonado.

- Quem? Seja lá quem for, não estou a fim de conversar, ligue outra hora. – Ele ouviu a voz ríspida porém incrivelmente suave do outro lado da linha. –
- Vejo que alguém além de mim não está de bom humor hoje... – Murmurou brincalhão, apertando a mão desocupada no volante. –
- Oh... Professor... – O tom de mudara de maneira que pode imaginá-la fazendo uma cara de culpa. –
- Não sou seu professor depois que meu expediente acaba.
- E você já acabou seu expediente, professor? – O homem sorriu de lado, mesmo sabendo que ela não veria, e fez o mesmo do outro lado da linha. –
- Sim, eu já terminei. – Disse se recostando no banco. –
- Oh, então tudo bem, , posso te ajudar? – Ele riu outra vez tapando o rosto com a mão que antes batucava o volante. Sim, ele estava realmente gostando daquela adolescente. –
- Queria saber se você estava bem... – Murmurou. – Não te encontrei pra perguntar pessoalmente, então tive que correr pra sua amiga.

soltou uma risada alta o fazendo sorrir junto, porém ficar confuso.

- Ela deve estar lá imaginando mil coisas na cabeça dela, mas tudo bem... – falou risonha. – Eu estou... Naqueles dias. – diminuiu o tom. –
- Naqueles dias?
- Não, não é isso que você está pensando. – Ambos riram. – Sabe? Aqueles que você perde o controle e precisa ficar sozinha. – Deu um suspiro. –
- Onde você está? – Perguntou já ligando o carro. –
- Passei pra comprar um café aqui na...
- Manda a localização, estou indo te encontrar.
- Pro... – Ela foi parada por um pigarro dele. – ... é sério, não precisa ser minha baba.
- Quem está precisando de ajuda hoje sou eu, .

Pela primeira vez nos três meses em que haviam criado aquela amizade improvável, havia a chamado pelo apelido, envolto por uma voz realmente séria e triste do mesmo. soube que não era brincadeira por isso, no entanto não deixou de sentir um leve calafrio na espinha ao ouvir seu apelido sendo proferido por ele. Seria mesmo possível aquilo que ela estava pensando?
Não, não podia ser possível.
Embora estivesse no seu dia de perder o controle enquanto podia, sua atenção se voltou para ele.
- Tudo bem. Estou te enviando. – Falou lentamente. –
- Estou indo.

Em menos de dez minutos estava em frente a um café que realmente se encontrava nas redondezas da faculdade. O lugar ficava em frente a um tipo de parque que no momento parecia completamente vazio, no entanto aconchegante com todas aquelas luzes pré natal penduradas das quais interligavam cada poste daquela parte e pra ajudar, o tempo estava congelante naquela noite.
De longe ele avistou uma garota da qual deduziu ser .
desceu do carro botando suas luvas e seu sobretudo preto já caminhando lentamente em direção a garota sentada no banco no meio daquele parque. Ela olhava para baixo, impossibilitando que ele tivesse total visão de seu rosto de longe, portanto apertou os olhos a medida que fora chegando.
Só quando estava quase chegando que constatou que era . Faltando três passadas para alcançá-la, a garota ergueu a cabeça de súbito para onde ele estava, sorrindo de leve. Aquilo fora o suficiente para ele entender que o que estava sentindo já não era mais normal. Não era nada relacionado a amizade que tinham criado, ou sobre a afinidade que sabiam que tinham. Pelo menos para o homem, o que ele estava sentindo era mais do que isso, porque pela primeira vez em todo o tempo que tinha passado com ela, quis mais que tudo beijá-la.

- Comprei um café pra você também. – levantou um copo de café para ele que em segundos havia se ajeitado ao seu lado; A garota não recebeu resposta, portanto voltou a falar dessa vez prestando mais atenção nele. – Eu não sabia que tipo de café você gostava então eu só pedi...
- Está ótimo, obrigado. – O homem sorriu apertando os lábios. –

Por mais alguns segundos os dois ficaram sozinhos apenas ouvindo o som de suas próprias respirações e uma música leve e suave, quase inaudível por estar tão longe, tocando provavelmente no café do qual tinha ido.
Ela não estava entendendo. Não se sentia desconfortável pelo silêncio, de fato, mas queria que ele falasse algo; o silêncio de estava a deixando aflita, como se algo muito sério houvesse acontecido, e cá entre nós, sua relação com ele tinha se tornado grande demais para que ela não se importasse com isso.
Por um minuto contado ela ficou o olhando sem desviar o olhar para nada. Ficou observando a fumaça formada pelo frio sair de sua boca de maneira calma, o que demonstrava que sua respiração estava realmente equilibrada. As mãos dele seguravam com firmeza o copo de café do qual ela havia pedido e seus olhos estavam fixos nisso, no copo de café.

- E ai... Eu não tenho o dom como você tem de me acalmar, mas... – murmurou cortando o silêncio o vendo sorrir mais uma vez, ainda sem olhá-la. – Por favor, você está me assustando... O que aconteceu? – Só então ele a olhou. –

sentiu outro calafrio na espinha, mas não era de frio. Os olhos dele cravaram nos seus como se com isso ele estivesse contando o que tinha de tão ruim, e embora tivesse sentido toda a onda estranhamente elétrica que se passou por seu corpo, ela ainda não soube identificar o que havia acontecido, portanto apenas entortou a cabeça lentamente, tentando recobrar todo o resto de sanidade que lhe sobrara depois daquele olhar.

- Eu estava noivo. – Começou com a voz rouca, desviando o olhar novamente, mas dessa vez para o nada; fora a deixa para se ajeitar melhor no banco, consequentemente chegando um pouco mais perto dele. – Só que, eu não estou mais. Nós terminamos.

Ele a olhou com um meio sorriso após tornar o olhar baixo.

- Nossa, eu...Sinto muito, . – Disse no mesmo tom que ele, esticando braço para tocar as mãos dele. Assim que o fez, sentiu-o retribuir de imediato. –
- Não estava dando certo há um tempo... – Continuou. –
- Se você sentiu que não dava mais, era o certo. – A garota disse dando um suspiro. – Se tem uma coisa que eu descobri é que, quando algo não está dando certo, empurrando com a barriga é que não vai adiantar. É melhor conservarmos o que ficou de bom do que essas memórias sejam substituídas por prováveis brigas que poderiam ocorrer...
- Você fala bem demais sobre o assunto pra uma garota de 20 anos. – sorriu apertando a mão dela mais uma vez, aquilo a fez sorrir junto com ele. –
- Eu tenho uma filha de três anos. Acha mesmo que eu não tenho história pra contar? – Apertou os olhos, entortando a cabeça. –

fez o mesmo que ela, como se houvesse o hipnotizado. Na realidade só de estar junto a ela o deixava mais calmo. Na verdade de tudo não esperava que lhe desse bons conselhos ou fosse sua psicóloga particular como era o caso dele com ela; ele só queria sua presença. O espírito de paz que passava, como se tudo mesmo que parecesse ruim, pudesse passar, o deixava obcecado pela sua presença. A esperança que carregava no olhar da qual ele não sabia do que se tratava; aquela faísca que brilhava em seus olhos toda vez que ele reparava neles – Incríveis na opinião dele – Ele queria saber o que mantinha tão acesa e tão daquele jeito, ou se essa era sua essência, porque ele estava apaixonado por isso.

- Ei?
- Ela tinha um ciúme doentio. – O homem voltou com a postura de antes. – Desde quando comecei a dar aulas ela simplesmente tem surtado... – Ele fez um gesto. –
- Isso significa que ela gosta de você.
- Esse é o problema, . – Pausa; ele olhou em seus olhos. – As vezes só gostar não é o suficiente.
- E como pode não ser suficiente? – perguntou perplexa. – Se for real, por gostar, você resolve. Essa é a base.
- Eu cansei de tentar resolver. Eu desisti pelo cansaço e por quê... De tanto bater nessa tecla, me desgastei. – Falou culposo. –
- Então não se culpa, pelo menos você tentou.
- É... – Ele murmurou. – Eu não me sinto culpado. Sinto que... Acabou e com isso uma fase da minha vida acabou e é complicado sentir que uma fase da sua vida acaba com vinte e oito anos. – olhou para que riu humorada tomando o último gole de seu café. –
- Não tema a solidão, professor, sabe quantas garotas dariam a vida pra se casar com você naquela universidade? – ele travou o riso como se esperasse a piada. –
- Quantas?
- Várias.
- Não me preocupo com quantidade, me preocupo com qualidade. – Ele piscou a fazendo gargalhar e consequentemente riu junto. –
- Se isso serve de consolo... – se ajeitou no banco novamente. – Até eu ficaria com ciúme se fosse sua mulher, porque convenhamos, você deve ser um problemão pra se lidar.
Ele soltou uma gargalhada gostosa.
- Problemão? Oi? – Entortou a cabeça se inclinando em direção a . A garota permaneceu imóvel ainda rindo. –
- Eu não saberia lidar com você, professor. – O homem chegou um pouco mais perto, naquela altura pode sentir perfeitamente o mesmo perfume masculino da primeira vez que o viu, aquele que ainda estava encalacrado na sua mente desde o dito dia. –
- Para de me chamar de professor. – O estômago dela foi parar na garganta ao sentir a respiração dele tão perto quanto antes, agora batendo perto de seus lábios; Ela sabia que nada estava certo ali, só não entendia porque não conseguia se mexer. –
- É involuntário. – Fechou os olhos ao sentir seus narizes se roçarem. –

Da mesma forma que ela, ele fechou os olhos sabendo que aquilo era a última coisa que eles deviam fazer dadas as circunstâncias do porque estavam ali. sabia que era errado, que seu relacionamento havia tomado um fim concreto em poucas horas, pois entendia que acabado mesmo já estava, e só por esse motivo havia deixado com que o sentimento por tomasse conta dele, só que era tão tentador. Dentro de sua mente um massacre estava acontecendo, entre o dever e o poder, ele deveria beijá-la naquele exato momento, mas não podia. Não porque ela era sua aluna, mas sim porque iria contra sua moral. O que ele estava fazendo?
Esse meio tempo foi o suficiente para retomar a consciência sobre o que estava prestes a acontecer, e por mais que estivesse na mesma que ele, com a vontade súbita de acabar com aquilo e finalmente beijá-lo, porque era sua vontade, ela só respirou fundo, abrindo o mínimo dos olhos, visão que deu diretamente para os lábios entreabertos do homem.

- Isso é tentador, mas agora não é o momento. – Sussurrou se afastando lentamente dele, por hora o homem permanecera na mesma posição observando a garota se afastar. – Você está abalado com tudo o que está acontecendo e eu não quero ser onde você quer descontar essa frustração.

Alguns segundos depois ele assentiu positivamente finalmente tornando a sua postura normal.

- Você tem razão. Me desculpa. – Passou a mão no rosto. Como é que ele havia chegado aquele ponto de descontrole? –
- Está tudo bem... – sorriu amistosa pra ele olhando no relógio logo em seguida. – Eu só preciso ir embora porque minha pequena está me esperando e já é tarde...
- Eu posso te levar. – Propôs já se levantando. – E falando na pequena , com quem ela está se a e o ...
- Ah, minha mãe veio de Cambridge pra cá ficar por uma semana. Há quem diga que a pode ser uma pestinha, mas com a minha mãe... – sorriu começando a caminhar ao lado do homem. – Se você der sorte, provavelmente consegue conhecer minha pequena furacão hoje.
- Seria um prazer. – Ele sorriu. –
- Agora me fala mais sobre você.

Após aquele momento bem intenso, até que ambos reagiram bem e souberam disfarçar a tensão que se formou logo depois daquilo. O preocupante é que a tensão que eles tentavam disfarçar não era ruim, era sexual. Não no sentido do sexo, e sim porque a atração estava viva dentro deles, e embora relutasse contra o fato de que não poderia nem por um segundo estar atraída pelo seu professor, era inevitável. Primeiro porque há meia hora atrás ela sabia que amava de todas as formas possíveis e acreditava que ninguém poderia substituí-lo, no entanto essa tese havia ido por água abaixo quando sentiu seu coração virar uma pedra no peito pelo simples fato de que havia quase a beijado, e ela queria que ele tivesse o feito. Ou seja, sim, havia como substituir , era ela quem não aceitava que isso fosse possível.
Assim que estacionou em frente a sua casa já conseguiu de cara identificar a sombra de uma garotinha na janela da qual ela deduzia ser a da sala.
A casa era pequena, mas soava confortável, a cara de , pensou ele. O jardim era todo bem montado, haviam alguns detalhes como um gnomo, e as plantas estavam bem cortadas. Por meio de um caminho de piso se chegava até as escadinhas principais que se daria para a porta de entrada da casa. Ao lado esquerdo da porta havia uma janela enorme da qual ele viu , e do outro também havia uma janela, mas esta estava tapada por uma cortina. A casa era de dois andares, feita de tijolinhos brancos, e bom, por hora, era só aquilo que ele conseguira destacar.

- Está entregue. – O homem falou assim que abriu a porta para sair do carro; por sua vez já havia saído e o esperava em frente ao jardim. –
- Não vai querer entrar? – Perguntou espremendo os olhos; -
- Estava esperando que me convidasse...
- MAMÃE!

Ambos se viraram de súbito para trás e viram uma mini garotinha de macacão rosa e touca correndo em direção a de braços abertos. Em dois segundos a mesma agarrou a mãe pelo pescoço, apertando-a em seguida ato que fez tanto quanto rirem.

- Ei, sentiu minha falta?
- É claro que eu senti, a vovó não me deixa comer chocolate. – Sussurrou ‘’cholate’’, fazendo a menina rir. –
- Você não pode comer chocolate antes de dormir, , eu já te disse isso. – Falou séria, aquilo fez a garotinha recuar alguns passos. –
- A tia diz que um não faz mal... – Murmurou fazendo outra vez rir, só assim ela o olhou. –
- , esse é o , amigo da mamãe. – levantou-se apontando para , o mesmo abaixou-se na altura de , sorrindo simpático. –
- E ai, mocinha, como vai?
- Se minha mãe deixasse eu comer chocolate eu estaria supimpa.

Ele não deixou de rir mais uma vez, trocando olhares com que por sua vez havia cruzado os braços acenando negativamente.

- Que tal trocarmos o chocolate por algo mais divertido? – Tanto quanto cerraram os olhos ao ouvirem aquilo. Deus, ele havia visto uma miniatura da menina bem ali, tirando os olhos, que eram mais claros do que os da mãe. –
- O que seria mais divertido do que chocolate?
- Quer que eu te ensine uma brincadeira? – Ele olhou para como se pedisse permissão a vendo responder que sim com a cabeça. –
- Tudo bem.

Em dois segundos ela havia pulado no colo dele e os três estavam se encaminhando para dentro da casa.
Houve toda aquela pequena parte de apresentações onde apresentou o homem a mãe e recebeu algumas perguntas até que finalmente eles pudessem realmente efetuar a brincadeira tão esperada por , enquanto isso, ela continuava grudada nele e embora aquilo fosse legal de sua parte, não podia deixar de pensar que a carência de por um pai a deixava daquele jeito. Com era quase a mesma coisa.
de fato era muito dada e adorava brincar. Não tinha vergonha alguma e por vezes enquanto passeava com ela, acenava e dizia ‘’bom dia’’ todo enrolado para todas as pessoas que passavam por ela; isso estava na sua essência, então, se enrolar toda em não era tão anormal tendo em vista que ela adorava pessoas. No entanto, como já dito, sabia que metade daquilo podia ser sua essência, mas a outra metade também era a carência de .
Quando por fim eles conseguiram sentar-se na sala, só ele e a garotinha, porque havia ido até a cozinha preparar algo pra eles, foi quando as risadas e gargalhadas altas de soaram. sorria junto toda vez que ela ria. Vez ou outra trocava olhares com a mãe que praticamente dizia no olhar que para que ela explicasse direito quem era aquele rapaz. Ah se sua mãe soubesse toda a historia. Eles dispensaram de primeira o fato de professor e aluna, mesmo ambos sendo maiores de idade, o paradigma ainda estava lá, e partindo do pressuposto de que não teriam nada além de uma amizade e queriam dispensar os comentários e achismos, preferiram abafar aquele detalhe.
Aquilo tornava as coisas ainda mais engraçadas por que nunca pensou de fato que algo sério poderia acontecer entre os dois, ou melhor, era uma ideia incabível até aquele momento, mas olhar para e a fazia entender que não poderia esperar voltar pra ela a vida inteira, ou ficar parada no tempo só porque havia sido machucada. Já faziam meses. Meses que decidiu viver, e ela também precisava, que fosse com ou com outro homem; ele a fez ver que a vida não parava só porque você tem seu coração destruído.

***


Nos meses seguintes se seguiu o inverno, em conjunto com as festas de fim de ano se aproximavam das quais convidou para passar com eles.
Após aquele dia, não passava um minuto sem perguntar do homem levando com que suas visitas fossem ainda mais periódicas e com isso, que e ele se aproximassem ainda mais. Embora ainda houvesse a tensão, eles não se aproximaram além de um abraço – que por vezes demorava bastante – Mas nada mais que isso. Sem falar nos boatos que andavam rolando entre isso. Perdera as contas de quantas vezes perderam a noção do horário conversando em seu sofá até altas horas da madrugada com a garotinha desmaiada em meio aos dois. O que só alimentava mais os boatos. E o que só alimentava um sentimento diferente entre os dois. No entanto, era tão puro e sem segundas intenções que se tornava até complicado de entender o que significava.
Não que ligasse, ninguém tinha nada a ver com ela e ele, mas era inevitável não ficar irritada enquanto ouvia Barb, Shelley ou até outro desconhecido comentar em como ela e o professor estavam próximos e deduzirem que o termino do noivado do mesmo fora ela. Ah, se eles soubessem a verdade. O mal daquele século era o pré-julgamento, ela podia sentir isso na pele desde os seus dezessete. Sabia muito bem como as pessoas podiam ser cruéis, e era por isso que tinha receio. Tanto por ela quanto por ele.
Em contrapartida, a preocupação dele era com ela, em relação aos boatos. Mas , por sustentar em sua própria mente, e ser adepto ao que lhe interessava e não aos outros, guardava mais pra si sua preocupação, acreditava que se comentasse com ela sobre a situação, iria passar a impressão errada de que pensava nos dois juntos, o que não era o caso, até sua última ida á casa dela.
Por conta de suas saídas depois da faculdade e toda aquela afinidade de meses, ambos se tornaram praticamente íntimos; iam sempre pro mesmo bar conversar. Um ouvia os murmúrios do outro, choramingava para ele sobre o quanto era difícil dividir com . Não por causa da menina, ou por ciúmes dela, mas por , enquanto ele só escutava, as vezes falava sobre Carmen, embora fosse reservado, falava muito pouco, a realidade é que sua mente girava entorno de teorias de como aquele cara tinha conseguido abandonar uma garota como ela, e uma menininha tão doce quanto á que a mesma havia gerado.
Foi em meio á isso que, quando soube que apareceria na festa de final de ano da qual os pais de e os pais dele costumeiramente davam juntos, por conta da cidade pequena, que ela convidou o para acompanhá-lo. A menina contou todo o acontecido, quase implorou pra que ele fosse com ela. Ambos tinham ficado tão íntimos que sentiu-se na necessidade de pedir aquilo.
era mais velho que ela, mais maduro e fora a melhor coisa que havia acontecido com ela naqueles meses que ficou sem . Ele a acalmava de uma maneira admirável. Foi com esse discurso que convenceu-o a ir para sua cidade natal junto á ela, , e . Obviamente o fato de estar incluída na bagagem e pedido daquele jeitinho do gato de botas, havia ajudado bastante, e era por esse motivo que ela o adorava. era completamente apaixonado por , e ela era completamente apaixonada por ele, e como ficava no meio dessa?
Durante a viagem teve bastante tempo pra pensar sobre tudo aquilo.
Seus olhos iam e voltavam entre no banco de trás, ao seu lado brincando vez ou outra com as duas, e The Fray tocando no rádio. Aquilo pra ela pareceu o retrato de uma família, e olha que isso parecia loucura demais.
Ela nem de longe gostaria que substituísse como pai, mas aquela cena lhe confortou o coração. não podia mentir que não se sentia atraída por ele, e que o único motivo de ainda não ter o beijado fosse o medo de se arriscar novamente, sem contar nas quantas coisas que estavam em jogo entre eles, de a suas vidas profissionais, aquela coisa entre os dois era grande, mas diante daquele momento no carro pareceu tão pequena.
Ela gostava dele, tinha se acostumado em ter perto dela. Estava acostumada a ligar pra ele e dizer ‘’ que tal um drink hoje?’’, só pra poder desabafar sabendo que ouviria palavras sensatas sobre suas crises existenciais.
era uma mera adolescente perto da experiência que trazia, tanto de vida profissional quanto amorosa, e talvez fosse por isso que em tão pouco tempo tivesse lhe dado tanta segurança.
talvez ela devesse recomeçar de vez, e não só ficar dizendo que deveria.

- Eu devo ter perdido minha cabeça.– O homem murmurou assim que chegaram na casa dos pais de da qual já estava decorada e com cheiro de comida de final de ano. –
- E eu a minha. – Ela sorriu envergonhada fazendo uma careta. fez o mesmo abanando a cabeça negativamente virando-se para a porta. –
- VOCÊS VIERAM! – Sua mãe gritou já se direcionando a no colo do homem. – E você também!! – Se direcionou a . –
- Obrigada por me notar ,mãe. – brincou entrando na casa. –

Primeiramente a mulher abraçou no colo de mesmo, logo depois abraçou o homem sussurrando palavras que não conseguira ouvir. Era cômica a forma como sua mãe o adorava, talvez ainda mais do que ela mesma, e mais cômica ainda – pra não dizer completamente hipnotizante. – a forma como ele usava de toda a sua postura e boa educação enquanto conversava com seus pais. Foi enquanto observava aquilo, parada no meio da sala, que sentiu o peito apertar. Não podia mais negar, gostava dele, e porra, como poderia não gostar? Á quem ela queria enganar?

- Então, vai ficar no seu antigo quarto? – Sua mãe direcionou-se á ela, tirando-a de seus devaneios.
- Pode ser.
- Tudo bem.

Por um segundo ele ficou parado o que fez parar para olhá-lo confusa também, antes de subir a escada.

- Que foi?
- Onde eu vou ficar?
- Não é meio obvio? – Ela sorriu abertamente. não soube dizer exatamente que tipo de sorriso fora aquele, mas não era nada parecido com os que ele já tinha a visto dar. –
- Não sei ao certo...
- Eu te proponho a deixar seus bons modos e me acompanhar até meu quarto.
- Eu nunca deixarei meus bons modos, mocinha. – Sorriu de lado. A cena foi ainda mais apaixonante. Lá estava ele com suas mãos nos bolsos da calça jeans preta, não muito colada, acompanhada de uma polo vermelha vinho, e uma japona preta, a garota observou seus detalhes, desde o pescoço, até o queixo bem desenhado, e aqueles olhos que faziam ruguinhas, a curva de seus lábios... Seu corpo chegou a se arrepiar. –

Assim que entrou no quarto antigo dela, após segundos tentando entender o que ela tanto o analisava; pode notar a mudança que precisou ter. Imaginou como fora quando, com dezessete anos, descobriu que estava grávida. Por sua dedução lógica, deixou aquele quarto aos dezessete.
Ainda haviam pôsteres e revistas de adolescente, seu quarto era todo de menininha, e seu mural...Em cima da cômoda de marfim branca dela, havia um mural branco cheio de fotos dela, , , e mais outras pessoas que não identificou. Embora houvesse tanto ali naquele mural que falasse dela e fosse extremamente encantador porque mostrava que realmente, ser cheia de luz era realmente da essência de , seus olhos se concentraram mais especificamente nas fotos dela e . Algumas eles se abraçavam, outras estavam sorrindo de olhos fechados. Ele podia sentir o amor de ambos transcendendo daquelas fotos e por um segundo seu coração coçou de leve vendo aquilo.
já não poderia mentir que não sentia nada por ela; já era um cavalo velho pra aquela história de não saber o que estava sentindo. Ele sabia exatamente o que estava sentindo. Só esperando o momento certo, o momento que estivesse pronta, e embora soubesse de e da vida de , ver que o amor deles era realmente enorme o deixava ainda mais intrigado por aquela história. Era realmente inconcebível até mesmo pra ele, imagina para ela?

- Oh, você viu... – O homem se virou por um segundo pelo pigarro de . – Preciso tirar isso daí...
- Como você mudou. – Ele trocou olhares com as fotos e com como se comparasse o antes e o depois. –
- Eu tinha dezessete com cara de treze. – Ambos riram de lado. – Foi tão inesperado. – Disse depois de um silêncio enquanto observava as fotos. –
- Vocês pareciam se gostar bastante. – Ele comentou baixo. –
- Como você disse uma vez... Gostar as vezes não é o suficiente. – sorriu triste. – Acho que nenhum de nós esperava porque, fazia tão pouco tempo que estávamos juntos... Quer dizer, éramos amigos desde os cinco anos, mas, tendo um relacionamento...
- Quantos meses? – se virou pra ela comovido. –
- Dois. – Sua boca fez um desenho diferente que fez rir de leve. –
- É. Eu sabia que ele não queria, e sabia que muitas vezes ele pensava que a pior burrice da vida dele foi se envolver com a melhor amiga, mas..
- Ei - O homem a parou, segurando seu braço. – Veja bem, se vocês não tivessem se relacionado que seja por dois meses, esse pequeno furacão não teria nascido. Não seja tão dura com você, a culpa não foi sua. –

Fora o tempo de ele a soltar e voltar ao mural, retirando uma foto só de sozinha que estava escondida entre as outras; estava gargalhando com um sorvete na mão. sorriu ao ver aquela foto, e depois mostrou pra que sorriu também.

- Devia se concentrar nisso . – O homem entregou pra ela. -
- Eu odeio essa foto. – fez careta. – É por isso que ela estava escondida entre as outras.
- Olha direito... – voltou a olhar a foto, alternando entre ela e . – Se você se perguntar porque que é que um professor de vinte e oito anos aceitou viajar duas horas com sua ‘’aluna’’...
- Não sou sua aluna fora da faculdade. – interrompeu o fazendo sorrir. –
- Ok. Reformulando... – Pigarreou. – Se você se perguntar, porque que é que eu, , escolhi você, olhe pra essa foto. – Disse fazendo arquear a sobrancelha. –
- Me escolheu?
- Tudo na vida são escolhas, .

Ao ouvi-lo dizer aquilo, tirou o olhar da foto para encarar seus olhos. Por estarem compartilhando aquela foto enquanto á analisavam, um passo seria o suficiente para que se beijassem e sim, depois de seu coração parar por outro segundo queria realmente beijá-lo e dessa vez não arrumaria desculpa alguma pro ocorrido.
Só que ele não se moveu. Assim como , ficou a olhando por dez segundos até que resolver se aproximar; lentamente, tão lentamente que estava lhe causando dor de barriga.

- MÃE? – colocou apenas a cabeça para dentro do quarto. Ato que fez com que os dois se afastassem. –
- ? – forçou um sorriso. –
- O que vocês estavam fazendo?
- Flexão de boca. – atravessou o corredor anunciando sua chegada. –
- ! – berrou tapando o rosto. –
- O que é flexão de boca? – perguntou inocente correndo até ; arregalou os olhos trocando olhares com ele. –
- É quando a boca precisa fazer exercício.
- Como assim?
- Tipo assim. – deu um beijo no rosto de . –
- Ah! – sorriu soltando-se dele. – Posso fazer flexão de boca agora!
- Ei, mocinha, só comigo! – Ele gritou ao ver sair correndo pra ir, provavelmente, atacar . –

Por fim ele ficou de pé e novamente sozinho com , só então olhando-a. Assim que o fez, ambos soltaram o riso alto.

- "Quando a boca precisa fazer exercício?" Francamente, pra um professor, você foi péssimo. – A garota deu um tapa no ombro dele. –
- Pelo menos eu disse algo. Ia querer que ela descobrisse sozinha?
- Não vem com essa.

A noite foi chegando e com isso os convidados também. sentia o frio na espinha a cada pessoa que entrava dentro da casa, seu corpo quase nem se movia assim como seus olhos, imaginou: Como reagiria quando ele chegasse?
Foi com um suspiro que a menina decidiu que precisava relaxar, sendo assim se levantou do sofá indo a procura de . De longe, avistou conversando com seus pais realmente focado, daquele jeito que ela se perdia sempre, quando ele estava focado em algo, sério, sabendo do que falava, sempre ficava admirada com isso, e foi quando percebeu que pela primeira vez seu pai estava interessado em algo, ou melhor, quando se tratava de política seu pai sempre ficava interessado e desse assunto dominava; além de ser professor, advogava em uma das maiores firmas da cidade em que moravam, onde também dava aulas. Ele tinha planos para um projeto só dele, algo como associação, mas era notadamente um dos melhores da firma, ela não sabia como arrumava tempo pra ir vê-la. Por alguns segundos ficou olhando os dois parada ao meio da cozinha – Que era onde eles estavam junto a mais outras pessoas. – Deu um leve sorriso e só despertou da cena quando ouviu a risada alta de , aquela que ela só dava com e , virando-se rapidamente para onde o barulho vinha.
Quase que em câmera lenta viu a garotinha pular para o colo de o agarrando forte pelo pescoço enquanto ele a apertava da mesma maneira, dizendo coisas que não conseguia entender. A garota ficou sem reação. Seu corpo estava totalmente vidrado nele e na cena e embora sempre falasse dele e viesse tendo um contato com , ela não o via desde que o mesmo a deixara.
Da mesma forma que ela, quando deixou de abraçar para olhar ao redor, a primeira pessoa que focou fora em . Ainda com no colo, ele ficou a olhando. Aquilo parecia ter durado uma eternidade. tinha mudado, tinha mudado bastante. Parecia mais mulher, ele não soube explicar. Suas curvas na roupa que usava estavam mais avantajadas, sua expressão mais leve, sempre pura porém, não soube explicar o que á deixava diferente. Por aquele segundo em que se olharam teve a plena convicção de que conversaria com ela. Estava com seu discurso pronto há tempos, muito embora estivesse nervoso, só ele sabia o quanto sentia falta dela. Só Deus sabia o que aconteceu com ele quando a viu de novo.
O garoto deu dois passos, três, quatro, faltava muito pouco para chegar até . Suas pernas estavam trêmulas, e continuava parada o olhando sem expressão alguma.

- ... – Balbuciou ao vê-lo chegando. –
- , quanto... Tempo. – Disse no mesmo tom que ela, sorrindo de lado. estava certo que aquele era o momento certo pra dizer o que tinha pra dizer, não podia mais esperar. Deu uma respirada antes de prosseguir. – , será que a gente pode...
- ...
- Um minuto. – o parou com um sorrisinho, levantando o dedo indicador.–

acompanhou a ação de um homem passar uma das mãos pela cintura de , o mesmo que havia a chamado, apertando com firmeza aquela parte e consequentemente puxando-a levemente para ele; subiu os olhos reparando que o rapaz sussurrava algo em seu ouvido tomando totalmente conta dela. Sentiu seu ar faltar ao reparar que ela sorriu doce com a provável coisa que ele dissera e o viu a deixar sem reação por alguns segundos enquanto ambos trocavam olhares cúmplices e só então, após aquele meio tempo, eles voltaram a prestar atenção nele. Só então o tal homem o olhou, escondendo lentamente o sorriso que compartilhava com ela. Era completamente surreal que uma cena que durara apenas cinco segundos no máximo, pareceu uma eternidade aos seus olhos. Como se seu próprio subconsciente quisesse provocá-lo.

- ! – A garotinha abriu os braços ao vê-lo; virou-se para a filha juntando as sobrancelhas. –
- E ai, gatinha? Se divertindo muito? – perguntou doce; Só o que sentiu foi raiva, trocando olhares com , por sua vez, viu-a desviar os olhos. –
- Sim! Podíamos brincar daquela brincadeira que você me ensinou com meu pai aqui. – Falou brincalhona batendo palminhas só então fazendo os dois realmente se encararem. –
apenas sorriu um tanto desconfortável, mas como sempre, completamente educado, trocando olhares com .

- , prazer. – Estendeu a mão. sentiu um desconforto incomum naquele momento. –
- .
- Faltam dez minutos para o natal! – Uma das tias da menina gritou passando pelo meio deles. –
- E então? Que tal irmos até lá fora? – voltou o assunto para eles, olhando para . A menina entortou a cabeça. –
- Sim. Claro. – Assentiu meio hesitante. Lentamente puxou para seu colo, vendo-a quase que instantaneamente pular do seu colo para o de . –

Como força do ato, e pelo calor do momento, levou a garotinha pra fora na esperança de que estivesse os seguindo; A ideia fora dada porque realmente a menina deu um passo em direção a eles fazendo menção de que iria, mas voltou no mesmo segundo, virando-se para novamente.

- O que você queria dizer? – Perguntou calmamente, apertando os lábios numa linha fina, como se a resposta fosse resolver sua vida.
ficou calado por alguns segundos, ainda estava digerindo toda aquela cena.
- Não era nada importante. É melhor você ir. – Apontou com a cabeça voltando a olhar agora, notando que ela não havia ido. –

não sentiu necessidade de responder nada. Assentiu positivamente lançando um último olhar, como se fosse uma última chance, mas não obteve resposta, e diante daquilo caminhou em direção a e .

O garoto ficou lá parado os olhando sumir dentre as outras pessoas que se dirigiam até o lado de fora. sentiu parte de seu corpo sumir depois daquele momento. Ele não sabia onde, ou o que tinha sido. Seu rosto formigava assim como suas mãos, e só o que ele queria era beber. Só o que conseguia pensar naquele momento era em uma bebida realmente forte que fosse capaz de lhe tirar a sanidade. Esquecer que realmente estava com outro, que esteve prestes a dizer que a queria de volta e não disse.
De todas as maneiras sabia o que aquilo significava pra ele e ficou com raiva, ficou ainda mais com raiva porque não podia culpar por nada, não podia culpá-la por seguir em frente quando ele mesmo insinuou que era isso que ela precisava fazer, mas muito embora soubesse disso tudo, como um total covarde a odiou. a odiou por ter seguido em frente e não ter lutado mais. A odiou por fazê-lo ter aquela imensa vontade de quebrar cada coisa que estava a sua frente e principalmente por ter desistido dos dois.
sabia que essa não era a verdade, mas talvez mentindo pra ele mesmo, doesse menos.

Do lado de fora acompanhava com os olhos correndo de um lado para o outro com seu pai, avô dela. Lembrou-se instantaneamente do pânico que sentiu quando precisou contar a ele sobre isso. Lembrou-se também do alívio quando o homem só a abraçou dizendo que aquilo era lindo e da longa conversa que teve sobre o quanto amaria ser avô novo pois teria pique para correr com sua neta ou neto, e lá estava ele, correndo e pulando feito louco com .
De todas a memórias que teve sobre a época, essa fora a mais forte, justamente pelas palavras do pai quando contou que era de : “Eu sempre imaginei que você e formariam um casal bonito, mas um filho foi bem mais do que o esperado.’’
Ele era seu melhor amigo. Confidente. A defendia dos caras ridículos. Lhe dava conselhos. Só que naquele momento, quando não teve ninguém, quem faria isso por ele? Quem a defenderia dele mesmo? deveria ter sido tudo que os outros não foram, mas ele só se tornou o que ela temia a vida inteira.
A pior parte de tudo aquilo não só fora ser abandonada pelo pai de seu filho, foi ser abandonada por seu melhor amigo.
Por um tempo indeterminado ficou rebobinando os momentos que passou pela casa nem notando o tempo passar. Observou isolado em canto da sala tomando um wisky com o pai dele. Em outro momento, após a ceia, o viu sumir de onde estava, o que só a instigou mais. Significava que ele podia estar sozinho. ainda não tinha parado de pensar sobre eles. Sobre o que tinha pra dizer; ela o conhecia bem demais pra fingir que não era nada. Sua mente precisava de uma resposta porque aquilo lhe deu esperança, e por mais que não devesse ter, tinha que falar com ele pra acabar com isso.
De súbito ela levantou de onde estava sentada, apressando os passos para a direção que tinha ido. Deu a volta na casa indo parar na garagem. A porta estava entreaberta, porém não se importou, conseguiu ver a sombra de alguém e pelo perfume soube que era , portanto abriu a porta de supetão, se arrependendo de ter ido lá logo em seguida.
Junto com ele, uma de suas vizinhas de infância, mais amiga da família de da qual ele sempre jurara que nunca teve nada, estava. Mais especificamente, pode perceber que ambos estavam prestes a se beijar pelo modo como ele segurava a nuca dela. Seu corpo estremeceu por inteiro. Por um momento se sentiu traída; estava tão cansada daquele sentimento sobre ele. Tão cansada de se preocupar com ele. Foi como a última gota d’gua. simplesmente não aguentava mais as expectativas que tinha criado.
- Acho que não é um bom...momento. – Murmurou sorrindo sem graça, fazendo menção de que fecharia a porta novamente. –
- Na verdade, não... – disse alto no último momento, fazendo-a abrir a porta novamente. – Procurando algo, ? – O garoto deu um passo até ela, se afastando da menina da qual estava. –
- Não. – Murmurou seguindo o ato anterior. –
- Pois eu acho que você estava, te conheço...– Parou novamente com a mão na maçaneta. a viu fechar os olhos por três segundos com a cabeça tombada nos ombros, e só depois voltar a olhá-lo. –
- Quer saber mesmo, ? – Ela sorriu de lado, um sorriso triste. – Eu estava procurando algo.
- O quê?
- Esperança. – Falou rápida, o vendo entortar a cabeça. – Foi tudo que eu procurei nesses meses. Esperança.
- Você tá com outro, . – Respondeu no mesmo tom fazendo um gesto perplexo com as mãos. sentiu o coração apertar. –
- Não, , eu nunca estive com outro. – Falou firme, mas baixo, apertando a mão na maçaneta. – Essa merda de tempo todo eu não estive com ninguém. Mas talvez seja a hora de eu ‘’estar com alguém’’. Cansei, . Não dá mais pra mim.

Mais uma vez ficou sem palavras. Sentiu o olhar cortante da menina lhe atravessar brutalmente. Embora estivesse bêbado, tinha total lucidez do que estava acontecendo. No entanto, por pior que parecesse, estar bêbado naquelas circunstâncias não o ajudou. Faltaram palavras. Ele afogara todas as que tinha guardado pra ela, na maldita garrafa de wisky que havia acabado de terminar.


Após brincar até quase morrer de cansaço, dormiu. apenas foi informada por que havia levado a garotinha para seu antigo quarto, fez menção de ir até lá, mas desistiu da ideia. Pensar em agora a deixava cansada, estava tão esgotada que estar longe dele, e ter finalmente decidido que não queria ficar mais naquela condição a deixava aliviada, mas confusa.
A garota deu meia volta de onde estava, e de toda aquela multidão, caminhando rapidamente para o quintal dos fundos da casa dos pais. Costumeiramente, quando sua mente estava cheia, ela ia pra lá, e também quando queria fugir da despedida dos parentes, odiava despedidas.
Caminhou até o meio do quintal e assim que parou, fechou os olhos, soltando todo o ar que estava prendendo. Seu coração parecia dolorido, porque sentia que estava finalmente deixando ir, e por querer isso, por deixar com que ele fosse, se sentia culpada.
Respirou fundo outra vez.
Ela tinha feito o que podia. Tinha esperado. Só que tinha acabado e ela não tinha mais forças pra continuar naquilo. parecia bem, tinha pedido pra ela seguisse, ou melhor, não tinha feito nada para que ela ficasse. Tudo bem que, arrumar motivos para voltar com e criar esperança fora o seu pior erro só pelo motivo do qual ele havia a deixado com , e que tinha que encarar que desde o inicio essa era a decisão correta, portanto não poderia ser tão dura consigo mesma.
Soltou o ar novamente.
É. Ela precisava deixá-lo ir.

- Tudo bem? – Despertou dos pensamentos ao ouvir a voz de . Ao olhar para o lado viu-o parado na mesma posição que ela.–
- Melhor do que eu imaginava. – Sorriu de lado. - Faz muito tempo que está ai?
- O suficiente pra ver você inspirar e expirar várias vezes. – Falou, a fazendo rir. –
- Me ajuda a organizar os pensamentos.
- Acho justo.

suspirou calmamente.

- Eu estou com medo.
- Medo? – Ele arqueou a sobrancelha, confuso. -
- É. Medo.
- De quê? – Dessa vez ele virou-se á olhando intrigado. –
- Do que eu estou sentindo. – continuou olhando para o nada. –
- E o que você está sentindo?
- Nada. Eu não estou sentindo nada. Isso é...
- Paz de espírito.
- Como isso é possível?
- Acredite, eu também não sei.
- Como se sentiu quando terminou com sua noiva? – virou-se para ele. –
- Alivio? - murmurou brincalhão -.
- O que você fez?
- Fui até você naquele dia. – Respondeu. – Queria te falar. – Sorriu gentil. –
- Porque queria me falar? – Ela perguntou agora se virando para ele curiosa. –
- Eu não sei. – deu de ombros. – E você? O que gostaria de fazer agora?

Ela pareceu se perder por alguns segundos no nada, antes de responder, o homem ficou lá á observando por esse meio tempo totalmente avulso, ele gostava do silencio não desconfortável, mas pensativo, que eles costumavam compartilhar.

- Com vontade de... – voltou seu olhar á ela.
- De o que? Vamos lá, manda bala. – brincou a fazendo rir mais um pouco. –
- É que,– suspirou. – Eu estou gostando de outra pessoa.
- Ok. E o que eu posso fazer em relação á isso? – Rebateu entortando a cabeça. –
- Você pode me retribuir. – A garota sorriu sem graça. Ele podia jurar que fora a coisa mais fofa que tinha visto na vida, depois de April dormindo. –

Entortou a boca sem tirar o meio sorriso do rosto, no entanto não disse uma só palavra. Ficou parado á olhando se aproximar.
Com um movimento rápido lhe deu um selinho demorado. Se afastou um tanto eufórica, com o coração nas mãos por ter feito aquilo, mas ainda assim não tinha se afastado o suficiente, pois sentia seus narizes se roçarem de leve. Foi só então que se movimentou; passou seus braços pela cintura da garota com sutileza, embora ela conseguisse sentir perfeitamente sua mão pesada, puxou-a novamente para si, depositando outro selinho demorado, para que finalmente o segurasse pela nuca, comprimindo os lábios em seguida. Ele podia senti-la ainda tensa com a aproximação.

- Me desculpa. – A garota sussurrou fazendo uma careta.–
- Por?– sussurrou de volta, passando a língua nos lábios. –
- Isso me parece tão errado...– o encarou nos olhos diretamente, ele podia sentir o medo vindo de lá.–
- Então não quero fazer o certo.
- O que você quer dizer? – A garota entortou a cabeça, ainda pendurada em seus ombros. – - O que mais existe é gente pra falar, se formos dar ibope pra isso, e não pra o que estamos sentindo...
- E o que você está sentindo? – Ela perguntou, ele pode ver seus olhos apertarem. -
- Eu sei o que eu estou sentindo, e você?
- Isso eu só respondo na presença do meu advogado. – Brincou, mordendo os lábios em seguida. – - Então sorte sua que o seu advogado sou eu.

Ele disse tão sério que fez até com que serrasse os olhos pra ele. A medida em que os segundos foram passando, e na indecisão de não saberem o que falar, ambos voltaram a se beijar, porém dessa vez com mais intensidade. Assim sendo, apenas nesse momento relaxou totalmente, esquecendo o que sempre cogitava quando se imaginava beijando – Porque sim, depois do primeiro quase beijo, o pensamento rolava toda vez em sua cabeça. – Seu coração parou por alguns segundos no começo, mas aos poucos eles começaram a se acostumar. Por longos segundos ambos continuaram se beijando. o sentia apertando sua cintura bem como ela bagunçava todo o cabelo bem cortado e certinho dele. Era gostosa a forma como o mesmo tornava a situação inteiramente e completamente controlada por ele, ela podia ser levada pra qualquer lugar com aquele toque,e não sabia explicar como conseguia fazer isso, mas era assim.
Quando por fim se afastaram completamente, ainda um tanto abraçados foi que ela percebeu que a total insanidade havia acabado de se concretizar, e levando em conta que todo o seu corpo estava vibrando, se perguntou como é que não tinha feito antes. É, ela havia se apaixonado por seu professor, e não sabia como iria proceder sobre isso.





Capítulo Três – Cuz Darling i’m nightmare dressing like a daydream.

- O que seu pai acha disso? – perguntou assim que se sentou em uma das cadeiras da cantina; cansada a olhou dando um suspiro. –
- Minha mãe não achou que eu ia levar a sério. – Falou espremendo os lábios. – Apesar de achar o encantador, acha que é ruim pra minha imagem aqui, depois que eu contei como nos conhecemos...
- , você vai me desculpar, mas qual é essa de “imagem”? – A garota riu irônica. – Não moramos mais naquela cidade!
- Essa é a questão, . Minha imagem está bem “manchada” lá. Talvez ela só tenha medo.
- Você tem uma imagem manchada, porque engravidou aos dezessete por uma pessoa que você amava e conhecia desde quando você se entende por gente? – exclamou exasperada. – Pra mim isso não é algo que você tenha que se envergonhar, . A vida toda eles dizem pra formarmos família e transarmos com amor. Você fez isso e é um presente.
- Ok. – deu uma suspirada longa endireitando a coluna. – Infelizmente meus pais não são tão modernos, e namorar um professor na nossa cidade seria um escândalo, e você sabe que os boatos correm lá. O que eu vou dizer pra eles? – Olhou para a amiga desesperada. Os olhos de estavam arregalados. –
- Você não precisa dizer nada, porque não deve satisfações á ninguém.. – Passou a língua nos lábios de maneira ríspida, se inclinando para a amiga. – Já faz quase dois meses que vocês estão juntos e... Você precisa falar com ele.

parou de falar assim que notou o olhar da amiga parado em outro lugar, ou melhor, acompanhando outra pessoa. Virou-se discretamente já deduzindo quem era.
estava lá parado na porta da cantina conversando com um grupo de meninas; parecia explicar algo, muito engraçado por sinal, pois a cada duas frases elas riam, e ele fazia o mesmo coçando a nuca usando de toda sua costumeira boa educação. Ela não sabia o que significava, mas provavelmente sabia porque no mesmo momento ele trocou olhares com ela. Foi então que voltou a olhar para a amiga, jogando seu peso nos antebraços. fez o mesmo se voltando para o suco do copo não a olhando.
- Entendeu o que eu quis dizer? – murmurou se aproximando de . – Façam alguma coisa ou isso não vai dar certo. Vocês não estão cometendo um crime...
- Diga isso pra sociedade.
- O problema é a sociedade ou vocês? – Perguntou num tom de perplexidade Realmente ela não via mal algum naquela relação. Talvez no inicio fosse um tanto quanto estranho pensar, mas levando em conta que aqueles dois eram seres humanos e nada os impedia... – Vocês se gostam, e se isso não for o suficiente, acabem com isso logo, porque você não pode viver quatro anos nessa, então escolha muito bem. – olhou para o relógio se levantando em seguida, só então ergueu os olhos para olhá-la. –
- Aonde você vai?
- Encontrar meu namorado e eu suponho que você deva fazer o mesmo, ou aquelas garotas vão comer ele vivo. – Fez um gesto com a cabeça antes de sair, fazendo olhar para ele novamente. –

Ele continuava lá conversando e ela sabia que sentia que ela estava o observando. Para ela, a pior coisa naquela confusão toda era fingir que não conhecia a pessoa maravilhosa que ele era e não poder dizer isso pra todo mundo com toda a autonomia que tinha.
Depois do finalmente beijo, embora as coisas só estivessem melhorando entre os dois, tudo ainda permanecia nas escuras para o público, e até para eles mesmos. Não havia nada intitulado, embora agissem como um casal a maior parte do tempo quando estavam sozinhos, no fundo de tudo, só parecia cada vez mais que o medo era todo causado pela reação das pessoas das quais eles conheciam – Universidade –, não tendo coragem para admitirem um para o outro que esse era o único motivo pra não assumirem.
Obviamente era complicado, e isso era inegável. Tanto como pesavam muito bem as consequências e basicamente, seus pensamentos estavam em extrema sintonia, pois embora não comentassem em voz alta, se vez ou outra um assunto referente aquilo surgia, apenas com o olhar eles conseguiam identificar qual era o exato problema: A exposição.
Talvez para o homem não fosse ficar tão pesado, não tirando toda a “culpa” dele, e ele odiava pensar dessa forma, como se o que tivessem sentindo fosse errado, de uma forma ou outra ele sofreria com isso como ela, mas para inevitavelmente seria maior, justamente por conhecer o tipo de pessoas das quais convivia e principalmente por ouvir o que ouvia sobre si mesmo. Foi por esses e mais outros motivos que foram adiando o assunto; estarem juntos no privado já estava ótimo por aquele tempo.

***


Mais alguns dias, vulgo, semanas, passaram e não conseguiu abrir a boca para tocar naquele assunto. Em conjunto, seus encontros estavam ficando mais escassos, por conta do novo trabalho que a mesma havia arrumado e por ele estar envolvido em um caso enorme, estava focando toda a sua mente nele. Era inevitável para , e aquele caso exigia dele tudo que ele podia.
Á via somente nos dias em que tinha aulas com sua sala; aquele era um assunto que necessariamente ele tinha que resolver, juntamente com o que estava tendo com a garota. Não podia continuar lecionando para sua sala, era completamente antiético e ele sentia-se mal só por saber que estava ignorando esse fato. Muito embora a mesma não fosse agraciada por nenhum privilegio no quesito matéria ou pontos, só o fato de pegar leve na pressão – que ele achava necessário para o treino dos alunos para as demais experiências profissionais – era um privilegio, porque ele só fazia aquilo pensando nela quase que involuntariamente.
Foi pensando nisso enquanto andava naqueles corredores atrás de sua ultima aula da noite que esbarrou com um de seus amigos professores, sentiu um aperto no peito só por imaginar o que o mesmo pensaria se soubesse o que ele estava pensando.

- E aí cara, como vão as aulas? – Perguntou animado. –
- Cansativas. Estou sem tempo pra nada. – Respondeu fazendo gestos com a cabeça. Assim sendo, fechou os olhos por míseros segundos, quando os abriu, deu de cara com não muito longe dali, estava há alguns passos deles.

Á observava por cima dos ombros do amigo, sem conseguir se quer entender o que o mesmo dizia pois alguma coisa em sua gesticulação dava a entender que ela estava acompanhada, e pela voz que á correspondia, não era uma mulher. Costumava á olhar entre idas e vindas por ali e aqui sem que a mesma notasse, tudo discretamente, acontece que naquele momento seu corpo não conseguiu sustentar o fato de que havia outro garoto ali junto com ela.
não conseguiu evitar o pequeno sentimento de injuria ao vê-la conversando com um rapaz; Na verdade, tinha total direito, o problema não era ela, era ele. não era do tipo muito ciumento, antes de sentir toda aquela coisa desnecessária, tentou observar os dois: O garoto se aproximava dela e arranjava uma forma de tocá-la a cada dois minutos, era perceptível que ela também havia sacado a dele, só estava tentando disfarçar. Seu sorriso de lado, como mexia as mãos..Tudo indicava que , para todos os efeitos, ainda estava completamente solteira, no entanto, naquele exato momento, não queria que ela estivesse solteira. O que ele queria mesmo era ir até lá e dizer com muita paciência que ela tinha alguém, e pedir gentilmente para que aquele rapaz parasse de tentar investir.
Embora sentisse seu sangue esquentar a cada minuto olhando aquela cena, aguentou até o último momento.
- Ei cara, tá comigo? – voltou à atenção á seu amigo professor, dando uma longa respirada em seguida. -
- Desculpa, tô meio avoado esses dias. – Passou as mãos nos cabelos, engoliu seco ao ouvir a risada da garota. –
- Sinto muito pelo noivado, cara... – Tommy, esse era o nome do homem que conversava com ele, usou seu pior tom de tristeza, recebendo um sorrisinho também forçado de - Porém há muitas maneiras de se superar por aqui. Você sabe...
- Do que você está falando? – por fim tornou sua concentração á Tommy novamente. Seus lábios formavam uma linha fina, assim como seus olhos um cerrados. –
- Você não é o único que se interessou por uma aluna aqui, meu velho. Ninguém te culpa, ela é uma belezinha mesmo.
ficou calado por um longo período de tempo completamente sério enquanto encarava o homem nos olhos. Tommy não viu em nenhum segundo a expressão de vacilar ou coisa do tipo. E de verdade? sentiu raiva. Se não fosse tão controlado, poderia muito bem ser mau educado com ele, no entanto, apenas o que fez foi olhá-lo com uma profundo olhar intimidante. Primeiro porque de alguma forma aquele ‘’belezinha’’proferido pelo homem não fora um elogio, seu tom de malicia era praticamente palpável.

- Acho que nossa conversa acabou por aqui Tommy. Boa aula. – Decretou firme, sua voz tornara-se grossa a ponto de fazer Tommy estremecer. Era incrível como apenas o olhar de o havia deixado nitidamente embaraçado. –
não esperava uma resposta, portanto apenas recolocou suas mãos nos bolsos da calça social e deixou seu colega, indo em direção onde se encontravam e o dito rapaz que conversava com ela. A menina ao perceber a aproximação um tanto quanto rápida e decidida em direção á eles sentiu o estomago retorcer dentro do corpo. Por um segundo ela se esqueceu de tudo e ficou o encarando com aquele olhar de quem pedia uma explicação rápida, coisa que não foi lhe dada. apenas parou em frente aos dois, fitando-a indiscretamente. Ela pode ver por segundos suas veias do pescoço saltadas, mas por realmente poucos segundos já que a gola de sua camisa social branca ás escondia. Se não estivessem naquela situação ela com toda certeza acharia aquele detalhe dele a coisa mais sexy que já tinha notado no homem até aquele momento.

- Posso te ajudar, professor? – Alfie sorriu sem graça ao notar a pequena tensão que havia pairado no ar. Em troca recebeu prontamente um olhar fulminante de seu professor.
Ele deveria concordar que de fato era um cara sério, e causava arrepios em qualquer um quando simplesmente os olhava por emanar aquele ar superior involuntário. Mas aquele olhar estava um tanto piorado para ele naquele momento.
- Só queria que avisasse pra sala que vou passar o ultimo trabalho do semestre na próxima aula. – Respondeu um tempo depois. sentiu a voz grossa do homem vibrar em seus ouvidos. Foi até justamente apenas para acabar com a conversa mesmo. –
- Claro. – Alfie murmurou, o homem sentiu a voz deste tremular de leve, e, sem querer parecer prepotente, sentiu uma mínima vontade de rir. –
- … - Acenou com a cabeça para a menina; por mais alguns segundos ambos continuaram se olhando até que tomasse o rumo novamente para seu destino inicial. –

Como todos os dias, ia embora sempre com , mesmo que por vezes fosse se dirigir para o mesmo local que elas, era melhor assim; No entanto naquele dia em especial não esperou por isso. Assim que a aula acabava, normalmente se dirigia até onde costumeiramente ficava com , foi no meio desse trajeto que foi abordada. Primeiramente sentiu uma mão á segurar com sutileza, mas firme, á assustando, porém o que á mais assustara não fora isso, e sim olhar para o autor da ação e notar que era á segurando.

- Ei, , vem comigo. – Segurou-a pelo braço. Ele pode ver o pânico nos olhos da menina ao olhar em seus olhos.
- O que você está fazendo? – Murmurou, soltando-se dele com delicadeza, dando dois passos em sua direção enquanto olhava para os lados discretamente, checando. –
- Precisamos conversar. Vem comigo hoje. – Pediu chegando mais perto de seu ouvido. Ambos sentiram seus corpos esquentarem pela aproximação, a garota tentou controlar o suspiro que viera em seguida, para não arfar. O perfume dele estava á tirando do sério ultimamente. Ela tinha uma vontade incontrolável de não só beijá-lo ultimamente.
- ... – Apontou com os olhos para algumas garotas os olhando pelo canto dos olhos. –
- Eu te levo em casa hoje. – disse mais alto propositalmente fazendo a garota arregalar os olhos. – Vamos.
- Eu juro que não sei o que isso significa, mas você vai ter muito pra me explicar! – Rangeu os dentes começando a caminhar; viu algumas delas acenarem para ele, ato que ele retribuiu com um sorriso mínimo, então voltando-se a , guiando-a pelas costas.
- Eu vou. – Sussurrou no ouvido dela.

deu um suspiro o olhando seriamente por alguns segundos enquanto este dirigia seu carro inabalável, obviamente sentindo o olhar quente da garota em seu rosto. Mesmo explodindo de curiosidade sobre a atitude um tanto quanto surpresa dele, ela permaneceu quieta o caminho todo, batucando vez ou outra os dedos na perna variando de musica em musica. Por mais que estivessem juntos por um tempo, ainda á sentia tensa perto dele em lugares fechados onde ambos estavam sozinhos. O modo como ela enrolava a ponta dos cabelos denunciava seu pequeno desconforto, ele jurava que queria saber qual era o problema, e iria perguntar um dia, só não naquele porque tinha algo muito maior pra resolver ali.

- Ok. Primeiro motivo pra isso? – A garota perguntou de prontidão assim que o homem entrou casa adentro.
- Aquele cara. – Ele respondeu fechando a porta e só então virando-se pra ela. Viu-a revirar os olhos.
- Então vamos descartar a hipótese da nossa provável conversa, porque ele não apresenta nenhuma ameaça. – Cruzou os braços acompanhando o homem tirar a bolsa/maleta, que carregava, deixando-a em cima do sofá.
- Esse é o problema, . Apresentar ameaça a quê? – retrucou também cruzando os braços; sentiu seu estômago por segundos, ficando calada nesse tempo.
- Bom, de modo real não existe nada pra ser “ameaçado”, mas, seja lá o que esteja acontecendo aqui... – A garota alternou seu dedo entre ele e ela. – Ele não poderia ameaçar.
- Sim, mas ele não sabe disso. – suspirou parecendo ficar irritado; entortou a cabeça.
- E qual é o problema?
- Que hipoteticamente não há nada pra ser ameaçado, portanto isso pode continuar. Nós sabemos que há algo...
- Ok, eu estou ficando confusa. – fez um gesto com as mãos se aproximando um passo até ele. – O que você quer dizer?
- Quero dizer que já está na hora de falarmos sobre esse namoro, . Não dá pra adiar. Não podemos fingir que somos dois desconhecidos se no final do dia tudo que eu quero é... – pareceu perder o fôlego, travando um dos punhos e o levando até a boca. o acompanhou morder a pele do dedão levemente durante o ato.
- Tudo que você quer? – Se aproximou ainda mais, puxando o braço dele novamente para a posição natural; viu-o abrir os olhos novamente para olhá-la.
- Tudo que eu quero é voltar pra casa com a minha namorada sem precisar ficar pensando no que os outros vão pensar. – Fora a vez dele de finalizar o que estava pensando; a puxou pela cintura, entrelaçando sua mão entre ela enquanto a garota fazia o mesmo em seu pescoço. – Eu não consigo mais fingir. Formei-me pra ser advogado e não ator.
- Uau, foi sua frase do dia. – ela brincou beirando os lábios dele, o viu fechar os olhos. – Ok, e o que você supõe que devamos fazer sobre isso?
- Você pode, por favor, parar de jogar comigo? – Falou perplexo tentando se concentrar nos olhos dela; tarefa difícil quando o que ela parecia fazer era provocá-lo.
- Eu só estou dizendo quê... Eu não sei o que fazer. – falou séria. –
- Sinceramente, , se for pra viver desse jeito, se queremos algo sério, não dá. – A frase lhe causou certo pânico. – Eu respeito seu tempo com o , mas...
- Não. – A garota o parou negando com a cabeça. – Sem nas nossas conversas, certo?
- Sempre falávamos sobre ele, qual é o problema? – O homem arqueou a sobrancelha, confuso. –
- Quer saber? – Mudou de assunto perceptivelmente incomodada. – Vamos oficializar. E seja o que Deus quiser. – Brincou se afastando dele com um sorriso estranho, uma brincadeira sem humor algum.

fez menção de que iria ir até a cozinha, no entanto no mesmo momento fora puxada de volta para ele pela mão.

- Não quero que seja assim, vamos conversar direito. – Ele entortou a cabeça, preocupado; viu-a passar a língua nos lábios.
- Eu estou com medo. Sempre tive medo. – Falou numa respirada. – Mas vamos fazer isso, porque é inevitável, não é? – Ela sorriu procurando segurança nele através do olhar; sempre passava segurança, mas naquele caso, até ele mesmo não estava conseguindo parecer confiante o suficiente. –
- Eu estou com medo também. Não faço ideia do que fazer.
- Deus... Sinto tanto por isso. – A garota passou as mãos nos cabelos, não exasperada, mas confusa. – Achei que seria mais fácil sabe?
- , nós vivemos aqui dentro dessa casa, olhando pros lados antes de sair, com medo que alguém nos veja, e eu juro que, muitas vezes, eu quero que vejam pra isso acabar,porque eu estou apaixonado por você, e eu quero que saibam disso.

falou tão rápido que lhe chegou até a faltar ar. Seu coração estava estufado, junto com seu peito e por um segundo ele prendeu aquele ar todo a olhando com as mãos na cintura, por baixo de seu paletó. Ele queria muito, muito mesmo amar aquela garota e matar a pessoa que criou o paradigma de que namorar uma aluna fosse algo ruim. Ele ou ela não eram menos pessoas por estarem em posições diferentes dentro de um convívio social, e eram éticos o suficiente pra lidar com isso. Queria poder explicar pros malditos que tudo que ele via naquela menina era lindo e que qualquer um se apaixonaria por ela como ele, porque ele era humano e ela também, e pela física, química, e toda ciência que explicava sobre sentimentos, apenas ser humano era o suficiente pra sentir aquilo que eles sentiam um pelo outro.

- Você o quê? – Sua vista que antes estava turva, tornou a focar nela sorrindo, sorrindo de orelha a orelha com os braços cruzados, só então notando o que tinha acabado de dizer.
- Desculpa se eu te assustei, , só faz dois meses e eu entendo se você não sentir o mesmo, na verdade, eu nem acredito...
- Ei... – disse sorrindo um pouco menos. – Você está nervoso?
- Digamos que um pouco? – Apertou os lábios.
- Meu professor que lida com os badboys da cidade está nervoso porque disse quê... – Ela parou de falar comprimindo os lábios juntamente com os olhos.
- Eu não sei o que eu estou sentindo por você nesse exato momento, aluna, mas eu tenho certeza que vai muito além do que eu sentia no dia em que nos beijamos pela primeira vez, e eu não sei como é sentir isso desde a minha primeira namorada.
- Como você consegue ser assim? – Sorriu passando os braços pelos ombros dele; roçou seu nariz pelo pescoço do homem o fazendo fechar os olhos instantaneamente. - Assim? – sussurrou beijando o canto dos lábios dela.
- Tão... – A garota mordeu forte os próprios lábios por não encontrar as palavras certas para descrevê-lo. era uma junção de fofo com sério, focado, irresistível, cativante. E muito embora fosse tudo aquilo, ainda existia sua parte do ‘’bom moço’’ que lhe tirava suspiros só de se lembrar. Tirava tantos suspiros que ela não conseguia explicar.

vendo a hesitação da garota apenas sorriu doce, beijando sua testa, seguindo esse ato á abraçou pela cintura, levantando minimamente os pés dela do chão ao passo em que á sentia pendurada em seus ombros, fungando em seu pescoço.
- Vamos dar um jeito nisso, ok? – sussurrou, beijando o rosto da garota que permanecia de olhos fechados. –

Diante da dúvida os dois permaneceram naquela posição por um tempo longo e só então. Decidiram ir até a cozinha onde preparou alguns petiscos e serviu vinho para eles. Não tinha nada especial, era só pra relaxar em meio á confusão que seus pensamentos estavam; isso tudo quietos. A casa toda estava silenciosa, o que a levava a pensar em por alguns segundos. A casa nunca ficava silenciosa, exceto quando estava dormindo. avisara que dormiria no apartamento de , portanto não seria a salvação dos dois naquele dia e muito menos ligaria para atrapalhar os dois.
Naquele momento eram ela e ; ele sentado na mesa mexendo na gravata pensativo, ela encostada ao balcão bebericando seu vinho – Assim como ele – Também pensativa, e o silêncio tenso que se pairava.
podia pensar que só pelo fato de ser algo relacionado a toda uma polêmica, a deixava em estado de reclusão, mas ela sabia que não era só isso. Assumir um relacionamento também anunciava de maneira concreta que o que ela tinha com havia acabado. Sim, ela tinha dito que havia acabado desde que beijara e isso era totalmente verdade, no entanto, não queria dizer que o sentimento não existisse mais. Veja bem, isso nada tinha a ver com sua paixão por , ela estava completamente apaixonada por ele, gostava dele, e queria assumir um relacionamento tanto quanto ele, mas como já dito, havia algo em que a assustava. As mudanças a assustavam, deixavam-na apavorada pra dizer a verdade. As mudanças assustavam , porque justamente ela nunca sabia se seria boa ou ruim, construtiva ou destrutiva, o que, obviamente, era uma consequência esperada; não havia como doer pra decidir, ela precisava passar pelo risco pra saber se valia a pena.
Ou seja, sabia a resposta. Já estava realmente na hora de se dar uma chance. Quando digo se dar, a frase realmente era voltada a ela. precisava dar o segundo passo. O primeiro demorara, e ela precisava do segundo, seria gradativo e estava respeitando todo aquele ‘’momento’’ até ali, e embora ainda houvesse a faísca dentro dela, bem mínima, no entanto incomoda, não podia deixar com que isso levasse mais tempo da sua vida.
Decidida a garota tirou o celular do bolso clicando na câmera. Fora à primeira ideia que teve, em épocas digitais, aquele era um meio eficiente de divulgar certas coisas. nem notou seu movimento, parecia submerso em pensamentos, portanto lentamente ela deixou seu copo de vinho ao lado do dele na mesa passando as mãos por seus ombros. Viu o homem a olhar confuso, acompanhando sua ação. No segundo seguinte a garota sentou-se em seu colo, sentindo ter sua cintura segurada com o ato, suas mãos se arrastaram para dentro de sua blusa lhe causando pequenos arrepios no começo, ato que á fez sorrir um tanto.

- O que está fazendo? – perguntou num sussurro recebendo um beijo entre queixo e o pescoço, fechou os olhos com a ação dela.
- Oficializando. – Respondeu deitando nos ombros dele e finalmente apontando a câmera para eles.
- Sério? Foto? Todos tiram foto comigo. – Resmungou perplexo. –
- É, mas ninguém tira uma foto sentada no seu colo com suas mãos dentro da blusa. – falou sorrindo de lado, ele fez o mesmo apertando a sua cintura na parte que segurava, a garota sentiu outro arrepio
- É, você tem razão.
- Até porque, se isso acontecer, você será um advogado sem testículos. – Dessa vez a garota sussurrou no ouvido dele, o vendo sorrir ainda mais largamente, porém um pouco mais malicioso.

Já posicionados, a abraçou ainda mais pela cintura; colou seus rostos e sorriu lembrando-se do que ela tinha acabado de dizer; Como ele, ela sorriu e em segundos estava feito.

- Que tal agora, namorada? – beijou o pescoço da menina que ainda estava sentada em seu colo, ela fechou os olhos sentindo os pelos ouriçarem, seu corpo não estava conseguindo lidar com tantos arrepios.
- É esperar pra ver, professor. – riu continuando a subir suas mãos pela blusa dela. –
- Eu realmente devo ter perdido minha cabeça. – Falou arrastando seus lábios dessa vez pelos lábios dela. –
- É bom se perder às vezes.
- Melhor ainda se eu me perder em você.

sentiu o arrepio se espalhar pelo corpo inteiro, assim como seu corpo enrijecer logo que o homem finalmente a beijou mais profundamente, acariciando suas costelas com suas mãos dentro da blusa dela. Até aquele momento ela não soube explicar o que tinha acontecido com ela para aceitar aquela insanidade de professor e aluna, mas tudo ficou claro: Não se tratava disso. O problema estava dentro dos dois. Talvez nem eles mesmos acreditassem no que estava acontecendo, embora não fosse um crime. E foi naquele momento completamente simples, quando os dois se tornavam “iguais”, que percebeu que não havia diferença nenhuma entre eles. Era duas pessoas completamente apaixonadas se beijando, achar que aquilo era algo inconcebível era ridículo. Inconcebível, na verdade, era não estar com ele por isso.

***


- Como foi a viagem? – perguntou animada assim que entrou em casa. Arrependeu-se de ter perguntado quando viu o olhar derrotado da amiga. – Eu acho que nada bem...
- Bom, defina bem? Porque este pode ser eufemismo perto do que passamos lá.

Naquele final de semana em si, depois de terem ido contar a notícia para os pais de , ambos decidiram viajar até a fazenda onde os pais de moravam. Não ficava longe, porém afastada da cidade grande, mais perto do que a cidade de pra falar a verdade.
Acontece que foi pior do que esperavam.
A viagem inteira foi praticamente formando a cabeça de de que seus pais eram complicados e foi esse motivo de ter saído de casa tão cedo, correndo para a casa do tio quando soube que tinha passado para uma das provas que lhe deu uma vaga na faculdade em que tinha se formado.
Mesmo sabendo que teria que lidar com pais rígidos, cara fechada e tudo mais. Foi bem pior que isso. Além de ouvir discussões da mãe com ele sobre o tipo de pessoa que era pra estar com seu ‘’ele’’, houve mais uma chuva de críticas sobre a imagem dos dois, fechando com chave de ouro ao dizerem “você lutou tanto por isso pra ver tudo indo pro ralo por causa de uma paixãozinha?”
Foi nesse momento em que, gentilmente, se levantou, agradeceu pela estadia de duas horas, e saiu da casa já pronta pra pegar suas malas e ir até a estação mais perto dali.

- E então? – perguntou comendo mais uma colherada de ceral. – Ele disse que foi a melhor coisa que já fez desde que saiu de casa.
- O que isso quer dizer?
- Eu não entendi muito bem, mas...
- Que eu enfrentei meus pais... – O homem chegou em seguida com nos braços, tinha prometido que a levaria para tomar um sorvete assim que chegasse; ela ainda estava se lambuzando. – Esperei vinte e oito anos pra olhar na cara do meu pai e dizer que eu o amava, mas que quem toma as decisões agora sou eu. – Falou. – E que se pra ele é um erro eu amar uma pessoa só porque estamos em posições diferentes, eu não sei o que é amor pra ele.
- Wow. – disse arregalando os olhos, continuava olhando para o homem fixamente. – Parece bom, por um lado.
- Eu achei que foi ótimo, apesar do desaforo.Acredito que existem coisas que precisamos passar, e além do mais, conseguimos tirar algo bom disso.
- Ok, mas o que vamos fazer? – interrompeu-o. Quando á encarou nos olhos pode ver especificamente a marca que aquela ida até a casa de seus pais havia deixado nela.– - Estamos falando de nós, certo? É a nossa vida em jogo, e não a dos meus pais, . Olha pra mim. – abaixou o olhar. – Somos adultos o suficiente pra saber que isso não envolve ninguém além de nós. Eles já sabem, seus pais já sabem. Seu pai ficou bem irritado, sua mãe não gostou muito, mas sabíamos disso, não? Uma hora você não vai ser minha aluna e eu até estou vendo uma nova universidade pra deixarmos...
- Você o quê? – A garota se virou para ele bruscamente; Nesse segundo ele colocou no chão, a medida, vendo o ato levantou-se no mesmo segundo pegando a garotinha e indo para a cozinha.
- Eu ia te contar quando recebesse as respostas. – disse calmo, sentando-se ao lado dela.–
- E você recebeu? – Perguntou.
- Sim, de duas. – Respondeu ainda mais manso; observou o homem dedilhar suas coxas, ponderando sobre o que falaria. –
- Essa é uma das melhores faculdades daqui, , eu sei o quanto você deu duro pra conseguir um emprego neste lugar e eu não quero que isso...
- Escuta, , as duas faculdades que me aceitaram são ótimas, e eu posso trabalhar em ambas.
- Não. Isso é loucura.
- É loucura querer que nós dois sejamos completamente normais? – indagou nervoso; conseguiu ver a veia do homem saltar no pescoço. Sentia seu coração bombear rápido. br> - Isso não é sobre nossa ‘’normalidade’’, . Você conseguiu tudo que você quis antes disso, antes de nós... – Engoliu seco, travando-se nas palavras –
- Por que você também acha que não vai dar em nada? Porque podemos resolver isso agora. – Sua respiração falhou assim como as lágrimas se formaram nos olhos.
- Não ! Porque isso é demais pra mim! Talvez você consiga lidar com isso, mas eu não droga! Porque foi muito mais do que eu imaginei! – Aumentou a voz. – Eu estou construindo a minha vida e você já tem a sua e é completamente injusto você fazer isso por mim... – engoliu em seco. – Por nós.
- Desculpa, mas essa decisão é minha, e eu já á fiz. – Falou com um suspiro. – Eu vou fazer isso você querendo ou não. Todos naquela já sabem, nunca nos viram juntos, mas sabem, e aquela foto não adiantou nada partindo pelo fato de que eu ainda não posso beijar você na frente dos meus amigos professores porque algo nos trava e quer saber? Eu realmente cansei. Eu vou me mudar porque eu cansei deles também, você querendo ou não.
- E você acredita que isso não nos afeta?
- Eu estou arrumando um jeito de não te perder aqui. – mordeu os lábios, fazendo menção de que se levantaria, mas foi segurado por , logo abraçando-o pelo pescoço. – Porque eu não quero que isso aconteça. Mas eu também não vou insistir se você não quiser.
- Ninguém nunca fez isso por mim antes. – Disse enquanto acariciava sua nuca.
- Então esse ninguém não te merecia. – Sorriu gentil apenas com os lábios, lhe dando um selinho após o abraço; em seguida lhe deu um beijo na testa pegou seu casaco e saiu da casa.
só tinha algumas semanas depois de aceitar o cargo em outra universidade, e era nisso que ela mais pensava. Assim que saiu, deixou uma aflita. Não tinha o que ela fazer, ou o deixava ou seguia conforme o que ele queria. Embora fosse incrivelmente difícil fingir que ele não era nada pra ela lá, ainda assim o tinha todos os dias, vezes ou outra tentava escapar, mesmo que sem sucesso, mas talvez só por isso as coisas ficassem mais interessantes do que eram.
passou noites pensando nisso, ainda mais depois que ele aceitou. Ele bem que podia estar tão instigado por isso se realmente o que o motivava: A adrenalina de estarem juntos.
O que ela não entendia era que ele era doido por ela apesar disso.

***


- Então, último dia do aqui, como se sente? – disse enquanto saia do carro; haviam acabado de chegar na universidade.
- Eu não sei. – respondeu. – Talvez feliz, talvez com medo...
- Sempre complicando as coisas...
- Ele vai pra outro lugar. Pode muito bem achar outra pessoa mais interessante. – Falou sarcástica. que por sua vez andava, parou no mesmo momento virando-se para a amiga.
- Não arrume outro problema que você não vai conseguir lidar, . Você está bem grandinha pra ser tão insegura assim, e além do mais, se der errado, de amor a gente não morre.
- Por que eu sinto que você está mais desesperada por isso do que eu? – arqueou a sobrancelha vendo a amiga fazer o mesmo, abrindo a boca várias vezes. –
- Eu quero parar de mentir, tudo bem? Isso não afeta só vocês dois. – Disse após alguns segundos. – Quer saber? Vou me encontrar com o .
- Novidade...
- Você...
- Devia fazer o mesmo? – completou a frase sorrindo forçadamente. – Eu vou.

não respondeu nada, apenas foi se embaralhando por aquelas pessoas.Como a temporada de seis meses havia acabado, aquela era a última semana de aulas e a mais cheia; alunos preocupados com notas, festas de confraternização... É, eles tinham suas sociedades lá dentro, não fazia parte de nenhuma, embora seu curso tivesse algo como “ Law and Order team”, era mais como se ela não tivesse dentro.
Queria que o tempo passasse logo pra ela apenas ir encontrá-lo no final da aula com mais calma e tempo pra se falarem. Não se viam direito desde o dia em que ele contou que se mudaria. Nova casa, novo bairro, não era muito, mas era o bastante para fazê-la pensar sobre o quanto aquilo estava dando trabalho, o quanto ele estava se esforçando enquanto ela ainda insistia em permanecer na defensiva.

Ainda tinham algumas alunas quando chegou; viu-as olhar de canto quando entrou, sorrindo simpática mesmo assim e depois tornando o olhar a ele. tinha se virado para ela assim que botou os pés para dentro da sala dele.
Como era um tipo de despedida juntamente com a confraternização, todos acharam melhor o surpreender na sala dele, mas ela não foi.
Viu aos poucos, as poucas pessoas que ainda estavam lá irem saindo até que sobrasse apenas ela e lá dentro, um olhando para a cara do outro sem saberem se riam ou conversavam sobre aquela situação. Não poderiam mentir que estava tudo na perfeita maravilha deduzindo pela falta de comunicação das últimas semanas, mas, mesmo assim, compartilhavam de um mesmo sentimento ali que não sabiam descrever.

- E então? Como vai a mudança? – cortou o silêncio dando passos até ele.
- Eu pensei que você não viria.
- Eu também. – Falou desviando os olhos dele, dedilhando seus dedos pelos cartazes de despedida pendurados pela sala. – Mas como eu não viria na despedida do meu professor preferido? – Ele sorriu vendo-a chegar mais perto, agora assim o olhando. – Como se sente?
- Ótimo. Aliviado. Confiante. - Houve uma pausa de alguns minutos em silencio. -
- Eu não acredito que você está fazendo isso. – A garota disse agora já entre as pernas do homem, que estava recostado a sua mesa.
- Não é tão grande quanto parece. Só vou parar de dar aula aqui. – deu de ombros,logo sentiu as mãos dela delinearem dos seus antebraços até seus ombros, se encaixando ainda mais nele.
- Depois de cinco anos... Isso é loucura mesmo. – Comentou quase num sussurro –
- Estava na hora de mudar. Conhecer novos horizontes. – sorriu amistoso tornando á olhar nos olhos da garota. acompanhava suas mãos passearem pela pele dele como se estivesse alisando uma obra de arte.
- Posso me incluir nesses horizontes?- Ela perguntou parando seus movimentos, segurou o rosto do homem entre o pescoço e o maxilar, seus dedos faziam carinhos sutis ali, ato que o fez fechar os olhos. –
- Você é meu horizonte agora.– respondeu dentre seus lábios, permaneceu de olhos fechados apenas sentindo mais e mais a aproximação quente dela, a frase havia desestabilizado tudo que ela chamava de sanidade.
- Isso existe?
- Acabei de inventar.

Dois segundos depois os dois caíram na gargalhada, logo o abraçou totalmente pelos ombros sendo retribuída na mesma intensidade. Ambos ficaram daquele jeito por um bom tempo, sentindo seus corpos subirem e descerem na mesma intensidade, na mesma velocidade, de tão colados que estavam. O sentimento era de alívio, os fazendo pensar que a situação não era tão crítica para aquele drama todo, mas se tratando dos dois finalmente estarem livres pra ficarem daquela maneira, naquele horário, se tornava enorme.
só abriu os olhos, ou melhor, semicerrou-os, quando sentiu um beijo de leve no ombro desnudo, por causa da regata que usava. O corpo todo dela se ouriçou fazendo com que sorrisse satisfeito. Continuou beijando seu ombro, fazendo uma trilha dele até seu pescoço, passou pela bochecha, canto da boca; que mantinha os olhos fechados esperando o beijo nos lábios estranhou a demora, o abrindo. Viu-o a olhando, todo o seu rosto.

- Eu realmente gosto de você. – Disse.
- Que bom que gosta. – respondeu. –
- Quando você disse que era loucura, essa palavra ficou rodando na minha cabeça a noite toda, desde aquele dia. – Começou. – Mas, eu fiquei pensando, se isso é loucura, estamos dando o significado errado a essa palavra.
- Ah, você e suas filosofias... – A menina rodou os olhos.
- Se loucura for pensar viver o tempo todo e só se dar conta que sua vida começou quando alguém toma totalmente conta dela e faz você pensar coisas inimagináveis, é, talvez seja loucura.
- Coisas inimagináveis? – arqueou a sobrancelha sentindo as mãos do homem subirem por dentro de sua blusa.
- É, tipo te beijar muito agora.
- Não é inimaginável, é possível. – Ela sorriu roçando seu nariz no dele antes de encostar seus lábios. –
- Seria só imaginável se não fosse hoje.
- Nunca tentamos. – Deu de ombros o beijando.

Como força do hábito o homem tomou conta do corpo dela, transpassando suas mãos pelas suas costas sem se importar se estava numa universidade ou não; virou bruscamente o corpo da garota dessa vez com mais intensidade, desceu pelo canto da boca e pescoço observando-a arfar agora já sentada á mesa onde o mesmo havia á colocado. engoliu seco, bruscamente separando do homem e o empurrando sutilmente dela, que ainda estava recostada na mesma, parecia assustado. Foi quando se levantou indo até a porta rapidamente, por um segundo ele pensou que fosse embora, mas só depois notou que sua intenção era trancar a porta, desceu as cortinas,checou e só então virou-se para ela.
Foi quando viu-a abrindo um sorrisinho no canto dos lábios que ele sacou, já afrouxando a gravata, se preparando para o que viria á seguir.

- Então vamos tentar dessa vez. – Chamou-a com as mãos, passando a língua nos lábios em seguida.
- Não acha muito tarde pra isso?
negou com a cabeça. – - Nunca é tarde pra isso meu amor.

Em três passos a menina chegou até ele já desabotoando os botões de sua camisa enquanto já havia começado a beijar seu pescoço. Suas pernas estavam tão moles que achava que provavelmente cairia, foi notando a moleza da garota em seus braços que o homem a pegou no colo sutilmente, colocando-a sentada em cima da mesa onde antes ela estava, ao passo em que ela já estava no ultimo botão de sua camisa, vendo perfeitamente todo o peitoral e abdômen do seu professor completamente exposto ali pra ela.
A adrenalina corria na veia dos dois de certa forma que seus corpos estavam mais quentes a cada segundo não só pelo tesão, mas por estarem fazendo algo bem errado ali.
só parou de pensar quando sentiu mais beijos dele em seu pescoço, e depois suas mãos subirem pela saia que estava usando, apertando suas coxas. Novamente parou bruscamente; naquele patamar já sentia o corpo todo pulsando, pulsando mesmo, seu cabelo estava todo desgrenhado, e sua boca estava toda inchada. sorriu ao ver aquilo o deixando confuso. Ok. Ela admitia, adorava o ver quase perder o controle.

- Que foi?
- Se esqueceu de uma coisa.
- O quê? – Perguntou quase desesperado. – Camisinha?

Ela não respondeu quando viu que o mesmo estava preparado, tirando uma de sua carteira.
Com mais alguns passos ambos foram para o sofá entre os estalos e as arfadas; entre os caminhos de beijos e o calor emanando que só deixava aquele clima ainda mais acalorado, porque de fato, o verão da cidade era realmente quente. Assim que á colocou no sofá, sentiu-a dedilhar o zíper de sua calça, engolindo em seco enquanto fazia aquilo, estava ficando difícil de respirar com ele ali beijando seu pescoço de cima abaixo até sua clavícula; Porém notou o quanto ela estava tremula fazendo aquilo, com dificuldade para efetuar o que queria fazer, então parou os beijos para observá-la, tinha algo errado.
Apoiou-se nas mãos, diminuindo o peso de ficar por cima dela, percebendo que mais uma vez seus olhos pareciam completamente assustados, embora transcendessem vontade. Ele parou no mesmo momento.
- Ei, tem algo errado? – Sussurrou, viu-a passar a língua várias vezes nos lábios antes de responder. – Fiz alguma coisa? – perguntou preocupado –
- Não! - A garota exclamou ainda nervosa. - Faz muito tempo que eu não faço isso, eu... Me desculpa. – Falou imediatamente tapando o rosto, completamente envergonhada. –
- Ei, relaxa. – falou manso, retirando suas mãos de seu rosto, ficou o encarando por um tempo indeterminado, acompanhou os olhos do homem mergulharam-se em sua expressão sem entender muito bem o que ele pensava. – No seu tempo. – Apertou os lábios num mínimo sorrindo, beijando o rosto da garota antes de se levantar. –

continuou estirada no sofá por mais algum tempo examinando os atos seguintes do homem. A meia luz daquela sala ilustrava perfeitamente a silhueta de enquanto este abotoava de costas, novamente sua camisa social branca usual. Não havia cena mais sexy que aquela, e por Deus, ela não sabia se era seu costume abotoar aqueles botões lentamente, deixando seus músculos das costas um tanto mais aparentes, ou se ele queria mostrar á ela o que estava perdendo, porque qualquer pessoa em sã consciência se entregaria, e ela certamente o faria se não estivesse morrendo de vergonha.
Assim que concluiu o rito de vestir-se, sobrara apenas o cinto quando tornou seu corpo para olhá-la um tanto confuso. A medida que caminhava ajeitando o cinto e a social dentro das calças.
por fim sentou-se no sofá tentando recobrar o mínimo de dignidade que lhe restava após toda aquela cena. Tateou por todo o sofá a procura de sua blusinha, abaixando sua saia que antes estava na altura do umbigo, toda enrolada. Ainda conseguia sentir a sensação das mãos dele passeando por ela, e no mais, conseguia sentir que ele á estava observando enquanto fazia aquilo.
- , ei… - O homem á interrompeu quando finalmente levantou-se do sofá, ajeitando sua saia. – Olha pra mim... Tudo no seu tempo ok. Me desculpa.

Duas semanas após aquele ocorrido, ambos por fim foram ao finalmente. Aquele foi o destarte para que a confiança nele aumentasse. Como sempre fora muito correto e um tanto tímido, o máximo que ambos haviam efetuado antes daquele quase sexo, foram amassos, mas não tão quentes quanto aquele. Sempre quando se pegava forçando demais, ou quanto notava que a garota ainda estava tensa, impedia a si mesmo, mesmo que ela demonstrasse desejo, o fato de que não estava solta o suficiente o deixava incomodado. E foi por toda essa sempre segurança e proteção que ele passava que com o passar dos meses ela passou á amá-lo. Ela sabia que era amar porque ao passo em que passava mais tempo com ele ia se esquecendo de á ponto de se importar cada vez menos quando ouvia histórias sobre ele ou seu nome. já estava no processo de ser superado naquele momento, porém aquela real escolha de que ficaria com foi crucial para que sua vida seguisse de vez.

***


Durante mais aqueles quatro anos que se passaram desde a mudança de para outra universidade, as coisas entre eles ficaram mais estáveis e melhores.
já estava com oito, e naquele exato momento faltava apenas uma semana para que ela e se formassem; , , e sua família e haviam viajado para a casa de lago da família , numa confraternização de fim de ano que eles sempre faziam; tinha ido todos os anos sozinha, porém dessa vez era diferente estar lá. Dessa vez estava grávida.
havia descoberto seis meses antes que havia engravidado e bom, existia todo aquele desespero natural de quem não está esperando: Eles estavam prestes a se formar e não tinham a própria casa ou se casado, nem pensavam em casamento e vida eterna até aquele bebê. Foi quando e entraram na jogada.
na parte madura e no quesito: a vida dela mudaria de cabeça pra baixo, mas ela teria certeza de que seria pra melhor. Após isso veio à crise do “vestido nenhum vai caber em mim na formatura”, e era por isso que estava lá, para todas as crises maternais que ela já tinha passado e estava passando, para dar suporte.

Já era tarde da noite quando finalmente capotou no sofá dos junto com uma prima do mesmo. Um tempo depois de ter certeza de que estava tudo certinho com ela, foi procurar a amiga, e .
Após rodar todos os cômodos daquela casa, achou os três. Estes estavam sentados na varanda do quintal da casa, no colo de enquanto o mesmo acariciava sua barriga e sentado numa poltrona em frente a eles, com uma cerveja em mãos. Aquela era mais uma mania engraçada do namorado: Ele adorava tomar cerveja num frio de -2 graus. Não era a temperatura que estava fazendo, mas olhava para toda aquela neve e só conseguia sentir que essa era a temperatura que fazia.

- Ei, o que estão fazendo aí? – Perguntou assim que abriu a porta,já caminhando para o colo de com um cobertor enrolado ao corpo.
- O assunto chegou. - falou recebendo uma língua da mulher.
- Estamos falando sobre a festa no lago do ano passado. – respondeu; assentiu positivamente sentando no colo do namorado e transpassando o cobertor por eles, lhe deu um selinho antes de voltar a olhar .
- Sim, logo depois de eu engravidar. – comentou. –
- Mal aparecia. – compartilhou da mesma lembrança rindo. – Ela conseguiu esconder por um tempo que não estava grávida de tão pequena que era. – Riu. – Já eu...
- É diferente, , eu era uma adolescente. – Falou; tentou imaginar grávida, se perdendo por instantes. –
- Eu me lembro que fiquei bem chateada por você não ir mais as festas comigo por estar “casada”. Eu meio que engravidei junto com você depois disso.

Ambas riram sendo acompanhadas por risadas singelas dos namorados.

- Nunca foi um casamento, eu deveria ter ficado na casa dos meus pais. – comentou num murmúrio. –
- Por que não ficou? – finalmente pronunciou-se, observando viajar no tempo. –
- Porque era uma cidade pequena e antes do meu bem estar, vinha meu status e da minha família. – Suspirou. –
- É ridículo.
- Não era pra mim na época. Eu acreditava que, mesmo parecendo rápido demais, fosse dar certo. – A garota disse logo espremendo os lábios, acompanhou a ação. –

Sentia falta de na mesma intensidade que . Por um momento ela quis voltar até aquele momento no bar, antes de e ele fazerem aquela viagem, e ter implorado pra que ela não fosse,não pela gravidez, mas pra evitar aquela coisa horrível que sentia toda vez que se lembrava dele. A dor do abandono. De ser deixada. Mesmo que não se tratasse diretamente dela.

- Era o que você tinha que fazer, . – falou. – Se você não acreditasse que daria certo, por que teria engravidado?
- É, faz sentido.
- Vocês chegaram a se casar na igreja? – perguntou baixo, seus olhos analisavam cada linha de expressão da mulher.
- Ah não, nossos pais não queriam chamar atenção. Foi bem frustrante na verdade, sempre planejei meu casamento e nunca tive a chance de ter um.
- Não haja como se sua vida estivesse acabado lá, . Você só tem vinte e cinco anos. – Repreendeu-a, abraçando ainda mais. –
- Você teve a oportunidade... Como foi? – Ela cortou o assunto vendo o homem hesitar. –
- Nunca foi romântico a tal ponto, meu casamento foi mais “vamos nos casar?” e eu falei “pode ser”; nunca tive essa coisa de pedir. – Contou.
- Eu também não sou romântico. – se intrometeu recebendo um olhar cortante de ; Apesar de tudo, todos sabiam que era pra irritá-la. – Perda de tempo.
- Você acha?
- Acho.
- Ok. Você é solteiro agora, . – Disse entre dentes fazendo gargalhar.

Quando ouviram aquele estrondo de comemorações e fogos aparecer foi que notaram que a meia noite já havia chegado e já era ano novo e eles estavam ali perdidos na conversa.
Pra falar bem a verdade, estava perdido no sorriso que dava para . Ficou ali olhando pra ela sorrindo, tentando imaginar no quanto ela já tinha passado, toda a pressão, todo o sofrimento, toda a perda de esperança, mas estava ali. O mundo tinha sido duro demais com aquela garota que pra ele, ainda estava se recuperando dos seus dezessete.
tomou consciência de que por mais que tivesse oito anos a mais que , quem tinha tudo a ensinar era ela, ou melhor, ainda estava. Talvez fosse por isso que se sentia tão vivo com ela, tinha esse poder de fazer com que as pessoas não perdessem a esperança e nem a força, porque um dia ela já passou por isso e ela sabia que a vida não acabava com isso, na verdade, só continuava e você tinha que arrumar um jeito de continuar. Era isso.
Naquele minuto, ainda mais que os outros, entre os clarões que atingiam o rosto dela preenchido por um sorriso e um olhar indescritível, ele sentiu com toda a certeza que o mundo podia lhe dar que estar com ela era a coisa certa. Muito embora a maior loucura que já havia feito na vida.
Mais ainda quando se virou pra ele com o mesmo sorriso, tombando a cabeça nos ombros e caminhando de volta pros seus braços; se jogando sobre ele naquela poltrona. Quando sentiu seu rosto ser segurado e ela roçar seus narizes de leve, cheia de carinho; ele ainda podia ver o reflexo das luzes refletindo em seus olhos sem saber como poderia ser mais bonito refletido ali do que no céu, que era onde estava acontecendo. Abraçou-a pela cintura fazendo-a sentar-se em seu colo novamente e então a beijou. acariciou seu rosto com o dedão, desceu para pescoço, beijou seu rosto. conseguia sentir o rastro quente que ela havia deixado, a combinação perfeita para uma noite gelada como aquela.

- Feliz ano novo meu amor. – sussurrou beijando sua bochecha; chegou mais perto do ouvido do homem sentindo as mãos dele atravessem sua blusa grossa de lã. percebeu sua pele ouriçar, beijando seu pescoço também só pra finalizar o ato.. – Eu te amo.

Então ele tirou a prova de que amor, na verdade, era tudo o que disseram que não era.





Capítulo Quatro – Hey you? Remember me? Remember us?

Musica do cap: James bay, Forever.

- É com muito orgulho e satisfação que eu, diretora da universidade de LawScroll, declaro oficialmente a décima sexta turma de direito, formada!
Uma salva de palmas veio a seguir, junto com uma chuva de chapéus, tendo então o pai de sorrindo babão enquanto filmava a cena toda com sua velha câmera, a mesma que gravara os primeiros passos de sua primogênita. Deu zoom no rosto da filha sorrindo com os olhos completamente marejados. apareceu em seguida lhe dando um abraço carinhoso, e logo depois se enfiou entre elas, se juntando; e ai a câmera focou em lá no fundo, ele piscou para a mesma e sorriu em seguida todo orgulhoso. Até mesmo o pai dela admitia, o modo como cuidava de sua filha era admirável.
só foi entender aquela piscadela dele para a câmera, séculos depois.

- Mãe, quantos anos eu tinha ali?
- Vendo esse vídeo de novo, ? – passou pela sala notando que agora havia pausado a fita.

Era seu vídeo de formatura; completamente caseiro, que por sinal arrancava suspiros e suspiros de sua menor; estava naquela fase de contos de fadas, e portanto achava aquela parte, desde a formatura até o seu pedido de casamento, a coisa mais romântica de todas. De fato fora. Mas de qualquer forma, de tanto acompanhar a garotinha assistir reiteradamente aquela fita estava saturada dela..
- Quantos anos? – Reforçou a pergunta anterior. –
- Tinha oito.
- Uau. E onde eu estava aqui? – deu play novamente, deixando o momento em que havia a pedido em casamento na cozinha da casa rolar. Sorriu de leve ao lembrar-se, ou melhor, de ver como tinha ficado confusa e sem palavras; Em como cada minuto fez parecer um conto de fadas. – Mãe?

- Estava na casa do tio , não se lembra?.
- Mãe, eu dormi tantas vezes no tio Zayn... - Murmurou.- Porque você estava chorando?
- Porque eu estava feliz, e chega de perguntas! Desliga isso aí e sobe pra tomar banho, daqui apouco a mãe do Byron chega pra te buscar.
- E você concorda com isso?

se virou bruscamente dando de cara com parado na porta olhando para as duas. Aos poucos o homem foi virando a cabeça notando que o vídeo ainda rolava; Assim como ele sorriu, chegando mais perto.

- Chegou cedo.– trocou olhares com ; acompanhou com os olhos o padrasto puxar sua mãe para ele todo carinhoso.
- Eu tinha que estar aqui pra ver a cara dos...
- . – A mulher o reprovou num sussurro dando um selinho em seguida.
- Mãe!
- Eu não acho que ela tenha idade pra sair assim, sem a gente. – trocou olhares com as duas.
- São crianças, crianças de doze anos que por sinal vão ser cuidadas por outros adultos que não seremos nós. Deixa ela crescer amor. – se intrometeu entortando a cabeça.
- Não tão crianças assim, e vigiar...
- Amor. – juntou a sobrancelhas repreendendo. Apenas não conseguia aceitar que sua garotinha já tinha doze e estava saindo sozinha. Ela era sua paixão; – Vem aqui.

o puxou pela gravata novamente juntando sua boca no ouvido dele, escorreu a mão pelo peitoral do homem e depois o soltou.

- Ok. Pode ir. Mas eu ainda não estou feliz com essa história. – disse, porém ainda sério.

abriu a boca varias vezes.

- O que você disse? – Perguntou boquiaberta. –
- Eu já dei um jeito, não dei, mocinha? No more questions.

Assim feito, a mulher soltou-se do marido, acariciou os cabelos da filha que soltou um resmungo, e caminhou em direção à cozinha; virou-se para olhá-la dos pés a cabeça, já imaginando o que faria, com um sorriso que somente era capaz de entender e que por sinal, retribuiu da mesma maneira, piscando em seguida

- A porta!
- Os meliantes chegaram.
- ! – resmungou. Ultimamente era só isso que andava fazendo, resmungos o tempo todo.
- Atenda a porta e seja gentil. – passou vendo o homem revirar os olhos.
- Sim, senhora.
- O que a mamãe disse pra você deixar? – perguntou para o padrasto o parando por um momento.
- Algo que eu quero que você aprenda apenas aos trinta. – respondeu; pode sentir a animação dele transcendendo; logo ele beijou sua testa indo atender a porta.

dispensou toda a parte de ser simpática com a mãe das outras crianças, uma vez que não se deu o trabalho de ir até a porta e cumprimentar a mulher. já estava fazendo isso por ela.
Embora esperasse que o processo de entrega na porta fosse rápido, ouviu alguns múrmurios, risada feminina, retorceu a cabeça e foi dar uma espiada pelo vão da porta da cozinha – que era inteira de vidro e estava fechada. – Afastou de leve a cortininha que tapava a visão, e viu outra mãe medindo seu marido dos pés a cabeça. Também notou que o mesmo se mantinha na mesma posição, simpatizando.
Era sempre assim. chamava a atenção das mulheres, quem quer que fossem. Mas ela não costumava ligar muito pra isso. Havia prometido para si mesma, depois das inúmeras brigas que ambos tiveram pelo ciúme fútil ao longo daqueles três anos, que não iria mais se importar. No entanto como já comentado, ela ainda se sentia as mãos coçarem de leve.
Quando o viu fechar a porta, voltou rapidamente para o balcão, servindo o outro copo de vinho. abriu a porta em silêncio, e viu a mulher concentrada no que estava fazendo. Continuou da mesma forma, caminhando em passos lentos até ela. Durante o trajeto passou a mão nos cabelos, e por fim parou atrás de , beijando seu pescoço – quase nuca – De leve.

- Sozinhos?
- Sozinhos. – Ele afirmou dessa vez roçando seus corpos. sentiu as mãos dele se arrastarem por cima do seu vestido, parando em seu abdômen. Dessa forma ele a abraçou pelas costas.
- Como foi seu dia? – fechou os olhos ao sentir outro beijo, agora em seu ombro, pois ele havia afastado a alça de seu vestido que agora, caia por seu braço.
- Cansativo, mas produtivo. – sussurrou indo em direção ao seu ouvido. – E o seu?
- Kassandra perdeu aquele caso.... – Respondeu com a voz falha por conta dos beijos que o homem distribuía por baixo de sua orelha e pescoço.
- Que caso?– virou-a para ele gentilmente, lentamente indo até sua boca. se afastou o que o fez arquear a sobrancelha. –
- Que foi? – Alisou o peitoral do homem de cima a baixo, ele, porém não tirou os olhos do rosto dela.
- Eu não sei... – Murmurou.
- É estranho, não é? Não ter ela aqui. – O homem fez um biquinho com os lábios.
- Já disse que você fica encantador falando desse jeito?
- E não foi por isso que nos casamos? – disse presunçoso.

Com apenas um movimento fez impulso para que sentasse no balcão, a mulher jogou a faca para o outro lado, emaranhando suas pernas na cintura dele, o puxando para ela. Agarrou os cabelos dele com uma das mãos, enquanto a outra acariciava sua nuca; por sua vez, apenas passeava pelas coxas dela, apertando por vezes, sem a intenção de deixá-la marcada como acontecia algumas vezes. Naquele momento ele apenas sentia saudade de sua esposa. Há tempos não conseguia arrumar tempo para um momento como aquele. Sem preocupação
inclinou o corpo, pendendo-o para trás, tendo que segurar ainda mais forte na nuca do marido ao sentir os beijos dele se arrastarem de seus lábios para o pescoço e continuar descendo.
- Isso é anti-higiênico. –murmurou ofegante, abrindo o mínimo dos olhos. Fez uma força imensa para voltar a se sentar corretamente, já que estava quase deitando no balcão.
- Quem liga? – a beijou de novo, delineando seus lábios com a língua. – Já fizemos isso antes.
- Nunca fizemos isso antes. – segurou o rosto dele impedindo o de beijá-la.– Não tente ser mais esperto que eu, meu amor. – roçou seus narizes. Sentiu-o apertar suas coxas; aquilo a fez sorrir de lado.
- Como seu ex-professor, tenho que confessar que te ensinei bem demais. – Beijou seu rosto. – Suas habilidades aumentam a cada dia... – Beijou o canto de sua boca. Ela gargalhou. –
- Três anos de casamento e você acha mesmo que eu não sei o que você está querendo fazer? – afastou seu rosto minimamente, tombando a cabeça nos ombros.
- Quarto.
- Banho?
- Feito. – Sorriu. –
- Obrigado, Deus.

Da mesma forma que a colocou lá, tirou-a, levando-a no colo para o andar de cima da casa deles quase correndo. A ação fez gargalhar.
Assim que chegaram ao quarto, a pôs no chão dessa vez voltando a beijá-la. sorria durante isso, assim como ele, já desabotoando sua camisa social preta. Aos poucos o abdômen do homem foi aparecendo. Era incrível como ele conseguia ficar ainda mais estonteante com o tempo. Lembrou-se de comentando que o mesmo se assemelhava ao vinho: “quanto mais velho, mais gostoso”, e naquela circunstância, ela não podia nem por um segundo duvidar. Seu marido ficava ainda mais gostoso com o tempo, era fato.
Assim que chegaram à beira da cama, se deitou lentamente, sendo acompanhada por ele se encaixando em cima dela, entre suas pernas; O homem continuou á beijando, dando intervalos de cinco em cinco segundos entre os beijos nos lábios e pescoço.
Seu vestido já estava no chão, às roupas dele também, e só quando faltava bem pouco para finalizar o ato, voltou a olhá-la nos olhos, delineando com suas mãos toda a extensão do corpo tela com extrema excitação.

- Faz quanto tempo que não estamos sozinhos e despreocupados assim mesmo? –
- Três anos. – retorceu a boca. Realmente, depois de se casarem e terem ali a todo o momento, não tiveram tantas oportunidades. – Desculpa...
- Não podia ser melhor que isso, amor.– sorriu, acompanhou; O homem voltou a se aproximar lentamente roçando seu nariz por seu pescoço cheio de carinho antes de encostar seus lábios.

***


- Que carinha é essa? – perguntou assim que encontrou a amiga no café da manhã costumeiro que faziam antes de começarem o dia; entortou a cabeça. – Vamos lá. Como foi ficar sozinha com o depois de três anos? Sem culpa?
- Como você sabe? – Riu bebericando seu suco.
- Porque eu não vejo a hora do Ethan completar onze e começar a sair sozinho. – Ambas riram sincronizadas.
- Você é pervertida.
- Não se eu for fazer amor com o meu marido. – rolou os olhos.
- Acredita que ele não queria a deixar ir? – murmurou – Não é estranho como ele realmente tomou esse posto de pai?
- , você esperava o quê? É como se ele fosse o pai dela. Desde os três anos de idade o age como um pra ela. – contestou perplexa vendo a amiga olhar para o líquido dentro do copo hesitante. –
- Acontece que ela tem um pai, . E eu tenho medo do ... – Respirou fundo. –
- O que? Achar que o seu marido está tomando o lugar? Sim! Talvez ele realmente esteja . Há quanto tempo o não vê a ?
- Seis meses.
- Viu só! – aumentou a voz fazendo algumas pessoas ás encararem, mas provavelmente só percebeu isso. –
- Mas ele liga todos os dias, e manda presentes e enfim...
- Tudo bem. – se endireitou na cadeira. – O aniversário dela é hoje, e ela vai pra festinha na casa da amiga, o por um acaso sabe disso? Ou se importou em vir? Pelo que eu sei a turnê dele acabou esse final de semana e, digamos que dinheiro não é o problema dele agora. – encarou por alguns segundos, só depois soltou a respiração de novo.
- Acredito que ele tenha falado com ela , o não se dirige a mim há anos. – Ao voltar a olhá-la, viu rindo de lado.
- Em pensar que você cogitou convidar ele pro seu casamento... – Dessa vez sorriu de lado também. Não era um sorriso humorado, mas triste. Nunca teve resposta do convite.
- Eu o convidei porque eu prometi que faria quando me casasse. Prometi que ele seria meu padrinho com você.
- Isso antes de vocês namorarem e terem uma linda princesinha que por sinal ele deixou. , quantas vezes eu vou ter que repetir que... – As palavras dela se perderam.

Por um minuto, ambas ficaram quietas olhando para o próprio copo de café, compartilhando das mesmas lembranças. Dentro de suas cabeças, aos dezessete tudo era infinitamente perfeito. , e . Os melhores amigos que você iria conhecer. Que faziam promessas para o futuro uns para os outros e eram reconhecidos por serem fieis por isso.
A fidelidade entre eles era tanta – as defendia com unhas e dentes – Que elas jamais imaginaram que, mesmo sabendo que um dia poderia rolar algo entre algum deles, um dia, poderiam sair tão machucados disso. As mesmas memórias por anos, os três construíram, desde “serem padrinhos um dos filhos dos outros”, á seus casamentos.
O golpe não fora apenas em por esse motivo, mas foi em também; e talvez por ter acreditado tanto em , talvez ainda mais que , pior que a principal afetada, não conseguia perdoá-lo, e se irritava quando a mesma se forçava a fazer isso. Entendia que ele era pai de sua filha e que alguma coisa deveria existir entre isso, mas, como seu velho amigo? Essa era a questão. entendeu que na verdade, as únicas amigas mesmo dentro daquela relação de amizade, era ela e .

- Como você sabe da turnê? – cortou o silêncio com um pigarro. –
- Por incrível que pareça, e se dão muito bem e viraram amigos. – Falou a contragosto; apenas a olhou.
- E você nunca me disse nada?
- Pelo amor de Deus, lady Love, você tem uma família pra se importar. O que iria acrescentar na sua vida a amizade deles?
- Isso quer dizer que os dois se veem! – argumentou fazendo gestos com as mãos. –
- Só quando o viaja. Você sabe, a empresa o manda pra algumas clínicas pra ver o rendimento, mas isso não vem ao caso. , esquece o ! – estalou os dedos em frente ao rosto de a fazendo revirar os olhos e logo depois lhe dar um tapa no mesmo.
- Eu esqueci o . – Murmurou séria. – Para com isso.
- Então qual é a sua obsessão por notícias? – indagou aguda. –
- Eu só quero saber se ele está BEM! – ultrapassou a voz da mesma; Dessa vez não respondeu nada, só encarou-a. engoliu seco. – É difícil pra você aceitar que depois de tudo que ele fez, eu esteja me importando. Mas ele é o pai da minha filha e eu não sei... – Tapou o rosto com as mãos. – Eu só quero que ele esteja bem. – Franziu os lábios.
- Ele está ótimo, . Ótimo. – terminou seu café, chamando o garçom. – E você não só quer saber se ele está “bem”, você não suporta ser ignorada, porque convenhamos, quem é que gosta?

ficou calada sentindo o coração quente por dentro. Quente de irritação.
Continuou daquela forma até chegar a seu escritório. Continuou com a sensação enquanto trabalhava e enquanto atendia os clientes. Continuou assim, pensando no assunto desde que elas começaram a falar nele. A manhã toda.
Não era realmente possível que chegasse a cogitar que ela, no auge dos seus vinte e oito anos, ainda sentisse algo por . Algo relacionado a amor? De fato ela sentia falta, e não deixará de sentir por todos aqueles anos, mas não era falta do amor de , como costumava sentir, era mais como uma preocupação.
Na pior das hipóteses podia estar certa, e sabia disso. Lá no fundinho ela sabia que não deveria se importar tanto, ou melhor, qualquer pessoa normal não se importaria; Não ficaria feliz ao ouvir a voz dele no rádio, fazendo sucesso como sempre desejou. A resposta era clara pra ela sobre essas situações e a melhor que ela podia aceitar: era o pai da sua filha, e era por esse motivo que outras opções a irritavam.

- E aí. – sorriu abrindo a porta do escritório da mulher numa fina fresta do qual, de primeira, a fez suspeitar de quem se tratava; estava tão perdida pensando, que por um segundo o homem a assustou, e sua feição fora nítida.
- Ei, o que você está fazendo aqui? – Caminhou em passos largos até onde o mesmo estava, agora já havia entrado em sua sala e fechava a porta quando por fim sentiu-a agarrá-lo pela cintura, emaranhando-se nele. – - Eu pensei que você e eu pudéssemos almoçar juntos. – Espremeu os olhos. entortou a cabeça ao se afastar dele.
- É sério?
- Se chegarmos em vinte minutos, ainda dará tempo de almoçarmos com o toquinho. – sorriu doce desvencilhando-se do mesmo.
- Ela iria adorar... E eu também. – Murmurou – Obrigada.
- Desculpa estar tão ocupado ultimamente .... – Ele foi interrompido por um beijo rápido que se prolongou por cinco segundos até que a mesma descolasse suas bocas, mal deu tempo para que ele tomasse alguma atitude, o homem ficou parado sem ao menos tocá-la durante o ato. br> - Mas você sabe recompensar essa ausência.

continuou na mesma posição observando sua mulher desfilar pela sala com seu scarpin vinho, já com sua bolsa em mãos e seu vestido tubinho preto, completamente colado no corpo dela na opinião dele, mas quem era ele pra mandar naquela mulher? Por ele, ficaria apenas em casa; ela era um perigo e não tinha um minuto em que não deixava de pensar isso. Perdeu-se tanto a olhando com aqueles cabelos nos ombros, e aquela pose: Mãos na cintura, checando o celular pela ultima vez, biquinho duvidoso do qual ela só fazia quando escondia algo.
Foi naquele segundo que parou pra pensar. A conhecia tão bem que, ficou desconcertado ao olhar sua expressão. Aquele biquinho denunciava realmente que havia algo acontecendo, poderiam ser inúmeras coisas, nunca sabia o que acontecia naquele mente brilhante e confusa. Então só pra preservar o bom momento, preferiu deixar esse assunto denso, pelo que provavelmente parecia, pra depois do jantar.

- Você vem?

Ele assentiu positivamente tomando rumo novamente, como de costume, foi guiando pela cintura o caminho todo até o elevador, quando finalmente entrelaçaram as mãos. Assim que chegaram, sem ao menos haver tempo de fechar a porta, ambos ouviram um estrondo vindo da cozinha, e um peso no corpo logo em seguida. se aninhou á eles tão rápido que chegara á ser engraçado.

- Isso é por que é meu aniversário? – A garotinha sorria de orelha a orelha enquanto ainda estava agarrada agora apenas á seu padrasto.
- Gostou da surpresa? – apertou os olhos contente pelo olhar radiante da filha.
- Senhor ? – Catarina, a empregada se assustou ao ver o homem ali, e mais ainda quando olhou . Parando de súbito,o ato os impulsionou para que se recompusessem e logo se encaminham-se para a cozinha. –
- Nossa, Cat, parece que viu um fantasma. – acenou negativamente mexendo nas panelas, seu rosto carregava um sorrisinho divertido –
- É que os senhores nunca almoçam em casa, pelo menos desde que eu comecei a trabalhar aqui...
- Eu sinto muito. Melhoraremos nesse quesito. – piscou para que sorriu ainda mais abertamente; Catarina sorriu junto disposta a servir a mesa para os dois, já que só tinha colocado o prato de na mesa, foi quando a parou, segurando-a pelas mãos.
- Deixa que eu cuido disso, Cat... Pode ir descansar.
- Obrigada Dona . – Assentiu positivamente. Deixou-os com um sorriso doce e gentil, retomando seus outros serviços pela casa. –
acompanhou Catarina desaparecer para só então continuar o que estava fazendo, dessa maneira a seguiu o ato anterior de sua empregada: Pegou a tigela de pepinos caminhando para a mesa.

- Meu pai está vindo pra cá. Queria ir tanto naquele parque... Você deixa mamãe? – cortou o silêncio. parou antes mesmo de colocar a tigela na mesa, fechando os olhos pesarosamente, foi quando entortou a cabeça, alternando seu olhar dela a .
- Seu pai o quê?
- Mamãe não contou? – Ambos olharam para . Sua boca se delineava em uma linha fina.
- Sobre o que? – Fixou seu olhar na garotinha que parecia não se abalar por isso. Usualmente, quando estava todo sério daquela maneira, e um tanto irritado como arriscava dizer, arrancava calafrios de qualquer um.–
- Meu está se mudando. Vindo pra cá... Tirou férias!– olhou para animada, juntando as mãozinhas.
- Que ótimo! – Aquele ar fingido de contentamento fez a mulher abanar a cabeça notavelmente.
- - Depois de tanto tempo ele finalmente vai vir nos ver.
- Ver você. – enfatizou.
- Não, mãe, ele disse que queria olhar pra você de novo também... Não exatamente pra mim... Ouvir conversa dos outros é feio né? Desculpa. – manteve-se inexpressivo. Continuou seu almoço normalmente, ou não tanto, pra quem o conhecia. De fato não se importava com o fato do pai da garotinha estar indo pra lá, entendia toda a situação, porém de qualquer forma, não tinha tanto sangue frio pra lidar com um comentário daquele. Primeiramente porque sua esposa parecia desconcertada e só por isso denunciava que algo estava acontecendo dentro dela em relação aquilo, e isso sim, ele se importava.

Mais uma vez apertou os lábios, os mordendo em seguida. Tornou o olhar a . Não conseguiu evitar o calafrio que sentiu ao ouvir aquilo, pensou o tempo todo que realmente a tivesse esquecido completamente, mas não era do tipo de criança que mentia e era aí que estava o problema. Embora soubesse que naquele momento, estava nitidamente incomodado, seu coração não soube se controlar quando disse aquilo. E era uma merda não conseguir se controlar diante de comentários tão bestas naquela altura. Era na verdade, bem decepcionante até para ela mesma.

- , eu acho que...
- Seu pai chega hoje? – interrompeu-a.
- Sim, falei com ele ontem por videochamada – tomou um gole de seu suco. –br> - É melhor você terminar seu almoço gatinha, isso aí vai esfriar e assunto não é muito relevante para o nosso almoço. – interrompeu com um pigarro. Sentando-se á mesa por fim, já que á todo momento continuou de pé, apenas observando tudo.
- Você disse que meu pai era importante.
- Não foi bem isso que eu disse. E esse não é o mérito da questão aqui.
- Toda vez que eu peço pra me responder algo sobre meu pai você fala isso!
- ! – Reprovou-a com o olhar, o suficiente para que a menininha se calasse.

Um silêncio continuo se instalou por mais alguns minutos até que terminasse de comer, e desse jeito eles continuaram.
Nenhuma palavra foi trocada durante, ou olhares. Aquilo assustava potencialmente porque não sabia o que poderia estar pensando. Suspirou fundo, irritada, pensando em mil e uma desculpas que pudessem tirá-la daquela “ele é importante ”, porque não fora no sentido romantizado que escancarou, e por mais que não fosse nada daquilo, era entendível que para fosse o cúmulo.
estava tão perto mesmo depois de tanto tempo que mesmo que fizessem esforços contínuos para aceitar a situação delicada em viviam ali, tudo parecia ser em vão. De alguma forma ele parecia algo insuperável não só para , mas para todos eles. E o que mais os deixava completamente desorientados era justamente por não saberem o motivo. Suas vidas obviamente seguiam normalmente, no entanto, o nome do homem os fazia ainda ponderar quando era proferida.

- Posso ir para a piscina? – perguntou baixinho, tirando seu roupão. Já estava de biquíni e o calor daquele fim de verão estava de matar. Era bom que ela aproveitasse já que a maioria dos dias não se faziam propensos para banhos de piscina para crianças.
- Só espera meia hora antes de entrar, tudo bem? – Advertiu antes de ver a filha desaparecer pelo mesmo lugar onde Catarina havia se direcionado.
- Tudo bem, vou brincar com o Garry enquanto isso.

Garry era o labrador de .
Com as duas mãos a mulher se apoiou no balcão após ter juntando toda a louça, tudo isso sem receber um olhar do marido. continuava sério olhando notificando alguma coisa em seu celular. deu três respiradas até tomar coragem de cortar o silencio acabrunhado que os envolvia.

- Foi tudo um mal entendido. – murmurou receosa. O homem por fim, passou a língua nos lábios, retirando o olhar do celular, embora ainda não tivesse direcionado seu olhar á ela.
- Sobre o que, precisamente? – perguntou ríspido. –
- Olha pra mim.

Ele olhou, e ela desejou nunca ter pedido isso a ele.
O olhar fora tão cortante que sentiu a onda calorosa perfurar seu corpo inteiro. Nunca fora de brigar sério com , ele sempre fora muito “calmo”, comparado a ela, porém aquele tipo de olhar só recebera uma vez: Naquele momento.
No entanto não demorou muito para que o homem levantasse da mesa. Fez isso porque não obteve resposta, e a inquietude de sobre o assunto o deixava irritado. Porque o deixava irritado? Porque não deveria haver motivo. Lembrando-se do fato de que nunca fora ciumento, em relação á notar o quanto mexia com ela de verdade o deixava puto da vida.
- Seguinte, conversamos depois. Preciso voltar pro escritório. – Informou seco, verificando seus bolsos á procura da chave do carro. –
- Não, você não vai agora. Nós vamos conversar.
- Ok. Você quer conversar sobre o quê? – Com um gesto brusco o homem virou-se para ela, botando suas mãos na cintura, e consequentemente, afastando o paletó. – br> - Não foi tão romantizado quanto pareceu .
- Como assim não foi romantizado, ? Existe alguma forma de isso não ser romantizado ? – fez uma pausa. – Você diz que ele é importante e vem me dizer que não há nenhuma conotação sentimental nisso?
-Porque haveria? – Imitou a posição do mesmo, com as mãos na cintura. negou com a cabeça dando suspiro irritado involuntário.

Por um momento ele continuou naquela posição, contudo não á olhava. Encarava o chão medindo todas as suas palavras, pois odiava conversar irritado. Sempre preferiu dar tempo ao tempo por saber que coisas boas não provinham quando seu sistema nervoso era abalado simplesmente por vivencia e, essa era uma coisa que o atingia em cheio. Ela nem em sonho deixava as coisas pra depois, ou esperava a água abaixar, e por um lado isso era louvável e talvez, em alguns casos, correto. Acontece que muitas das suas brigas foram evitadas por seu comportamento duro nesse quesito. sempre voltava, depois de deixá-la fervendo sozinha por algum desentendimento, no entanto aquela garota as vezes realmente conseguia tirar aquela sua higidez. - Estou dizendo que não é a primeira vez que percebo seu vacilo ao ouvir o nome dele. – Disse baixo e firme, analisando toda a feição desta se contorcer ao ouvir aquilo. –
- Não seja paranoico. – Negou com a cabeça soltando um risinho incrédulo. –
- Nos conhecemos á nove anos, você acha mesmo que eu não sei quando você está fingindo?
- Eu não estou fingindo! Não tem nada acontecendo. – continuou com o mesmo sorriso de antes.
- Eu só quero que você seja sincera. – chegou um pouco mais perto. – O é um fingimento! Sempre foi! Longe ou perto, onde esse porra esteja ele vai nos afetar, e sabe por quê? Porque ele ainda mexe com você, !
- Do que você está falando? – A mulher entortou a cabeça perplexa o vendo se afastar um passo; Engoliu seco quando isso aconteceu, dando uma respirada funda. – É a primeira vez que essa discussão está acontecendo, como você pode dizer que ele sempre esteve aqui?
- Satisfeita? – abriu os braços brutamente na mesma medida em que sorriu sarcástico, sem mostrar os dentes, já virando-se para tomar seu rumo. –

causava todos os tipos de reações nele, então preferiu voltar á sua rotina e se acalmar, como sempre fazia. Quando voltasse sabia que a conversa iria ser mais leve e menos carregada de emoção como naquele momento. Sabia que já tinha dado corda demais para o que estava sentindo naquele momento, e somente por isso disse o que disse. Quando se pegava numa discussão daquela com a mulher sempre ficava irritado. Primeiro porque: Não tinha idade pra brincar de sentimentos, e nem deveriam. Segundo: Ela era a única que tinha a capacidade de foder a mente dele desde o momento em que á conheceu.

- Três anos de casamento e você só me diz isso agora que acha que eu fico ‘’mexida’’ por outro cara? - pronunciou alto o que o fez parar no mesmo segundo. Sabia que ele iria deixá-la ali e voltar depois, como sempre, só que daquela vez não deixaria de fato ele ir porque naquele exato segundo, dentro de sua garganta havia um nó enorme que ela não ia deixar sufocá-la. –
- Eu estou cansado e você sabe que isso não vai nos levar á nada agora.
- Já parou pra pensar que ele afeta mais você do que a mim? – Há, obvio que ele não se aguentou ouvindo aquilo. Riu de costas, negando com a cabeça.
- Você só pode estar brincando. .
- Eu só estou dizendo que...
- Se ele não te afeta tanto assim, porque continua acreditando que há motivo pra ser compassiva com ele depois de tudo que ele fez á você?
- Porque ele é...
- ‘’O pai da sua filha?’’ Essa é a sua justificativa pra toda merda que ele fez? Essas são as palavras que tornam tudo perdoável?
- Eu não disse que justificava.
- Mas é exatamente isso que você faz.
- ... – tombou a cabeça nos ombros o olhando. Notou que ele não falava raivoso e sim indignado. Queria por Deus colocar sem coração no corpo dele e permitir com que ele sentisse tudo na mesma intensidade que ela. Jurava que queria, era a pessoa que mais desejava que soubesse o que era toda aquela sobrecarga de sentimentos que carregava. –- Tenta me entender...
- Eu tenho tentado desde que te conheci. – O homem maneou a cabeça, cansado. –
- Se você tivesse tido um filho com sua ex, o que faria?
- Estaria com ela. E essa é a diferença entre eu e ele.

Ambos ficaram se encarando por pelo menos dez segundos depois daquela frase. não soube explicar o que estava acontecendo dentro dela, no entanto podia resumir numa desordem total de seus órgãos se remexendo de maneira incomoda dolorida na região do abdômen e principalmente, perto do peito.
Aos poucos a pontinha do seu nariz começara a arder gradativamente, juntamente com seus olhos, que esquentavam segundo á segundo; eles foram se enchendo á medida que sentia as batidas do coração um pouco mais fortes. era chorona, admitia isso, e também sabia. O que ele não sabia é que diferente das outras vezes, ela sentiu o coração realmente doer ao ouvir aquilo.

- Então é isso? – Lamentou. Seus lábios se juntaram numa linha fina que, com o passar dos segundos fora se desenhando num biquinho. – Se trataria apenas da criança, e não do que você sentisse por ela?
- É muito mais que isso. É sobre quem eu sou. Sobre meu caráter, e sobre a minha capacidade ou não engravidar uma garota e simplesmente ir embora. Não é simples . – Gesticulava com o dedo indicador de uma das mãos, enquanto a outra ainda se prostrava firmemente em sua cintura, seu sangue ferveu no corpo dizendo aquilo. – Não tem existe justificativa no mundo capaz de explicar essa atitude, e pelo menos pra mim, nunca vai ter. – Finalizou fitando com seu olhar maçante.

sentiu um chute no estomago. Um chute não, uma chuva de porradas, pois pior que brigar sério com ele, era ter ciência de que detinha a razão. Ele segurava esta com toda a firmeza naquele punho – que antes de movimentava em direção á ela e á todo aquele lugar – pousado em sua boca. não sentia arrependimento do que tinha dito, mas de certo reprovou-se por ter sido grosseiro ao dizer.

- Entendi. – Sorriu triste, entortando a boca. – Mas eu ainda prefiro acreditar que o pai da minha filha foi, pelo menos um pouquinho da pessoa que eu imaginei que ele fosse.
- É uma escolha sua. – Atestou com expirando todo o ar dos pulmões. –
- Você nunca vai entender, não é? < br> - Infelizmente não. Eu tenho que ir. Estou atrasado.

Em um segundo já havia se virado e jogado sua bolsa nos ombros, observou aquilo esgotada de tanto segurar o choro. Sem falar absolutamente nada, ele saiu da cozinha a deixando sozinha naquele silêncio ensurdecedor, misturado com as palavras ditas e não ditas por eles.
O que mais doía naquele momento nela era ter brigado não por um motivo deles. Mas por .
Quanto tempo ele ainda continuaria tendo efeito na sua vida? Já fazia nove anos! Nove anos que decidiu deixá-lo, que se dedicou a , mesmo que no começo ainda o amasse, e que algo os ligasse, mesmo sabendo de tudo isso, amava com a mesma intensidade que amara . Brigar com á prejudicava de todas as maneiras possíveis, e ainda pior que isso, brigar daquela maneira tão ofensiva, como nunca acontecera antes só piorou a situação. Seus nervos notadamente estavam á flor da pele por saber que em poucas horas
estaria entre eles, e não poderiam mais evitar saber lidar com ele pessoalmente. sabia que a maior culpada da situação não era , ou , ou qualquer outra pessoa, e sim ela. Por algum motivo besta ela citou para , completamente avulsa das consequências que isso causaria. Por algum motivo seu subconsciente quis saber antes de todos os modos se era verdade que ele voltaria. Mas isso jamais poderia insinuar que ela não amasse o marido ou que ainda estivesse interessada em . Era só involuntário e ela queria que entendesse esse sentimento impulsivo. Sabia que isso era pedir demais, dadas às circunstâncias daquela merda toda que tinha virado, mas mesmo assim, queria muito que aquela droga de briga nunca tivesse acontecido. Preferia muito mais estar trancada no escritório, do que aquilo.

- Mãe? – Ouviu baixinho, virando-se para olhar ao seu lado. estava lá apenas com a cabecinha para dentro da cozinha.
- Oi, filha. – Limpou o ultimo vestígio de lágrima, virando-se totalmente para . –
- Tá tudo bem?
- Vai ficar. Não se preocupe com isso. – Sorriu amistosa beijando a testa da filha.
- Tudo bem com o tio ?
- Ele só estava um pouco nervoso. Não é nada sério. – Sorriu doce. – Quer tomar um sorvete comigo?

sorriu largamente aceitando de prontidão a proposta. Fora o tempo de trocar sua roupa formal, por uma mais confortável, fazendo jus á sua simples calça jeans escura, tênis branco e blusinha também simplória, para que então se dirigissem á sorveteria perto da casa andando mesmo. O trajeto todo fora tentando esquecer a tensão que antes seu corpo se encontrava, esvaziando-se a cada gargalhada da filha ao contar sobre a escola, amigos e bobagens que aconteciam derradeiramente em seu dia a dia.
prestava atenção nas histórias contudo também sentia-se encantada com a maturidade nas palavras que usava ao lhe explicar sobre os acontecimentos, sem falar em como gesticulava e em como, de certa forma, havia pegado o costume de ser sempre correta em relação ás mesmas como era. Sorriu ao constatar que mesmo sem ligação biológica alguma, a garotinha fazia jus ao marido por todo aquele tempo de convivência. era o responsável pelas historias antes de dormir aclamadas por . Não era pra ser, já que era mais extrovertida e brincalhona comparada ao poço de seriadade que seu marido era, e aí vinha mais uma conjunção adorável que formavam e : Ela adorava o jeito fechado dele, haja vista que, ao passo em que o tempo passava, ele ia cada vez mais melhorando nesse quesito, ao menos com ela.

***


É, ela precisava voltar para o escritório, no entanto, pela primeira vez em três anos trabalhando, resolveu ligar e pedir permissão para trabalhar em casa. não estava nem um pouco a fim de voltar para lá, de atender clientes ou ter que olhar para alguém. Quis ficar na paz de sua casa, sentada na sala de estar, confortável e sem saltos fazendo seu trabalho.

- Onde você está? – Ouviu assim que atendeu o celular.
- Em casa.
- Casa? Está de folga? – perguntou duvidosa.
- Eu pedi pra trabalhar em casa hoje e é sexta. – Murmurou.
- Tá. O que aconteceu? – Ela já havia sacado tudo.
- Você não vai querer saber.
- Estou indo até aí.

Quinze minutos depois ouviu o barulho alto do salto alto da amiga ecoar por seu corredor de madeira. Cronometradamente ela olhou para a porta da sala de jantar assim que parou na mesma: Uma das mãos na cintura, a outra segurando sua bolsa de couro preta e uma cara nada feliz para ela.

- Oi. – sorriu sem mostrar os dentes, voltando a olhar para o notebook.
- me ligou. – sentou-se ao lado da amiga, pousando sua bolsa sobre a mesa. – Ele estava preocupado com algo, não me disse o que era, mas eu notei.
- Virou conselheira amorosa agora? – Arqueou a sobrancelha ainda sem olhar .
- Eu vou virar assassina se você continuar com essas respostas ridículas.

Contra vontade, olhou para , fechando o notebook lentamente como se fosse a mãe, e ela adolescente de quinze anos. Sinceramente, estava sentindo-se mesmo daquele jeito.

- , eu só quero ficar...
- Sozinha? – Cortou-a. – Você sabe que eu não deixo você sozinha nem que você queira.
- É, eu sei. – Desviou o olhar. Sua mente ainda doía um pouco pela briga.
- O que aconteceu, ?

Demorou alguns segundos para que a mulher tivesse alguma reação. Primeiro veio um suspiro, e depois ela apoiou um dos cotovelos na mesa, apoiando a cabeça na mão.

- Nós brigamos.
- Disso eu sabia.
- É isso.
- Não é só isso. – sorriu sarcástica. – Me conta.

Outro suspiro.

- Basicamente a comentou que viria... E depois veio uma sucessão de “Você disse que ele era importante pra você”, com um plus de “Eu estaria com a minha ex se ela tivesse engravidado”...
- Você disse que o era o quê?
- Você só ouviu até aí? – perguntou perplexa e tanto irritada.
- , você disse isso?
- É, , eu DISSE! – Afirmou grossa, afundando a cabeça nas duas mãos. –
- Por que você disse isso!?
- EU NÃO SEI! EU SÓ DISSE!
- Ele está...
- Com razão? É, eu sei disso também!
- Então o que você está esperando pra ligar pra ele?
- , você não me ouviu? – sentiu os olhos arderem novamente. – Ele não só disse que eu era ridícula, como também insinuou que transou comigo porque era divertido e não porque me amava, porque se me amasse estaria comigo.

viu a amiga abrir e fechar a boca várias vezes; após tentativas falhas de dizer algo, mordeu os lábios, dando aquele suspiro clichê de quem não consegue dizer nada porque no fundo, concordava com o marido de .
Mesmo que isso fosse à coisa mais desprezível de se pensar. Mesmo que tivesse sido seu melhor amigo desde que ela se considerava gente, e que soubesse que no fundo ele tinha que ter uma parte boa, não conseguia imaginar que depois daquilo houvesse uma parte boa nele.

- Ele estava com raiva, . – Sua voz era suave. – E não é pra menos, você sabe que o sempre foi controlado e...
- Eu sei, mas isso não justifica.
- É engraçado você achar mil e um motivos pra justificar todas as merdas que o fez, e não conseguir considerar que o seu marido, que sempre fez tudo por você, e que está totalmente na razão, estava com raiva porque também tem razão de não gostar do .
- Mas que merda, eu não justifico nada que o faz!
- . – entortou a cabeça irritada fazendo a mesma rolar os olhos.
- Qual é a sua com o ? – Fora a vez de ela arregalar os olhos.
- Do que você está falando?
- De defender ele... Sempre!
- Porque ele é coerente e sempre tem razão?
- Ah... – fez gestos negativos várias vezes se levantando da cadeira onde estava; foi obrigada a seguir a amiga. – Ele nem sempre está certo, .
- Bom, isso não vem ao caso. Eu só acho que você devia conversar com ele e ser justa e falar com ele, tudo bem? Eu nunca vou entender o que você sente, mas de qualquer jeito, nãos seria legal ouvir isso se você estivesse no lugar dele também.br> - De forma ou outra eu senti a briga...
- , é aniversário da . – segurou a amiga pelos braços cansada. – Você quer mesmo continuar com isso?
- Tia ! – Elas foram cortadas por ; sorriu de leve ao ver as duas animadas se abraçando. Realmente, seria necessário que ela tivesse aquele “momento”, justo no aniversário dela? Não queria que guardasse aquele tipo de lembrança.
- E ai, mocinha, como se sente?
- Com doze anos! Onde está o Ethan? – Perguntou animada.
- Tio vai providenciar que ele venha, mas enquanto isso...
- Entra na piscina comigo? Minha mãe não quis. – Falou triste. e trocaram olhares antes de resposta. Por um segundo a mulher se sentiu mal.
- Claro. Vou trocar de roupa. – Respondeu. – Vou pegar um biquíni seu, liga pro vir pra cá?
- Claro.

Assim que saiu, como se fosse de caso pensado, o celular de começara a tocar novamente. Com passos lentos ela se direcionou até a mesa, ao lado do celular, vendo a tela brilhar com uma foto sua e de se abraçando, ela sorrindo e ele a beijando no rosto; A palavra “amor”, para descrever o contato dele fez seu coração amolecer ainda mais.
Após quatro toques apenas observando o mesmo tocar, atendeu, sentando-se na cadeira assim que o fez.

- ?
- Oi... – Sua voz foi quase inaudível. Do outro lado, estava sentado na cadeira do seu escritório de olhos fechados, tentando achar as palavras certas.
- Olha, eu só queria dizer que eu... Peguei pesado.
- Tudo bem, é melhor assim, com tudo esclarecido. – Respondeu sem alterar o som baixo. percebeu que ela tinha chorado.
- Não deveria ter escondido de mim.
- Eu achei que não fosse necessário saber. Sabia que ia acontecer isso. – Suspirou.
- , mentira incita que algo errado está acontecendo , você sabe disso. Nosso relacionamento sempre foi honesto, essa é a primeira regra.
- Me desculpa. – soltou como um cuspe. – Eu achei que seria melhor assim. – Hesitou.
- Tudo bem. – o homem continou calado na linha por mais alguns segundos. –
- Eu não queria ter sido grossa.
- Pelo menos você foi honesta.
- Eu sempre fui.
- , eu só acho que isso sobre o ...
- , você é meu marido! Esquece o .
- Eu não quero mais brigar. – Disse calmo. – Vamos tomar um vinho hoje e conversar. Se quiser falar sobre isso, vamos falar. Mas, você sabe, somos eu e você hoje, pra quê desperdiçar nosso tempo?
- Você sabe que essa foi a pior briga que tivemos em três anos e...
- E você não achou estranha toda essa calmaria?
- Você achou? – Ela entortou a cabeça.
- Eu acho que é bom pra apimentar... – Ela sorriu e sentiu-a sorrir junto.
- Tudo bem. – Soltou o ar, e consequentemente, seu coração relaxou junto. – Você é péssimo em tentar fazer piada depois de uma briga.
- É, mas deu certo, não deu?
- É... – Ele a ouviu murmurar.
- Eu vou precisar ficar até mais tarde na faculdade então... Nos vemos mais tarde.
- Amor... o parou antes que desligasse. Ouvi-la dizer aquilo tão baixo, como um segredo, como quando tinham um relacionamento escondido na faculdade, o fez sorrir de leve. – Você sabe que eu te amo, não sabe?
- Eu sei, . – Um pequeno sorriso surgiu no canto dos lábios dela. – Até mais tarde.

Ele desligou a chamada antes, deixando lá, mesmo de longe, sem reação sobre ele. Era típico de . Era completamente manipulada a forma como ele conseguia a moldar apenas com seu tom de voz calmo, com seu jeito que, com palavras ela não conseguia descrever qual era, mas causava sempre o mesmo efeito.
Após a chegada de com o pequeno primogenito dele e da amiga, voltou toda sua atenão para eles.
Enquanto e brincavam como crianças na piscina com , matava a saudade do pequeno Ethan, sentada com ele na espreguiçadeira apenas olhando a baderna.
De fato, naquele momento, sentiu falta da época que era um bebezinho. Dava trabalho, mas fora a melhor época. Sua garotinha com três anos, tomando banho na mesma banheira que , dormindo com ele; Era indiscutível que, na realidade, havia a acolhido como sua. Com a mesma preocupação de pai e até mesmo com um mesmo amor.

- Vão ter garotos nessa festa? – perguntou protetor fazendo rir de leve.
- , ela tem doze anos.
- Eu não confio em ninguém do sexo masculino.
- Ah, bom saber! – deu um tapa nele o fazendo se esquivar.
- Eu sou confiável, amor. – Sorriu, gargalhou ao ver devolver nada mais nada menos que um dedo do meio pra ele. Ambos pareciam duas crianças.
- Ela já recebeu milhões de recomendações do , sem falar que o número dele está na discagem rápida. – disse divertida. – Está bem cuidada como uma celebridade importante.
- Como meu pai? - Seu pai tá bem ralé perto da sua importância pra nossa sociedade, gatinha. – falou divertido, dando um beijo gostoso e um abraço forte na garotinha antes de se levantar. -
- Ok. Vamos indo. – jogou beijos no ar, recebendo um aceno pequeno de volta das duas. –
- , qualquer coisa eu apareço com uma espingarda! – jogou uma piscadela antes de fechar a porta.
- Ele nem tem uma espingarda. – resmungou rolando os olhos já se despedindo da amiga.
- Eu posso arrumar.
- Cala a boca.
- Até mais, e se cuidem!

fechou a porta ainda sorrindo já caminhando para a cozinha. Até pensou em ir ajudar a filha a se arrumar, escolher alguma roupa e aconselhar sobre qualquer coisa que ela precisasse, mas pra ser sincera, estava naquela fase que uma garota está se descobrindo e tinha pra ela que se precisasse conversar, seria na hora dela. Não queria pressioná-la. Por esse motivo, apenas abriu um vinho e partiu a cozinhar algo para o jantar. Sabia que a noite seria longa de um modo ou de outro e precisava se preparar para isso. br>
- Ei, quer que eu te leve? – gritou ao ver o vulto de descer as escadas. – !
- A mãe do Caleb vai me levar! – A garotinha parou de súbito, de costas, se virando lentamente e só então percebeu a razão da pressa.

estava maquiada. Tinha passado gloss, feito uma trança singela no cabelo, e usava uma sombra brilhando nos olhos. Vestia um conjunto de saia e blusinha azul que havia enviado há algumas semanas, uma meia calça preta e por fim, sua botinha ugg preta, sem falar nos brincos de argola.
Foi inevitável não abrir um sorriso ao ver a cena, tanto porque parecia uma mocinha, quanto porque ela não era uma mocinha, mas já pensava nisso. Era como se estivesse dentro daquele filme “de repente 30” e fosse uma pompom. Foi naquele momento que seu coração apertou. Aquele pensamento todo era coisa de mãe babona, principalmente porque era sua única, toda bonequinha e sempre foi sua parceira desde o nascimento.

- Para de rir, mãe! – Protestou botando as mãos na cintura. Os olhos dela cintilavam com aquela sombra, deixando ainda mais presente sua semelhança com : Os olhos.
- Eu não estou rindo. – Tapou a boca se abaixando em frente á filha. – Você está linda! Arrasou. – Sorriu vendo a menina devolver de maneira tímida, abaixando a guarda.
- Você acha? – alisou sua trança até a ponta, ajeitando-a em seguida, e logo depois lhe deu um beijo na testa sem dizer nada.
- Você acha que está?
- Eu não sei... – Murmurou abraçando a mãe pelo pescoço, a abraçou mais forte, beijando novamente sua cabeça.
- O que você quer dizer? – desvencilhou-se do abraço para olhar a filha. – Você está um arraso, então não deixa ninguém dizer o contrário!– abriu um sorriso enorme e divertido.
- Obrigada mãe.
- Isso ai, agora faz o toque. – Ambas fizeram um hi-five.
- Te amo.
- Eu também.


levantou somente ao ouvir o interfone tocar. Não se deu ao trabalho de perguntar quem, apenas foi abrir a porta já se preparando para o discurso á mãe do garoto explicando tudo o que podia e não podia, pensando na maneira mais gentil de dizer isso, não que a moça já não soubesse, mas era sempre bom previnir. Era a primeira vez que deixava ir sozinha para uma festinha á noite, sem ela ou .
Abriu a porta de supetão com um sorriso enorme do tipo de quem vai dizer um “oi” bem exagerado, mas mesmo que houvesse preparada pra falar, da sua boca não saiu um barulho se quer. Na pura verdade, pensou que seu rosto todo houvesse sumido.
viu o sorriso da mulher desaparecer gradativamente, ir se fechando até que não sobrasse mais nenhuma forma ali, a não ser um biquinho e um olhar indecifrável lançado em sua direção. A única coisa que conseguia realmente distinguir naquele momento era que seu coração batia rápido como se estivesse prestes a fazer algo muito errado. Sua respiração não estava normal, e ele sabia que a dela também não.

- PAI! – embora tivesse ouvido o grito da menina, não conseguiu tirar os olhos de até que ela desviasse o mesmo, abrindo espaço para passar. – Você veio!
- É claro que eu vim! Eu disse que viria. – Sorriu abaixando-se a altura dela, conseguiu sentir a felicidade da evidente da filha.

entortou a cabeça assim que o abraço foi cortado.

- Por que está toda arrumada?
- Eu disse, pai, minha festa é na casa do Caleb.
- E por que não me avisou? Eu iria pra lá.
- Porque nenhum adulto vai. – Finalmente pronunciou-se. Por um segundo o coração dele falhou.
- E você acha seguro?
- Eu acho isso totalmente normal, fazíamos isso o tempo todo quando pequenos, não vejo motivo para privá-la disso...
-Nossa cidade tinha menos de oito mil habitantes!
- Ela vai ficar bem. – Acariciou os cabelos da menininha carinhosa. Como não acreditar que tudo iria ficar bem com aquele ato tão doce de ? Seu coração apertou observando a cena.
- Tio está na minha discagem rápida e o tio tem uma espingarda. – se intrometeu sorrindo animada. Não tinha como resistir aquele sorriso.
- Seu tio não tem uma espingarda. – riu humorado junto com .

Tudo bem. Ela não podia ser hipócrita ao dizer que aquele sorriso não era bonito e que ele não havia a feito sentir o corpo todo estremecer ao ouvir. Era mentira. tinha um dos sorrisos mais lindos que já tinha visto, depois do de e . Talvez fosse pelo fato de que ela era apaixonada pelos três. sempre carregou aquela caracteristica básica: Era extrovertido, adorava conversar, ria até não poder mais, seu dom para fazer amigos e se desenvolver diante de novas pessoas era sobre-humano e, mais do que tudo, ele era amado por quem quer que o conhecesse.
Fechou os olhos irritada ao lembrar-se de todas aquelas qualidades dele só por vê-lo, atinginda por um tsunami carregado de todos os sentimentos cultivados por ele, ou devia dizer lembranças?

- Ele disse que pode arrumar.
- Ele não vai arrumar, porque nesse estad...
- ?– Uma mulher chegou sem que eles percebessem, no mesmo segundo correu até ela. – Sou a mãe do Caleb, Cinthya, muito prazer.

Finalmente se colocou de pé já cumprimentando a moça, a mesma seguiu o ato com , após isso posicionou-se ao lado da mesma, sorrindo amistoso. Sucederão-se alguns segundos até que ambos percebessem os olhos de Cinthya arregalaram-se em direção á , o silencio estava cômico pelo fato de que esta parecia estar controlando-se. Seu aceno e seus passos confusos até de volta ao carro denunciavam que aquela não era sua vontade principal. riu sem graça ao contatar que o olhar de quente sobre ele, sabendo que ela reprimia o risinho, não deu-se o trabalho de responder aquele olhar. Apenas abaixou a cabeça tímido, rindo pouco.
- Pai, me espera chegar? Quero dormir na sua casa. – Foram cortados por gritando já dentro do carro deCinthya–
- Eu venho te buscar, gatinha. br> - Me espera aqui, não vou demorar! – implorou juntando as mãos. – Por favor, mãe! – olhou para hesitante. –
- ...
- Faz aquela mágica com o tio , fala aquilo que você fala no ouvido dele, e ele vai deixar! Por favor! Tchau, eu já volto, pai! Amo vocês!

O carro arrancou quase cantando os pneus, o risinho de ainda ecoava no ar segundos seguintes o que os fez ficar lá parados na mesma posição por um bom tempo até que literamente só sobrassem eles para fora naquela rua escura, ouvindo sua respirações altas por estarem naquela situação.
A tensão se tornou palpável ali. Tanto os músculos de quanto os dele estavam ridigos; aquele tipo de sensação perto um do outro era potencialmente estranha, partindo pelo fato de que até á ultima vez haviam se visto, ainda sentiam o laço forte de ligação e portanto não existia qualquer tipo de impasse entre eles. e já tinham se beijado inúmeras vezes antes de firmarem um relacionamento, na época, e geralmente faziam isso quando estavam bêbados ou só entediados, contudo nunca os deixara tensos ou estranhos no dia seguinte. Na verdade era o pacto irrevogável que haviam feito: A amizade deles era muito mais importante que qualquer coisa que viesse á acontecer entre eles.
Obviamente era impossível querer que tudo fosse normal após nove anos, sem manterem qualquer tipo de contato direto. não via aquela mulher a sua frente há nove anos! Lembrava-se dela ainda como sua melhor amiga do colegial; com sua saia jeans e meias calça, inocente e doce. Aquela que era completamente apaixonado e muito bobo pra não admitir, porque de certa forma sentia-se assustado por aquela menina de uma maneira inverossímil. Aquela que ele morria de ciúme ao ouvia comentários atravessados de seus amigos, no entanto também nos impedia de fazê-los na expectativa que conseguisse esconder. Aquela que estava se tornando, porque tirando os olhos, havia se tornado uma mini .

- ? – Ouviu, piscando várias vezes voltando a focar em seu rosto.
- Então... Volto pra pegá-la.
- Am...Quer entrar? – Perguntou receosa. Aquela provavelmente era a pior burrada do século.

O homem apenas passou por ela sorrindo ainda tenso, deixando seu rastro de perfume. O mesmo perfume de antes como de costume.

- Am... Seu marido não está em casa? – Perguntou cortando o silêncio, assim que ouviu a porta ser fechada, esperando-a para continuar sua caminhada. O cheiro dela se misturava com outros, muito embora ele conseguisse distinguir muito bem.
- Ele está dando aula até mais tarde hoje... Sextas são sempre... Extensas. – Falou fazendo vários gestos com as mãos dessa vez chegando mais perto. – Bom, fique a vontade... Quer beber alguma coisa? Temos água, chá, vinho, cerveja...
- Ele é professor? – virou-se com um sorriso de canto. Por um segundo a respiração dela parou, aquilo o fez entortar a cabeça. –
- Am... É, ele dá aula em duas faculdades no período da noite e também trabalha num escritório.
- Uau. Parece ser bem ocupado.
- É, mas conseguimos lidar. – Suspirou mechendo nas mãos. – Mas, e então?
- Aceito um café. – Murmurou.
- Ok. – A mulher deu meia volta do caminho que estava efetuando, até a cozinha.

continuou a olhando até que sumisse para dentro da mesma e só assim parou para observar o lugar. O nó foi se formando gradativamente e involuntariamente dentro dele. O homem perdeu as contas de quantas salivadas deu enquanto passava os olhos por aqueles quadros espalhados pela sala dos ,ou ele devia dizer ? A conjunção ainda causava desconforto, muito embora estivesse trabalhando sua mente para isso desde que recebeu o convite do casamento.
Teve a sensação de ter sido substituído em cada foto ali.
Primeiro analisou uma foto de , e abraçados. no meio, os dois em volta; ela estava com uma roupa de fada e a boca toda lambuzada. Lembrou-se da mesma feição, dando-se conta que provavelmente aquela foto fora tirada no aniversário de cinco anos da filha. Soube disso porque naquele mesmo dia o enviara uma foto dela. Ele deveria estar ali sorrindo com ela, não conseguiu evitar o pensamento.
Do outro lado, em cima da lareira havia uma onde haviam apenas e na foto, ele com ela no colo no que parecia estar gargalhando na beira de um lago sendo acompanhado por . Outro aperto.
Ao lado daquela, outra de e rindo. sorriu ao ver a foto, conseguiu ouvir a risada delas ecoando dentro de sua mente; e estavam com estavam dividindo em seus colos, lambuzados de bolo, a garotinha gargalhava e eles olhavam com ternura sua reação.
E por fim, pendurada e ainda maior do que as outras havia a foto do casamento dos dois. parou ali e perdeu a conta de quanto tempo ficou examinando, não o marido dela, mas . Costumava fazer isso sempre quando via uma foto nova sua postada por , ou mostrada por , contudo, o mais engraçado a mesma estava ali, á poucos metros dele, e tudo que ele sentia era vergonha de si mesmo; de ter que olhá-la sabendo de tudo o que tinham passado. Diferente de quando via uma foto sua, entendeu que era mais fácil vê-la por fotos do que pessoalmente, e que talvez por esse motivo tivesse há ignorado o tempo todo pra não ter que lidar.
Vê-la naquele vestido branco rendado, coroa de flores na cabeça, os cabelos esvoaçando e um sorriso fascinante no rosto o fez cair em pedaços, e não porque ela estava feliz sem ele, mas porque ao lado dela estava . Este segurava sua cintura com firmeza e sorria junto a ela, com o nariz encostado em sua bochecha. Uma das mãos da mulher se sustentavam na nuca dele, enquanto a outra segurava o buque de rosas vermelho vivo. afirmava que neste ato ria para .
O peso fora tão grande que quis sair dali no mesmo momento, tendo em compensação o quanto fora frustrante ver tudo aquilo, saber que estava tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe dele; e o teria feito se ela não estivesse logo atrás dele quando se virou para fazer isso.

- Seu café. – Parou subitamente ao vê-la sorrindo gentil, estendendo a xícara até ele. –
- Foi realmente bem planejado... – Comentou retrocedendo seus passos até o sofá, desviou os olhos dela para a foto. sorriu de lado fazendo o mesmo.
- Não dia planejado, mas inesperado.
- Inesperado?
- É. Era só pra ser uma viagem para praia, todavia, quando eu cheguei lá, casei á beira do mar, e você pode perceber que estou quase estourando o vestido por ter comido demais e porque a comprou um mês antes e eu tinha engordado um tanto comparadp á quando eu fui...
- Você estava maravilhosa, . – interrompeu vendo-a abaixar a cabeça, sacando que precisava mudar de assunto. – Então... – Pigarreou. – Estamos velhos, huh? saindo pra festa sozinha? Eu acho que vou pagar um asilo!
- Só se for você! – Eles gargalharam juntos. – Eu estou novinha e em forma. Meus treinos de tênis estão em dia. – brincou o fazendo arquear a sobrancelha.
- Tênis? Você odeia tênis.
- É, mas digamos que aprendi a gostar. – Falou sorrindo. Aos poucos eles sentiam a tensão escorrer dentre eles. – praticava e, foi um ótimo professor.
- Ei, eu tentei te ensinar! – protestou rindo. – Você era horríve, ou fazia corpo mole comigo!
- Não, , você ria de mim enquanto eu caia e escorregava naquilo que você chamava de campo, não era corpo mole, era corpo melado de lama! – Rebateu o fazendo rir ainda mais ao lembrar-se de como ela realmente era um desastre.
- Eu adorava te ver irritada e você nem desconfiava. E, tudo bem, estava chovendo... Mas era o melhor na época.
- Se ele era o melhor, ainda bem que não chegamos ao pior.

Falou ainda dentre o riso.

A conversa se estendeu por mais algum tempo. se dirigiu para a cozinha, sentando-se na mesa enquanto ele e mantinham uma conversa animada, como se nada nunca tivesse acontecido; apenas colocando o papo de anos em dia. Nenhuma palavra fora trocada sobre o que aconteceu entre os dois. Nada sobre a ultima vez que se falaram, ou porque havia a ignorado.
Enquanto ela cozinhava e tomava vinho, ele á examinava atencioso. Tentava capturar cada parte desconhecida sobre eles nesses anos todos, tentava se acostumar com a nova mulher, e reconhecer sua ex melhor amiga. estava perdido na coisa mais deslumbrante que ela tinha se tornado: Mulher.

- , como você conseguiu? – Perguntou rápido, sua respiração de repente ficou ofegante.
- Consegui o quê? – Levantou os olhos pare ele sorrindo de canto.
- Seguir em frente.

Por dez segundos ele ficou olhando-a morder os lábios, continando a cortar incessantemente porem com um pouco mais de rapidez, os legumes que cortava.

- Me diz o que você fez pra mudar tanto assim. – Retomou a fala, vendo o corpo dela subir e descer: Inspirar e expirar.
- Alguém tinha que amadurecer, não é? – respondeu finalmente o olhando, séria, completamente séria.
- Eu gosaria muito que tudo tivesse sido diferente.
- É. Só que não foi.
- Eu sinto...

parou de falar assim que ouviu a porta da frente bater. Fechou os olhos já sabendo de quem se tratava, olhando para o relógio em seguida: 22h45min.
Sentiu uma gosto amargo travar em sua garganta simultaneamente. Não era possível que outra vez aquilo estava se repetindo. Que ele não conseguiria nunca terminar o que tinha pra dizer pra ela; que mais anos iriam se passar e ela continuaria o olhando daquele jeito sem saber da missa á metade.
não se importava se ficaria com ela ou não, ou melhor, sabia que isso estava descartado; Mas queria sua melhor amiga de volta, porque, só Deus sabia o alivio que sentiu contando tudo que acontecera na sua vida até aquele momento; obviamente o tempo fora minguado para anos e detalhes, mas, fora o suficiente para que ele decidisse que queria recuperá-la com a verdade.Simplesmente com ela.
- Mãe, cheguei!
- , precisamos conversar. – levantou de súbito, quase correu até o balcão, ficando de frente para ela. O olhar deles cravou-se um ao outro.
- Muito tarde pra isso, não acha? – Viu-o fechar os olhos, pesaroso cortando por um minuto aquela conecxão.
- Eu nunca tive a chance de explicar o que aconteceu de verdade, eu gostaria disso e eu sei que você também.
- Você deixou claro o suficiente quando foi embora, . Voltar aqui depois de nove anos e me dizer isso não vai mudar nada.
- Não vai mudar nada na sua vida, , mas pode mudar a minha! – contestou batendo o punho no balcão. –
- Sempre se tratou apenas do que te faz bem, não é?
- Talvez eu fosse o egoísta e babaca, , mas as pessoas mudam, assim como você mudou. Assim como agora você aprendeu a gostar de tênis.
- É totalmente diferente.
- Eu estou te pedindo uma única oportunidade e depois eu prometo que te deixo em paz.
- Não é o que você tem feito? – A mulher entortou a cabeça.
- Fingir que você não existiu esse tempo todo foi a pior coisa que eu fiz até hoje. - A mulher engoliu seco. Era indescritível o aperto que sentira no peito. – Eu não estou aqui para atrapalhar você e muito menos causar problemas com seu marido. Eu estou aqui porque se passou muito tempo e em consideração á tudo que passamos, temos que resolver isso antes que seja tarde demais.

Aquela frase causou um eco interno e externo. Na mente dos dois. O mundo pareceu parar por pelo menos cinco segundos e nem gritando pros dois ali, no meio da cozinha, os fez sair daquela redoma gigante em que haviam criado, como se o mundo de sentimentos ruins deles estivesse voltado e eles estivessem ali só tentando se recuperar; Talvez fosse exatamente isso. Imagine uma câmera girando em 360 em volta dos dois, e dois olhares tão profundamente conectados por sabe-se lá o que, que chegava a causar um tipo de slowmotion que até mesmo estava sentindo.

- PAI!? – finalmente saiu do transe assustado, se voltando para puxando sua mão. – Estou pronta. O que está acontecendo?
- Nada. – interrompeu. O homem percebeu o quanto ele também estava tendo dificuldade em se estabilizar. – Pegou tudo? Sua escova? Pijama...
- Sim. Está tudo pronto. Eu já arrumei.
- Quando?
- Mãe, faz cinco minutos que eu cheguei. – contou como se fosse óbvio. – Eu subi e peguei minhas coisas.

Cinco minutos? Aquilo que pareceu trinta segundos durou cinco minutos?

- Ok. Gatinha, vai indo pro carro. – pediu. Antes a garotinha pulou na mãe, deu alguns beijos, e finalmente foi, os deixando sozinhos novamente.
- Quarta feira, seis e meia no restaurante ao lado do meu trabalho. – o interrompeu.
- Estarei lá. – Ele sorriu aliviado dando as costas para a mulher.
- . – Chamou, ele apenas parou ainda de costas. – Quinze minutos.
- É tudo que eu preciso.

E então ele se foi. ficou na mesma posição até ouvir o carro arrancar e finalmente ficar sozinha em casa. Ficou mesmo depois de horas, por um tempo indeterminado. Sentia que aquela decisão que havia tomado era a pior da sua vida, que tinha retrocedido trinta passos. Que seu chão estava prestes a ceder; e tudo isso em apenas três horas com .
Agora imagina: Quanto mais destruição ele podia causar em mais tempo?

- Amor? – piscou várias vezes rapidamente. Sentiu-se ofegante ao ver a olhando sério. Era medo. Medo que ele descobrisse. –
- Oi... – Murmurou se virando para o homem.
- Tudo bem? – Ele chegou mais perto. hesitou um pouco, fechou os olhos. Aquilo o preocupou a ponto de agarrar as mãos dela.
- Eu estou bem. Só estou cansada.
- , suas mãos estão geladas. – Comentou nervoso. Ela continuava com os olhos fechados.
- O dia não foi bom pra mim hoje.

Ela retorceu a boca tentando espantar toda aquela coisa dentro dela e então o abraçou. O abraçou forte, com todo seu corpo e alma. Sem entender nada ele fez o mesmo, agarrou-a pela cintura fechando os olhos ao sentir o perfume gostoso que os cabelos da mulher exalavam. O corpo dela estava vulnerável e pode sentir isso; sentir que estava se jogando completamente nele, coisa que ela só fazia quando sentia medo.

- O que aconteceu? – Perguntou como um sussurro dentre o abraço.
- Não me deixa sozinha de novo. – respondeu na mesma voz, ainda mais baixo, agarrando ainda mais a nuca do homem. –
- Desculpa... – Murmurou. – Cadê a ?
- levou. – se desvencilhou aos poucos. observou-a morder os lábios. – Levou pro .

E não soube por que sentiu aquela sensação estranha percorrer seu corpo, mas era como se soubesse que aquele só era o começo dos seus problemas.





Capítulo Cinco – Just give me a reason

- Vocês realmente vão aceitar a proposta do ? – perguntou em meio aos corredores da escola.
- É uma boa... – murmurou olhando para os lados. – Acho melhor sairmos daqui. – Olhou para e sua barriga enorme.
- Está tudo bem, eu preciso terminar pelo menos o ensino médio, . – rolou os olhos.
- Qual é o problema? – se intrometeu confusa.
- acha que esse empurra-empurra não é muito bom.

abriu a boca pra dizer algo, olhou diretamente para com aquela vontade de dizer ali mesmo o seu ver sobre a situação de e ele e todo aquele transtorno que mais ainda sua amiga, estava passando; porém antes mesmo de emitir qualquer som, , e chegaram, formando uma roda ao redor deles.

- E aí, vocês topam? – perguntou animado.
- O que pode mudar em doze anos? – Fora a vez de se manifestar; mesmo assim, , e permaneceram calados, apenas maleando a cabeça.
- Vamos lá, galera, só teremos uma desculpa para as nossas mulheres, ou maridos... De sairmos sozinhos para beber. – riu, aquela risada gostosa típica dele. –
- Bom, ao menos uma desculpa para nós, já que e já estão praticamente casados e fazem parte da turma.

e deram um meio sorriso, embora aquela frase os tivesse assustado mais do que qualquer outra coisa naquele momento, mais do que até o futuro parto de .
O que se esperar de um casal de adolescentes de dezessete anos, pais, e quase casados? Casados! Esse não era o plano de , por mais que amasse , e bom, ela? Esse também não era o plano de , mas por mais que aquilo a tivesse deixado ridiculamente assustada, lá no fundo ela ainda acreditava em algo bom, porque era assim, conseguia ver a luz até no fim do poço.
- É, o que pode mudar em doze anos? – A garota falou apertando os lábios.


E lá estava ela, parada em frente à porta do restaurante em frente ao seu trabalho, ás seis e vinte oito, numa quarta feira, olhando para o seu próprio reflexo no vidro.
nunca teve noção do quando aparentava estar apavorada, quando estava. Só percebeu que realmente não conseguia disfarçar qualquer reação, olhando para a seu reflexo naquele vidro.
Com duas respiradas longas a mulher empurrou a porta, entrando de cabeça baixa até a mesa que tinha reservado. Mesmo que seu corpo todo estivesse quase criando voz para pedir que ela desse meia volta, e ela queria realmente fazer isso, antes de tudo, não descumpria uma promessa, e por saber que fizera isso com ela, não quis fazer o mesmo com ele; queria mostrar que era diferente dele.
O viu de longe já sentado com um copo de algo que não conseguiu distinguir, porém também não perguntou. Apenas sentou-se o assustando assim que o fez. Seus olhos grandes travaram nela de um jeito que assustado, mas só por eles serem maravilhosamente iguais aos de , deixaram-na menos desconfortável.

- Quinze minutos. – Sentenciou debruçando seus braços sobre a mesa. porém não disse nada, apenas continuou olhando-a da mesma forma. – Vamos, .
- Você não tem noção do quanto eu estou feliz que você tenha vindo. – Murmurou com um sorriso desacreditado. – Achei que você não vinha.
- Eu também. Mas eu te disse que eram quinze minutos, então comece a falar.
- Eu não sei por onde começar... – O homem abaixou a cabeça. – Primeiro: Me desculpa.
- Pelo quê? – Ela sorriu triste. – Porque sinceramente, não é pra mim que você precisa se desculpar.
- Eu não quis deixar vocês daquela maneira, . – ele mordeu os lábios. observou os punhos dele se fecharem até que seus dedos ficassem amarelos.
- Pois foi exatamente o que você disse no dia em que foi embora.
- É mais complicado do que isso, eu queria realmente te contar... Eu...
- Contar o quê? Que não me amava mais? – sentiu os olhos arderem de leve, controlava suas palavras como um toureiro que controla um touro raivoso. – Se você não estava feliz com a ideia de estar casado aos dezoito, você podia ter me dito, mas não deixado sua filha como você deixou.
- Eu estava feliz, não foi por isso que eu fui embora!
- Porque você insiste em arrancar a culpa das suas atitudes dos ombros? Eu não sei o que aconteceu naqueles três anos que ficamos juntos... Não consigo entender o que aconteceu com você.
- Eu estou te dizendo a verdade. – O homem procurou os olhos dela. – , eu preciso que você acredite em mim.
- Eu queria, , eu queria muito. Mais do que deveria. – A mulher deu um meio sorriso que quebrou ao meio. – Mas não posso fazer nada sobre isso.
- Na verdade você pode.
- Não, eu não posso. – continuou com o mesmo sorriso, desta vez olhando diretamente para os olhos dele. – Eu também não sabia o que eu tinha, , mas eu pensei que estávamos juntos nessa, e essa era a diferença entre nós. Se isso não foi suficiente pra você... Não, eu não posso fazer nada.

tornou a olhar para o nada assim que ouviu-a. Não conseguiu rebater, ou olhar para ela. Tinha vergonha do que tinha passado e de todo o transtorno que tinha causado. havia pedido que lhe desse uma chance porque queria o mínimo de compaixão, porém naquele momento percebeu que o mínimo era ela estar ali; sabia que ninguém, a não ser ela, estaria ali depois de tanto tempo e tanto mau entendido.

- Até hoje eu me pergunto como você conseguiu me convidar para o seu casamento. – sorriu, franziu a testa notando os olhos dele cheios de água. Em toda sua vida, uma fora a vez que o viu chorar, e foi porque tinha perdido o avô. Seu peito apertou tanto que achou que fosse sair por alguma extremidade do seu corpo.
- Eu prometi que faria isso.
- Foi lindo. Aparentemente... – riu mais um pouco passando as mãos nos cabelos. A mulher mordeu os lábios se apoiando no cotovelo.
- É, foi.
- Você espera algo de mim, ?
- Essa é uma pergunta que o me faria. Sempre faz, na verdade. – Ela sorriu. permitiu-se olhar para o sorriso que abriu ao falar do marido. Era sincero, apaixonado. Foi um soco no seu estômago. – Mas se você quer realmente saber... Em consideração aos anos que dividimos, eu não consigo superar a perda do meu melhor amigo.
- Ele teve sorte de encontrar você. – Sorriu ainda mais triste que antes, passando a língua nos lábios. – Você nunca perdeu seu melhor amigo.
- Eu tive sorte de encontrar ele. E sim, eu perdi o meu melhor amigo no segundo em você saiu por aquela porta.
- ?

fechou os olhos pesarosamente engolindo em seco. Ela não queria abrir os olhos, sabia exatamente o olhar que encontraria.

- ? – cortou o silêncio. Só então olhou para a amiga, seu coração pareceu congelar.
- Olha...
- Não. Eu só... – fez alguns gestos com a mão; gaguejou tanto que e fizeram exatamente a mesma expressão de desentendimento. Só depois de uma suspirada enorme, a garota voltou o olhar a eles. – Eu pensei que você tivesse ficado mexida com a carta de nove anos da escola, mas eu estou vendo que...
- Não é nada disso que você está pensando.
- Na verdade essa é exatamente a resposta que toda pessoa que está fazendo algo ridiculamente errado dá. – abriu a boca várias vezes; não estava errada, mas ela não teve tempo de dizer isso a ela já que ela cortou o raciocínio de . – Quer saber? Você faz o que quiser da sua vida.

No mesmo segundo que saiu, em disparada fez o mesmo, se levantando num súbito só, da mesma forma sentiu segurar seu pulso; Travou olhares com ele por pelo menos três segundos antes de sentir a mão dele escorregar por entre seus dedos e então soltá-la. O homem franziu os lábios como se dissesse por meio daquela atitude que não iria mais incomodá-la, e por Deus, ele já tinha causado demais. Já tinha tirado seu sono, sugado seus pensamentos, e até mesmo feito seu marido desconfiar. Assim que pensou em seu coração parou como se ele soubesse.
não conseguia nem imaginar o que aconteceria se descobrisse sobre aquilo sem ser pela boca dela.

- Ei, ! – Correu mais alguns passos até alcançar a amiga, após, praticamente, chutar a porta do estabelecimento pra sair. – , por favor.
- Se você está preocupada sobre eu comentar algo. Não fique. – A mulher virou de súbito fazendo por um segundo se assustar, ainda recuperando o fôlego.
- Eu sei que você não vai dizer nada, eu só queria te explicar a situação.
- ... – ela riu estranhamente, aquilo causou um calafrio em . – Se você quer explicar alguma coisa, explica pro seu marido que por sinal está nesse momento pegando sua filha no balé, coisa que o pai dela deveria estar fazendo ao invés de estar aqui inventando mil e uma desculpas pra fazer você voltar.
- Olha, , não disse nada e eu não vou voltar pra ninguém! – E ela riu de novo. mordeu os lábios, nervosa. – Você devia conversar com ele também. Fomos amigos...–
- Não, eu não devia nada, e nem você. Ele pode não ter feito nada agora, mas assim como eu, você também conhece o e quando eu digo isso, você sabe exatamente o que eu quero dizer.
- Escuta, você precisa parar de ser assim.< br> - eu tenho que ir. – a cortou; os lábios dela se tornaram finos em segundos enquanto olhava a expressão indecifrável de . – Não acho que devamos dar todo esse ibope pra ele. Se eu fosse você, esquecia esse momento agora, e ia pra casa nesse exato momento.

ficou pelo menos mais um minuto parada no meio da calçada. Sabia que seu coração podia pesar toneladas quando tomava a decisão errada, e era por esse motivo que sempre pensou muito bem no que fazer após o transtorno na sua vida adolescente. Costumava sentir aquela sensação o tempo todo, e agora estava lá. Sentia-se ainda pior por cogitar de primeira que quem trazia aquela sensação pra vida dela era . Como podia? Como podia ter amado tanto uma pessoa e no outro dia ela ser sua pior sensação? incomodava como uma pedra no sapato que você não consegue ignorar.
Ele era todo o contraproducente da situação: Tudo de ruim que ela sentia que também não conseguia ignorar, e que a fazia se sentir mal.
Após aquele um minuto, sem ao menos se despedir, caminhou para o seu carro e rapidamente arrancou dali. só observou-a de longe por aquele um minuto. Como se ela fosse uma pintura intocável, a mesma reação de sempre, como se só estivesse lá parada para realmente ser observada.
Percebeu nos olhos dela que uma guerra estava acontecendo e que metade da culpa era dele. não sabia até que ponto aquilo era bom, porque pensar que ela tinha o mínimo dele nos pensamentos o confortava; acontece que ele queria fazer partes dos bons, no entanto muito provavelmente não eram nesses que ele aparecia, principalmente pela feição estarrecida da mulher lá parada, e pela arrancada sem ao menos olhar para trás que a mesma deu.
Antes mesmo de entrar, já conseguiu ouvir uma risada de e aquilo fez sua cabeça doer momentaneamente. Que merda ela tinha na cabeça pra ter ido até aquele lugar encontrar com enquanto seu marido estava realmente, fazendo o que deveria estar fazendo?
A mulher deu um suspiro longo e decepcionado consigo mesma e só então abriu a porta de súbito, abrindo um enorme sorriso como se o tempo todo estivesse realmente com a sua melhor amiga.

- Oi, mãe! – olhou para com o mesmo sorriso, porém nitidamente mais sincero; aquilo chamou a atenção de para ela. Ele também sorria, mas este diminuiu um tanto quando ele a olhou.
- E aí! Como foi o balé? – Perguntou aleatoriamente deixando a bolsa em cima do sofá.
- Tio dançou comigo! – Ela gargalhou, e consequentemente e também, só então o homem se levantou de maneira lenta enquanto olhava para . –

Metade de sua camisa estava aberta, o suficiente para que conseguisse ver um pouco de seu peitoral, a camisa social estava amassada, a gravata jogada no sofá, seus cabelos desgrenhados, e ah, aquele perfume que parecia ser seu cheiro natural...

- Onde você estava, meu amor? – perguntou abrindo os braços; instintivamente a mulher foi em direção a ele, o abraçando pela cintura.
- Eu disse que estava com a ...
- Não, você não me disse. – protestou retribuindo o abraço dela tentando olhar para o rosto de que por sinal, continuava agarrada nele, porém sem olhá-lo.
- Eu jurava que tinha.
- Eu te liguei umas cinco vezes, .
- Ok. Eu já cheguei. – Por fim sorriu levantando a cabeça para olhar nos olhos dele. Foi o momento lento que ele fechou os mesmos na intenção de roçar seus narizes antes do beijo, que ouviram um resmungo de .
- Você estava com meu pai? – No mesmo segundo o coração dela parou, assim como sua respiração.
- Oi? Claro que não. – disse rápida.
- É que ele acabou de me mandar uma mensagem dizendo que chegou em casa, eu achei que...
- Por que eu estaria com seu pai?
- Eu não sei. Eu só achei. – deu de ombros se jogando no sofá.

sentiu lentamente o marido afrouxar o abraço e largá-la da mesma forma. Não queria olhar para ele, e sinceramente? Aquilo a matava. Queria poder dizer que sua intenção só era ouvir e nada mais, mas como explicar a situação se assim que o olhou nos olhos, sentiu todo seu ar sumir, junto com sua moral e sua vergonha na cara? estava com a boca travada num biquinho; uma de suas mãos apoiada na cintura, com a outra ele coçava o pescoço.

- O quê? Vai dizer que você acha que eu estava com o mesmo? – riu sem humor, um tanto irritada ou talvez amedrontada, cruzando os braços.
- Você estava?
- Pelo amor de Deus, , eu já disse que estava com a ! – Aumentou o tom. – Quer ligar pra ela pra confirmar? – Estendeu o celular e o viu dar uma respirada longa e irritada.
- Eu já fiz isso. Fiz trinta minutos antes de você chegar aqui e eu achei muito engraçado ela não mencionar que você estava com ela, e melhor, você não mencionar que eu fiz essa ligação.
- Já passou pela sua cabeça que eu podia estar no banheiro quando você ligou? – Não queria que sua voz tivesse vacilado tanto, na verdade, o coração de estava a mil.
- E ela nem se quer mencionou que eu liguei?
- Ela deve ter esquecido! E por que você ligou pra ela? – entortou a cabeça.
- Não mude de assunto, . – O homem apertou as mãos na cintura, irritado. –
- Eu não estou! – Bufou da mesma forma que ele. – Eu só estou irritada! Irritada porque a partir de agora, mais do que nunca, o vai ser motivo pra sua desconfiança e, meu Deus! Se for pra ser assim...
- Se for pra ser assim? – entortou a cabeça como se a encorajasse a terminar a frase.
- Vocês estão brigando? – Ambos foram cortados por encolhidinha no sofá.
- Não. – engoliu em seco. por si só, apenas desviou os olhos para o nada, seus olhos esquentaram de leve. – Eu vou subir.

Antes de subir a olhou sério, pegou a sua gravata do sofá e subiu, só então soltou o ar que estava prendendo o tempo todo, se apoiando na parede logo depois. Tirou os saltos lentamente, com aquela raiva súbita de tudo.
Que merda tinha na cabeça.
Diante do fato, quando foi até a cozinha percebeu que já tinha esquentado algo para que comesse e para ele mesmo, já que haviam dois pratos. Deu outro suspiro cansado; Ficou pelo menos por meia hora encostada na parede, de olhos fechados, sentindo toda aquela coisa invisível comprimi-la. Não podia deixar isso acontecer, muito embora tivesse apertado o gatilho.
Foram pelo menos três horas dentro daquela casa, pela primeira vez, sem ouvir um barulho do marido do lado de cima. Não que não usasse o escritório privado de casa, mas geralmente ele sempre saia de meia em meia hora para lhe dar um beijo ou perguntar sua opinião sobre algum assunto. Naquele dia em si, porém, fora como se o mesmo não estivesse em casa e por Deus, passara mais de trinta vezes diante daquela porta parando por segundos por lá na esperança de arrumar coragem suficiente para vê-lo.
Foi quando fora dar o beijo costumeiro de boa noite que finalmente a porta abriu; ela ouviu, não viu. Não esperava mais nada naquela noite. Já tinha tomado seu banho e estava prestes a deitar, já penteando o cabelo. Demorou mais do que o normal fazendo aquilo porque, afinal, em três anos, mesmo que fosse a coisa mais romântica que alguém pudesse ouvir, e somando com os dias de hoje, ela e nunca iam deitar um sem o outro, ao menos não quando estavam juntos em casa, era um tipo de ritual, deitar, conversar e dormir, e estava relutando ao máximo para quebrar isso.
Parou um segundo de pentear os cabelos quando ouviu sons do lado de fora do quarto; alguns resmungos, um riso, portas abrirem e se fecharem. Alguns passos. Voltou a pentear o cabelo, embora já estivessem mais do que desembaraçados.
Aos poucos aqueles passos que ouvira foram tomando intensidade, a porta do quarto abriu, recostou, o som se aproximou e por fim houve um silêncio embora ela soubesse que ele estava, o que ela diria, talvez a quatro passos dela. Não se deu ao trabalho de olhar para de primeira, continuou com seu ritual, não queria brigar, apenas a presença dele ali e não encurralado a fazia sentir-se melhor.

- Eu não quero dormir brigado com você. – Ouviu, foi quase como um sussurro. A mulher fechou os olhos pesarosamente ao ouvir aquilo. Tanto que quis chorar e sorrir ao mesmo tempo.
- Eu não te dei essa escolha... – Respondeu alguns segundos depois, virando-se para ele. Recostou no criado onde penteava o cabelo deixando a escova de lado comprimindo os lábios.

Tantos seus olhos quantos os dele estavam pequenininhos, como se estivessem adiando o sono para não terem que dormir antes de se resolverem, e de fato, esse era o intuito.

- Mas ia dormir sem mim do mesmo jeito. – se aproximou um passo, desabotoando alguns botões da camisa que vestia.
- Não, eu só... Talvez. – Ela sorriu. A ação proporcionou que ele visse os olhos dela se fecharem ainda mais, com piscadelas pesadas ela voltou a olhá-lo. Ele simplesmente se derretia ao ver aquilo.
- , olha eu sei que desde que ele voltou eu tenho estado mais... Paranoico. – ela o acompanhou sorrir sem humor algum. – E olha que, eu sou adepto daquela frase do “confio no meu taco”, mas esse não é o ponto aqui. Eu até poderia perdoar sua vontade enorme de conversar com o , o seu melhor amigo depois de todo esse tempo, mas eu não perdoaria que você mentisse pra mim. Você sabe que eu odeio mentiras.

Aproximou-se mais dois passos, o suficiente para conseguir tocá-la, embora não tivesse o feito. Ambos trocaram olhares singelos, olho no olho, por vários segundos. engoliu seco sentindo aquelas palavras borbulharem em sua garganta; aquelas que ela com toda certeza deveria estar dizendo “ então, eu saí com ele pra conversar”. As mesmas que mesmo sabendo que deveria dizer, não disse.

- Eu admito que gostaria de dizer algumas coisas pra ele, mas isso não muda nada, e é isso que eu quero que você entenda.
- Esse cara mexe com você com você, E sinceramente eu entendo isso, acontece que você perde o controle diante dessas situações e eu só peço que seja sincera. – murmurou passando as mãos nos cabelos um tanto irritado. –
- Ah, meu Deus. – bufou tapando o rosto com as mãos por cinco segundos e só depois voltou a olhá-lo. – Tá vendo isso aqui? – Levantou sua mão esquerda, deixando com que a aliança cintilasse pela luz do abajur. – Eu sou casada. Casada com você. Nada que ele faça poderá mudar isso!
- Eu queria muito dizer que acredito nisso com toda sinceridade, mas eu não vou mentir. Um casamento pode acabar num piscar de olhos é uma aliança que segura, pelo menos não pra mim.
- Amor...
- Eu estou quase certo que naquele dia, quando eu te encontrei na cozinha e a “” tinha levado a pro – O homem fez aspas com os dedos. – Não foi bem a que a levou, ou você não teria ficado daquele jeito.
- Certo. Foi ele. Ele veio pessoalmente buscá-la. – Aumentou o tom, engolindo em seco depois. – E vê-lo depois de um tempo me abalou sentimeltamente, porque ele é uma bomba que pode explodir a qualquer momento e adivinha, ele está fazendo isso agora, e, por Deus, podemos esquecer ele por um minuto e focar em nós?
- Não é isso que estamos fazendo agora? – Entortou cabeça.
- Não, , tudo se baseou nele desde que ele chegou, e não porque eu quero, mas porque, como você disse, nós tentamos evitá-lo como se ele fosse um fantasma, e a presença dele nos assusta, mas, meu amor, ele não é um fantasma! – procurou os olhos do homem que ainda continuava inerte a ouvindo. – Ele é real! Ele sempre esteve aqui. Nós criamos algo maior, algo que não conseguimos lidar e isso precisa parar, porque agora precisamos lidar com ele querendo ou não.
- Lidamos com ele todos esses anos. – Respondeu confuso abrindo de leve os braços. –
- Não. Não lidamos, e precisamos fazer isso.
- Ou?
- Não existe um “ou”, nós temos e eu não quero encarar isso pensando no que pode dar errado. – abanou as mãos freneticamente, fechando os olhos em seguida.
- É inevitável .
- Se não consegue fazer por você, faz por mim.
- Me diz o que eu não faço por você desde que eu te conheci?

Por fim a mulher deu um suspiro longo, tomando a coragem de passar seus braços tão cautelosamente como nunca antes por seus ombros, não deixou de olhá-la nos olhos durante o ato. Apenas seguiu o instinto: Abraçou a pela cintura do mesmo jeito que os braços dela se encaixaram em seus ombros.

-A briga já acabou? – A mulher murmurou.
- “Porque eu quero voltar” – sorriu de leve. Aquela era a frase do filme preferido de do qual ela chorava horrores não importava quantas vezes assistisse.
- Estou falando sério.
- Se eu estou prestes a te beijar... – sorriu um pouco mais.
- Eu te amo.
- Eu sei disso. – Falou vagarosamente. Ao perceber a hesitação dele, tombou a cabeça nos ombros. – Mas...
- Mas?

relutou para dizer aquela maldita frase que tinha acabado com seu primeiro quase casamento de “amar não ser o suficiente”, mas com era. Ele ficou lá, olhando pros olhos dela naquela meia luz que o quarto proporcionava tentando achar qualquer nexo naquela frase. Sem êxito.
Acontece que, ele entendia o que tentou dizer quando disse “que amar deveria ser o suficiente”. Pois amar era o suficiente. Ele arranjaria mil e um motivos para amá-la se um falhasse, porque ele só a amava e era por esse motivo que tinha um medo absurdo que a amasse com a mesma intensidade que ele a amava.

- Mas, eu acho que estou de TPM. – a viu sorrir chegando mais perto para roçar seus narizes. Sentiu aquele cheiro de loção pós-banho de imediato, tão suave que o fez querer dormir ali mesmo, naquela posição, apertando-se mais contra seu corpo.
- Eu acho que todos nós estamos. – arrancou um selinho demorado segurando seu rosto logo depois, embalado por um sorriso já frouxo.
- Sério?
- Você me entendeu. Nervos a flor da pele.
- É eu estou sentindo. – sussurrou antes de beijar o ombro da mulher dentre o abraço, dando a entender que sentia literalmente na pele dela. Fora inevitável o arrepio que chegou nela em seguida; vendo isso, subiu as mãos por dentre suas costas, por baixo da blusinha do pijama.

Foi então que começou a beijá-la pelas beiradas. Canto da boca; desceu para o pescoço, voltou para trás da orelha. Manuseava como se dirigisse um carro, e ela só deixava, mantendo os olhos fechados enquanto ele fazia aquilo.

- Por que você ligou pra ? – interrompeu vagarosamente
- Eu não sei, ela me ligou antes, quando eu liguei de volta ela estava um pouco... Avoada. Disse que não era nada importante e desligou. Você não sabe? – Ele continuava a beijando de leve nos lábios.
- Ela estava um pouco preocupada com um caso, deve ser isso. – Murmurou quase inaudível. Seu peito apertou. – E eu acho que você precisa tomar um banho.
- Eu estou cansado. – O homem resmungou relutando-se para largá-la, aquilo a fazia rir alto; dessa vez tinha jogado todo o peso do corpo nela, no abraço.
- Corre pro chuveiro. – ordenou apontando para o banheiro assim que conseguiu se desvencilhar dele. Ele mordeu os lábios ao olhar a mesma com as mãos na cintura e uma, apenas uma de suas sobrancelhas arqueada.
- Sim, senhora. – Ele bateu continência.

Após isso desabotoou lentamente cada botão que faltava; foi quando a camisa saiu completamente que começou a gargalhar. Não por vê-lo sem camisa, ou que fosse algo novo, embora adorasse o ver assim, mas pela cara sedutora ridiculamente forçada que ele estava fazendo.

- Striptease? – falou dentre o riso, foi indo enquanto desabotoava a calça. continuava rindo. Chegou à porta de cueca, e quando entrou no banheiro, jogou a mesma para a mulher.
- Ainda dá tempo de você tomar banho de novo. – olhou sugestivo dando uma piscadela. mordeu os lábios.
- É tentador, mas tem uma garotinha andando pela casa. Um perigo. – Trocou olhares com a porta.
- Como você ouviu?
- Entra logo no banho. – Riu mais um pouco e só então ele finalmente fechou a porta.

Por fim, após alguns minutos tomou seu banho e praticamente se jogou em cima de , por um bom tempo ficaram naquela posição que envolvia aquele carinho que só vinha de de acariciar suas costas de uma maneira incomumente, relaxante de cima a baixo, tão leve quanto uma pluma. Só quando percebeu que realmente não aguentaria ficar de olhos fechados, saiu de cima dela, ambos se ajeitaram para dormir. Tomaram seus postos na cama como sempre faziam: se virava; o abraçava pelas costas e emaranhava seus pés nos dele – pois não conseguia dormir sem fazer isso.

- ?
- Huh?
- O que você acha da promotoria?
- É perigoso... Por quê?
- Eu só queria saber. Boa noite. Eu te amo.

não respondeu por que sabia que ele dormiria três segundos após aquela frase. A voz dele tão sonolenta e embargada fez até mesmo ela viajar entre acordada e dormindo. Foi então que ela o abraçou ainda mais, beijando seu ombro direito.
Seria bom se fosse assim. Se para cada noite de briga, eles sempre tivessem uma solução. Sabia que tinha uma paciência incomum com ela; que caso contrario ela já teria surtado, que na relação ele era o mais altruísta, não que não tivesse seus defeitos, mas estes não significavam nada pra ela naquela altura.
Mas sempre existe o “mas”.
Muito pelo contrÁrio do que toda e qualquer alma imaginasse e se perguntasse por que diabos ainda insistia em , pensando e repensando, chegou a conclusão que seu negÓcio com era entender um porquê. tentara de todas as formas fingir que tinha superado e entendido sua situação e dele de anos, e de certa forma achou que tinha. Já ouviram falar que, após algum tempo mentindo, a mesma acaba se tornando verdade? É um mito.
Acontece que fingir que algo não aconteceu por anos não o faz sumir, e a prova viva era ali; a confirmação vinha quando ela, incontrolavelmente, quis mais do que nunca perguntar para ele o que tinha feito de errado, onde tinha dado errado e porque ela não tinha percebido; tudo isto não porque não amava seu marido, mas porque não se conformava em não ter sido amada por . Porque ela só precisava de uma resposta. não conseguia entender, conhecendo-o daquela maneira, como foi egoísta a forma como agiu, embora ela mesma soubesse que talvez a resposta concreta não a agradasse, ela precisava ouvir de sua boca.

***


“Escritório em inspeção, retorno ás quinze horas para reunião.”

- Diga-me porque eu acordei ás seis e meia da manhã!! – A mulher grunhiu ainda sentada a beirada da cama com o celular em mãos. – Ah é, eu sou mãe.

De soslaio olhou o marido ainda desmaiado do lado esquerdo da cama. Fechou os olhos por segundos ouvindo tão somente o som das folhagens balançando do lado de fora da casa.
Não sentia aquela sensação há tempos. Costumeiramente sempre acordava no gás, já correndo para cozinha e preparando a refeição do dia para , café para , e ainda tinham as gravatas para serem arrumadas e tiaras para serem postas nos cabelos de , porém muito embora fosse uma loucura, já estava acostumada e era por esse motivo que aquele silêncio causava uma estranheza em seu corpo.
Foi então que finalmente se levantou, tomou um banho rápido colocando a primeira camiseta que vira na frente. Gargalhou quando arregalou os olhos ao vê-la toda desarrumada sentada na bancada comendo um cereal qualquer. A garotinha por cinco minutos permaneceu quieta, apenas comendo e por vezes trocando olhares com a mãe.

- Mãe? Tá tudo bem? – Quando voltou seu olhar a menina, que parecia ter tomado coragem para falar, riu de leve apertando os lábios em seguida.
- Estou tentando efetuar cafés mais calmos pra nós. O que você acha? – Perguntou dando de ombros.
- É por causa da briga de ontem por causa do meu pai? – rebateu no mesmo sentido. De primeira recebeu um estalo feito pela boca de .
- Ei, não foi uma briga. Foi um desentendimento. – Respondeu um tanto didática por fim pulando do balcão. – Só estou com folga agora de manhã. Meu Deus, é algo tão...?? – Fez um gesto enorme por fim botando as mãos na cintura e olhando para a filha.
- Na verdade é. – respondeu já humorada, soltando um riso debochado. –
- Eu sei que sua vida tem estado bem confusa por esses dias, filha. – chegou perto da menina, abaixando-se a altura da mesma. – Com essa história do seu pai e...
- Mãe, eu sei que o tio não se entende com meu pai. Eu tenho doze anos e eu entendo tudo isso que vocês tentam esconder. – Fora a vez de a menina apertar os lábios. –
- , nós adultos nos resolvemos entre nós e absolutamente nada vai afetar você aqui. Você confia em mim?– alisou os cabelos da filha; por fim com aqueles enormes olhos.
-Sim.
- Então esquece esse assunto e vamos pra escola. – levantou novamente batendo uma palma.
- Meu pai perguntou se podia me buscar hoje... – informou num último segundo; – Eu só...
- Quando?
- Ontem.
- Ontem?
- É. Antes de dormir ele me liga.
- Falou com ele?.
- Agora á pouco.

não respondeu nada até chegar até escola, tirando quando quis se esconder ao perceber que a mãe estava apenas com a camiseta do”’tio” ao deixá-la na mesma, muito embora ninguém tivesse visto, não seria doida a ponto de sair daquela maneira do carro para dar um beijo como sempre fazia, mas mesmo assim, para uma garotinha de doze anos que está entrando na puberdade, isso pode ser o fim do mundo.

- ! – Berrou tapando o rosto. Não que o rostinho lindo do seu marido fosse surpresa naquela casa, mas ás oito e meia da manhã sim, ou talvez não. estava tão avoada que só se assustou.
- Eu. - Sorriu divertido, abaixando o celular onde lia provavelmente as noticias do dia. – Me diz que você não foi assim...– a mediu de cima abaixo e só então a mesma notou que ele a olhava perplexo, havia até mesmo deixado o café de lado para olhá-la.
- Eu não saí do carro. Sem crise. – Deu de ombros embora ele ainda a olhasse do mesmo jeito.
- , você só está com a minha camiseta do Beatles; como assim “sem crise”?– Alegou, arqueando a sobrancelha.
- Quer que eu tire? – Também arqueou a sobrancelha.

Por alguns segundos a mulher o deixou sem palavras, aquela exata cena o lembrou nostalgicamente de uma de anos atrás. Aquela brincalhona, de vinte e dois anos, que por sinal o havia tirado da síndrome da velhice nos vinte e oito por ser ligada nos cento e vinte.





Capítulo Seis – Your Love was handmade for somebody like me.

- Que animação logo de manhã. – Sorriu estendendo a mão para ela; segurou na mesma hora, sendo puxada por ele em seguida. Parou entre as pernas do homem.
- Bom dia. – O beijou delicadamente, envolvendo seus braços por entre os ombros dele. –
- Sem trabalho hoje? – perguntou aleatoriamente voltando a pegar sua xícara de café sentindo-a se ajeitar em seu colo.
- A inspeção termina ás três e depois temos uma reunião...
- Ótimo. – sorriu a olhando, olhando tanto que sentiu-se desconfortável o que era anormal.
- Vai, desembucha. – rolou os olhos encarando-o. – ...
- Eu estava falando com uma antiga amiga de faculdade e, bom, eu achei que seria legal se jantássemos junto com ela.
- Amiga de faculdade? – arqueou a sobrancelha diminuindo o peso sobre ele, o que indicava que estava prestes a se levantar; Vendo isso, agarrou ainda mais sua cintura, e bom, ela sentiu o impacto.
- É.

Assim que tornou o foco em a viu com a testa franzida; aquilo lhe causava de certo modo um medo porque ele, conhecendo , sabia que ela estava pensando em todas as brechas. Brechas que por sinal não existiam, mas mesmo assim ela achava.

- Desde quando? – Respondeu um tempo depois dessa vez realmente se levantando do colo dele.
- Há uns dias atrás. Ela ainda estava na cidade onde nos formamos...

Mais um pouco de silêncio

- Quando?
- Amanhã.
- Tudo bem por mim.

A conversa acabou por ali e por um bom tempo ambos continuaram na cozinha em total silêncio. Vendo que a mulher já não diria mais nada, subiu para finalmente se arrumar. Quando voltou para informar que estava indo, viu , pela primeira vez em anos no jardim dos fundos; ela sempre dizia que não tinha tempo e quando tinha, não tinha companhia para aproveitar a vista que o mesmo fornecia, porém naquele dia lá estava ela, mesmo sozinha. A porta da cozinha estava entreaberta e ela estava sentada na poltrona com uma das pernas em cima da mesma dobrada, um copo do que ele deduzia ser de chá apoiado na outra perna, de olhos fechados recebendo o calor do sol que quase nunca aparecia naquela época, embora estivesse frio.
Ainda demorou alguns segundos para que fosse até ela, por pelo menos cinco ele ainda continuou a fitando tentando entender o que havia mudado em seu pensamento. Assim que o fez, antes mesmo de abrir a boca para falar, viu-a abrir os olhos e sorrir de lado como se soubesse o tempo todo que estava ali.

- Eu sei o que você está pensando.
- Você está surpreendente hoje. – riu.
- Vem aqui.

se levantou, fez um gesto para que ele se sentasse onde anteriormente fazia isso e então se sentou em seu colo dessa vez, contudo um pouco mais aconchegada; o abraçou com todo o corpo, afundando sua cabeça no pescoço do homem.
realmente estava atrasado, no entanto, embora fosse super-responsável, não tinha a coragem, força ou vontade de sair daquela posição. Fechou os olhos ao sentir os pequenos beijos que a mulher passou a distribuir por seu pescoço, e depois no canto da boca e então a própria, sorrindo doce em seguida.

- se você não se sentir confortável no jantar eu posso...br> - Eu disse que tudo bem. – O cortou, direta, o que o fez abrir os olhos para olhá-la.
- Então por que fica arisca quando eu falo sobre isso?
- Não estou “arisca”. – riu nervosa. – Eu só achei estranho essa mulher aparecer do nada!
- Não foi do nada. – Ela arqueou a sobrancelha; de imediato se xingou mentalmente, fechando os olhos em reprovação. – Eu quero dizer que ela é minha amiga há muito tempo...
- E você nunca me falou dela?
- Porque ela sumiu desde que nos casamos, ! E agora ela está na cidade... br> - Surpreendente ela ter sumido quando nos casamos. – Murmurou. – Ai ela te ligou pra apresentar a cidade.
- Isso.
- Tudo bem. – engoliu em seco. – Você vai se atrasar, melhor ir. – Sorriu. Mas sabia que aquele estava longe de ser um sorriso sincero.
- Ei, já não nossa pseudo briga de ontem? – O homem segurou sua cintura, impedindo-a de levantar. respirou fundo com os olhos fechados e só então voltou o olhar a ele de novo. –
- Não foi uma briga, foi um desentendimento.
- Por causa de um “ex-amigo” seu.
- Chega.
- , por favor. – Segurou-a outra vez. – Hoje não.

Aos poucos foi se aproximando para ter certeza que não seria ignorado e assim, ao chegar perto o suficiente a beijou. Deu o primeiro selinho para teste, e foi então que cedeu completamente. Segurou o rosto do homem com as duas mãos, dessa vez ela mesma, intensificando o beijo; agarrou suas coxas ao fazer isso, e ah, era potencialmente mágico e estranho ao mesmo tempo, levando em conta de que estavam no meio da casa e evitavam se beijar daquela maneira no meio dela já que , embora fosse criança, sabia muito bem das coisas, e bom, eles estavam quentes o suficiente para chegarem a fazer algo.
Na terceira arfada, quando começou a descer os beijos por seu pescoço, abriu os olhos com uma força mínima, porém sem quebrar o clima, lhe dando vários beijinhos na intensão de acalmá-lo. Viu que este ainda arfava, e muito, implorando com o olhar para que continuassem, bem, esse sempre foi o ponto fraco dele, tinha aquela mania de excitá-lo e depois o deixar no vácuo. atingia de fato o seu autocontrole em cheio mais uma vez em relação áquilo tambem.

- Você precisa trabalhar. – Sussurrou dando outro selinho. – E eu preciso falar com a .
- Você ainda vai se arrepender de fazer isso comigo. – fechou os olhos, respirando fundo, grudou as mãos nos próprios cabelos na intensao de arrumá-los enquanto alternava os gestos da face para o mesmo, se establizando novamente. –
- Eu me arrependo. Acredite.
- Eu vou fingir que eu não escutei pra não ter que tirar sua roupa aqui mesmo. – se levantou com no colo e só depois de lhe dar um beijo gostoso na bochecha a colocou no chão.

A mulher aproveitou para arrumar sua gravata, ajeitar o terno, deu um ultimo selinho, e por fim o deixou ir, acenando pequeno quando o viu virar-se por segundos para observá-la; estava encostada no batente da porta da varanda, com os cabelos desgrenhados e um sorrisinho tímido. Se não fosse tão forte e decidido, voltaria lá num piscar de olhos e terminaria o que sua mente estava pulsando para que ele fizesse.
***


- , você pode tentar me ignorar o quanto quiser. No fim do dia eu ainda vou ser sua melhor amiga. – Disparou assim que abriu a porta do escritório; Recebeu apenas um olhar e uma bufada. – Qual é, amiga... Eu...
- Eu não vou ser seu álibi, , eu odeio isso! Não estamos no ensino médio! Que merda! – aumentou a voz alterada; acompanhou a respiração da amiga de alta, a se estabilizar, até que ela engoliu seco.
- Ok. Você precisava soltar isso, agora me deixa entrar.
- Entra.

Entrou no escritório da amiga como um furacão, logo jogando sua bolsa na poltrona e só então se virou num súbito para ela.

- E então, o que achou da carta?
- Que carta?
- A que a escola da nossa cidade enviou, . – Disse óbvia. –
- Eu não recebi nenhuma carta.
- É sério!
- Eu estou falando sério! Do que você está falando?

acompanhou a amiga retirar um envelope vermelho vinho de dentro de sua gaveta e então a entregar. Analisou o endereço, o nome da amiga escrito em dourado...
“O colegial é uma das épocas mais adoradas, relembradas e marcadas pelas inúmeras conquistas, paixões, corações quebrados, porém maior do que tudo, responsável pelas melhores amizades feitas e preservadas. Os chamados amigos para toda a vida.
Por meio desta, nossa escola, em favor dos nossos formandos, vem cumprir com o cronograma dos doze anos no intuito de vos lembrar dessa época, e os encorajar a reunir-se com seus antigos colegas, ou na melhor das hipóteses, vos parabenizar pelas amizades que sobreviveram á transição.
Com amor
Rosselyn Bachelor, Diretora.


- Que merda essa moça tem? – Indagou perplexa assim que terminou de ler, voltando os olhos da carta para a amiga. –
- Você se esqueceu?
- Eu esqueci d... – parou de falar botando a mão na cabeça. – O documento...
- Sim. – cruzou os braços. Por um tempo, ambas ficaram em silêncio. –
- Todos receberam?
- vai fazer uma festa esse final de semana pra reunir todo mundo que assinou aquele documento. – Por um momento a menina arqueou a sobrancelha.
- O que o Zayn tem contato com os garotos ainda?
- É a oportunidade perfeita pra ele fazer a festa que ele queria. - E porque você não me convidou? - Eu achei que você tinha recebido a carta também, !
- Eu deveria. Mas, festa do ?
- Bom. Eu não te convidei porque você não vai.
- Do que você está falando? Todos os nossos amigos estarão lá! – resmungou perplexa.
- Exato! E seu ex-namorado, pai da sua filha, e todas as suas lembranças e eu não vou deixar você...
- Não mete o nessa história, . – Acenou negativamente dando um giro no calcanhar. – É difícil entender que o e eu não temos nada? Acabou!
- Ah é, eu faria uma força pra acreditar se não tivesse visto o que eu vi.
- Eu amo o meu marido.
- Então você não vai pra festa.
- Ele vai comigo, .
- Você vai levar ele? – viu a amiga rir, rir bastante por sinal. – , você sempre odiou colocar o no meio do seu passado. Essa festa vai ser um antro de pessoas de de lá, sem falar no...br> - , fingir que algo não existiu não o faz sumir, e eu cansei de fingir que não tive um passado, eu cansei de fingir que não me importo com o fato de o estar aqui, perto o suficiente pra me dar uma resposta, ou de fingir que eu não fui o que sociedade esperava que eu fosse. Eu cansei, e o meu marido não vai deixar de me amar por isso. Se ele fizer isso,e eu sei que não vai, temos uma solução.

Ambas ficaram se olhando por longos segundos; podia sentir a sinceridade que o que disse havia transpassado, notando que estava guardando tudo aquilo o tempo todo, sem coragem pra dizer. Talvez sim, ela não estivesse fazendo força alguma para entendê-la, mas ao mesmo tempo em que teria que fazer isso por , faria por também, e ela não queria fazer isso por ele.
Ambos estavam mais ligados a essa situação quanto poderia entender, ainda mesmo que ela não visse, e esse era o medo de . não via a proporção do quanto aquela história era grande e complicada, e não porque sabia de algo que a amiga não sabia, mas porque tinha noção que se conseguisse uma resposta totalmente diferente do que esperava, tudo andaria numa linha tênue entre seu amor pelo “pai da sua filha” para “O cara que tornou sua vida um conto de fadas” e essa era a ultima coisa que desejava pra ela: uma escolha errada ; e tudo iria por água abaixo, e digamos que tinha sofrido por uma vida inteira quando foi deixada por , e com uma filha para criar totalmente sozinha.

- Eu espero que você saiba o que está fazendo – cortou o silêncio. – Porque você sabe que pode esperar de tudo do .
- Ele já fez tudo que ele poderia fazer comigo, o que eu posso esperar a mais? – Perguntou irônica, soltando um risinho tristonho. –
- Ei...
- Esquece isso. Preciso de um favor.

***


tirou a concentração da rua apenas quando sentiu a mão de cravar em sua perna que ficava ao lado do cambio do carro e assim, dar um aperto, o fez assim que parou no sinal vermelho. A mulher olhou para mão dele apertando o local, e depois para seu rosto; viu um sorrisinho de lado brotar ali, pois ainda ohava para a estrada; em seguida veio outro aperto, dando a entender que ele tinha notado que ela o observava.

- Que foi?
- Nada. – deu de ombros; embora estivesse dirigindo, o homem deu-se ao trabalho de trocar olhares singelos com ela.
- Vamos lá, eu conheço minha esposa.
- Eu já te contei que, sempre achei muito sedutor esse estalo que você faz com os lábios? – Riu um pouco, riu ainda mais que ela.
- O quê? O que eu faço?
- Isso de – o imitou o fazendo rir ainda mais; sentiu o coração aquecer ao ver o sorriso dele, costumava guardar tanto seus sorrisos que quando ele os dava, era como receber um premio Nobel por eles.
- Eu não faço isso.
- Você faz sim.
- Anda me examinando é? – Trocou olhares com ela novamente. – - Desde quando você matou uma das paletras da nossa semana jurídica e foi pra cantina como um aluno normal. – A frase o fez entortar a cabeça completamente surpreso, não tinha conhecimento daquele fato. Não que fosse enorme, mas era curioso. Pelo que sempre entendeu, o evitava até o dia da saída no bar. – - O que? - Concentre-se na estrada, depois conversamos.
A mesa que havia reservado ficava ao lado de uma janela enorme que dava pra rua, e , ao ver que já havia uma mulher sentada lá, sentiu as mãos suarem frio. sentiu por alguns segundos as mesmas escorregarem pelas suas até que chegassem a mesa.

- Tudo certo? – Perguntou um pouco antes de chegar à mesa, no entanto, não houve tempo de resposta.
- !

Foi questão de segundos para que as suas mãos se soltassem. viu uma mulher alta, mais encorpada, digamos que a mais em tudo, comparado a ela; agarrar seu marido pelo pescoço com aqueles enormes cabelos castanhos escorrendo pelo paletó do mesmo. Após alguns segundos lá, se amassando, ambos quebraram o abraço e só então deu de cara com os enormes olhos verdes dela a medindo dos pés a cabeça.

- Oh, você não me disse que ela era tão... – Parou de falar; Fora o momento que franziu a testa sem saber o que dizer. – Desculpa a indiscrição. Eu sou a Danielle, melhor amiga do .
- Prazer, eu sou a .
- Minha esposa. – a cortou trocando olhares entre ela e Danielle.
- Esposa? – Perguntou surpresa.
- Você não...
- Eu te contei por telefone, acho que você... – O homem coçou a nuca. Naquele ponto já o olhava praticamente de olhos cerrados; Ora, ora, houve então um telefonema? –
- Ah, era tanta coisa, eu devo ter esquecido. – Danielle riu com todos os seus dentes ridiculamente brancos. se esforçou muito para não dizer “Esqueceu da informação mais relevante, não é?”, porém apenas engoliu seco, sentando-se a mesa.

Por baixo desta limpou as mãos no vestido um tanto nervosa; Tentou conter todo seu desconforto já se afundando em uma das taças de vinho que á melhor amiga do marido já havia pedido – de fato, o vinho era uma delicia, e a mesma parecia ter bom gosto. – Danielle era cativante e bonita, tinha a idade dele, conversava abertamente sobre tudo, e por mais madura que fosse, a sensação que lhe causara ali era de total deslocamento. Danielle o conhecia muito bem, perguntava das primas e dos pais dele – Que por ironia do destino á amavam. – O que deixava ainda mais curiosa com o desenrolar da conversa, se perguntando porque diabos nunca tinha ouvido falar da mulher. não era de omitir, ele venerava verdades, e não que ela fosse possessivo ao extremo, na verdade ambos eram tranquilos em relação á isso e era essa a coisa boa toda da relação. Só que tinha alguma coisa ali que á incomodava, e mesmo que seu marido estivesse ali sorrindo, animado, e a moça estivesse se esforçando pra ser simpática com ela, sabia que no fundo aqueles grandes olhos verdes e migravam entre ela e incessantemente estavam borbulhando de curiosidade.
- Eu vou ao banheiro. Um instante. – Danielle riu de lado se levantando, só então teve a atenção de outra vez. Sorriu forçado ao ver o marido fazer o mesmo, beijando o canto da sua boca carinhosamente.
- Tudo certo? – O homem franziu o cenho ao se afastar e encará-la.
- Tudo ótimo. – sorriu forçado, desviando seu olhar dele.– Graças a Deus você chegou!
- Demorei muito? – chegou quase puxando a mão de até a mesa, já arrastando uma cadeira. –
- Ah, , ai é o lugar da Dani.

De imediato passou a língua nos lábios fechando os olhos em seguida. , já se ajeitando na cadeira ao lado da amiga, observou então uma nuvenzinha negra se formar em cima de sua cabeça.

- É o que eu tô pensando? – Perguntou num sussurro para .
- Sim. É.

A mulher manteve a atenção em e conversando um tanto animados antes de, claro, Danielle chegar e tomar toda a atenção. Primeiro fez rir sem nem mesmo formar uma se quer frase, e depois brincou com , e depois com , deixando claro que seu bloqueio era apenas com a mulher do seu melhor amigo. sentia o olhar dela quente, pesado em cima de si.
Por uma hora entre drinks indo e drinks voltando naquela mesa – a maioria indo para - a mesma permaneceu quieta, ouvindo as histórias maravilhosas de na faculdade, e todas as festas que ele frequentava, e o número incontável de bons momentos que eles compartilharam e por Deus, toda vez que fechava os olhos se lembrava de e com isso sentia sua cabeça girar de leve. Não queria e não fazia isso há um tempo enorme, todo o tempo que estava com especificamente; não era possível que estivesse fazendo aquilo. E não, não era vingança por toda aquela situação desconfortável e do comportamento estranho do marido, é que só estava sendo inevitável não se lembrar. Embora não tivesse tido essa experiência da faculdade logo na adolescência, por estar casada nessa época, lembrava-se perfeitamente do seu colegial e de todas aquelas lembranças tão análogas às deles, só por esse motivo se sentia ainda mais amedrontada com aqueles diálogos. Porque ela e não podiam sustentar aquela relação amigável de melhores amigos como eles?

- É ou não é, ? – Seus pensamentos foram cortados; Assim que voltou em si, viu todos da mesa a olhando. estava em outro mundo.
- O quê? – Piscou varias vezes se recompondo. –
- Eu estava me perguntando se você nunca teve aquele melhor amigo que você chamava de seu e morria de ciúmes das garotas...
- Am...
- Exemplo: Eu tinha o , e eu dizia com todas as palavras que ele era meu .
- A Dani me tirava das furadas na faculdade.

riu mordendo os lábios; aquela de “meu” fez seu sangue subir o suficiente para que até mesmo transpasse no seu físico e bom, sabia quando ela não estava suportando mais alguma coisa; aquele era o caso e foi por esse motivo que tombou a cabeça já fechando os olhos.

- Ah, a Dani era? – Sorriu irônica, enfatizando o apelido da mulher. – Eu acredito que vocês tenham sido ótimos amigos mesmo. Quem consegue esquecer experiências tão incríveis?
- É, nós temos muitas memórias...
- Eu sei, eu tive um melhor amigo também. – Falou estúpida. inflou o peito notoriamente ao ouvir aquilo, se remexendo um pouco ao lado da moça.
- E onde ele esta agora? Continuam amigos? – não sabia porque, mas pressentia que Danielle estava á provocando, o que era engraçado,porque ela não sabi da missa á metade, mas se fosse o que estava pensando, esse era o intutito da morena. Tudo pode desabrochar com um drinque e esse era o perigo.
- Ele é...
- Nós perdemos contato com ele faz uns nove anos. – se intrometeu engolindo em seco, Danielle tornou seu olhar dela para em um segundo notando o olhar confuso e irritadiço que a mesma trocava com a amiga.
- Ah, eu achei que tivesse perdido o aqui, mas veja onde estamos. – Danielle sorriu acariciando as mãos do homem voltando á relaxar a postura na cadeira. – Não perca as esperanças...
- Foi quando eu conheci o . Mas certamente não irei. – Tombou a cabeça para olhá-lo recebendo um mesmo olhar confuso como resposta.
- Se foi quando conheceu o deduzo que não eram só melhores amigos, não é? – Todos permaneceram calados. – Eu e o tivemos uns momentos também, é coisa de melhor amigo. É como dizem, não existe essa história de melhor amigo que não tem alguns momentos... Só se esse amigo for gay.
- Ah sim, com certeza. – apoiou-se nos cotovelos.
- Você sabe o que eu quero dizer... Como não se encantar pelo aqui? Essa cara de sério é só um disfarce pro que ele tem quando está... Enfim... – Coçou as nucas parecendo perceber o quão insensata estava assim, muito embora naquela altura estivesse certa de que tinha feito a escolha errada ao acompanhá-los. – Como se conheceram?
- Na faculdade. – respondeu rápida bebericando um gole do seu vinho. Sentia o olhar do marido em seu rosto pedindo para que ela retribuisse, mas estava tão irritada naquele momento que o ignorou e continuaria naquela noite o máximo que conseguisse.
- Você fez uma segunda faculdade? – Danielle arqueou a sobrancelha.
- Não. Na verdade eu dava aula em uma e, foi quando eu á conheci. – Foi quando parou por um segundo ao ver a hesitação dele, até aquele momento ela não sabia que isso podia machucá-la, pois bem, machucou. –
- O quê? – praticamente gritou, arregalando os olhos. – Você sempre disse que isso era uma aberração! Lembra quando eu me apaixonei pelo nosso professor...
- Foi diferente, Dani.
- É, Dani, muito diferente. – comentou novamente ainda mais dura do que antes.
- É, vejam vocês! Até se casaram! – A mulher abriu os braços. Parecia estar se divertindo com a situação desconfortável que havia criado. – Sempre achei que essa relação de aluna e professor era por tempo, sabe? Fetiche de garotas novinhas, e de caras mais velhos... – Falou ombrando o amigo ao seu lado. Viu o mesmo sorrir desconfortável pela frase, se recompondo em seguida.
- Eu não estou me sentimento muito bem, podemos ir? – murmurou perto do marido, só então a olhou nos olhos, viu-os um tanto avermelhados.
- Ah, isso é porque você provavelmente não convivia com garotas de verdade, né? – se intrometeu fazendo os olhares voltaram-se á ela; Danielle virou-se bruscamente para a mesma tentando balbuciar algo. – Quer dizer, a e eu sempre fomos maiores que isso até mesmo pra pensar algo do tipo sobre alguém, sabe como é...
- Ah não, não me entenda errado, eu só achei que não fosse o tipo do . – Danielle falou rápida.
- Eu não entendo esse negocio de tipo... – murmurou irônica. – Têm tipo pra amor?
- Eu não sei bem, mas sempre achei que eu e o iríamos ficar juntos, éramos o tipo um do outro, digo, iguais, mas vejo que hoje não existe essa coisa de tipo mesmo, eles comprovaram. – a mulher riu apontando para os dois. – Ele sempre foi surpreendente nas escolhas dele.
- É, sorte a sua se você tivesse voltado a uns três anos . – Fora a vez de rir; aquela altura já tinha pedido a conta deles, temendo pelo rumo da discussão.
- , para de graça... – pousou a mão na coxa dela na esperança de acalmá-la, rindo um tanto nervoso também.
- Não. Não é brincadeira meu amor. – retirou a mão dele da mesma sem nem mesmo olhá-lo. – Estou falando sério. Vocês fazem o tipo um do outro...
- Hum... E vocês já estão planejando um bebe? – Danielle cortou o assunto, o sorriso havia sumido o que indicava que ela tinha tomado consciência da situação da qual tinha criado. Por um momento ousou pensar que ela estivesse ressentida por isso, contudo, sua irritação naquele momento ultrapassa qualquer indicio de bondade que a moça pudesse exalar. –
- Na verdade já temos uma pequena em casa, que inclusive está nos esperando. Melhor irmos. – O homem comentou já assinando o papel da conta, fechou o caderno, arrastou ao encontro do garçom e retornou sua caneta preta com detalhes em dourado para dentro do smooking outra vez, só então olhando para Danielle com um meio sorrisinho. – - Você tem uma filha? – Danielle perguntou levantando-se á medida em que todos estavam fazendo aquilo.
- Digamos que sim. – Sorriu com ternura ao lembrar-se da menininha.
- Não existe “digamos”, !
- Ela é minha, não dele. – se intrometeu; viu-a mais uma vez abrir a boca num “o”.
- Você não podia me surpreender mais! ... Que gesto incrível. Você realmente é uma mulher de sorte por achá-lo. Foi um prazer conhecer você, – Danielle estendeu as mãos para que, muito educadamente, apertou com mais força do que o normal, sorrindo mais forçado tão forçado que seus músculos da bochecha chegaram á doer.
- O mesmo.
- Não sabia desse seu lado caridoso.
Foi a ultima coisa que ouviu sair da boca de Danielle e adivinha, aquela vontade absurda de xingar de todos os nomes veio quando, diante daquilo, ele apenas sorriu sem graça, sem dizer uma se quer palavra sobre o comentário dela, embora parecesse incomodado, o mínimo que ela esperava era que ele dissesse alguma coisa, abrisse aquela boca e... A mulher grunhiu baixo dando meia volta seguindo os passos dos amigos á sua frente já que o marido havia ido levar Danielle até onde o carro da mesma estava estacionado.
Após mais alguns minutos de despedida entre apenas e Danielle, ficou esperando o carro junto a e totalmente calada, vez ou outra sentia o olhar de recair sobre ela; estava se sentindo tão esgotada, com vontade de gritar, de estapear por aquilo. Que porra de mulher era aquela!? Estava tão irritada que sentia seu cérebro pulsar, junto á suas veias, tendo que fechar os olhos e fazer aquele mantra de respirar fundo e expirar. Danielle preferiu guardar o carro fora do restaurante porque achara melhor, e ela nunca na sua vida imaginou tanto que aquele gesto fora proposital. Conhecia o marido que tinha, sabia que ele iria acompanhá-la só por ela estar sozinha e, não se incomodaria nem um pouco se da qual ele acompanhava não desse indícios de cinco em cinco segundos que debochava dele pelo fato de estar casado com ela e o quanto estava frustada por isso.

- Ei, eu sei que ela foi ridícula. – Ouviu dizer em seu ouvido, não se deu ao trabalho de abrir os olhos, apenas acenou positivamente abraçando o próprio corpo.
- Mais ridícula que ela, só ele. – Falou num murmúrio irritado. – Eu não consigo acreditar que ele não disse nada.
- Eu posso ir até lá e passar o carro por cima dela, o que acha? – brincou sentindo a amiga rir de lado, negando com a cabeça. – - O universo se resolve com ela, e eu me resolvo com meu marido. Vai em paz. – Acariciou os ombros dela ao ver que o carro dela havia chegado. – - Qualquer coisa me liga. E, fique calma. – Mais uma vez assentiu positivamente e acenou até vê-la sumir para dentro do carro. Recebeu um mesmo aceno como resposta de que, mesmo não dizendo nada, fez um gesto de ‘’cortarei a garganta dele’’, e o recado fora entendido muito bem. Ele não era muito de falar, mas á tinha como sua irmãzinha, e digamos que sentia ele ser mais á favor de ...

Deu uma piscada profunda, e quando abriu os olhos o carro já tinha sumido. Foi aí que sentiu a mão de na área do cóccix. Mordeu o lábio forte, se contendo ao máximo. Respira, inspira, respira, inspira.
Foi fazendo isso até o carro. Sem vexame em lugar público.
Quando as duas portas do carro se fecharam e eles pararam no primeiro sinal vermelho que quis explodir.

- Você precisava ser tão rude? – cortou o silêncio; ouvi-a rir raivosa desabotoando as sandálias bruscamente.
- Você acha que fui rude? – Perguntou sarcástica –.
- Acho.
- E notou também que aquela mulher estava quase sentando no seu colo e pedindo pra você se separar? Ou isso não?
- Ah, pelo amor de Deus, , ela é minha melhor amiga! – Fora a vez do homem rir irônico. –
- Da parte de quem?
- Você esta sendo infantil.
- Constatou isso depois de conversar com ela hoje, ou nas outras conversas por telefone?
- Não começa que não foi isso que ela quis dizer e, eu só falei com ela uma vez por telefone.– fez um gesto com as mãos.
- Então me explica, . Me explica muito bem, porque eu não vejo outra maneira de entender aquele tom debochado no ‘’ não sabia desse lado bom samaritano’’ que existia em você, como se ficar comigo fosse um favor! – Aumentou o tom, viu de soslaio as veias da mulher saltarem.
- É claro que você vai entender de maneira errada. Você entende o que convém pra você, pra quê eu vou ficar discutindo se você sabe que não foi isso!?
- Ah claro, e super me convem ouvir insinacoes de que eu fui sua aventura ninfetinha que deu certo né? Poxa, podíamos ser inspiração para os demais professores e alunas. – gritou imediatamente botando as mãos no rosto; esfregou-as por ele, e depois subiu pelos cabelos sentindo um calor absurdo a tomar.
- O que você disse? – O homem exclamou um pouco mais baixo. –
- Você não deve ter percebido porque estava ocupado demais com sua nostálgica vida de universitário.
- Você tá agindo como essa época fosse motivo pra eu me culpar, mas eu não vou . Eu passei por esses momentos e sim, é gostoso relembrá-los, sinto muito se você não gosta de relembrá-los porque foi complicado pra você. – o viu bufar batendo as mãos no volante irritado.
- Eu nunca disse isso. – murmurou magoada. Por um segundo seus olhos se encheram de lágrimas. – Até porquê, que momento bom nosso era relevante, não é?
- Do que você está falando?
- Se você queria conversar apenas sobre vocês era melhor não ter me convidado. Sua animação pra falar sobre nós me contagia. br> - Pelo amor de Deus, você acha que eu tenho vergonha de você?
- Eu não sei, , mas talvez o fato de ter tido um “momento” com ela fosse algo grande o suficiente pra te fazer hesitar e adivinha, você fazia isso comigo!
- Foi realmente apenas UM momento e eu hesitava com você porque eu estava apaixonado, e eu estava noivo!
- Então eu deveria ficar preocupada? – Ela arqueou a sobrancelha, passou a língua nos lábios os mordendo em seguida.
- Você estava comigo, . Eu te levei pra conhecer ela... Como você pode cogitar essa possibilidade? – A mulher notou-o apertar o volante nas mãos.
- Porque estava nítido. .
- Pelo amor de Deus, essa briga é tão fútil quanto...
- Quanto o nosso relacionamento é pra ela.
- É PRA ELA OU É PRA VOCÊ? – Vociferou grosso; fora a vez de ver as veias dele saltarem, após aquele surto engoliu seco, abanando a cabeça negativamente em seguida. – Sua insistência nessa porrade que nosso relacionamento é mau visto me deixa fodido, porque eu estou pouco me fodendo, mas o problema não é ela, , é você que se permite acreditar no que seja lá o que você imaginou que ela disse.

não respondeu nada. Engoliu o choro, passou a língua nos lábios e permaneceu quieta.
Na outra metade do caminho ambos foram em completo silêncio. estava sentindo o corpo todo quente, irritado. Inevitavelmente olhava de cinco em cinco segundos para a mulher ao lado, apoiada no vidro do carro com as pernas longe dele e os olhos encharcados; sentia uma enorme vontade de pedir desculpas e ao mesmo tempo de puxar os próprios cabelos. Brigar com era insuportável, porque ela o tirava do sério. O que mais o irritava era não entender o quanto ele a amava. Era ela deixar-se levar por comentáriozinhos sem o mínimo de relevância, tão pequenos e vazios.
O carro nem mesmo havia parado direito e ela já estava saindo do mesmo com os saltos nas mãos, pisando tão duro que era possível trincar o chão. Atrás dela vinha feito um furacão já desabotoando os botões da camisa pronto para resolver aquela situação. Não deixaria barato, não suportava que ela fizesse pouco caso dele.
ouviu um estrondo na porta da frente da casa e alguns burburinhos irritados. Tinha feito à vez do casal e ficado com ali mesmo na casa deles, com a permissão do marido do ano e de , porém como tinha dormido cedo, aproveitou para assistir a TV a cabo na sala de baixo, embora tivesse cochilado, acordou naquele momento, levantando o mínimo da cabeça em direção ao hall de entrada, dando de cara com e discutindo. Era nítido que estavam diante de uma discussão pela forma bruta que tanto quanto gesticulavam, quase subindo um em cima um do outro, ou melhor, poderia montar no homem a qualquer momento.
Os viu apontar para ele na sala, e depois passar as mãos nos cabelos irritado, dando um giro no calcanhar, após isso atacou os saltos no chão cruzando os braços. Ele devia ter mais respeito, mas achava lindo e irresistível quando ela fazia aquilo; batendo um dos pezinhos no chão com aquele biquinho do tamanho do mundo, o mesmo que fazia quando ele não comprava o sorvete quando ela pedia.

- Dani é o cacete, ! – Ouviu-a pela ultima vez grunhir; fora o momento que se levantou do sofá e só então os dois o notaram. Conseguiu ouvir as palavras não ditas de o xingando na própria mente só pelo olhar que o mesmo o lançou quando apareceu.
- Eu vou indo embora já que vocês já...
- E depois a Dani é o problema? – argumentou insinuando diretamente , ou seja, o melhor amigo de estava na casa dos dois, e a Danielle era o problema?
- Se você falar dessa mulher de novo eu juro que eu tiro nossa aliança! – trincou os dentes juntamente com os punhos.

levantou os braços saindo de cena apenas para pegar seu blusão que havia esquecido. Não se intrometeria, mas também não seria hipócrita a ponto de não estar se divertindo o mínimo com a briga dos dois. O ciúme de era sempre engraçado, muito embora fosse além disso pra ele. Pelo amor que sentia por ela, jamais desejaria o mal, até porque parecia ser o melhor para ela, mas naquele momento ele podia muito bem, se fosse doido, puxá-la pela mão e levá-la para sua casa.

- Vai em frente. – ouviu esbravejar em direção á mulher, ainda de costas, pois pegava ainda juntava suas coisas – Mas antes eu quero que você grave muito bem o que eu vou dizer.
- Fala. – soltou as mãos ao lado do corpo ainda mais irritada que ele, bradou ainda mais que ele.
- Eu te amo e nada do que argumentar aqui vai mudar isso. – deu um passo até ela, cravou o olhar em seu rosto todo completamente serio enérgico. – Quem dirá o que os outros pensam sobre meus sentimentos... Eu to pouco me fodendo. – sentiu o sopro quente de suas palavras em seus lábios o que comprovava a proximidade em que estavam. Contudo, não conseguiu desviar o seu olhar do dele. Paralisou feito estatua sem saber nem mesmo como abrir a boca. –

Harry acompanhou sem querer a cena de se aproximando cautelosamente até os lábios da mulher. Foi em câmera lenta: Ele beijou seus lábios carinhosamente, fechando os olhos como se houvesse perdido a noção do que estava acontecendo ali nos segundos anteriores; descolou-os cinco segundos depois, e só então tirou a gravata completamente do pescoço, dando passadelas rápidas até escada e com um trote foi subindo, e ? Continou lá de olhos fechados por um bom tempo como se fosse uma garotinha de quinze que havia acabado de receber o primeiro beijo. – De fato, foi exatamente a mesma reação, já que Harry presenciou o primeiro beijo dela, porque foi ele quem deu. –
por sua vez não tinha dúvidas de que ainda estava irritadíssimo, mas mesmo assim, ele tinha um jeito de sair por cima que era desconfiava ser um dom nato e não era atoa que ele era o advogado que era. Ficou de olhos fechados respirando por vários segundos antes de abrir os olhos, após isso passou as mãos nos cabelos os jogando para trás e só então, ao virar-se e levantar o pé para uma passada, deu de cara com de novo.
Seus olhos brilhavam na escuridão; outra característica sua que tirava o fôlego, e bom, ela sabia que aqueles olhos estavam focados nela. Engoliu em seco, mordendo seus lábios com força. Percebeu que estava perto o bastante apenas quando sentiu seu cheiro, não tinha muita dimensão das coisas quando olhava em seus olhos, então o cheiro foi o alerta; ou seja, deu alguns passos desesperados para trás assim que notou a proximidade, aquele era o momento em que estava sem controle e extasiada por toda a chuva de emoções, não podia vacilar ficar perto dele, porque na realidade queria abraçar o seu melhor amigo que tinha os melhores conselhos e lhe perguntar como proceder sobre aquilo, como costumeiramente fazia, e tentar entender porque não podia fazer isso de verdade.

- Não precisa ter medo, não vou fazer nada. – disse baixo, sorrindo. Outro tiro.
- Eu, eu...
- Eu dei chocolate pra antes de dormir, já estou assumindo a culpa. – Contou rindo um pouco mais; O corpo de relaxou, então ele acompanhou-a botar as mãos na cabeça.
- Obrigada por fazer a vez hoje, . – Agradeceu ao vê-lo abrir a porta, ficou até surpresa com a rapidez que o mesmo fizera aquilo. -

deu de ombros, abriu um sorriso que mesmo de costas, ela notou;

- E a propósito, você pode achar que você teve a sorte de achar ele. Eu sempre vou achar o contrário. Boa noite. Durma bem, .

Por fim ele saiu completamente dando uma ultima olhada. ouviu o carro arrancando, ficou lá por um tempo até ouvir o barulho da chuva que antes se formava, finalmente começar a cair. Estava empacada entre o subir e o ficar lá parada, porque com todo seu sincero coração, não sabia o que fazer.
Foi por esse motivo que caminhou até o sofá, totalmente na escuridão, achou um blusão de do qual ele sempre deixava jogado na sala, arrancou o vestido lá mesmo e vestiu-o, se aconchegando no sofá dessa forma.
Sua mente estava sendo bombardeada entre os olhos de a olhando e o “eu te amo” na hora certa de . Não que ela tivesse dúvida de quem ficar, ou melhor, o que estava acontecendo? Queria gritar e agora não de raiva, mas de confusão. Agarrou os cabelos pedindo para aquela força divina que ela acreditava piamente que existia, que quando amanhecesse, soubesse exatamente como agir, soubesse como lidar com aquela situação, porque a dúvida mesmo não era quem amava, e sim, porque amava.
Ela nunca realmente tinha parado para se perguntar por que amava , embora pensasse o tempo todo que o amor não tivesse o porquê, e talvez não tivesse. Nunca parou também para se perguntar por que ainda esperava algo de , e talvez, não esperasse, apenas o amasse, simples assim.
E foi às quatro da manhã, quando despertou de leve ao sentir os toques singelos das mãos macias de pedindo para que ela lhe desse espaço; quando sentiu o corpo dele tomar o dela e a esquentar; os braços dele a envolverem totalmente, e o “ me desculpa” sussurrado e sonolento em seu ouvido, seguido de um beijo na nuca; que percebeu que, sim, era simples. O amor era simples e agia nesses momentos. Assim como o sorriso de antes de sair, como o “me desculpa” sussurrado após uma briga.
Ela ainda estava confusa, no entanto precisava achar outra desculpa porque o amar, ah o amar ela já havia entendido o sentido duas vezes de formas diferentes naquela mesma noite.





Capítulo Sete – I’ts Always about you.

- não saiu do quarto até agora. – dedilhou o enunciado da blusa do marido. Já estavam acordados por pelo menos uma hora, ainda deitados no sofá ouvindo a chuva forte que caia lá fora.
- Está chovendo, ela deve estar desmaiada. – respondeu baixinho. Ele por sua vez, acariciava os cabelos dela em retribuição. –
Ambos estavam enrolados no sofá como se fossem dois adolescentes, digo, não por estarem aconchegados um ao outro, mas pelo modo como estavam, e como se sentiam. Cheios de medo de estragar o momento sem conseguirem agir direito por isso. com seu blusão mais antigo que nunca, dos Lakers, aquele time famoso dos EUA, aquele que ele provavelmente usava todo dia em sua antiga faculdade; e com outro blusão dele, embora o mesmo não tivesse nenhum tipo de desenho ou escrito.

- Bom, acho que está na hora de levantar. – A mulher fez um impulso, sentando-se em cima dele no intuito de passar para o outro lado, mas foi parada ali mesmo, com segurando sua cintura. O fato de ela estar só com seu blusão o fez perder a noção por um segundo.
- Você sabe que eu me importo com você, certo?
- É uma das clausulas do contrato de casamento, você não tem escolha. – Brincou sorindo, sem mostrar os dentes, fazendo menção de que iria continuar o caminho, porém foi segurada por ele novamente.
- Não seja sarcástica. Estou falando sério... Você disse ontem...
- Eu não quero conversar sobre ontem. Não ainda. São nove e meia da manhã, muito cedo pra isso. – Fez gestos aleatórios com a mão.
- Como quiser. – Soltou sua cintura, colocando as duas mãos na nuca. deu aquele meio sorriso sem humor e cedido. Aquele que ele fazia quando estava se segurando para não forçar a barra.
- Nós vamos conversar sobre isso. Eu prometo. Só quero um tempo...
- Eu não gosto disso.
- Não é uma coisa ruim.
- Na maioria das vezes é.
- Depende da forma que você interpreta, na verdade. Às vezes entendemos o que convém pra nós. – finalmente se levantou, encarando-o por um segundo. – Só não entendi porque iria me convir imaginar você e a Danielle tendo...
- Porque iria me convir, também, pensar que esse tempo é ruim?
- Acho que agora você me entendeu.
- , aquela briga não teve o menor sentido!
- Eu disse que não queria entrar nesse assunto agora.
- Tudo bem, mas assim como o , não podemos evitá-la.
- E lá vem o outra vez...

A fala da mulher foi interrompida pelo celular de vibrando de maneira reiterada três vezes seguidas em cima da mesa de centro. Assim que bateu os olhos conseguiu ler o nome de Danielle nas três mensagens consecutivas. Apertou os lábios voltando a olhá-lo sem vontade nenhuma de continuar, então só suspirou, e foi ali que ele entendeu que a fala tinha realmente terminado ao meio. não chamou-a de volta ou disse algo, apenas acompanhou andar até a cozinha trançando suas pernas enquanto fazia um rabo no cabelo que antes estava bagunçado, até que a mesma sumisse para dentro da cozinha. Só então se sentou ao sofá, pegando o celular em seguida. Apoiou a cabeça nas mãos, transpassando seus dedos por seus cabelos.
queria muito, de todo o coração, agarrá-la pelos braços e dizer que aquele ciúme era inútil. Que por mais que Danielle fosse seu passado, ela não chegava aos pés da mulher que ele tinha, e era por isso que tinha se casado com ela. Porque não importava quantos defeitos implícitos e explícitos ela tivesse, não se tratava tão somente do que era, mas do que ele era quando estava com ela. Eu sei, é clichê. Mas não um clichê normal porque não se tornava melhor ou pior junto com , ele só se tornava ele mesmo. Não tinha medo de ser o que era e ela sempre o amou por isso. era assim, o amava de qualquer jeito porque acreditava no melhor das pessoas e entendia quando esse seu melhor não aparecia. Ela gostava de chamar isso de empatia, e essa palavra fez todo sentido pra ele quando a conheceu.

- Toc Toc – abriu a porta do quarto da filha cautelosamente. – Tudo certo aqui, ou...
- Mãe, meu pai não me ligou. – estava sentada e arrumada em sua cama. O olhar tristonho da menininha fez o coração de se partir ao meio.
- Isso deveria ser preocupante?
- Ele disse que ia me levar no cinema hoje.
- Que horas?
- Na sessão das quatro.
- Já tentou ligar pra ele?
- Ele não me atende. – Murmurou chorosa. –

A conversa foi interrompida pelo celular da menininha tocando, a mesma atendeu com rapidez notando que era o pai. cruzou os braços observando atentamente a feição da filha; esperou por pelo menos dez segundos completamente calada ouvindo falar. Sua expressão não se alterou, embora houvesse um Q a mais nos olhos dela assim que finalizou a chamada.
Droga. Pensou. Por favor, , não faça isso que eu acho que você esta fazendo... Pensou.

- E aí?
- Ele não vem. – fechou os olhos.
- Eu sinto muito filha... Vocês podem ir outro dia...
- Não, não podemos, marquei com as minhas amigas hoje.
- O pode te levar. – a mulher parou por um segundo. – Perai, seu pai ia te levar pra sair com suas amigas?
- Sim, ele prometeu que pagaria sorvete pra todas nós... Eu disse que ia apresentar meu pai verdadeiro pra elas. A Tiffy disse que era mentira, que eu só tinha um pai...

Com um suspiro cedeu, fechando os olhos novamente, em seguida abaixou-se a altura da filha botando suas duas mãos nos joelhos da mesma. Os olhos de estavam caídos e um tanto avermelhados.

- Você tem dois pais. – afirmou arrumando uma mecha de cabelo da garotinha. – E na falta de um, você pode levar o outro. Isso elas nunca terão. A sorte de ter dois pais que te amam dobrado e incondicionalmente...
- Elas não vão acreditar se eu levar o tio de qualquer forma. – Deu de ombros.
- Marca outra saída e dessa vez leva os dois... O que você acha? – Por um segundo viu os olhos de brilharem, sentiu um alivio instantâneo. O olhar de demonstrava tudo que ela sentia, e ela pode ver ali a felicidade nela ao imaginar seus dois ‘’pais’’ juntos.
- Eles não se gostam, mãe. – sorriu tristonha.
- É que você não consegue imaginar o que os dois fariam por você. Pode marcar. – beijou a testa dela levantando-se em seguida.
- Você acha que eles iriam?
- Com toda certeza. Fala pro hoje... E com seu pai.
- Meu pai está doente, não vou conseguir falar com ele.
- Jura? – ironizou e agradeceu por não ter percebido o tom. Provavelmente deveria ter tomado um porre na noite anterior e estava fodido demais para levar a filha ao cinema. Ok, , respire, pensou.
- Tomara que ele melhore.
- É, eu espero que sim. – Falou ríspida.

pulou da cama ainda triste, mas não tanto como antes, e seguiu para o andar de baixo onde o cheiro de panquecas já exalava, o comum quando estava em casa, ou melhor, o comum quando ele ficava nervoso. Era engraçado, mas sempre quando ele estava pensativo com algo fazia panquecas, das mais caprichadas.
Antes de sair do quarto da filha parou no batente da porta fechando os olhos com uma suspirada longa por talvez décima vez naquele dia. Seu coração batia anormalmente naquele dia, primeiro por , segundo pela tensão com , e terceiro e pior: Pela promessa de juntar ambos em prol de . Mas o que mais a deixaria mais feliz? Para ela o fato de ter dois pais era maravilhoso! Pelo menos aquela situação havia criado algo bom e não planejado na vida dela, que cresceu nos cuidados de , mas matinha contato com o pai real. nunca pensou em conversar com a filha sobre aquilo até aquele momento, e só então percebeu que tudo voltava no amor.
O amor paternal que ambos sentiam por fez tudo se acertar da maneira mais certa que talvez não aconteceria se ela tivesse botado o dedo no meio. Bom, pelo menos isso, a mulher pensou, finalmente tomando coragem para continuar a jornada do dia.

Após uma conversa longa e animada com , nada complicada vinda de já que ele fazia tudo por ela, ambos foram para a sessão das quatro do cine no qual havia marcado o tal do encontro.

- Voltamos antes das sete. – Avisou pegando seu sobretudo preto. O dia estava extremamente gelado, em conjunto com a garoa fina que caia, denunciando que a frente fria estava por vir junto com aquela porrada de neve.
- Não tirem o casaco... Amo vocês. – apertou os lábios. se preparava pra sair, porém ao ouvir aquilo parou. por sua vez já havia saído correndo dentre a chuva e inclusive já estava dentro do carro.

Foi quando viu o marido virar-se aos poucos para ela, os olhos dele percorreram seu rosto, cruzou os braços apertando os lábios. Ele podia estar brigado com ela, mas não deixava de amá-la, e por isso não conseguia resistir ao olhar que ela lançava, ele nunca entendeu muito bem por que, afinal, era aquela incógnita que ele prometeu que até o fim da vida desvendaria, mas mesmo assim, o que fosse o que aquele olhar significava, ele não conseguia resistir. Seu coração parecia pedir para que ele mesmo irritado lhe desse um beijo. E foi o que ele fez, não disse nada, apenas se aproximou da mulher sem mexer os braços; tocou os lábios dela cheio de delicadeza, dando aquele beijo de dois segundos que no final fez um estralo. Assim como ele não disse nada ou mexeu os braços, apenas sorriu um pouquinho mais e ele fez o mesmo, só assim saindo da casa.
***


- ? - A mulher se virou bruscamente dentre as prateleiras vendo vir em passos largos em direção a ela.
- ? O que faz por aqui? – Entortou a cabeça.
- Ah, eu estou pesquisando os preços pros aperitivos da festa, tá tudo uma correria.
- Estou percebendo. – sorriu penteando de leve com a mão os cabelos desgrenhados do homem. – É amanhã, certo?
- Sim, e o não está me atendendo... Tem alguma noticia dele? – Perguntou nervoso.
- Ele ligou pra hoje dizendo que estava doente. – Respondeu desgostosa. Por alguns segundos permaneceu quieto, seu semblante de nervoso, passou a preocupado.
- Você pode ir procurá-lo pra mim?
- Você enlouqueceu, ? – Exclamou rindo em seguida. – Esqueceu que meu marido fica doido só de falar no nome dele?
- Não, ele não fica não. Ele fica, talvez, estressado porque você não sabe agir quando os dois estão juntos.
- O quê?
- , não estou aqui pra discutir sua relação com seus homens. – A frase fez rir ainda mais, negando com a cabeça. – estava me ajudando com algumas bebidas e hoje eu fui perceber que me esqueci de colocar na lista a do , ou seja, ele vai me matar e o único lugar que revende essa coisa... – quando percebeu que a mulher permanecia com a sobrancelha arqueada, deu um suspiro, retirando um papel do bolso. – Entrega isso pro e diz pra ele me ligar urgente, fala sobre a bebida do e ele vai saber do que se trata.
- , eu não... Eu não posso ir até a casa do , eu ao menos sei onde é e você sabe...
- , você vai bater na porta e entregar esse papel e é só isso. Não vai trair, não vai beijar. nem precisa saber que você chegou até lá se você não quiser, só quebra o galho pra mim. – O homem falou frenético, mais uma vez seus cabelos se desgrenharam pelo tanto de gestos que ele fizera durante o pedido.
- E a ?
- Ela está ocupada com aquele caso que deu errado, disse que tinha que terminar a ação até hoje pra enviar segunda...

abaixou os olhos ponderando, respirou, expirou... De certa forma queria ir até e lhe dar um tapa pelo que fez para naquele dia, por outro, odiaria mentir para outra vez, ou melhor, será que teria? E se apenas dissesse que fora a pedido de quebrar um galho e que nada aconteceu? Obviamente nada aconteceria, e muito embora estivesse quase aceitando, aquilo parecia tão errado que sua mente girou por um tempo indeterminado até chamar sua atenção de novo.

- E aí?
- Tá! – Bufou guardando o papel no bolso. – Eu não sei onde ele mora.
- Te envio a localização. Muito obrigada, você é perfeita! – agarrou pelos braços lhe dando um beijo estalado no rosto.
- De nada, . – acenou com a cabeça.
- Só mais uma coisa. – Voltou alguns passos quase correndo. – Não fala pra que eu te pedi isso ou ela me mata. Sério.
- Não vai ser necessário.

Assim que terminou as compras para o jantar daquele dia voltou para o carro, ao chegar checou o celular notando que havia mandado realmente a localização de onde morava. Ficou mais algum tempo com o carro desligado ouvindo o barulho da garoa cair; se sentia tão dramática por estar naquela situação. Olhou para o celular, olhou para a rua, pensou e repensou por mais cinco minutos até finalmente dar partida.
Ok. Estava em uma daquelas situações que a remetiam sua juventude. A diferença era que agora ela não era mais jovem, tinha responsabilidade e se sentia estranhamente errada dirigindo em direção a casa de enquanto seu marido passava um tempo com sua filha que por sinal, era filha de também.
não morava exatamente em uma casa, na verdade era um apartamento de portinha vermelha naquele bairro especifico da cidade, lembrava muito aquele filme de ‘’nothing Hill’ famoso. É, morava ali, há algumas quadras do bairro onde morava. O que mais ela achava engraçado nisso, era que sempre havia dito que num futuro ele iria escolher uma casa enorme pra morar, embora aquele futuro do qual falava incluísse na época, ela não sabia porque escolhera um apartamento se agora estava muito melhor do que ela. Podia cuidar dele mesmo, ter as próprias coisas, uma casa enorme...
Chacoalhou a cabeça voltando a dar três toques na porta decidida de que agora, se não fosse atendida iria embora. Esperou mais alguns segundos não recebendo resposta já se virando para ir, foi de costas que ouviu a porta se abrir lentamente, assim que se virou, deparou-se com um completamente acabado. Fora como um tapa na cara. Então ele realmente estava doente? Não era invenção.

- ? – O homem apertou os olhos, sua voz saiu extremamente rouca e baixa, sendo solta por uma tocida seguinte. – Acho que eu estou alucinando. – Sorriu de lado. – Eu tô ficando doido mesmo. – Fez menção de que fecharia a porta.
- Ei, ei, ei, sou eu, não esta alucinando... Meu Deus, . – a mulher tapou a boca. Além da blusa toda suada, os olhos do homem estavam fundos, em conjunto com o ranger de dentes. – O que você tem?
- Ah, eu devia ter pegado meu casaco ontem... – Murmurou tossindo. – Por que está aqui?
- Am... me pediu pra te dar um papel sobre uma tal de bebida do ... – Fez gestos aleatórios com as mãos. botou as mãos na cabeça só então dando espaço para que a mulher entrasse. ficou no mesmo lugar.
- Você pode me dar o papel e ir embora se quiser, . – se apoiou na porta percebendo a hesitação. – Não quero causar problemas. br> - Não, tudo bem. – Suspirou, adentrando na casa. –

Foi questão de segundos para sentor-se envolvida por um cheirinho característico. Ao entrar na casa do homem sentiu instantaneamente o teor do cheiro da pele dele, misturados com aquele perfume que ele não havia mudado. Por dentro o apartamento era até que espaçoso, mas bem compacto. Na sala havia cobertores, lenços e mais lenços, alguns comprimidos, a TV estava desligada e aquela lareira queimando fez a mulher transpirar. Percebeu as costas dele toda molhada quando o olhou andar a sua frente...

- , o que você tem?
- É só um resfriado. – Deu de ombros. – Eu ainda acho que você é uma alucinação.
- Eu não sou. – Respondeu. Ele sorriu de olhos fechados, parecia cansado. – Você precisa ir pro hospital, está nitidamente...
- Não. Não, eu não vou pro hospital. – praticamente gritou, assustando-a por segundos. – Se piorar eu peço pro me ver...
- , deixa de ser teimoso, eu posso te levar.
- Onde está seu marido?
- Foi no cinema com a .
- Fazer minha vez. – Suspirou. – Ótimo, ela deve ter ficado... – botou as mãos no rosto chateado. – Me desculpa, sério, ela deve estar muito brava comigo agora, eu prometi que eu iria...

Notando aquilo, involuntariamente, sentiu-se tentada a tocá-lo, tanto por ter o julgado mal, como por estar preocupada. realmente havia tido um motivo para não ir. Assim que o segurou pelos pulsos percebeu o quão quente ele estava. Se não fosse loucura, poderia jurar que estava à beira dos cinquenta graus e não era pra menos que sua roupa estivesse toda molhada.

- , nós precisamos ir realmente ao hospital agora, você está queimando!
- Eu já disse que eu não vou! – a palavra hospital para ele parecia uma ofensa.
- Qual é a sua? Eu estou tentando te ajudar.
- E eu estou dizendo que não quero ajuda!
- Ok. – A mulher cedeu jogando os braços ao lado do corpo. – Eu vim aqui apenas entregar isso. – colocou o papel que havia lhe dado na mesa de centro. – Só espero não te encontrar morto amanhã, precisa de você.
- Ela tem quem me substituir. – Respondeu involuntariamente.
- Você é insubstituível, . – entortou a cabeça, ambos trocaram olhares por cinco segundos.
- Eu sou?
- Pra ela sim.

Vendo que permaneceu em silêncio, pegou a bolsa para realmente sair, mas algo dentro dela pulava. Ele não era assim, havia algo muito errado, ela o conhecia.

- Sabe o que eu acho engraçado? – Voltou alguns passos, virando-se bruscamente. – Você sempre foi desesperado. O mínimo que você sentia já corria pro hospital... O que tem de errado com você, ?

observou-o olhá-la de uma maneira indecifrável por vários segundos, um olhar que ela nunca havia recebido antes, incomparável. Era só isso mesmo. Ele não fez menção de abrir a boca pra se explicar, ou até pra mandá-la parar de encher a paciência, ele só ficou a olhando como se ela soubesse de tudo, um tudo que ela não fazia ideia do que era.

- Você tá usando drogas, né? – Botou as mãos na cintura, a frase o fez rir alto.
- Você tá doida?
- Eu? Você deve estar tendo efeito colateral de algo! Eu tive palestras de drogas na escola da ano passado. Você tá agindo feito um...
-Não, não, não! – chegou perto dela segurando-a dos vários gestos que ela fazia. – Eu não estou usando drogas. A única vez que eu usei drogas foi... ‘Peraí, palestras de drogas pra crianças de onze anos?
- É, pra você ver como o mundo está perdido.

Após outros segundos segurando o riso, ambos soltaram o mesmo quase que em sincronia, abanando a cabeça negativamente.

- Meu Deus...
- Ok. Entendi que você não usa drogas. Então o que é?
- É um resfriado, ! Vai passar!
- , você está agindo como se tivesse morrendo aos poucos. – Novamente ela foi encarada nos olhos sem receber resposta por vários segundos. A diferença era que agora os olhos dele estavam perigosamente perto dos dela.
- É só um resfriado.
- Já tomou remédio?
- Eu não posso.
- O quê?
- Ordens do meu médico.
- Desde quando você tem...?
- Você pode fazer uma compressa e um café bem quente se isso vai te fazer sentir uma alma boa. – sorriu de lado, entortou a cabeça. – Eu te conheço. Você não deixaria ninguém nesse estado aqui sem cuidados.
- É meu extinto de mãe. – Deu de ombros.
- É seu extinto de . – piscou. –

O que era pra ter sido uma entrega, virou um jogo de conversa fora. Ou seja, enquanto limpava todo aquele suor e esperava enquanto a febre dele não baixava, ambos ficaram conversando.
Não tinha nada a ver com o que eles passaram, ela não quis saber porquês, ou qualquer algo do tipo. Foi uma conversa entre melhores amigos que não se viam há muito tempo colocando o papo todo em dia, o que levou duas horas. Duas horas no apartamento de conversando. O que pensaria se dissesse isso em voz alta?
estava um caco. Estava sentindo seu corpo todo doer, de dentro pra fora e de fora pra dentro, mas tê-la ali era como um anestésico. Pra ele não importava se estava com dor. Ouvir gargalhando das suas piadas, cuidando dele, sem pedir explicação, sem olhá-lo daquele jeito que o quebrava, como no dia em que havia a encontrado em casa. Tê-la ali parecia um devaneio, se não era. queria guardar aquele momento para sempre, queria que o tempo fosse um pouquinho mais devagar, porque ele sabia que a qualquer minuto ela iria se levantar e iria pra casa com o marido e sua filha, que iria beijá-lo e desejar boa noite, que ela não iria ficar ali e sentindo que a amava tanto, doía. Doía imaginar, embora aceitasse isso. Tinha escolhido aquilo pra ele com todos os riscos.

- Ok. Agora troca de blusa e continua com a compressa. Eu preciso ir. – Falou levantando-se de leve; sentiu sua mão ser segurada singelamente por .
- Obrigado por ter ficado.
- Não foi nada.
- Foi tudo pra mim, . – Murmurou seu apelido.
- Você não dormiu... É melhor você descansar um pouco. – sorriu esquivando as mãos do homem. sentiu o corpo tremer ao ver aquilo. – Antes é melhor tomar um banho.
- Vai querer ir comigo também? – Ironizou cansado, tombando a cabeça nos ombros.
- Eu vou embora.
- Ei, eu estava brincando.
- Eu sei que estava. Eu preciso ir. – Falou rápida.
- Por que não fica mais um pouco?
- Porque eu tenho um marido, e ele provavelmente deve estar me esperando. – olhou no relógio abanando a cabeça logo depois.
- Ah, é. – Mordeu os lábios.
- Se cuida, .
- É bem melhor quando você faz isso por mim.
- Boa noite, .

tombou a cabeça pro chão ao vê-la fechar a porta. Sorriu inevitavelmente, mesmo se sentindo um lixo. Talvez fosse seu remédio mágico o tempo todo; era como diziam, um pouquinho de amor era o melhor remédio pra tudo... A questão era que o amor dele não era pouco, era muito, mas ele só foi aprender isso naquele momento e porra, como se sentiu burro quando percebeu. Como ele quis voltar no tempo, como ele queria que fosse fácil, que com um pedido de ‘’volta’’, ela voltasse, e que tudo se resolvesse. Porém por óbvio não faria isso, não era egoísta, não podia ser mais.

***

- ? – disse assim que abriu a porta de casa, recebeu logo um abraço da filha em conjunto com alguns resmungos, abaixando-se em seguida para olhá-la, Garry o labradoe que á pouco havia chegado da casa de adestramento onde havia o deixado esperava apreensivo pelo chamego dela.
- Ela reclamou de dor, queria você, acho que pegou um resfriado... – murmurou fechando a porta atrás de si. Após analisar a filha por alguns segundos, finalmente se levantou ainda abraçada à menininha. Garry ás seguiu. –
- Onde está o ? – Perguntou duvidosa, afinal, estava com ele, com um afago acariciou o cachorro, acompanhando a amiga que seguia para o cômodo de cima com .
- Ele chegou em casa, perguntou se eu podia ficar com a por um tempo porque tinha que resolver algo com urgência, disse que voltava pra buscá-la, mas como reclamou eu resolvi trazer... Eu te liguei, por sinal, onde você estava?
- No mercado, depois fui no shopping trocar a gravata dele... Estava zerada de bateria, me desculpa. – murmurou. – Vou dar um banho nela...
- Tudo bem amiga, vou dar carinho pra essa carentão aqui. – se jogou no sofá da sala recebendo Garry em seus braços para o afago. –
Após subir com , dar um banho quente, medicá-la e ter certeza que esta dormia profundamente e bem, desceu. Olhou no relógio no pulso percebendo o quão tarde já era e o quanto havia demorado. Passava das dez e ainda não havia chegado, seu coração estava chegando a palpitar. E se ele tivesse descoberto? Visto? Pensado algo errado? A mulher chacoalhou a cabeça só de imaginar. Por que ainda se dispunha a passar por aquilo? Assim que adentrou á sala pegou já se levantando.

- Eu estou preocupada. – Falou colocando as mãos na cintura. –
- Não é pra menos... Mas, você conhece seu marido, ele sabe se cuidar. – Sorriu amistosa. – Como ela está?
- Vai ficar bem. – Respondeu. Ambas caminharam até a cozinha juntas em um breve silencio. –
- Como vai aquele caso com o Julian? – Perguntou aleatoriamente. Se tratava de mais uma guarda compartilhada tensa que cuidava. Sempre dominara a área de direito de família, muito embora causasse uma dor de cabeça extra todas as semanas, sua ascensão veio delas, o que era engraçado partindo do fato de que todos esperavam que por ser reconhecido no meio jurídico por ser o maior criminalista da cidade. –
- Eu nunca fiz um caso em que o pai não quer entrar num acordo, e... Ele me lembra tanto o ... – Disse encostando-se ao banco. – Quero dizer, a mãe da Maggie cuida e eu sei que ama, mas tem um jeito tão estranho de cuidar dela. – Coçou o queixo. – Eu meio que pondero sobre isso, sobre colocar a Maggie numa audiência em frente aos dois, mas não vejo outra alternativa.
- Você sempre sabe o que fazer, faça o que seu coração mandar. O caso do German também não vai nada fácil, aquela doida não quer aceitar a separação de jeito nenhum! – Ambas riram ao lembrar-se dela. A cidadã chamava-se Vivian, era casada com um taxista que, após muitas brigas por ciúme da esposa resolveu pedir o divorcio, e vejamos: Vivian alegou que apenas iria deixá-lo apenas na morte.
- Você sabe que isso pode virar um processo criminal, não sabe? – brincou rindo um pouco mais. –
- Pois deixe seu marido avisado. Eu não tenho duvidas que ela pode mesmo fazer isso. Ou você... Já pensou em pegar uma causa...
- Ah, não... Eu tenho interesse, mas o me pediu com toda aquela boa educação e persuasão dele, que eu ficasse fora dessa área.
- Sabe, eu acho fofo como ele cuida de você. Mas tenho que admitir que aquele lance com a Danielle me fez querer socar aquele rostinho de bom moço. – engroçou a voz percebendo na cara feia que a amiga colocara no rosto ao ouvir sobre a dita cuja. –
- Não conversamos sobre aquilo. – Comentou. – Eu não sei se quero. Discutimos feio naquele dia e, sinceramente, com o e tudo que tem acontecido conosco...
- sempre causando destruição por onde passa. – Rolou os olhos, por quinze segundos examinou atentamente a feição dela. Tentava encontrar o que fazia odiá-lo tanto daquele jeito. não conseguia entender o que acontecia dentro dela. –
- Já tentou ouvir o que ele tem pra dizer? – Endireitou sua postura, encarando-a um pouco mais séria, recebeu um olhar incrédulo da mesma. –
- Quem costumava dizer que atitudes diziam mais do que palavras? – Respondeu desencontando-se do balcão ao perceber o intuito de . – Eu sei que sou dura com ele sim, , eu só... Eu não sou tão boa quanto você, entendeu? Talvez se eu tivesse um filho com ele, eu entendesse, mas eu não tenho, e esse lado você precisa entender.
- Olha, ele pode ter sido um idiota e nos deixado por meses sem noticias, mas... Eu, de alguma forma, sei que ele quer dizer algo e que isso está o consumindo. Você era melhor amiga dele também, você sabe o que eu quero dizer. – disse num desabafo só enquanto mexia nas mãos. observou aquilo sentindo um peso enorme nas costas. –
- Gabi eu preciso te contar uma coisa. – entortou a cabeça tornando seu olhar á ela. –
- O que foi?
- Você sabe que eu te amo, não é?
- Lá no fundo, mas sei. – Sorriu na tentativa de dissipar o nervosismo. –
- Eu...

Um raio de luz atingiu as duas, tranpassando pelas cortinas da cozinha o que fez com que ambas desviassem a atenção para aquilo por momento. sentia o pulmão cheio, sem disposição nenhuma para contar o que tinha pra contar, portanto chacoalhou a cabeça mudando sua ideia inicial, deu alguns passos em direção á porta pegando seu cachecol jogado em cima daquele balcão, tudo isso sendo seguida pelo olhar extremamente confuso da amiga.
- Eu tenho que ir, pelo visto seu marido já chegou. Outro dia a gente conversa, tudo bem? Boa noite, qualquer coisa me liga. – Fez um gesto com as mãos, acenando em seguida. –
devolveu o aceno desentendida e ficou na posição por um periodo de tempo tentando entender o que havia acontecido. Acompanhou com os olhos a mulher sumir e só então voltou a encostar-se ao balcão.

- Que urgência! – riu indo ao encontro de cumprimentá-lo como despedida, porém assim que o fez, notou instantaneamente o cheiro de bebida que o mesmo exalava, retrocedendo os passos logo depois para olhá-lo no rosto.
- O que foi?
- Você bebeu?
- Um pouco. – Maleou a cabeça.
- Só pode ser com uma mulher há essas horas. – brincou rindo humorada.
- A Carmen não bebeu. Ela não podia, fui só eu mesmo.
- O que você disse? – A mulher parou se duvidar, até de respirar, ao ouvir o nome da moça. – Você estava com a Carmen?
- Era urgente.
- Você deixou a pra ir beber com a Carmen? – cerrou o punho, botando-o na boca por um segundo. – , pelo amor de Deus , o que está acontecendo com você?
- , não aconteceu nada. – Ele riu, suas piscadelas lentas denunciavam seu estado. Não sabia se ela havia fechado os olhos lentamente em desaprovação, ou se era seu cérebro trabalhando devagar.
- Porra, o que você tá pensando?
- Ah, agora pelo menos eu vou me igualar ao idiota do .
- Esse é seu intuito? – exclamou, não alto, temendo que percebesse os dois lá fora. – Eu achei que você fosse melhor que isso.
- Eu tentei, , tentei ser melhor do que “isso”. – O homem abriu os braços já caminhando para a porta. – Na verdade estou tentando. Mas se te serve de consolo, eu jamais trairia minha esposa.
- Não se trata de traição, , não tem nada a ver com isso. Ela esta te esperando ,preocupada e, você só estava com sua ex-mulher. – Ironizou –
- Namorada. E essa discussão não pertence á você.
- Eu to nem aí se não é minha! Como você se sentiria se ela fizesse isso?
- Eu vou entrar, , tenha uma boa noite.

deu as costas para a mulher e finalmente entrou na casa, tirando seu casaco todo desengonçado. Estava realmente fora dos limites, sua mente estava girando de leve. quase correu para a porta de entrada trombando com ele no caminho, sentiu as mãos do homem cravarem em sua cintura e lentamente, com um sorriso singelo de canto, ele foi chegar perto até que seus narizes se roçassem; foi o suficiente para que obviamente ela notasse aquele cheiro forte. Fora de imediato, se afastou quase que brutamente o fazendo olhá-la cansado, já esperando pela frase.

- Você bebeu?
- Talvez alguns copos de vinho. Qual é, ... – Murmurou cansado, tentando mais uma vez beijá-la, porém dessa vez fora afastado de vez, de maneira que seus corpos se descolaram a uns centímetros de distancia.
- Vinho? – A mulher passou a língua nos lábios. – Com quem você estava bebendo vinho há essas horas?
- Não foi só vinho, eu misturei com alguns shots de whisky, mas nada que...
- Nada quê? – botou as mãos na cintura. – Porque se for “me deixasse bêbado’’, sinto muito em te informar que estar “são”’ está fora da sua alçada nesse exato momento.
- Ótimo. Quer que eu me desculpe por isso?
- Não, , eu quero que você me diga que merda de urgência era essa pra largar a com a , doente, pra ir beber! – Exclamou. – Podia ter me ligado!
- Ela está o quê?
- Doente! Resfriada! E você...
- Primeiro: Eu não larguei a . – Fora a vez de ele botar as mãos na cintura, piscando duro logo depois. – Segundo: Ela não estava doente, por óbvio eu não a deixaria se estivesse doente e terceiro: Você precisa saber da origem de tudo.... – Fez alguns gestos aleatórios com as mãos.

A ação fez bufar. estava nitidamente sem condições de explicar qualquer coisa e sinceramente, ela não queria brigar, não queria explicações, era a segunda pequena discussão em dois dias e meu Deus, ela não sabia o que droga estava acontecendo entre eles. não queria piorar as coisas, pelo menos não naquele momento, então só segurou os antebraços do homem, o ato o fez parar de resmungar para olhá-la.

- Vai tomar um banho... Eu não quero ouvir. – Abanou a cabeça. – Amanhã você me conta, você não está... – A frase morreu no meio.
- Você que decide, amor. O Garry chegou?– perguntou antes de subir as escadas. –
- Hoje de tarde, segundo a Catarina. – O homem assentiu positivamente e seguiu seu rumo, dando graças por não ter que explicar nada pra ela antes de um banho quente. –
Por pelo menos uma hora continuou sozinha no andar de baixo sentindo um aperto estranho no peito enquanto ajeitva sua cozinha. A sensação causava a chegar o mínimo de desespero nela, era uma mistura de medo com angustia, lhe causando uma dor de cabeça semelhante aquelas que você tem antes de começar a chorar. Sabia que tinha algo errado porque seu marido não era daquele jeito. Chacoalhou a cabeça notando o que estava fazendo e então continuou a arrumar, ao andar para o outro lado na intenção de guardar a ultima tigela observou Garry parado na porta, agora já do lado de fora, na varanda, com a cabeça torta á olhando.
Ficou observando o cachorro á examinando atentamente e achou engraçado. Há tempos não brincava com ele por não parar muito em casa e, pensando nisso, foi que se dirigiu até a porta ainda sem abri-la, abaixou-se na altura dele e colocou uma das mãos no vidro, sorrindo em direção á ele. Garrt entortou a cabeça animado, e pois-se a lamber o mesmo reiteradamente onde a mão dela se localizava o que á fez rir um tanto por alguns segundos. Sempre ouviu dizer que cachorros sentiam a angustia do dono, e foi exatamente o que ela imaginou atenta ao vê-lo agir daquela maneira. Garry queria confortá-la. Seu olhar quase dizia o quanto ele conseguia entender o que estava se passando nela, sem julgamento algum. Não podia dizer que era amante de cachorros á ponto de rolar e deitar com eles, pois nunca fora assim, muito embora as vezes se divertisse com o labrador nas férias quando o levava para o parque nos dias em que não podia leva-lo. Só que, naquele segundo, nunca ninguem pareceu á entender mais do que aquele cachorro.
Somente saiu do transe ao ouvir a porta do quarto da filha abrir, supondo que fosse indo dar o beijo de boa noite e só então tomou coragem para subir também. Passou pelo quarto de dando uma ultima checada e assim, seguindo pelo corredor ouviu algo vibrar, foi só uma vez, mas fez com que se virasse e ela sabia que vinha do celular dele.
Relutante entre deixar lá ou ir ver, foi por impulso até o criado mudo do corredor. Por um segundo fora como se seu ar todo tivesse sumido, seu coração falhou por uns três segundos o que lhe deixou com uma dificuldade de respirar momentânea só comprovando ainda mais que sim, seu sexto sentido existia.

“Obrigada por me ouvir, você realmente mudou minha noite. Boa noite, beijos. XX Carmen’’.


Ela pensou em abrir. Pensou em responder. Pensou em apagar. Em atacar o celular no meio da parede. Mas não teve coragem nem se quer de tocar nele. Seu corpo todo estava paralisado sem saber como agir, o que era estranho. A sensação ruim crescia dentro dela homeopaticamente; ficou lá mais algum tempo. Tempo. Era o que ela estava ao máximo tentando dar a sua mente para os acontecimentos na sua vida naqueles dias, mas nem eles estavam adiantando. o amava, confiava que jamais faria nada com ela, muito embora não conseguisse deixar de pensar nas piores hipóteses ao ler aquilo, mas na pura realidade, quem é que não pensaria?
A mulher deu dois passos se distanciando do celular por conseguinte parou em frente à porta de seu quarto. Antes mesmo de virar a maçaneta, fechou os olhos. Como poderia pedir qualquer explicação, ou desconfiar de se naquele mesmo dia, sem também o conhecimento dele, havia ficado com por duas horas? Seus olhos chegaram a arder por pensar no pior do que estava acontecendo entre eles: O silêncio.

- O que você está fazendo? – Ouviu o homem dizer quase que num sussurro, por estarem no corredor e dormindo logo ao lado.

ficou pelo menos dez segundos olhando fixamente nos olhos avermelhados do marido, que por si só não desviou o mesmo em nenhum momento. Ficou lá cogitando se ele seria tão mau caráter em estar olhando fixamente em seus olhos, prestes a puxá-la pela cintura para dentro do quarto, após ter feito algo com Carmen.

- Ei?
- Eu fui olhar a uma ultima vez...
- Parada no corredor em frente a nossa porta?
- Achei que tivesse ouvido ela me chamar. – O homem assentiu positivamente comprimindo os lábios.
- Acha melhor levá-la ao médico? – Perguntou receoso, encostando-se ao batente da porta. conseguiu sentir o tom preocupado, era fácil perceber quando realmente estava preocupado por causa das ruguinhas que se formavam em sua testa.
- Ela vai melhorar. – Suas respostas estavam sendo rápidas. E ele havia notado isso.
- O que está acontecendo?
- Não está acontecendo nada. – o olhou. – Ou está?
- Do que você está falando?
- Eu não sei, só estou perguntando.
- Seguinte. – passou a língua nos lábios. A mulher prendeu a respiração perceptivelmente assim que ele o disse, a ponto de seu peito ficar estufado. Estaria preparada pra ouvir que ele estava com Carmen? Ouvir o que ele tinha pra dizer, se dissesse? -
- Fala.
- Me desculpa por hoje. – Soltou, abaixando a cabeça. – Eu perdi a noção, . Eu não devia ter deixado a ...

Não, ela não estava pronta. Se ele contasse, ela também sentiria o dever de contar que esteve com , e não queria passar por toda aquela coisa de novo, embora seu corpo todo estivesse praticamente cedendo a todo aquele cansaço de esconder. Ela não deveria, isso era fato, acontece que, talvez estivesse completamente certo. Talvez o problema não fosse ou , mas sim ela. não sabia lidar com e ao mesmo tempo, e isso era uma droga. Pior ainda quando não sabia o porquê de não saber. Estar entre e a fazia sentir-se vulnerável, como se qualquer coisa a pudesse machucar profundamente, mesmo tendo seus vinte oito anos e uma vida estável... Era horrível perder o controle naquela altura, quando se mais precisa dele.

- Tudo bem. – Murmurou mordendo os lábios, sentiu os olhos dele percorrem seu rosto como se o mesmo procurasse qualquer vacilo dela.
- Tem certeza?Você está esquisita...
- , eu te amo. – se aproximou o suficiente para segurar o rosto do homem. – E essas brigas têm me sugado completamente, então só por hoje, vamos relaxar. não está bem, temos uma festa amanhã...
- Quer dizer que...
- Não. – Aproximou seu rosto do dele, fazendo seus narizes se roçassem; da mesma forma ambos fecharam os olhos sentindo apenas a respiração um do outro. – Eu quero que fiquemos bem. É tudo que eu quero. Só hoje. – sussurrou, mais pra si do que pra ele.

Seus olhos queimaram naquele momento, mesmo fechados, ela sabia que se os abrisse, decretaria que havia algo super errado, e bom, ela não queria conversar. Não queria explicar. Por esse motivo sem muita delonga o beijou. Gradativamente, assim como as mãos dele, as dela percorram pelo pescoço do homem até sua nuca, entrelaçando seus dedos por lá. Sutilmente o homem puxou-a pela cintura para mais perto dele, colando seus abdomens, tomando rédea da situação.
Por aqueles segundos que o beijo durou, esqueceu-se de tudo. Concentrou-se apenas no beijo do marido. Havia se esquecido, entre os pequenos beijos que trocavam durante o dia, como aquele intenso que ele lhe dava, sem intenção de nada, apenas realmente de beijar, era maravilhoso. tinha aquele controle das coisas que amava. Não era afobado e nem lento demais, beijava na medida certa, alternando dali para as mãos que passeavam por sua cintura até o cóccix com um toque de carinho incomum, conseguia ser cavalheiro até nesses momentos.
Aos poucos ele foi sentindo-a ainda mais mole em seus braços; os dedos de que emaranhavam-se em seus cabelos da nuca foram afrouxando, seus lábios foram diminuindo a intensidade de antes, até que eles pararam de se beijar, embora suas bocas estivessem ainda próximas, com seus hálitos quentes e um tanto ofegantes se misturando.

- Eu sei que você não queria falar sobre isso, mas eu estive pensando... – murmurou, ainda segurava firmemente, tanto que ela conseguia sentir as mãos dele em sua pele. – Eu sinto muito por estar sendo um tanto rígido em relação ao . Eu sempre disse que entendia, e eu juro que entendo a amizade de vocês e enfim... – Balançou a cabeça. – Eu confio em você. Eu vou tentar pegar leve.
- Eu aprecio isso. – Alisou o rosto dele com os polegares. – Muito. Mas realmente, eu só estou pensando em você agora.
Ele não respondeu nada, só sorriu, dessa vez puxando-a para um abraço. Passou seus dois braços pelos ombros da mulher sentindo-a entrelaçar seus braços por sua cintura, diante daquilo, tomou conta do corpo todo dela por ser um tanto maior e por fim, beijou seus cabelos por longos segundos, fechando os olhos no ato.





Capítulo Oito – What’s on in your mind?

- Você viu a ? – perguntou assim que desceu as escadas da casa dos ’s.
Não obteve uma resposta sonora, apenas um olhar. Lucy olhava para a janela com os olhos encharcados enquanto secava os pratos da louça do almoço. acompanhou o olhar da mulher já sentindo também os olhos arderem; ver desolada. Era devastador, simplesmente porque ela nunca, em toda sua vida, tinha visto-a sem brilho. E era por esse motivo que cada vez mais odiava . não era apenas sua amiga, era sua irmã. Ver que tinha tirado até mesmo o brilho intrínseco de sua melhor amiga a deixava irritada, poderia cortar em pedacinhos se o visse naquele segundo.
Apertou os olhos para o lado do balanço velho que a casa dos ’s ostentava, ainda de madeira. A amiga estava sentada nele, balançando-se de maneira solitária, olhando para o chão, há alguns passos dela, Charles caminhava lentamente em sua direção com as mãos atrás das costas.

- Deveria ser eu. – Ouviu o murmúrio choroso da mãe de , olhou para o lado engolindo em seco. – Eu deveria conversar com ela, mas eu não consigo, .
- É complicado, sra. . – Consolou. – Ninguém esperava que ele fosse...Realmente ir.
- Eu me recuso a acreditar que aquele doce que o era...
- Doce... – rolou os olhos. – Acredite, Sra. , não há alguém no mundo mais quebrada por dentro por acreditar em alguém, do que eu. ao menos... – Parou de falar, sentindo uma lágrima quente escorrer por seu olho esquerdo. – Ele ao menos falou comigo, como isso...
- Nem nós sabíamos. – Ambas se viraram para trás, dando de cara com os pais de as encarando. Seus olhos eram tão desoladores quanto os de . Nas mãos, a mãe de carregava uma torta; a que amava comer durante a gravidez, e na outra uma sacola com desenhos infantis.

Um silêncio se instalou após a frase, e então todos voltaram a olhar para os dois no jardim. Agora Charles já havia se sentado ao lado de , embora ela não tivesse o olhado. Arrastava os pés pela grama, apertando com força o ferro do balanço. Notou os dedos da filha um tanto amarelos por isso. estava tentando segurar a dor, mas sem êxito. Seus olhos pareciam querer explodir toda vez que segurava as lágrimas. Algumas teimosas ainda escorriam por seu rosto, mas mesmo assim, se soltasse o que tinha pra soltar, seria um desastre. Nem ela sabia ao certo o que estava acontecendo dentro do seu corpo naquele momento.

- Os pais do estão aí. – começou cauteloso. – Arrisco em dizer que trouxeram aquela torta que você ama...
- Como se isso fosse amenizar o fato do que o filho deles me deixou. – A menina ironizou, limpando com a manga da blusa uma das lágrimas que escorria por seu rosto. – Desculpa, pai, mas eu não quero falar com ninguém agora.
- Você não precisa, se não quiser. – O homem respondeu voltando seu olhar para o céu. – Mas não pode recusar viver em sociedade só porque um garoto te deixou. Uma hora isso vai passar, querida, tudo é passageiro...
- Não é um garoto qualquer. É o pai da minha filha.
- Eu não quero entrar no mérito da questão. – virou-se para a menina pegando uma de suas mãos molhadas por tanto limpar o rosto. – Eu acredito que algumas coisas precisam acontecer... É a lei de Murphy, se algo pode acontecer, acontecerá.
- Está citando a frase de um filme como conselho? – riu de leve, fungando depois.
- Era esse sorriso que eu queria ver. – sorriu humorado, observando-a apertar os lábios.
- Eu vou dizer uma coisa que nenhum adolescente acredita, mas é mais pura verdade, querida. – fez uma pausa, dando um suspiro como suspense. – Você se apaixona mais de uma vez. - apertou os lábios, sentiu o pai limpar o resto do seu rosto molhado com as duas mãos. – Não é porque você tem um filho, que vai ser presa no pra sempre, e vou te dizer mais: Vai ser mais intenso do que a primeira vez, e talvez até mais doloroso, mas acontecerá novamente, filha, eu prometo. Só que até lá, seja sua própria âncora.

ainda estava de olhos fechados, mas acordada. Preferiu ficar assim quando percebeu que e estavam conversando na cama, bem ao lado dela. No meio daquela noite apareceu no quarto deles, se infiltrou no meio dos dois, foi abraçada por e incrivelmente, sua crise de tosse cessou; Por esse lado entendia, parecia um urso quando a abraçava a noite de tão quente que ficava, mesmo sem camisa, e então lá estavam os dois naquela manhã, conversando aos sussurros.

- Você vai?
- É claro que eu vou, pequena. - Sussurrou.
- Mesmo que meu pai vá também?
- Você falou com ele sobre isso?
- Vou falar hoje. Mas você realmente vai?
- Sim. Eu não quebro uma promessa.
- Eu te amo, tio . – sorriu de lado ao ouvir aquilo.
- Eu também te amo, toquinho.
- Que amor... – virou-se reprimindo o sorriso. –
- Mãe, ele vai!
- Eu disse que iria. – respondeu sem ao menos saber do que se tratava. montou em cima da mãe, beijando-a pelo rosto em seguida. – Te amo, mãe.
- Também te amo.

A garotinha pulou da cama com rapidez, antes dando um beijo estalado em , abriu a porta do quarto dos dois e correu para o dela. Ambos observaram todo o trajeto dela com atenção e só dois segundos depois de, de fato sair do quarto, voltaram a se olhar sorrindo de lado.

- Do que ela estava falando? – girou para cima do marido, largando seu corpo em cima do dele. riu de leve, fechando os olhos enquanto acariciava as costas da esposa de cima abaixo.
- Você não sabia?
- Depende do quê.
- Quer que eu e saiamos com as amigas dela, pra ela mostrar que tem dois pais. – Disse humorado. – é tão doce...
- Demais. Eu sou apaixonada por ela.
- Quem não seria? – respondeu com ternura. – Dá pra acreditar que esse toquinho de gente dormia com a gente, tomava banho comigo...

apoiou o queixo no peito do marido ao ouvir aquilo, notou que falava de olhos fechados. Aproveitou o momento para observar o sorriso fofo que o homem soltava ao relembrar da fase de quando era apenas um bebê de três anos, e em como ele havia feito parte de tudo isso, de toda sua transição e do crescimento dela, do quanto o tempo havia passado e eles estavam ali agora, como se fosse ontem, como se fosse coisa da sua imaginação...

- Você é encantador quando fala assim. – murmurou se arrastando para a boca dele.
- Eu sou encantador fazendo outras coisas também. – Deslizou suas mãos pelas costas de .
- ...
- Calma, eu não vou fazer nada. – Levantou as mãos na nuca. – Mesmo que eu queira, eu sei me controlar, lindinha.
- Você é ridículo. – levantou de súbito de cima dele, pondo-se de pé a beira da cama. A feição falsificada de afetado que o homem adotava a fez rolar os olhos.
- Eu? Por quê?
- Chuveiro, agora.

tapou o rosto ainda rindo um tanto. Transpassou as mãos pelos cabelos, grudando neles por longos segundos, e com um suspiro alto levantou-se praticamente correndo atrás da mulher.

***


A festa que havia preparado era uma incógnita, e era por esse motivo que estava tão ansiosa, talvez? Seu estômago parecia comprimido, seu fôlego parecia faltar às vezes, era como se seu corpo estivesse a avisando de algo que ela não sabia decifrar.
Após doze anos, - nove no caso, já que ela mudou-se para lá aos vinte, mas contava como um todo. – iria reencontrar toda aquela galera que costumava ser amiga desde pequena. não fazia ideia de quanto tempo não pisava em sua antiga cidade, tirando quando ia à casa dos pais, o que não era mais do que quatro vezes ao ano; sempre compensou mais que sua mãe fosse para sua casa do que ela pra lá, e era entendível, eles partiam do pressuposto de a antiga cidade não fazia bem para ela, muito embora nunca nada tivesse sido dito em voz alta, era mais ou menos isso.
Pois bem, como toda mãe, terminou de se arrumar por último. Ainda passava o batom vermelho vinho matte no espelho, tentando ajustar seu vestido preto social em conjunto, para adiantar as coisas, é aquela, havia adquirido uma habilidade para fazer duas coisas ao mesmo tempo após se tornar mãe, essa era uma das dádivas.

- É uma festa de reencontro ou... – A mulher sentiu o marido abraçá-la pelas costas, depositando um beijo molhado entre seu pescoço e orelha, arrepiou-se de imediato.
- Eu estou bem básica, na verdade. – virou-se de frente para ele sendo encurralada, este sorria de lado.
- Puta que pariu, imagina quando for pra valer... – brincou, arrancando um selinho rápido. Ouvi-a resmungar já saindo correndo de perto dela em seguida.
- , vamos!
- Ela puxou você. E eu tô perdido por isso. – bufou. Recebeu um riso da esposa em resposta, já abaixando com os braços abertos para receber e pegá-la no colo.

Desta forma os três saíram de casa, com todos os casacos, apetrechos, remédios e tudo que uma mãe precisa carregar, e com no colo. Ela não estava de toda, boa, havia passado o dia sonolenta no sofá com ao lado, fazendo companhia entre suas séries e desenhos infantis. Ele sempre fora bom com isso, era companheiro e adorava ficar com , porque desde o primeiro minuto que a viu, se apaixonou por ela. Ele arriscava dizer que era porque ela era o rascunho da mãe. Se apaixonar por era como se apaixonar por pela segunda vez, ou mais, se apaixonar por tudo que vinha dela, com um plus de sentir-se pai sem ter o biótipo, como se de forma indireta, só provasse mais e mais para ele que o amor ia além de ambos, de sangue, de relação amorosa.

- Uma hora atrasados. – gritou assim que abriu a porta do lugar que havia alugado para a festa. – E ai, casal 20. – Fez um toque com , beijando a testa de em seguida, pois esta estava no colo do mesmo.
- Eu tenho duas mulheres idênticas em casa... Não tem como ser mais rápido. – respondeu humorado.
- Sinto muito, cara. – respondeu rindo, beijou o rosto de num estalo, dando uma piscadela em seguida. Ela sabia o que significava: A entrega tinha dado certo. – Divirtam-se!

Assim, o anfitrião deu espaço para que ambos entrassem, no ato, e simultaneamente agarraram as mãos do outro – entrelaçou sua mão desocupada na dela, já segurava com a outra.
Foi quando quase todos da festa pararam para olhar os dois entrando.
Tanto por conta do chamado de , ao ver entrando, quanto pela cena estranha que encontraram. Não porque ambos não combinavam, muito pelo contrário, mas porque eles pareciam uma família de filme. Nenhum deles havia cogitado a hipótese de parecer tão bem com outra pessoa que não fosse , mas lá estavam ela e sorrindo simpáticos.
Aquilo foi como um soco no estômago de , que acompanhava a movimentação dos dois do canto do lugar, sentado em uma das mesas, bebendo sua segunda garrafinha de cerveja.

- , meu Deus! – a mulher virou-se bruscamente ao ouvir seu nome, a voz era reconhecível em qualquer lugar, mas aquele rosto... sentiu um misto de estranheza e euforia ao vê-lo.
- ! – Abriu os braços sutilmente, seu sorriso se abriu de orelha a orelha. – Quanto tempo!
- Eu pensei que não viria!
- Eu não deixaria de vir... – deu um passo para o lado, sorriu estendendo a mão para o aperto, sendo retribuído com animação por . –
- .
- . - seus olhos voltaram-se para aninhada nos braços do homem. não disse nada, mas pensou.

Seu coração coçou de leve ao lembrar-se em flashes do dia em que nasceu. Foi aquela correria, um ligando pro outro, pra no fim, seu mundo parar ao olhar para aquele bebezinho todo pequeno e delicado nos braços de . lembrava-se nitidamente de se emocionar ao olhar para o amigo, e agora lá estava aquele bebezinho, com doze anos no colo do marido de , que por sinal era .
Sabe aqueles casais de colegial que só vemos em filme? Era a história de e . O famoso clichê dos melhores amigos que se apaixonam, e quando finalmente ficam juntos te tiram suspiros quando passam por você. Definitivamente, a história deles passou longe de ter um final feliz, e isso de certa forma causava um tanto de tristeza em . Se aquilo que ele via e acreditava ser amor, não era, então o que era amor?

- A ultima vez que tive notícia dessa garotinha foi no aniversario dela de um aninho... E agora ela tem doze! – Voltou a falar lentamente, apertando os lábios.
- Você sumiu... O que aconteceu? – perguntou cruzando os braços; nos dois anos seguintes que permaneceu em sua antiga cidade, sumira.
- Eu sinto muito, eu nem pude me despedir. – murmurou olhando para o líquido dentro de sua garrafa de cerveja. – Sabe que meu pai estava pilhado com aquela história, então na primeira oportunidadede cursar pra fora, ele me mandou. – Lançou um olhar. assentiu mordendo os lábios. – Ficamos por lá, me formei em administração... E agora estou ai, concorrendo ao título de empresário do ano.
- Caraca, isso é demais. Meus Parabéns!
- Obrigado... – Sorriu de cabeça baixa. – Eu precisava de um pouco daquilo. Você devia ter ido conhecer as fraternidades, são uma loucura, eu pensava em você á todo segundo.
- fez faculdade pra fora e me diz isso o tempo todo! - virou surpreso para o homem.
- Não brinca! Qual era a sua?
- Eu não fazia parte de nenhuma, mas andava com alguns de uma que eu esqueci o nome, mas andavam de azul. – Riu sendo acompanhado por
- Cara... – aumentou o tom sorrindo.
- Eu sei. Eles eram terríveis.
- Eles queriam matar um ao outro...
- Na verdade sempre tinham aquelas festas de fim de prova, e... Era meio que, furto de cerveja, meninas e tudo o que um universtário preza nessa época.
- Você não me contou sobre isso... – murmurou brincalhona.
- Eu não fazia parte disso. Eu observava. – respondeu á olhando de soslaio. Preferiu guardar a parte que andava com Danielle esse tempo. – - Tio e mamãe, posso ir brincar lá fora? – perguntou baixinho.
- Claro, pequena. – Beijou-a na testa, colocando-a no chão.
- Antes, coloca o casaco. – correu para pegá-lo.
- E aí, princesinha. – estendeu as mãos, fazendo um toque com .
- Não o tire. – falou voltando, enrolou no casaco, ajeitando em seguida.
- Tá, mãe! – Rolou os olhos.
- Sabe, pequena , tenho uma brincadeira que você pode adorar. – abaixou-se na altura dela, prestava atenção nele. Agora já havia abraçado pela cintura, observando a cena.
- Me conte mais sobre ela e talvez eu aceite. – A frase fez o homem gargalhar.
- Me diz como é ter uma mini em casa?
- É como se apaixonar duas vezes por duas pessoas diferentes no mesmo dia. – respondeu fazendo um estalo com os lábios.

Sem dar muita bola para , desistiu de esperar a explicação e saiu correndo em direção a Ethan e brincando com algo do lado de fora. seguiu a filha até metade do caminho, certificando de que realmente ela não tiraria o casaco.
Foi questão de um minuto, assim que virou-se para caminhar em direção a eles novamente, parou. agora estava gargalhando com , olhou ao redor, notando se achegar, acenou para o mesmo com um sorriso, fazendo gestos dizendo que conversaria com ele depois, e então o viu voltar-se a , cumprimentando-o animado.
Ela não iria se intrometer, a conversa não pertencia a ela mais. Na realidade, olhar para ele lá, rindo e se dando bem com seus velhos amigos fazia seu coração aquecer. Sempre evitou levar para perto de tudo que lembrasse seu passado, embora isso não afetasse diretamente seus amigos. sentia uma falta absurda deles sempre que se lembrava, mas ai também sempre surgia , e os boatos, e aquela dor de cabeça misturada com o estômago apertado ao lembrar-se de tudo, como uma ferida não cicatrizada. Sua antiga cidade era o limão que a fazia arder. Dava-lhe nos nervos, contudo se afastar dos amigos foi um efeito colateral de seu coração dolorosamente partido.

- Uou, olhe por onde anda, bombonzinho.
- Tchu?
- Eu mesmo. – Sorriu. sentiu o corpo, agora um tanto maior e mais musculoso do amigo lhe tomar por inteiro, num abraço que a envolveu completamente. – Senti sua falta, e dos apelidos.
- Onde você estava?
- Acabei de chegar. Mas se você se refere sobre minha vida, bom, digamos que eu decidi fugir da nosssa pequena cidade também. Formei-me em políticas publicas em Georgetown.
- Então você não estava brincando! – A mulher sorriu. riu só por ver o sorriso dela. Era uma das coisas que o encantava desde o jardim de infância, em um bom modo.
- Hã Hã. – negou com a cabeça. – Fiquei sabendo que você se formou em direitos.
- Não fui tão longe quanto vocês, mas... Digamos que sou boa no que faço.
-Partindo pelo fato de que você nem queria sair de lá, , isso é fantástico.
- Bom, ninguém queria na nossa época, de fato, até eu engravidar. Foi como se a ficha de todos caíssem, do tipo, ok, agora temos que parar e focar em algo.

apertou os lábios engolindo seco. Durante aquele pequeno diálogo ambos já haviam se direcionado para uma das mesas e já estava com um copo de destilado nas mãos. Ela ao ver que tinha soltado aquilo, fechou os olhos pesarosamente, passando a língua nos lábios.

- Sinto muito, eu não...
- Eu concordo que foi uma surpresa. Mas não foi por isso, eu nunca imaginei que me mudaria, até porque você foi embora antes... Eu te procurei no dia seguinte em que você foi. Deveria ter ido antes, mas eu fiquei tão... Eu... Eu vacilei.
- Não foi culpa de ninguém. Sei que vocês sentiram que sim... Águas passadas. – Deu de ombros. Seus olhares se desviaram para passando correndo dentre eles, a mesma deu um pulo nos braços de , recebendo inúmeros beijos do mesmo.
- Olha o tamanho dela. – tornou seu olhar a . – E agora a também é mãe... Você casou-se com alguém que não é o ... Parece que estamos em um universo paralelo.
- Eu sei. – lançou um olhar culposo para o amigo. sempre fora seu maior conselheiro, ou melhor, todos eles eram, mas e ela tinham uma leveza no papo que ninguém conseguia bater. – Eu não sabia que eu ia casar. simplesmente organizou tudo e quando eu vi, eu já estava vestida de noiva dizendo sim.
- ... – O homem tomou um gole de sua cerveja, segurou o líquido por alguns segundos na boca antes de engoli-lo totalmente, parecendo pensar durante o ato. Enquanto isso, dedilhava a borda da taça, fazendo um tipo de som estranho. – Então... Ele e você, ... ...
- Complicado. – Arqueou a sobrancelha. – voltou há algumas semanas, tem pirado ultimamente, as vezes acho que não vou dar conta... E aí eu percebo que tenho o marido mais consensual de todos.
- Bom, não é pra menos, você e o têm “aquilo”. – A mulher entortou a cabeça sorrindo confusa.
- “Aquilo”?
- Costumamos chamar de ‘’encaixe perfeito’’. – Ela sorriu de lado, abaixando a cabeça em seguida. – Sempre comentamos isso. Vocês combinam e parece que o universo sabe, e se aproveita disso, eu acho incrível! Nunca vi coisa parecida.
- Eu não o via há nove anos. Quero dizer, eu costumava achar estranho também, mas acho que até o universo nos esqueceu agora... Acabamos de vez. – Disse firme.
- ! – desviou o olhar, notando atrás de , levantou animado indo cumprimentá-lo com um abraço caloroso.

Não, ele não queria olhá-la, mas o corpo todo de emanava uma energia parecida com imã que atraia seu olhar para ela, ainda mais depois daquela frase, sua vontade era de agarrá-la pelos braços e perguntar o que significava o termo “acabar”, ele não queria acabar com nada, muito pelo contrário, ele queria reconquistar todo o amor perdido, amizade, sorrisos, tudo, e isso não queria dizer que queria acabar com o casamento dela, só queria arrumar um jeito melhor de arrumar aquilo antes que fosse tarde demais.

- Fala muso da Georgetown. – brincou. – . – Cumprimentou-a com o olhar.
- Digamos que sou quase um Barack Obama.
- Ah claro, tirando o fato de que você é branco e não tem metade da inteligência dele.
- Vai à merda, . Não perde a mania de me zuar.
- Alguns hábitos nunca mudam. – rolou os olhos se levantando.
- Sim, tipo você tomar destilado achando que é água. – arqueou a sobrancelha a vendo secar aquele copo enorme cheio de curaçau. –
- Eu preciso disso pra aguentar os baques da vida jurídica.

Ah, não sabia nem o mínimo do que significava “baques’’ e como aguentá-los, pensou ele, porém apenas levantou as mãos em negação.

- E vocês não perderam a mania de se irritarem.
- Isso não pode faltar.
- , eu amo seu marido. – e chegaram, acompanhados de . O mesmo estava ainda na fase de cessar o riso, ela o olhou sem dizer uma só palavra, embora ele houvesse entendido.
- Eu também o amo. – Respondeu piscando em direção a ele.
- O vai cantar hoje, é isso mesmo? – chegou de supetão, abraçando e pelos ombros. Viu fazer um biquinho silencioso, nem pra sim, nem pra não.
- Qual é, ? Canta pro mundo, mas não canta pra gente? – não sabia porque, mas aquela conexão entre os olhares de e causavam-lhe um tipo de arrepio na espinha. Não era natural.
- Se todos calarem a boca na hora, eu canto. – brincou, virando a quinta garrafa de cerveja.
- Prometo calar a boca desses caras. Agora vamos, quer jogar um jogo de dança.
- Eu não sei dançar! – contestou. –
- Se ferrou, . – Todos gritaram para ele, menos . Pareciam íntimos dele de anos. gargalhou. –
- Mostre seus dotes a eles. Não se reprima, amor. – se aconchegou no marido, deslizando os braços por dentro do paletó entre a parte das costelas e peitoral. – Eu sei que você tem potencial de sobra, só finge ser esse advogado da pesada. br> - , não vale molestar, ele vai ser seu rival! – gritou do outro lado, já preparando-se com para fazer o par para o Just Dance. –
- Eu não sei fingir nada. sussurrou chegando perto da boca da mulher, segurou o rosto dela com as duas mãos, beijando o canto de seus lábios, o suficiente para deixá-la completamente mole.- Você é quem tem que segurar... – Brincou. –
- Tentarei. – A mulher mordeu os lábios se afastando dele. Logo estendeu suas mãos para que ele as agarrasse e assim foi feito.
- Vamos, ? – parou bruscamente, virando-se para .

Este acompanhava toda a situação de fora. não sabia o que estava sentindo. Completamente feliz por ver seus amigos ali, mas de uma forma diferente. Tudo passava por diante de seus olhos como uma cena de anos, mas agora a imagem incluía , era como se ele estivesse assistindo um filme do qual não fazia parte, de fora. Todos eles rindo, se abraçando, se xingando, e ele encantado olhando-a com .
E se, por acaso, nada tivesse dado errado, por benção do destino ele e poderiam estar juntos, no entanto, ela estaria tão radiante com ele como parecia ser com ?

- ? – Foi a vez de o chamar. –
- Com certeza. – Remexeu os cabelos sorrindo sem graça.

O resto da festa se baseou em danças, risos, derrapando, cantando desafinado, e os dois mascotes da festa – e Ethan – dançando no meio deles. Em certo momento grudou nas mãos de , puxou com a outra, e os três iniciariam uma sincronia de pezinhos, passos e muita ginga no meio daquele salão. Os personagens do jogo foram esquecidos quando aquilo aconteceu. e todos pararam involuntariamente para ver o show que os três estavam dando.
Não havia nada além de um amor recíproco trocado pelos dois em favor de .
Não durou mais que cinco minutos, saiu gargalhando ainda se remexendo, indo atrás de , abraçou-a pela cintura, agora contagiando o corpo dela também, de um lado para o outro, enquanto colava sua bochecha na dela. sentiu o nariz do homem roçar por ela, e depois por seu pescoço, enquanto ainda dançavam no mesmo ritmo. Fechou os olhos sorrindo e agarrando os cabelos da nuca dele.

- Eu vou pegar alguns cobertores pra colocar as crianças no sofá. – sussurrou no ouvido do marido. –
- Mas eles estão tão bem assim... – Murmurou de volta– Nós estamos.
- Não posso discordar. – se afastou para olhá-lo nos olhos, segurou seu rosto distribuindo alguns selinhos. – Eles estão cansados, não vai demorar... Eu já volto.

caminhou até o espaço interno, atrás dos balcões de bar, onde havia indicado ter posto os cobertores necessários caso as crianças sentissem sono. Foi rindo, quase levitando até lá, transando as pernas de leve. Definitivamente, naquele exato momento ela jamais poderia ter imaginado que a festa iria desenrolar daquela forma.
Revirou algumas caixas, encontrou bebidas e mais bebidas, lembrou-se de imediato da caixa da tal bebida que gostava, aquela que proporcionou que fosse até a casa de ... Puxou uma garrafa para fora da caixa, analisando-a, só não soube por quê, queria descobrir o que tinha de tão interessante nela.

- O vai ficar bolado se você tomar uma dele. – deu um pulo ao ouvir a voz de , estava baixa, um tanto arranhada, talvez pela bebida ou... Virou-se para ele já guardando a mesma na caixa.
- Eu só estava tentando achar o que ela tinha de tão diferente pra fazer o pirar a ponto de me mandar pra sua casa. – Deu alguns passos em direção a ele, rindo.
- Não foi tão ruim assim, vai? – riu de lado, o acompanhou.

Por alguns segundos eles ficaram em silêncio, não um desconfortável. Enquanto vasculhava a cabeça para procurar algo pra falar, observava um detalhe: Nas mãos do homem havia um papel higiênico levemente manchado com uma cor avermelhada. Gradativamente os olhos dela foram se encaminhando para a feição de , uma nova fresta do liquido que provavelmente sujara o papel estava escorrendo. Era sangue. estava sangrando.

- , você está sangrando! – Aumentou o tom, se aproximando de supetão para perto dele. Seus olhos estalaram ao ouvir, logo limpando o sangue, e tapando o buraco do qual ele saia. – Você... Alguém te...
- Seu marido não acabou comigo. Relaxa. – sorriu sem graça, um tanto fanho ao falar por estar tapando o sangue do nariz. –
- Eu sei que ele não fez nada. – Bufou. – Achei que talvez um dos outros...
- Não. Meu nariz sangra às vezes.
- Desde? – Observou-a analisá-lo com os olhos; seu rosto esquentou com aquilo. odiava a forma como conseguia deixá-lo vulnerável, quase como se estivesse literalmente nu de alma com ela.
- Virou um interrogatório agora? Preciso chamar seu marido pra me advogar. – riu divertido.
- Eu sou a advogada.
- Da parte contrária, não pode me obrigar a falar.
- Nunca pude, na verdade. – Ela murmurou chateada. Foi um segundo. Um segundo foi o suficiente para que todo aquele clima leve se transformasse numa nuvem densa.

e não costumavam falar quando tinham esses conflitos. Suas mentes pareciam estar interligadas por algum fiozinho imaginário que não os fazia ter a necessidade de falar, porque sabiam exatamente o que o outro estava pensando, e sinceramente? Era assustador.

- Eu tentei. – Soltou. engoliu em seco, se afastando um passo. – Eu tentei falar, eu juro que eu tentei, eu só...
- Sabe, ... Depois de algum tempo eu parei de me lamentar e achar que você voltaria. Eu realmente sofri, me adaptar sem você foi ridiculamente difícil...
- ...
- Eu preciso falar, e essa é a chance de eu falar, então... – o dedo indicador dela estava levantado, o fazendo ficar calado. Com um suspiro ele travou o que tinha pra dizer. sabia que tinha bebido. – E aí eu conheci o , e ele foi tão...
- Eu sei. Exatos sete meses depois de terminarmos. – cortou-a. Seu sangue ferveu nas veias. – Sete meses?
- Sete meses, o quê? – entortou a cabeça. – Eu fiquei tão fodida, ! – A mulher abriu os braços, irritada, os colocando na cabeça depois. – Eu te amava tanto, tanto, que eu achava impossível amar alguém além de você, e aí eu o conheci, realmente, sete meses depois que nos conhecemos e depois de um de um bom tempo fomos nos relacionar, então...
- Foram sete meses, . – Afirmou duro.
- De onde você tirou essa merda? – murmurou. Seus olhos se avermelharam de leve. – Inventou outra desculpa pra dizer que não me amava?
- Eu? – fora a vez de ele abrir os braços, chegando um passo perto da mulher. – Eu te liguei toda porra de mês, . No momento em que eu cheguei naquela merda de cidade, tudo deu errado! – Os olhos dele se avermelharam mais brutalmente que os dela, conseguiu ver uma das veias dele saltar. – Se ao menos eu ouvisse sua voz, eu sei que de alguma forma algo se encaixaria então eu te liguei...
- Não vem com essa... – Murmurou sorrindo em descaso. Sentia-se ofegante. –
- Eu cheguei e te liguei. – Repetiu se aproximando um pouco mais, com a voz um tanto mais mansa. – E te liguei na semana seguinte, no mês seguinte, por uma porra de sete meses, e quando eu finalmente ouvi sua voz, e não a da passando o recado por você, eu te odiei! Mais ainda por sentir meu coração bater violentamente por você mesmo sabendo que você tinha outro, eu ME odiei por isso, por deixar toda essa merda acontecer. Porque eu te amava.
- Do que você está falando? – Ele viu-a se afastar os passos que tinha se aproximado, os olhos da mulher semicerraram a ponto de deixar suas bordas ainda mais encharcadas. – Você só me ligou depois de sete meses!
- Eu posso ter sido um filho da puta, , mas eu não sou mentiroso e você sabe disso. – Ele parou de falar quando viu aparecer cautelosamente, em passos extremamente lentos até eles. Seus olhos estavam vidrados nos dois.
- O que está acontecendo aqui?
- Merda. – botou as mãos na cabeça. –br> - O que você quer dizer, !? – aumentou o tom. – Do que ele está falando, ? – Virou-se para a amiga.
- O que você disse, ? – perguntou entredentes.
- Eu achei que você me odiasse, mas á esse ponto? – tombou a cabeça nos ombros, abanando em seguida de olhos fechados. Seu corpo começou a doer por todas as extremidades. –
- Do que ele está falando?
- !
- Eu sinto muito, , mas dessa vez você não pode me culpar. – Ele comprimiu os lábios.
- Alguém de vocês pode me responder? – entrou no meio, entorpecida de raiva. –
- Eu escondi as ligações porque eu te amo, . Foi minha maneira de te proteger. – soltou de supetão. Saiu como um cuspe, seu corpo pesou todo a ponto de que até chegasse a ficar um tanto corcunda. A sensação que teve foi do peito afundando. –
- Você o quê?
- ligou. – respondeu, engolindo em seco. – Por sete meses. Ele ligou todos os dias.

Naquela altura já estava saindo do local. Tudo o que ele dissera não fora nenhuma mentira, embora soubesse que provavelmente estivesse o odiando o dobro do que já o odiava, ele não tinha culpa dessa vez. Talvez tivesse culpa por o odiar, ou melhor, tinha certeza, mas aquele fardo em si, de ter escondido suas ligações, não era dele.
Sentiu-se um covarde ao sair da sala e ir embora à surdina, mas precisava. Seu corpo todo doía, sem falar naquele sangue jorrando do nariz. Não queria explicar, ou correr o risco de uma briga maior, só o que ele queria era a paz. Olhar para ainda lhe causava dor, ainda mais por não tê-la, e pior, por saber que apesar de tudo ela tinha esperanças nele, por pensar que quando ela ainda as alimentava, alguém havia as cortado e esse alguém ele costumava chamar de melhor amiga.
Obviamente, como já dito, não culpava pelo ódio, mas sempre tem aquele resquício dentro de qualquer ser humano normal, que esperava que entendesse. A frustração genérica sempre girou em torno disso e ele sabia: O fato de esperar algo que ele nunca receberia, nem em sonho.

- E você só... Deixou-me pensar que ele tinha me deixado?
- Ele deixou! riu sem humor. –E eu não queria te ver sofrer! Você estava acabada, eu odiava te ver chorando, eu... Eu não sabia o que fazer. Eu estava mais desesperada do que você!
- E aí você decidiu fazer a escolha por mim?
- Você não estava em condições de pensar algo racional.
- Aparentemente eu nunca estive, não é? – rebateu raivosa.
- O que você quer dizer?
- Que todas as minhas escolhas inconsequentes te fizeram pensar que poderia fazer a melhor escolha por mim.
- Pra te proteger! – gritou. O peito da mulher doía a cada respirada. – Pra te proteger, amiga. Eu sabia que ele iria te abalar, e eu estava tão irritada... – Murmurou chorosa. – Irritada por tudo que ele tinha feito com você, e por nos deixar. Todos nós, eu era amiga dele também... Eu nunca entendi...
- Eu não sei o que dizer. – deu um suspiro. – Eu vou embora.
- Você vai fazer isso?
- O que você esperava que eu fizesse? Porque não me contou antes?
- Porque eu sei que no meu lugar você faria o mesmo.
- Então você não me conhece.
- Eu sinto muito. Mesmo. Não achei que isso faria diferença agora.
- Como poderia não fazer diferença? Eu o odiei por ter me esquecido enquanto ele me ligava! – Grunhiu chorosa. –
- Não muda o fato de que ele te deixou.
- Muda o fato de que ele não tinha nos esquecido.

permaneceu em silencio sendo necrozada pelo olhar decepcionado de , não tinha ao menos coragem de abrir a boca. Sabia que uma hora ela ia descobrir, contudo nunca imaginou que ficaria tão abalada como viu naquele momento. Não havia nada que pudesse fazer naquela altura do campeonato, não podia voltar, já hava pedido desculpas e há tempos havia se arrependido do que tinha feito, portanto, em passos lentos se retirou do local, deixando-a lá sozinha. precisava de um tempo; Foi por isso que ficou lá de olhos fechados tentando absorver o máximo que podia, ou melhor, digerindo. Dava graças por não ter se envolvido, muito embora soubesse que ele desconfiaria, ele sempre desconfiava. Deus, como ela pedia que não. Seu peito chegava a latejar.
Nove anos. Nove anos pra saber disso? Por que ele não calou a boca? Ela não queria saber, queria continuar aproveitando a noite e achando que tudo estava finalmente se encaixando.
É claro que não podia ser tão dramática, mas partindo do ponto da dimensão que aquilo poderia ter se tornado na época com uma explicação dele... Sinceramente, talvez tivesse razão e ela sabia disso. sempre tinha razão. jamais agiria com racionalidade, talvez implodisse por dentro, no entanto não podia deixar de pensar em todo o resto se aquilo não tivesse acontecido e sentia-se mal por isso. Não queria sentir tanto por isso, mas sentia. Seu coração doía, sua mente, seu corpo.

- Ei, demorou... Já acabou aquela que você gosta... – sorriu amistoso ao vê-la caminhar em direção a ele.
- Eu acho que bebi um pouco demais, podemos ir? – murmurou. Imediatamente endireitou a postura um tanto preocupado. Lá estava aquele olhar que ela não queria receber. De longe remexeu-se desconfortável quase levantando-se para ir desculpar-se mais uma vez.
- Aconteceu algo?
- Eu só... Podemos? – Mordeu os lábios, ele pode notar seus olhos de leve avermelhados.
- Tudo bem. Só vou pegar a que dormiu e já vamos. Depositou um beijo cauteloso na bochecha da mulher.

aproveitou para colocar o casaco e pegar o de . Foi caminhando em passos lentos até a porta, dando de cara com , e parados na mesma, do lado de fora do estabelecimento fumando.
Esse hábito pelo menos era o mesmo.

-Hey... – ouviu assim que os amigos a notaram. – Onde você pensa que vai? – murmurou indo abraçá-la pelos ombros. – Nem conversamos...
- Teremos tempo, se você não sumir de novo, passo no seu novo escritório... – Ela respondeu estalando um beijo no rosto do homem.
- Sua consulta com o psicólogo aqui vai ser de graça só por correr o risco de você me desgraçar na consulta com esse seu sorriso.
- Acho que alguém bebeu demais. – brincou rindo, fez uma feição afetada.
- Todos estávamos precisando disso... Uma reunião! – se intrometeu. – Amo vocês, Lads.
- Oh... – riu cruzando os braços. Passou os olhos por todos, parando em . Ele em si a olhava fixamente, quando notou aquilo riu sem graça, indo até ele para não atrapalhar a conversa que agora e tinham iniciado.
- O que foi? Tem alface no meu dente? – A mulher brincou chocando seu ombro com o de .
- Eu não diria se tivesse, você sabe... – Eles riram um pouco mais. – Eu queria saber se está tudo bem com você de verdade?

ergueu os olhos para ele no mesmo segundo. Ah, quis chorar. Sentiu-se a mesma de dezessete anos quando contou para sobre sua gravidez, ele foi o primeiro que soube, não por escolha, mas porque foi quem a achou no meio daquelas ruas gélidas com o resultado em mãos, muito embora de certa forma fosse a pessoa mais certa para encontrá-la.
Olhando ali pra ele sentiu-se como se estivesse voltado naquele momento, assim como na época, a envolveu num abraço sem dizer nada. Na época, havia acabado de sair do médico quando o recebeu... As ruas estavam vazias, era um feriado e bom, quase ninguém ficava lá em feriados. encontrou uma garota desolada, agarrada sob o casaco vermelho, toca preta e botas ugg da mesma cor. Sabia que era de longe, mas ao mesmo tempo a mesma era irreconhecível.
Um nó formou-se na garganta de apenas por lembrar-se da cena, do olhar, do choro continuo e desesperado da amiga em seus ombros, sem que ele pudesse fazer nada para ajudar.

- Ela pediu pra dormir na casa do . – cortou o silêncio dentro do carro. – Está tudo bem com você?

Fazia alguns minutos desde que haviam saído da festa e permanecia quieta e estática. Não se mexia nem mesmo os olhos. Estes estavam vidrados em algo do lado de fora, e sabia que estava em outro mundo, na verdade.

- ?
- Oi? Desculpa, amor, repete. – chacoalhou a cabeça.
- Vou levar a no . Ela pediu antes de dormir, achei que...
- Está tarde...
- Eu prometi. Eu não posso quebrar a promessa. – trocou olhares com e a estrada por dois segundos. – A não ser que...
- Não, tudo bem... Você sabe onde fica? – Perguntou aleatoriamente.
- Sim, o me passou antes de ir. – Respondeu, arqueou a sobrancelha levemente. e trocando... Palavras? E não insultos? – Aliás, você sabe algo sobre o sair correndo da festa?
- Não. Por que eu saberia? – Murmurou fazendo gestos com as mãos. Ah, se ele soubesse... sentiu o peito apertar só de lembrar-se.
- Porque assim como ele, você está estranha desde que voltou do...
- Não, eu nem o vi saindo. Não estava com ele, eu nem sabia que tinha ido embora pra você ter uma ideia.
- Tudo bem. Se você está dizendo. – deu de ombros girando o volante, entrando na rua onde morava.

Foi diminuindo a velocidade, tentando achar a tal porta vermelha que havia indicado, mas eram tantas cores... Pior referência, era daltônico e tinha se esquecido disso. riu de leve ao perceber aquilo. Era por isso que amava aquele homem, ele era tão avoado as vezes que chegava a ser horrivelmente fofo.

- Qual é o número, ? – A mulher cortou o silêncio como se fosse óbvio. –
- Ele disse que era um de porta vermelha.
- Se esqueceu de dizer que era daltônico?
- Am... – torceu os lábios. – Liga pra ele.

relutou em pegar o celular. Sabia onde era, mas não podia saber, e o medo pairava em torno de que, se comentasse algo do tipo, ela estaria realmente ferrada, sem falar que a ultima coisa que gostaria era de ouvir a voz de naquela noite. Tinha ouvido o suficiente. Mas, por fim, pegou o celular e discou o número dele, reparando que realmente já era tarde, por volta das uma e meia da manhã.

- Oi. – Ouviu, viu o marido virar-se para encará-la ainda com as mãos no volante, mas parado no meio da rua.
- Ei, estamos na rua da sua casa... Qual é o numero do seu apartamento?
- O único de porta vermelha nessa rua é o meu, eu disse pro seu marido. – respondeu sonolento.
- Está escuro, , e bom, porta vermelha não é bem uma boa referência pra quem é daltônico. – ouviu o riso espontâneo do amigo soar do outro lado, mordendo os lábios para não se render aquilo.
- Ok. 542. Vou sair.

Em menos de um minuto viram um rapaz acenando tendo a certeza de que era ele. parou em frente à casa, descendo do carro em seguida, em si, ficou lá dentro por um tempo, dando longas respiradas, só saiu quando carregou a menininha para fora. Enrolou-a em um cobertor com a ajuda da mulher, já sendo orientado por sobre onde colocá-la.
foi os seguindo, fingindo ser a primeira vez que adentrava naquele local e sentia aquele perfume. Agora a casa de estava muito mais arrumada; as coisas estavam no lugar, e ele parecia estar compondo algo na sala. Ficou parada no meio dela enquanto ouvia alguns sons vindos do quarto de . Quis mais que tudo ler o que ele estava escrevendo, ao lado, encostado no sofá, estava o violão.
Inevitavelmente imaginou-se sentada no mesmo ouvindo-o cantar, como fazia quando mais nova, ainda grávida. Ele tinha aquela mania de compor de madrugada, portanto dormia na sala o ouvindo-o repetir os mesmos versos. Algumas vezes sentia-o beijá-la de leve no rosto, cobri-la, acariciar sua barriga... Talvez, por culpa desses pequenos detalhes, ela tivesse sofrido tanto. Recusava-se pensar que aquilo tudo não tivesse passado de um nada... Que ele simplesmente tivesse se esquecido.

- [...] Eu concordo. Podemos ir até aquele negocio cheio de brinquedos... De lá decidimos onde vamos. – gesticulava para recebendo um aceno positivo como resposta. – Amor, você sabe onde estão aqueles cadernos de desenho da ? Ela pediu que eu deixasse. – Falou. Seu corpo ficou leve com a chegada dele, como se todas aquelas lembranças fossem uma areia movediça que a puxava para baixo. Não dizia que era ruim, mas que a deixavam pesada, á grosso modo.
- No porta malas. – Apontou. – Eu pego.
- Não, é rápido. Deixa comigo.

E ela continuou lá parada, acompanhando sumir pelo corredor em passos rápidos.

- Então vocês realmente vão sair com ela? – sorriu verdadeiramente animada pela situação. –
- O que não fazemos pela gatinha? – Deu de ombros; viu abaixar a cabeça por alguns segundos. – Você não contou pra ele que veio aqui, contou?
- Eu não achei necessário...
- Eu sinto muito por aquele dialogo, . Eu achei que você soubesse
- Tudo bem. Só é muita coisa pra entender...
- Imagino.
- Então, é melhor eu ir indo. Se precisar de algo liga pra gente... – se virou sorrindo de lado.
- ?
- Sim?
- Eu queria explicar sobre tudo isso, e eu verdadeiramente...
- Ei, então, tudo certo? – apareceu entregando os tais cadernos. sorriu sem graça, agradecendo desta forma assim que os pegou.
- Claro. Como eu disse, , se precisar de qualquer coisa, liga pra gente. – O olhou espremendo os olhos esperando que ele continuasse falando, coisa que ele não o fez. –
- Irei.
- Até mais.
- Boa noite, se cuidem.

E junto com a porta se fechando, se extinguia mais uma chance de contar tudo pra ela, fazendo se perguntar com toda a fé que lhe ainda restava, que merda o universo queria dele. Porque sinceramente, ele não sabia dizer o que estava fazendo.

- O que você fez foi incrível. – falou em um determinado momento do trajeto até sua casa. Sentiu arrastar a mão que antes estava no câmbio, para suas coxas, dando um leve aperto por baixo do vestido.
- Eu disse que pegaria leve... – Sorriu amistoso. – Seus amigos são ótimos, . Por que nunca quis apresentá-los?
- Não foi bem assim. Não tive oportunidade de reuni-los, apenas.
- Esse é um problema que está superado agora. – Sentiu-o apertá-la novamente. – Estou orgulhoso dessa noite. – sorriu de lado, estacionando o carro na garagem de casa.
- Eu te amo, muito obrigada.
- Ai de você se não amasse. – O homem a olhou com aquele sorriso torto que só ele conseguia dar, a fazendo sorrir também.

de imediato desafivelou o cinto para conseguir chegar até a boca do marido, assim que o fez, se debruçou sobre o corpo dele de uma maneira desajeitada o beijando melhor em seguida. Seus lábios delinearam os dela com delicadeza o fazendo sorrir de leve durante o beijo, entendendo a intenção de onde ela queria chegar, mesmo assim, não fez menção nenhuma de puxá-la para o colo dele, não ainda. Queria a provocar e conseguiu com êxito.
Então ela continuou: deslizou suas mãos pelo peitoral do homem, desabotoando os primeiros botões da camisa enquanto ainda o beijava, voltou a segurar seu rosto se jogando ainda mais para cima de seu corpo, não que fosse sua intenção direta, mas estava quase sendo inevitável.

- Dá tempo de chegar lá em cima.
- Precisamos chegar lá em cima? – entortou a cabeça um tanto ofegante, assim como ele. fingiu pensar, aquilo a deixava um tanto irritada a ponto de se apaixonar por ele ainda mais por isso.
- Deus, por que você é assim? – A mulher grunhiu botando as mãos no rosto.
- Porque se eu não fosse assim você não seria minha mulher hoje.
- Então você tem esse jeito por minha causa?
- Talvez você seja apenas um efeito colateral da minha masculinidade um tanto quanto grossa, por dentro melada... – maleou a cabeça fazendo-a gargalhar.
- Cala a boca, .
- Você pode fazer isso por mim.

sorriu, e agora, lentamente foi indo em direção aos seus lábios.
Continuou de onde tinha parado, porém um pouco menos afobada, com muito mais carinho do que antes. com toda sutileza do mundo, puxou o banco do motorista um pouco mais pra trás, o suficiente para que a coubesse em seu colo, e só assim puxou-a para ele, sorrindo um pouco antes de voltar a beijá-la. Deslizou as mãos pelo corpo da mulher de cima a baixo, até onde a posição que estavam permitia, sem malicia alguma, muito embora a situação em que estavam exigisse um pouco, ele não sentia tanto que era algo estritamente sexual. Era apaixonado sempre que sentia ter “posse” sobre o corpo dela.
tinha pra si, que aquele corpo havia se tornado um tipo de entorpecente, e olha que ele era contra as drogas. Das lícitas, ela deveria ser ilícita, pois de todas as formas ela o tirava do seu controle psíquico, racional, físico; tudo o que caracteriza uma droga. Mas é o que dizem, sempre nos apaixonamos por aquilo que nos tira do nosso total controle, do contrário não seria tão inebriante.





Capítulo Nove – I Feel it coming.

Dor.
Era a única coisa que conseguia pensar no momento em que abriu os olhos naquela manhã. Sua cabeça estava literalmente latejando, até mesmo quando fechou os olhos. De fato, ela não deveria ter tomado tantos destilados como se fossem “água”, na noite passada.
Será que talvez por culpa deles as coisas tivessem parecido tão mais intensas do que realmente pareciam naquela manhã.
Com uma força extra a mulher levantou-se da cama, correndo seu olhar por segundos pelas costas desnudas do marido, deitado de bruços do lado esquerdo da cama. O quarto estava um gelo, o que a fez pensar na subida de ambos, tão rápida e atordoada para o quarto na noite anterior que até mesmo os fizera esquecer-se de ligar o aquecedor; alisou as costas de de leve notando que mesmo assim, ele continuava quente. Como podia? estava congelando.
Com mais algumas respiradas, enrolou os cabelos, vestiu o blusão preto de jogar bola do mesmo, o cobriu por inteiro e assim desceu para a cozinha, fuçando sua caixa de remédios à procura de um analgésico. Pegou a primeira coisa comestível que viu de cara na geladeira, sentou-se no balcão, e ao lado dela, deixou separado um comprido para também.
perdeu a noção de quanto tempo ficou ali saboreando o iogurte natural. Nunca demorou tanto pra comer um como naquele momento. Foi sentindo de maneira gradativa a dor ir diminuindo, se esvaindo, e só foi sobrando novamente um sentimento comparado a nada, só o silêncio em meio aos seus pensamentos, o que era potencialmente engraçado, tendo em vista do quanto ela havia descoberto na noite anterior, e na noite anterior aquela.
Carmen. Ligações. . . . . Todos os seus amigos reunidos. Uma surra de passado e memórias provinda de todos os lados. E ela estava lá, sem conseguir sentir exatamente nada sobre aquilo. O quão bom ou ruim isso podia ser, para uma pessoa que sentia tudo tão intensamente, como ela?

- Há quanto tempo você está aí? – levantou os olhos observando vir em sua direção em passos lentos com seu moletom cinza, e sem camisa. Era louvável, pois ela estava usando o blusão daquele conjunto dele.
- Eu realmente não faço ideia. – Murmurou colocando o iogurte de lado.
- Eu me lembrei de algo hoje... – se aproximou ainda mais, sorriu ao ver o comprimido separado ao lado dela. Fez uma pausa durante aquele segundo para tomá-lo.
- Há quanto tempo você está acordado?
- Desde que você passou a mão nas minhas costas.
- Eu estava checando sua temperatura. Nos esquecemos de ligar o aquecedor. – O homem deu de ombros, se apoiando com os cotovelos no balcão, ao lado dela. observou-o por longos segundos. – Você disse que se lembrou de algo...?
- É. – levantou o dedo indicador mudando de posição. – O tempo que você levou pra parar de me chamar de professor... Lembra? – A olhou. –

No mesmo segundo disparou a rir, colocando as mãos no rosto como gesto involuntário. Era engraçado porque não gostava, odiava, pra falar a verdade. Muitas das vezes ela fazia pra irritá-lo, ou só pra vê-lo cerrar as sobrancelhas, bravo, a repreendendo, e sinceramente, lembrar-se da sensação quente que lhe tomava quando ele fazia aquilo era gostoso.

- Você ficava tão bravo quando eu fazia isso.
- É claro que ficava. Você era minha namorada e me chamava de professor? – Fez gestos com as mãos. riu um pouco mais. –
- Porque você era meu professor também.
- Ok. Ok. – Respirou fundo, dessa vez encaixando-se em meio as pernas dela que ainda estava sentada no balcão. entrelaçou-as na cintura do homem a mesma medida, o abraçando pelos ombros em seguida. – Eu não posso negar que era um fetiche e tanto, mas mesmo assim me achava pervertido.
- De fato, fomos. – deu um selinho no homem.
- Tinha como não ser?
- O que você quer dizer? – A mulher entortou a cabeça.
- Nem eu sei o que eu quero dizer. – franziu a testa de forma que conseguiu até mesmo confundi-la com seus próprios pensamentos. – Não sei como aconteceu, eu nunca tive pretensão de nada.
- Não acho que tenha nada a ver com pretender algo... – apertou os lábios.

Lá no subentendido ficou claro para eles que, realmente, nada tinha a ver pretensão, com o que aconteceu entre eles. Ninguém naquele patamar que se conheceram consideraria um relacionamento, não que fosse a pior loucura do século, mas era uma coisa enorme a se considerar. Um caso entre professor e aluna pra eles não era e nunca foi de primeira uma perversidade, na realidade nem caso era, antes de ambos se apaixonarem de pessoa pra pessoa. Foi gradual e inesperado, e era nesse ponto que tocava quando deixava nas entrelinhas o que pensava sobre aquilo: Acreditava ela, assim como , que não era necessária a pretensão para amar alguém.

***


- Ok, mocinha, o que você quer de mim?
- Você realmente quer ir comigo e o tio Léo? – Soltou concisa. soltou uma gargalhada um tanto surpresa.
- Deus, você é tão apaixonante quanto sua mãe. – Fez pausa. Abaixou-se a altura da garotinha, seus olhos idênticos refletiram-se um no outro. – É claro que está tudo bem pra mim. Somos adultos, não há nada que você precise se preocupar.
- É isso que minha mãe diz o tempo todo...
- E acredite, sua mãe sempre tem razão. Confio nela de olhos fechados, você deveria também.

se inundou num silêncio suspeito após aquele pequeno diálogo que haviam trocado. Por algum motivo sentiu que tinha algo errado. Sabia que naquela pequena mente brilhante e ingênua se passavam mil preocupações sobre eles das quais ela nem mesmo deveria ter ciência simplesmente por ter apenas doze anos. A intenção não era omitir ou fingir que nada estava acontecendo na vida deles naquele momento, mas sim, provar pra ela que no fim tudo estava caminhando e dando certo, de um jeito complicado ou não, não tinha nada a ver com aquilo, contudo mesmo assim, a preocupação de era entorno disso.
O fato de ter doze anos era o x da questão justamente por ela entender muito das coisas e ser extremamente esperta, sacava as coisas no ar. Coisas que mais uma vez, ela não deveria. Como o caso de ele e parecerem supostamente “rivais” dentro daquele vínculo que ela estava no meio, e não era nada disso.
Dentre as pequenas notas que ele lançava no ar, quebrando a pequena brisa que adentrava pela varanda exposta de sua sala, a garotinha por um segundo, pois se a olhar o pai dedilhando as cordas de seu violão numa música conhecida. entornou a cabeça, deixando o caderno de desenhos de lado – Tio queria torná-la sua aspirante em arte. – e aproximou-se do pai, vendo aquilo ele sorriu de lado, continuando a tocar, e por dentre aqueles segundos ele observou a filha hipnotizada pela canção.

- Gostou da música? - Murmurou ainda tocando alguns acordes suaves.
- Me sinto diferente. – A garotinha sorriu desconcertada. A curvinha que os lábios dela fizeram eram exatamente iguais às que havia feito no dia em que apresentou a música a ela. – É nova?
- Na verdade, essa música tem exatos doze anos. Como você. – Deu um suspiro longo, deixando o violão de lado. parecia pensar concentrada nisso, tanto que não alterou a feição quando a puxou para seu colo, aninhando-a em seguida.
- Você a compôs quando eu era bebê?
- Quando sua mãe ficou grávida, precisamente. – Murmurou. Os olhos dela cintilaram na claridade do local, entre o espaço que se formava simetricamente entre ela e se olhando. – Ela estava nervosa porque tivemos que morar juntos muito cedo, não tínhamos nem saído do colégio, mas ela gostava de música, e não tínhamos som.
- Cara, que época vocês viviam? Não existia celular com youtube? – riu gostoso acenando negativamente.
- Até existia, só não estava ao nosso alcance. Mas enfim, eu preferia cantar. E nessas noites eu sempre cantava pra ajudá-la a dormir, você se mexia demais! – Ela sorriu afetada claramente desculpando-se por algo que nem tinha consciência.
- Você não se sentia triste também?
- Eu acho que você não vai entender agora, mas era muito maior do eu... Então eu só cantava. – abaixou o olhar por um segundo, tentando entender.
- Pai?
- Sim?
- Por que você nos deixou?
A pergunta o fez paralisar. As notas musicais foram morrendo à medida que o homem tentava encontrar uma resposta plausível, ou melhor, enquanto pergunta-se até onde matutava sobre todo aquele transtorno desde nova. Nunca descartou a hipótese de que ela guardasse algum tipo de memória do dia em que partiu e de todos os nove anos seguidos a isso, contudo, a garota nunca havia perguntado tão diretamente a ele.

- Eu estou aqui agora. – Proferiu um tempo depois, acariciando os cabelos da filha com uma das mãos. – E eu não pretendo partir novamente, gatinha.
- Promete?
- Prometo.

Engoliu seco ao sentir a menina agarrá-lo pela cintura após dizer aquilo. Carinhosamente beijou os cabelos macios e cheirosos de , fechando os olhos no ato. Sabia que prometer algo que não tinha autonomia sobre, podia lhe causar problemas, afinal, ele não era Deus, porém por mais que soubesse no fundo disso, o amor que sentia por o fazia prometer e fazer coisas que até mesmo estavam fora da sua alçada. É, esse é o dom de todo pai.

[...]


Em meio aos gritos de anunciando o quase atraso que sofreriam se ela passasse mais um minuto decidindo que casaco levaria, ao botar os olhos na filha correndo pela porta, ficou paralisado. Porque ele tinha aquela coisa de pai babão igualzinho a , misturados com uma sensação de formigamento nas mãos, a mesma que sentia de sua melhor amiga naquela puberdade que passaram juntos.
Não via necessidade alguma de vê-las tão arrumadas daquela maneira. Por óbvio, era ingênua demais, contudo, o que de fato chamou a atenção de era a forma como cada vez mais lembrava sua mãe, essa era definitivamente uma coisa que ele não estava sabendo lidar.
Durante o trajeto todo, os dois foram cantarolando variadas músicas no carro, fazendo dancinhas e tudo o que sempre faziam: Palhaçada. era o bobo em pessoa do tipo que, quando se juntava com crianças piorava. achava incrível a criatividade dele em fazer graça e inventar brincadeiras sem sentido, coisa que só – e olha lá! – uma criança de cinco anos pensaria em fazer. Enfim, como o combinado, ambos se encontrariam com num shopping que ficava aproximadamente na mesma distância que a casa de e o escritório do homem.
Assim que chegaram ao local avistaram de primeira, duas amiguinhas de junto a uma mulher, foi chegando perto já sentindo um aperto mais entusiasmado da filha nas mãos. A energia elétrica que foi trocada por eles, dos pés a cabeça, o fez reascender como há muito tempo não sentia. Seu coração bateu leve dentro do peito, pronto para enfrentar qualquer coisa naquele dia.

- Ei, como vai? – A moça primeiramente se direcionou a , e só então voltou-se a .
- , pai da . – Estendeu uma das mãos que fora retribuída no mesmo segundo. Em seguida veio um olhar sugestivo. A moça tinha o reconhecido. – Pai biológico.
- Ah, claro. Tiffany comentou sobre isso... – Acenou com a cabeça. – É legal isso. – Comentou um tempo depois. entortou a cabeça desentendido para a moça.
- Legal?
- Aceitar o outro. Quer dizer, somos mais familiarizados com o ... Mas a Marjorie disse que você acabou de chegar. – Por longos segundos permaneceu quieto: Quem era Marjorie? Aceitar outro? Como ela sabia que ele havia acabado de “chegar?”? –
- Na verdade sempre tive contato com a . A via regularmente e pra mim, isso não é um problema. – Deu de ombros. – Tive a chance de vir pra cá e agarrei, foi isso.

Tudo bem, eu preciso parar de me explicar para uma estranha. Pensava ele; as palavras saíram por contra própria. Não gostava de boatos, não gostava que falassem sobre ele, não gostava de pensar que inverdades pudessem chegar a pessoas que ele se importava. Tudo bem que, em meio àquela sua vida de semifamoso era meio que uma regra ter que se acostumar, mas em todos aqueles anos sua privacidade na vida pessoal era uma coisa impagável. teve tantos problemas, precisou lutar para chegar onde estava, e não queria mais do que onde já estava. Conseguiu ser autêntico, tinha seus três álbuns fixos, estava pronto para dar sua pausa e tudo isso porque queria tirar seu tempo para resolver toda a bagunça que sua vida se tornara em nove anos. Não admitia que ninguém palpitasse sobre ela. Não depois de tudo que havia passado.

- Pai? – puxou sua mão um tanto para baixo o que o fez arquear.
- Sim?
- Tio está atrasado. – Murmurou.
- Só... – Olhou no relógio, retorcendo a boca. – Quinze minutos e... Olha ele ali! – Aumentou o tom de voz, sorrindo amistoso em seguida.

examinou o mesmo bater a porta de seu volvo. A feição do homem era imponente e séria. tinha de fato aquele naipe de advogado inegável daqueles que mesmo você não sabendo que é, já imaginava por estar tão descrito. Até mesmo seus gestos de ajeitar os cabelos, colocar os óculos e ajeitar a jaqueta preta fosca, colocada por cima de sua camisa social vermelha vinho. O modo de andar completamente ereto, maxilar trincado e cabeça erguida. nitidamente fora criado para intimidar qualquer um que chegasse perto dele, e não fora diferente a reação que causara em de primeira.
A diferença é que, anotando toda aquela surra de homem perfeito, percebeu que não tinha nada a perder ali. Era o que era e não se importava com isso, muito embora não pensasse que ficava muito para trás. Na verdade seus cabelos eram um pouco mais bagunçados do que os de , mas ele arriscava dizer que este havia acabado de sair do trabalho, então não o julgaria por isso.

- Desculpa pelo atraso, pequena. – Primeiramente abaixou-se em frente a , lhe beijando de leve na testa. – Tive que passar no escritório resolver uns detalhes, mas a tarde é livre. – Sorriu, agora levantando-se em direção a . – .
- . – Acenou.
- Bom, acho que já estamos prontos para ir, certo? – finalmente virou-se para a moça da qual, por sinal, ele não recordava o nome, sorrindo educado no ato. estreitou os olhos ao perceber a mulher quase derreter-se ao olhá-lo. Tornou a olhar indiferente, a situação obrigou-o a pigarrear para acordar a moça.
- Tchau, mãe. – Tiffany acenou já sendo encaminhada para dentro do shopping.
- Te pego ás cinco, Tiffy. Comporte-se. – Murmurou enquanto eles adentravam ao local.

Certo. Aquela seria uma longa tarde com as meninas.

[...]


“Oi, , tudo bem? Quero saber como você está. Me retorna, plss!” .

“Já faz duas semanas e eu sinto tanto pelo que aconteceu... Precisamos conversar.” .

Aquela eram duas, das sete mensagens que tinha enviado naquelas duas semanas das quais decidiu permanecer em seu silêncio, apenas digerindo todo o ocorrido. Em parte, porque as coisas estavam corridas, e em outra porque, quando tinha tempo para pensar sentia-se extremamente cansada, seu emocional estava seriamente danificado e sinceramente ela resolvera aderir à teoria de seu precioso marido de que, conversar de cabeça quente não resolveria nada.
Foi por isso que esperou duas semanas.
sabia que uma hora precisaria falar com , afinal, ela era sua melhor amiga e obviamente em todos aqueles dias pensou por horas no quanto ela era humana e em todo fato de que ela a vira definhar na época em que fora embora. sempre obteve um instinto estranho de cuidado e isso era intrínseco dela. sabia disso e também sabia que não estava mentindo ao alegar que tinha feito o que tinha feito por pura proteção, a mulher entendia completamente o ponto de vista da amiga, mas mesmo assim, ainda precisou de um tempo pra digerir. Tempo este que havia decidido extinguir após ver aquelas mensagens consecutivas de no seu celular.
Primeiro porque: Ela estava morrendo de vontade de soltar seus ânimos sobre aquele passeio que, naquele exato momento e estava compartilhando e segundo porque: Sentia falta de sua melhor amiga.

- Drica, anote todos os recados de hoje. Estou indo. Tenha um bom dia. – a mulher bateu a porta de seu escritório com o paletó nos ombros e a bolsa no antebraço, foi indo decidida sem esperar a resposta da secretária que quase nunca intervia, era difícil ouvir a voz da moça.
- Doutora . – Ouviu a voz baixinha a chamar, virou-se no calcanhar lentamente, voltando-se para a mesa da moça, achou esquisito.
- Sim?
- Chegou isso da escola da hoje. – Tirou um envelope de dentro de sua gavetinha; dedilhou, pensou por alguns pequenos milésimos de segundos, batendo o papel na própria testa em seguida.
- Muito obrigada, Drica. Não se esqueça de passar os recados para minha mesa.
- Tenha um bom dia, doutora. – Assentiu.

continuou seu rumo matutando sobre o conteúdo do envelope, que aliás ela já sabia do que se tratava. Anualmente a escola de realizava eventos de caridade, mais precisamente três por ano; todos eram compostos pela ajuda dos pais, tanto financeira como corporal já que todos ajudavam a arrumar o salão e muitas vezes atender barraquinhas e, sempre participou disso desde o primeiro ano da filha na escola. Achava louvável o gesto, e realmente bonito, de fato várias instituições recebiam benefícios provindos dessas pequenas confraternizações, sem falar que era um momento gostoso onde ela e dividiam as tarefas, e essa era literalmente a questão onde empacou.
Dirigindo para o escritório da amiga foi pensando: Todos os anos assumia a posição de pai porque não estava por perto e muito menos podia passar duas semanas inteiras planejando junto com ela qual decoração faria com aquele tema, obviamente ele tinha ciência, só não podia fazer nada ao seu alcance, até aquele dito momento.
A mulher respirou fundo.
Um problema de cada vez, , um problema de cada vez.
Saiu voando do carro sem realmente pensar, concentrando-se no barulho de seus saltos ecoando pelo piso de mármore da recepção; o letreiro da Capital law & Associates cintilava em dourado nas paredes lustrosas do hall de entrada do prédio, localizados atrás do balcão de atendimento. ponderou por um segundo, olhando toda aquela dimensão que o prédio ostentava, se havia feito a escolha certa ao recusar a proposta de emprego daquela firma. Tudo bem que aceitar seria sinônimo de trabalho triplo já que era autônoma e trabalhava para mais uma firma, mas realmente, aquele lugar era brilhante.
Assim que a secretária autorizou sua entrada, subiu sem ser anunciada e foi direto para a sala da amiga. Engoliu seco enquanto dava passadas longas até lá, pensando e repensando no que tinha ensaiado para falar naquelas duas semanas. Não sabia se era viável discutir mais uma vez, não sabia nem mesmo se isso chegava a ser uma discussão. Obviamente o tempo para a raiva encubada que sentiu por ter escondido tudo já havia passado há um tempo, alguns dias para ser exata, mesmo assim ela ainda não sabia o que dizer.

- Senhora... – Uma moça chamou sua atenção antes que pudesse bater na porta. parou no ato. – Desculpa, a senhora...
- Julie. você pode pegar a pasta do Ferdinand... – parou no meio do corredor assim que viu sua amiga parada no mesmo. – ?
manteve seu olhar fixo no dela, deixou sua bolsa cair para as mãos e com um longo suspiro deu passadas até perto de que por sinal continuava na mesma posição.
- Oi. – Sorriu sem mostrar os dentes fazendo um aceno com a mão desocupada. – Achei melhor vir conversar pessoalmente.
- Claro. – Acenou positivamente. – Esquece a pasta, Julie.

A secretária que não havia aberto sua boca ainda, não alterou a feição, voltou-se ao computador novamente e deixou com que as duas entrassem lá dentro. Assim feito, costumeiramente jogou sua bolsa no sofá aconchegante que o escritório de sua melhor amiga ostentava, e por fim, parou ao meio, respirando fundo.

- Eu sinto...
- Você já disse que sente muito e eu te entendo. – Cortou-a em meio a frase, suas mãos faziam gestos delicados cortando o ar em giros circulares. – Não é bem entender, na verdade, mas sei que você fez isso porque achou que era o certo e eu não posso te crucificar por isso. Só quero saber de uma última coisa. – Fez uma pausa. – Tem mais alguma coisa que você não me contou?
- Não. Não tem mais nada. – Murmurou em seguida passando a língua nos lábios. – O que o achou disso?
- Disso...?
- Você contou para ele? – Ambas relaxaram a estatura, a aura de tensão entre elas esvaiu-se em cinco segundos, diante disso, sentou-se na poltrona e recostou-se em sua escrivaninha esperando a resposta.
- Eu não achei que ele precisasse saber... Não agora. – Explicou-se. deu uma piscadela longa misturada com um suspiro do qual exalava exatamente o que ela pensava sobre omitir algumas coisas “por hora.” – Na verdade, ele está trabalhando naquele caso enorme de novo e, de certa forma o pensa demais. Não achei viável, não é pelo .
- Tem certeza? – arqueou-se um tanto para frente ao trançar as pernas.

A mulher observou curvar o tronco por cima dos joelhos e no mesmo ato emaranhar as mãos nos cabelos. Ela ficou naquela posição por um minuto contado, totalmente em silêncio antes de olhá-la de novo. Dessa vez apoiara os cotovelos nas coxas, entrelaçando suas mãos. Ficou espremendo os lábios por uns segundos ainda antes de começar a balbuciar algo.

- Eu preciso te perguntar algo que não saiu da minha mente esse tempo todo. Preciso que você me responda. – Jogou séria. Dessa forma se ajeitou melhor na mesa, arriscou pensar que um gelinho quase imperceptível instalou-se em seu estômago. –
- Pergunta.
- O que você e o tinham?
- O que você quer dizer? – riu desconcertada.
- Eu pensei em mil e um motivos para você ter tanto ódio dele e, eu não sei, talvez eu não consiga entender a menos que...
- Você está achando que eu e o ... – Ambas ficaram fixadas uma no olhar da outra por alguns segundos até uma gargalhada quebrar aquele silêncio. Aquela gargalhada era de .
- Eu não estou brincando.
- , pelo amor de Deus! Você ficou... – Fez gestos aleatórios com as mãos já caminhando até a amiga. – Eu nunca sustentei sentimento maior pelo além da amizade. E, quem disse que eu odeio?
- “Quem falou que atitudes demonstram mais do que palavras?” – Imitou-a, ato que a fez rolar os olhos com um bufo. –
- Eu cheguei a uma conclusão nesses dias e eu vou te dizer: - Começou em um tom forte, ajeitando-se para falar. – Não é por ser pai da sua filha. Não é por ter sido seu primeiro beijo, seu primeiro amor, seu primeiro tudo que envolva o sexo oposto, - Fez pausa com um suspiro. – Não é porque ele foi seu primeiro; antes de tudo, ele foi, e sempre será seu melhor amigo. Assim como o meu, assim como eu e você somos, desde o jardim, onde nos conhecemos.
- Tudo bem... – proferiu lentamente em meio a uma respirada, primeiro porque assustou-se com o discurso, e segundo porque por milésimos de segundos fez sua mente clarear de leve. – O que você disse faz todo o sentido, mas não explica seu ódio por ele.
- , não é ódio! É decepção! – Grunhiu. – Eu não o odeio. Eu quero o bem, eu sempre vou querer, eu só não consigo.... Falar com ele ainda. É muito recente. Há nove anos eu não o via e de repente, bum, ele reaparece carregado de mistérios. Você sabe que eu não sou assim, eu, talvez tenha sentido uma raiva...
- Você o afastou por nove anos, , não foi ele.
- Porque assim como você, eu também era nova e não sabia lidar com a sua dor e a minha. – A frase caiu no meio delas como um tijolo. A estatura de endureceu por aquele segundo, lembrando-se do quanto havia doído nela também. – Só me dê um tempo. Eu sei que tenho agido como uma imatura diante dele, acontece que eu sou um tanto...
- Temperamental?

sorriu abertamente, com gestos leves ela negou com a cabeça tentando esconder, porém ela tinha entendido exatamente a referência.

- , o supremo pica das galáxias está te requisitando no balcão de atendimento. – O chamado ecoou pelos autofalantes da sorveteria onde a mesma trabalhava meio período. –
- Cala a boca, , estamos trabalhando, se esqueceu? – gritou arrancando com brutalidade seu avental. –
- Faltam dez minutos pra fechar, minha linda. Não ataca a sua neura. – Respondeu-a no autofalante. A garota revirou ainda mais os olhos, os fechando em seguida. – Vem. – Grunhiu, caminhando até lá.
- Obrigada por atender o chamado.
- Por que eu te suporto mesmo? – entortou a cabeça dando um pulo da cadeira onde havia subido.
- Porque você me ama. – Ela ficou sem resposta. É, era por isso mesmo.

e trabalhavam juntos no mesmo horário por meio período em uma das sorveterias perto do supermercado e que por sinal ficava bem a frente da enorme universidade.

- Ok. Porque me chamou, ó “supremo pica das galáxias?” – Acenou com os braços. A careta dela fez gargalhar.
- Hoje é o aniversário da nossa parceira no crime e eu, como o bom amigo que você não é, decidi fazer uma festa surpresa. – Sorriu no estilo coringa; esperava o tapa bem dado que levou após aquela frase. Ficou estático e calado por três segundos após recebê-lo. –
- Se sou péssima por que está me contando, doçura?
- Porque mesmo péssima a gente te ama.
- Cala a boca.
- Tá bom. Agora é sério. , eu só preciso que vá até a casa dos fundos do e o ajude a dar uma ajeitada, não vai ser nada demais, só uma reunião... Ás 20h00min estaremos lá.
- Você vai levá-la. – acenou positivamente. sorriu cheia de segundas intenções ao imaginar ambos sozinhos. - Interessante.
- Cala a boca. – Riu sem graça agora também tirando seu avental. – Te vejo então? – piscou confirmando o combinado.

e saíram do trabalho às exatas 18:57, ou seja, tinha menos tempo do que o esperado e por Deus, se não fosse seu melhor amigo e não merecesse tanto – Além de querer ver . – ela socaria o rostinho de cada um de seus amigos por ficar sabendo de última hora.
então correu para sua casa, tomou um banho rápido que não demorara nem cinco minutos, passou perfume e, antes de sair correndo por sua porta, parou em frente ao seu criado focando em uma bala de coloração vermelha. Seguindo as dicas dos seus pais com um adendo de seus amigos do terceiro ano, deu seu primeiro beijo aos 14 anos graças aquela bala. Primeiro porque: Ele tinha um assunto. Segundo: A bala daria um gostinho melhor a sua boca que estava acostumada a apenas se alimentar antes disso.
Assim como ele, e tinham 15 anos e estavam no primeiro colegial, embora parecesse muito mais ser dos segundos e terceiros e o que o diferenciava dos famosos populares rebeldes e praticantes do time de futebol é que, todos conheciam por seus shows no pátio da escola com seu violão surrado achado em uma loja de conveniências por 10 dólares. Era de se admitir também que também não era o santo, mas não fazia também parte do clichê. Nunca exagerou nas meninas, sempre foi doce, porém o dom de ser divertido, encantador e sempre fazer piadas engraçadas – que literalmente eram engraçadas. – Era dele. Não era de se esperar que ele tivesse beijado aos 14 anos.
Com as duas balas no bolso o garoto continuou o caminho até a praça central, onde tinha combinado de encontrar . Ficava entre sua casa e a dela, portanto viável para os dois. De lá os dois iam realmente para a casa do , não tinha planejado muito bem e, o mais engraçado de toda a situação era seu extremo nervosismo; Ele não entendia porque estava nervoso daquele jeito, a incógnita era tanta que por um momento o deixara irritado.

- [...] Então você está me dizendo que não foi até lá porque...
- SURPRESA!

observou o rosto da garota ruborizar num misto de alegria e obviamente surpresa ao ver alguns de seus amigos do grupinho da escola espalhados pela casa de piscina – Mais conhecida como casa dos fundos – dos pais de . adentrou em passos lentos ouvindo a gargalhada gostosa de ecoar em seu ouvido, misturados com todas as felicitações durante o trajeto até que também sorria abertamente ao lado de .

- Vocês literalmente não prestam. – Murmurou dentre o abraço com .
- Ah, eu não pude discutir com o melhor amigo de todos os tempos, ou eu seria decapitada... – Deu de ombros apontando com o olhar para em seguida.
- Você armou isso?
- Não foi tão ruim assim, vai?

A festa se prolongou por mais algumas horas com direito a todos os salgadinhos, refrigerantes, gargalhadas e jogos de tabuleiro que tinha jogados por aquele lugar. Era comum passarem o tempo naquele lugar, como os pais de eram ocupados a maior parte do fim de semana, o costume era que na sexta feira às 19:00 todos que estivessem disponíveis fossem até lá perder tempo, e por mais que fossem a galerinha da pesada da época, e que ostentassem gente mais velha no grupo do tipo, que além dos jogos, gostavam de tomar algo que obtivesse pelo menos um por cento de álcool, até aquele momento em si nenhum deles havia tomado uma gota, e essa era a diferença deles. A loucura era por natureza mesmo.

- Eu não te dei teu presente ainda. – escutou ao pé do ouvido, virando-se no mesmo segundo. Encontrou a olhando com um meio sorriso.
- Como você é um péssimo amigo, ... Saia do bandinho. – Brincou rindo.
- Você vai ver só quando eu sair de verdade.
- Você não vai, não vive sem mim.
- Duvida? – Arqueou a sobrancelha o que a fez rir mais um pouco.
- Meu presente é você aqui hoje. Obrigada por... tudo isso. – Olhou ao redor, voltando seu olhar a ele novamente. Assim que o fez reparou em seu olhar ainda mais fixado em seu rosto. – Que foi?
- Meu presente ia ser...

À medida que foi aproximando-se de seu rosto foi entendendo onde ele queria chegar. Sua inocência até aquele momento não havia permitido enxergar a intenção do menino, ou melhor, saber talvez que ele estava flertando. A amizade deles nunca tinha comportado nada relacionado aquilo e era talvez por isso que não tivesse percebido. Contudo, ambos eram tão íntimos que a aproximação não seria nada pra ela se ele não tivesse chegado a roçar seus narizes. Naquele segundo seu corpo todo estremeceu, seu estômago congelou e suas mãos pareciam pingar. Foi questão de cinco segundos. permaneceu com os olhos abertos observando encarar seus lábios com todo o desejo que parecia ter no corpo.
- Eu não sei... fazer isso, – Disse baixinho. - Fazer o quê? – Entortou a cabeça afastando-se um tanto, ato que a fez rolar os olhos. - Beijar, , eu nunca beijei ninguém. - Ah, eu sei disso. Eu ameacei todos que tentaram. – Deu de ombros, o olhar incrédulo de o fez sentir uma leve formigação nos lábios; segurou-se porque sabia que se soltasse ela iria o matar, ou melhor, sua vermelhidão denunciava aquilo. - VOCÊ O QUÊ? – - Você tem que aprender comigo, pra não passar vergonha depois. – Disse brincalhão recebendo um tapa corpulento nos ombros, se esquivou por alguns segundos para voltar a sua posição tendo a certeza de que ela não continuaria. – - Você é patético. – Grunhiu raivosa embeiçando como uma criança de cinco anos. – - Você acha mesmo que eu iria deixar qualquer cara tirar algo tão importante de você? - Desde quando isso passou a ser importante pra você? – Questionou curiosamente interessada no rumo da conversa.

por si só, apenas deu de ombros entortando de leve seus lábios, ele sabia a resposta, só não tinha certeza se estava capacitado a dizer em voz alta.

- Bom, eu só quero dizer que nada como seu melhor amigo... – Falou prepotente recebendo outro tapa.
- Isso inclui a também?
- Digamos que eu poderia ter esse trabalho se o já não tivesse feito ontem ao lado do bebedouro. – Comentou aleatoriamente. Ao encarar viu-a de boca aberta, incrédula.
- Sem essa!
- Vai me dizer que aquelas ombradinhas ali significam a mais pura amizade já vivida? Por favor, . – Maneou a cabeça enquanto, dessa vez, analisava seus amigos sorrindo um para o outro.

Ao perceber o olhar quente de ambos em sua direção, acenou de leve sem receber resposta alguma, estranhou aquilo. e a olhando sérios e estáticos, num típico olhar de julgamento. Seu corpo chegou a estremecer por cogitar qualquer coisa que estivessem maquinando ali. e tinham o dom de formular teorias praticamente perfeitas juntos e, tinha pra si só por isso que a NASA precisava urgentemente conhecê-los.

- Vou contar até três para vocês me dizerem qual é a teoria de vez. – Levantou o indicador.
- Não preciso nem de um...
- Você beijou o e não me contou?
- ! – A garota ralhou irritada, embora já esperasse que fosse contar, sua irritação não foi menor.
- Somos os três mosqueteiros. Contar pra mim, é contar pra ela, anjo. – A voz do menino soou como veludo para o ouvido de ambas, tanto que por um segundo pararam para raciocinar.
- É assunto de garota, , você por acaso é uma menina?
- Precisa ser uma menina pra falar sobre beijo?
- Supostamente...
- Para de querer controlar nossas vidas, ! – esbravejou. Viu-o arquear a sobrancelha, pensativo e encarando ambas.
- Eu conheço esses caras, tudo bem? Quero o melhor pra vocês. – Respondeu inabalável.
- Eles são seus amigos.
- Por isso mesmo!
- Isso não muda o fato de que você precisa parar de ser controlador. – disse ouvindo a amiga resmungar em concordância.
- Eu não sou controlador, ok?
- A partir de hoje, definitivamente não. Eu vou beijar o Luke e você não vai fazer nada em relação a isso, tudo bem? – ficou na ponta dos pés na intenção de alcançar o olhar de a ela, gradativamente ele o fez, o maxilar trincado do menino a fez recompor-se a mesma medida. Sem saber por que, seus olhos estreitos fizeram-na arrepiar-se.
- Estou aguardando! – Luke gritou recebendo um dedo médio violento em sua direção provindo de que, ainda sim, não havia tirado os olhos de .
- Você não vai beijar esse cara.
- E por que não? – rebateu no mesmo segundo.
- Porque eu vou te beijar primeiro.

Não houve tempo de resposta, respiração, assentimento ou até mesmo de uma dor de barriga preliminar. Os lábios do menino chocaram-se aos seus com precisão e uma certa brutalidade. por alguns segundos ficou desnorteada, percebendo que, aquele lance de perder os sentidos ao redor quando se beijava era completamente real. Não sabia se era por ser o primeiro ou se era por sentir tão perto dela como nunca antes. Aos poucos foi cedendo ao ver que este pedia agora com delicadeza para que ela o deixasse guia-la e assim ela deixou. Acompanhou todos os movimentos do garoto roboticamente. Primeiro a cintura segurada, suas mãos escorregaram para o pescoço de por instinto, segurando o rosto dele enquanto o mundo parecia estar parado somente para que ambos pudessem aproveitar o momento e sinceramente, ela o odiou por sempre ter razão sobre ela. era o primeiro beijo perfeito e parecia saber disso muito antes dela.


e gargalharam, de leve, relembrarem dos surtos de ao vê-los trocando beijos, da sucessão de gritos e do beijo surpresa que ganhara de por pura euforia que a situação lhes causara. O momento fora o destarte para a relação disfuncional que e compartilharam por mais dois anos antes de repensarem sobre seus sentimentos um pelo outro, e com isso lhes seguia a dúvida: Dois anos?
De repente, aquele escritório e a suposta conversa tensa se tornara um misto de risos e nostalgia de maneira que o mérito em si da questão de estarem reunidas ali não fora nem se quer mencionado. Ambas apenas se tocaram que haviam extrapolado após os toques incessantes de Julie na porta avisando sobre um cliente agendado. Ao passo em que fora verificar o que precisava, digitou o número de . Seu cérebro ainda estava trabalhando em favor daquele encontro anormal; ela não queria ser pessimista e nem dramática em relação ao que estava acontecendo, no entanto, era um tanto difícil controlar sua mente perturbada pelos transtornos causados justamente por aqueles três naqueles últimos dias, ora, se haviam causado tanto mesmo sem estarem juntos, imagina só compartilhando um mesmo ambiente por mais de dez minutos sem ela? Ou, na pior – ou melhor – das hipóteses, ela era o problema.

- Oi, meu amor. – Ouviu após alguns toques. A voz de estava leve.
- Tudo certo por aí?

desviou a atenção de se afastando ao ver rir gostoso transpassando as mãos em seus cabelos, os despenteou ainda mais, voltando a colocar a mão na cintura enquanto falava no telefone. Com mais alguns minutos de conversa ouvira ‘’ meu amor” ser proferido, denunciando que a ligação provinha de . continuou a analisar ; Não que tivesse reparado todo aquele tempo, soava até um tanto estranho, mas percebeu a mudança nítida de semblante do mesmo ao falar com ela. Seu rosto antes sério, intocável e completamente rígido parecia ceder quando o assunto era , o que era inacreditável levando em conta o fato de que nem mesmo estava em sua presença física.
Resolveu voltar a andar lentamente, enfiando as mãos nos bolsos, embora o assunto ricocheteasse por todo seu cérebro e seus pés parecessem pesados, querendo-o forçar a ouvir e examinar aquele diálogo. e seus comandos físicos sempre foram conflitantes um para com o outro; enquanto sua mente queria fazer uma coisa, seus sentidos lutavam contra, contudo, em seus vinte e oito anos de vida, não podia mais deixá-los fora de controle. Em seus nove anos de vivência longe daquela garota, indubitável era seu poder de deixar tudo um pouco mais leve ao se fazer presente, não havia motivo algum para o espanto observando o mesmo acontecer entre ela e , levando em conta que ele, sim, estava casado com ela. Mesmo assim, era como se o tempo não houvesse passado pra ele como passara para todos os outros a sua volta. parecia estar preso em seus vinte anos e provavelmente por isso era estranho vê-la ser a calmaria de outro alguém que não fosse ele, ou melhor, além dele.

- está vindo pra cá. – chegou ofegante ao seu lado já guardando o celular novamente no bolso. assentiu positivamente inexpressivo suspirando em seguida. – O que acha de uma rodada? – Continuou cortando o silêncio que se sucedera, recebeu um olhar pensativo do outro.
- Pode ser.

Num gesto enorme o homem chamou a atenção da garotinha que andava do outro lado da praça de alimentação com as amigas, relutante, olhou desconcertada para o padrasto onde o viu indicando que iria para o bar logo ao lado, ao ver o aceno positivo da menina, conduziu até o mesmo. Este só acompanhava todo a personalidade de . Não que fosse sua intenção, mas foi entendendo cada vez mais porque havia se interessado por ele a ponto de casar-se e não, não estava pensando e examinando tudo por puro vitimismo ou na intenção de se comparar ao homem. Sua ação era natural e acentuada ao excêntrico, poderia ele dizer.

- Eu sinto que começamos mal. – Proferiu após um tempo em silêncio. – Muito mal, na verdade.
- Não estamos aqui pra falar sobre isso...
- Na verdade, é a oportunidade perfeita, .
- Cara, eu não acho que isso vá...
- Escuta. – aumentou de leve o tom, chamando a atenção de então para encará-lo no rosto. Viu-o travar os maxilares denunciando seu contragosto com o rumo da conversa. – Passei nove anos da minha vida em silêncio. Eu tinha pra mim que permanecer calado e deixar as coisas como estavam iria ser melhor, e quer saber? Isso me arruinou. Eu perdi toda a porra de oportunidade de consertar o que eu fiz por nove anos, então, eu quero que você saiba que eu não estou aqui para arruinar seu casamento, tudo bem? Eu só quero uma chance de esclarecer as coisas e passar mais tempo com a minha filha. Não precisa se preocupar comigo.

Por um segundo ponderou encarando . Alisava o gelo do copo cheio de cerveja deixando pequenas marcas de seus dedos. Não sabia como conversar sobre aquilo sem quebrar o antagonismo que existia entre os dois quando se tratava daquele assunto.

- Estamos aqui pela nossa paixão em comum. – Respondeu um tempo depois, recebeu o olhar fixo de encarando sua expressão, quase prevendo as hipóteses calculadas por ele. – O que não faríamos pela ?
- É, o que não faríamos? – soltou um risinho. – Eu sei o quanto você significa pra ela, , queria agradecer por esse tempo todo... Foi realmente...
- Foi por amor, não precisa agradecer. Tudo o que eu fiz esse tempo todo. – Cortou-o tomando sua cerveja em seguida. – E não há nada de errado aqui. Só não nos conhecemos, .
- Como quiser. – Pausa. – Quantas vezes ela acordou no meio da noite? – atravessou o raciocínio de o fazendo rir gostoso por segundos ao lembrar-se.
- Até que não foram muitas. tinha muito medo da sombra que a árvore do quintal da antiga casa que a morava formava em seu quarto. – Começou, espremeu os olhos como se no ato, em conjunto, fosse reforçar as lembranças que aquele fato lhe trazia, por outro lado, imaginava a cena. – Resolvemos morar juntos um mês antes de casarmos, até então aquela sombra nos trouxe algumas noites acordados até que ela dormisse. Foi quando eu tive a brilhante ideia de contar uma história sobre o luar que iluminava a árvore toda noite, e que a sombra na verdade era de um anjo protetor mandado para resguardar seu sono... Toda santa noite eu precisava contar essa história, exatamente com os mesmos detalhes...

fez gestos rotatórios com os dedos soltando um riso que fora logo embalado juntamente pelo de . Por conseguinte o assunto fora se expandindo ao passo em que o homem contara toda sua trajetória de situações cômicas entre ele e nos primeiros anos que conviveu com a garotinha, contudo, em momento algum conseguiu detectar algum vacilo em seu reflexo constantemente paternal. De toda aquela pilha de informação sobre sua filha jogadas a mesa, só conseguia pensar no quanto havia parado no tempo. Mesmo que se esforçasse para fazer contato e que sempre que pudesse viesse a vê-la, alternante entre ir e pedir para que a levassem; não havia nada comparado à convivência. Não que estivesse culpando , ou sentindo-se culpado, mas sim, de certa forma, um tanto vazio.

- [...] até hoje eu não entendi muito bem a história do braço quebrado... – disse ainda cessando o riso, sendo acompanhado por a sua frente.
- Hoje eu conto rindo, mas no dia, rapaz... – Coçou a nuca. – Eu ficava pensando no que eu ia dizer para a enquanto eu esperava a sair da sala. Foram três horas de desespero total... Eu tremia igual vara verde.
- Louvável que a escola tenha te ligado. – Comentou. – Digamos que a tem um quê acentuado a perder o controle rapidinho.
- Eu não posso discordar. Como alguém pode atravessar a cidade em menos de cinco minutos com esse trânsito caótico? conseguiu.

Com mais alguns segundos rindo e compartilhando a cessação do assunto, ambos foram voltando à estatura normal, já haviam ido pelo menos quatro copos de cerveja – Dos grandes – em pelo menos meia hora; até que o silêncio pairou sobre eles novamente.

- Eu sinto por ter perdido tanto. Eu recebi uma foto dela que o me enviou engessada e... Foi horrível não poder fazer nada. Foi realmente horrível. – Murmurou. ficou quieto por alguns segundos segurando sua frase fatídica do “ nada te impediu de voltar”, porém naquele momento percebeu que literalmente transpirava sinceridade, não por palavras, mas pelos olhos.

Sua antes certeza de que toda escolha que fizera fora uma consequência e ele precisava arcar tudo, mesmo que pesando toneladas, cedeu um tanto a um toque de dúvida ao vê-lo deliberar com as histórias contadas. Analítico como um advogado sentado com seu cliente, tinha facilidade em detectar falsos sentimentos, falsos arrependimentos, em suma, notava a falácia mesmo que mais oculta; lidava com pessoas que tornavam seu trabalho de desvendar penoso neste quesito. Mas em era diferente. Nitidamente o homem ali em questão não escondia seu desconforto e muito menos fazia força em fingir. Seus olhos cintilavam perdidos parecendo vagar em sua própria mente na intenção de encaixar todas aquelas informações fornecidas para que ele, mesmo que com pouco, conseguisse tapar o vácuo daqueles anos com elas.
não sabia por onde tinha andado nos nove anos, contudo havia retirado sua autonomia de julgá-lo naquele momento.

- Eu não sei o que você matuta, mas, , todas as circunstâncias não chegam nem perto de mexer no amor que ela cultiva por você. – Respondeu certeiro, levantando o copo em direção ao dele. – E contra amor não se discute.

De longe os viu brindando com um sorriso no rosto. Parou de andar no mesmo segundo ao dar de cara com aquela cena. Nem em mil anos poderia imaginar que aquilo poderia estar acontecendo realmente; e juntos e sorridentes como se fossem amigos de longa data? No way.
Após o choque, continuou os passos lentamente até o deck de madeira onde a mesa dos dois localizava-se, por culpa do barulho de seus saltos sua chegada fora anunciada antes que pudesse ouvir de que ambos falavam, por um lado agradecera, por outro queria realmente saber o que ambos compartilhavam de tão amigável.

- Quantas já foram? – Perguntou direta ao chegar perto de ambos, viu-os rir juntos só então se inclinando para depositar um selinho longo em .
- Acho que quatro.
- Vocês têm noção de que tem uma criança com vocês aqui, certo?
- Criança? – entortou a cabeça desentendido recebendo um tapa nos ombros.
- Onde ela está?
- Conversando com os amigos. – respondeu volvendo seus olhos para olhar do outro lado, seu olhar estreitou-se ainda mais por notar que além de suas duas amigas, havia mais dois garotos no grupo. – Vou pedir a conta e podemos ir.
- Ok. Vamos indo. – Acenou com a cabeça para e ao mesmo tempo, indicando que iria esperá-lo já fora do pequeno local que se formava o bar.
- E então?
- Ele é um cara legal. Entendo porque se casou com ele. – Murmurou enquanto dava passos lentos, sentiu que o encarava, contudo, não sentiu que estava pronto para retribuir o olhar, mesmo que fosse verdade não deixava de ser difícil.
- Isso significou muito pra ela, . – Disse ao notar que ele não falaria mais nada. – E pra mim também.

Só então ele a olhou. Viu-a curvar os lábios docemente enquanto a mesma medida entortava a cabeça, seus olhos espremeram-se num significado que ele não recebia dela há um tempo. havia realmente ficado agraciada pela situação ou então não o teria olhado daquela maneira; seu coração aqueceu-se no peito pela primeira vez em todos aqueles anos ao notar que finalmente parecia estar fazendo a coisa certa.

- O que está acontecendo ali? – cortou-os de supetão, sua voz ainda que longínqua atingiu os dois em cheio que por instinto acabaram por olhar aos poucos se aproximando de um garoto. Da boca de um garoto.
- Mas que merd...

A mesma medida que e se impulsionaram juntos para dirigirem-se até onde o “mártir” estava a acontecer, os parou pelo peito, cada um de um lado, espalmando suas mãos respectivamente no peito de cada um.

- Vocês não vão a lugar nenhum! – Grunhiu entre dentes, alternando seu olhar entre e que de imediato lançaram-na um olhar perplexo.
- E você espera que eu deixe aquele garoto beijar a boca da minha filha? – esbravejou irritado, embora ainda estivesse sendo segurado por ela.
- Eu espero que você seja decente e deixe-a curtir o momento dela em paz, .
- Ela tem DOZE ANOS, . DOZE. – enfatizou, dessa vez fazendo-a tornar a ele. – Não tem idade pra isso.
- Ah, por favor, todos aqui sabemos que quando acontece não dá pra resistir! – A mulher defendeu sua posição, virando-se para os dois. – E estamos em outra década, meus amores, o mundo não gira como há dez anos. Se toquem!
- Falou a “mamãe pra frente.” – ironizou, se não tivesse tão encabulada quanto, riria da analogia que fizera. – Você beijou pela primeira vez com QUINZE anos, eu beijei com QUATORZE e garanto que o com essa cara aqui deve ter beijado sei lá... Com... Com quantos anos? – Encarou ; Ao perceber o homem quieto, com um biquinho que o entregava, arqueou a sobrancelha estufando o peito em seguida.
- É, , com quantos anos você beijou pela primeira vez? – Apertou-o.
- Dez. Mas eu vivia no sitio e esse é um fator relevante, sem falar que nunca tive uma conversa sincera sobre como isso é importante.
- Dez anos? Por que nunca me contou isso? – Perguntou perplexa; acompanhava a discussão como se estivesse assistindo um jogo de ping-pongue.
- Não é bem uma informação relevante. – Reafirmou.
- Três anos de casados. Nove anos juntos, e você acha que não é um assunto relevante?
- E é? – Indagou irônico. – A questão é que eu não me importava, mas eu sei que a se importa simplesmente porque ela é como você, . Não é assim!
- Ela decide se o momento é especial ou não. Parem de ser controladores.

Ao final da frase percebeu que falava com o vento tendo em vista de que os dois homens a sua frente se quer faziam esforço para fingir que ouviam-na. Por outro lado, estavam compenetrados e fixos em um ponto comum, de olhos cerrados, braços cruzados, dotados da melhor pose intimidadora que já tinha os visto fazer, tudo isso apenas para uma pessoa: O garoto que havia acabado de descolar seus lábios dos lábios de .
No calor da discussão entre eles sobre o que era correto em relação a beijos, épocas e o que realmente importava, dava seu primeiro beijo bem ali. Assim, ao virar-se para também encarar a cena, percebeu o clima tenso criado pelos dois brutamontes – Não no sentido literal da palavra. – tão palpável que fez os encarar. De longe foi possível ver o rosto da menina petrificar, virar um misto de amarelo com vermelho; balbuciou algo para o garoto e saiu correndo em direção ao corredor dos banheiros do shopping. Tudo isso porque e estavam prestes a dilacerar aquele pobre menino, juntos, por causa dela. não a culpava pelo pânico. Se com vinte e oito não sabia lidar com aqueles dois, imagina que só tinha doze?

- Meus Parabéns, pais do ano. – Bateu palmas enquanto se afastava para ir atrás de .
- Ele precisava sentir o drama.
- Vocês são ridículos.

E o olhar compartilhado por ambos após o causídico não continha nenhum pingo de arrependimento.

Demorou um tanto até que conquistasse a confiança de para então retirá-la de um dos boxes do banheiro e conseguisse fazê-la enfim se acalmar da completa vergonha que sentia. Não que após sair de lá não houvesse, mas ao menos metade dela havia sido preenchida com ódio, e isso era nítido em seu olhar. Quando já estavam no carro percebera a gravidade da situação da qual houvera sido exposta, muito embora ainda sentisse uma mínima coceira beirar seus dedos ao pensar no garoto e na cena, percebeu que além disso havia uma garotinha de doze anos que tinha sido colocada numa situação desconfortável por não entenderem seu momento.
O que mais permeava sua mente era que, antes de mais nada, todos ali precisavam ter uma conversa. Pra ele poderia ter sido apenas um primeiro beijo, e de fato não era uma questão enorme a se tratar antes, e era exatamente por esse motivo que nunca cogitou a hipótese de conversar com ela ou com a respeito de “estar preparada.” De fato, tornar-se pai por tabela mudava tudo o que ele tinha como importante ou não dentro de seus âmbitos valorativos. estava em meio a duas crises ali: Uma moral, por não imaginar o quanto era enorme quando se tratava de sua garotinha, e outra por sentir-se de fato um pai, não imaginando o quanto o havia atingido àquela altura.
Do outro lado da moeda estava . No carro de trás ao deles, seguindo-os até a casa por um convite feito inusitadamente por para o jantar. Sua intenção não era ficar e sim conversar com , contudo, não fazia ideia de como abordar a situação sem ser, ao menos naquele momento, grosseiro. sentia os nervos a flor de sua pele e por toda lei não sabia o motivo. Era protetor, era desesperador, era angustiante. Uma conexão de sentimentos que se ligavam uns aos outros na pura e simples preocupação em protegê-la; contudo, como explicar isso para uma garota de doze anos em sua puberdade, expelindo ódio pelos olhos, assustadoramente geniosa, como a mãe? Uma já era demais para lidar, agora, duas? Sabia que a dose de em era enorme, mas não tanto.
Assim que chegaram enfim, foi à deixa para que a virada da chave destrancasse a porta de madeira central da residência dos , para que adentrasse por ela feito um furacão, pronta para subir as escadas marchando bem como saíra do carro.

- Ei, mocinha, ainda temos que conversar! – a chamou antes mesmo que a menina terminasse de subir o terceiro degrau da escada. parou de imediato; era visível sua postura rígida e fria ao virar-se para encarar o pai que agora mantinha os braços cruzados. A mesma medida passou os olhos por que reforçou o baque fechando a porta, decaiu o olhar para sua mãe tão apreensiva quanto ela, e finalizou em novamente.
- Eu não quero conversar, . – Disse ríspida, entortando a cabeça no ato. A frase causou um reboliço no estômago do homem.
- Eu sou seu pai, , e não . – Respondeu da mesma forma que ela, aproximando-se um passo. – E em segundo lugar, não adianta você agir...
- Agir como, pai? - enfatizou descendo um degrau. Seus braços se abriram de leve, enquanto de longe pode ver os olhos da menina se avermelharem. – Como se tivesse sido humilhada na frente dos meus amigos? Porque é assim mesmo que eu me senti!
- Isso está longe de ser uma humilhação. – Falou firme. – Somos pais, , queremos seu bem, sabemos o que é melhor pra você.
- E eu que sempre me gabei sobre ter dois pais não sabia o quanto isso era um saco!
- Ei, mocinha, não fale assim com se...

A voz de morreu no súbito simultaneamente com a batida seca da porta do quarto de do lado de cima. , e se entreolharam por longos cinco segundos tentando entender o que havia acabado de acontecer ali.

- Está vendo? Esse menino a corrompeu. – mirou em seu maior olhar de incredulidade, arrancando dela um riso irônico.
- Fala sério, . – A mulher abanou a cabeça, afastando-se um tanto dele. – Vocês fazem a maior cena da vida de vocês no primeiro beijo dela e querem uma reação diferente?
- Você permitiu que isso acontecesse, agora temos que arcar com as consequências de uma puberdade adiantada. – Mais uma vez ela riu.
- , não importa o que você acha ou o que você deixou de achar. O que está feito está feito. Chamar a atenção dela não vai fazer diferença alguma agora, por pior, vai ficar rebelde sim e tem todo o direito! Antes de soltar seus cachorros, pode, por favor, tentar ter uma conversa construtiva com sua filha?
- , esse garoto tem cara de...
- Vai falar com ela com calma. – A mulher o cortou. observava a cena em silêncio, com o punho cerrado encostado a boca.
- Vou tentar.

observou subir sentindo a conexão de suas mentes borbulharem apenas pelo olhar que este lançou para si antes de desaparecer pelo corredor. Assim que aconteceu soltou todo o ar dos pulmões finalmente, fechando os olhos, pesarosa; não sabia se era hipócrita ou muito sábia naquela altura, justamente por também não saber como lidar com a situação. , uma menina tão doce em toda sua fase de crescimento, dera uma resposta atravessada e mal educada para todos, sem falar na rebeldia, e, não sabia de um garoto ou seja, as conversas com não estavam sendo sinceras ou.... Outra respirada funda.
Como lidar com uma ascensão de si mesma, geniosa, difícil, mas na maioria das vezes doce? , pior que , estava ainda mais desesperada pelos próximos capítulos daquela nova fase.
Por estar tensa, seu corpo rígido entrou num choque elétrico ao sentir as mãos de contornarem sua cintura, partindo de suas costas, o homem deslizou suas duas mãos por sua cintura, encaixando-as perfeitamente em seu abdômen. Num baque só, sutil e carinhoso, o mesmo puxou-a a seu encontro, cheirando o pescoço já pendido de , deslizando seu nariz por ali. Um arrepio gostoso atravessou o corpo da mulher de cima a baixo, o que a fez sorrir de leve assim como por ter concluído sua missão com sucesso: Relaxá-la.

- Vamos tomar um café bem forte. O resto resolvemos quando chegar o momento, tudo bem? – Ele sussurrou em seu ouvido. Só o que conseguiu fazer foi assentir positivamente, antes, virou-se em sua direção, enroscando seu corpo no dele agora de frente para então depositar um selinho amoroso.


***


- ? – Deu dois toques à porta. Esperou cinco segundos sem resposta alguma. – eu só quero conversar... – Mais silêncio. – Filha, eu vou entrar.

abriu a porta cauteloso, deparando-se com a mesma jogada de bruços na cama, seu beiço do tamanho do mundo era visível de longe, parecendo maior e muito mais pesado do que normalmente era. E olha que não tinha lábios grandes. Percebendo que a menina havia ignorado sua presença, continuou dando passadas calmas, até chegar à cama, no qual finalmente recebeu um olhar desgostoso.

- Podemos conversar?
- Não quero conversar.
- Eu sei que é complicado pra você toda essa situação... – Começou, sentando-se em sua cama, na pontinha, receoso em fazer contato. o acompanhava com o cantinho dos olhos.
- Não quero conversar sobre isso. Pode ir, pai.
- Por que você nunca me falou desse rapaz? – A frase foi certeira. sentou-se rapidamente adotando sua postura mais indignada possível.
- Pra quê? Você tem noção do que vocês fizeram lá? – A menina grunhiu. observou seus olhos avermelharem-se brutalmente, seu coração de repente ficou dolorido a ponto de doer para respirar. – Ele nunca mais vai falar comigo, pai. Nunca mais.
- Se ele não falar com você pelo que aconteceu, desculpa, filha, mas ele não te merece.
- Você não entende. Vai embora. – Riu sarcástica, sua voz estava melada denunciando o choro, portanto a menina voltou a deitar-se, se aninhando em seu travesseiro.
- Olha, - O homem se aproximou engolindo em seco. – Eu quero o melhor pra você. Tenho vinte e oito anos de vivência, acha mesmo que eu não sei o que se passa na cabeça de um moleque de doze...
- Quinze.
- QUINZE?
- Pai! – sua voz tremelicou chorosa; Apenas por esse motivo engoliu seco toda a sua raiva provinda de sabe-se lá onde, controlando a voz.
- Eu sei do que eu estou falando. Esse menino não é pra você... Se ele se deixar abalar por isso, eu já disse... – murmurou desejando involuntariamente que sim, o menino deixasse se abalar. Porra, quinze anos?
- Eu gosto dele, pai! Eu gosto dele! – voltou a sentar-se, grunhindo mais alto em sua direção. – Que tal me deixar fazer minhas experiências e parar de tentar me moldar da sua maneira!? Eu não sou você, eu não sou minha mãe, eu não sou o tio ! Me deixem em paz uma vez na vida!

Não houve resposta para aquela explosão dela. ficou encarando a garota tentando calcular que parte tinha perdido de sua garotinha que agora já agia como uma própria adolescente, e olha que só tinha doze anos. Só doze anos. não entendia, e talvez não fosse nem chegar perto de imaginar que não chegava a ser nada parecido com querer que ela fosse moldada a sua maneira. Tudo se baseava na mesma indagação que faz os pais caírem em desespero todas as noites: Como explicar para uma menina que tudo que seu pai quer é evitar todo o sofrimento que ameaça a felicidade de seus filhos?

- Eu vou deixar você respirar... – levantou-se tão pesado quanto antes, carregando seu coração inchado. – Você sabe que eu vou estar aqui pra você o tempo todo, então... – engoliu em seco, hesitante. – Eu te amo, gatinha. – Sussurrou ao chegar perto da menina novamente, depositou um beijo em seus cabelos sem receber resposta alguma. – Mais do que você pensa.

desceu os degraus da escada como se estivesse descendo para o abate. Não se deu ao trabalho de arrumar sua postura corcunda e cansada pelo peso das palavras que não conseguia transmitir. Ele era péssimo com isso e estava sentindo-se um lixo naquele momento; e lá estava à dor de cabeça novamente, martelando em sua mente homeopaticamente, de pouco em pouco, o deixando a beira da loucura.
Assim que chegou ao fim respirou fundo calibrando o ar nos pulmões dando a volta quando notou que e não estava onde ele os havia deixado. Tornou o olhar pela sala rapidamente e então volveu-se para a cozinha em passos largados, recebendo outra pancada do outro lado da costela – Ou era o que parecia que o fantasminha do passado fazia. – Ao pegar e trocando caricias encostados ao balcão da cozinha da casa deles.
ria baixinho ao receber os apertos na cintura provindos do marido, em conjunto com os beijos que ele roubava dela dentre o mesmo. Se não estivesse sentindo-se completamente fora da sua órbita olhando a cena, provavelmente faria uma música muito bonita dedicada ao momento fofo, porém, sem todo o sarcasmo e dor.
Sem importar-se se acabaria com o momento, espalmou as duas mãos no mármore do balcão, cedendo a cabeça para baixo, fechando os olhos forçadamente a ponto de ver fogos de artifício. Por um segundo seu corpo amoleceu todo, e foi nesse momento em que pediu para todas as entidades religiosas que não o deixassem desfalecer ali.

- E aí como foi? – Ouviu ao longe a voz de invadir seus ouvidos; abriu os olhos em piscadelas lentas, disfarçando ao máximo.
- Um fracasso. Eu sou péssimo nisso. – Murmurou cedido. – Você sabia que aquele garoto tem QUINZE anos? – Por fim levantou a cabeça para encarar um incrédulo, e uma indiferente.
- Faz diferença agora?
- Faz toda a diferença. . – O homem esbravejou. – Você sabia disso? Ele está dois anos adiantados a ela, entendeu? É claro que iria instigá-la.
- Dizer que foi instigada a beijar é a mesma coisa que dizer que ela não tem a nós, , e esse não é o caso. – Respondeu ríspida, apoiando-se também ao balcão. desviou o olhar, ação que a fez ter uma visão privilegiada de seu maxilar trincado.
- A questão é que nada do que eu disse funcionou. – Continuou num bufo raivoso. – Eu estou me sentindo um bosta agora.
- O que você disse?
- Que se ele tinha se abalado porque nós, de certa maneira, o intimidamos, ele não a merecia...
- Você não tá falando sério? – riu. Por um momento teve dificuldade em decifrar aquele riso, misturado com ironia e de fato, humor.
- É uma verdade, , se ele gosta dela, você sabe muito bem como é enfrentar a situação.
- Acontece que ela tem doze anos, . Não consegue acompanhar nossa vivência. – Declarou de forma óbvia, e por notar isso, fez irritar-se. acompanhou-o arrumar a postura rígido, ainda apoiado no balcão; de relance passou os olhos pelas veias saltadas de seus braços forçando o mármore.
- Você concordou com que ela entrasse nisso, então vamos deixá-la a par das consequências realísticas do quanto relacionamentos podem ser bem complicados. – A voz de não podia ter soado mais revolta, elevando ainda mais o sangue quente de . –
- Você não sabe nem a metade de quantas situações complicadas e realísticas a passou esses nove anos. – Esbravejou, cravando seus olhos nos olhos cintilantes do homem a sua frente. –

estava prestes a subir no balcão bem como estava até aquele momento. Até ouvi-la dizer aquilo. Aos poucos a mulher acompanhou-o relaxar a postura, sabendo que não era por desistência e sim por sentir-se afetado, dolorido. engoliu em seco desviando-se de seu olhar cortante, parecendo perdido e confuso por alguns segundos.

- Talvez eu não faça ideia mesmo, mas estou lutando pra tentar. – Murmurou baixo, mas firme; procurou suas chaves no balcão, juntando seu blusão ao mesmo tempo. – O fato é que eu não consegui falar com ela porque eu sou péssimo. Talvez vocês consigam com mais êxito que eu. – Fez gestos aleatórios com as mãos, anunciando sua saída.
- Não desiste assim da situação, . – que antes apenas assistia tudo calado, proferiu cauteloso, com sua melhor voz acolhedora. De certo modo sua experiência com palavras era um tanto magnética. – Não fazemos ideia de como falarmos com ela, mas se tem algo que eu aprendi com o tempo é que a cada fase é uma prova de fogo diferente. – Continuou cruzando os braços. – É homeopático. Temos que ficar tentando e tentando e errando até acertamos, até lá, a tarefa de lidar com pessoas em crescimento é um aprendizado constante. Nunca estamos preparados, , nunca ninguém está preparado pra isso.
- Eu acho que ela precisa de um tempo. – O outro murmurou apertando os lábios. – Só vou respeitar sua vontade e voltar quando ela estiver mais calma. – Suspirou. – Vou indo.
- ...

E novamente a frase de morreu com o baque da porta, agora da frente, sendo fechada num barulho oco. cedeu toda o ar que tinha no corpo abanando sua cabeça negativamente em seguida, apertou os olhos, passou a língua nos lábios e só então ergueu-se novamente, deparando-se com o olhar de travado em sua pessoa, sério.

- Precisava dizer aquilo? – O homem disse sem esperar, arqueou a sobrancelha desnorteada. –
- Eu estou ouvindo direito?
- , lembrar constantemente que ele perdeu nove anos da vida da filha dele não vai ajudar em nada. – advertiu cansado, tirando mais um suspiro perplexo da mulher.
- Você está defendendo o após toda essa situação? Que parte eu perdi? – Abriu os braços, irritada.
- Você pediu pra eu dar uma chance pro cara e é isso que eu estou fazendo, e você? – Pausa. A mulher não teve resposta, desviou o olhar dos dele. – Foi o que eu pensei.

voltou a olhá-lo ao ouvir o barulho da coleira de Garry sendo retirada do cabide ao lado da porta. Abriu a boca na intenção de rebater, tentar dizer algo diante daquilo, mas merda, sempre tinha razão. Pelo menos nos últimos dias era o que ele mais estava tendo. Sua relação com era conturbada demais e só então ela conseguiu entender, notando de longe, sem toda aquela nevoa de receio que o problema da situação era seu assunto mal resolvido com . Constantemente evitar o assunto e fingir que nada tinha acontecido era o meio de resolução de conflitos, contudo, mesmo que imaginasse que tudo iria se esvair porque havia dito em voz alta que havia o perdoado, uma vez não resolvido, voltava a tona quando não tinha controle de suas palavras, e essa era a pior maneira de expelir o que sentia.

***

1h46minutos.
calculou em seu relógio ofegante, apoiando-se em seus joelhos completamente fadigado por aquele passeio que virou uma corrida desde que saíra de casa com seu cachorro. Ao sentir o corpo aquecer com as andadas singelas por sua vizinhança um tanto sossegada então, decidiu que iria estender as andadas para uma caminhada. Dirigiu-se até Inwood com Garry que parecia já notar o destino diferente, denunciando sua animação pela decisão de última hora do dono.
O homem riu um tanto perplexo ao olhar o cachorro inusitadamente animado o olhando com sua enorme língua de fora.

- Ei, amigão, hora de voltar pra casa. – murmurou agarrando Garry carinhosamente por sua coleira, a relutância do cachorro o fez rir ainda mais. Como era possível? – Sério? Você ainda está com pique?
- Parece que alguém não está conseguindo acompanhar o ritmo...

De imediato virou-se para trás encarando uma morena tão ofegante quanto ele, suada, com um sorriso enorme no rosto; ainda retirava os fones a medida que este ia endireitando a coluna para encará-la.

- E eu sei que não é o Garry. – A mulher finalizou. Após a frase riu desconcertado assim como ela, aproximando-se a ele para depositar um beijo. – Nervoso?
- Carmen...
- ...
- Algumas coisas não mudam, certo? – Respondeu coçando a nuca. Às vezes esquecia-se de que Carmen convivera cinco anos com ele.
- Em você acho meio difícil algo mudar.

Houve um tempo em silêncio após a frase. de alguma forma sentia-se um tanto desconfortável com a aparição repentina de Carmen, por pior, por saber que ela compartilhava da mesma mania que ele, talvez até pudesse dizer que havia de certa forma aderido por sua “culpa”. Carmen só corria naquele parque quando estava nervosa com algo, e bom, fora impossível não identificar seu olhar perturbado com algo.

- Bom, vejo que apenas por hoje estamos no mesmo barco... – Suspirou, respondendo logo depois com um sorrisinho.
- Acho difícil. – A mulher respondeu cautelosa. olhou-a duvidoso, iniciando passadas lentas já em direção a sua casa que ficava a menos que duas quadras dali. – Olha pra você... Casado, tem a família que queria...
- Carmen Scott se sentindo para baixo? Em toda nossa vivência, nunca presenciei. Achei que não estaria vivo pra isso – Brincou arrancando um riso mutuo da moça, que negou em seguida.
- Você disse que eu podia te ligar se precisasse...
- Sim, claro. Como vai aquela história? – Perguntou atencioso.
- Eu estou na fossa. – Soltou de uma vez só. Por um segundo o homem a encarou sem reação alguma, impulsionando-a a continuar. – Esse é meu último mês com o dinheiro que me restou da rescisão do contrato com a última empresa. Eu simplesmente não posso voltar pra casa dos meus pais com trinta e quatro anos; , eu estou perdida, eu estou sozinha.

permaneceu em silêncio. Sua cabeça trabalhava a mil naquele momento enquanto apenas eram guiados pelo barulho das patas de Garry arrastando-se ao chão da calçada. Juntou as informações fornecidas por Carmen no dia em que se encontraram naquele restaurante após o trabalho com as daquele momento.

- Poxa, eu não sei nem o que te dizer... – O homem coçou a cabeça, realmente sincero com suas palavras. – Como foi?
- Acho que essa foi a pior parte, sabe? – Murmurou agora já parando em frente à casa de , bem como ele fez. – Mas não estava na hora, eu não ia conseguir lidar...

Assim que tornou a olhar novamente para a casa onde residia seu ex-noivo, Carmen se perdeu por segundos incontáveis, admirando o que ele havia construído. Da mesma forma, parecia acompanhar seu raciocínio. Não sabia se deveria sentir-se culpado pelos sucessivos problemas que Carmen estava enfrentando, por mais que o tempo houvesse passado, o contato fora cortado radicalmente e bem, ele tinha consciência de que não havia outra pessoa tão próxima a ela quanto ele quando a deixou.
Apertou os olhos respirando fundo, tentando apaziguar sua mente de tantas informações e questionamentos, encarando dessa vez Carmen que parecia analisar algo lá dentro da casa.

- Bom... – Pigarreou. – Não é sua área, mas, eu estou precisando de uma secretária. – Disse receoso, dando passos de costas até a porta. – Da pra quebrar o galho até uma nova entrevista de emprego correta, não é?
- Você ta brincando? – Sorriu de orelha a orelha recebendo uma negativa como resposta. –
- Boa noite. – Sorriu doce, caminhando certeiro até a porta de casa.

não se deu ao trabalho de olhar para trás, pois sabia que sugerir que Carmen trabalhasse com ele geraria muitas especulações; acontece que lá no fundo o seu apelido de “manteiga derretida” do qual fora dado por não era uma invenção. Quando o olhava profundamente, analisando-o, conseguia extrair essa sua essência, embora negasse, tentasse ser o maior casca grossa e de fato conseguisse sustentar essa imagem para todos, era impossível fazer isso com ela e por esse motivo, o que estava fazendo por Carmen não era relacionado a um sentimento.

Ao soltar a coleira Garry, tudo o que foi ouvido fora o som do cachorro desengonçado correndo até seu pote de água. O homem abanou a cabeça rindo, pendurando em seguida a coleira ao lado da porta, com passos rápidos e desleixados foi fazendo caminho para o quarto, sedento por um banho, porém, uma cena o fez parar em meio ao caminho: estava encolhida no sofá com um copo de vinho em mãos, mergulhada na meia luz da sala. A cena era única, pois era raro o momento em que paravam na sala para apenas relaxarem, mas lá estava ela. Ainda vestida formalmente; o vestido agora subia para um pouco acima de suas coxas, os cabelos já estavam desgrenhados e mesmo com o olhar cansado, foi a cena mais humana e linda que já tinha visto dela em toda sua convivência como um casal.
Por um lado o preocupou; seu coração apertou por segundos ao imaginar o que passava em sua mente após todos os dias turbulentos que passaram. De mansinho foi dando passos em direção a ela, ainda apaixonado pela cena; Mesmo quando sentou-se ao seu lado, mostrando presença, não abriu os olhos.
acariciou a parte exposta das coxas da mulher carinhosamente, fechou os olhos ao passar o nariz por seus ombros, já retirando o copo de vinho de suas mãos, depositando-o em cima do criado e então lhe deu um beijo carinhoso no rosto. Tudo fora feito com tanto esmero que levaram pelo menos quinze segundos para todo a ato ser finalizado e ainda assim, sentia o formigamento no corpo pelo toque dele.

- Precisamos conversar. – Ela o intimou num sussurro, abrindo os olhos em seguida. Deu de cara com o marido a olhando calmo, ainda dedilhando suas coxas.
- Eu sei sobre a festa, . – Disse calmo, com um suspiro. – E eu não vou me importar de não fazer parte do comitê esse ano. O pai dela é ele.
- É só que... – gaguejou. Como podia a conhecer tão bem apenas com o toque? – Ele realmente precisa ir, e você também!
- Sabemos que é impossível. – A olhou apertando os lábios. – Como ela está?
- Não saiu do quarto até agora. – Respondeu relaxando a estatura outra vez. Dessa vez se aninhou em , recebendo de imediato, carinhos nos cabelos.

Por longos segundos ambos ficaram na mesma posição. continuou com seus carinhos reiterados nos cabelos de já pensando em como iria conversar com a garotinha do lado de cima; ele sabia que devia um pedido de desculpas bem dado e também sabia que não seria fácil obtê-lo, já cogitando um esporro vindo dela, mesmo que educado, pensou que essa fase demoraria mais para chegar. Pensando naquela linha do tempo, visualizou com quatro anos de idade, pomposa e sorridente andando em seu carrinho rosa que por sinal, era ele quem empurrava no mercado, e seus “bom dia” animados nas manhãs de segunda feira. Como ele podia lidar com um crescimento tão absurdo?

- Eu vou subir e falar com ela. – disse rápido, beijando os cabelos de que fechou os olhos ao senti-lo.
- Boa sorte com a fera.
- Me desejando boa sorte com a mini você? – Ironizou.
- Não sei se rio ou se choro desse comentário.
- Chora, amor. – Disse sarcástico recebendo uma virada de olhos da esposa.

Em questão de segundos, sumiu escadas acima deixando-a novamente no silêncio do cômodo; um silêncio que durou menos de três segundos e que por sinal, quase a matou do coração.
21h50min e a campainha estralou.
Olhou duvidosa para o relógio.

- Quando você vai me perdoar? – Ouviu assim que abriu a porta.

observou a feição de petrificar. Seus olhos fixaram-se nos seus a ponto de, mesmo com a rajada de vento gelada que viera em seguida, atingindo a pele desnuda de pela exposição do vestido, não se abater ou se encolher com o frio.

- Não faz isso comigo de novo. – Murmurou baixinho, abanando a cabeça completamente exausta. – Eu não posso.
- Eu sinto muito por ter perdido metade da vida da nossa filha, , eu sinto muito mesmo. – suplicou a olhando nos olhos. O olhar fora tão penetrante que ambos sentiram o estômago embrulhar na mesma intensidade. – O que eu preciso fazer?
- Me fala a verdade! – soltou exasperada, num tom ainda baixo. – Fala comigo, , eu estou aqui agora! Eu sei que eu sou dura, mas talvez fosse mais fácil lidar se você me dissesse...
- Eu disse tudo. – Respondeu. Viu-a fechar os olhos com força. Suas mãos apertaram o mármore da porta, denunciando a força que usava pra se sustentar ali, não física, mas psicológica.
- É isso que vai dizer pra ela quando for perguntado sobre os nove anos perdidos? – Perguntou longos segundos depois. Outra rajada atingiu-a, causando uma nova onda de arrepios em seu corpo; acompanhou o corpo da mulher enrijecer a sua frente, louco para abraçá-la. Talvez com seus corações colados conseguisse transpassar o mundo que sentia nele.–
- Eu sinto muito...
- Pois parece o contrário, . – Cortou-o direta. – Se você veio aqui pra... Eu não sei, eu... Você... – Gaguejou botando as mãos nos cabelos. – É isso que veio fazer aqui? Ser redundante o tempo todo com o mesmo “sinto muito” de sempre? Eu já entendi isso.

Em meio ao seu olhar um tanto avermelhado e tão cansado quanto o dela, lá no fundo, cogitava existir algo e na maioria das vezes existia. Em todos aqueles anos a mudança em fora constante, primeiro a barba, depois os cabelos e as roupas, mas o olhar era o mesmo, e mesmo que se esforçasse na ideia da qual a atacava todos os dias sobre sua ingenuidade em sempre achar que havia no fundo motivos louváveis, observou-o como seu melhor amigo.
Personificou como o garoto de quinze anos com seu violão surrado, rosto de bebê, sorriso fácil, embora tímido e seu olhar por baixo das pálpebras que quase sempre gritavam para ela algumas de suas teorias malucas. Tudo bem que naquele momento era só ela protagonizando uma, mas de qualquer forma, mesmo que o odiasse por todo o sofrimento, era impossível não amá-lo por todo o resto.

- Está fazendo aquilo, não está? – sorriu de lado, juntando as sobrancelhas. Percebeu a expressão de adocicar com o passar dos segundos, dos quais ela o analisava pra ser mais exata.
- Como você sabe?
- Essa é a sua cara de fazer teorias. – Apontou para o rosto da mulher que apertou os lábios para não soltar totalmente o riso. – Obrigado por acreditar em mim, . – apertou os olhos, mordendo os lábios.
- Eu nunca disse isso.
- Não precisa dizer. – O homem desceu os degraus de sua varanda, se afastando um tanto. – Seus olhos dizem por você, e ainda bem que dizem!
- É isso?
- Eu só precisava disso.
- Você tem precisado muito de “dissos” , não acha? – ironizou óbvia; era muito para uma pouca palavra descrever.
- Eu sempre fui bem contraproducente na minha vida e você sabe, muita coisa pode caber numa palavra pequena. – Deu de ombros. – Boa noite. – Gritou já de longe, adentrando o carro.
- Como odiá-lo? – grunhiu raivosa ao fechar a porta atrás de si, perguntando sarcasticamente para si mesma, abanando a cabeça em seguida ao ver o que estava fazendo; ia até ela, mexia com seu cérebro como sempre fez, e simplesmente ia embora?
- Como amá-la. – murmurou antes de arrancar com o carro.





Continua...


Nota da autora: (13.09.2017) Eita, que capítulos tensos!! Meu coração estava pequenininho, depois grandão, e depois pequenininho... Não há como negar que esse marido é nosso amor de consumo, mas o pp1, convenhamos que também não fica muito pra trás, ein? Não vou estender por muito, só quero agradecer novamente por todas as meninas que leram até o final e que nos acompanham, estou adorando os comentários aqui embaixo, e também aberta a teorias e ideias. Para mais informações, esclarecimentos, crises existências, revoltas por causa da fic, por favor, entrem no nosso grupo no facebook e whatsapp! Sempre estamos disponíveis pra vocês! Te amamos florzinhas! Beijos. Família no facebook


Nota da Beta: Amei essa atualização! Achei uma coisa suave à saída dos dois pp’s com , eles conversaram tranquilamente e se aceitaram, isso foi um passo imenso! Tadinha da ,... que situação lidar com dois pais ciumentos, já basta um hahaha. Conciliação da e da finalmenteee, uhuul, rs! Esse finalzinho foi de matar, ai, ai! Difícil escolher, rs! Continuem <3




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Para saber quando essa fanfic maravilhosa vai atualizar, acompanhe aqui.



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