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Última atualização: 04/06/2017

Capítulo Um – Just the Beggining

Sim. Ela tinha engravidado aos 17, mas aquilo não era o fim do mundo pra ela.
A garota (na época) unia os pontos: 1º As lendas diziam que a maternidade era a coisa mais gostosa que uma mulher poderia passar na vida; 2º O pai ser o amor da sua vida tornava a sensação ainda mais gostosa; 3º O pai ser seu melhor amigo.
Mas é que ela, nem por um segundo, talvez por ser ingênua demais na ocasião, pensou que alguma parte desse raciocínio podia dar errado.
Na verdade, de primeira, nada de errado era possível de ser previsto. Ninguém prevê, e muito menos uma adolescente, que algo vá dar errado depois de três anos junto ao pai de sua filha.
Mas foi quando perguntou pela quinta vez se realmente queria ir embora, e a resposta fora ‘’sim’’, que teve certeza que sim, era possível tudo dar errado depois de três anos. Nem mesmo , a melhor amiga em comum do casal, que convivera desde os primórdios da amizade, que os apresentou no ensino fundamental e dividiu a amizade com os mesmos, que viu o primeiro beijo de e , e presenciou a gravidez tão precoce da amiga, pode prever que um dia seu melhor amigo e namorado (pois eles não haviam casado) de sua melhor amiga, iria deixá-la.
tinha a perfeita noção de que não estava totalmente feliz, ele era seu melhor amigo e, portanto, ela o conhecia muito melhor do que uma namorada poderia conhecer seu namorado, ambos eram maiores que isso; todo dia olhar nos olhos dele a matava. Por Deus, ela não podia mentir pra si mesma, mas mentia. Sentia que mentindo, um dia aquela mentira poderia tomar conta deles e ser real e era por ter tanta fé nisso que jamais imaginara que poderia realmente deixar ela sua filha, de três anos, e se mudar para outro país, há quilômetros delas, pra recomeçar a vida.
A lembrança estava viva nela, como se toda vez que lembrasse estivesse revivendo tudo outra vez.
Ele tinha chegado tarde outra vez, e embora aquela ação naquela semana estivesse sendo frequente, sabia que aquele olhar em si não era como os outros, a garota entrou em pânico. carregava consigo um envelope e olheiras profundas, a blusa que vestia estava molhada – chovia naquela noite – Seu peito apertou.

- O que é isso? – Perguntou cautelosa afrouxando o cardigan no corpo; a menina apontou para o envelope o vendo apertar os lábios.
- Me desculpa, . – murmurou recostando-se na parede do corredor que se formava entre a porta de entrada, e a escada da casa deles.
Era o suficiente para que ela pudesse sentir que era o fim? Era. Mas ela tinha esperança.
- Pelo quê? – Sorriu desconcertada, embora seus olhos já estivessem molhados.

Ele a olhou de novo.

- Não é por vocês, , é por mim... Eu te amo. – Murmurou choroso caminhando até ela. permaneceu parada, não se sentia capaz nem mesmo de falar. a viu fechar os olhos quando a segurou pelos braços. – É aquela chance única que você disse pra mim nunca desperdiçar... Eu prometo que eu...
- Que você vai voltar? – abriu os olhos. Sua voz tremulou. – Se você vai embora, vai por inteiro. Eu não quero esperar por você, . Eu não vou fazer isso comigo, e nem com a .
- Eu sou o pai dela, , eu vou voltar. – O garoto procurou os olhos dela, por si só, a menina apenas sorriu de lado.
- Eu não disse que você deixaria de ser.

Um silêncio se instalou por um minuto. Dentre ele, sentou-se na escada escondendo seu rosto com as mãos, não queria chorar, mesmo que ele já tivesse a visto várias vezes daquele jeito, chorar por ele nunca havia acontecido, e talvez por isso, tornasse com que fosse embora uma coisa ainda pior.
Na vigésima respirada o olhou de novo, estava lá com a cabeça encostada na parede e os olhos fechados.
Todos diziam que o amor não era egoísta. Fora isso que pensou ao olhá-lo tão profundamente indeciso naquele momento. Era como se ela pudesse ouvir o coração dele batendo e não era pra menos. estava entre sua responsabilidade como pai, e seu sonho... não podia culpá-lo pela indecisão. Ela não tinha a dádiva da dúvida de ir ou ficar, era sua vida agora, mas tinha, ela definitivamente não podia culpá-lo por isso.
Seu amor por ele era grande demais para que não pudesse dividir com seu sonho. Seu amor era genuíno, sempre pensou que quando decidisse e SE decidisse ser feliz longe dela, aceitaria. Mas vivenciar era totalmente diferente do que pensar. Era horrível. não era tão altruísta na prática.

- Quando você vai? – Perguntou limpando o canto dos olhos.
- Tenho dois dias. – Respondeu de olhos fechados num murmúrio trêmulo.

Mais segundos se sucederam em silêncio.

- Você realmente quer ir? – perguntou esperançosa, não teve noção que aquela pergunta poderia a matar ainda mais, ainda mais por não receber uma resposta. –
- , eu...
- Só responde, .
- Não me faz essa pergunta.
- Não nos deixe.
- Eu não quero deixar.
- Então não deixa!
- Não é tão fácil assim.
- Você quer ir.
- Eu quero ir.

Finalmente ela soltou o choro, voltando a se debruçar nos joelhos.


foi embora dois dias depois. Reservou um dia inteiro para com direito a parque de diversões e assistir os desenhos que sempre assistia com ela. não gostava da ideia porque sabia que no dia seguinte perguntaria e ela não saberia responder.
Naquele dia inteiro , como sempre, foi seu alicerce. tinha pais, mas correu para a melhor amiga, até porque não era nada fácil contar para seus pais que o pai da sua filha havia a deixado e agora você havia se tornado uma mãe solteira. Não que isso fosse um problema para seus pais, mas era um problema para ela mesma. nunca desejou aquilo, pensou que com as coisas seriam um pouquinho mais fáceis. Agora, sozinha?
Por um dia inteiro ela entrou em desespero, um dia inteiro era seu tempo até que fosse embora e ela precisasse retomar o controle e cuidar de . Nesse momento ela surtou, e quis matar . Matar e cortá-lo em milhões de pedacinhos. sabia cada ponto fraco de , podia sentir a dor da amiga em si mesma, podia ter ideia do que passava em sua mente, entendia perfeitamente o porquê da intensidade daquele choro dela.
E como toda melhor amiga, foi pensando em inúmeras maneiras de resolver aquilo. Sabia que não iria ser fácil, e que se curaria de maneira homeopática, mas era importante recomeçar, e rápido!

***


O início

Cambridge.
Esse era o nome da cidadezinha da qual , e nasceram, cresceram e se conheceram.
Localizada no interior de Londres, Cambridge não ficava muito longe da cidade grande, eram 80km pra ser exata. Uma típica cidadezinha do interior, bem pequena pra falar a verdade, era possível ir para todos os lugares a pé mesmo, sem falar na calmaria, embora fosse habitada por muitos estudantes por ter uma das maiores universidades da Inglaterra. Foi lá que morou por três anos com , até que o mesmo decidisse ir para Los Angeles.
Cambridge era tão confortável que mesmo sendo tão perto de Londres, uma cidade mais badalada, completamente cativante, nunca despertou desejo em de se mudar da mesma. Por ela, ficaria por lá pro resto da vida.
Porém, também como toda pequena cidade, os boatos se espalhavam rápido. A garota de 16 anos que ficou grávida já havia sido o bastante pra ela, estar com realmente amenizava as coisas enquanto frequentava a escola de mãos dadas com ele com aquela barriguinha que tentava esconder por causa dos olhares, ou quando andava na rua e as pessoas a olhavam torto. Tudo com ele era mais fácil. Sem tudo parecia ter virado um enorme peso que sabia que teria que aguentar, sabia que passaria, mas não sabia quando.
Foi aí que , vendo as olheiras, a cara de choro e a indisposição de causando efeitos em , e nada naquela cidade colaborar pra que ela melhorasse, teve a ideia por última solução de ir embora pra Londres.

- Não é tão fácil, , eu não quero ir embora. – disse cansada, seus olhos estavam molhados o que mais uma vez fez constatar que amiga estava chorando. –
- ,isso aqui não está te fazendo bem! Sempre quisemos fazer algo diferente, lembra? É nossa chance. – sentou-se frente a amiga na mesa. –
- Pode afetar a ...
- , faz três meses que você – apontou para . – Está afetando a . – A menina ficou em silêncio. – Olha pra você, amiga... – Murmurou. – Ou você pensa que eu não sei que você só tem chorado?

abaixou a cabeça engolindo em seco. Sentiu seus olhos arderem novamente.

- É difícil, . – Tremulou tapando o rosto. –
- E eu sei que é. Mas é preciso recomeçar. Lembra daquela faculdade que fizemos o simulado só por brincadeira no ano passado?
- Que o não entendeu por quê...
- Sim. – fez uma pausa. – Tiramos uma nota ótima. Eu tenho entrado em contato com ela faz algum tempo... – a olhou. – Não vamos conseguir cem por cento, mas metade da bolsa nós temos, também tenho visto alguns apartamentos pequenos que podemos bancar por hora com a nossa pensão sem falar no quanto guardamos durante esse tempo trabalhando... Tudo se encaixa.
- Meus pais jamais vão me deixar levar a embora... – Sorriu de lado sarcástica. fez o mesmo. –
- Eu conversei com eles também.

Duas semanas depois ambas acompanhadas de estavam dirigindo para Londres. Pela primeira vez depois de três meses chorando feito condenada, pensou que realmente poderia se recuperar de tudo que estava acontecendo.
Se adaptar talvez tenha sido a tarefa mais difícil para as três.
De primeira resolveu ficar pelo menos duas semanas a mais com a filha, cuidando dela e levando para a escolinha no tempo em que precisava para se adaptar segundo a escola.
Um mês depois de chegarem a nova cidade, finalmente ingressou na faculdade. Botou a cara no sol, e foi, tanto por insistência da amiga, como por não aguentar mais ficar naquela bolha tão triste que tinha criado. Ela não era assim, seu tempo de “luto” precisava passar, e ela decidiu que quatro meses sofrendo por eram suficientes, até porque não adiantaria de nada. tinha se irritado, agora era ela quem não queria mais aquilo.
Foi sustentada nessa base que aguentava as perguntas de sobre o pai. Os chorinhos tristes dela quando apenas acenava com a cabeça e abraçava a filha, mudando de assunto... Foi sustentada por esse ideal que aguentava olhar para e ver reluzir o olhar de ali. Os olhos dela eram completamente iguais ao do pai. E mesmo assim, quando se distraia por cinco minutos ou mais, sentia perder o controle disso, sentia a angústia novamente, especialmente quando era pressionada.
Com estudando o dia todo, e trabalhando e estudando, o tempo era escasso pra se pensar nisso, mas ainda não era uma hipótese descartada. Ela estava melhorando e muito durante os meses, já sentia um ar diferente vindo da amiga naqueles dois meses passados em que estavam vivendo ali. Agora já estava saindo e conversando melhor, ria com muito mais vontade e de certa forma estava melhor quanto a .
Foi num desses momentos que elas conheceram suas colegas de faculdade.
Normalmente em uma das semanas, mais especificamente um mês depois que aulas começam, a faculdade proporciona um sistema de palestras de uma semana das quais quase nenhum aluno tem interesse de ir, ou melhor, professores também podem não ter esse interesse em palestras, embora incentivem, e porquê eu disse professores? Porque um deles fora o tema na mesa delas naquela semana de palestras, da qual o dito cujo estava calmamente sentado em uma das mesas da cantina em momento de palestra junto com mais alguns alunos.

- Eles não deveriam incentivar se nem mesmo eles vão. – Shelley comentou tomando um gole de seu suco natural. –
- De quem você está falando? – Barb se virou para amiga, confusa. –
- Aquele gato ali não é um professor? – Shelley apontou com a cabeça para a mesa ao lado, fazendo com que todas as garotas se virassem para a mesma, inclusive e . –
- Ah sim, você está querendo dizer, o galã da faculdade? – Barb continuou trocando olhares com o homem da mesa ao lado por algum tempo antes de se virar. –
- Galã da faculdade? – sorriu de lado. –
- O famoso professor de Direito Criminal. Além de ser ótimo no que faz, é um pedaço de mal caminho. – Barb explicou, sorrindo de lado. –
- É uma pena que não teremos aula com ele... Diz a lenda que ele nunca pega os primeiros anos pra dar aula.. – Joy pela primeira vez se pronunciou. – Em parte eu fico feliz porque dizem que ele é um carrasco... Agora, olhando pra aquilo ali...
- Se não vamos ter aula com ele, vamos riscá-lo da nossa pauta. – brincou. – Ele nem é tudo isso...
- Do que você está falando? – Shelley perguntou perplexa - Você é maluca? Aquele tipo de beleza precisa ser apreciada e comentada em todas as línguas mesmo que não tenha nada a ver com a gente! – riu de lado voltando a olhar o homem que agora por sua vez havia percebido a movimentação e por esse motivo havia trocado olhares com ela. –
- É, eu acho que aquele tipo de beleza ali notou que estamos falando dele. – fez um gesto imperceptível para apontando no relógio em seu pulso. –
- Bem, enquanto vocês ficam paquerando o gatão ali, eu vou indo, pois tenho uma pequena menininha de três anos me esperando. – levantou-se da mesa. –
- Foco, suas desesperadas. – brincou. –
- As vezes eu custo a acreditar que vocês são humanas. – Revirou os olhos. – Eu sou desesperada por um homem desse...
- As vezes eu custo a acreditar que vocês tenham bom senso! Olhem bem pra ele...
Mais uma vez a mesa toda olhou para o homem que mais uma vez havia notado, embora tentasse disfarçar o máximo que sabia disso.
Junto a a garota passou pela mesa onde ‘’galã da faculdade’’ se encontrava, passando por ele intrigada. Assim que passou, pelas costas do mesmo, fez um coração para as amigas do outro lado de maneira sarcástica, jogando uma piscadela de volta. Fora o suficiente para que todas fizessem cara feia.
Naquela circunstância para ela, já era estranho demais imaginar seu professor como algo mais, embora não pudesse deixar de ser sensata: o cara era bonito, mas talvez não fosse tudo isso. Esse fato ela só descobriria se o conhecesse.
O primeiro semestre ( o período de seis meses do qual a faculdade dividia entre provas) havia se passado bem tranquilo. Tão tranquilo que até mesmo havia tido tempo para conhecer um cara.
O milagre começara ai. que por sua vez não havia pensado tanto em naqueles seis meses e estava por fim, conciliando ser mãe e dona de casa ao mesmo tempo, e que por um milagre havia se interessado em alguém. Não é que ela não tivesse sentimentos, mas para realmente se apaixonar era complicado. Era um período de fases dos quais nenhum cara até aquele momento tinha passado, a não ser .
Por sua vez ele era mais velho que ela, tinha vinte e três anos e fazia apenas algumas matérias pendentes na faculdade, ou seja, ela já havia terminado seu curso de medicina. de inicio morreu de ciúmes, mas depois se acostumou, levando em conta de que , desde a primeira vez que o viu o amou, foi pela intuição. Dizem que crianças sacam quando a pessoa não é boa como diz ser de primeira, amava , foi por ela.
O semestre seguinte começara com as disciplinas de direito criminal, civil e mais outras matérias bem mais especificas, e para a surpresa de todos e delírio das amigas, pela primeira vez na vida, o tal ‘’galã da faculdade’’ havia pego apenas uma sala de primeiro ano para fazer uma experiência.
Foi aí que começou o problema, porque não trabalhava direito sob pressão e isso era o que novo professor mais fazia.
Durante as aulas a garota tinha a impressão de que o homem era intocável. não pode deixar de notá-lo algumas vezes durante a aula; era realmente apaixonante, embora fosse extremamente sério e focado, talvez fosse esse o motivo de cativar tanto todas as meninas; o máximo que as pessoas sabiam dele era o nome, e olhe lá. No entanto, aquilo deixava ainda mais intrigada no homem.
A garota perdera as contas de quantas vezes perdeu a explicação por não prestar atenção no que ele falava em si, enquanto olhava diretamente pra ela e sim, estar observando os olhos dele, ou parte da barba mal feita, ou qualquer outra parte de seu corpo, o que era totalmente involuntário. Parcialmente estranho, mas involuntário. tinha total noção de que se não parasse de reparar no homem não conseguiria estudar direito e foi por esse motivo que seu nervosismo só aumentava, e com o nervosismo, tudo voltava de súbito.
sabia que ainda tinha essas recaídas por causa de quando afetavam seu sistema nervoso. Embora parecesse dramático demais, era praticamente um trauma para , aquele que você só se lembra de maneira extrema, quando não está controlada, esse era o caso. Seu maior medo era que voltasse durante esse período em que ainda estava se recuperando e acabasse com todo o trabalho intenso que estava tendo em se reconstruir. Obviamente qualquer um pensaria ao contrário, que se voltasse ficaria totalmente melhor, mas não. Por mais que tivesse sido seu melhor amigo, o tempo já tinha prescrevido. Já tinham se passado sete meses desde que ele havia as deixado, e mesmo que fossem três, ou dois, o que ele fizera fora desumano.
sabia que não tinha o direito de ter feito o que fez, mas foi por esse motivo que havia evitado, escondido e dificultado a aproximação de naquele período de sete meses.
Sim. Dois meses após deixar ambas e ir embora, tentou fazer contato. Tentou no terceiro mês novamente, e no quarto, e no quinto. Muitas vezes ligava sem parar para o celular de onde muitas vezes tinha a sorte de estar perto e sem querer derrubava e desligava, ela sempre tinha uma desculpa. Fora no sexto mês, que sem aguentar mais as ligações de e com uma já desconfiada, que atendeu pela primeira vez a ligação de .

Mais uma vez ela olhara cansada para o celular vendo aquele número conhecido, embora não estivesse gravado no celular de , sabia de cor pelo número de vezes que rejeitou.

- O que você quer, ?
- ? – apertou o celular nas mãos. –
- , ela está bem sem você.
- , por favor...
- Eu é quem te imploro, , chega de ligar, você fez uma escolha e agora precisa arcar com as consequências.
- Eu me arrependi!
- Tarde demais pra se arrepender.
- Eu quero minha filha de volta, eu quero minha vida de volta! , me...
- , elas seguiram em frente, tudo bem? está conseguindo conciliar as coisas e finalmente parou de chorar por você, está bem melhor e até parou de perguntar sobre você, embora você seja o pai, ela tem outra figura masculina pra te substituir, então não volte só por responsabilidade, volte por amor, o que eu duvido que exista em você.
- Do que você está falando? – A voz do garoto pela primeira fez oscilou. –
- Estou pedindo que você pare de ligar.

Assim que finalizou a chamada abriu a porta do banheiro entortando a cabeça imediatamente ao ver a amiga com o celular nas mãos, por não ser a primeira vez, desconfiou ainda mais.

- O que você está fazendo?
- Tirando foto.
- Você tem o seu. – estendeu a mão para que lhe entregasse o celular.
- Você sabe que não é tão bom, sem falar que aquela foto minha e do está nele e eu esqueci de mandar pra mim. – Mentiu correndo para apagar o número.
continuou olhando a amiga de sobrancelha levantada até a mesma terminasse de ‘’mandar a foto’’ e lhe entregasse o celular.
Naquela altura do campeonato, nem por um segundo pensou em algo relacionado a . Sua mente já estava acostumada a desiludir qualquer coisa que viesse em relação a ele, qualquer pontinho de esperança que aparecesse parecendo ser a favor de , portanto apenas ignorou.
Há isso tivesse acontecido há seis meses...


Mas embora pensasse que aquela fora uma maneira eficiente de acabar com tudo, e estivesse segura de que não fosse ser nem um pouco louco de voltar a contatá-las, a coisa fora pior que isso.
Por estar certa de que estava tudo no controle, deixou de tomar conta do celular de com toda ligação e mensagem. Em parte porque não o largava mais, e em outra porque realmente pensou que tivesse entendido o recado.
Foi nessa que num dia como outro qualquer, enquanto estudava para a prova que se seguiria naquele dia, uma hora antes da prova para ser exata, que seu celular tocou estrondosamente pelo quarto, a fazendo por um momento agradecer por ter um motivo para parar de estudar e fazer outra coisa. Seus olhos estavam cansados, por esse motivo atendeu quase que de primeira, fechando os olhos sem nem mesmo olhar o número.

-Hey?
- ?

Foi quando seu coração parou. Fora como uma reação química; o coração de parecia ter virado uma pedra de gelo de um segundo para o outro.

- ? – Chamou mais uma vez. –
- ? – Houve um suspiro após sua pergunta com a voz trêmula.
- Ah, finalmente você me atendeu. – silêncio. – É o seguinte, eu quero ver minha filha. – Seu tom era ríspido. –
- Você não fala comigo ou dá notícias por sete meses e é assim? ‘’ Quero ver minha filha? ‘’
- Oh, têm algum problema pra você? – Perguntou irônico. Por mais ridículo que fosse as vezes, aquela atitude dele estava deixando desconcertada.
- Eu não sei se você é capaz de entender a gravidade da situação, , mas vou te lembrar: Você deixou sua filha há sete meses, e ela passou cada segundo perguntando porque diabos o pai dela havia a abandonado, e agora você acha totalmente simples voltar? – A garota aumentou o tom de voz perplexa. – Você pode não ter um coração, , mas sua filha tem, e eu não vou deixar você arruinar o dela de novo.
- Ah sim, e a maneira que você soluciona essa situação é colocando outro cara para substituir o pai dela, não é?
- Do que você está falando?
- Que eu sei que você tem outro, bem rápida pra falar a verdade.
- , eu não estou com ninguém. – Riu nervosa.
- Sinceramente, ? Eu não me importo se você está com alguém ou não está... – Seu estômago embrulhou e como reação, seus olhos se encheram de lágrimas em segundos. –
- você tem noção do quanto eu sofri por nós?– O garoto pigarreou travando a fala dela. –
- Eu achei que estivesse superado isso.
- Eu me recuso a acreditar que você...
- Que o quê? Que eu tenha te esquecido?
- , eu te...
- Se você continuar dificultando as coisas eu vou ser obrigado a entrar na justiça. – O garoto a interrompeu. –
- Dificultando? – riu sentindo uma lágrima escapar. – Você me deixou! Você nos esqueceu!
- Quando você vai entender que não é sobre você? É sobre a , ! Eu quero vê-la e isso não compete a você decidir ou não! É sobre mim e minha filha. Eu esqueci você, e não ela.

apertou os olhos ao ouvir aquilo. Seu coração parecia pulsar no peito, mas muito embora estivesse doendo e quisesse desligar e fingir que nunca ouviu aquilo, apenas respirou o mais fundo que conseguiu antes de responder.

- É eu acho que é o melhor você pode fazer não é? – Sorriu de lado, parecia dizer aquilo para si mesma limpando o resto de lágrima que sobrara.
- E quanto a ? – O tom de voz do menino diminuiu como se soubesse que estava machucada, ele ouvira, ele sentira a dor de dela. –
- Vou te mandar o endereço.
- Tudo bem...
- – A garota chamou pela última vez num suspiro. – Não se esquece do aniversário dela.
- Eu não vou.
- Ótimo. Fique... Bem.

Embora tivessem se despedido, tanto quanto continuaram na linha ouvindo suas próprias respirações. podia ouvir as fungadas de . Não era nada alto e nem exagerado, muito pelo contrário, era do jeitinho que ela chorava, aquela maneira que o matava; era como se cada parte boa que houvesse sobrado nele se quebrasse. Ele podia sentir o cheiro dela, podia sentir a textura da sua pele, ainda podia sentir o gosto do beijo dela, tudo isso apenas em uma ligação. Sim, era totalmente mentira. Ele estava quebrado por dentro, e talvez ela fosse a coisa que mais importasse pra ele naquele momento.
não queria dizer aquilo, ele só estava com raiva. Como ela poderia ter ido tão rápido em sete meses? Como ela podia ter colocado outro cara na vida dela e da própria filha tão rápido? Isso o tirava do sério, porque só o que ele sentia era saudade, enquanto ela...
Trinta segundos depois de ainda conectados aquela ligação, foi a que finalizou.
Lentamente a garota tirou o celular do ouvido olhando para a foto dela e de na tela do qual o contato do mesmo formava. não sabia se fora por isso que doeu ainda mais; olhar para a foto deles e querer de volta, ou sentir tanto por estar o odiando naquele momento. Doía mais porque mesmo sabendo que o amava, queria com todas as formas naquele momento odiá-lo, queria mesmo. O fato de querer a machucava.
Com o rosto tapado em cima dos cadernos se curvou na cama voltando a chorar como não fazia a muito tempo. Abraçando o próprio corpo naquela posição, parecia ter perdido tudo que construirá o tempo todo.
Naquele momento ela odiava totalmente e completamente .
E ? Bom, a única coisa que bastaria pra ele, era saber que não havia homem nenhum com ela.

- Ei, vamos! Você sabe que não podemos nos atrasar pra prova do gatão, ops, . – deu dois toques na porta do banheiro onde lutava insistentemente contra a cara de choro. –
- Estou indo. – Deu uma ajeitada de leve finalmente abrindo a porta. –
- Você dormiu a noite? – entortou a cabeça reparando que havia algo errado com a amiga. –
- Tentei... Estou nervosa. – Mentiu. –
- Isso piora as coisas, você sabe. – Disse enquanto ambas desciam as escadas da pequena e simples casa que alugavam. –
- Sim, e você me falando isso está ajudando muito mais. – ironizou dando de cara com a filha no fim da escada, de imediato abaixou recebendo um abraço dela. –
- Você já volta, não é? – Segurou o rosto de . A menina foi obrigada a encarar os olhinhos desesperados de e só o que sentiu foi ainda mais vontade de chorar, sentiu seus olhos se encherem de lágrimas brutalmente. – Mãe?
- Sim, você sabe, o mesmo horário de sempre. – Sorriu de lado puxando para um abraço. – Eu te amo, pequena.
- Eu te amo, mamãe. – se afastou para beijar a testa de . Embora fosse pequena, era incrivelmente esperta e prodígio, haviam pessoas que achavam que ela tinha cinco de tão sabida e falante que era. –
- ? Vamos. – abriu a porta apontando para o relógio. –
- Sim, vem com o tio ! – gritou fazendo desviar a atenção para ele. Em segundos a garotinha se desvencilhou da mãe lhe dando um beijo rápido e correu para o homem.-
- Qualquer coisa, por favor, me liga! – disse limpando o cantinho dos olhos. –
- Eu dou conta desse mini furacão aqui, relaxa . – piscou. –
- Nós vamos tomar muito sorvete e ir até o...
- Shhh! – colocou o dedo indicador na boca fazendo se calar no mesmo momento. –
- Olha lá!
- !
- ... – A mãe ponderou alguns segundos vendo achar graça junto a . –
- Está tudo sob controle. – respondeu sorrindo. –
- Vamos! – disse pela última vez, e só então a garota foi mandando vários beijos no ar para . –

Como já dito, não agia nem um pouco bem sob pressão, e embora ela soubesse por boatos que a prova do carrasco barra gatão era realmente tensa, não imaginou que fosse tanto.
Por um segundo ela pensou que lhe fosse faltar ar por tanta pressão.
passou por todas mesas, sem exceção de nenhuma, revistando um por um, sem falar no olhar de matador, pegando até o celular de com as próprias mãos para desligá-lo. Tudo bem, aquilo poderia não ser demais, e muito provavelmente não era, mas já não estava bem, isso piorou demais as coisas.
Com base no tempo que se passava, de vinte em vinte minutos saia uma pessoa da sala, e continuava lá, quase na mesma questão, demorando horas em uma única questão simplesmente porque em cada frase, lembrava-se de falando com ela e seu coração apertava, lhe obrigando a tentar bloquear aquela sensação o máximo que conseguisse. Isso levara todo o seu foco e energia que tinha reservado pra prova.
Com uma hora e meia de prova terminou, sendo uma das últimas a sair, mas não a última, já que estava ainda na metade da prova. E assim foi indo, até que sobrara somente dentro daquela sala. Ela e o professor.
Na última questão ela desistiu. Já havia passado tudo que lembrava e que conseguira fazer, fora nesse momento que o homem se dirigiu a ela, quando se apoiou nos cotovelos, afundando o rosto nas mãos com um suspiro.

- Am... Terminou? - Ouviu a voz dele invadir seus ouvidos e quase fazer eco naquela sala vazia. –
- É, eu acho que sim... – Respondeu massageando parte de sua testa, aquela entre os olhos; Novamente ela sentiu vontade de chorar. –
- Ok. – Respondeu retirando a prova da garota. –

se levantou lentamente de onde estava arrumando suas coisas na mesma velocidade. Sentia-se fraca, e não, não era demais. Sentia vontade de sentar e respirar... Era como se não estivesse fazendo isso desde que desligara a ligação com . Era como se não estivesse respirando esse tempo todo e seu corpo clamasse por ar, seu corpo estava reclamando e doendo por isso.
acompanhou cada movimento da menina. Nem mesmo ele que estava por fora de tudo estava se sentindo bem com a feição de ; o olhar dela estava o deixando nervoso porque obviamente havia algo errado e embora ele não fosse do tipo de cara que se importasse com isso ou com o que uma aluna estava sentindo depois de sua prova, sentiu-se completamente responsável por ela naquele momento. Algo nela o despertou a vontade de ajudar, não podia deixá-la ir pra casa daquele jeito e ele não sabia porque, mas não podia.
Foi nesse momento que levantou de súbito da cadeira segurando de leve pelo pulso, a fazendo virar-se preocupada para ele. A garota desviou os olhos das mãos que a seguravam para os olhos do homem dessa vez mais confortantes do que antes.

- Tá tudo bem com você? – Ele perguntou receoso ainda sem soltar o pulso dela. Viu-a desviar o olhar para o chão. –
- Sim, eu só estava um pouco nervosa... – Murmurou voltando a olhá-lo, sorriu de lado ao vê-lo fazer o mesmo. Ele não era bobo, o nervosismo não era o problema dela. –
- Tem certeza? – Dessa vez a soltou. – Eu não queria assustar vocês, na verdade...

parou de falar quando a viu comprimir os lábios e logo depois tapar parte do rosto com uma das mãos vazias, pois a outra segurava a sua bolsa. estava a um fio de chorar bem ali, na frente de seu professor.

- Eu preciso realmente ir embora. – Virou-se bruscamente sendo segurada novamente por ele. –
- Você não pode ir pra casa assim... Quer dizer... – entortou a cabeça com os olhos encharcados. –
- Olha, professor, eu realmente preciso ir... – E ele a segurou de novo a fazendo arquear a sobrancelha. –
- Vamos tomar um ar, assim você melhora e eu vou pra casa com a consciência limpa. – Dessa vez virou-se totalmente pra ele cruzando os braços. –
- Consciência limpa? – Sorriu. – Você não me deve nada, professor. – Disse perplexa. –
- Primeiramente pare de me chamar de professor, meu horário já acabou e fora dele eu sou o , muito prazer. – Estendeu a mão para a garota que apertou em seguida ainda confusa. – Em segundo lugar, eu realmente não te devo nada, mas eu gostaria de ajudar.
- Não acho que ninguém seja capaz de me ajudar com isso. – A garota murmurou. – Mas obrigada por se oferecer... - Disse dando alguns passos para fora da sala. –
- Eu posso não poder ajudar realmente nisso que você precisa, mas podemos passar o tempo até que você se acalme... – deu de ombros se apoiando no batente da porta. –
- Acho melhor não... – murmurou mordendo os lábios. – Você é meu professor e, não pega bem sabe? Eu realmente quero...
- Pronto, você quer. Essa é a resposta: Sim ou não. Querer é basicamente um sim. – O homem jogou a bolsa que carregava nos ombros desligando as luzes da sala e indo em direção a . –
- Não, não mesmo... Eu agradeço por isso, mas...
- Ei, , certo? – Ele parou em frente a garota. – Nós só vamos respirar um ar juntos, ok? Se você acha que isso é algum tipo de cantada, ou que eu quero algo a mais com você... – Fez um gesto negativo com a cabeça. – Eu tenho namorada, eu realmente estou com intenções puras, só to pedindo pra que você aceite a minha bondade.

continuou parada por alguns segundos matutando. Ela realmente não estava a fim de voltar pra casa naquele momento e chorar pelo resto do tempo em que ficasse acordada e muito menos queria que sentisse que estava assim, e foi pensando nela que decidiu: Não era lá tão ruim sair tomar algo com seu professor. Ou melhor, o período de trabalho dele havia acabado. Agora ele só era um homem que havia a chamado para tomar um ar e espairecer até que se acalmasse.

- Tudo bem. – Cedeu soltando um suspiro e como resposta ele apenas sorriu involuntariamente direcionando até seu carro com uma das mãos em suas costas. –

Três mensagens de , e uma de . O coração dela acelerou, tanto que que estava ao seu lado dirigindo conseguiu perceber, olhando rápido para a garota, por hora o homem preferiu ficar calado.

‘’Essa menina é um saco sem fundo? O que eu dou pra ela parar de comer? xx ’’
‘’ Provavelmente você não vai responder, mas só queria deixar registrado aqui que sua filha é doida igual a você. Xx ’’
‘’ já está com a gente e disse pra você avisá-la quando acabar a prova que vamos te buscar. (Precisei de Help com o mini furacão D: xx ’’


riu de leve entre as mensagens, dando um suspiro longo antes de abrir a última.
‘’ Anotado! Peça pra alguém levar até mim quando eu for buscá-la. Fique bem, ou melhor, fique melhor do que você já está J ‘’ xx .

Inevitavelmente a garota engoliu seco sentindo novamente aquele gosto amargo subir por sua garganta. Era realmente possível sentir-se tão devastada em segundos? não estava entendendo onde queria chegar. Outro homem? Embora não houvesse homem algum, ela se negava a perguntar, havia a machucado o suficiente porque mesmo que houvesse outro homem, ele não a amava, ele não se importava, e havia deixado isso claro.
Por último ela apertou o play para ouvir o áudio de enviado a menos de cinco minutos.
‘’ Ei, eu pedi pro avisar, mas vou reforçar: Precisei vir embora e não consegui te esperar, a pequena furacão estava deixando o louco!
riu no áudio fazendo sorrir de leve, e que estava ouvindo tudo também.
‘’[...] Assim que terminar me mande um sinal de fumaça e eu irei junto com a sua cópia e meu ilustre namorado te buscar... (Tia ? Tia ?)
ouviu a vozinha de interromper a fala de , colocando o telefone mais perto da orelha para poder ouvir o que a filha sussurrava:
‘’ [...] Sim? – Sussurrou – O tio pode ser meu novo pai? – perguntou inocente. –
sentiu o coração parar, fechando os olhos como reação.
‘’[...] Falamos disso depois, bebê. – respondeu baixinho. – Eu sinto tanta falta do meu pai... – ouviu ao final do áudio a voz chorosa de . –
Bem! Ela deu uma caidinha, mas não ficou nem marquinha então fique sossegada, mãe coruja! ‘’


- É pior do que eu imaginava. – murmurou segundos depois de ouvir o áudio, virando-se com os lábios comprimidos para a menina ao lado; viu-a de olhos fechados com a boca numa linha fina, prestes a chorar. –
- É pior do que eu imaginava. – sussurrou apertando o celular nas mãos. –

O resto do caminho ambos foram em silêncio ouvindo apenas o som das pequenas gotas de uma chuva que ameaçava cair. Vez ou outra olhava para o lado na intenção de verificar se estava realmente bem, por que sinceramente? Ele não sabia o que estava fazendo ou o que pretendia fazer. Sua ação fora totalmente impulsiva em relação a ela, só queria aquela garota perto dele e melhor, ele queria vê-la bem e isso o deixava extremamente confuso porque não sabia por quê!
Com dez minutos de carro ele resolveu parar num bar perto da faculdade do qual frequentava vez ou outra com alguns estudantes que o convidavam, embora não estivesse indo muito por lá por causa da namorada – Ciumenta – não sabia o que era sentar numa mesa de bar e tomar uma cerveja ou qualquer coisa que fosse há muito tempo, entrar ali com fora totalmente fora de sua rotina em três anos...

- Então... – Cortou o silêncio assim que ambos se ajeitaram em uma mesa para dois. – Você tem uma filha? – entrelaçou suas mãos em cima da mesa, estranhamente entusiasmado. –
- Calma... – soltou um riso anasalado fazendo o homem entortar a cabeça, embora também estivesse com um sorriso. – Meu professor cara fechada, super sério, realmente esta entusiasmado com uma conversa alheia a matéria? – O homem retorceu o rosto jogando-se no encosto da cadeira. –
- Enfatizando novamente: Não sou seu professor aqui fora. – Enumerou nas mãos. – Em seguno lugar: Eu sou ser humano, e não uma máquina... Fala sério? Vocês acham que ser professor é o quê? Não ser humano? Viver de terno? Dar aulas e não dormir...
- Não, não... – Foi a vez dela se apoiar na mesa em direção ao professor voltando a sua posição de antes. – É que é... Estranho.
- Não vejo motivo. – fez o mesmo que ela sorrindo com o canto dos lábios; Por um momento eles só trocaram olhares enquanto ele copiava a posição dela, entrelaçando as mãos em cima da mesa a milímetros das dela. –
- ... – Os dois cortaram a troca intensa de olhares, desviando para uma garçonete parada ao lado da mesa. –
- Oi, Briana!
- Quanto tempo... – Entregou o cardápio alternando o olhar entre e ele. –
- Essa é ... - A mesma estendeu a mão sem dizer uma palavra. –
- E... Como está a Carmen? – observou a feição de mudar como se ele estivesse sacado tudo, ou melhor, não soube descrever, mas sua feição mudou. –
- Ótima. Está em casa pra variar. – Respondeu sorrindo forçado. –
- Oh... – Voltou a olhar . –
- Uma cerveja e... – cortou a frase que seguiria se virando para . –
- Um suco de morango. – Fez um gesto com as mãos nitidamente desconfortável. –
- Tudo bem...

A garçonete se afastou da mesa de ambos trocando um último olhar com os dois. não sabia se era só ela, ou ele também tinha percebido, porém fingia que não. Mas que tinha certeza que Briana, a garçonete, estava pensando mil e uma coisas e que projetariam mil e um boatos, disso ela tinha certeza e já estava estremecendo por dentro por isso e com vontade de estapear seu professor por estar tão calmo daquela forma.

- Que foi? – O mesmo perguntou alguns segundos depois de perceber a cara tensa a sua frente. –
- Você é assim o tempo todo?
- Assim como? – Perguntou sorrindo presunçoso. –
- Assim... Tão... – Gaguejou. – Você sabe que as pessoas estão te observando e falando de você, isso é muito óbvio, e você simplesmente finge que nada está acontecendo! – A garota soltou perplexa o vendo rir um tanto alto, ele só parou de rir porque continuou na mesma posição de antes, de braços cruzados e muito, muito tensa. –
- O que importa pra mim se eles pensam e me olham com outra pessoa? Eu sei o que está acontecendo aqui, e não é nada do que ela está imaginando então... Onde está o problema? – Fez um gesto com a mão. – A única parte que eu não entendi foi a do fingimento... – Murmurou brincalhão. –
- Não seja tão humilde! – retrucou bufando. –
- Não, é sério! Não entendi.
- Não entendeu o quê? Que você é gato e chama atenção por onde passa e finge que não tem ninguém olhando?

Na mesma hora que soltou aquilo a boca de fechou rapidamente e seus olhos se arregalaram de leve. Ela podia jurar que havia virado um pimentão, e a situação apenas piorava quando percebeu que a única reação do homem foi sorrir, sorrir e olhar para os pés, parecendo desconcertado.

- E então? Uma filha? – Ele pigarreou voltando a olhá-la depois de mais segundos tensos –
- Ela tem três anos e se chama ... É o amor da minha vida. – tentou relaxar a estatura, se posicionando melhor na cadeira. –





Capítulo Dois - Continuação...

Dali surgiu uma longa conversa.
Ela não precisou beber uma gota de álcool para que em vinte minutos começasse a se sentir confortável. Fato esse fora potencialmente estranho, no entanto ela não estava se importando muito. Em uma hora havia se esquecido da conversa com a um ponto que se viu conversando com seu professor sobre seu medo de palhaços. O assunto era totalmente inútil, mas eles estavam lá rindo do quanto isso era ridículo.
Muito provavelmente eles continuariam conversando por horas se o celular da garota não houvesse começado a tocar enlouquecido em cima da mesa.
Com um gesto e um sorriso pediu um tempo para que assentiu bebericando sua cerveja.

- Sim? – Atendeu mordendo os lábios. –

A garota estava apoiada na mesa e curvada em direção a completamente concentrada na conversa, e ele tirou aquele tempinho para observá-la. Primeiramente o ato foi involuntário, mas mesmo quando ele percebeu que estava a observando, não parou. Ele quis continuar olhando e notando o quanto ela era realmente bonita e cativante... Não era certo, mas como qualquer homem não seria hipócrita a ponto de ignorar aquela cena escancarada na sua frente.

- ... Meu Deus eu esqueci totalmente! – a garota olhou no relógio assustada. – me desculpa!
o viu fazer um gesto do tipo ‘’o que aconteceu?’’ pra ela que botou no viva voz para que ele entendesse:
- ... Ah, eu só vim procurar a senhora quando percebi que a faculdade está completamente vazia e você não está aqui! Puta que Pariu, , onde você está? Quer nos matar do coração? O que deu em você? – esbravejou fazendo e se entreolharem por segundos. –
- Eu estou com nosso professor de criminal. – Falou rápida apertando os olhos ao dizer isso. Novamente ficou a olhando com um meio sorriso. –
- Você está com QUEM?
- Ela está bem... ? – se intrometeu chegando mais perto do celular. Dessa vez tapou o rosto. – Eu percebi que sua amiga não estava muito bem e propus que viéssemos tomar algo pra espairecer, nada demais... Está tudo sob controle...
- Tudo bem, deixa eu pensar direito... – Eles ouviram o murmúrio de e ao fundo. – Não é mentira, você realmente está com ele bem aí do seu lado... – Outros murmúrios. – Eu realmente não estou concebendo essa ideia.
- Qual é a aberração? – perguntou perplexo. –
- Sei lá, você, meu professor, com a minha amiga que por sinal é sua aluna também? – A garota ouviu-o rir, fora só nesse momento que abriu os olhos engolindo seco. –
- Menos . – Repreendeu-a. –
- Não tem nada rolando aqui. – complementou tornando o olhar para . –
- Por enquanto. – Pigarreou. – Enfim, estou indo aí, me manda a localização, está quase se perdendo nessa mata fechada.
- Ok, traz minha pequena.
- Há.

Finalizou a ligação. Novamente os dois trocaram olhares e após dois segundos soltaram um riso alto e sincronizado voltando a se ajeitar na cadeira. Tinha algo muito errado ali.

- Nós dois estarmos aqui é muito ruim assim? – Ele perguntou brincalhão tomando o último gole que restara de sua cerveja; talvez esse fosse o motivo do riso tão espontâneo. –
- Ah sim, professor, é bem ruim se alguém descobrir. – Respondeu. –
- Então esse vai ser o nosso segredinho. – O homem sussurrou curvando-se em cima da mesa em direção a dando uma piscadela em seguida. –

Após dez minutos e chegaram, por sua vez dormia profundamente sob os ombros de homem, totalmente apagada, nem dando a chance de conhecê-la o que era por hora sua intenção.
Ele ficou encantado. Essa era a palavra certa. Encantado pela forma como beijava o rosto da filha desacordada a olhando com aquela preocupação que toda mãe tem, sem aparentar que era tão nova pra isso; pra ser responsável por uma vida.

- E então... – parou na porta do carro, de frente para , enquanto ajeitava no carro outra vez. –
- Espero que você esteja melhor. – Ele sorriu sem mostrar os dentes, mas visivelmente sincero. –
- Obrigada por isso... Eu não sei se não voltaria a estaca zero depois de tanto tempo... – A garota murmurou o fazendo arquear a sobrancelha; ele não sabia da história inteira, aquilo apenas aumentou sua vontade de conhecê-la melhor. – Mas bom, eu espero que eu não tenha te dado algum problema porque, - Ela olhou no relógio. – É tarde.
- Isso não importa agora. – Riu outra vez e com um suspiro continuou. – Eu vou indo e, até mais então?

apena assentiu espremendo os olhos em negação, como se estivesse com vergonha da situação que os levara ali. No mesmo momento o homem riu captando a mensagem a puxando para um abraço, nada intimo, fora apenas um abraço, do qual por sinal, possibilitou que ela sentisse o cheiro dele, um perfume forte masculino, daqueles que ela tinha certeza que não sairia tão cedo nem de suas roupas, e nem de sua mente.
Sem mais palavras ele apenas deu meia volta dando um aceno e caminhou em direção oposta a eles carregando seu terno no antebraço. ainda ficou o encarando por um tempo. Voltou para o carro apenas quando o ouviu ser ligado. Tudo sem dizer ainda uma palavra.
Da mesma forma o caminho todo seguiu. A mente dela não estava trabalhando direito; tudo estava parecendo um devaneio, todos os momentos e até mesmo a dor que antes estava sentindo. Há séculos ela não tinha um momento como aquele: num bar, com outro homem e totalmente solta, como aconteceu. Embora suas amigas convidassem e vez ou outra ela fosse, ia apenas com a ideia fixa de que não podia viver encalacrada numa casa sem viver, nunca fora por livre e espontânea vontade de realmente curtir ou conhecer alguém; Geralmente sempre se pegava pensando em um momento da noite, que fosse por um segundo, em . Geralmente concluía em noites como aquela que não acharia ninguém que fosse capaz de tirá-lo de si e que por mais ridículo que ele fosse, ela ainda iria amá-lo pra sempre, e que em um piscar de olhos ela voltaria por ainda sentir falta.
Mas naquela noite foi diferente. E o que mais a deixava a beira da insanidade era que havia descoberto isso com seu professor, em um bar qualquer, em um dia totalmente improvável.

***


Depois daquele dia a relação dos dois ficou mais amistosa.
Todos os dias durante a aula, quando arrumava um tempo, perguntava da forma mais discreta que conseguia, como estava. Perguntava sobre e por três meses seguiu com esse ato.
Dali fora surgindo uma amizade estranha entre eles, embora em público não demonstrassem muito, sempre que se encontravam sozinhos rolava um papo bem descontraído; e podiam ficar conversando por horas, e foi por esse motivo que cada vez mais ele queria ficar perto dela. não o olhava com segundas intenções, ou conversava com ele como as outras garotas. Era perceptível que durante o ato ela só queria falar, queria desabafar, e ele se sentia infinitamente lisonjeado por isso. adorava ficar perto dela porque além de ajudar, podia ser ele mesmo sem precisar sustentar sua postura que todos cobravam, era libertador poder confiar em alguém num lugar como aquele.
Foi por causa dela que ele pegara leve na prova seguinte; E foi por ela que ele procurou pela faculdade depois da cuja prova ter terminado, como costumavam fazer. Mas não estava onde costumava ficar, onde esteve a semana inteira e por algum motivo aquilo o preocupou. Conversar com ela estava virando sua rotina, tanto que por não encontrá-la se viu na tentação de ir procurar no refeitório. Naquele dia em si, não queria só saber onde a garota estava por se preocupar, mas sim porque ele precisava conversar, e a primeira pessoa que passou em sua mente fora ela.
Há tempos ele não ia pra aqueles lados por justamente preferir ficar isolado num lugar conversando com . Sentiu todos os olhares tornarem para ele e o seguirem enquanto chegava perto da mesa de .

- Oi, ... – Falou rapidamente se apoiando na mesa. – E ai, . – Fez um toque com o mesmo voltando seu olhar para que agora havia entortado a sobrancelha. –
- E ai, professor... – O homem hesitou espremendo os olhos de leve. – Tudo certo?
- Depende do que você define certo. – Ele sorriu sem graça. – Enfim, não vi hoje, tudo bem com ela?
- Sinceramente eu nunca sei quando tudo está bem com ela... – suspirou. – Ela disse que iria pra casa depois da prova...Você quer falar com ela? – A garota desbloqueou o celular já procurando o número da amiga. –
- Pode ser. – Assentiu coçando a barba enquanto esperava o passar. –
- Se conseguir falar com a Lady Love, me avisa.
- Pode deixar.

saiu da mesma forma que entrou: Com todos os olhares petrificados nele.
De fato ele não entendia porque todos olhavam pra ele como se cada ato fosse precisamente calculado para seduzir alguém. Era realmente isso que parecia, porém não era nada que ele quisesse passar. As pessoas só haviam criado um estereótipo dele do qual nem mesmo ele conseguia aguentar.
Assim que fez tudo que precisava fazer pra fechar seu expediente na faculdade, correu até ao seu carro, discando o número de apenas lá, no estacionamento.
Dois toques, três, quatro, cinco; alguém parecia não querer atender, muito embora ele continuasse tentando. estava batucando os dedos no volante insistentemente ansioso, com a respiração presa. Sentiu-se ridículo ao perceber aquilo. Ele tinha 28 anos. Já era muito bem formado e amadurecido e pior, tinha uma namorada, ou uma ex namorada. O que fosse, nada explicava sua ação tão imatura diante daquela garota oito anos mais nova que ele. Não tinha nada a ver com a diferença de idade entre eles, ou com o que os outros fossem pensar, na pura verdade ele estava pouco se ferrando pra o que iam pensar sobre ele e ela; No entanto o que o incomodava era o fato de agir como um adolescente perante e o significado disso. Das duas uma: Ou ele estava apaixonado, ou ele estava apaixonado.

- Quem? Seja lá quem for, não estou a fim de conversar, ligue outra hora. – Ele ouviu a voz ríspida porém incrivelmente suave do outro lado da linha. –
- Vejo que alguém além de mim não está de bom humor hoje... – Murmurou brincalhão, apertando a mão desocupada no volante. –
- Oh... Professor... – O tom de mudara de maneira que pode imaginá-la fazendo uma cara de culpa. –
- Não sou seu professor depois que meu expediente acaba.
- E você já acabou seu expediente, professor? – O homem sorriu de lado, mesmo sabendo que ela não veria, e fez o mesmo do outro lado da linha. –
- Sim, eu já terminei. – Disse se recostando no banco. –
- Oh, então tudo bem, , posso te ajudar? – Ele riu outra vez tapando o rosto com a mão que antes batucava o volante. Sim, ele estava realmente gostando daquela adolescente. –
- Queria saber se você estava bem... – Murmurou. – Não te encontrei pra perguntar pessoalmente, então tive que correr pra sua amiga.

soltou uma risada alta o fazendo sorrir junto, porém ficar confuso.

- Ela deve estar lá imaginando mil coisas na cabeça dela, mas tudo bem... – falou risonha. – Eu estou... Naqueles dias. – diminuiu o tom. –
- Naqueles dias?
- Não, não é isso que você está pensando. – Ambos riram. – Sabe? Aqueles que você perde o controle e precisa ficar sozinha. – Deu um suspiro. –
- Onde você está? – Perguntou já ligando o carro. –
- Passei pra comprar um café aqui na...
- Manda a localização, estou indo te encontrar.
- Pro... – Ela foi parada por um pigarro dele. – ... é sério, não precisa ser minha baba.
- Quem está precisando de ajuda hoje sou eu, .

Pela primeira vez nos três meses em que haviam criado aquela amizade improvável, havia a chamado pelo apelido, envolto por uma voz realmente séria e triste do mesmo. soube que não era brincadeira por isso, no entanto não deixou de sentir um leve calafrio na espinha ao ouvir seu apelido sendo proferido por ele. Seria mesmo possível aquilo que ela estava pensando?
Não, não podia ser possível.
Embora estivesse no seu dia de perder o controle enquanto podia, sua atenção se voltou para ele.
- Tudo bem. Estou te enviando. – Falou lentamente. –
- Estou indo.

Em menos de dez minutos estava em frente a um café que realmente se encontrava nas redondezas da faculdade. O lugar ficava em frente a um tipo de parque que no momento parecia completamente vazio, no entanto aconchegante com todas aquelas luzes pré natal penduradas das quais interligavam cada poste daquela parte e pra ajudar, o tempo estava congelante naquela noite.
De longe ele avistou uma garota da qual deduziu ser .
desceu do carro botando suas luvas e seu sobretudo preto já caminhando lentamente em direção a garota sentada no banco no meio daquele parque. Ela olhava para baixo, impossibilitando que ele tivesse total visão de seu rosto de longe, portanto apertou os olhos a medida que fora chegando.
Só quando estava quase chegando que constatou que era . Faltando três passadas para alcançá-la, a garota ergueu a cabeça de súbito para onde ele estava, sorrindo de leve. Aquilo fora o suficiente para ele entender que o que estava sentindo já não era mais normal. Não era nada relacionado a amizade que tinham criado, ou sobre a afinidade que sabiam que tinham. Pelo menos para o homem, o que ele estava sentindo era mais do que isso, porque pela primeira vez em todo o tempo que tinha passado com ela, quis mais que tudo beijá-la.

- Comprei um café pra você também. – levantou um copo de café para ele que em segundos havia se ajeitado ao seu lado; A garota não recebeu resposta, portanto voltou a falar dessa vez prestando mais atenção nele. – Eu não sabia que tipo de café você gostava então eu só pedi...
- Está ótimo, obrigado. – O homem sorriu apertando os lábios. –

Por mais alguns segundos os dois ficaram sozinhos apenas ouvindo o som de suas próprias respirações e uma música leve e suave, quase inaudível por estar tão longe, tocando provavelmente no café do qual tinha ido.
Ela não estava entendendo. Não se sentia desconfortável pelo silêncio, de fato, mas queria que ele falasse algo; o silêncio de estava a deixando aflita, como se algo muito sério houvesse acontecido, e cá entre nós, sua relação com ele tinha se tornado grande demais para que ela não se importasse com isso.
Por um minuto contado ela ficou o olhando sem desviar o olhar para nada. Ficou observando a fumaça formada pelo frio sair de sua boca de maneira calma, o que demonstrava que sua respiração estava realmente equilibrada. As mãos dele seguravam com firmeza o copo de café do qual ela havia pedido e seus olhos estavam fixos nisso, no copo de café.

- E ai... Eu não tenho o dom como você tem de me acalmar, mas... – murmurou cortando o silêncio o vendo sorrir mais uma vez, ainda sem olhá-la. – Por favor, você está me assustando... O que aconteceu? – Só então ele a olhou. –

sentiu outro calafrio na espinha, mas não era de frio. Os olhos dele cravaram nos seus como se com isso ele estivesse contando o que tinha de tão ruim, e embora tivesse sentido toda a onda estranhamente elétrica que se passou por seu corpo, ela ainda não soube identificar o que havia acontecido, portanto apenas entortou a cabeça lentamente, tentando recobrar todo o resto de sanidade que lhe sobrara depois daquele olhar.

- Eu estava noivo. – Começou com a voz rouca, desviando o olhar novamente, mas dessa vez para o nada; fora a deixa para se ajeitar melhor no banco, consequentemente chegando um pouco mais perto dele. – Só que, eu não estou mais. Nós terminamos.

Ele a olhou com um meio sorriso após tornar o olhar baixo.

- Nossa, eu...Sinto muito, . – Disse no mesmo tom que ele, esticando braço para tocar as mãos dele. Assim que o fez, sentiu-o retribuir de imediato. –
- Não estava dando certo há um tempo... – Continuou. –
- Se você sentiu que não dava mais, era o certo. – A garota disse dando um suspiro. – Se tem uma coisa que eu descobri é que, quando algo não está dando certo, empurrando com a barriga é que não vai adiantar. É melhor conservarmos o que ficou de bom do que essas memórias sejam substituídas por prováveis brigas que poderiam ocorrer...
- Você fala bem demais sobre o assunto pra uma garota de 20 anos. – sorriu apertando a mão dela mais uma vez, aquilo a fez sorrir junto com ele. –
- Eu tenho uma filha de três anos. Acha mesmo que eu não tenho história pra contar? – Apertou os olhos, entortando a cabeça. –

fez o mesmo que ela, como se houvesse o hipnotizado. Na realidade só de estar junto a ela o deixava mais calmo. Na verdade de tudo não esperava que lhe desse bons conselhos ou fosse sua psicóloga particular como era o caso dele com ela; ele só queria sua presença. O espírito de paz que passava, como se tudo mesmo que parecesse ruim, pudesse passar, o deixava obcecado pela sua presença. A esperança que carregava no olhar da qual ele não sabia do que se tratava; aquela faísca que brilhava em seus olhos toda vez que ele reparava neles – Incríveis na opinião dele – Ele queria saber o que mantinha tão acesa e tão daquele jeito, ou se essa era sua essência, porque ele estava apaixonado por isso.

- Ei?
- Ela tinha um ciúme doentio. – O homem voltou com a postura de antes. – Desde quando comecei a dar aulas ela simplesmente tem surtado... – Ele fez um gesto. –
- Isso significa que ela gosta de você.
- Esse é o problema, . – Pausa; ele olhou em seus olhos. – As vezes só gostar não é o suficiente.
- E como pode não ser suficiente? – perguntou perplexa. – Se for real, por gostar, você resolve. Essa é a base.
- Eu cansei de tentar resolver. Eu desisti pelo cansaço e por quê... De tanto bater nessa tecla, me desgastei. – Falou culposo. –
- Então não se culpa, pelo menos você tentou.
- É... – Ele murmurou. – Eu não me sinto culpado. Sinto que... Acabou e com isso uma fase da minha vida acabou e é complicado sentir que uma fase da sua vida acaba com vinte e oito anos. – olhou para que riu humorada tomando o último gole de seu café. –
- Não tema a solidão, professor, sabe quantas garotas dariam a vida pra se casar com você naquela universidade? – ele travou o riso como se esperasse a piada. –
- Quantas?
- Várias.
- Não me preocupo com quantidade, me preocupo com qualidade. – Ele piscou a fazendo gargalhar e consequentemente riu junto. –
- Se isso serve de consolo... – se ajeitou no banco novamente. – Até eu ficaria com ciúme se fosse sua mulher, porque convenhamos, você deve ser um problemão pra se lidar.
Ele soltou uma gargalhada gostosa.
- Problemão? Oi? – Entortou a cabeça se inclinando em direção a . A garota permaneceu imóvel ainda rindo. –
- Eu não saberia lidar com você, professor. – O homem chegou um pouco mais perto, naquela altura pode sentir perfeitamente o mesmo perfume masculino da primeira vez que o viu, aquele que ainda estava encalacrado na sua mente desde o dito dia. –
- Para de me chamar de professor. – O estômago dela foi parar na garganta ao sentir a respiração dele tão perto quanto antes, agora batendo perto de seus lábios; Ela sabia que nada estava certo ali, só não entendia porque não conseguia se mexer. –
- É involuntário. – Fechou os olhos ao sentir seus narizes se roçarem. –

Da mesma forma que ela, ele fechou os olhos sabendo que aquilo era a última coisa que eles deviam fazer dadas as circunstâncias do porque estavam ali. sabia que era errado, que seu relacionamento havia tomado um fim concreto em poucas horas, pois entendia que acabado mesmo já estava, e só por esse motivo havia deixado com que o sentimento por tomasse conta dele, só que era tão tentador. Dentro de sua mente um massacre estava acontecendo, entre o dever e o poder, ele deveria beijá-la naquele exato momento, mas não podia. Não porque ela era sua aluna, mas sim porque iria contra sua moral. O que ele estava fazendo?
Esse meio tempo foi o suficiente para retomar a consciência sobre o que estava prestes a acontecer, e por mais que estivesse na mesma que ele, com a vontade súbita de acabar com aquilo e finalmente beijá-lo, porque era sua vontade, ela só respirou fundo, abrindo o mínimo dos olhos, visão que deu diretamente para os lábios entreabertos do homem.

- Isso é tentador, mas agora não é o momento. – Sussurrou se afastando lentamente dele, por hora o homem permanecera na mesma posição observando a garota se afastar. – Você está abalado com tudo o que está acontecendo e eu não quero ser onde você quer descontar essa frustração.

Alguns segundos depois ele assentiu positivamente finalmente tornando a sua postura normal.

- Você tem razão. Me desculpa. – Passou a mão no rosto. Como é que ele havia chegado aquele ponto de descontrole? –
- Está tudo bem... – sorriu amistosa pra ele olhando no relógio logo em seguida. – Eu só preciso ir embora porque minha pequena está me esperando e já é tarde...
- Eu posso te levar. – Propôs já se levantando. – E falando na pequena , com quem ela está se a e o ...
- Ah, minha mãe veio de Cambridge pra cá ficar por uma semana. Há quem diga que a pode ser uma pestinha, mas com a minha mãe... – sorriu começando a caminhar ao lado do homem. – Se você der sorte, provavelmente consegue conhecer minha pequena furacão hoje.
- Seria um prazer. – Ele sorriu. –
- Agora me fala mais sobre você.

Após aquele momento bem intenso, até que ambos reagiram bem e souberam disfarçar a tensão que se formou logo depois daquilo. O preocupante é que a tensão que eles tentavam disfarçar não era ruim, era sexual. Não no sentido do sexo, e sim porque a atração estava viva dentro deles, e embora relutasse contra o fato de que não poderia nem por um segundo estar atraída pelo seu professor, era inevitável. Primeiro porque há meia hora atrás ela sabia que amava de todas as formas possíveis e acreditava que ninguém poderia substituí-lo, no entanto essa tese havia ido por água abaixo quando sentiu seu coração virar uma pedra no peito pelo simples fato de que havia quase a beijado, e ela queria que ele tivesse o feito. Ou seja, sim, havia como substituir , era ela quem não aceitava que isso fosse possível.
Assim que estacionou em frente a sua casa já conseguiu de cara identificar a sombra de uma garotinha na janela da qual ela deduzia ser a da sala.
A casa era pequena, mas soava confortável, a cara de , pensou ele. O jardim era todo bem montado, haviam alguns detalhes como um gnomo, e as plantas estavam bem cortadas. Por meio de um caminho de piso se chegava até as escadinhas principais que se daria para a porta de entrada da casa. Ao lado esquerdo da porta havia uma janela enorme da qual ele viu , e do outro também havia uma janela, mas esta estava tapada por uma cortina. A casa era de dois andares, feita de tijolinhos brancos, e bom, por hora, era só aquilo que ele conseguira destacar.

- Está entregue. – O homem falou assim que abriu a porta para sair do carro; por sua vez já havia saído e o esperava em frente ao jardim. –
- Não vai querer entrar? – Perguntou espremendo os olhos; -
- Estava esperando que me convidasse...
- MAMÃE!

Ambos se viraram de súbito para trás e viram uma mini garotinha de macacão rosa e touca correndo em direção a de braços abertos. Em dois segundos a mesma agarrou a mãe pelo pescoço, apertando-a em seguida ato que fez tanto quanto rirem.

- Ei, sentiu minha falta?
- É claro que eu senti, a vovó não me deixa comer chocolate. – Sussurrou ‘’cholate’’, fazendo a menina rir. –
- Você não pode comer chocolate antes de dormir, , eu já te disse isso. – Falou séria, aquilo fez a garotinha recuar alguns passos. –
- A tia diz que um não faz mal... – Murmurou fazendo outra vez rir, só assim ela o olhou. –
- , esse é o , amigo da mamãe. – levantou-se apontando para , o mesmo abaixou-se na altura de , sorrindo simpático. –
- E ai, mocinha, como vai?
- Se minha mãe deixasse eu comer chocolate eu estaria supimpa.

Ele não deixou de rir mais uma vez, trocando olhares com que por sua vez havia cruzado os braços acenando negativamente.

- Que tal trocarmos o chocolate por algo mais divertido? – Tanto quanto cerraram os olhos ao ouvirem aquilo. Deus, ele havia visto uma miniatura da menina bem ali, tirando os olhos, que eram mais claros do que os da mãe. –
- O que seria mais divertido do que chocolate?
- Quer que eu te ensine uma brincadeira? – Ele olhou para como se pedisse permissão a vendo responder que sim com a cabeça. –
- Tudo bem.

Em dois segundos ela havia pulado no colo dele e os três estavam se encaminhando para dentro da casa.
Houve toda aquela pequena parte de apresentações onde apresentou o homem a mãe e recebeu algumas perguntas até que finalmente eles pudessem realmente efetuar a brincadeira tão esperada por , enquanto isso, ela continuava grudada nele e embora aquilo fosse legal de sua parte, não podia deixar de pensar que a carência de por um pai a deixava daquele jeito. Com era quase a mesma coisa.
de fato era muito dada e adorava brincar. Não tinha vergonha alguma e por vezes enquanto passeava com ela, acenava e dizia ‘’bom dia’’ todo enrolado para todas as pessoas que passavam por ela; isso estava na sua essência, então, se enrolar toda em não era tão anormal tendo em vista que ela adorava pessoas. No entanto, como já dito, sabia que metade daquilo podia ser sua essência, mas a outra metade também era a carência de .
Quando por fim eles conseguiram sentar-se na sala, só ele e a garotinha, porque havia ido até a cozinha preparar algo pra eles, foi quando as risadas e gargalhadas altas de soaram. sorria junto toda vez que ela ria. Vez ou outra trocava olhares com a mãe que praticamente dizia no olhar que deveria arrebatar aquele homem pra ela, ou ela mesma, em seu subconsciente pensava isso.
Aquilo tornava as coisas ainda mais engraçadas por que nunca pensou de fato que algo sério poderia acontecer entre os dois, ou melhor, era uma ideia incabível até aquele momento, mas olhar para e a fazia entender que não poderia esperar voltar pra ela a vida inteira, ou ficar parada no tempo só porque havia sido machucada. Já faziam sete meses. Sete meses que decidiu viver, e ela também precisava, que fosse com ou com outro homem; ele a fez ver que a vida não parava só porque você tem seu coração destruído.

***


Aqueles quatro meses de inverno se passaram rapidamente, em conjunto com as festas de fim de ano onde convidou para passar com eles.
Após aquele dia, não passava um minuto sem perguntar do homem levando com que suas visitas fossem ainda mais periódicas e com isso, que e ele se aproximassem ainda mais. Embora ainda houvesse a tensão, eles não se aproximaram além de um abraço – que por vezes demorava bastante – Mas nada mais que isso. Sem falar nos boatos que andavam rolando entre isso.
Não que ligasse, ninguém tinha nada a ver com ela e ele, mas era inevitável não ficar irritada enquanto ouvia Barb, Shelley ou até outro desconhecido comentar em como ela e o professor estavam próximos e deduzirem que o termino do noivado do mesmo fora ela. Ah, se eles soubessem a verdade...
descobriu mais sobre ele em quatro meses. Suas saídas depois da faculdade ficaram mais frequentes; eles iam sempre pro mesmo bar conversar. Ela ouvia os murmúrios de raiva do homem quanto a ex mulher que ainda pegava no pé dele por causa do relacionamento de cinco anos e a vida conjunta; choramingava para ele sobre o quanto era difícil dividir com . Não por causa da menina, ou por ciúmes dela, mas por .
E foi quando soube que apareceria na festa em Cambridge do qual os pais de e os pais dele costumeiramente davam juntos, por conta da cidade pequena, que ela convidou o .
A menina contou todo o acontecido, quase implorou pra que ele fosse com ela. Ambos tinham ficado tão íntimos que sentiu-se na necessidade de pedir aquilo.
era mais velho que ela, mais maduro e fora a melhor coisa que havia acontecido com ela naqueles meses que ficou sem . Ele a acalmava, e ela precisava dele. Foi com esse discurso que convenceu o homem a ir para Cambridge com ela, , e . Obviamente o fato de estar incluída na bagagem havia ajudado bastante, e era por esse motivo que ela o adorava. era completamente apaixonado por , e ela era completamente apaixonada por ele, e como ficava no meio dessa?
Durante a viagem para Cambridge teve bastante tempo pra pensar.
Seus olhos iam e voltavam entre no banco de trás, ao seu lado brincando vez ou outra com as duas, e The Fray tocando no rádio. Aquilo pra ela pareceu o retrato de uma família, e olha que isso parecia loucura demais.
Ela nem de longe gostaria que substituísse como pai, mas aquela cena lhe confortou o coração. não podia mentir que não se sentia atraída por ele, e que o único motivo de ainda não ter o beijado fosse o medo de se arriscar novamente, sem contar nas quantas coisas que estavam em jogo entre eles, de a suas vidas profissionais, aquela coisa entre os dois era grande, mas diante daquele momento no carro pareceu tão pequena.
Ela gostava dele, tinha se acostumado em ter perto dela. Estava acostumada a ligar pra ele e dizer ‘’ que tal um drink hoje?’’, só pra poder desabafar sabendo que ouviria palavras sensatas sobre suas crises existenciais.
era uma mera adolescente perto da experiência que trazia, tanto de vida profissional quanto amorosa, e talvez fosse por isso que em tão pouco tempo tivesse lhe dado tanta segurança.
talvez ela devesse recomeçar de vez, e não só ficar dizendo que deveria.

- Tudo bem, o que você quer de mim exatamente? – O homem perguntou assim que chegaram na casa dos pais de da qual já estava decorada e com cheiro de comida de final de ano. –
- Quero que você se divirta e não desista de mim por causa da minha família. – Ela sorriu envergonhada fazendo uma careta. fez o mesmo abanando a cabeça negativamente virando-se para a porta. –
- VOCÊS VIERAM! – Sua mãe gritou já se direcionando a no colo do homem. – E você também!! – Se direcionou a . –
- Obrigada por me notar ,mãe. – brincou entrando na casa. –

Primeiramente a mulher abraçou no colo de mesmo e depois abraçou o homem sussurrando palavras que não conseguira ouvir.

- Então, vai ficar no seu antigo quarto?
- Pode ser.
- Tudo bem.

Por um segundo ele ficou parado o que fez parar para olhá-lo confusa antes de subir a escada.

- Que foi?
- Onde eu vou ficar?
- Comigo, é claro. – Ela sorriu abertamente. não soube dizer exatamente que tipo de sorriso fora aquele, mas não era nada parecido com os que ele já tinha a visto dar. –

Assim que entrou no quarto antigo dela pode notar a mudança que precisou ter. Imaginou como fora quando, com dezessete anos, descobriu que estava grávida. Por sua dedução lógica, deixou aquele quarto aos dezessete.
Ainda haviam pôsteres e revistas de adolescente, seu quarto era todo de menininha, e seu mural...Em cima da cômoda de marfim branca dela, havia um mural branco cheio de fotos dela, , , e mais outras pessoas que não identificou. Embora houvesse tanto ali naquele mural que falasse dela e fosse extremamente encantador porque mostrava que realmente, ser cheia de luz era realmente da essência de , seus olhos se concentraram mais especificamente nas fotos dela e . Algumas eles se abraçavam, outras estavam sorrindo de olhos fechados. Ele podia sentir o amor de ambos transcendendo daquelas fotos e por um segundo seu coração apertou ao constatar aquilo.
já não poderia mentir que não sentia nada por ela; já era um cavalo velho pra aquela história de não saber o que estava sentindo. Ele sabia exatamente o que estava sentindo: Estava apaixonado por ela. Só esperando o momento certo, o momento que estivesse pronta, e embora soubesse de e da vida de , ver que o amor deles era realmente enorme o deixava aflito.

- Oh, você viu... – O homem se virou por um segundo pelo pigarro de . – Preciso tirar isso daí...
- Como você mudou. – Ele trocou olhares com as fotos e com como se comparasse o antes e o depois. –
- Eu tinha dezessete com cara de treze. – Ambos riram. – Foi tão inesperado. – Disse depois de um silêncio enquanto observava as fotos. –
- Vocês pareciam se gostar bastante. – Ele comentou baixo. –
- Como você disse uma vez... Gostar as vezes não é o suficiente. – A garota sorriu triste. – Acho que nenhum de nós esperava porque, fazia tão pouco tempo que estávamos juntos... Quer dizer, éramos amigos desde os cinco anos, mas, tendo um relacionamento...
- Quantos meses? – se virou pra ela comovido. –
- Dois. – Sua boca fez um desenho diferente que fez rir de leve. –
- É. Eu sabia que ele não queria, e sabia que muitas vezes ele pensava que a pior burrice da vida dele foi se envolver com a melhor amiga, mas..
- Ei - O homem a parou, segurando seu braço. – Veja bem, se vocês não tivessem se relacionado que seja por dois meses, esse pequeno furacão não teria nascido. Veja as coisas pelo lado bom. –

Fora o tempo de ele a soltar e voltar ao mural, retirando uma foto só de sozinha que estava escondida entre as outras; estava gargalhando com um sorvete na mão. sorriu ao ver aquela foto, e depois mostrou pra que sorriu também.

- Essa é sua essência. – O homem entregou pra ela. -
- Eu odeio essa foto. – fez careta. – É por isso que ela estava escondida entre as outras.
- Olha direito... – voltou a olhar a foto, alternando entre ela e . – Se você se perguntar porque que é que um professor de vinte e oito anos aceitou viajar duas horas com sua ‘’aluna’’...
- Não sou sua aluna fora da faculdade. – interrompeu o fazendo sorrir. –
- Ok. Reformulando... – Pigarreou. – Se você se perguntar, porque que é que eu, , escolhi você, olhe pra essa foto. – Disse fazendo arquear a sobrancelha. –
- Me escolheu?
- Eu podia ter me encantado com outros mil sorrisos por aí, mas eu me encantei pelo seu.

Lentamente tirou o olhar da foto para olhá-lo. Em conjunto os dois seguravam a foto, portanto um passo seria o suficiente para que se beijassem e sim, depois de seu coração parar por outro segundo queria realmente beijá-lo e dessa vez não arrumaria desculpa alguma pro ocorrido.
Mas ele não se moveu. Assim como , ficou a olhando por dez segundos até que resolvesse se aproximar; lentamente, tão lentamente que estava dando dor de barriga na menina.

- MÃE? – colocou apenas a cabeça para dentro do quarto. Ato que fez com que os dois se afastassem. –
- ? – forçou um sorriso. –
- O que vocês estavam fazendo?
- Flexão de boca. – atravessou o corredor anunciando sua chegada. –
- ! – berrou tapando o rosto. –
- O que é flexão de boca? – perguntou inocente correndo até ; arregalou os olhos trocando olhares com ele. –
- É quando a boca precisa fazer exercício.
- Como assim?
- Tipo assim. – deu um beijo no rosto de . –
- Ah! – sorriu soltando-se dele. – Posso fazer flexão de boca agora!
- Ei, mocinha, só comigo! – Ele gritou ao ver sair correndo pra ir, provavelmente, atacar . –

Por fim ele ficou de pé e novamente sozinho com , só então olhando-a. Assim que o fez, ambos soltaram o riso alto.

- ‘’ Quando a boca precisa fazer exercício?’’ Francamente, pra um professor, você foi péssimo. – A garota deu um tapa no ombro dele. –
- Eu tinha que dizer algo já que você não disse.
- Não vem com essa.

A noite foi chegando e com isso os convidados também. sentia o frio na espinha a cada pessoa que entrava dentro da casa, seu corpo quase nem se movia assim como seus olhos, imaginou: Como reagiria quando ele chegasse?
Foi com um suspiro que a menina decidiu que precisava relaxar, sendo assim se levantou do sofá indo a procura de . De longe, avistou conversando com seus pais numa conversa realmente animada, percebeu que pela primeira vez seu pai estava interessado em algo, ou melhor, quando se tratava de política seu pai sempre ficava interessado e desse assunto dominava; além de ser professor, advogava em uma das melhores empresas de Londres. Por alguns segundos ficou olhando os dois parada ao meio da cozinha – Que era onde eles estavam junto a mais outras pessoas. – Deu um leve sorriso e só despertou da cena quando ouviu a risada alta de , aquela que ela só dava com e , virando-se rapidamente para onde o barulho vinha.
Quase que em câmera lenta viu a garotinha pular para o colo de o agarrando forte pelo pescoço enquanto ele a apertava da mesma maneira, dizendo coisas que não conseguia entender. A garota ficou sem reação. Seu corpo estava totalmente vidrado nele e na cena e embora sempre falasse dele e viesse tendo um contato com , ela não o via desde que o mesmo a deixara.
Da mesma forma que ela, quando deixou de abraçar para olhar ao redor, a primeira pessoa que focou fora em . Ainda com no colo, ele ficou a olhando. Aquilo parecia ser uma eternidade. tinha mudado, tinha mudado bastante. Parecia mais mulher, ele não soube explicar. Suas curvas na roupa que usava estavam mais avantajadas. Por aquele segundo em que se olharam teve a plena convicção de que conversaria com ela. Estava com seu discurso pronto há tempos, muito embora estivesse nervoso, só ele sabia o quanto sentia falta dela. Só Deus sabia o que aconteceu com ele quando a viu de novo.
O garoto deu dois passos, três, quatro, faltava muito pouco para chegar até . Suas pernas estavam trêmulas, e continuava parada o olhando sem expressão.

- ... – Balbuciou ao vê-lo chegando. –
- , quanto... Tempo. – Disse no mesmo tom que ela, sorrindo de lado. estava certo que aquele era o momento certo pra dizer o que tinha pra dizer, não podia mais esperar. Deu uma respirada antes de prosseguir. – , será que a gente pode...
- ...
- Um minuto. – Ela fez com o dedo pra ele. –

acompanhou a ação de um homem passar uma das mãos pela cintura de , o mesmo que havia a chamado, apertando com firmeza aquela parte e consequentemente puxando-a levemente para ele; subiu os olhos reparando que o rapaz sussurrava algo em seu ouvido tomando totalmente conta dela. Sentiu seu ar faltar ao reparar que ela sorriu doce com a provável coisa que ele dissera e o viu a deixar sem reação por alguns segundos enquanto ambos trocavam olhares cúmplices e só então, após aquele meio tempo, eles voltaram a prestar atenção nele. Só então o tal homem o olhou, escondendo lentamente o sorriso que compartilhava com ela. Era completamente surreal que uma cena que durara apenas cinco segundos no máximo, pareceu uma eternidade aos seus olhos. Como se seu próprio subconsciente quisesse provocá-lo.

- ! – A garotinha abriu os braços ao vê-lo; virou-se para a filha juntando as sobrancelhas. –
- E ai, gatinha? Se divertindo muito? – perguntou doce; Só o que sentiu foi raiva, trocando olhares com , por sua vez, viu-a desviar os olhos. –
- Sim! Podíamos brincar daquela brincadeira que você me ensinou com meu pai aqui. – Falou brincalhona batendo palminhas só então fazendo os dois realmente se encararem. –
apenas sorriu forçado trocando olhares com .

- , prazer. – Estendeu a mão. sentiu um desconforto incomum naquele momento. –
- .
- Faltam dez minutos para o natal! – Uma das tias da menina gritou passando pelo meio deles. –
- E então? Que tal irmos até lá fora? – voltou o assunto para eles, olhando para . A menina entortou a cabeça. –
- Sim. Claro. – Assentiu meio hesitante. Lentamente puxou para seu colo, vendo-a quase que instantaneamente pular do seu colo para o de . –

Como força do ato, e pelo calor do momento, levou a garotinha pra fora na esperança de que estivesse os seguindo; A ideia fora dada porque realmente a menina deu um passo em direção a eles fazendo menção de que iria, mas voltou no mesmo segundo, virando-se para novamente.

- O que você queria dizer? – Perguntou calmamente, apertando os lábios numa linha fina, como se a resposta fosse resolver sua vida.
ficou calado por alguns segundos, ainda estava digerindo toda aquela cena.
- Não era nada importante. É melhor você ir. – Apontou com a cabeça voltando a olhar agora, notando que ela não havia ido. –

não sentiu necessidade de responder nada. Assentiu positivamente lançando um último olhar, como se fosse uma última chance, mas não obteve resposta, e diante daquilo caminhou em direção a e .

O garoto ficou lá parado os olhando sumir dentre as outras pessoas que se dirigiam até o lado de fora. sentiu parte de seu corpo sumir depois daquele momento. Ele não sabia onde, ou o que tinha sido. Seu rosto formigava assim como suas mãos, e só o que ele queria era beber. Só o que conseguia pensar naquele momento era em uma bebida realmente forte que fosse capaz de lhe tirar a sanidade. Esquecer que realmente estava com outro, que esteve prestes a dizer que a queria de volta e não disse.
De todas as maneiras sabia o que aquilo significava pra ele e ficou com raiva, ficou ainda mais com raiva porque não podia culpar por nada, não podia culpá-la por seguir em frente quando ele mesmo insinuou que era isso que ela precisava fazer, mas muito embora soubesse disso tudo, como um total covarde a odiou. a odiou por ter seguido em frente e não ter lutado mais. A odiou por fazê-lo ter aquela imensa vontade de quebrar cada coisa que estava a sua frente e principalmente por ter desistido dos dois.
sabia que essa não era a verdade, mas talvez mentindo pra ele mesmo, doesse menos.

Do lado de fora acompanhava com os olhos correndo de um lado para o outro com seu pai, avó dela. Lembrou-se instantaneamente do pânico que sentiu quando precisou contar a ele sobre isso. Lembrou-se também do alívio quando o homem só a abraçou dizendo que aquilo era lindo e da longa conversa que teve sobre o quanto amaria ser avô novo pois teria pique para correr com sua neta ou neto, e lá estava ele, correndo e pulando feito louco com .
De todas a memórias que teve sobre a época, essa fora a mais forte, justamente pelas palavras do pai quando contou que era de : “Eu sempre imaginei que você e formariam um casal bonito, mas um filho foi bem mais do que o esperado.’’
Ele era seu melhor amigo. Confidente. A defendia dos caras ridículos. Lhe dava conselhos. Só que naquele momento, quando não teve ninguém, quem faria isso por ele? Quem a deferia dele mesmo? deveria ter sido tudo que os outros não foram, mas ele só se tornou o que ela temia a vida inteira.
A pior parte de tudo aquilo não só fora ser abandonada pelo pai de seu filho, foi ser abandonada por seu melhor amigo.
Por um tempo indeterminado ficou rebobinando os momentos que passou pela casa nem notando o tempo passar. Observou isolado em canto da sala tomando um wisky com o pai dele. Em um determinado momento, após a ceia, o viu sumir de onde estava, o que só a instigou mais. Significava que ele podia estar sozinho. ainda não tinha parado de pensar sobre eles. Sobre o que tinha pra dizer; ela o conhecia bem demais pra fingir que não era nada. Sua mente precisava de uma resposta porque aquilo lhe deu esperança sobre eles, e por mais que devesse ter, tinha que falar com ele pra acabar com isso.
De súbito ela levantou de onde estava sentada, apressando os passos para a direção que tinha ido. Deu a volta na casa indo parar na garagem. A porta estava entreaberta, porém não se importou, conseguiu ver a sombra de alguém e pelo perfume soube que era , portanto abriu a porta de supetão, se arrependendo de ter ido lá logo em seguida.
Junto com ele, uma de suas vizinhas de infância, mais amiga da família de da qual ele sempre jurara que nunca teve nada, estava. Mais especificamente, pode perceber que ambos estavam prestes a se beijar pelo modo como ele segurava a nuca dela. Seu corpo estremeceu por inteiro. Por um momento se sentiu traída; estava tão cansada daquele sentimento sobre ele. Tão cansada de se preocupar com ele. Foi como a última gota d’gua. simplesmente não aguentava mais as expectativas que tinha criado.
- Acho que não é um bom...momento. – Murmurou sorrindo sem graça, fazendo menção de que fecharia a porta novamente. –
- Na verdade, não... – disse alto no último momento, fazendo-a abrir a porta novamente. – Procurando algo, ? – O garoto deu um passo até ela, se afastando da menina da qual estava. –
- Não. – Murmurou seguindo o ato anterior. –
- Pois eu acho que você estava, te conheço...– Parou novamente com a mão na maçaneta. a viu fechar os olhos por três segundos com a cabeça tombada nos ombros, e só depois voltar a olhá-lo. –
- Quer saber mesmo, ? – Ela sorriu de lado, um sorriso triste. – Eu estava procurando algo.
- O quê?
- Esperança. – Falou rápida, o vendo entortar a cabeça. – Foi tudo que eu procurei nesses meses. Esperança.
- Você tá com outro, . – Respondeu no mesmo tom fazendo um gesto perplexo com as mãos. sentiu o coração apertar. –
- Não, , eu nunca estive com outro. – Falou firme, mas baixo, apertando a mão na maçaneta. – Essa merda de tempo todo eu não estive com ninguém. Mas talvez seja a hora de eu ‘’estar com alguém’’. Cansei, . Não dá mais pra mim.

Mais uma vez ficou sem palavras. Sentiu o olhar cortante da menina lhe atravessar brutalmente. Embora estivesse bêbado, tinha total lucidez do que estava acontecendo. No entanto, por pior que parecesse, estar bêbado naquelas circunstâncias não o ajudou. Faltaram palavras. Ele afogara todas as que tinha guardado pra ela, na maldita garrafa de wisky que havia acabado de terminar.


Após brincar até quase morrer de cansaço, dormiu. apenas foi informada por que havia levado a garotinha para seu antigo quarto, fez menção de ir até lá, mas desistiu da ideia. Pensar em agora a deixava cansada, estava tão esgotada que estar longe dele, e ter finalmente decidido que não queria ficar mais naquela condição a deixava aliviada, mas confusa.
A garota deu meia volta de onde estava, e de toda aquela multidão, caminhando rapidamente para o quintal dos fundos da casa dos pais. Costumeiramente, quando sua mente estava cheia, ela ia pra lá, e também quando queria fugir da despedida dos parentes, odiava despedidas.
Caminhou até o meio do quintal e assim que parou, fechou os olhos, soltando todo o ar que estava prendendo. Seu coração parecia dolorido, porque sentia que estava finalmente deixando ir, e por querer isso, por deixar com que ele fosse, se sentia culpada.
Respirou fundo outra vez.
Ela tinha feito o que podia. Tinha esperado. Só que tinha acabado e ela não tinha mais forças pra continuar naquilo. parecia bem, tinha pedido pra ela seguisse, ou melhor, não tinha feito nada para que ela ficasse. Tudo bem que, arrumar motivos para voltar com e criar esperança fora o seu pior erro só pelo motivo do qual ele havia a deixado com , e que tinha que encarar que desde o inicio essa era a decisão correta, portanto não poderia ser tão dura consigo mesma.
Soltou o ar novamente.
É. Ela precisava deixá-lo ir.

- Tudo bem? – Despertou dos pensamentos ao ouvir a voz de . Ao olhar para o lado viu-o parado na mesma posição que ela.–
- Melhor do que eu imaginava. – Sorriu de lado. - Faz muito tempo que está ai?
- O suficiente pra ver você inspirar e expirar várias vezes. – Falou a fazendo rir. –
- Me ajuda a organizar os pensamentos.
- Acho justo depois do que aconteceu...

suspirou calmamente.

- Eu estou com medo.
- Medo? – Ele arqueou a sobrancelha, confuso. -
- É. Medo.
- De quê? – Dessa vez ele virou-se mais preocupado. –
- Do que eu estou sentindo. – continuou olhando para o nada. –
- E o que você está sentindo?
- Nada. Eu não estou sentindo nada. Isso é...
- Paz de espírito.
- Como isso é possível?
- Acredite, eu também não sei.
- Como se sentiu quando terminou com sua noiva? – virou-se para ele. –
- Não senti nada. – Ele virou-se para ela sorrindo. – Eu só pensava em uma coisa.
- E o que era?
- Em você. – Respondeu. – Queria te falar. – Sorriu gentil. – Como você está se sentindo?
- Nesse exato momento? – Ela perguntou. –

Ele assentiu positivamente bebericando o resto de sua cerveja.

- Com vontade de dar aquele beijo que não demos. – sorriu de lado– Ou devo dizer, ‘’flexão de boca?’’

O homem gargalhou, vendo-a seguir o mesmo ato.

- Ambos têm a mesma função. – brincou a fazendo rir mais um pouco. –
- Então quer dizer que... – suspirou. – Eu estou gostando de outra pessoa?
- Você está insinuando que eu gostava de você? – Rebateu entortando a cabeça. –
- E você estava? – A garota se aproximou um passo sorrindo. –

Ele entortou a boca sem tirar o sorriso do rosto.
Com um movimento rápido se aproximou do homem lhe dando um selinho demorado. Se afastou até roçar seus narizes só então passando seus braços pelo pescoço dele enquanto o viu sorrir largamente e fazer o mesmo que ela, abraçando-a pela cintura e com o ato, colando seus corpos.

- Não vai me responder? – A garota sussurrou fazendo uma careta, recebendo outro selinho em seguida. –
- Sabe que, se eu disser que sim, você está admitindo que também gosta de mim, já que sentimos o mesmo... – murmurou dentre seus lábios. –
- Isso eu só respondo na presença do meu advogado. – brincou dando outro selinho nele. –
- Então sorte sua que o seu advogado sou eu.

O homem brincou vendo cerrar os olhos pra ele. E só então eles voltaram a se beijar, dessa vez com mais intensidade. Pela primeira vez se soltou totalmente, esquecendo o que sempre cogitava quando se imaginava beijando – Porque sim, depois do primeiro quase beijo, o pensamento rolava toda vez em sua cabeça. – Seu coração parou por alguns segundos no começo, mas aos poucos eles começaram a se acostumar. Por longos segundos ambos continuaram se beijando. o sentia apertando sua cintura bem como ela bagunçava todo o cabelo dele.
Foi só quando acabaram, com alguns selinhos para selar, que ela percebeu que a total insanidade havia acabado de se concretizar, e levando em conta que todo o seu corpo estava vibrando, fora muito maior do que o esperado. É, ela havia se apaixonado por seu professor, e não sabia como proceder sobre isso.





Capítulo Três – Cuz Darling i’m nightmare dressing like a daydream.

- O que seu pai acha disso? – perguntou assim que se sentou em uma das cadeiras da cantina; cansada a olhou dando um suspiro. –
- Minha mãe não achou que eu ia levar a sério. – Falou espremendo os lábios. – Apesar de achar o encantador, acha que é ruim pra minha imagem aqui.
- , você vai me desculpar, mas qual é essa de “imagem”? – A garota riu irônica. – Não estamos em Cambridge!
- Essa é a questão, . Minha imagem está bem “manchada” em Cambridge. Talvez ela só tenha medo.
- Você tem uma imagem manchada, porque engravidou aos dezessete por uma pessoa que você amava e conhecia desde quando você se entende por gente? – exclamou exasperada. – Pra mim isso não é algo que você tenha que se envergonhar, . A vida toda eles dizem pra formarmos família e transarmos com amor. Você fez isso e é um presente.
- Ok. – deu uma suspirada longa endireitando a coluna. – Infelizmente meus pais não são tão modernos, e namorar um professor em Cambridge seria um escândalo, e você sabe que os boatos correm lá. O que eu vou dizer pra eles? – Olhou para a amiga desesperada. Os olhos de estavam arregalados. –
- Você precisa falar com ele. – Passou a língua nos lábios. – Já faz quase seis meses que vocês estão juntos e...

parou de falar assim que notou o olhar da amiga parado em outro lugar, ou melhor, acompanhando outra pessoa. Virou-se discretamente já deduzindo quem era.
estava lá parado na porta da cantina conversando com um grupo de meninas; parecia explicar algo, muito engraçado por sinal, pois a cada duas frases elas riam, e ele fazia o mesmo coçando a nuca. Ela não sabia o que significava, mas provavelmente sabia porque no mesmo momento ele trocou olhares com ela. Foi então que voltou a olhar para a amiga, jogando seu peso nos antebraços. fez o mesmo se voltando para o suco do copo não a olhando.
- Entendeu o que eu quis dizer? – murmurou se aproximando de . – Façam alguma coisa ou isso não vai dar certo. Vocês não estão cometendo um crime...
- Diga isso pra sociedade.
- O problema é a sociedade ou vocês? – Disse passando a língua nos lábios. – Vocês se gostam, e se isso não for o suficiente, acabem com isso logo, porque você não pode viver quatro anos nessa, então escolha muito bem. – olhou para o relógio se levantando em seguida, só então ergueu os olhos para olhá-la. –
- Aonde você vai?
- Encontrar meu namorado e eu suponho que você deva fazer o mesmo, ou aquelas garotas vão comer ele vivo. – Fez um gesto com a cabeça antes de sair, fazendo olhar para ele novamente. –

Ele continuava lá conversando e ela sabia que sabia que ela estava o observando. Talvez a coisa mais horrível fosse fingir que não conhecia a pessoa maravilhosa que ele era e não poder dizer isso pra todo mundo com toda a autonomia que tinha.
Depois do finalmente beijo, embora as coisas só estivessem melhorando entre ela e ele, tudo ainda permanecia nas escuras para o público, e até para eles mesmos. Não havia nada intitulado, embora agissem como um casal a maior parte do tempo quando estavam sozinhos, no fundo de tudo, só parecia cada vez mais que o medo era todo causado pela reação das pessoas das quais eles conheciam – Universidade –, não tendo coragem para admitirem um para o outro que esse era o único motivo pra não assumirem.
Obviamente era complicado, e isso era inegável. Tanto como pesavam muito bem as consequências e basicamente, seus pensamentos estavam em extrema sintonia, pois embora não comentassem em voz alta, se vez ou outra um assunto referente aquilo surgia, apenas com o olhar eles conseguiam identificar qual era o exato problema: A exposição.
Talvez para o homem não fosse ficar tão pesado, não tirando toda a “culpa” dele, e ele odiava pensar dessa forma, como se o que tivessem sentindo fosse errado, de uma forma ou outra ele sofreria com isso como ela, mas para inevitavelmente seria maior, justamente por conhecer o tipo de pessoas das quais convivia e principalmente por ouvir o que ouvia sobre si mesmo. Foi por esses e mais outros motivos que foram adiando o assunto; estarem juntos no privado já estava ótimo por aquele tempo.
Por mais que tentassem evitar e estivessem conseguindo, em parte, alguns boatos já estavam surgindo; O ápice mesmo aconteceu quando não conseguiu evitar parar de olhar para ela em um dos dias da faculdade. Não era porque estava apaixonado, isso ele estava mesmo, podia olhá-la no privado, ou melhor, sempre a checava discretamente durante os dias, mas naquele em especial ele não conseguiu.
Não conseguiu evitar o pequeno sentimento de injuria ao vê-la conversando com um rapaz, não muito distante dele; Na verdade, tinha total direito, o problema não era ela, era ele. não era do tipo muito ciumento, porém percebeu todo o movimento: O garoto se aproximava dela e arranjava uma forma de tocá-la a cada dois minutos, era perceptível que ela também havia sacado a dele, só estava tentando disfarçar por eles mesmos. Para todos os efeitos, ainda estava completamente solteira, no entanto, naquele exato momento, não queria que ela estivesse solteira, o que ele queria mesmo era ir até lá e dizer com muita paciência que ela tinha alguém, e pedir gentilmente para que parasse de perturbá-la.
Embora sentisse seu sangue esquentar a cada minuto olhando aquela cena, aguentou até o último momento. Trocou olhares com ela quando os mesmos passaram por ele, além de tudo foi cumprimentado por ambos, precisando manter todo o seu controle. Aquilo o atormentou até o último minuto que ficou naquela universidade.
Como todos os dias, ia embora sempre com , mesmo que por vezes ele fosse se dirigir para o mesmo local que elas, era melhor assim; Naquele dia em especial não esperou por isso. Assim que a aula acabou e normalmente sabia que se dirigia até onde costumeiramente ficava com , abordou-a no meio do caminho, já deixando tudo ainda mais estranho.

- Ei, , vem comigo. – Parou-a pelo braço. Por um segundo a garota se assustou, aos poucos foi relaxando, embora ele pudesse ver o pânico em seus olhos. Alunos estavam passando por eles.
- O que você está fazendo? – Murmurou se virando e dando uns passos em direção a ele. –
- Precisamos conversar. Vem comigo hoje. – Pediu chegando mais perto de seu ouvido. Viu alguns olhares se voltarem para os dois.
- ... – Apontou com os olhos para algumas garotas os olhando pelo canto dos olhos. –
- Eu te levo em casa hoje. – Ele disse mais alto fazendo a garota arregalar os olhos. – Vamos, ?
- Eu juro que não sei o que isso significa, mas você vai ter muito pra me explicar! – Rangeu os dentes começando a caminhar; viu algumas delas acenarem para ele e ela se encaminhando até o estacionamento.
- Eu vou. – Sussurrou no ouvido dela.

deu um suspiro o olhando seriamente por alguns segundos pensando seriamente se deveria ir, mas, convenhamos que os rumores já estavam rolando, as pessoas já tinham visto as ações estranhas, ele já tinha a abordado ali. Estava nervosa com o assunto, porém tudo já estava ferrado mesmo, então ela só aceitou, por um segundo sendo puxada por ele pela mão. No outro segundo, os dois se olharam com os olhos espremidos. Tinham esquecido. E assim foi até o carro dele onde obviamente, mas algumas pessoas os observavam.

- Ok. Primeiro motivo pra isso? – A garota perguntou de prontidão assim que o homem entrou sua casa adentro.
- Aquele cara. – Ele respondeu fechando a porta e só então virando pra ela. Viu-a revirar os olhos.
- Então vamos descartar a hipótese da nossa provável conversa, porque ele não apresenta nenhuma ameaça. – Cruzou os braços acompanhando o homem tirar a bolsa/maleta, que carregava, deixando-a em cima do sofá.
- Esse é o problema, . Apresentar ameaça a quê? – retrucou também cruzando os braços; sentiu seu estômago por segundos, ficando calada nesse tempo.
- Bom, de modo real não existe nada pra ser “ameaçado”, mas, seja lá o que esteja acontecendo aqui... – A garota alternou seu dedo entre ele e ela. – Ele não poderia ameaçar.
- Sim, mas ele não sabe disso. – suspirou parecendo ficar irritado; entortou a cabeça.
- E qual é o problema?
- Que hipoteticamente não há nada pra ser ameaçado, portanto isso pode continuar. Nós sabemos que há algo...
- Ok, eu estou ficando confusa. – fez um gesto com as mãos se aproximando um passo até ele. – O que você quer dizer?
- Quero dizer que já está na hora de falarmos sobre esse namoro, . Não dá pra adiar. Não podemos fingir que somos dois desconhecidos se no final do dia tudo que eu quero é... – pareceu perder o fôlego, travando um dos punhos e o levando até a boca. o acompanhou morder a pele do dedão levemente durante o ato.
- Tudo que você quer? – Se aproximou ainda mais, puxando o braço dele novamente para a posição natural; viu-o abrir os olhos novamente para olhá-la.
- Tudo que eu quero é voltar pra casa com a minha namorada sem precisar ficar pensando no que os outros vão pensar. – Fora a vez dele de finalizar o que estava pensando; a puxou pela cintura, entrelaçando sua mão entre ela enquanto a garota fazia o mesmo em seu pescoço. – Eu não consigo mais fingir. Formei-me pra ser advogado e não ator.
- Uau, foi sua frase do dia. – ela brincou beirando os lábios dele, o viu fechar os olhos. – Ok, e o que você supõe que devamos fazer sobre isso?
- Você pode, por favor, parar de jogar comigo? – Falou perplexo tentando se concentrar nos olhos dela; tarefa difícil quando o que ela parecia fazer era provocá-lo.
- Eu só estou dizendo quê... Eu não sei o que fazer. - disse séria. – Você e eu sabemos o que acontece se oficializarmos.
- E também se não oficializarmos. Sinceramente, , se for pra viver desse jeito, se queremos algo sério, não dá. – A frase lhe causou certo pânico. – Eu respeito seu tempo com o , mas...
- Não. – A garota o parou negando com a cabeça. – Sem nas nossas conversas, certo?
- Sempre falávamos sobre ele, qual é o problema? – O homem arqueou a sobrancelha, confuso. –
- Quer saber? – Mudou de assunto perceptivelmente incomodada. – Então vamos oficializar e seja o que Deus quiser! – Brincou se afastando dele com um sorriso estranho.

Fez menção de que iria ir até a cozinha, no entanto no mesmo momento fora puxada de volta para ele pela mão.

- Eu quero saber de você. Sério. – Ele entortou a cabeça, preocupado; viu-a passar a língua nos lábios.
- Eu estou com medo. – Falou numa respirada. – Mas vamos fazer isso, porque é inevitável, não é? – Ela sorriu como se procurasse segurança dele mesmo; sempre passava segurança, mas naquele caso, até ele mesmo não estava conseguindo parecer confiante o suficiente. –
- Eu estou com medo também. Não faço ideia do que fazer.
- Deus... – A garota passou as mãos nos cabelos, não exasperada, mas confusa. – Achei que nós sabermos era o suficiente...
- , nós vivemos aqui dentro dessa casa, olhando pros lados antes de sair, com medo que alguém nos veja, e eu juro que, muitas vezes, eu quero que vejam pra isso acabar, porque eu te amo, e eu quero que todos saibam.

falou tão rápido que lhe chegou até a faltar ar. Seu coração estava estufado, junto com seu peito e por um segundo ele prendeu aquele ar todo a olhando com as mãos na cintura, por baixo de seu paletó. Ele queria muito, muito mesmo amar aquela garota e matar a pessoa que criou o paradigma de que namorar uma aluna fosse algo ruim. Ele ou ela não eram menos pessoas por estarem em posições diferentes dentro de um convívio social, e eram éticos o suficiente pra lidar com isso. Queria poder explicar pros malditos que tudo que ele via naquela menina era lindo e que qualquer um se apaixonaria por ela como ele, porque ele era humano e ela também, e pela física, química, e toda ciência que explicava sobre sentimentos, apenas ser humano era o suficiente pra sentir aquilo que eles sentiam um pelo outro.

- Você o quê? – Sua vista que antes estava turva, tornou a focar nela sorrindo, sorrindo de orelha a orelha com os braços cruzados, só então notando o que tinha acabado de dizer.
- Desculpa se eu te assustei, , só faz seis meses e eu entendo se você não sentir o mesmo, na verdade, eu nem acredito...
- Ei... – disse sorrindo um pouco menos. – Você está nervoso?
- Digamos que um pouco? – Apertou os lábios.
- Meu professor que lida com os badboys da cidade está nervoso porque disse quê... – Ela parou de falar comprimindo os lábios juntamente com os olhos.
- Eu não sei o que eu estou sentindo por você nesse exato momento, aluna, mas eu tenho certeza que vai muito além do que eu sentia no dia em que nos beijamos pela primeira vez, e eu não sei como é sentir isso desde a minha primeira namorada.
- Se é assim, sinto o mesmo por você. – Sorriu passando os braços pelos ombros dele; roçou seu nariz pelo pescoço do homem o fazendo fechar os olhos instantaneamente. – Vamos achar um jeito, ok? – sussurrou beijando o canto dos lábios dele.
- Eu espero que sim. – Abraçou-a.

Diante da dúvida os dois permaneceram quietos. Foram até a cozinha onde preparou alguns petiscos e serviu vinho para eles. Não tinha nada especial, era só pra relaxar mesmo; isso tudo quieta. A casa toda estava silenciosa, o que a levava a pensar em por alguns segundos. A casa nunca ficava silenciosa, exceto quando estava dormindo. avisara que dormiria no apartamento de , portanto não seria a salvação dos dois naquele dia e muito menos ligaria para atrapalhar os dois.
Naquele momento eram ela e ; ele sentado na mesa mexendo na gravata pensativo, ela encostada ao balcão bebericando seu vinho – Assim como ele – Também pensativa, e o silêncio tenso que se pairava.
Já havia se passado algum tempo desde que os dois haviam se conhecido. Se fosse para que contasse ao todo, seriam ao menos seis meses, contando com mais quatro dos quais estavam mantendo uma relação amorosa... Era justo que finalmente assumissem algo, e ela gostaria que fosse fácil só assumir.
Podia pensar que só pelo fato de ser algo relacionado a toda uma polêmica, a deixava em estado de reclusão, mas ela sabia que não era só isso. Assumir um relacionamento também denunciava de maneira concreta que o que ela tinha com havia acabado. Sim, ela tinha dito que havia acabado desde que beijara e isso era totalmente verdade, no entanto, não queria dizer que o sentimento não existisse mais. Veja bem, isso nada tinha a ver com sua paixão por , ela estava completamente apaixonada por ele, gostava dele, e queria assumir um relacionamento tanto quanto ele, mas como já dito, havia algo em que a assustava. As mudanças a assustavam, deixavam-na apavorada pra dizer a verdade.
As mudanças assustavam , porque justamente ela nunca sabia se seria boa ou ruim, construtiva ou destrutiva, o que, obviamente, era uma consequência esperada; não havia como doer pra decidir, ela precisava passar pelo risco pra saber se valia a pena.
Ou seja, sabia a resposta. Já estava realmente na hora de se dar uma chance. Quando digo se dar, a frase realmente era voltada a ela. precisava dar o segundo passo. O primeiro demorara, e ela precisava do segundo, seria gradativo e estava respeitando aquilo até aquele momento, e embora ainda houvesse a faísca dentro dela, bem mínima, no entanto incomoda, não podia deixar com que isso levasse mais sete meses da sua vida embora.
Decidida a garota tirou o celular do bolso clicando na câmera. Fora à primeira ideia que teve, era digital. nem notou seu movimento, parecia submerso em pensamentos, portanto lentamente ela deixou seu copo de vinho ao lado do dele na mesa passando as mãos por seus ombros. Viu o homem a olhar confuso, acompanhando sua ação. No segundo seguinte a garota sentou-se em seu colo lentamente, sentindo ter sua cintura segurada instantaneamente, as mãos dele de leve entraram por dentro de sua blusa.

- O que está fazendo? – perguntou num sussurro recebendo um beijo entre queixo e o pescoço, fechou os olhos com a ação dela.
- Oficializando. – Respondeu deitando nos ombros dele e finalmente apontando a câmera para eles.
- Sério? Foto? Todos tiram foto comigo. – Resmungou perplexo. –
- É, mas ninguém tira uma foto sentada no seu colo com suas mãos dentro da blusa. – falou sorrindo de lado, ele fez o mesmo apertando a sua cintura na parte que segurava, a garota sentiu um calafrio.
- É, você tem razão.
- Até porque, se isso acontecer, você será um advogado sem testículos. – Dessa vez a garota sussurrou no ouvido dele, o vendo sorrir ainda mais largamente.

Já posicionados, a abraçou ainda mais pela cintura; colou seus rostos e sorriu lembrando-se do que ela tinha acabado de dizer; Como ele, ela sorriu, no entanto era muito suspeito pra falar sobre o sorriso dela, ele achava o mais bonito de todos naquele momento, então...

- Que tal agora, namorada? – Ele beijou o pescoço da menina que ainda estava sentada em seu colo, ela fechou os olhos sentindo os pelos ouriçarem.
- É esperar pra ver, professor. – riu continuando a subir suas mãos pela blusa dela. –
- Eu realmente devo ter perdido minha cabeça. – Falou arrastando seus lábios dessa vez pelos lábios dela. –
- É bom se perder às vezes.
- Melhor ainda se eu me perder em você.

sentiu o arrepio se espalhar pelo corpo inteiro, assim como seu corpo enrijecer logo que o homem finalmente a beijou mais profundamente, acariciando suas costelas com suas mãos dentro da blusa dela. Até aquele momento ela não soube explicar o que tinha acontecido com ela para aceitar aquela insanidade de professor e aluna, mas tudo ficou claro: Não se tratava disso. O problema estava dentro dos dois. Talvez nem eles mesmos acreditassem no que estava acontecendo, embora não fosse um crime. E foi naquele momento completamente simples, quando os dois se tornavam “iguais”, que percebeu que não havia diferença nenhuma entre eles. Era duas pessoas completamente apaixonadas se beijando e achar que aquilo era algo inconcebível era ridículo. Inconcebível, na verdade, era não estar com ele por isso.

***


- Como foi a viagem? – perguntou animada assim que entrou em casa. Arrependeu-se de ter perguntado quando viu o olhar derrotado da amiga. – Eu acho que nada bem...
- Bom, defina bem? Porque este pode ser eufemismo perto do que passamos lá.

Naquele final de semana em si, depois de terem ido contar a notícia para os pais de , ambos decidiram viajar até a fazenda onde os pais de moravam. Não ficava longe, porém afastada da cidade grande, mais perto do que Cambridge na verdade.
Acontece que foi pior do que esperavam.
A viagem inteira foi praticamente formando a cabeça de de que os pais dele era complicados e foi esse motivo de ter saído de casa tão cedo, correndo para a casa do tio na Califórnia quando soube que tinha passado para uma das provas que lhe deu uma vaga em Stanford.
Mesmo sabendo que teria que ligar com pais rígidos, cara fechada e tudo mais. Foi bem pior que isso. Além de ouvir discussões da mãe com ele sobre o tipo de pessoa que era pra estar com seu “professor”, houve mais uma chuva de críticas sobre a imagem dos dois, fechando com chave de ouro ao dizerem “você lutou tanto por isso pra ver tudo indo pro ralo por causa de uma paixãozinha?”
Foi nesse momento em que, gentilmente, se levantou, agradeceu pela estadia de duas horas, e saiu da casa já pronta pra pegar suas malas e ir até a estação mais perto dali.

- E então? – perguntou comendo mais uma colherada. – Ele disse que foi a melhor coisa que já fez desde que saiu de casa.
- O que isso quer dizer?
- Eu não entendi muito bem, mas...
- Eu enfrentei meus pais. – O homem chegou em seguida com nos braços, tinha prometido que a levaria para tomar um sorvete assim que chegasse; ela ainda estava se lambuzando. – Esperei vinte e oito anos pra olhar na cara do meu pai e dizer que eu o amava, mas que quem toma as decisões agora sou eu. – Falou. – E que se pra ele é um erro eu amar uma pessoa só porque estamos em posições diferentes, eu não sei o que é amor pra ele.
- Wow. – disse arregalando os olhos, continuava olhando para o homem fixamente. – Parece bom, por um lado.
- Eu achei que foi ótimo, apesar do desaforo.
- Ok, mas o que vamos fazer? – murmurou. – E se casarmos e, vivermos juntos...
- Estamos falando de nós, certo? É a nossa vida em jogo, e não a dos meus pais, . Olha pra mim. – abaixou o olhar. – Somos adultos o suficiente pra saber que isso não envolve ninguém além de nós. Eles já sabem, seus pais já sabem. Seu pai ficou bem irritado, sua mãe não gostou muito, mas sabíamos disso, não? Uma hora você não vai ser minha aluna e eu até estou vendo uma nova universidade pra deixarmos...
- Você o quê? – A garota se virou para ele bruscamente; Nesse segundo ele colocou no chão, vendo o ato levantou-se no mesmo segundo pegando a garotinha e indo para a cozinha.
- Eu ia te contar quando recebesse as respostas. – disse calmo, sentando-se ao lado dela.–
- E você recebeu? – Perguntou.
- Sim, de duas. – Respondeu ainda mais manso; observou o homem dedilhar suas coxas, ponderando sobre o que falaria. –
- Essa é uma das melhores faculdades daqui, , eu sei o quanto você deu duro pra conseguir um emprego neste lugar e eu não quero que isso...
- Escuta, , as duas faculdades que me aceitaram são ótimas, e eu posso trabalhar dobrado.
- Não. Isso é loucura.
- É loucura querer que nós dois sejamos completamente felizes? – indagou nervoso; conseguiu ver a veia do homem saltar no pescoço, sentindo o coração a mil.
- Isso não é sobre nossa felicidade, . Você conseguiu tudo que você quis antes disso aqui e eu acho que é loucura, porque...
- Por que você também acha que é uma paixãozinha de verão? – Sua respiração falhou, assim como as lágrimas se formaram nos olhos.
- Porque é demais pra mim! Você vai conseguir lidar com isso, mas eu não! Consegue entender isso? – Aumentou a voz. – Eu estou construindo a minha vida e você já tem a sua e é completamente injusto você fazer isso por mim... – engoliu em seco. – Por nós.
- Eu não acho que seja. – Falou com um suspiro. – Eu vou fazer isso você querendo ou não. Todos naquela faculdade já sabem, nunca nos viram juntos, mas sabem, e aquela foto não adiantou nada partindo pelo fato de que eu ainda não posso beijar minha namorada na frente dos meus amigos professores porque algo nos trava e quer saber? Eu realmente cansei. Mesmo se não estivermos mais juntos, eu mudaria.
- E você ainda acredita que isso não nos afeta?
- É por isso que eu estou arrumando um jeito de não te perder. – mordeu os lábios, fazendo menção de que se levantaria, mas foi segurado por , logo abraçando-o pelo pescoço. – Porque eu não quero.
- Ninguém nunca fez isso por mim antes. – Disse enquanto acariciava sua nuca.
- Bom, então esse ninguém não te merecia. – Sorriu, lhe dando um selinho após o abraço; em seguida lhe deu um beijo na testa pegou seu casaco e saiu da casa.
só tinha algumas semanas depois de aceitar o cargo em outra universidade, e era nisso que ela mais pensava. Assim que ele saiu à garota ficou lá pensando. Embora fosse incrivelmente difícil fingir que ele não era nada pra ela lá, ainda assim o tinha todos os dias, vezes ou outra tentava escapar, mesmo que sem sucesso, mas talvez só por isso as coisas ficassem mais interessantes do que eram.
passou noites pensando nisso, ainda mais depois que ele aceitou. Ele bem que podia estar tão instigado por isso se realmente o que o motivava: A adrenalina de estarem juntos.
O que ela não entendia era que ele era doido por ela.

***


- Então, último dia do aqui, como se sente? – disse enquanto saia do carro; haviam acabado de chegar na universidade.
- Eu não sei. – respondeu. – Talvez feliz, talvez com medo...
- Sempre complicando as coisas...
- Ele vai pra outro lugar. Pode muito bem achar outra pessoa mais interessante. – Falou sarcástica. que por sua vez andava, parou no mesmo momento virando-se para a amiga.
- Não arrume outro problema que você não vai conseguir lidar, . Ele está fazendo isso por vocês, acredite que pode dar certo.
- Por que eu sinto que você está mais desesperada por isso do que eu? – arqueou a sobrancelha vendo a amiga fazer o mesmo, abrindo a boca várias vezes. –
- Eu quero parar de mentir, tudo bem? Isso não afeta só vocês dois. – Disse após alguns segundos. – Quer saber? Vou me encontrar com o .
- Novidade...
- Você...
- Devia fazer o mesmo? – completou a frase sorrindo forçadamente. – Eu vou.

não respondeu nada, apenas foi se embaralhando por aquelas pessoas.Como a temporada de seis meses havia acabado, aquela era a última semana de aulas e a mais cheia; alunos preocupados com notas, festas de confraternização... É, eles tinham suas sociedades lá dentro, não fazia parte de nenhuma, embora seu curso tivesse algo como “ Law and Order team”, era mais como se ela não tivesse dentro.
Queria que o tempo passasse logo pra ela apenas ir encontrá-lo no final da aula com mais calma e tempo pra se falarem. Não se viam direito desde o dia em que ele contou que se mudaria. Nova casa, novo bairro, não era muito, mas era o bastante para fazê-la pensar sobre o quanto aquilo estava dando trabalho, o quanto ele estava se esforçando pra dar certo e de certa forma se sentia ruim... Não estava se doando tanto, talvez por medo, e apesar disso ele entendia. Como isso era possível?

Ainda tinham algumas alunas quando chegou; viu-as olhar de canto quando entrou, sorrindo simpática mesmo assim e depois tornando o olhar a ele. tinha se virado para ela assim que botou os pés para dentro da sala dele.
Como era um tipo de despedida juntamente com a confraternização, todos acharam melhor o surpreender na sala dele, mas ela não foi.
Viu aos poucos, as poucas pessoas que ainda estavam lá irem saindo até que sobrasse apenas ela e lá dentro, um olhando para a cara do outro sem saberem se riam ou conversavam sobre aquela situação. Não poderiam mentir que estava tudo na perfeita maravilha deduzindo pela falta de comunicação das últimas semanas, mas, mesmo assim, compartilhavam de um mesmo sentimento ali que não sabiam descrever.

- E então? Mudando-se? – cortou o silêncio dando passos até ele.
- Eu pensei que você não viria.
- Eu também. – Falou desviando os olhos dele. – Mas como eu não viria na despedida do meu professor preferido? – Ele sorriu vendo-a chegar mais perto.
- Ótimo. Aliviado. Confiante.
- Eu não acredito que você está fazendo isso. – A garota disse agora já entre as pernas do homem, que estava recostado a sua mesa.
- Não é tão grande quanto parece. Só vou parar de dar aula aqui.
- Depois de cinco anos!
- Estava na hora de mudar. Conhecer novos horizontes. – Ele sorriu acariciando os braços dela de cima pra baixo. acompanhava suas mãos passearem pela pele dela como se estivesse alisando uma obra de arte.
- Posso me incluir nesses horizontes?
- Você é meu horizonte. – O coração da menina apertou, ao mesmo tempo, ela entortou a cabeça o vendo a olhar com um meio sorriso.
- Isso existe?
- Acabei de inventar.

Dois segundos depois os dois caíram na gargalhada, logo o abraçou pelos ombros sendo retribuída na mesma intensidade. Ambos ficaram daquele jeito por um bom tempo, sentindo seus corpos subirem e descerem na mesma intensidade, na mesma velocidade, de tão colados que estavam. O sentimento era de alívio, os fazendo pensar que a situação não era tão crítica para aquele drama todo, mas se tratando dos dois finalmente estarem livres pra ficarem daquela maneira, naquele horário, se tornava enorme.
só abriu os olhos, ou melhor, semicerrou-os, quando sentiu um beijo de leve no ombro desnudo, por causa da regata que usava. O corpo todo dela se ouriçou fazendo sorrir satisfeito. Continuou beijando seu ombro, fazendo uma trilha dele até seu pescoço, passou pela bochecha, canto da boca; que mantinha os olhos fechados esperando o beijo nos lábios estranhou a demora, o abrindo. Viu-o a olhando, todo o seu rosto, só assim sorriu.

- Eu realmente gosto de você. – Disse.
- Eu não duvido disso. – respondeu. – Eu não duvido nem um pouco.
- Quando você disse que era loucura, essa palavra ficou rodando na minha cabeça a noite toda, desde aquele dia. – Começou. – Mas, eu fiquei pensando, se isso é loucura, estamos dando o significado errado a essa palavra.
- Ah, você e suas filosofias... – A menina rodou os olhos.
- Se loucura for pensar viver o tempo todo e só se dar conta que sua vida começou quando alguém toma totalmente conta dela do melhor jeito possível, e faz você pensar coisas inimagináveis, é, talvez seja loucura.
- Coisas inimagináveis? – arqueou a sobrancelha sentindo as mãos do homem subirem por dentro de sua blusa.
- É, tipo te beijar muito agora.
- Não é inimaginável, é possível. – Ela sorriu roçando seu nariz no dele antes de encostar seus lábios. –
- Seria só imaginável se não fosse hoje.
- Talvez. – Deu de ombros o beijando.

Como força do hábito o homem tomou conta do corpo dela, transpassando suas mãos pelas costas dela sem se importar se estava numa universidade ou não; virou bruscamente o corpo da garota dessa vez com mais intensidade, desceu pelo canto da boca e pescoço observando-a arfar. engoliu seco, bruscamente separando do homem e o empurrando sutilmente dela, que ainda estava recostada na mesma, parecia assustado. Foi quando a garota se levantou indo até a porta rapidamente, por um segundo ele pensou que fosse embora, mas só depois notou que ela havia trancado a porta.
Foi quando ela virou-se abrindo um sorrisinho no canto dos lábios que ele sacou, já afrouxando a gravata.

- Vamos nos despedir da sua mesa.
- Ela está pedindo por isso. – assentiu positivamente. –

Em três passos a menina chegou até ele já desabotoando os botões de sua camisa enquanto já havia começado a beijar seu pescoço. Suas pernas estavam tão moles que achava que provavelmente cairia, foi notando a moleza da garota em seus braços que o homem a pegou no colo sutilmente, colocando-a sentada em cima da mesa, ao mesmo tempo, ela havia desabotoado o último botão, vendo perfeitamente todo o peitoral e abdômen do seu professor completamente exposto ali pra ela.
A adrenalina corria na veia dos dois, de forma que seus corpos estavam mais quentes a cada segundo não só pelo tesão, mas por fazerem algo bem errado ali.
só parou de pensar quando sentiu mais beijos dele em seu pescoço, e depois suas mãos subirem pela saia que estava usando, apertando suas coxas. Novamente parou bruscamente; naquele patamar já sentia o corpo todo pulsando, pulsando mesmo, seu cabelo estava todo desgrenhado, e sua boca estava toda inchada. sorriu ao ver aquilo o deixando confuso. Ok. Ela admitia, adorava o ver doido.

- Que foi?
- Esqueceu de uma coisa.
- O quê? – Perguntou quase desesperado. –

Em câmera lenta ele viu a garota tirar a blusa, jogando-a na mesa ao lado daquela.

- Agora sim. – Ela sorriu puxando-o pela nuca novamente, entrelaçou suas pernas na cintura dele e continuou o que estava fazendo.

***


Durante mais aqueles quatro anos que se passaram desde a mudança de para outra universidade, as coisas entre eles ficaram mais estáveis e melhores.
já estava com oito, e naquele exato momento faltava apenas uma semana para que ela e se formassem; , , e sua família e haviam viajado para a casa de lago da família , uma confraternização de fim de ano que eles sempre faziam; tinha ido todos os anos sozinha, mas dessa vez era diferente estar lá, dessa vez estava grávida.
Obviamente quando descobriu houve aquele desespero natural pra quem não está esperando: Eles estavam prestes a se formar e não tinham a própria casa ou se casado, nem pensavam em casamento e vida eterna até aquele bebê. Foi quando e entraram na jogada.
na parte madura e no quesito, a vida dela mudaria de cabeça pra baixo, mas ela teria certeza de que seria pra melhor. Após isso veio à crise do “vestido nenhum vai caber em mim na formatura”, e era por isso que estava lá, para todas as crises maternais que ela já tinha passado e estava passando, para dar suporte.

Já era tarde da noite quando finalmente capotou no sofá dos junto com uma prima do mesmo, só depois de ter certeza de que estava tudo certinho com ela, foi procurar a amiga, e . Os três estavam sentados na varanda da casa, no colo de enquanto o mesmo acariciava sua barriga e sentado numa poltrona em frente a eles, com uma cerveja em mãos. Aquela era mais uma mania engraçada do namorado: Ele adorava tomar cerveja num frio de -2 graus. Não era a temperatura que estava fazendo, mas olhava para toda aquela neve e só conseguia sentir que era isso.

- Ei, o que estão fazendo aí? – Perguntou assim que saiu, já caminhando para o colo de com um cobertor enrolado ao corpo.
- O assunto chegou. - falou recebendo uma língua da mulher.
- Estamos falando sobre a festa no lago do ano passado. – respondeu; assentiu positivamente sentando no colo do namorado e transpassando o cobertor por eles, lhe deu um selinho antes de voltar a olhar .
- Sim, logo depois de eu engravidar. – comentou. –
- Mal aparecia. – compartilhou da mesma lembrança rindo. – Ela conseguiu esconder por um tempo que não estava grávida de tão pequena que era. – Riu. – Já eu...
- É diferente, , eu era uma adolescente. – Falou; tentou imaginar grávida, se perdendo por instantes. –
- Eu me lembro que fiquei bem chateada por você não ir mais as festas comigo por estar “casada”. Eu meio que engravidei junto com você depois disso.

Ambas riram sendo acompanhadas por risadas singelas dos namorados.

- Nunca foi um casamento, eu deveria ter ficado na casa dos meus pais. – comentou num murmúrio. –
- Por que não ficou? – finalmente falou observando parecer voltar no tempo. –
- Porque era Cambridge e antes do meu bem estar, vinha meu status e da minha família. – Suspirou. –
- É ridículo.
- Não era pra mim na época. Eu acreditava que, mesmo parecendo rápido demais, fosse dar certo. – A garota disse logo espremendo os lábios, acompanhou a ação. –

Sentia falta de talvez na mesma intensidade que . Por um momento ela quis voltar até aquele momento no bar, antes de e ele fazerem aquela viagem, e ter implorado pra que ela não fosse não pela gravidez, mas pra evitar aquela coisa horrível que sentia toda vez que se lembrava dele. A dor do abandono. De ser deixada. Mesmo que não se tratasse diretamente dela.

- Era o que você tinha que fazer, . – falou. – Se você não acreditasse que daria certo, por que teria engravidado?
- É, faz sentido.
- Vocês chegaram a se casar na igreja? – falou outra vez. –
- Ah não, nossos pais não queriam chamar atenção. Foi bem frustrante na verdade, sempre planejei meu casamento e nunca tive a chance de ter um.
- Não haja como se sua vida estivesse acabado lá, . Você só tem vinte e cinco anos. – Repreendeu-a, abraçando ainda mais. –
- Você teve a oportunidade... Como foi? – Ela cortou o assunto vendo o homem hesitar. –
- Nunca foi romântico a tal ponto, meu casamento foi mais “vamos nos casar?” e eu falei “pode ser”; nunca tive essa coisa de pedir. – Contou.
- Eu nunca vou me casar. – se intrometeu recebendo um olhar cortante de ; Apesar de tudo, todos sabiam que era pra irritá-la. – Perda de tempo.
- Você acha?
- Acho.
- Ok. Vou te matar, . – Disse entre dentes fazendo gargalhar.

Quando ouviram aquele estrondo de comemorações e fogos aparecer foi que notaram que a meia noite já havia chegado e já era ano novo e eles estavam ali perdidos na conversa.
Pra falar bem a verdade, estava perdido no sorriso que dava para . Ficou ali olhando pra ela sorrindo, tentando imaginar no quanto ela já tinha passado, toda a pressão, todo o sofrimento, toda a perda de esperança, mas estava ali. O mundo tinha sido duro demais com aquela garota que pra ele, ainda estava se recuperando dos seus dezessete.
tomou consciência de que por mais que tivesse oito anos a mais que , quem tinha tudo a ensinar era ela, ou melhor, ainda estava. Talvez fosse por isso que se sentia tão vivo com ela, tinha esse poder de fazer com que as pessoas não perdessem a esperança e nem a força, porque um dia ela já passou por isso e ela sabia que a vida não acabava com isso, na verdade, só continuava e você tinha que arrumar um jeito de continuar. Era isso.
Naquele minuto, ainda mais que os outros, entre os clarões que atingiam o rosto dela preenchido por um sorriso e um olhar indescritível, ele sentiu com toda a certeza que o mundo podia lhe dar que estar com ela era a coisa certa.
Mais ainda quando se virou pra ele com o mesmo sorriso, tombando a cabeça nos ombros e caminhou de volta pros seus braços, se jogando sobre ele naquela poltrona. Segurou seu rosto roçando seus narizes; ele ainda podia ver o reflexo das luzes nos olhos dela. Abraçou-a pela cintura fazendo-a sentar-se em seu colo novamente e então a beijou. acariciou seu rosto com o dedão, desceu para pescoço, beijou seu rosto. conseguia sentir o rastro quente que ela havia deixado, a combinação perfeita para uma noite gelada como aquela.

- Feliz ano novo meu amor. – Ela sussurrou beijando sua bochecha; chegou mais perto do ouvido do homem sentindo as mãos dele atravessem sua blusa grossa de lã. percebeu a pele dela se ouriçar, beijando seu pescoço também. – Eu te amo.

Então ele tirou a prova de que amor, na verdade, era tudo o que disseram que não era.





Capítulo Quatro – Hey you? Remember me? Remember us?

Musica do cap: James bay, Forever.
Obs: Vocês podem escutar em qualquer momento dessa história, mas recomendo no momento do reencontro.

- É com muito orgulho e satisfação que eu, diretora da universidade de LawScroll, declaro oficialmente a décima sexta turma de direito, formada!
Uma salva de palmas veio a seguir, junto com uma chuva de chapéus, e então o pai de , que filmava a cena toda, deu zoom no rosto da filha sorrindo com os olhos completamente marejados. apareceu em seguida lhe dando um abraço carinhoso, e logo depois apareceu entre elas, se juntando; e ai a câmera focou em lá no fundo, ele piscou para a mesma e sorriu, saindo do salão onde a cerimonia solene havia acabado de ser finalizada.
só foi entender aquilo séculos depois.

- Mãe, quantos anos eu tinha ali?
- Vendo esse vídeo de novo, ? – passou pela sala vendo pausar a fita. Era seu vídeo de formatura; completamente caseiro, havia planejado tudo.
- Tinha oito.
- Uau. E onde eu estava aqui? – deu play novamente, deixando o momento em que havia a pedido em casamento na cozinha da casa rolar. Sorriu de leve ao lembrar-se, ou melhor, de ver como tinha ficado confusa e sem palavras; Em como cada minuto fez parecer um conto de fadas. – Mãe?

- Estava na casa do tio .
- Por que você estava chorando?
- Porque eu estava feliz, e chega de perguntas! Desliga isso aí e sobe pra tomar banho, daqui apouco a mãe do Byron chega pra te buscar.
- E você concorda com isso?

se virou bruscamente dando de cara com parado na porta olhando para as duas. Aos poucos o homem foi virando a cabeça notando que o vídeo ainda rolava; Assim como ele sorriu, chegando mais perto.

- Chegou cedo.– trocou olhares com ; acompanhou com os olhos o homem lentamente puxar sua mãe para ele todo carinhoso.
- Eu tinha que estar aqui pra ver a cara dos...
- . – A mulher o reprovou num sussurro dando um selinho em seguida.
- Mãe!
- Você concorda com isso? – trocou olhares com as duas.
- São crianças, crianças de doze anos! – A mulher se intrometeu entortando a cabeça.
- Não tão crianças assim...
- Amor. – juntou a sobrancelhas como se o repreendesse; fez o mesmo. – Vem aqui.

A mulher o puxou pela gravata novamente juntando sua boca no ouvido dele, escorreu a mão pelo peitoral do homem e depois o soltou.

- Ok. Pode ir. – disse, porém ainda sério.

abriu a boca varias vezes.

- O que você disse? – Perguntou boquiaberta. –
- Eu já dei um jeito, não dei, mocinha? No more questions.

Sendo assim a mulher soltou-se do marido, acariciou os cabelos da filha que fez um resmungo, e caminhou em direção à cozinha; virou-se para olhá-la dos pés a cabeça, já imaginando o que faria, com um sorriso que somente era capaz de entender e que por sinal, retribuiu da mesma maneira, piscando em seguida

- A porta!
- Os meliantes chegaram.
- ! – resmungou. Ultimamente era só isso que andava fazendo, resmungos o tempo todo.
- Atenda a porta e seja gentil. – passou vendo o homem revirar os olhos.
- Sim, senhora.
- O que a mamãe disse pra você deixar? – perguntou para o padrasto o parando por um momento.
- Algo que eu quero que você aprenda apenas aos trinta. – respondeu; pode sentir a animação dele transcendendo; logo ele beijou sua testa indo atender a porta.

dispensou toda a parte de ser simpática com a mãe das outras crianças, uma vez que não se deu o trabalho de ir até a porta e cumprimentar a mulher. já estava fazendo isso por ela.
Embora esperasse que o processo de entrega na porta fosse rápido, ouviu alguns múrmuros, risada feminina, retorceu a cabeça e foi dar uma espiada pelo vão da porta da cozinha – que era inteira de vidro e estava fechada. – Afastou de leve a cortininha que tapava a visão, e viu a mesma medindo seu marido dos pés a cabeça. Também notou que o mesmo se mantinha na mesma posição, simpatizando.
Era sempre assim. chamava a atenção das mulheres, quem quer que fossem. Mas ela não costumava ligar muito pra isso. Havia prometido para si mesma, depois das inúmeras brigas que ambos tiveram pelo seu ciúme fútil ao longo daqueles três anos, que não iria mais se importar. No entanto como já comentado, ela ainda se sentia incomodada.
Quando o viu fechar a porta, voltou rapidamente para o balcão, servindo o outro copo de vinho. abriu a porta em silêncio, e viu a mulher concentrada no que estava fazendo. Continuou da mesma forma, caminhando em passos lentos até ela. Durante o trajeto passou a mão nos cabelos, e por fim parou atrás de , beijando seu pescoço – quase nuca – De leve.

- Sozinhos?
- Sozinhos. – Ele afirmou dessa vez roçando seus corpos. sentiu as mãos dele se arrastarem por cima do seu vestido, parando em seu abdômen. Dessa forma ele a abraçou pelas costas.
- Como foi seu dia? – fechou os olhos ao sentir outro beijo, agora em seu ombro, pois ele havia afastado a alça de seu vestido que agora, caia por seu braço.
- Cansativo, mas produtivo. – Ele sussurrou indo em direção ao seu ouvido. – E o seu?
- Kassandra perdeu uma causa. – Respondeu com a voz falha por conta dos beijos que o homem distribuía por baixo de sua orelha e pescoço.
- Que novidade. – virou-a para ele gentilmente, lentamente indo até sua boca. se afastou o que o fez arquear a sobrancelha. –
- Que foi? – Alisou o peitoral do homem de cima a baixo, ele, porém não tirou os olhos do rosto dela.
- Eu não sei... – Murmurou.
- É estranho, não é? Não ter ela aqui. – O homem fez um biquinho com os lábios.
- Já disse que você fica encantador falando desse jeito?
- E não foi por isso que nos casamos? – falou presunçoso.
- É, acho que sim. Quem não se rendia aos encantos do professor de criminal? – riu alto apertando mais sua cintura.
- Você não se rendeu!
- Então, é por isso que nos casamos. – sorriu segurando a nuca do homem e o puxando para ela.

Com apenas um movimento fez impulso para que sentasse no balcão, a mulher jogou a faca para o outro lado, emaranhando suas pernas na cintura dele, o puxando ainda mais para ela. Agarrou os cabelos dele com uma das mãos, enquanto a outra acariciava sua nuca; por sua vez apenas passeava pelas coxas dela, apertando por vezes, sem a intenção de deixá-la marcada como acontecia algumas vezes. Naquele momento ele apenas sentia saudade de sua esposa. Há tempos não conseguia arrumar tempo para um momento como aquele.
arqueou o corpo, pendendo para trás, tendo que segurar ainda mais forte na nuca dele, quando sentiu os beijos dele se arrastarem de seus lábios para o pescoço, e clavícula...
- Isso é anti-higiênico. – A mulher murmurou ofegante, abrindo os olhos. Fez uma força imensa para voltar a se sentar corretamente, já que estava quase deitando no balcão.
- Quem liga? – a beijou de novo, delineando seus lábios com a língua. – Já fizemos isso antes.
- Nunca fizemos isso antes. – segurou o rosto dele. – Não tente ser mais esperto que eu, meu amor. – roçou seus narizes. Sentiu-o apertar suas coxas; aquilo a fez sorrir de lado.
- Como seu ex-professor, tenho que confessar que te ensinei bem demais. – Beijou seu rosto. – Suas habilidades aumentam a cada dia... – Beijou o canto de sua boca. A mulher gargalhou. –
- Três anos de casamento e você acha mesmo que eu não sei o que você está querendo fazer? – afastou seu rosto minimamente, entortando a cabeça.
- Quarto.
- Banho?
- Feito. – Sorriu. –
- Obrigado, Deus.

Da mesma forma que a colocou lá, tirou-a, levando-a no colo para o andar de cima da casa deles quase correndo. A ação fez gargalhar.
Assim que chegaram ao quarto, ele a pôs no chão dessa vez voltando a beijá-la com mais intensidade que antes. sorria durante os beijos, assim como ele, já desabotoando sua camisa social preta. Aos poucos o abdômen do homem foi aparecendo. Era incrível como ele conseguia ficar ainda mais estonteante com o tempo. Lembrou-se de comentando que o mesmo se assemelhava ao vinho: “quanto mais velho, mais gostoso”, e naquela circunstância, ela não podia nem por um segundo duvidar. Seu marido ficava ainda mais gostoso com o tempo, era fato.
Assim que chegaram à beira da cama, se deitou lentamente, sendo acompanhada por ele, se encaixando em cima dela, entre suas pernas; Assim ele voltou a beijá-la no pescoço; ela apenas fechou os olhos, acariciando e vez ou outra passando levemente as unhas, da melhor maneira que podia retribuir.
Seu vestido já estava no chão, às roupas dele também, e só quando faltava bem pouco para finalizar o que queriam, voltou a olhá-la nos olhos, sem deixar de transpassar suas duas mãos, pelos dois lados do corpo dela, das coxas até a cintura; parou suas mãos por ali, e a olhou nos olhos.

- Faz quanto tempo que não estamos sozinhos e despreocupados assim mesmo? –
- Três anos. – retorceu a boca. Ele achou a coisa mais linda do mundo. Realmente, depois de se casarem e terem ali a todo o momento, não tiveram tantas oportunidades. – Desculpa...
- Ei, minha vida não podia ser melhor. – sorriu, acompanhou; logo ele se aproximou gentil novamente, voltando a beijá-la, misturando seus sorrisos novamente.

***


- Que carinha é essa? – perguntou assim que encontrou a amiga no café da manhã costumeiro que faziam antes de começarem o dia; entortou a cabeça. – Vamos lá. Como foi ficar sozinha com o depois de três anos? Sem culpa?
- Como você sabe? – Riu bebericando seu suco.
- Porque eu não vejo a hora do Ethan completar onze e começar a sair sozinho. – Ambas riram sincronizadas.
- Você é pervertida.
- Não se eu for fazer amor com o meu marido. – rolou os olhos.
- Acredita que ele não queria a deixar ir? – murmurou – Não é estranho como ele realmente tomou esse posto de pai?
- , você esperava o quê? É como se ele fosse o pai dela. Desde os três anos de idade o age como um pra ela. – contestou perplexa vendo a amiga olhar para o líquido dentro do copo hesitante. –
- Acontece que ela tem um pai, . E eu tenho medo do ... – Respirou fundo. –
- O que? Achar que o seu marido está tomando o lugar? Sim! Talvez ele realmente esteja . Há quanto tempo o não vê a ?
- Seis meses.
- Viu só! – aumentou a voz fazendo algumas pessoas ás encararem, mas provavelmente só percebeu isso. –
- Mas ele liga todos os dias, e manda presentes e enfim...
- Tudo bem. – se endireitou na cadeira. – O aniversário dela é hoje, e ela vai pra festinha na casa da amiga, o por um acaso sabe disso? Ou se importou em vir? Pelo que eu sei a turnê dele acabou esse final de semana e, digamos que dinheiro não é o problema dele agora. – encarou por alguns segundos, só depois soltou a respiração de novo.
- Acredito que ele tenha falado com ela , o não se dirige a mim há anos. – Ao voltar a olhá-la, viu rindo de lado.
- Em pensar que você cogitou convidar ele pro seu casamento... – Dessa vez sorriu de lado também. Não era um sorriso humorado, mas triste. Nunca teve resposta do convite.
- Eu o convidei porque eu prometi que faria quando me casasse. Prometi que ele seria meu padrinho com você.
- Isso antes de vocês namorarem e terem uma linda princesinha que por sinal ele deixou. , quantas vezes eu vou ter que repetir que... – As palavras dela se perderam.

Por um minuto, ambas ficaram quietas olhando para o próprio copo de café, compartilhando das mesmas lembranças. Dentro de suas cabeças, aos dezessete tudo era infinitamente perfeito. , e . Os amigos mais populares e badalados de Cambridge. Que faziam promessas para o futuro uns para os outros e eram reconhecidos por serem fieis por isso.
A fidelidade entre eles era tanta – as defendia com unhas e dentes – Que elas jamais imaginaram que, mesmo sabendo que um dia poderia rolar algo entre algum deles, um dia, poderiam sair tão machucados disso. As mesmas memórias por anos, os três construíram, desde “serem padrinhos um dos filhos dos outros”, a seus casamentos.
O golpe não fora apenas em por esse motivo, mas foi em também; e talvez por ter acreditado tanto em , talvez ainda mais que , pior que a principal afetada, não conseguia perdoá-lo, e se irritava quando a mesma se forçava a fazer isso. Entendia que ele era pai de sua filha e que alguma coisa deveria existir entre isso, mas, como seu velho amigo? Essa era a questão. entendeu que na verdade, as únicas amigas mesmo dentro daquela relação de amizade, era ela e .

- Como você sabe da turnê? – cortou o silêncio com um pigarro. –
- Por incrível que pareça, e se dão muito bem e viraram amigos. – Falou a contragosto; apenas a olhou.
- E você nunca me disse nada?
- Pelo amor de Deus, lady Love, você tem uma família pra se importar. O que iria acrescentar na sua vida a amizade deles?
- Isso quer dizer que os dois se veem! – argumentou fazendo gestos com as mãos. –
- Só quando o viaja. Você sabe, a empresa o manda pra algumas clínicas pra ver o rendimento, mas isso não vem ao caso. , esquece o ! – estalou os dedos em frente ao rosto de a fazendo revirar os olhos e logo depois lhe dar um tapa no mesmo.
- Eu esqueci o . – Murmurou séria. – Para com isso.
- Então qual é a sua obsessão por notícias? – indagou aguda. –
- Eu só quero saber se ele está BEM! – ultrapassou a voz da mesma; Dessa vez não respondeu nada, só encarou-a. engoliu seco. – É difícil pra você aceitar que depois de tudo que ele fez, eu esteja me importando. Mas ele é o pai da minha filha e eu não sei... – Tapou o rosto com as mãos. – Eu só quero que ele esteja bem. – Franziu os lábios.
- Ele está ótimo, . Ótimo. – terminou seu café, chamando o garçom. – E você não só quer saber se ele está “bem”, você não suporta ser ignorada, porque convenhamos, quem é que gosta?

ficou calada sentindo o coração quente por dentro. Quente de irritação.
Continuou daquela forma até chegar a seu escritório. Continuou com a sensação enquanto trabalhava e enquanto atendia os clientes. Continuou assim, pensando no assunto desde que elas começaram a falar nele. A manhã toda.
Não era realmente possível que chegasse a cogitar que ela, no auge dos seus vinte e oito anos, ainda sentisse algo por . Algo relacionado a amor? De fato ela sentia falta, e não deixará de sentir por todos aqueles anos, mas não era falta do amor de , como costumava sentir, era mais como uma preocupação.
Na pior das hipóteses podia estar certa, e sabia disso. Lá no fundinho ela sabia que não deveria se importar tanto, ou melhor, qualquer pessoa normal não se importaria; Não ficaria feliz ao ouvir a voz dele no rádio, fazendo sucesso como sempre desejou. A resposta era clara pra ela sobre essas situações e a melhor que ela podia aceitar: era o pai da sua filha, e era por esse motivo que outras opções a irritavam.

- E aí. – sorriu abrindo a porta lentamente; estava tão perdida pensando, que por um segundo o homem a assustou, e sua feição fora nítida.
- Ei, o que você está fazendo aqui? – A mulher se direcionou rapidamente até ele; abraçou pela cintura assim que chegou perto, como se quisesse fugir de todos os seus pensamentos, lhe dando um selinho demorado.
- Eu pensei que você e eu pudéssemos almoçar juntos. – Espremeu os olhos. entortou a cabeça.
- É sério?
- Se chegarmos em vinte minutos, ainda dará tempo de almoçarmos com a . – Dessa vez a mulher abriu um sorriso.
- Ela iria adorar... – Murmurou sendo abraçada por ele. – Obrigada.
- Desculpa por ser tão ocupado, é que... – Ele foi parado por um beijo; subiu suas mãos pelo peito do homem, parando na nuca, e só então descolou suas bocas.
- Mas você sabe recompensar essa ausência.

Piscou se desvencilhando dele rapidamente. continuou na mesma posição observando sua mulher desfilar pela sala com seu scarpin vinho, já com sua bolsa em mão e seu vestido tubinho preto, completamente colado no corpo dela na opinião dele, mas quem era ele pra mandar naquela mulher? Por ele, ficaria apenas em casa; ela era um perigo e não tinha um minuto em que não deixava de pensar isso. Perdeu-se tanto a olhando com aqueles cabelos nos ombros, e aquela pose: Mãos na cintura, checando o celular pela ultima vez, biquinho duvidoso do qual ela só fazia quando escondia algo.
Foi naquele segundo que parou pra pensar. A conhecia tão bem que, ficou desconcertado ao olhar sua expressão. Aquele biquinho denunciava realmente que havia algo.

- Você vem?

tentou esquecer toda aquela teoria maluca que tinha criado sobre o biquinho duvidoso dela, embora parecesse inevitável, era seu mau de advogado, sempre criando versões malucas para os variados tipos de atitudes; mas aquilo era loucura, era sua mulher, o que ela poderia esconder? Tudo estava indo extremamente bem com eles naqueles tempos e finalmente ele conseguira um tempo entre seu trabalho para finalmente almoçar com suas garotas. Ele definitivamente não podia dar-se ao trabalho de criar teorias.
Assim que chegou viu pular do carro sem nem mesmo o esperar, riu em seguida também já se sentindo revigorado pelo almoço surpresa.
Antes mesmo de entrar na casa ouviu gritar “mamãe?”, dando de cara com ambas se abraçando loucamente na cozinha. Assim que ela o viu fez o mesmo com ele, pulando em seus braços e distribuindo alguns beijos.

- Isso é por que é meu aniversário? – A garotinha sorria de orelha a orelha, voltando a se sentar no lugar onde estava.
- Gostou da surpresa? – apertou os olhos sendo abraçada por pelas costas, de leve o homem depositou um beijo em seu pescoço antes de passar para o outro lado, direcionando ao destino final: o prato.
- Senhor ? – Catarina, a empregada se assustou ao ver o homem ali, e mais ainda quando olhou . –
- Nossa, Cat, parece que viu um fantasma. – acenou negativamente. –
- É que os senhores nunca almoçam em casa desde que eu comecei a trabalhar aqui...
- Eu já pedi desculpa pra minha esposa sobre esse fato. – piscou para que sorriu; Catarina sorriu junto disposta a servir a mesa para os dois, já que só tinha colocado o prato de na mesa, foi quando a parou, segurando-a pelas mãos.
- Deixa que eu cuido disso, Cat... Pode ir descansar.

Não foi preciso muito esforço, a mulher acenou positivamente com a cabeça sorrindo para , deu meia volta e saiu do cômodo, deixando apenas ela, e na cozinha.
Dessa maneira a mulher seguiu o ato da empregada: Pegou a tigela de pepinos caminhando para a mesa.

- Tinha como o dia ser melhor? Almoço com vocês e meu pai vindo pra cá! Não é demais? – cortou o silêncio. parou antes mesmo de colocar a tigela na mesa, fechando os olhos pesarosamente, foi quando entortou a cabeça, alternando seu olhar dela a .
- Seu pai o quê?
- Mamãe não contou? – Ambos olharam para . Sua boca se delineava em uma linha fina.
- Sua mãe sabia? – Ele alternou o olhar com . –
- Sim, ela me contou hoje de manhã. – olhou para . sentia a tensão crescendo no ar.
- Que ótimo! – Aquele ar fingido de contentamento fez a mulher abanar a cabeça notavelmente.
- Depois de tanto tempo ele finalmente vai vir nos ver.
- Ver você. – enfatizou.
- Não, mãe, ele disse que queria olhar pra você de novo também. – tombou a cabeça apertando os olhos.

Mais uma vez apertou os lábios, os mordendo em seguida. Tornou o olhar a . Não conseguiu evitar o calafrio que sentiu ao ouvir aquilo, pensou o tempo todo que realmente a tivesse esquecido completamente, mas não era do tipo de criança que mentia e era aí que estava o problema. Embora soubesse que naquele momento, estava nitidamente incomodado, seu coração não soube se controlar quando disse aquilo.

- , eu acho que...
- Seu pai fala sobre sua mãe? – interrompeu-a.
- Sim, não pra mim. – tomou um gole de seu suco. – Na verdade, eu o ouço falando no telefone quando eu vou à casa dele. Não é sempre, mas...
- Acho que já chega desse assunto, é um dia especial... Não vamos falar sobre as conversas particulares do seu pai. Isso realmente não é importante. – interrompeu com um pigarro.
- Você disse que meu pai era importante.
- Não foi isso que eu disse.
- Disse sim, aquele dia...
- !
- Mãe!
- Já chega.

Um silêncio continuo se instalou por mais alguns minutos até que terminasse de comer, e desse jeito eles continuaram.
Nenhuma palavra foi trocada durante, ou olhares. Aquilo assustava potencialmente porque não sabia o que poderia estar pensando. Suspirou fundo, irritada, pensando em mil e uma desculpas que pudessem tirá-la daquela “ele é importante e não faz muito tempo que disse aquilo”, porque não fora no sentido romantizado que escancarou, e por mais que não fosse nada daquilo, era entendível que para era o cúmulo.
Além de ser o ex, melhor amigo e pai da sua filha, tinha total controle sobre seu passado. Sobre seus amigos. De alguma forma sentia que sabia sobre a amizade de com . Não querendo ser clichê, mas, por mais que e dessem certo, era muito melhor amigo do que ele, e isso dificultava as coisas as vezes. Até mesmo sentia-se estranha com aquela situação.
estava tão perto mesmo depois de tanto tempo, e mesmo que fizessem esforços contínuos para aceitar a situação, tudo parecia ser em vão, porque de alguma forma ele parecia algo insuperável para todos eles.

- Posso ir pra piscina? – perguntou baixinho, tirando seu roupão. Já estava de biquíni.
- Espera meia hora antes de entrar.
- Tudo bem, vou brincar com o Garry.

Garry era o labrador de .
Com as duas mãos a mulher se apoiou no balcão, jogando a cabeça em direção ao chão. Deu três respiradas até voltar a olhar o marido, ainda comendo em silêncio, com sua atenção fixa e totalmente voltada ao prato de comida.

- Foi tudo um mal entendido. – murmurou receosa. Ele havia parado de comer, mas ainda não tinha a encarado.
- Sobre você saber que seu ex-namorado vai vir antes de todo mundo, ou sobre ele ser extremamente importante pra você? – Sorriu sarcástico.
- Olha pra mim.

Ele olhou, e ela desejou nunca ter pedido isso a ele.
O olhar fora tão cortante que sentiu a onda perfurar seu corpo inteiro. Nunca fora de brigar sério com , ele sempre era muito “calmo”, comparado a ela, porém aquele tipo de olhar só recebera uma vez: Naquele momento.
No entanto não demorou muito para que o homem levantasse da mesa, empurrando prato e dando a volta, longe de , caminhando já para a porta.

- Falamos disso depois, preciso voltar pro escritório.
- Não, você não vai agora. – aumentou o tom de voz o fazendo parar de costas. – Nós vamos conversar.
- Ok. Você quer conversar sobre o quê? – Colocou as mãos na cintura visivelmente irritado.
- Não foi tão romantizado quanto pareceu...
- Como assim não foi romantizado, ? Existe alguma forma de isso não ser romantizado ? – fez uma pausa. – Eu achei que tivéssemos ultrapassado essa marca de ex, mas parece que... Alguém está sobrando aqui.
- O quê? – abriu a boca soltando as mãos ao lado do corpo.
- Eu estou dizendo que não é à primeira vez que eu vejo você ficar toda sem ar quando ouve o nome do e finge que não tem nada acontecendo.
- Não seja paranoico, .
- Você queria o quê? Que eu também fingisse?
- Eu não estou fingindo! Não tem nada acontecendo. – Riu irritada.
- Essa, essa parte da nossa vida é um fingimento. – abriu os braços chegando mais perto. – O é um fingimento! Sempre foi! Longe ou perto, onde esse merda esteja, ele vai nos afetar, e sabe por quê? Porque ele ainda mexe com você, !
- Do que você está falando? – A mulher entortou a cabeça perplexa o vendo se afastar um passo; Engoliu seco quando isso aconteceu, dando uma respirada funda. – É a primeira vez que essa discussão está acontecendo, como você pode dizer que ele sempre esteve aqui?
- Como eu posso dizer? – Ele riu sarcástico. – Alguém aqui não é hipócrita.

causava todos os tipos de reações nele, então preferiu ficar ainda afastado dela; não que isso significasse que ele poderia a agredir, jamais. Pior que isso, ele podia beijá-la, e ele estava cansado de ser desarmado por ela só, porque ela era irresistível.

- Três anos de casamento e você só me diz isso agora? – sentiu um nó se formar na garganta; aquilo irritou o homem de tal maneira que ela pode ver o rosto dele avermelhar-se.
- Eu sei o que você está pensando, então nem por um segundo compare a relação que você teve com aquele cara, com a nossa. – Aumentou o tom de voz. – Eu estou cansado.
- Já parou pra pensar que ele afeta mais você do que a mim?
- Você só pode estar brincando. – Tombou a cabeça com gestos negativos.
- Eu só estou dizendo que...
- Se ele não te afeta, por que você continua sendo tão compassiva?
- Porque ele é...
- O pai da sua filha? Essa é a sua justificativa pra toda merda que ele fez. Essas são as palavras que tornam tudo perdoável.
- Eu não disse que justificava.
- É exatamente isso que você faz!
- ... – tombou a cabeça nos ombros o olhando. Notou que ele não falava raivoso, mas magoado. Aquilo fez seu coração congelar, queria por Deus abraçá-lo e dizer que não era nada daquilo, no entanto algo a parava. –- Tenta me entender...
- Eu tenho tentado desde que te conheci. – O homem maneou a cabeça.
- Se você tivesse tido um filho com sua ex, o que você faria?
- Eu estaria com ela.

Ambos ficaram se encarando por pelo menos dez segundos depois daquela frase. não soube explicar o que estava acontecendo dentro dela, era como se todos os seus órgãos estivessem trocando de lugar naquele momento. Houve certa reviravolta no seu estômago.
Aos poucos a pontinha do seu nariz começara a arder gradativamente, juntamente com seus olhos, que esquentavam a cada segundo, eles foram se enchendo. engoliu mais saliva que o normal para voltar a respirar. Só quando fez isso, sentiu o coração doer de leve, como não sentia há muito tempo.

- Então é isso? – ouviu sua voz trêmula, engolindo seco. – Se trataria apenas da criança e não do que você sentisse por ela?
- É muito mais que isso. Se eu fui capaz de transar com ela mesmo não amando, por que não seria capaz de cuidar do meu filho?

sentiu outro soco no estômago, espremendo os lábios por um segundo antes de responder.

- O que você está querendo dizer? – Sorriu triste.
- Eu quis dizer que sou homem o suficiente pra ser honesto comigo, e com quem está ao meu lado, . Eu quis dizer que se fosse comigo, eu não haveria transado apenas por sexo, e sim porque eu gostava, e que por esse motivo haveria um pingo de esperança que me fariam lutar pela minha família.
- Tudo bem... Infelizmente eu não te conheci antes.
- Infelizmente não. Eu tenho que ir.

Em um segundo já havia se virado e jogado sua bolsa nos ombros, observou aquilo esgotada de tanto segurar o choro. Sem falar absolutamente nada, ele saiu da cozinha a deixando sozinha naquele silêncio ensurdecedor, misturado com as palavras ditas e não ditas por eles.
O que mais doía naquele momento nela era ter brigado não por um motivo deles. Mas por .
Quanto tempo ele ainda continuaria tendo efeito na sua vida? Já fazia nove anos! Nove anos que decidiu deixá-lo, que se dedicou a , mesmo que no começo ainda o amasse, e que algo os ligasse, mesmo sabendo de tudo isso, amava com a mesma intensidade que amara . Brigar com ele a deixava quebrada, e ainda pior que isso, brigar daquela maneira tão ofensiva, como nunca havia acontecido antes, a deixava ainda mais quebrada.
sabia que a maior culpada da situação não era , ou , ou qualquer outra pessoa, e sim ela. Por algum motivo besta ela citou para , completamente avulsa das consequências que isso causaria. Por algum motivo seu subconsciente quis saber antes de todos se era verdade que ele voltaria. Mas isso jamais insinuaria que ela não amasse o marido e estivesse interessada em . Era só involuntário e ela queria que entendesse. Sabia que isso era pedir demais, dadas às circunstâncias daquela merda toda, mas mesmo assim, queria muito que aquela droga de briga nunca tivesse acontecido. Preferia muito mais estar trancada no escritório, do que aquilo.

- Mãe? – Ouviu baixinho, virando-se para olhar ao seu lado. estava lá apenas com a cabecinha para dentro da cozinha.
- Oi, filha. – Limpou o ultimo vestígio de lágrima que restava, virando-se totalmente para . –
- Tá tudo bem?

Ela deveria mentir?

- Vai ficar. Não se preocupe com isso. – Sorriu amistosa beijando a testa da filha.
- Eu nunca vi vocês brigando tão...
- , vamos nos acertar, ok? Às vezes casais... Brigam. – Murmurou esperando mesmo que sua frase fosse se realizar.

***


É, ela precisava voltar para o escritório, no entanto, pela primeira vez em três anos trabalhando, resolveu ligar e pedir permissão para trabalhar em casa. não estava nem um pouco a fim de voltar para lá, de atender clientes ou ter que olhar para alguém. Quis ficar na paz de sua casa, sentada na sala de estar, confortável e sem saltos fazendo seu trabalho.

- Onde você está? – Ouviu assim que atendeu o celular.
- Em casa.
- Casa? Está de folga? – perguntou duvidosa.
- Eu pedi pra trabalhar em casa hoje e é sexta. – Murmurou.
- Tá. O que aconteceu? – Ela já havia sacado tudo.
- Você não vai querer saber.
- Estou indo até aí.

Quinze minutos depois ouviu o barulho alto do salto alto da amiga ecoar por seu corredor de madeira. Cronometradamente ela olhou para a porta da sala de jantar assim que parou na mesma: Uma das mãos na cintura, a outra segurando sua bolsa de couro preta e uma cara nada feliz para ela.

- Oi. – sorriu sem mostrar os dentes, voltando a olhar para o notebook.
- me ligou. – sentou-se ao lado da amiga, pousando sua bolsa sobre a mesa. – Ele estava preocupado.
- Virou conselheira amorosa agora? – Arqueou a sobrancelha ainda sem olhar .
- Eu vou virar assassina se você continuar com essas respostas ridículas.

Contra vontade, olhou para , fechando o notebook lentamente como se fosse a mãe, e ela adolescente de quinze anos. Sinceramente, estava sentindo-se mesmo daquele jeito, como se seu passado estivesse voltando, e só de pensar nisso queria gritar.

- , eu só quero ficar...
- Sozinha? – Cortou-a. – Você sabe que eu não deixo você sozinha nem que você queira.
- É, eu sei. – Desviou o olhar. Sua mente ainda doía um pouco pela briga.
- O que aconteceu, ?

Demorou alguns segundos para que a mulher tivesse alguma reação. Primeiro veio um suspiro, e depois ela apoiou um dos cotovelos na mesa, apoiando a cabeça na mão.

- Nós brigamos.
- Disso eu sabia.
- É isso.
- Não, ele nunca ligou pra mim. – sorriu sarcástica. – Me conta.

Outro suspiro.

- Basicamente a comentou que viria... E depois veio uma sucessão de “Você disse que ele era importante pra você”, com um plus de “Eu estaria com a minha ex se ela tivesse engravidado”...
- Você disse que o era o quê?
- Você só ouviu até aí? – perguntou perplexa e cansada.
- , você disse isso?
- É, , eu DISSE! – Afirmou irritada, afundando a cabeça nas duas mãos. –
- Por que você disse isso!?
- EU NÃO SEI! EU SÓ DISSE!
- Ele está...
- Com razão? É eu sei disso também!
- Então o que você está esperando pra ligar pra ele?
- , você não me ouviu? – sentiu os olhos arderem novamente. – Ele não só disse que eu era ridícula, como também insinuou que transou comigo porque era divertido e não porque me amava, porque se me amasse estaria comigo.

viu a amiga abrir e fechar a boca várias vezes; após tentativas falhas de dizer algo, mordeu os lábios, dando aquele suspiro clichê de quem não consegue dizer nada porque no fundo, concordava com o marido de .
Mesmo que isso fosse à coisa mais desprezível de se pensar. Mesmo que tivesse sido seu melhor amigo desde que ela se considerava gente, e que soubesse que no fundo ele tinha que ter, uma parte dele precisava ser boa... concordava porque ouvira os comentários vindos da própria boca dele, mas isso era algo que jamais falaria para .

- Ele estava com raiva, . – Sua voz se tornara suave. – E não é pra menos.
- Eu sei, mas isso não justifica.
- É engraçado você achar mil e um motivos pra justificar todas as merdas que o fez, e não conseguir considerar que o seu marido, que sempre fez tudo por você, e que está totalmente na razão, estava com raiva porque também tem razão de não gostar do .
- Mas que merda, eu não justifico nada que o faz!
- . – entortou a cabeça irritada fazendo a mesma rolar os olhos.
- Qual é a sua com o ? – Fora a vez de ela arregalar os olhos.
- Do que você está falando?
- De defender ele... Sempre!
- Porque ele é coerente e sempre tem razão!
- Ah... – fez gestos negativos várias vezes se levantando da cadeira onde estava; foi obrigada a seguir a amiga. – Ele nem sempre está certo, .
- Bom, isso não vem ao caso. Eu só acho que você devia conversar com ele e ser justa já que você sabe que todo esse transtorno foi causado por você!
- Por mim?!
- , é aniversário da . – segurou a amiga pelos braços cansada. – Você quer mesmo continuar com isso?
- Tia ! – Elas foram cortadas por ; sorriu de leve ao ver as duas animadas se abraçando. Realmente, seria necessário que ela tivesse aquele “momento”, justo no aniversário dela? Não queria que guardasse aquele tipo de lembrança.
- E ai, mocinha, como se sente?
- Com doze anos! Onde está o Ethan? – Perguntou animada.
- Tio vai providenciar que ele venha, mas enquanto isso...
- Entra na piscina comigo? Minha mãe não quis. – Falou triste. e trocaram olhares antes de resposta. Por um segundo a mulher se sentiu mal.
- Claro. Vou trocar de roupa. – Respondeu. – Vou pegar um biquíni seu, liga pro vir pra cá?
- Claro.

Assim que saiu, como se fosse de caso pensado, o celular de começara a tocar novamente. Com passos lentos ela se direcionou até a mesa, ao lado do celular, vendo a tela brilhar com uma foto sua e de se abraçando, ela sorrindo e ele a beijando no rosto; A palavra “amor”, para descrever o contato dele fez seu coração amolecer ainda mais.
Após quatro toques apenas observando o mesmo tocar, atendeu, sentando-se na cadeira assim que o fez.

- ?
- Oi... – Sua voz foi quase inaudível. Do outro lado, estava sentado na cadeira do seu escritório de olhos fechados, tentando achar as palavras certas.
- Olha, eu só queria dizer que eu... Peguei pesado.
- Eu não queria brigar, . – Respondeu sem alterar o som baixo. percebeu que ela tinha chorado.
- Não deveria ter escondido de mim.
- Eu achei que não fosse necessário saber. – Suspirou.
- , mentira incita que algo errado está acontecendo e...
- Me desculpa. – soltou como um cuspe. – Eu achei que seria melhor assim. – Hesitou.
- Tudo bem. – Ela sorriu triste e por um segundo ele conseguiu visualizar isso, fazendo uma cara horrível. – Infelizmente você não me conheceu antes, não é?
- Eu não queria ter dito dessa maneira.
- Pelo menos você foi honesta.
- Eu sempre fui.
- , eu só acho que isso sobre o ...
- , você é meu marido! Esquece o .
- Eu não quero mais brigar. – Disse calmo. – Vamos tomar um vinho hoje e conversar. Se quiser falar sobre isso, vamos falar. Mas, você sabe, somos eu e você hoje, pra quê desperdiçar nosso tempo?
- Você sabe que essa foi a pior briga que tivemos em três anos e...
- E você não achou estranha toda essa calmaria?
- Você achou? – Ela entortou a cabeça.
- Eu acho que é bom pra apimentar... – Ela sorriu e sentiu-a sorrir junto.
- Tudo bem. – Soltou o ar, e consequentemente, seu coração relaxou junto. – Você é péssimo em tentar fazer piada depois de uma briga.
- É, mas deu certo, não deu?
- É... – Ele a ouviu murmurar.
- Eu vou precisar ficar até mais tarde na faculdade então... Nos vemos mais tarde.
- Amor... o parou antes que desligasse. Ouvi-la dizer aquilo tão baixo, como um segredo, como quando tinham um relacionamento escondido na faculdade, o fez sorrir de leve. – Você sabe que eu te amo, não sabe?
- Eu sei, . – Um pequeno sorriso surgiu no canto dos lábios dela. – Até mais tarde.

Ele desligou a chamada antes, deixando lá, mesmo de longe, sem reação sobre ele. Era típico de . Era completamente manipulada a forma como ele conseguia a moldar apenas com seu tom de voz calmo, com seu jeito que, com palavras ela não conseguia descrever qual era, mas causava sempre o mesmo efeito.
Após ligar para , sua mente se voltou totalmente para eles na sua casa.
Enquanto e brincavam como crianças na piscina com , matava a saudade do pequeno Ethan, sentada com ele na espreguiçadeira apenas olhando a baderna.
De fato, naquele momento, sentiu falta da época que era um bebezinho. Dava trabalho, mas fora a melhor época. Sua garotinha com três anos, tomando banho na mesma banheira que , dormindo com ele; Era indiscutível que, na realidade, havia a acolhido como sua. Com a mesma preocupação de pai e até mesmo com um mesmo amor.

- Vão ter garotos nessa festa? – perguntou protetor fazendo rir de leve.
- , ela tem doze anos.
- Eu não confio em ninguém do sexo masculino.
- Ah, bom saber! – deu um tapa nele o fazendo se esquivar.
- Eu sou confiável, amor. – Sorriu, gargalhou ao ver devolver nada mais nada menos que um dedo do meio pra ele. Ambos pareciam duas crianças.
- Ela já recebeu milhões de recomendações do , sem falar que o número dele está na discagem rápida. – disse divertida. – Ela está bem cuidada.
- Viu? – murmurou chegando mais perto da amiga. Nesse momento se afastou para pegar Ethan que tinha caído de cansaço. – Você ganhou na loteria.
- É. Ele é incrível... – Falou baixinho.
- Ok. Tchau! , qualquer coisa eu apareço com uma espingarda! – gritou nas escadas.
- Ele nem tem uma espingarda. – resmungou rolando os olhos já se despedindo da amiga.
- Eu posso arrumar.
- Cala a boca.
- Até mais, e se cuidem!

fechou a porta ainda sorrindo já caminhando para a cozinha. Até pensou em ir ajudar a filha a se arrumar, escolher alguma roupa e aconselhar sobre qualquer coisa que ela precisasse, mas pra ser sincera, estava naquela fase que uma garota está descobrindo e tinha pra ela que se precisasse conversar, seria na hora dela. Não queria pressioná-la. Por esse motivo, apenas abriu um vinho e partiu a cozinhar algo para o jantar. Sabia que a noite seria longa, talvez de uma maneira boa ou ruim, na real verdade, não sabia o que esperar, estava preparada para tudo.

- Ei, quer que eu te leve? – gritou ao ver o vulto de descer as escadas. – !
- A mãe do Caleb vai me levar! – A garotinha disse se virando e só então percebeu porque ela tinha corrido.

estava maquiada. Tinha passado gloss, feito uma trança singela no cabelo, havia passado uma sombra brilhante. Usava um conjunto de saia e blusinha azul que havia enviado há algumas semanas, uma meia calça preta e por fim, sua botinha ugg preta, sem falar nos brincos de argola.
Foi inevitável não abrir um sorriso ao ver a cena, tanto porque parecia uma mocinha, quanto porque ela não era uma mocinha, mas já pensava nisso. Era como se estivesse dentro daquele filme “de repente 30” e fosse uma pompom. Foi naquele momento que seu coração apertou.
Aquele pensamento todo era coisa de mãe babona, principalmente porque só tinha ela por perto.

- Para de rir, mãe! – A garotinha protestou botando as mãos na cintura. Os olhos dela cintilavam com aquela sombra, deixando ainda mais aparente sua semelhança com : Os olhos.
- Eu não estou rindo. – Tapou a boca se abaixando em frente à filha. – Você está linda! Arrasou. – Sorriu vendo a menina devolver de maneira tímida, abaixando a guarda.
- Você acha? – alisou sua trança até a ponta, ajeitando em seguida, e logo depois lhe deu um beijo na testa sem dizer nada.
- Você acha que está?
- Eu não sei... – Murmurou abraçando a mulher, a abraçou mais forte, beijando novamente sua cabeça.
- O que você quer dizer? – desvencilhou-se do abraço para olhar a filha. – Repete comigo: Eu sou linda e vou arrasar. – abriu um sorriso enorme e divertido.
- Eu sou linda e vou arrasar.
- Isso ai, agora faz o toque. – Ambas fizeram um hi-five.
- Te amo.
- Eu também.


levantou ao ouvir o interfone tocar. Não se deu ao trabalho de perguntar quem, apenas foi abrir a porta já se preparando para o discurso para a mãe do garoto explicando tudo o que podia e não podia, pensando na maneira mais gentil de dizer isso, não que a moça já não soubesse, mas enfim.
Abriu a porta de supetão com um sorriso enorme do tipo de quem vai dizer um “oi” bem exagerado, mas mesmo que houvesse preparada pra falar, da sua boca não saiu um barulho se quer. Na pura verdade, pensou que seu rosto todo tivesse sumido.
viu o sorriso da mulher desaparecer gradativamente, ir se fechando até que não sobrasse mais nenhuma forma ali, a não ser um biquinho e um olhar indecifrável lançado em sua direção. A única coisa que conseguia realmente distinguir naquele momento era que seu coração batia rápido como se estivesse prestes a fazer algo muito errado. Sua respiração não estava normal, e ele sabia que a dela também não.

- PAI! – embora tivesse ouvido o grito da menina, não conseguiu tirar os olhos de até que ela desviasse o mesmo, abrindo espaço para passar. – Você veio!
- É claro que eu vim! Eu disse que viria. – Sorriu abaixando-se a altura dela, conseguiu sentir a felicidade da filha transcender.

entortou a cabeça assim que o abraço foi cortado.

- Por que está toda arrumada?
- Eu disse, pai, minha festa é na casa do Caleb.
- E por que não me avisou? Eu iria pra lá.
- Porque nenhum adulto vai. – Ele finalmente ouviu a voz de . Foi como se por um segundo o coração dele tivesse parado.
- E você acha seguro?
- Eu acho isso totalmente normal, fazíamos isso o tempo todo em Cambridge.
- Cambridge tem menos de oito mil habitantes!
- Ela vai ficar bem.
- Tio está na minha discagem rápida e o tio tem uma espingarda. – se intrometeu sorrindo animada. Não tinha como resistir aquele sorriso.
- Seu tio não tem uma espingarda. – riu humorado junto com .

Tudo bem. Ela não podia ser hipócrita ao dizer que aquele sorriso não era bonito e que ele não havia a feito sentir o corpo todo estremecer ao ouvir. Era mentira. tinha um dos sorrisos mais lindos que já tinha visto, depois do de e . Talvez fosse pelo fato de que ela era apaixonada pelos três.
Fechou os olhos irritada por colocar naquela equação.

- Ele disse que pode arrumar.
- Na...
- Oi, eu sou a mãe do Caleb... – Uma mulher chegou sem que eles percebessem, no mesmo segundo correu até ela.

Finalmente se levantou ficando ao lado de na porta. Quando a moça notou ser , arregalou os olhos, dando passos em falso para o carro, ela o conhecia? trocou olhares com ele e ela, sorriu de lado. Já era natural causar esse tipo de reação nas garotas no colegial, e agora famoso? Elas provavelmente mal conseguiam respirar perto dele.

- Pai, me espera chegar? Quero dormir na sua casa. – ela gritou antes de entrar no carro. –
- Eu posso vir te buscar...
- Não! Me espera aqui! – implorou juntando as mãos. – Por favor, mãe! – olhou para hesitante. –
- ...
- Faz aquela mágica com o tio , fala aquilo que você fala no ouvido dele, e ele vai deixar! Por favor! Tchau, eu já volto, pai! Amo vocês!

Em cinco segundos entrou no carro e o mesmo saiu, deixando os dois ali totalmente sozinhos, ouvindo as próprias respirações.
Era perceptível a sensação tensa entre eles. Tanto os músculos de quanto os dele estavam duros o que tornava tudo muito esquisito. e já tinham se beijado inúmeras vezes antes de firmarem um relacionamento, geralmente quando estavam bêbados ou só entediados, mas isso nunca os deixara tensos no dia seguinte. Na verdade era o pacto: A amizade era muito mais importante que qualquer coisa que eles tivessem. E eles levavam a sério, justamente por se conhecerem desde pequenos.
Obviamente era impossível querer que tudo fosse normal depois de nove anos sem se verem, sem terem qualquer tipo de contato direto. não via aquela mulher a sua frente a nove anos! Lembrava-se dela ainda como sua melhor amiga do colegial; com sua saia jeans e meias calça... Aquela que era completamente apaixonado e muito bobo pra não admitir. Aquela que ele morria de ciúme quando ouvia comentários, mas também os fazia pra não transparecer. Aquela que estava se tornando, porque tirando os olhos, era uma mini .

- ? – Ouviu, piscando várias vezes voltando a focar em seu rosto.
- Desculpa, eu só...
- Tudo bem... Quer entrar? – Perguntou receosa. Aquela provavelmente era a pior burrada do século.

O homem apenas passou por ela sorrindo ainda tenso, deixando seu rastro de perfume. O mesmo perfume de antes.

- Am... Seu marido não está em casa? – Perguntou cortando o silêncio, assim que ouviu a porta ser fechada.
- Ele está dando aula até mais tarde hoje... Sextas são sempre... Extensas. – Falou fazendo vários gestos com as mãos dessa vez chegando mais perto. – Bom, fique a vontade... Quer beber alguma coisa? Temos água, chá, vinho, cerveja...
- Ele é professor? – virou-se com um sorriso de canto. Por um segundo a respiração dela parou, aquilo o fez entortar a cabeça. –
- Am... É, ele dá aula em duas faculdades.
- Uau.
- E então?
- Pode ser só um café. – Murmurou.
- Tudo bem. – A mulher deu meia volta do caminho que estava efetuando até a cozinha.

continuou a olhando até que sumisse para dentro da cozinha e só assim parou para observar o lugar. O nó foi se formando gradativamente e involuntariamente dentro dele. O homem perdeu as contas de quantas salivadas deu enquanto passava os olhos por aqueles quadros espalhados pela sala dos ou ele devia dizer ? A conjunção ainda causava desconforto.
Teve a sensação de ter sido substituído em cada foto ali.
Primeiro, uma de , e abraçados. no meio, os dois em volta, ela estava com uma roupa de fada e a boca toda lambuzada. Lembrou-se da mesma feição dando-se conta que provavelmente aquela foto fora tirada no aniversário de cinco anos da filha. Soube disso porque naquele mesmo dia o enviara uma foto dela. Ele deveria estar ali sorrindo com ela, não conseguiu evitar o pensamento.
Outra ao lado daquela tinha apenas e , ele com ela no colo no que parecia estar gargalhando na beira de um lago sendo acompanhado por . Novamente sentiu um aperto no peito.
Em cima da lareira tinham e rindo. sorriu ao ver a foto, conseguiu ouvir a risada delas dentro de sua mente; e estavam com no colo, todos lambuzados de bolo, também rindo.
E por fim, pendurada e ainda maior do que as outras havia a foto do casamento dos dois. parou ali e perdeu a conta de quanto tempo ficou olhando, não ele, mas . Costumava fazer isso sempre quando via uma foto nova dela postada por , ou mostrada por , mas o mais engraçado é que ela estava ali, a poucos metros dele, e tudo que ele sentia era vergonha dela, de ter que olhá-la sabendo de tudo o que tinham passado. Diferente de quando via uma foto sua, entendeu que era mais fácil vê-la por fotos do que pessoalmente, e que talvez por esse motivo tivesse há ignorado o tempo todo pra não ter que lidar.
Ver ela naquele vestido branco rendado, coroa de flores na cabeça, os cabelos esvoaçando e um sorriso maravilhoso no rosto o fez cair em pedaços, e não porque ela estava feliz, mas porque ao lado dela estava . Segurando sua cintura com firmeza e sorrindo junto a ela com o nariz encostado em sua bochecha. Com uma das mãos ela segurava a nuca dele e com a outra, o buque de rosas. Provavelmente ela olhava para naquele momento.
O peso fora tão grande que quis sair dali no mesmo momento, tendo em compensação o quanto fora frustrante ver tudo aquilo, saber que estava tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe dele; e o teria feito se ela não estivesse logo atrás dele quando se virou para fazer isso.

- Seu café. – Ela sorriu sem graça lhe estendendo a xícara.
- Parece que foi bonito... – Comentou desviando os olhos dela para a foto. sorriu de lado fazendo o mesmo.
- É. Foi lindo e... Inesperado.
- Inesperado?
- É. Era só pra ser uma viagem pra praia, mas quando eu cheguei lá, casei na beira do mar, e você pode perceber que estou quase estourando o vestido por ter comido demais e porque a comprou um mês antes e eu tinha engordado, sei lá uns...
- Você estava maravilhosa, . – a cortou vendo-a abaixar a cabeça, sacando que precisava mudar de assunto. – Então... – Pigarreou. – Estamos velhos, huh? saindo pra festa sozinha? Eu acho que vou pagar um asilo!
- Só se for você! – Eles gargalharam juntos. – Eu estou novinha e em forma. Meus treinos de tênis estão em dia. – brincou o fazendo arquear a sobrancelha.
- Tênis? Você odeia tênis.
- É, mas digamos que aprendi a gostar. – Falou sorrindo. Aos poucos eles sentiam a tensão escorrer dentre eles. – fazia e me levou e, foi um ótimo professor.
- Eu tentei te ensinar! – protestou rindo. – Você era horrível!
- Não, , você ria de mim enquanto eu caia e escorregava naquilo que você chamava de campo. – Rebateu o fazendo rir ainda mais ao lembrar-se de como ela realmente era um desastre.
- Eu adorava te ver irritada e você nem desconfiava. E aquele campo era o melhor de Cambridge na época.
- Se ele era o melhor, ainda bem que não chegamos ao pior.

Falou ainda dentre o riso.

A conversa se estendeu por mais algum tempo. se dirigiu para a cozinha, sentando-se na mesa enquanto ele e mantinham uma conversa animada, como se nada nunca tivesse acontecido; apenas colocando o papo de quinze anos em dia. Quinze anos. Nenhuma palavra fora trocada sobre o que aconteceu entre os dois. Nada sobre a ultima vez que se falaram, ou porque havia a ignorado.
Enquanto ela cozinhava e tomava vinho, ele só a observava. Tentava capturar cada parte desconhecida sobre eles nesses anos todos, tentava se acostumar com a nova mulher, e reconhecer sua ex melhor amiga. estava perdido na coisa mais deslumbrante que ela tinha se tornado: Mulher. Estava deslumbrado.

- , como você conseguiu? – Falou rápido, sua respiração de repente ficou ofegante como se a resposta fosse salvá-lo.
- Consegui o quê? – Levantou os olhos pare ele sorrindo de canto.
pediu a Deus que sua mente tivesse guardado muito bem aquela imagem, porque fora a mais bonita que já tinha visto dela em todos os anos que a conhecia, ou seja, sua vida toda.
- Seguir em frente.

Por dez segundos ele ficou a olhando morder os lábios enquanto o único barulho que se ouvia era o da panela borbulhando e do ultimo pepino que ela cortava. Ela não responderia.

- Me diz o que você fez pra mudar tanto assim. – Retomou a fala, vendo o corpo dela subir e descer: Inspirar e expirar.
- Alguém tinha que amadurecer, não é? – respondeu finalmente o olhando, séria, completamente séria.
- Eu gostaria muito que tivesse sido eu.
- É. Só que não foi.
- Eu sinto...

parou de falar assim que ouviu a porta da frente bater. Fechou os olhos já sabendo de quem se tratava, olhando para o relógio em seguida: 22h45min.
Sentiu uma coisa horrível travar em sua garganta. Não era possível que outra vez aquilo estava se repetindo. Que ele não conseguiria nunca terminar o que tinha pra dizer pra ela; que mais quinze anos iriam se passar e ela continuaria o olhando daquele jeito.
não se importava se ficaria com ela ou não, ou melhor, sabia que isso estava descartado; Mas queria sua melhor amiga de volta, porque, só Deus sabia o alivio que sentiu contando tudo que acontecera na sua vida até aquele momento; obviamente o tempo fora minguado para nove anos e detalhes, mas, fora o suficiente para que ele decidisse que queria recuperá-la que fosse como amiga. e costumavam trazer paz pra ele, e mesmo que ele estivesse horrivelmente envergonhado, teria que lidar com a situação. Não dava mais pra adiar. Ele não tinha mais idade, tempo ou energia pra isso.

- Mãe, cheguei!
- , precisamos conversar. – levantou de súbito, quase correu até o balcão, ficando de frente para ela. A mulher pela primeira vez em nove anos teve contato com aqueles olhos. Não queria ter sentido tanto, quis se bater.
- Muito tarde pra isso, não acha? – Viu-o fechar os olhos, pesaroso.
- Eu nunca tive a chance de explicar o que aconteceu de verdade.
- Você deixou claro o suficiente quando foi embora, . Voltar aqui depois de nove anos e me dizer isso não vai mudar nada.
- Não vai mudar nada na sua vida, , mas pode mudar a minha! – contestou batendo o punho no balcão. –
- Sempre se tratou apenas do que te faz bem, não é?
- Talvez eu fosse o egoísta e idiota, , mas as pessoas mudam, assim como você mudou. Assim como agora você aprendeu a gostar de tênis.
- É totalmente diferente.
- Eu estou te pedindo uma única oportunidade e depois eu prometo que deixo você em paz.
- Não é o que você tem feito? – A mulher entortou a cabeça.
- Fingir que você não existiu esse tempo todo foi a pior coisa que eu fiz até hoje.

Aquela frase causou um eco interno e externo. Na mente dos dois. O mundo pareceu parar por pelo menos cinco segundos e nem gritando pros dois ali, no meio da cozinha, os fez sair daquela redoma gigante em que haviam criado, como se o mundo de sentimentos ruins deles estivesse voltado e eles estivessem ali só tentando se recuperar; Talvez fosse exatamente isso. Imagine uma câmera virando em 360 em volta dos dois e dois olhares tão profundamente conectados por sabe-se lá o que, que causava a causar um tipo de slowmotion que até mesmo estava sentindo.

- PAI!? – finalmente saiu do transe assustado, se voltando para puxando sua mão. – Estou pronta. O que está acontecendo?
- Nada. – interrompeu. O homem percebeu o quanto ele também estava tendo dificuldade em se estabilizar. – Pegou tudo? Sua escova? Pijama...
- Sim. Está tudo pronto. Eu já arrumei.
- Quando?
- Mãe, faz cinco minutos que eu cheguei. – contou como se fosse óbvio. – Eu subi e peguei minhas coisas.

Cinco minutos? Aquilo que pareceu trinta segundos durou cinco minutos?

- Ok. , vai indo pro carro. – pediu. Antes a garotinha pulou na mãe, deu alguns beijos, e finalmente foi, os deixando sozinhos novamente.
- Quarta feira, seis e meia no restaurante ao lado do meu trabalho. – o interrompeu.
- Estarei lá. – Ele sorriu dando as costas para a mulher.
- . – Chamou, ele apenas parou ainda de costas. – Quinze minutos.
- É tudo que eu preciso.

E então ele se foi. ficou na mesma posição até ouvir o carro arrancar e finalmente ficar sozinha em casa. Ficou mesmo depois de horas, por um tempo indeterminado. Sentia que aquela decisão que havia tomado era a pior da sua vida, que tinha retrocedido trinta passos. Que seu chão estava prestes a ceder; e tudo isso em apenas três horas com .
Agora imagina: Quanto mais destruição ele podia causar em mais tempo?

- Amor? – piscou várias vezes rapidamente. Sentiu-se ofegante ao ver a olhando sério. Era medo. Medo que ele descobrisse. –
- Oi... – Murmurou se virando para o homem.
- Tudo bem? – Ele chegou mais perto. hesitou um pouco, fechou os olhos. Aquilo o preocupou a ponto de agarrar as mãos dela.
- Eu estou bem. Só estou cansada.
- , suas mãos estão geladas. – Comentou nervoso. Ela continuava com os olhos fechados.
- O dia não foi bom pra mim hoje.

Ela retorceu a boca tentando espantar toda aquela coisa dentro dela e então o abraçou. O abraçou forte, com todo seu corpo e alma. Sem entender nada ele fez o mesmo, agarrou-a pela cintura fechando os olhos ao sentir o perfume gostoso que os cabelos da mulher exalavam. O corpo dela estava vulnerável e pode sentir isso; sentir que estava se jogando completamente nele, coisa que ela só fazia quando sentia medo.

- O que aconteceu? – Perguntou como um sussurro dentre o abraço.
- Não me deixa sozinha de novo. – respondeu na mesma voz, ainda mais baixo, agarrando ainda mais a nuca do homem. –
- Desculpa... – Murmurou. – Cadê a ?
- levou. – se desvencilhou aos poucos. observou-a morder os lábios. – Levou pro .

E não soube por que sentiu aquela sensação estranha percorrer seu corpo, mas era como se soubesse que aquele só era o começo dos seus problemas.





Capítulo Cinco – Just give me a reason

- Vocês realmente vão aceitar a proposta do ? – perguntou em meio aos corredores da escola municipal de Cambridge.
- É uma boa... – murmurou olhando para os lados. – Acho melhor sairmos daqui. – Olhou para e sua barriga enorme.
- Está tudo bem, eu preciso terminar pelo menos o ensino médio, . – rolou os olhos.
- Qual é o problema? – se intrometeu confusa.
- acha que esse empurra-empurra não é muito bom.

abriu a boca pra dizer algo, olhou diretamente para com aquela vontade de dizer ali mesmo o seu ver sobre a situação de e ele e todo aquele transtorno que mais ainda sua amiga, estava passando; porém antes mesmo de emitir qualquer som, , e chegaram, formando uma roda ao redor deles.

- E aí, vocês topam? – perguntou animado.
- O que pode mudar em doze anos? – Fora a vez de se manifestar; mesmo assim, , e permaneceram calados, apenas maleando a cabeça.
- Vamos lá, galera, só teremos uma desculpa para as nossas mulheres, ou maridos... De sairmos sozinhos para beber. – riu, aquela risada gostosa típica dele. –
- Bom, ao menos uma desculpa para nós, já que e já estão praticamente casados e fazem parte da turma.

e deram um meio sorriso, embora aquela frase os tivesse assustado mais do que qualquer outra coisa naquele momento, mais do que até o futuro parto de .
O que se esperar de um casal de adolescentes de dezessete anos, pais, e quase casados? Casados! Esse não era o plano de , por mais que amasse , e bom, ela? Esse também não era o plano de , mas por mais que aquilo a tivesse deixado ridiculamente assustada, lá no fundo ela ainda acreditava em algo bom, porque era assim, conseguia ver a luz até no fim do poço.
- É, o que pode mudar em doze anos? – A garota falou apertando os lábios.


E lá estava ela, parada em frente à porta do restaurante em frente ao seu trabalho, ás seis e vinte oito, numa quarta feira, olhando para o seu próprio reflexo no vidro.
nunca teve noção do quando aparentava estar apavorada, quando estava. Só percebeu que realmente não conseguia disfarçar qualquer reação, olhando para a sua feição naquele vidro.
Com duas respiradas longas a mulher empurrou a porta, entrando de cabeça baixa até a mesa que tinha reservado. Mesmo que seu corpo todo estivesse quase criando voz para pedir que ela desse meia volta, e ela queria realmente fazer isso, antes de tudo, não descumpria uma promessa, e por saber que sempre fizera isso com ela, não quis fazer o mesmo com ele; queria mostrar que era diferente dele.
O viu de longe já sentado com um copo de algo que não conseguiu distinguir, porém também não perguntou. Apenas sentou-se o assustando assim que o fez. Seus olhos grandes travaram nela de um jeito que não soube explicar, mas só por eles serem maravilhosamente iguais aos de , deixaram-na menos desconfortável.

- Quinze minutos. – Disse rápida, debruçando seus braços sobre a mesa. porém não disse nada, apenas continuou a olhando da mesma forma. – Vamos, , eu não tenho muito tempo.
- Você não tem noção do quanto eu estou feliz que você tenha vindo. – Murmurou com um sorriso desacreditado. – Achei que você não vinha.
- Eu também. Mas eu te disse que eram quinze minutos, então comece a falar.
- Eu não sei por onde começar... – O homem abaixou a cabeça. – Primeiro: Me desculpa.
- Pelo quê? – Ela sorriu triste. – Porque sinceramente, não é pra mim que você precisa se desculpar.
- Eu não quis deixar vocês, . – ele mordeu os lábios. observou os punhos dele se fecharem até que seus dedos ficassem amarelos.
- Pois foi exatamente o que você disse no dia em que foi embora.
- É mais complicado do que isso, eu queria realmente te contar... Eu...
- Contar o quê? Que não me amava mais? – sentiu os olhos arderem. – Se você não estava feliz com a ideia de estar casado aos dezoito, você podia ter me dito, mas não deixado sua filha como você deixou!
- Eu estava feliz, não foi por isso que eu fui embora!
- Você disse que mudou, então deixe de ser o mentiroso de sempre e para de ser hipócrita uma vez na vida, . Eu vou saber lidar com isso.
- Eu estou dizendo a verdade. – O homem procurou os olhos dela. – , eu preciso que você acredite em mim.
- Eu queria, , eu queria tanto. – A mulher deu um meio sorriso que quebrou ao meio. – Mas não posso fazer nada sobre isso.
- Na verdade você pode.
- Não, eu não posso. – continuou com o mesmo sorriso, desta vez olhando diretamente para os olhos dele. – Eu também não sabia o que eu tinha, , mas eu pensei que estávamos juntos nessa, e essa era a diferença entre nós.

tornou a olhar para o nada assim que ouviu a frase. Não conseguiu rebater, ou olhar para ela. Tinha vergonha, tinha vergonha do que tinha passado, e de todo o transtorno que tinha causado. havia pedido que lhe desse uma chance porque queria o mínimo de compaixão, porém naquele momento percebeu que o mínimo era ela estar ali, porque ele sabia que ninguém, a não ser ela, estaria ali depois de tanto tempo.

- Até hoje eu me pergunto como você conseguiu me convidar para o seu casamento. – sorriu, franziu a testa notando os olhos dele cheios de água. Em toda sua vida, uma fora a vez que o viu chorar, e foi porque tinha perdido o avô. Seu peito apertou tanto que achou que fosse sair por alguma extremidade do seu corpo.
- Eu prometi que faria isso.
- Eu deveria de ter ido. – riu mais um pouco passando as mãos nos cabelos. A mulher mordeu os lábios se apoiando no cotovelo.
- Eu ouvi em algum lugar que, quando você diz que deveria demais, acaba devendo para si mesmo.
- Por que você ainda espera algo de mim, ?
- Porque se não esperasse não estaria aqui.
- Essa é uma pergunta que o me faria. – Ela sorriu. permitiu-se olhar para o sorriso que abriu ao falar do marido. Era sincero, apaixonado. Foi um soco no seu estômago. – Mas se você quer realmente saber... Porque eu não me conformo em ter perdido meu melhor amigo.
- Ele teve sorte de encontrar você. – Sorriu ainda mais triste que antes, passando a língua nos lábios. –
- Eu tive sorte de encontrar ele.
- ?

fechou os olhos pesarosamente engolindo em seco. Ela não queria abrir os olhos, sabia exatamente o olhar que encontraria.

- ? – cortou o silêncio. Só então olhou para a amiga, seu coração pareceu congelar.
- Olha...
- Não. Eu só... – fez alguns gestos com a mão; gaguejou tanto que e fizeram exatamente a mesma expressão de desentendimento. Só depois de uma suspirada enorme, a garota voltou o olhar a eles. – Eu pensei que você tivesse ficado mexida com a carta de nove anos da escola de Cambridge, mas eu estou vendo que...
- Não é nada disso que você está pensando.
- Na verdade essa é exatamente a resposta que toda pessoa que está fazendo algo ridiculamente errado dá. – abriu a boca várias vezes; não estava errada, mas ela não teve tempo de dizer isso a ela já que ela cortou o raciocínio de . – Quer saber? Você faz o que quiser da sua vida.

No mesmo segundo que saiu, e em disparada fez o mesmo, se levantando num súbito só, da mesma forma sentiu segurar seu pulso; Travou olhares com ele por pelo menos três segundos antes de sentir a mão dele escorregar por entre seus dedos e então soltá-la. O homem franziu os lábios como se dissesse por meio daquela atitude que não iria mais incomodá-la, e por Deus, ele já tinha causado demais. Já tinha tirado seu sono, sugado seus pensamentos, e até mesmo feito seu marido desconfiar. Assim que pensou em seu coração parou como se ele soubesse.
não conseguia nem imaginar o que aconteceria se descobrisse sobre aquilo.

- Ei, ! – Correu mais alguns passos até alcançar a amiga, após, praticamente, chutar a porta do estabelecimento pra sair. – , por favor.
- Se você está preocupada sobre eu comentar algo. Não fique. – A mulher virou de súbito fazendo por um segundo se assustar, ainda recuperando o fôlego.
- Eu sei que você não vai dizer nada, eu só queria te explicar a situação.
- ... – ela riu estranhamente, aquilo causou um calafrio em . – Se você quer explicar alguma coisa, explica pro seu marido que por sinal está nesse momento pegando sua filha no balé, coisa que o pai dela deveria estar fazendo ao invés de estar aqui inventando mil e uma desculpas pra fazer você voltar.
- Olha, , não disse nada e eu não vou voltar pra ninguém! – E ela riu de novo. mordeu os lábios, nervosa. – Se minha melhor amiga não acredita nisso, eu realmente estou perdida... – Passou as mãos nos cabelos. –
- Ele pode não ter feito nada agora, mas assim como eu, você também conhece o e quando eu digo isso, você sabe exatamente o que eu quero dizer.
- , me escuta...
- eu tenho que ir. – a cortou; os lábios dela se tornaram finos em segundos enquanto olhava a expressão indecifrável de . – Não acho que devamos dar todo esse ibope pra ele. Se eu fosse você, esquecia esse momento agora, e ia pra casa nesse exato momento.

ficou pelo menos mais um minuto parada no meio da calçada. Sabia que seu coração podia pesar toneladas quando tomava a decisão errada, e era por esse motivo que sempre pensou muito bem no que fazer após o transtorno na sua vida adolescente. Costumava sentir aquela sensação o tempo todo, e agora estava lá. Sentia-se ainda pior por cogitar de primeira que quem trazia aquela sensação pra vida dela era . Como podia? Como podia ter amado tanto uma pessoa e no outro dia ela ser sua pior sensação? incomodava como uma pedra no sapato que você não consegue ignorar.
Ele era todo o contraproducente da situação: Tudo de ruim que ela sentia que também não conseguia ignorar, e que a fazia se sentir mal.
Após aquele um minuto, sem ao menos se despedir, caminhou para o seu carro e rapidamente arrancou dali. só observou-a de longe por aquele um minuto. Como se ela fosse uma pintura intocável, a mesma reação de sempre, como se só estivesse lá parada para realmente ser observada.
Percebeu nos olhos dela que uma guerra estava acontecendo e que metade da culpa era dele. não sabia até que ponto aquilo era bom, porque pensar que ela tinha o mínimo dele nos pensamentos o confortava; acontece que ele queria fazer partes dos bons, no entanto muito provavelmente não eram nesses que ele aparecia, principalmente pela feição estarrecida da mulher lá parada, e pela arrancada sem ao menos olhar para trás que a mesma deu.
Antes mesmo de entrar, já conseguiu ouvir uma risada de e aquilo fez sua cabeça doer momentaneamente. Que merda ela tinha na cabeça pra ter ido até aquele lugar encontrar com enquanto seu marido estava realmente, fazendo o que deveria estar fazendo?
A mulher deu um suspiro longo e decepcionado consigo mesma e só então abriu a porta de súbito, abrindo um enorme sorriso como se o tempo todo estivesse realmente com a sua melhor amiga.

- Oi, mãe! – olhou para com o mesmo sorriso, porém nitidamente mais sincero; aquilo chamou a atenção de para ela. Ele também sorria, mas este diminuiu um tanto quando ele a olhou.
- E aí! Como foi o balé? – Perguntou aleatoriamente deixando a bolsa em cima do sofá.
- Tio dançou comigo! – Ela gargalhou, e consequentemente e também, só então o homem se levantou de maneira lenta enquanto olhava para . –

Metade de sua camisa estava aberta, o suficiente para que conseguisse ver um pouco de seu peitoral, a camisa social estava amassada, a gravata jogada no sofá, seus cabelos desgrenhados, e ah, aquele perfume que parecia ser seu cheiro natural...

- Onde você estava, meu amor? – perguntou abrindo os braços; instintivamente a mulher foi em direção a ele, o abraçando pela cintura.
- Eu disse que estava com a ...
- Não, você não me disse. – protestou retribuindo o abraço dela tentando olhar para o rosto de que por sinal, continuava agarrada nele, porém sem olhá-lo.
- Eu jurava que tinha.
- Eu te liguei umas cinco vezes, .
- Ok. Eu já cheguei. – Por fim sorriu levantando a cabeça para olhar nos olhos dele. Foi o momento lento que ele fechou os mesmos na intenção de roçar seus narizes antes do beijo, que ouviram um resmungo de .
- Você estava com meu pai? – No mesmo segundo o coração dela parou, assim como sua respiração.
- Oi? Claro que não. – disse rápida.
- É que ele acabou de me mandar uma mensagem dizendo que chegou em casa, eu achei que...
- Por que eu estaria com seu pai?
- Eu não sei. Eu só achei. – deu de ombros se jogando no sofá.

sentiu lentamente o marido afrouxar o abraço e largá-la da mesma forma. Não queria olhar para ele, e sinceramente? Aquilo a matava. Queria poder dizer que sua intenção só era ouvir e nada mais, mas como explicar a situação se assim que o olhou nos olhos, sentiu todo seu ar sumir, junto com sua moral e sua vergonha na cara? estava com a boca travada num biquinho; uma de suas mãos apoiada na cintura, com a outra ele coçava o pescoço.

- O quê? Vai dizer que você acha que eu estava com o mesmo? – riu sem humor, um tanto irritada ou talvez amedrontada, cruzando os braços.
- Você estava?
- Pelo amor de Deus, , eu já disse que estava com a ! – Aumentou o tom. – Quer ligar pra ela pra confirmar? – Estendeu o celular e o viu dar uma respirada longa e irritada.
- Eu já fiz isso. Fiz trinta minutos antes de você chegar aqui e eu achei muito engraçado ela não mencionar que você estava com ela, e melhor, você não mencionar que eu fiz essa ligação.
- Já passou pela sua cabeça que eu podia estar no banheiro quando você ligou? – Não queria que sua voz tivesse vacilado tanto, na verdade, o coração de estava a mil.
- E ela nem se quer mencionou que eu liguei?
- Ela deve ter esquecido! E por que você ligou pra ela? – entortou a cabeça.
- Não mude de assunto, . – O homem apertou as mãos na cintura, irritado. –
- Eu não estou! – Bufou da mesma forma que ele. – Eu só estou irritada! Irritada porque a partir de agora, mais do que nunca, o vai ser motivo pra sua desconfiança e, meu Deus! Se for pra ser assim...
- Se for pra ser assim? – entortou a cabeça como se a encorajasse a terminar a frase.
- Vocês estão brigando? – Ambos foram cortados por encolhidinha no sofá.
- Não. – engoliu em seco. por si só, apenas desviou os olhos para o nada, seus olhos esquentaram de leve. – Eu vou subir.

Antes de subir a olhou sério, pegou a sua gravata do sofá e subiu, só então soltou o ar que estava prendendo o tempo todo, se apoiando na parede logo depois. Tirou os saltos lentamente, com aquela raiva súbita de tudo.
Que merda tinha na cabeça. Sua cabeça girava simplesmente de raiva dela mesma.
Diante do fato, quando foi até a cozinha percebeu que já tinha esquentado algo para que comesse e para ele mesmo, já que haviam dois pratos. Deu outro suspiro cansado; Ficou pelo menos por meia hora encostada na parede, de olhos fechados, sentindo toda aquela coisa invisível comprimi-la. Não podia deixar isso acontecer, muito embora tivesse apertado o gatilho.
Foram pelo menos três horas dentro daquela casa, pela primeira vez, sem ouvir um barulho do marido do lado de cima. Não que não usasse o escritório privado de casa, mas geralmente ele sempre saia de meia em meia hora para lhe dar um beijo ou perguntar sua opinião sobre algum assunto. Naquele dia em si, porém, fora como se o mesmo não estivesse em casa e por Deus, passara mais de trinta vezes diante daquela porta parando por segundos por lá na esperança de arrumar coragem suficiente para vê-lo.
Foi quando fora dar o beijo costumeiro de boa noite que finalmente a porta abriu; ela ouviu, não viu. Não esperava mais nada naquela noite. Já tinha tomado seu banho e estava prestes a deitar, já penteando o cabelo. Demorou mais do que o normal fazendo aquilo porque, afinal, em três anos, mesmo que fosse a coisa mais romântica que alguém pudesse ouvir, e somando com os dias de hoje, ela e nunca iam deitar um sem o outro, ao menos não quando estavam juntos em casa, era um tipo de ritual, deitar, conversar e dormir, e estava relutando ao máximo para quebrar isso.
Parou um segundo de pentear os cabelos quando ouviu sons do lado de fora do quarto; alguns resmungos, um riso, portas abrirem e se fecharem. Alguns passos. Voltou a pentear o cabelo, embora já estivessem mais do que desembaraçados.
Aos poucos aqueles passos que ouvira foram tomando intensidade, a porta do quarto abriu, recostou, o som se aproximou e por fim houve um silêncio embora ela soubesse que ele estava, o que ela diria, talvez a quatro passos dela. Não se deu ao trabalho de olhar para de primeira, continuou com seu ritual, não queria brigar, apenas a presença dele ali e não encurralado a fazia sentir-se melhor.

- Eu não quero dormir brigado com você. – Ouviu, foi quase como um sussurro. A mulher fechou os olhos pesarosamente ao ouvir aquilo. Tanto que quis chorar e sorrir ao mesmo tempo.
- Eu não te dei essa escolha... – Respondeu alguns segundos depois, virando-se para ele. Recostou no criado onde penteava o cabelo deixando a escova de lado comprimindo os lábios.

Tantos seus olhos quantos os dele estavam pequenininhos, como se estivessem adiando o sono para não terem que dormir antes de se resolverem, e de fato, esse era o intuito.

- Mas ia dormir sem mim do mesmo jeito. – se aproximou um passo, desabotoando alguns botões da camisa que vestia.
- Não, eu só... Talvez. – Ela sorriu. A ação proporcionou que ele visse os olhos dela se fecharem ainda mais, com piscadelas pesadas ela voltou a olhá-lo. Ele simplesmente se derretia ao ver aquilo.
- , olha eu sei que desde que ele voltou eu tenho estado mais... Paranoico. – ela o acompanhou sorrir sem humor algum. – E olha que, eu sou adepto daquela frase do “confio no meu taco”, mas esse não é o ponto aqui. Eu até poderia perdoar sua vontade enorme de conversar com o , o seu melhor amigo depois de todo esse tempo, mas eu não perdoaria que você mentisse pra mim. Você sabe que eu odeio mentiras.

Aproximou-se mais dois passos, o suficiente para conseguir tocá-la, embora não tivesse o feito. Ambos trocaram olhares singelos, olho no olho, por vários segundos. engoliu seco sentindo aquelas palavras borbulharem em sua garganta; aquelas que ela com toda certeza deveria estar dizendo “ então, eu saí com ele pra conversar”. As mesmas que mesmo sabendo que deveria dizer, não disse.

- Eu admito que gostaria de dizer algumas coisas pra ele, mas isso não muda nada, e é isso que eu quero que você entenda.
- Esse cara mexe com você com você, . – murmurou passando as mãos nos cabelos um tanto irritado. –
- Ah, meu Deus. – bufou tapando o rosto com as mãos por cinco segundos e só depois voltou a olhá-lo. – Tá vendo isso aqui? – Levantou sua mão esquerda, deixando com que a aliança cintilasse pela luz do abajur. – Eu sou casada. Casada com você. Nada que ele faça poderá mudar isso!
- Eu queria muito dizer que acredito nisso com toda sinceridade, mas eu não vou mentir pra você.
- Amor...
- Eu estou quase certo que naquele dia, quando eu te encontrei na cozinha e a “” tinha levado a pro – O homem fez aspas com os dedos. – Não foi bem a que a levou, ou você não teria ficado daquele jeito.
- Certo. Foi ele. Ele veio pessoalmente buscá-la. – Aumentou o tom, engolindo em seco depois. – E vê-lo depois de um tempo me fez sentir horrível, porque ele é uma bomba que pode explodir a qualquer momento e adivinha, ele está fazendo isso agora, e, por Deus, podemos esquecer ele por um minuto e focar em nós?
- Não é isso que estamos fazendo agora? – Entortou cabeça.
- Não, , tudo se baseou nele desde que ele chegou, e não porque eu quero, mas porque, como você disse, nós tentamos evitá-lo como se ele fosse um fantasma, e a presença dele nos assusta, mas, meu amor, ele não é um fantasma! – procurou os olhos do homem que ainda continuava inerte a ouvindo. – Ele é real! Ele sempre esteve aqui. Nós criamos algo maior, algo que não conseguimos lidar e isso precisa parar, porque agora precisamos lidar com ele querendo ou não.
- Eu não quero lidar com ele. – murmurou irritado passando as mãos nos cabelos.
- Mas nós dois temos que fazer isso.
- Ou?
- Não existe um “ou”, amor, nós temos e eu não quero pensar nisso pensando no que pode dar errado. – abanou as mãos freneticamente, fechando os olhos em seguida.
- É, mas como você disse é inevitável.
- É inevitável, e se você não consegue fazer isso por você, eu quero que faça isso por mim.
- Me diz o que eu não faço por você desde que eu te conheci?

Por fim a mulher deu um suspiro longo, tomando a coragem de passar seus braços tão cautelosamente como nunca antes por seus ombros, não deixou de olhá-la nos olhos durante o ato. Apenas seguiu o instinto: Abraçou a pela cintura do mesmo jeito que os braços dela se encaixaram em seus ombros.

-A briga já acabou? – A mulher murmurou.
- “Porque eu quero voltar” – sorriu de leve. Aquela era a frase do filme preferido de do qual ela chorava horrores não importava quantas vezes assistisse.
- Estou falando sério.
- Se eu estou prestes a te beijar, acho que sim. – sorriu um pouco mais.
- Eu te amo.
- Eu sei disso. – Falou vagarosamente. Ao perceber a hesitação dele, tombou a cabeça nos ombros. – Mas...
- Mas?

relutou para dizer aquela maldita frase que tinha acabado com seu primeiro quase casamento de “amar não ser o suficiente”, mas com era. Ele ficou lá, olhando pros olhos dela naquela meia luz que o quarto proporcionava tentando achar qualquer nexo naquela frase. Sem êxito.
Acontece que, ele entendia o que tentou dizer quando disse “que amar deveria ser o suficiente”. Pois amar era o suficiente. Ele arranjaria mil e um motivos para amá-la se um falhasse, porque ele só a amava e era por esse motivo que tinha um medo absurdo que a amasse com a mesma intensidade que ele a amava.

- Mas, eu acho que estou de TPM. – a viu sorrir chegando mais perto para roçar seus narizes. Sentiu aquele cheiro de loção pós-banho de imediato, tão suave que o fez querer dormir ali mesmo, naquela posição, apertando-se mais contra seu corpo.
- Eu acho que todos nós estamos. – arrancou um selinho demorado segurando seu rosto logo depois, embalado por um sorriso já frouxo.
- Sério?
- Você me entendeu. Nervos a flor da pele.
- É eu estou sentindo. – sussurrou antes de beijar o ombro da mulher dentre o abraço, dando a entender que sentia literalmente na pele dela. Fora inevitável o arrepio que chegou nela em seguida; vendo isso, subiu as mãos por dentre suas costas, por baixo da blusinha do pijama.

Foi então que começou a beijá-la pelas beiradas. Canto da boca; desceu para o pescoço, voltou para trás da orelha. Manuseava como se dirigisse um carro, e ela só deixava, mantendo os olhos fechados enquanto ele fazia aquilo.

- Por que você ligou pra ? – interrompeu vagarosamente
- Eu não sei, ela me ligou antes, quando eu liguei de volta ela estava um pouco... Avoada. Disse que não era nada importante e desligou. Você não sabe? – Ele continuava a beijando de leve nos lábios.
- Ela estava um pouco preocupada com um caso, deve ser isso. – Murmurou quase inaudível. Seu peito apertou. – E eu acho que você precisa tomar um banho.
- Eu estou cansado. – O homem resmungou relutando-se para largá-la, aquilo a fazia rir alto; dessa vez tinha jogado todo o peso do corpo nela, no abraço.
- Corre pro chuveiro. – ordenou apontando para o banheiro assim que conseguiu se desvencilhar dele. Ele mordeu os lábios ao olhar a mesma com as mãos na cintura e uma, apenas uma de suas sobrancelhas arqueada.
- Sim, senhora. – Ele bateu continência.

Após isso desabotoou lentamente cada botão que faltava; foi quando a camisa saiu completamente que começou a gargalhar. Não por vê-lo sem camisa, ou que fosse algo novo, embora adorasse o ver assim, mas pela cara sedutora ridiculamente forçada que ele estava fazendo.

- Striptease? – falou dentre o riso, foi indo enquanto desabotoava a calça. continuava rindo. Chegou à porta de cueca, e quando entrou no banheiro, jogou a mesma para a mulher.
- Ainda dá tempo de você tomar banho de novo. – olhou sugestivo dando uma piscadela. mordeu os lábios.
- É tentador, mas tem uma garotinha andando pela casa. Um perigo. – Trocou olhares com a porta.
- Como você ouviu?
- Entra logo no banho. – Riu mais um pouco e só então ele finalmente fechou a porta.

Por fim, após alguns minutos tomou seu banho e praticamente se jogou em cima de , por um bom tempo ficaram naquela posição que envolvia aquele carinho que só vinha de de acariciar suas costas de uma maneira incomumente, relaxante de cima a baixo, tão leve quanto uma pluma. Só quando percebeu que realmente não aguentaria ficar de olhos fechados, saiu de cima dela, ambos se ajeitaram para dormir. Tomaram seus postos na cama como sempre faziam: se virava; o abraçava pelas costas e emaranhava seus pés nos dele – pois não conseguia dormir sem fazer isso.

- ?
- Huh?
- O que você acha da promotoria?
- É perigoso... Por quê?
- Eu só queria saber. Boa noite. Eu te amo.

não respondeu por que sabia que ele dormiria três segundos após aquela frase. A voz dele tão sonolenta e embargada fez até mesmo ela viajar entre acordada e dormindo. Foi então que ela o abraçou ainda mais, beijando seu ombro direito.
Seria bom se fosse assim. Se para cada noite de briga, eles sempre tivessem uma solução. Sabia que tinha uma paciência incomum com ela; que caso contrario ela já teria surtado, que na relação ele era o mais altruísta, não que não tivesse seus defeitos, mas estes não significavam nada pra ela naquela altura.
Mas sempre existe o “mas”.
Muito pelo contrÁrio do que toda e qualquer alma imaginasse e se perguntasse por que diabos ainda insistia em , pensando e repensando, chegou a conclusão que seu negÓcio com era entender um porquê. tentara de todas as formas fingir que tinha superado e entendido sua situação e dele de anos, e de certa forma achou que tinha. Já ouviram falar que, após algum tempo mentindo, a mesma acaba se tornando verdade? É um mito.
Acontece que fingir que algo não aconteceu por anos não o faz sumir, e a prova viva era ali; a confirmação vinha quando ela, incontrolavelmente, quis mais do que nunca perguntar para ele o que tinha feito de errado, onde tinha dado errado e porque ela não tinha percebido; tudo isto não porque não amava seu marido, mas porque não se conformava em não ter sido amada por . Porque ela só precisava de uma resposta. não conseguia entender, conhecendo-o daquela maneira, como foi egoísta a forma como agiu, embora ela mesma soubesse que talvez a resposta concreta não a agradasse, ela precisava ouvir de sua boca.

***


“Escritório em inspeção, retorno ás 15:00 horas para reunião.”

- Diga-me porque eu acordei ás seis e meia da manhã!! – A mulher grunhiu ainda sentada a beirada da cama com o celular em mãos. – Ah é, eu sou mãe.

De soslaio olhou o marido ainda desmaiado do lado esquerdo da cama. Fechou os olhos por segundos ouvindo tão somente o som das folhagens balançando do lado de fora da casa.
Não sentia aquela sensação há tempos. Costumeiramente sempre acordava no gás, já correndo para cozinha e preparando a refeição do dia para , café para , e ainda tinham as gravatas para serem arrumadas e tiaras para serem postas nos cabelos de , porém muito embora fosse uma loucura, já estava acostumada e era por esse motivo que aquele silêncio causava uma estranheza no seu corpo. Tinha duas horas para fazer tudo com total calma.
Foi então que finalmente se levantou, tomou um banho rápido colocando a primeira camiseta que vira na frente. Gargalhou quando arregalou os olhos ao vê-la toda desarrumada sentada na bancada comendo um cereal qualquer. A garotinha por cinco minutos permaneceu quieta, apenas comendo e por vezes trocando olhares com a mãe.

- Mãe, tá tudo bem? – Quando voltou seu olhar a menina, que parecia ter tomado coragem para falar, riu de leve apertando os lábios em seguida.
- Estou tentando efetuar cafés mais calmos pra nós. O que você acha? – Perguntou dando de ombros.
- É por causa da briga de ontem por causa do meu pai? – rebateu no mesmo sentido. De primeira recebeu um estalo feito pela boca de .
- Ei, não foi uma briga. Foi um desentendimento. – Respondeu um tanto didática por fim pulando do balcão. – Só estou com folga agora de manhã. Meu Deus, é algo tão...?? – Fez um gesto enorme por fim botando as mãos na cintura e olhando para a filha.
- Na verdade é. – respondeu já humorada, soltando um riso debochado. –
- Eu sei que sua vida tem estado bem confusa por esses dias, filha. – chegou perto da menina, abaixando-se a altura da mesma. – Com essa história do seu pai e...
- Mãe, eu sei que o tio não se entende com meu pai. Eu tenho doze anos e eu entendo tudo isso que vocês tentam mascarar, eu só tenho medo que... – Fora a vez de a menina apertar os lábios. –
- , nós adultos nos resolvemos entre nós e absolutamente nada vai afetar você aqui. Você confia em mim?– alisou os cabelos da filha; por fim com aqueles enormes olhos.
-Sim.
- Então esquece esse assunto e vamos pra escola. – levantou novamente batendo uma palma.
- Meu pai perguntou se podia me buscar hoje... – informou num último segundo; – Eu só...
- Quando?
- Ontem.
- Ontem?
- É. Antes de dormir ele me liga.
- Como quiser.

não respondeu nada até chegar até escola, tirando quando quis se esconder ao perceber que a mãe estava apenas com a camiseta do”’tio” ao deixá-la na mesma, muito embora ninguém tivesse visto, não seria doida a ponto de sair daquela maneira do carro para dar um beijo como sempre fazia, mas mesmo assim, para uma garotinha de doze anos que está entrando na puberdade, isso pode ser o fim do mundo.

- Puta que pariu! – Berrou tapando o rosto. Não que o rostinho lindo do seu marido fosse surpresa naquela casa, mas ás oito e meia da manhã sim, ou talvez não. estava tão avoada que só se assustou.
- Me diz que você não foi assim... – a mediu de cima abaixo e só então a mesma notou que ele a olhava perplexo, havia até mesmo deixado o café de lado para olhá-la.
- Eu não saí do carro. Sem crise. – Deu de ombros embora ele ainda a olhasse do mesmo jeito.
- , você só está com a minha camiseta do Beatles, como assim “sem crise”?– Alegou, arqueando a sobrancelha.
- Quer que eu tire? – Também arqueou a sobrancelha.

Por alguns segundos a mulher o deixou sem palavras, aquela exata cena o lembrou nostalgicamente de uma de anos atrás. Aquela brincalhona, de vinte e dois anos, que por sinal o havia tirado da síndrome da velhice nos vinte e oito por ser ligada nos cento e vinte.





Capítulo Seis – Your Love was handmade for somebody like me.

- Que animação logo de manhã. – Sorriu estendendo a mão para ela; segurou na mesma hora, sendo puxada por ele em seguida. Parou entre as pernas do homem.
- Bom dia. – O beijou. –
- Sem trabalho hoje? – perguntou aleatoriamente voltando a pegar sua xícara de café sentindo-a se ajeitar em seu colo.
- A inspeção termina ás três e depois temos uma reunião...
- Ótimo. – O homem sorriu a olhando, olhando tanto que sentiu-se desconfortável o que era estranho.
- Vai, desembucha. – Disse o vendo morder os lábios. – ...
- Eu estava falando com uma antiga amiga de faculdade e, bom, eu achei que seria legal se jantássemos junto com ela.
- Amiga de faculdade? – arqueou a sobrancelha diminuindo o peso sobre ele, o que indicava que estava prestes a se levantar; Vendo isso, agarrou ainda mais sua cintura, e bom, ela sentiu o impacto.
- É.

Assim que tornou o foco em a viu com a testa franzida; aquilo lhe causava de certo modo um medo porque ele, conhecendo , sabia que ela estava pensando em todas as brechas, brechas que por sinal não existiam, mas mesmo assim ela achava.

- Desde quando? – Respondeu um tempo depois dessa vez realmente se levantando do colo dele.
- Há uns dias atrás. Ela ainda estava em Stanford...

Mais um pouco de silêncio

- Quando?
- Amanhã.
- Tudo bem.

A conversa acabou por ali e por um bom tempo ambos continuaram na cozinha em total silêncio. Vendo que a mulher já não diria mais nada, subiu para finalmente se arrumar. Quando voltou para informar que estava indo, viu , pela primeira vez em anos no jardim dos fundos, ela sempre dizia que não tinha tempo e quando tinha, não tinha companhia para aproveitar a vista que o mesmo fornecia, porém naquele dia lá estava ela, mesmo sozinha; a porta da cozinha estava entreaberta e ela estava sentada na poltrona com uma das pernas em cima da mesma, um copo do que ele deduzia ser de chá, de olhos fechados recebendo o calor do sol que quase nunca aparecia em Londres, embora estivesse frio.
Ainda demorou alguns segundos para que fosse até ela, por pelo menos cinco ele ainda continuou a olhando tentando entender o que havia mudado em seu pensamento. Assim que o fez, antes mesmo de abrir a boca para falar, viu-a abrir os olhos e sorrir de lado. Aquela cena só o fez mais uma vez entender porque estava casado com ela.

- Eu sei o que você está pensando.
- Você tem me surpreendido ultimamente. – riu.
- Vem aqui.

se levantou, fez um gesto para que ele se sentasse e então se sentou em seu colo outra vez, porém um pouco mais aconchegada; o abraçou com todo o corpo, afundando sua cabeça no pescoço do homem.
realmente estava atrasado, no entanto, embora fosse super-responsável, não tinha a coragem, força ou vontade de sair daquela posição. Fechou os olhos ao sentir os pequenos beijos que a mulher passou a distribuir por seu pescoço, e depois no canto da boca e então a própria, sorrindo em seguida.

- se você não se sentir confortável no jantar a gente pode...
- Eu disse que tudo bem. – Ela o cortou, direta, o que o fez abrir os olhos para olhá-la.
- Então por que fica arisca quando eu falo sobre isso?
- Não estou “arisca”. – riu nervosa. – Eu só achei estranho essa mulher aparecer do nada!
- Não foi do nada. – Ela arqueou a sobrancelha; de imediato se xingou mentalmente, fechando os olhos em reprovação. – Eu quero dizer que ela é minha amiga há muito tempo...
- E você nunca me falou dela?
- Porque ela sumiu desde que eu cheguei a Londres, ! Eu estava em Stanford e depois vim pra cá e perdemos o contato e ela ficou...
- E ai ela veio pra cá e resolveu te ligar.
- Exato.
- Tudo bem. – engoliu em seco. – Você vai se atrasar, melhor ir. – Sorriu. Mas sabia que aquele estava longe de ser um sorriso sincero.
- Ei, já não basta à briga de ontem? – O homem segurou sua cintura, impedindo-a de levantar. respirou fundo com os olhos fechados e só então voltou o olhar a ele de novo. –
- Não foi uma briga, foi um desentendimento.
- Por causa de um “ex-amigo” seu.
- Chega.
- , por favor. – Segurou-a outra vez. – Hoje não.

Aos poucos foi se aproximando para ter certeza que não seria ignorado e assim, ao chegar perto o suficiente a beijou. Deu o primeiro selinho para teste, e foi então que cedeu completamente. Segurou o rosto do homem com as duas mãos dessa vez ela, intensificando o beijo; sentiu-o agarrar suas coxas ao fazer isso, e ah, isso era potencialmente mágico e estranho ao mesmo tempo, levando em conta de que estavam no meio da casa e evitavam se beijar daquela maneira no meio dela já que , embora fosse criança, sabia muito bem das coisas, e bom, eles estavam quentes o suficiente para chegarem a fazer algo.
Na terceira arfada, quando começou a descer os beijos para o pescoço, abriu os olhos, o afastando gradativamente, terminando tudo com vários selinhos. Viu que ele ainda arfava, e muito, implorando com o olhar para que continuassem, bem, esse sempre foi o ponto fraco dele, tinha aquela mania de excitá-lo e depois o deixar doido. atingia de fato o seu autocontrole em cheio.

- Você precisa trabalhar. – Sussurrou dando outro selinho. – E eu preciso falar com a .
- Você ainda vai se arrepender de fazer isso comigo. – fechou os olhos, respirando fundo. –
- Eu me arrependo. Acredite.
- Ah, meu Deus eu amo essa mulher. – passou a mão nos cabelos se levantando com no colo e só depois de outro selinho a colocou no chão de novo.

A mulher aproveitou para arrumar a gravata, deu um ultimo selinho, e por fim, antes de sair ele olhou-a de novo; estava encostada na porta com os cabelos desgrenhados e um sorrisinho tímido dando um tchau singelo. Ah ele realmente amava essa mulher.
***


- , você pode tentar me ignorar o quanto quiser. No fim do dia eu ainda vou ser sua melhor amiga. – Disparou assim que abriu a porta do escritório; Recebeu apenas um olhar e uma bufada. – Qual é, amiga... Eu...
- Eu não vou ser seu álibi, , eu odeio isso! Não estamos no ensino médio! Que merda! – aumentou a voz alterada; acompanhou a respiração da amiga de alta, a se estabilizar, até que ela engoliu seco.
- Ok. Você precisava soltar isso, agora me deixa entrar.
- Entra.

Entrou no escritório da amiga como um furacão, logo jogando sua bolsa na poltrona e só então se virou num súbito para ela.

- E então, o que achou da carta?
- Que carta?
- A de Cambridge, . – Disse óbvia. –
- Eu não recebi nenhuma carta.
- É sério!
- Eu estou falando sério! Do que você está falando?

acompanhou a amiga retirar um envelope vermelho vinho de dentro de sua gaveta e então a entregar. Analisou o endereço, o nome da amiga escrito em dourado...
“O colegial é uma das épocas mais adoradas, relembradas e marcadas pelas inúmeras conquistas, paixões, corações quebrados, porém maior do que tudo, responsável pelas melhores amizades feitas e preservadas. Os chamados amigos para toda a vida.
Por meio desta, a escola de Cambridge vem cumprir com o cronograma dos doze anos no intuito de vos lembrar dessa época, e os encorajar a reunir-se com seus antigos colegas, ou na melhor das hipóteses, vos parabenizar pelas amizades que sobreviveram a essa época de transição.
Com amor
Cambridge.


- Que merda essa escola tem? – Indagou perplexa assim que terminou de ler, voltando os olhos da carta para a amiga. –
- Você esqueceu?
- Eu esqueci d... – parou de falar botando a mão na cabeça. – O documento...
- Sim. – cruzou os braços. Por um tempo, ambas ficaram em silêncio. –
- Todos receberam?
- vai fazer uma festa esse final de semana pra reunir todo mundo que assinou aquele documento. – Por um momento a menina arqueou a sobrancelha.
- E você não me convidou?
- Eu achei que você tinha recebido a carta também, !
- Eu deveria. Mas, festa do ?
- Bom. Eu não te convidei porque você não vai.
- Do que você está falando? Todos os nossos amigos estarão lá! – resmungou perplexa.
- Exato! E seu ex-namorado, pai da sua filha, e todas as suas lembranças e eu não vou deixar você...
- Não mete o nessa história, . – Acenou negativamente dando um giro no calcanhar. – É difícil entender que o e eu não temos nada? Acabou!
- Ah é, eu faria uma força pra acreditar se não tivesse visto o que eu vi.
- Eu amo o meu marido.
- Então você não vai pra festa.
- Ele vai comigo, .
- Você vai levar ele? – viu a amiga rir, rir bastante por sinal. – , você sempre odiou colocar o no meio de Cambridge. Essa festa vai ser um antro de pessoas de Cambridge e seu passado e...
- , fingir que algo não existiu não o faz sumir, e eu cansei de fingir que não tive um passado, eu cansei de fingir que não me importo com o fato de o estar aqui, perto o suficiente pra me dar uma resposta, ou de fingir que eu não fui o que sociedade esperava que eu fosse. Eu cansei, e o meu marido não vai deixar de me amar por isso.

Ambas ficaram se olhando por longos segundos; podia sentir a sinceridade que o que disse tinha transpassado, como se estivesse guardando tudo aquilo o tempo todo, sem coragem pra dizer. Talvez sim, ela não estivesse fazendo força alguma para entendê-la, mas ao mesmo tempo em que teria que fazer isso por , faria por também, e ela não queria fazer isso por ele.
Ambos estavam mais ligados a essa situação quanto poderia entender, ainda mesmo que ela não visse, e esse era o medo de . não via a proporção do quanto aquela história era grande e complicada, e não porque sabia de algo que a amiga não sabia, mas porque tinha noção que se conseguisse uma resposta totalmente diferente do que esperava, tudo andaria numa linha tênue entre seu amor de “pai da sua filha” para “O cara que tornou sua vida um conto de fadas” e essa era a ultima coisa que desejava pra ela: uma escolha errada ; e tudo iria por água abaixo, e digamos que tinha sofrido por uma vida inteira quando foi deixada por e com uma filha para criar totalmente sozinha.

- Eu espero que você saiba o que está fazendo – cortou o silêncio. – Porque você sabe que pode esperar de tudo do .
- Ele já fez tudo que ele poderia fazer comigo, o que eu posso esperar a mais? – Perguntou irônica, soltando um risinho tristonho. –
- Ei...
- Esquece isso. Preciso de um favor.

***


tirou a concentração da rua apenas quando sentiu a mão de na sua perna, o fez assim que parou no sinal vermelho. Olhou para mão dele apertando de leve sua coxa, e depois para seu rosto; viu um sorrisinho de lado brotar ali, em seguida veio outro aperto, dando a entender que ele tinha notado que ela o observava.

- Que foi?
- Nada. – deu de ombros; embora estivesse dirigindo, o homem deu-se ao trabalho de trocar olhares singelos com ela.
- Vamos lá, eu conheço minha esposa.
- Eu já te contei que sempre achei muito sedutor isso que você faz com os lábios? – Riu um pouco, riu ainda mais que ela.
- O quê? O que eu faço?
- Isso de – o imitou o fazendo rir ainda mais; sentiu o coração aquecer ao ver o sorriso dele.
- Eu não faço isso.
- Você faz sim.

A mesa que havia reservado ficava ao lado de uma janela enorme que dava pra rua, e , ao ver que já havia uma mulher sentada lá, sentiu as mãos suarem frio. sentiu por alguns segundos as mãos da mulher escorregarem pelas suas até que chegassem a mesa.

- Tudo certo? – Perguntou um pouco antes de chegar à mesa.
- !

Foi questão de segundos para que as suas mãos soltassem das dele. viu uma mulher alta, um tanto mais alta que ela, mais encorpada, digamos que a mais em tudo, comparado a ela; agarrar seu marido pelo pescoço com aqueles enormes cabelos castanhos escorrendo pelo paletó do mesmo. Após alguns segundos lá, se amassando, ambos quebraram o abraço e só então deu de cara com os enormes olhos verdes dela a medindo dos pés a cabeça.

- Oh, você não me disse que ela era tão... – Parou de falar; Fora o momento que franziu a testa sem saber o que dizer. – Desculpa a indiscrição. Eu sou a Danielle, melhor amiga do .
- Prazer, eu sou a .
- Minha esposa. – a cortou trocando olhares entre ela e Danielle.
- Esposa? – Perguntou surpresa.
- Você não...
- Eu te contei por telefone, acho que você... – O homem coçou a nuca. Naquele ponto já o olhava praticamente de olhos cerrados; Ora, ora, houve então um telefonema? –
- Ah, era tanta coisa, eu devo ter esquecido. – Danielle riu com todos os seus dentes ridiculamente brancos. se esforçou muito para não dizer “Esqueceu da informação mais relevante, não é?”, porém apenas engoliu seco, sentando-se a mesa.

Por baixo da mesa limpou as mãos no vestido um tanto nervosa; Tentou conter toda a sua vontade de sair daquele lugar enquanto viu por pelo menos dez minutos o marido rir mais do que riu com ela em três anos de casado. Seria assim que Carmen havia se sentido? Estava lá na expectativa de que chegasse, ou ela provavelmente iria realmente se levantar por pensar tanta bobeira.

- Eu vou ao banheiro. Um instante. – Danielle riu de lado se levantando, só então teve a atenção de outra vez.
- Tudo certo? – O homem franziu o cenho ao ver as mãos de agarradas ao vestido.
- Tudo ótimo. – sorriu forçado. – Graças a Deus!
- Demorei muito? – chegou quase puxando a mão de até a mesa, já arrastando uma cadeira. –
- Ah, , ai é o lugar da Dani.

De imediato passou a língua nos lábios fechando os olhos em seguida. , já se ajeitando na cadeira ao lado da amiga, observou então uma nuvenzinha negra se formar em cima de sua cabeça.

- É o que eu tô pensando? – Perguntou num sussurro para .
- Sim. É.

A mulher manteve a atenção em e conversando um tanto animados antes de, claro, Danielle chegar e tomar toda a atenção. Primeiro fez rir sem nem mesmo formar uma se quer frase, e depois brincou com , e depois com , deixando claro que seu bloqueio era apenas com a mulher do seu melhor amigo. sentia o olhar dela quente, pesado em cima de si.
Por uma hora entre drinks indo e drinks voltando naquela mesa, a maioria indo para , a mesma permaneceu quieta, ouvindo as histórias maravilhosas de na faculdade, e todas as festas que ele frequentava, e o número incontável de bons momentos que eles compartilharam e por Deus, toda vez que fechava os olhos se lembrava de . Não queria e não fazia isso há um tempo enorme, todo o tempo que estava com especificamente; não era possível que estivesse fazendo aquilo. E não, não era vingança porque seu sangue estava infestado de ciúmes daquela mulher, é que só estava sendo inevitável não se lembrar. Embora não tivesse tido essa experiência da faculdade logo na adolescência, por estar casada nessa época, lembrava-se perfeitamente do seu colegial e de todas aquelas lembranças tão análogas às deles, talvez só por esse motivo se sentisse ainda mais amedrontada com aqueles diálogos.

- É ou não é, ? – Seus pensamentos foram cortados; Assim que voltou em si, viu todos da mesa a olhando. estava em outro mundo.
- O quê?
- Eu estava me perguntando se você nunca teve aquele melhor amigo que você chamava de seu e morria de ciúmes das garotas...
- Am...
- Exemplo, eu tinha o , e eu dizia com todas as palavras que ele era meu .
- A Dani me tirava das furadas na faculdade.

riu mordendo os lábios; aquela de “meu” fez seu sangue subir o suficiente para que até mesmo transpasse no seu físico e bom, sabia quando ela não estava suportando mais alguma coisa; aquele era o caso e foi por esse motivo que tombou a cabeça já fechando os olhos.

- Ah, a Dani era? – sorriu irônica enfatizando o apelido da mulher. – Eu acredito que vocês tenham sido ótimos amigos mesmo, não pararam de rir a noite toda.
- É, nós temos muitas memórias...
- Eu sei, eu tive um melhor amigo também. – Falou estúpida. inflou o peito de uma maneira nítida quando ouviu aquilo, soltando uma bufada em seguida.
- E onde ele esta agora?
- Ele é...
- Nós perdemos contato com ele faz uns dez anos. – se intrometeu.
- Ah, eu achei que tivesse perdido o aqui, mas veja onde estamos. – Danielle sorriu acariciando as mãos do homem. – Não perca as esperanças...
- Foi quando eu conheci o . – Tombou a cabeça para olhá-lo recebendo um mesmo olhar confuso como resposta.
- Se foi quando conheceu o , então não eram só melhores amigos, não é? – Todos permaneceram calados. – Eu e o tivemos uns momentos, mas nada tão sério...
- Sério? – apoiou-se nos cotovelos.
- Sim! E como vocês se conheceram?
- Na faculdade. – respondeu rápida. Aquele diálogo estava sendo quase um jogo de tênis onde as palavras eram medidas especificamente para apunhalar uma a outra.
- Você fez uma segunda faculdade? – Danielle arqueou a sobrancelha.
- Não, ela era minha... – Foi quando parou por um segundo ao ver a hesitação dele. pigarreou antes de finalizar, e até aquele momento ela não sabia que um pigarro podia machucar, pois bem, machucava. – Minha aluna.
- O quê? – praticamente gritou, arregalando os olhos. – Você sempre disse que isso era uma aberração! Lembra quando eu me apaixonei pelo nosso professor...
- Isso foi diferente, Dani.
- É, Dani, muito diferente. – comentou novamente ainda mais dura do que antes.
- É, vejam vocês! Até se casaram! – A mulher abriu os braços. Parecia estar se divertindo com aquilo. – Sempre achei que essa relação de aluna e professor era por tempo, sabe? Fetiche de garotas novinhas... - Falou.
- Eu não estou me sentindo bem. – murmurou perto do marido, só então a olhou nos olhos, viu-os um tanto avermelhados.
- Ah, isso é porque você provavelmente não convivia com garotas de verdade, né? – se intrometeu; Danielle virou-se bruscamente para a mesma tentando balbuciar algo. – Quer dizer, a e eu sempre fomos maiores que isso até mesmo pra pensar algo do tipo sobre alguém, sabe como é...
- Ah não, não me entenda errado, eu só achei que não fosse o tipo do . – Danielle falou rápida.
- Eu não entendo esse negocio de tipo... – murmurou irônica. – Têm tipo pra amor?
- Eu não sei bem, mas sempre achei que eu e o iríamos ficar juntos, éramos o tipo um do outro. – a mulher riu.
- É, sorte a sua se você tivesse voltado a uns três anos atrás. – Fora a vez de rir; aquela altura já tinha pedido a conta.
- ... – pousou a mão na coxa dela na esperança de acalmá-la.
- Vamos, já está tarde. – retirou a mão dele da mesma sem nem mesmo olhá-lo, já se arrumando para se levantar.
- Ah é, o balé da .
- Você tem uma filha? – Danielle perguntou também já se levantando.
- Digamos que sim. – Sorriu com ternura ao lembrar-se da menininha.
- Não existe “digamos”, !
- Ela é minha, não dele. – se intrometeu; viu-a mais uma vez abrir a boca num “o”.
- Você realmente achou um pote de ouro. Meus parabéns. – Danielle estendeu as mãos para que, muito educadamente, apertou com mais força do que o normal, sorrindo mais forçado do que nunca.
- Foi bom te conhecer.
- Você não me disse que era tão bom samaritano assim.
Foi a ultima coisa que ouviu sair da boca de Danielle e adivinha, aquela vontade absurda de xingar de todos os nomes veio quando, diante daquilo, ele apenas sorriu pequeno, sem dizer uma se quer palavra sobre o comentário dela.
Após mais alguns minutos de despedida entre apenas e Danielle, ficou esperando o carro junto a e totalmente calada, vez ou outra sentia o olhar de recair sobre ela; estava se sentindo tão esgotada, com vontade de gritar, de estapear por aquilo. Que porra de mulher era aquela!? Estava tão esgotada que sentia seu cérebro pulsar, junto a suas veias, tendo que fechar os olhos e fazer aquele mantra de respirar fundo e expirar.

- Por favor, mantenha a calma. – Ouviu dizer em seu ouvido, não se deu ao trabalho de abrir os olhos, apenas acenou positivamente abraçando o próprio corpo.

Quando abriu-os ela já não estava mais lá, ou melhor, já estava dando partida no carro. Foi aí que sentiu a mão de na área do cóccix. Mordeu o lábio forte, se contendo ao máximo. Respira, inspira, respira, inspira.
Foi fazendo isso até o carro. Sem vexame em lugar público.
Quando as duas portas do carro se fecharam e eles pararam no primeiro sinal que quis explodir.

- Você precisava ser tão rude? – cortou o silêncio; riu raivosa desabotoando as sandálias bruscamente.
- Você acha que fui rude? – Perguntou entredentes.
- Acho.
- E notou também que aquela mulher estava quase sentando no seu colo e pedindo pra você se separar? Ou isso não?
- Ah, pelo amor de Deus, , ela é minha melhor amiga! – Fora a vez dele rir irônico. –
- Da parte de quem?
- Você esta sendo infantil.
- Esperava o que depois de casar com a sua aluna novinha?
- Não começa que não foi isso que ela quis dizer. – fez um gesto com as mãos.
- Então me explica, . Me explica muito bem, porque eu não vejo outra maneira de entender o fato de ela dizer o quanto era uma aberração estarmos casados. – Aumentou o tom, viu de soslaio as veias da mulher saltarem.
- É claro que você vai entender de maneira errada. Você entende o que convém pra você!
- Não quando ela agia como se eu fosse sua puta! – gritou imediatamente botando as mãos no rosto; esfregou-as por ele, e depois subiu pelos cabelos sentindo um calor absurdo a tomar.
- O quê? – O homem exclamou.
- Você não deve ter percebido porque estava ocupado demais rindo a cada respirada dela.
- Eu não vou te responder. – o viu bufar batendo as mãos no volante irritado.
- Não foi isso que você fez a noite toda? – murmurou magoada. Por um segundo seus olhos se encheram de lágrimas.
- Do que você está falando?
- Da sua hesitação quando falou sobre ser meu professor? Acha que eu não percebi? E depois o problema era eu aceitar nós dois? Porque sinceramente, , lidar com a sociedade pode ser mais fácil do que lidar com o que as pessoas que te conhecem, e foi isso que eu fiz o tempo todo!
- Então lidar com meus pais sobre nós, não foi nada?
- Eu não sei, , mas talvez o fato de ter tido um “momento” com ela fosse algo grande o suficiente pra te fazer hesitar e adivinha, você fazia isso comigo!
- Foi realmente apenas UM momento e eu hesitava com você porque eu estava apaixonado e eu estava noivo!
- Então eu deveria ficar preocupada? – Ela arqueou a sobrancelha, passou a língua nos lábios os mordendo em seguida.
- Você estava comigo, . Eu te levei pra conhecer ela... Como você pode...? – Parou no meio da frase, botando o punho cerrado na boca.
- Se fosse pra fingir que eu não estava lá, era melhor não ter me convidado.
- Essa briga está sendo tão fútil quanto...
- Quanto o nosso relacionamento é pra ela!
- É PRA ELA OU É PRA VOCÊ? – O homem aumentou a voz grosso, fora a vez de ver as veias dele saltarem, após aquele surto engoliu seco, abanando a cabeça negativamente em seguida. – Sua insistência nessa merda de que nosso relacionamento é mau visto me deixa fodido, porque eu estou pouco me fodendo, mas o problema não é ela, , é você que se permite acreditar no que seja lá o que você imaginou que ela disse.

não respondeu nada. Engoliu o choro, passou a língua nos lábios e permaneceu quieta.
Na outra metade do caminho ambos foram em completo silêncio. estava sentindo o corpo todo quente, irritado. Inevitavelmente olhava de cinco em cinco segundos para a mulher ao lado, apoiada no vidro do carro com as pernas longe dele e os olhos todo encharcado, sentindo aquela enorme vontade de pedir desculpas e ao mesmo tempo de puxar os próprios cabelos. Brigar com era insuportável, ou melhor, brigar daquela forma era insuportável. O que mais o irritava era não entender o quanto ele a amava; ter duvida disso o deixava puto, o tirava da sua sanidade. Meu Deus, ele era louco por aquela mulher e ela simplesmente não via, como podia?
O carro nem mesmo havia parado direito e ela já estava saindo do mesmo com os saltos nas mãos, pisando tão duro que era possível trincar o chão. Atrás dela vinha feito um furacão já desabotoando os botões da camisa.
ouviu um estrondo na porta da frente da casa e alguns burburinhos irritados. Tinha feito à vez do casal e ficado com ali mesmo na casa deles, com a permissão do marido do ano e de , porém como tinha dormido cedo, aproveitou para assistir a TV a cabo na sala de baixo, embora tivesse cochilado, acordou naquele momento, levantando o mínimo da cabeça em direção ao hall de entrada, dando de cara com e discutindo. Era nítido que estavam diante de uma discussão pela forma bruta que tanto quanto gesticulavam, quase subindo um em cima um do outro, ou melhor, poderia montar no homem a qualquer momento.
Os viu apontar para ele na sala, e depois passar as mãos nos cabelos irritado, dando um giro no calcanhar, após isso atacou os saltos no chão cruzando os braços. Ele devia ter mais respeito, mas achava lindo e irresistível quando ela fazia aquilo; batendo um dos pezinhos no chão com aquele biquinho do tamanho do mundo, o mesmo que fazia quando ele não comprava o sorvete quando ela pedia.

- Dani é o cacete, ! – Ouviu-a pela ultima vez grunhir; fora o momento que se levantou do sofá e só então os dois o notaram. Conseguiu ouvir as palavras não ditas de o xingando na própria mente só pelo olhar que o mesmo o lançou quando apareceu.
- Eu vou indo embora já que vocês já...
- E depois a Dani é o problema? – argumentou insinuando diretamente , ou seja, o melhor amigo de estava na casa dos dois, e a Danielle era o problema?
- Se você falar dessa mulher de novo eu juro que eu tiro nossa aliança! – trincou os dentes juntamente com os punhos.

levantou os braços saindo de cena apenas para pegar seu blusão que havia esquecido. Não se intrometeria, mas também não seria hipócrita a ponto de não estar se divertindo o mínimo com a briga dos dois. O ciúme de era sempre engraçado, muito embora fosse além disso pra ele. Pelo amor que sentia por ela, jamais desejaria o mal, até porque parecia ser o melhor para ela, mas naquele momento ele podia muito bem, se fosse doido, puxá-la pela mão e levá-la para sua casa.

- Vai em frente! – ouviu pelas costas enquanto pegava o blusão, a voz de exaltado – Mas antes eu quero que você grave muito bem o que eu vou dizer.
- Fala. – soltou as mãos ao lado do corpo ainda mais irritada que ele.
- Eu te amo e nada do que você argumentar aqui vai ser maior do que isso, porque tudo o que fiz foi por amor, , e por Deus eu te amo pra caralho!

Assim que virou-se novamente viu-o se aproximar lentamente para depositar um selinho demorado nós lábios dela. Embora estivesse completamente irritado, deixou-a lá sozinha no hall após fazer aquilo, subindo as escadas.
por sua vez não tinha dúvidas de que ainda estava irritadíssimo, fato era que após aquilo, ela sentiu o corpo esfriar gradativamente, sem saber nem mesmo o que fazer ou falar. Ficou de olhos fechados respirando por vários segundos, após isso passou as mãos nos cabelos os jogando para trás e só então deu de cara com de novo.
Seus olhos brilhavam na escuridão; outra característica sua que tirava o fôlego, e bom, ela sabia que aqueles olhos estavam focados nela. Engoliu em seco, mordendo seus lábios com força. Percebeu que estava perto o bastante apenas quando sentiu seu cheiro, não tinha muita dimensão das coisas quando olhava em seus olhos, então o cheiro foi o alerta; ou seja, deu alguns passos desesperados para trás assim que notou a proximidade.

- Não precisa ter medo, não vou fazer nada. – disse baixo, sorrindo. Outro tiro.
- Eu, eu...
- Eu dei chocolate pra antes de dormir, já estou assumindo a culpa. – Contou rindo um pouco mais; O corpo de relaxou, então ele acompanhou-a botar as mãos na cabeça.
- Obrigada por fazer a vez hoje, . – Agradeceu ao vê-lo abrir a porta; -

deu de ombros, abriu um sorriso que mesmo de costas, ela notou;

- E a propósito, você pode achar que você teve a sorte de achar ele. Mas eu sempre vou achar que quem teve a sorte foi ele. Boa noite. Durma bem, .

Por fim ele saiu completamente dando uma ultima olhada. ouviu o carro saindo, ficou lá por um tempo até ouvir o barulho da chuva que antes se formava finalmente começar a cair. Estava empacada entre o subir e o ficar lá parada, porque com todo seu sincero coração, não sabia o que fazer.
Foi por esse motivo que caminhou até o sofá, totalmente na escuridão, achou um blusão de do qual ele sempre deixava jogado na sala, arrancou o vestido lá mesmo e vestiu-o, se aconchegando no sofá dessa forma.
Sua mente estava sendo bombardeada entre os olhos de a olhando e o “eu te amo” na hora certa de . Não que ela tivesse dúvida de quem ficar, ou melhor, o que estava acontecendo? Queria gritar e agora não de raiva, mas de confusão. Agarrou os cabelos pedindo para aquela força divina que ela acreditava piamente que existia, que quando amanhecesse, soubesse exatamente como agir, soubesse como lidar com aquela situação, porque a dúvida mesmo não era quem amava, e sim, porque amava.
Ela nunca realmente tinha parado para se perguntar por que amava , embora pensasse o tempo todo que o amor não tivesse o porquê, e talvez não tivesse. Nunca parou também para se perguntar por que ainda esperava algo de , e talvez, não esperasse, apenas o amasse, simples assim.
E foi às quatro da manhã, quando despertou de leve ao sentir os toques singelos das mãos macias de pedindo para que ela lhe desse espaço; quando sentiu o corpo dele tomar o dela e a esquentar; os braços dele a envolverem totalmente, e o “ me desculpa” sussurrado e sonolento em seu ouvido, seguido de um beijo na nuca; que percebeu que, sim, era simples. O amor era simples e agia nesses momentos. Assim como o sorriso de antes de sair, como o “me desculpa” sussurrado após uma briga.
Ela ainda estava confusa, no entanto precisava achar outra desculpa porque o amar, ah o amar ela já havia entendido o sentido duas vezes de formas diferentes naquela mesma noite.





Capítulo Sete – I’ts Always about you.

- não saiu do quarto até agora. – dedilhou o enunciado da blusa do marido. Já estavam acordados por pelo menos uma hora, ainda deitados no sofá ouvindo a chuva forte que caia lá fora.
- Está chovendo, ela deve estar desmaiada. – respondeu baixinho. Ele por sua vez, acariciava os cabelos dela em retribuição. –
Ambos estavam enrolados no sofá como se fossem dois adolescentes, digo, não por estarem aconchegados um ao outro, mas pelo modo como estavam, e como se sentiam. Cheios de medo de estragar o momento sem conseguirem agir direito por isso. com seu blusão mais antigo que nunca, dos Lakers, aquele time famoso dos EUA, aquele que ele provavelmente usava todo dia em Stanford; e com outro blusão dele, embora o mesmo não tivesse nenhum tipo de desenho ou escrito.

- Bom, acho que está na hora de levantar. – A mulher fez um impulso, sentando-se em cima dele no intuito de passar para o outro lado, mas foi parada ali mesmo, com segurando sua cintura. O fato de ela estar só com seu blusão o fez perder a noção por um segundo.
- Você sabe que eu me importo com você, certo?
- É uma das clausulas do contrato de casamento, você não tem escolha. – Sorriu de lado, sem mostrar os dentes, fazendo menção de que iria continuar o caminho, porém foi segurada por ele novamente.
- Não seja sarcástica. Estou falando sério... Você disse ontem...
- Eu não quero conversar sobre ontem. Não ainda. São nove e meia da manhã, muito cedo pra isso. – Fez gestos aleatórios com a mão.
- Como quiser. – Soltou sua cintura, colocando as duas mãos na nuca. deu aquele meio sorriso sem humor e cedido. Aquele que ele fazia quando estava se segurando para não forçar a barra.
- Nós vamos conversar sobre isso, tudo bem? Eu prometo. Só quero um tempo...
- Eu não gosto disso.
- Não é uma coisa ruim.
- Na maioria das vezes é.
- Depende da forma que você interpreta, na verdade. Às vezes entendemos o que convém pra nós. – finalmente se levantou, encarando-o por um segundo. – Só não entendi porque iria me convir imaginar você e a Danielle tendo...
- Porque iria me convir, também, pensar que esse tempo é ruim?
- Acho que agora você me entendeu.
- , aquela briga não teve o menor sentido!
- Eu disse que não queria entrar nesse assunto agora.
- Tudo bem, mas assim como o , não podemos evitá-la.
- E lá vem o outra vez...

A fala da mulher foi interrompida pelo celular de vibrando de maneira reiterada três vezes seguidas em cima da mesa de centro. Assim que bateu os olhos conseguiu ler o nome de Danielle nas três mensagens consecutivas. Apertou os lábios voltando a olhá-lo sem vontade nenhuma de continuar, então só suspirou, e foi ali que ele entendeu que a fala tinha realmente terminado ao meio. não chamou-a de volta ou disse algo, apenas acompanhou andar até a cozinha trançando suas pernas enquanto fazia um rabo no cabelo que antes estava bagunçado, até que a mesma sumisse para dentro da cozinha. Só então se sentou ao sofá, pegando o celular em seguida. Apoiou a cabeça nas mãos, transpassando seus dedos por seus cabelos.
queria muito, de todo o coração, agarrá-la pelos braços e dizer que aquele ciúme era inútil. Que por mais que Danielle fosse seu passado, ela não chegava aos pés da mulher que ele tinha, e era por isso que tinha se casado com ela. Porque não importava quantos defeitos implícitos e explícitos ela tivesse, não se tratava tão somente do que era, mas do que ele era quando estava com ela. Eu sei, é clichê. Mas não um clichê normal porque não se tornava melhor ou pior junto com , ele só se tornava ele mesmo. Não tinha medo de ser o que era e ela sempre o amou por isso. era assim, o amava de qualquer jeito porque acreditava no melhor das pessoas e entendia quando esse seu melhor não aparecia. Ela gostava de chamar isso de empatia, e essa palavra fez todo sentido pra ele quando a conheceu.

- Toc Toc – abriu a porta do quarto da filha cautelosamente. – Tudo certo aqui, ou...
- Mãe, meu pai não me ligou. – estava sentada e arrumada em sua cama. O olhar tristonho da menininha fez o coração de se partir ao meio.
- Isso deveria ser preocupante?
- Ele disse que ia me levar no cinema hoje.
- Que horas?
- Na sessão das quatro.
- Já tentou ligar pra ele?
- Ele não me atende. – Murmurou chorosa. –

A conversa foi interrompida pelo celular da menininha tocando, a mesma atendeu com rapidez notando que era o pai. cruzou os braços observando atentamente a feição da filha; esperou por pelo menos dez segundos completamente calada ouvindo falar. Sua expressão não se alterou, embora houvesse um Q a mais nos olhos dela assim que finalizou a chamada.
Droga. Pensou. Por favor, , não faça isso que eu acho que você esta fazendo... Pensou.

- E aí?
- Ele não vem. – fechou os olhos.
- Eu sinto muito filha... Vocês podem ir outro dia...
- Não, não podemos, marquei com as minhas amigas hoje.
- O pode te levar. – a mulher parou por um segundo. – Perai, seu pai ia te levar pra sair com suas amigas?
- Sim, ele prometeu que pagaria sorvete pra todas nós... Eu disse que ia apresentar meu pai verdadeiro pra elas. A Tiffy disse que era mentira, que eu só tinha um pai...

Com um suspiro cedeu, fechando os olhos novamente, em seguida abaixou-se a altura da filha botando suas duas mãos nos joelhos da mesma. Os olhos de estavam caídos e um tanto avermelhados.

- Você tem dois pais. – afirmou arrumando uma mecha de cabelo da garotinha. – E na falta de um, você pode levar o outro. Isso elas nunca terão. A sorte de ter dois pais que te amam dobrado e incondicionalmente...
- Elas não vão acreditar se eu levar o tio de qualquer forma. – Deu de ombros.
- Marca outra saída e dessa vez leva os dois... O que você acha? – Por um segundo viu os olhos de brilharem, sentiu um alivio instantâneo. O olhar de demonstrava tudo que ela sentia, e ela pode ver ali a felicidade nela ao imaginar seus dois ‘’pais’’ juntos.
- Eles não se gostam, mãe. – sorriu tristonha.
- É que você não consegue imaginar o que os dois fariam por você. Pode marcar. – beijou a testa dela levantando-se em seguida.
- Você acha que eles iriam?
- Com toda certeza. Fala pro hoje... E com seu pai.
- Meu pai está doente, não vou conseguir falar com ele.
- Jura? – ironizou e agradeceu por não ter percebido o tom. Provavelmente deveria ter tomado um porre na noite anterior e estava fodido demais para levar a filha ao cinema. Ok, , respire, pensou.
- Tomara que ele melhore.
- É, eu espero que sim. – Falou ríspida.

pulou da cama ainda triste, mas não tanto como antes, e seguiu para o andar de baixo onde o cheiro de panquecas já exalava, o comum quando estava em casa, ou melhor, o comum quando ele ficava nervoso. Era engraçado, mas sempre quando ele estava pensativo com algo fazia panquecas, das mais caprichadas.
Antes de sair do quarto da filha parou no batente da porta fechando os olhos com uma suspirada longa por talvez décima vez naquele dia. Seu coração batia anormalmente naquele dia, primeiro por , segundo pela tensão com , e terceiro e pior: Pela promessa de juntar ambos em prol de . Mas o que mais a deixaria mais feliz? Para ela o fato de ter dois pais era maravilhoso! Pelo menos aquela situação havia criado algo bom e não planejado na vida dela, que cresceu nos cuidados de , mas matinha contato com o pai real. nunca pensou em conversar com a filha sobre aquilo até aquele momento, e só então percebeu que tudo voltava no amor.
O amor paternal que ambos sentiam por fez tudo se acertar da maneira mais certa que talvez não aconteceria se ela tivesse botado o dedo no meio. Bom, pelo menos isso, a mulher pensou, finalmente tomando coragem para continuar a jornada do dia.

Após uma conversa longa e animada com , nada complicada vinda de já que ele fazia tudo por ela, ambos foram para a sessão das quatro do cine no qual havia marcado o tal do encontro.

- Voltamos antes das sete. – Avisou pegando seu sobretudo preto. O dia estava extremamente gelado, em conjunto com a garoa fina que caia, denunciando que a frente fria estava por vir junto com aquela porrada de neve.
- Não tirem o casaco... Amo vocês. – apertou os lábios. se preparava pra sair, porém ao ouvir aquilo parou. por sua vez já havia saído correndo dentre a chuva e inclusive já estava dentro do carro.

Foi quando viu o marido virar-se aos poucos para ela, os olhos dele percorreram seu rosto, cruzou os braços apertando os lábios. Ele podia estar brigado com ela, mas não deixava de amá-la, e por isso não conseguia resistir ao olhar que ela lançava, ele nunca entendeu muito bem por que, afinal, era aquela incógnita que ele prometeu que até o fim da vida desvendaria, mas mesmo assim, o que fosse o que aquele olhar significava, ele não conseguia resistir. Seu coração parecia pedir para que ele mesmo irritado lhe desse um beijo. E foi o que ele fez, não disse nada, apenas se aproximou da mulher sem mexer os braços; tocou os lábios dela cheio de delicadeza, dando aquele beijo de dois segundos que no final fez um estralo. Assim como ele não disse nada ou mexeu os braços, apenas sorriu um pouquinho mais e ele fez o mesmo, só assim saindo da casa.
***


- ? - A mulher se virou bruscamente dentre as prateleiras vendo vir em passos largos em direção a ela.
- ? O que faz por aqui? – Entortou a cabeça.
- Ah, eu estou pesquisando os preços pros aperitivos da festa, tá tudo uma correria.
- Estou percebendo. – sorriu penteando de leve com a mão os cabelos desgrenhados do homem. – É amanhã, certo?
- Sim, e o não está me atendendo... Tem alguma noticia dele? – Perguntou nervoso.
- Ele ligou pra hoje dizendo que estava doente. – Respondeu desgostosa. Por alguns segundos permaneceu quieto, seu semblante de nervoso, passou a preocupado.
- Você pode ir procurá-lo pra mim?
- Você enlouqueceu, ? – Exclamou rindo em seguida. – Esqueceu que meu marido fica doido só de falar no nome dele?
- Não, ele não fica não. Ele fica, talvez, estressado porque você não sabe agir quando os dois estão juntos.
- O quê?
- , não estou aqui pra discutir sua relação com seus homens. – A frase fez rir ainda mais, negando com a cabeça. – estava me ajudando com algumas bebidas e hoje eu fui perceber que me esqueci de colocar na lista a do , ou seja, ele vai me matar e o único lugar que revende essa coisa... – quando percebeu que a mulher permanecia com a sobrancelha arqueada, deu um suspiro, retirando um papel do bolso. – Entrega isso pro e diz pra ele me ligar urgente, fala sobre a bebida do e ele vai saber do que se trata.
- , eu não... Eu não posso ir até a casa do , eu ao menos sei onde é e você sabe...
- , você vai bater na porta e entregar esse papel e é só isso. Não vai trair, não vai beijar. nem precisa saber que você chegou até lá se você não quiser, só quebra o galho pra mim. – O homem falou frenético, mais uma vez seus cabelos se desgrenharam pelo tanto de gestos que ele fizera durante o pedido.
- E a ?
- Ela está ocupada com aquele caso que deu errado, disse que tinha que terminar a ação até hoje pra enviar segunda...

abaixou os olhos ponderando, respirou, expirou... De certa forma queria ir até e lhe dar um tapa pelo que fez para naquele dia, por outro, odiaria mentir para outra vez, ou melhor, será que teria? E se apenas dissesse que fora a pedido de quebrar um galho e que nada aconteceu? Obviamente nada aconteceria, e muito embora estivesse quase aceitando, aquilo parecia tão errado que sua mente girou por um tempo indeterminado até chamar sua atenção de novo.

- E aí?
- Tá! – Bufou guardando o papel no bolso. – Eu não sei onde ele mora.
- Te envio a localização. Muito obrigada, você é perfeita! – agarrou pelos braços lhe dando um beijo estalado no rosto.
- De nada, . – acenou com a cabeça.
- Só mais uma coisa. – Voltou alguns passos quase correndo. – Não fala pra que eu te pedi isso ou ela me mata. Sério.
- Não vai ser necessário.

Assim que terminou as compras para o jantar daquele dia voltou para o carro, ao chegar checou o celular notando que havia mandado realmente a localização de onde morava. Ficou mais algum tempo com o carro desligado ouvindo o barulho da garoa cair; se sentia tão dramática por estar naquela situação. Olhou para o celular, olhou para a rua, pensou e repensou por mais cinco minutos até finalmente dar partida.
Ok. Estava em uma daquelas situações que a remetiam sua juventude. A diferença era que agora ela não era mais jovem, tinha responsabilidade e se sentia estranhamente errada dirigindo em direção a casa de enquanto seu marido passava um tempo com sua filha que por sinal, era filha de também.
não morava exatamente em uma casa, na verdade era um apartamento de portinha vermelha, comum em Notting Hill, o bairro daquele filme famoso, é, morava ali, há algumas quadras do bairro onde morava. O que mais ela achava engraçado era que sempre havia dito que num futuro ele iria escolher uma casa enorme pra morar, embora aquele futuro do qual falava incluísse na época, ela não sabia porque escolhera um apartamento se agora estava muito melhor do que ela. Podia cuidar dele mesmo, ter as próprias coisas, uma casa enorme...
Chacoalhou a cabeça voltando a dar três toques na porta decidida de que agora, se não fosse atendida iria embora. Esperou mais alguns segundos não recebendo resposta já se virando para ir, foi de costas que ouviu a porta se abrir lentamente, assim que se virou, deparou-se com um completamente acabado. Fora como um tapa na cara. Então ele realmente estava doente? Não era invenção.

- ? – O homem apertou os olhos, sua voz saiu extremamente rouca e baixa. – Acho que eu estou alucinando. – Sorriu de lado. – Eu tô ficando doido mesmo. – Fez menção de que fecharia a porta.
- Ei, ei, ei, sou eu, não esta alucinando... Meu Deus, . – a mulher tapou a boca. Além da blusa toda suada, os olhos do homem estavam fundos, em conjunto com o ranger de dentes. – O que você tem?
- Ah, eu devia ter pegado meu casaco ontem... – Murmurou tossindo. – Por que está aqui?
- Am... me pediu pra te dar um papel sobre uma tal de bebida do ... – Fez gestos aleatórios com as mãos. botou as mãos na cabeça só então dando espaço para que a mulher entrasse. ficou no mesmo lugar sem saber o que fazer.
- Você pode me dar o papel e ir embora se quiser, . – se apoiou na porta percebendo a hesitação. – Não quero causar problemas... Mais problemas...
- Não, tudo bem. – Suspirou.

Foi questão de segundos. Ao entrar na casa do homem sentiu instantaneamente o cheiro dele a tomar por todos os lados possíveis. Por dentro o apartamento era até que espaçoso, mas bem compacto. Na sala havia cobertores, lenços e mais lenços, alguns comprimidos, a TV estava desligada e aquela lareira queimando fez a mulher transpirar. Percebeu as costas dele toda molhada quando o olhou andar a sua frente...

- , o que você tem?
- É só um resfriado. – Deu de ombros. – Eu ainda acho que você é uma alucinação.
- Eu não sou. – Respondeu. Ele sorriu de olhos fechados, parecia cansado. – Você precisa ir pro hospital, está nitidamente...
- Não. Não, eu não vou pro hospital. – praticamente gritou, assustando-a por segundos. – Se piorar eu peço pro me ver...
- , deixa de ser teimoso, eu posso te levar.
- Onde está seu marido?
- Foi no cinema com a .
- Fazer minha vez. – Suspirou. – Ótimo, ela deve ter ficado... – botou as mãos no rosto chateado. – Me desculpa, sério, ela deve estar muito brava comigo agora, eu prometi que eu iria...

Notando aquilo, involuntariamente, sentiu-se tentada a tocá-lo, tanto por ter o julgado mal, como por estar preocupada. realmente havia tido um motivo para não ir. Assim que o segurou pelos pulsos percebeu o quão quente ele estava. Se não fosse loucura, poderia jurar que estava à beira dos cinquenta graus e não era pra menos que sua roupa estivesse toda molhada.

- , nós precisamos ir realmente ao hospital agora, você está queimando!
- Eu já disse que eu não vou! – a palavra hospital para ele parecia uma ofensa.
- Qual é a sua? Eu estou tentando te ajudar.
- E eu estou dizendo que não quero ajuda!
- Ok. – A mulher cedeu jogando os braços ao lado do corpo. – Eu vim aqui apenas entregar isso. – colocou o papel que havia lhe dado na mesa de centro. – Só espero não te encontrar morto amanhã, precisa de você.
- Ela tem quem me substituir. – Respondeu involuntariamente.
- Você é insubstituível, . – entortou a cabeça, ambos trocaram olhares por cinco segundos.
- Eu sou?
- Pra ela sim.

Vendo que permaneceu em silêncio, pegou a bolsa para realmente sair, mas algo dentro dela pulava. Ele não era assim, havia algo muito errado, ela o conhecia.

- Sabe o que eu acho engraçado? – Voltou alguns passos, virando-se bruscamente. – Você sempre foi desesperado. O mínimo que você sentia já corria pro hospital... O que tem de errado com você, ?

observou-o olhá-la de uma maneira indecifrável por vários segundos, um olhar que ela nunca havia recebido antes, incomparável. Era só isso mesmo. Ele não fez menção de abrir a boca pra se explicar, ou até pra mandá-la parar de encher a paciência, ele só ficou a olhando como se ela soubesse de tudo, um tudo que ela não fazia ideia do que era.

- Você tá usando drogas, né? – Botou as mãos na cintura, a frase o fez rir alto.
- Você tá doida?
- Eu? Você deve estar tendo efeito colateral de algo! Eu tive palestras de drogas na escola da ano passado. Você tá agindo feito um...
-Não, não, não! – chegou perto dela segurando-a dos vários gestos que ela fazia. – Eu não estou usando drogas. A única vez que eu usei drogas foi... ‘Peraí, palestras de drogas pra crianças de onze anos?
- É, pra você ver como o mundo está perdido.

Após outros segundos segurando o riso, ambos soltaram o mesmo quase que em sincronia, abanando a cabeça negativamente.

- Meu Deus...
- Ok. Entendi que você não usa drogas. Então o que é?
- É um resfriado, ! Vai passar!
- , você está agindo como se tivesse morrendo aos poucos. – Novamente ela foi encarada nos olhos sem receber resposta por vários segundos. A diferença era que agora os olhos dele estavam perigosamente perto dos dela.
- É só um resfriado.
- Já tomou remédio?
- Eu não posso.
- O quê?
- Ordens do meu médico.
- Desde quando você tem...?
- Você pode fazer uma compressa e um café bem quente se isso vai te fazer sentir uma alma boa. – sorriu de lado, entortou a cabeça. – Eu te conheço. Você não deixaria ninguém nesse estado aqui sem cuidados.
- É meu extinto de mãe. – Deu de ombros.
- É seu extinto de . – piscou. –

O que era pra ter sido uma entrega, virou um jogo de conversa fora. Ou seja, enquanto limpava todo aquele suor e esperava enquanto a febre dele não baixava, ambos ficaram conversando.
Não tinha nada a ver com o que eles passaram, ela não quis saber porquês, ou qualquer algo do tipo. Foi uma conversa entre melhores amigos que não se viam há muito tempo colocando o papo todo em dia, o que levou duas horas. Duas horas no apartamento de conversando. O que pensaria se dissesse isso em voz alta?
estava um caco. Estava sentindo seu corpo todo doer, de dentro pra fora e de fora pra dentro, mas tê-la ali era como um anestésico. Pra ele não importava se estava com dor. Ouvir gargalhando das suas piadas, cuidando dele, sem pedir explicação, sem olhá-lo daquele jeito que o quebrava, como no dia em que havia a encontrado em casa. Tê-la ali parecia um devaneio, se não era. queria guardar aquele momento para sempre, queria que o tempo fosse um pouquinho mais devagar, porque ele sabia que a qualquer minuto ela iria se levantar e iria pra casa com o marido e sua filha, que iria beijá-lo e desejar boa noite, que ela não iria ficar ali e sentindo que a amava tanto, doía. Doía imaginar, embora aceitasse isso. Tinha escolhido aquilo pra ele com todos os riscos.

- Ok. Agora troca de blusa e continua com a compressa. Eu preciso ir. – Falou levantando-se de leve; sentiu sua mão ser segurada singelamente por .
- Obrigado por ter ficado.
- Não foi nada.
- Foi tudo pra mim, . – Murmurou seu apelido.
- Você não dormiu... É melhor você descansar um pouco. – sorriu esquivando as mãos do homem. sentiu o corpo tremer ao ver aquilo. – Antes é melhor tomar um banho.
- Vai querer ir comigo também? – Ironizou cansado, tombando a cabeça nos ombros.
- Eu vou embora.
- Ei, eu estava brincando.
- Eu sei que estava. Eu preciso ir. – Falou rápida.
- Por que não fica mais um pouco?
- Porque eu tenho um marido, e ele provavelmente deve estar me esperando. – olhou no relógio abanando a cabeça logo depois.
- Ah, é. – Mordeu os lábios.
- Se cuida, .
- É bem melhor quando você faz isso por mim.
- Boa noite, .

tombou a cabeça pro chão ao vê-la fechar a porta. Sorriu inevitavelmente, mesmo se sentindo um lixo, sentiu que podia melhorar. Talvez fosse seu remédio especial o tempo todo; era como diziam, um pouquinho de amor era o melhor remédio pra tudo... A questão era que o amor dele não era pouco, era muito, mas ele só foi aprender isso naquele momento e porra, como se sentiu burro quando percebeu. Como ele quis voltar no tempo, como ele queria que fosse fácil, que com um pedido de ‘’volta’’, ela voltasse, e que tudo se resolvesse. Porém por óbvio não faria isso, não era egoísta, não podia ser mais.

***

- ? – disse assim que abriu a porta de casa, recebeu logo um abraço da filha em conjunto com alguns resmungos, abaixando-se em seguida para olhá-la.
- Ela reclamou de dor, queria você, acho que pegou um resfriado... – murmurou fechando a porta atrás de si. Após analisar a filha por alguns segundos, finalmente se levantou ainda abraçada à menininha. –
- Onde está o ? – Perguntou duvidosa, afinal, estava com ele.
- Ele chegou em casa, perguntou se eu podia ficar com a por um tempo porque tinha que resolver algo com urgência, disse que voltava pra buscá-la, mas como reclamou eu resolvi trazer... Eu te liguei, por sinal, onde você estava?
- Fazendo compras... – murmurou. – Eu já volto.

Após subir com , dar um banho quente e depois medicá-la, desceu. Olhou no relógio no pulso percebendo o quão tarde já era. Passava das dez e ainda não havia chegado, seu coração estava chegando a palpitar. E se ele tivesse descoberto? Visto? Pensado algo errado? A mulher chacoalhou a cabeça só de imaginar. Por que ainda se dispunha a passar por aquilo?

- Eu estou preocupada. – Falou finalmente ao entrar na cozinha e ver .
- Não é pra menos. Deve ser algo urgente no escritório... Mas enfim, eu preciso ir, amiga, me liga qualquer coisa.
- Tudo bem. Boa noite.
se apoiou no balcão, acompanhou com os olhos até perdê-la de vista e só quando a porta bateu, seus olhos se voltaram para o balcão novamente. por sua vez, assim que fechou a porta atrás de si deu de cara com , suspirando aliviada em seguida.

- Que urgência! – Riu indo cumprimentá-lo como despedida, porém assim que o fez, notou instantaneamente o cheiro de bebida que o mesmo exalava, retrocedendo os passos logo depois para olhá-lo no rosto.
- O que foi?
- Você bebeu?
- Um pouco. – Maleou a cabeça.
- Só pode ser com uma mulher há essas horas. – brincou rindo humorada.
- A Carmen não bebeu.
- O que você disse? – A mulher parou se duvidar, até de respirar, ao ouvir o nome da moça. – Você estava com a Carmen?
- Era urgente.
- Você deixou a pra ir beber com a Carmen? – cerrou o punho, botando-o na boca por um segundo. – , pelo amor de Deus...
- , não aconteceu nada. – Ele riu, suas piscadelas lentas denunciavam seu estado. Aquilo só a fez se sentir mais irritada.
- Eu não ouvi isso.
- Ah, agora pelo menos eu vou me igualar ao idiota do .
- Esse é seu intuito? – exclamou, não alto, temendo que percebesse os dois lá fora. – Eu achei que você fosse melhor que isso.
- Eu tentei, , tentei ser melhor do que “isso”. – O homem abriu os braços já caminhando para a porta. – Acontece que não importa o que eu faça, eu não vou ser o melhor, mas se isso te serve de consolo, eu jamais trairia a e você sabe disso.
- Não se trata de traição, , não tem nada a ver com isso. Ela esta te esperando preocupada e você simplesmente estava com sua ex-mulher.
- Namorada.
- Foda-se! Como você se sentiria?
- Eu vou entrar, , tenha uma boa noite.

deu as costas para a mulher e finalmente entrou na casa, tirando seu casaco todo desengonçado. Estava realmente fora dos limites, sua mente estava girando de leve. quase correu para a porta de entrada trombando com ele no caminho, sentiu as mãos do homem cravarem em sua cintura e lentamente, com um sorriso singelo de canto, ele foi chegando perto até que seus narizes se roçassem, o suficiente para que obviamente ela notasse aquele cheiro forte vindo dele, fora de imediato, se afastou quase que brutamente o fazendo olhá-la cansado, já esperando pela frase.

- Você bebeu?
- Talvez alguns copos de vinho. Qual é, ... – Murmurou cansado tentando mais uma vez beijá-la, porém dessa vez fora afastado de vez, de maneira que seus corpos se descolaram a uns centímetros de distancia.
- Vinho? – A mulher passou a língua nos lábios. – Com quem você estava bebendo vinho há essas horas?
- Não foi só vinho, eu misturei com alguns shots de whisky, mas nada que...
- Nada quê? – botou as mãos na cintura. – Porque se for “me deixasse bêbado’’, sinto muito em te informar que estar “são”’ está fora da sua alçada nesse exato momento.
- Ótimo. Quer que eu me desculpe por isso?
- Não, , eu quero que você me diga que merda de urgência era essa pra largar a com a , doente, pra ir beber! – Exclamou. – Podia ter me ligado!
- Ela está o quê?
- Doente! Resfriada! E você...
- Primeiro: Eu não larguei a . – Fora a vez de ele botar as mãos na cintura, piscando duro logo depois. – Segundo: Ela não estava doente, por óbvio eu não a deixaria se estivesse doente e terceiro: Você precisa saber da origem de tudo.... – Fez alguns gestos aleatórios com as mãos.

A ação fez bufar. estava nitidamente sem condições de explicar qualquer coisa e sinceramente, ela não queria brigar, não queria explicações, era a segunda pequena discussão em dois dias e meu Deus, ela não sabia o que droga estava acontecendo entre eles. não queria piorar as coisas, pelo menos não naquele momento, então só segurou os antebraços do homem, o ato o fez parar de resmungar para olhá-la.

- Vai tomar um banho... Eu não quero ouvir. – Abanou a cabeça. – Amanhã você me conta, você não está... – A frase morreu no meio.
- Você que decide, amor. – subiu as escadas sem olhar pra trás, quase que de joelhos por passar por aquela.

Por pelo menos uma hora continuou sozinha no andar de baixo sentindo um aperto estranho no peito enquanto lavava toda aquela louça. A sensação causava a chegar o mínimo de desespero nela, era uma mistura de medo com algo que ela não conseguia se quer explicar, mas que a fazia querer chorar. sabia que tinha algo errado. Ouviu a porta do quarto da filha abrir, supondo que fosse indo dar o beijo de boa noite e só então tomou coragem para subir também. Passou pelo quarto de dando uma ultima checada e assim, passando pelo corredor ouviu algo vibrar, foi só uma vez, mas fez com que se virasse, ela sabia que vinha do celular dele.
Relutante entre deixar lá ou ir ver, foi por impulso até o criado mudo do corredor. Por um segundo fora como se seu ar todo tivesse sumido, algo comparado ao coração falhar, era um aperto ainda maior do que ela estava sentindo antes, talvez por saber que sim, seu sexto sentido existia.

“Obrigada por me ouvir, você realmente mudou minha noite. Boa noite, beijos. XX Carmen’’.


Ela pensou em abrir. Pensou em responder. Pensou em apagar. Em atacar o celular no meio da parede. Mas não teve coragem nem se quer de tocar nele. Só o que sentia era uma sensação horrível, aquela de antes, mas piorada. Crescia dentro dela homeopaticamente. ficou lá mais algum tempo. Tempo. Era o que ela estava ao máximo tentando dar a sua mente para os acontecimentos na sua vida naqueles dias, mas nem eles estavam adiantando. o amava, confiava que jamais faria nada com ela, muito embora não conseguisse deixar de pensar nas piores hipóteses ao ler aquilo, mas na pura realidade, quem é que não pensaria?
A mulher deu dois passos se distanciando do celular, parando em frente à porta de seu quarto. Antes mesmo de virar a maçaneta, fechou os olhos. Como poderia pedir qualquer explicação, ou desconfiar de se naquele mesmo dia, sem também o conhecimento dele, havia ficado com por duas horas? Seus olhos chegaram a arder por pensar no pior do que estava acontecendo entre eles.
O silêncio.

- O que você está fazendo? – Ouviu o homem dizer quase que num sussurro, por estarem no corredor e dormindo logo ao lado.

ficou pelo menos dez segundos olhando fixamente nos olhos avermelhados do marido, que por si só não desviou o mesmo em nenhum momento. Ficou lá cogitando se ele seria tão mau caráter em estar olhando fixamente em seus olhos, prestes a puxá-la pela cintura para dentro do quarto, após ter feito algo com Carmen. Por que diabos ele estaria com Carmen naquela noite?

- Ei?
- Eu fui olhar a uma ultima vez...
- Parada no corredor em frente a nossa porta?
- Achei que tivesse ouvido ela me chamar. – O homem assentiu positivamente comprimindo os lábios.
- Acha melhor levá-la ao médico? – Perguntou receoso, encostando-se ao batente da porta. conseguiu sentir o tom preocupado, era fácil perceber quando realmente estava preocupado por causa das ruguinhas que se formavam em sua testa.
- Ela vai melhorar. – Suas respostas estavam sendo rápidas. E ele havia notado isso.
- O que está acontecendo?
- Não está acontecendo nada. – o olhou. – Ou está?
- Do que você está falando?
- Eu não sei, só estou dizendo!
- Seguinte. – passou a língua nos lábios. Naquele momento o ar da mulher parecia estar sumindo, como se a cada respirada ele foi sumindo mais e mais, a ponto de seu peito ficar estufado. Estaria preparada pra ouvir que ele estava com Carmen? Ouvir o que ele tinha pra dizer, se dissesse? -
- Fala.
- Me desculpa por hoje. – Soltou abaixando a cabeça. – Eu perdi a noção, . Eu não devia ter deixado a ...

Não, ela não estava pronta. Se ele contasse, ela também sentiria o dever de contar que esteve com , e não queria passar por toda aquela coisa de novo, embora seu corpo todo estivesse praticamente cedendo a todo aquele cansaço de esconder. Ela não deveria, isso era fato, acontece que, talvez estivesse completamente certo. Talvez o problema não fosse ou , mas sim ela. não sabia lidar com e ao mesmo tempo, e isso era uma droga. Pior ainda quando não sabia o porquê de não saber. Estar entre e a fazia sentir-se vulnerável, como se qualquer coisa a pudesse machucar profundamente, mesmo tendo seus vinte oito anos e uma vida estável... Era horrível perder o controle naquela altura, quando se mais precisa dele.

- Tudo bem. – Murmurou mordendo os lábios, sentiu os olhos dele percorrem seu rosto como se o mesmo procurasse qualquer vacilo dela.
- Tem certeza?
- , eu te amo. – se aproximou o suficiente para segurar o rosto do homem. – E essas brigas tem me sugado completamente, então só por hoje, vamos relaxar. não está bem, temos uma festa amanhã...
- Quer dizer que...
- Não. – Aproximou seu rosto do dele, fazendo seus narizes se roçarem, da mesma forma ambos fecharam os olhos sentindo apenas a respiração um do outro. – Eu quero que fiquemos bem. É tudo que eu quero. – sussurrou, mais pra si do que pra ele.

Seus olhos queimaram naquele momento, mesmo fechados, ela sabia que se os abrisse, notaria que havia algo errado, e bom, ela não queria conversar. Não queria explicar. Por esse motivo sem muita delonga o beijou. Gradativamente, assim como as mãos dele, as dela percorram pelo pescoço do homem até sua nuca, entrelaçando seus dedos por lá. Sutilmente o homem puxou-a pela cintura para mais perto dele, colando seus abdomens, tomando rédea da situação.
Por aqueles segundos que o beijo durou, esqueceu-se de tudo. Concentrou-se apenas no beijo do marido, e que beijo. Havia se esquecido, entre os pequenos beijos que trocavam durante o dia, como aquele intenso que ele lhe dava, sem intenção de nada, apenas realmente de beijar, era maravilhoso. tinha aquele controle das coisas que amava. Não era afobado e nem lento demais, beijava na medida certa, alternando dali para as mãos que passeavam por sua cintura até o cóccix com um toque de carinho incomum, conseguia ser cavalheiro até nesses momentos.
Aos poucos ele foi a sentindo ainda mais mole em seus braços, os dedos de que emaranhavam-se em seus cabelos da nuca foram afrouxando, seus lábios foram diminuindo a intensidade de antes, até que eles pararam de se beijar, embora suas bocas estivessem ainda próximas, com seus hálitos quentes e um tanto ofegantes se misturando.

- Eu sei que você não queria falar sobre isso, mas eu estive pensando... – murmurou, ainda segurava firmemente, tanto que ela conseguia sentir as mãos dele em sua pele. – Eu sinto muito por estar sendo um tanto rígido em relação ao . Eu sempre disse que entendia, e eu juro que entendo a amizade de vocês e enfim... – Balançou a cabeça. – Eu confio em você. Eu vou tentar pegar leve... É que, eu não sei...
- Eu aprecio isso. – Alisou o rosto dele com os polegares. – Muito. Mas realmente, eu só estou pensando em você agora.
Ele não respondeu nada, só sorriu, dessa vez puxando-a para um abraço. Passou seus dois braços pelos ombros da mulher sentindo-a entrelaçar seus braços por sua cintura, diante daquilo, tomou conta do corpo todo dela por ser um tanto maior e por fim, beijou seus cabelos por longos segundos, fechando os olhos no ato.





Capítulo Oito – What’s on in your mind?

- Você viu a ? – perguntou assim que desceu as escadas da casa dos ’s.
Não obteve uma resposta sonora, apenas um olhar. Lucy olhava para a janela com os olhos encharcados enquanto secava os pratos da louça do almoço. acompanhou o olhar da mulher já sentindo também os olhos arderem; ver desolada era devastador, simplesmente porque ela nunca, em toda sua vida, tinha visto-a sem brilho. E era por esse motivo que cada vez mais odiava . não era apenas sua amiga, era sua irmã. Ver que tinha tirado até mesmo o brilho intrínseco de sua melhor amiga a deixava irritada, poderia cortar em pedacinhos se o visse naquele segundo.
Apertou os olhos para o lado do balanço velho que a casa dos ’s ostentava, ainda de madeira. A amiga estava sentada nele, balançando-se de maneira solitária, olhando para o chão, há alguns passos dela, Charles caminhava lentamente em sua direção com as mãos atrás das costas.

- Deveria ser eu. – Ouviu o murmúrio choroso da mãe de , olhou para o lado engolindo em seco. – Eu deveria conversar com ela, mas eu não consigo, .
- É complicado, sra. . – Consolou. – Ninguém esperava que ele fosse...
- Eu me recuso a acreditar que aquele doce que o era...
- Doce... – rolou os olhos. – Acredite, Sra. , não há alguém no mundo mais quebrada por dentro por acreditar em alguém, do que eu. ao menos... – Parou de falar, sentindo uma lágrima quente escorrer por seu olho esquerdo. – Ele ao menos falou comigo, como isso...
- Nem nós sabíamos. – Ambas se viraram para trás, dando de cara com os pais de as encarando. Seus olhos eram tão desoladores quanto os de . Nas mãos, a mãe de carregava uma torta, a que amava comer durante a gravidez, e na outra uma sacola com desenhos infantis.

Um silêncio se instalou após a frase, e então todos voltaram a olhar para os dois no jardim. Agora Charlie já havia se sentado ao lado de , embora ela não tivesse o olhado. Arrastava os pés pela grama, apertando com força o ferro do balanço. Charlie notou os dedos da filha um tanto amarelos por isso. estava tentando segurar a dor, mas sem êxito. Seus olhos pareciam querer explodir toda vez que segurava as lágrimas. Algumas teimosas ainda escorriam por seu rosto, mas mesmo assim, se soltasse o que tinha pra soltar, seria um desastre. Nem ela sabia ao certo o que estava acontecendo dentro do seu corpo naquele momento.

- Os pais do estão aí. – começou cauteloso. – Arrisco em dizer que trouxeram aquela torta que você ama...
- Como se isso fosse amenizar o fato do que o filho deles me deixou. – A menina ironizou, limpando com a manga da blusa uma das lágrimas que escorria por seu rosto. – Desculpa, pai, mas eu não quero falar com ninguém agora.
- Você não precisa, se não quiser. – O homem respondeu voltando seu olhar para o céu. – Mas não pode recusar viver em sociedade só porque um garoto te deixou. Uma hora isso vai passar, querida, tudo é passageiro...
- Não é um garoto qualquer. É o pai da minha filha.
- Eu não quero entrar no mérito da questão. – virou-se para a menina pegando uma de suas mãos molhadas por tanto limpar o rosto. – Eu acredito que algumas coisas precisam acontecer... É a lei de Murphy, se algo pode acontecer, acontecerá.
- Está citando a frase de um filme como conselho? – riu de leve, fungando depois.
- Era esse sorriso que eu queria ver. – sorriu humorado, observando-a apertar os lábios.
- Eu vou dizer uma coisa que nenhum adolescente acredita, mas é mais pura verdade, querida. – fez uma pausa, dando um suspiro como suspense. – Você se apaixona mais de uma vez. - apertou os lábios, sentiu o pai limpar o resto do seu rosto molhado com as duas mãos. – Não é porque você tem um filho, que vai ser presa no pra sempre, e vou te dizer mais: Vai ser mais intenso do que a primeira vez, e talvez até mais doloroso, mas acontecerá novamente, filha, eu prometo. Só que até lá, seja sua própria âncora.

ainda estava de olhos fechados, mas acordada. Preferiu ficar assim quando percebeu que e estavam conversando na cama, bem ao lado dela. No meio daquela noite apareceu no quarto deles, se infiltrou no meio dos dois, foi abraçada por e incrivelmente, sua crise de tosse cessou; Por esse lado entendia, parecia um urso quando a abraçava a noite de tão quente que ficava, mesmo sem camisa, e então lá estavam os dois naquela manhã, conversando aos sussurros.

- Você vai?
- É claro que eu vou, pequena. - Sussurrou.
- Mesmo que meu pai vá também?
- Você falou com ele sobre isso?
- Vou falar hoje. Mas você realmente vai?
- Sim. Eu não quebro uma promessa.
- Eu te amo, tio . – sorriu de lado ao ouvir aquilo.
- Eu também te amo, toquinho.
- Que amor... – virou-se reprimindo o sorriso. –
- Mãe, ele vai!
- Eu disse que iria. – respondeu sem ao menos saber do que se tratava. montou em cima da mãe, beijando-a pelo rosto em seguida. – Te amo, mãe.
- Também te amo.

A garotinha pulou da cama com rapidez, antes dando um beijo estalado em , abriu a porta do quarto dos dois e correu para o dela. Ambos observaram todo o trajeto dela com atenção e só dois segundos depois de, de fato sair do quarto, voltaram a se olhar sorrindo de lado.

- Do que ela estava falando? – girou para cima do marido, largando seu corpo em cima do dele. riu de leve, fechando os olhos enquanto acariciava as costas da esposa de cima abaixo.
- Você não sabia?
- Depende do quê.
- Quer que eu e saiamos com as amigas dela, pra ela mostrar que tem dois pais. – Disse humorado. – é tão doce...
- Demais. Eu sou apaixonada por ela.
- Quem não seria? – respondeu com ternura. – Dá pra acreditar que esse toquinho de gente dormia com a gente, tomava banho comigo...

apoiou o queixo no peito do marido ao ouvir aquilo, notou que falava de olhos fechados. Aproveitou o momento para observar o sorriso fofo que o homem soltava ao relembrar da fase de quando era apenas um bebê de três anos, e em como ele havia feito parte de tudo isso, de toda sua transição e do crescimento dela, do quanto o tempo havia passado e eles estavam ali agora, como se fosse ontem, como se fosse coisa da sua imaginação...

- Você é encantador quando fala assim. – murmurou se arrastando para a boca dele.
- Eu sou encantador fazendo outras coisas também. – Deslizou suas mãos pelas costas de .
- ...
- Calma, eu não vou fazer nada. – Levantou as mãos na nuca. – Mesmo que eu queira, eu sei me controlar, lindinha.
- Você é ridículo. – levantou de súbito de cima dele, pondo-se de pé a beira da cama. A feição falsificada de afetado que o homem adotava a fez rolar os olhos.
- Eu? Por quê?
- Chuveiro, agora.

tapou o rosto ainda rindo um tanto. Transpassou as mãos pelos cabelos, grudando neles por longos segundos, e com um suspiro alto levantou-se praticamente correndo atrás da mulher.

***


A festa que havia preparado era uma incógnita, e era por esse motivo que estava tão ansiosa, talvez? Seu estômago parecia comprimido, seu fôlego parecia faltar às vezes, era como se seu corpo estivesse a avisando de algo que ela não sabia decifrar.
Após doze anos, - nove no caso, já que ela saiu de Londres aos vinte, mas contava como um todo. – ela iria reencontrar toda aquela galera que costumava ser amiga desde pequena. não fazia ideia de quanto tempo não pisava em Cambridge, tirando quando ia à casa dos pais, o que não era mais do que quatro vezes ao ano; sempre compensou mais que sua mãe fosse para sua casa do que ela pra lá, e era entendível, eles partiam do pressuposto de que Cambridge não fazia bem para ela, muito embora nunca nada tivesse sido dito em voz alta, era mais ou menos isso.
Pois bem, como toda mãe, terminou de se arrumar por último. Ainda passava o batom vermelho vinho matte no espelho, tentando ajustar seu vestido preto social em conjunto, para adiantar as coisas, é aquela, havia adquirido uma habilidade para fazer duas coisas ao mesmo tempo após se tornar mãe, essa era uma das dádivas.

- É uma festa de reencontro ou... – A mulher sentiu o marido abraçá-la pelas costas, depositando um beijo molhado entre seu pescoço e orelha, arrepiou-se de imediato.
- Eu estou bem básica, na verdade. – virou-se de frente para ele, sorrindo de lado.
- Puta que pariu, imagina quando for pra valer... – brincou, arrancando um selinho rápido. Ouvi-a resmungar já saindo correndo dela em seguida.
- , vamos!
- Ela puxou você. E eu tô perdido por isso. – bufou. Recebeu um riso da esposa em resposta, já abaixando com os braços abertos para receber e pegá-la no colo.

Desta forma os três saíram de casa, com todos os casacos, apetrechos, remédios e tudo que uma mãe precisa carregar, e com no colo. Ela não estava de toda, boa, havia passado o dia sonolenta no sofá com ao lado, fazendo companhia entre suas séries e desenhos infantis. Ele sempre fora bom com isso, era companheiro e adorava ficar com , porque desde o primeiro minuto que a viu, se apaixonou por ela. Ele arriscava dizer que era porque ela era o rascunho da mãe. Se apaixonar por era como se apaixonar por pela segunda vez, ou mais, se apaixonar por tudo que vinha dela, com um plus de sentir-se pai sem ter o biótipo, como se de forma indireta, só provasse mais e mais para ele que o amor ia além de ambos, de sangue, de relação amorosa... Era incrível.

- Uma hora atrasados. – gritou assim que abriu a porta do lugar que havia alugado para a festa. – E ai, casal 20. – Fez um toque com , beijando a testa de em seguida, pois esta estava no colo do mesmo.
- Eu tenho duas mulheres idênticas em casa... Não tem como ser mais rápido. – respondeu humorado.
- Sinto muito, cara. – respondeu rindo, beijou o rosto de num estalo, dando uma piscadela em seguida. Ela sabia o que significava: A entrega tinha dado certo. – Divirtam-se!

Assim, o anfitrião deu espaço para que ambos entrassem, no ato, e simultaneamente agarraram as mãos do outro – entrelaçou sua mão desocupada na dela, já que carregava . – Sendo assim, sentindo-a agarrar seu bíceps, num abraço estranho.
Foi quando quase todos da festa pararam para olhar os dois entrando.
Tanto por conta do chamado de , ao ver entrando, quanto pela cena estranha que encontraram. Não porque ambos não combinavam, muito pelo contrário, mas porque eles pareciam uma família de filme. Nenhum deles havia cogitado a hipótese de parecer tão bem com outra pessoa que não fosse , mas lá estavam ela e sorrindo simpáticos.
Aquilo foi como um soco no estômago de , que acompanhava a movimentação dos dois do canto do lugar, sentado em uma das mesas, bebendo sua segunda garrafinha de cerveja.

- , meu Deus! – a mulher virou-se bruscamente ao ouvir seu nome, a voz era reconhecível em qualquer lugar, mas aquele rosto... sentiu um misto de estranheza e euforia ao vê-lo.
- ! – Abriu os braços sutilmente, seu sorriso se abriu de orelha a orelha. – Quanto tempo!
- Eu pensei que não viria!
- Eu não deixaria de vir... – deu um passo para o lado, sorriu estendendo a mão para o aperto, sendo retribuído com animação por . –
- .
- . - seus olhos voltaram-se para aninhada no colo do homem. não disse nada, mas pensou.

Sentiu de leve o coração palpitar por lembrar-se em flashes do dia em que nasceu. Foi aquela correria, um ligando pro outro, pra no fim seu mundo parar ao olhar para aquele bebezinho todo pequeno e delicado nos braços de . lembrava-se nitidamente de se emocionar ao olhar para o amigo, e agora lá estava aquele bebezinho, com doze anos no colo do marido de , que por sinal era . Ele jamais cogitou a hipótese de ambos se separarem.
Sabe aqueles casais de colegial que só vemos em filme? Era a história de e . O famoso clichê dos melhores amigos que se apaixonam, e quando finalmente ficam juntos te tiram suspiros quando passam por você. Definitivamente, a história deles passou longe de ter um final feliz, e isso de certa forma causava um tanto de tristeza em . Se aquilo que ele via e acreditava ser amor, não era, então o que era amor?

- A ultima vez que tive notícia dessa garotinha foi no aniversario dela de um aninho... E agora ela tem doze! – Voltou a falar lentamente, apertando os lábios.
- Você sumiu... O que aconteceu? – perguntou cruzando os braços; nos dois anos seguintes que permaneceu em Cambridge, sumira.
- Eu sinto muito, eu nem pude me despedir. – murmurou olhando para o líquido dentro de sua garrafa de cerveja. – Fui pra Stanford. Sabe que meu pai estava pilhado com aquela história... – Lançou um olhar. assentiu mordendo os lábios. – Ficamos por lá, me formei em administração... E agora estou ai, concorrendo ao título de empresário do ano.
- Meu Deus, isso é demais!
- Obrigado... Mas, eu precisava de um pouco daquilo. Você devia ter ido conhecer as fraternidades, são uma loucura!
- é de Stanford e me diz isso o tempo todo! - virou surpreso para o homem.
- Não brinca! Qual era a sua?
- Kappa Nu.
- Caraca! – aumentou o tom sorrindo.
- Eu sei. Éramos terríveis.
- Os caras da Alpha Chi queriam matar os da Kappa.
- Sempre fazíamos nossas festas no mesmo dia, e roubávamos a cerveja e as garotas... Era meio impossível não nos odiarem.
- Você não me contou sobre isso... – murmurou brincalhona.
- Tio , posso ir brincar lá fora? – perguntou baixinho.
- Claro, pequena. – Beijou-a na testa, colocando-a no chão.
- Antes, coloca o casaco. – correu para pegá-lo.
- E aí, princesinha. – estendeu as mãos, fazendo um toque com .
- Não o tire. – falou voltando, enrolou no casaco, ajeitando em seguida.
- Tá, mãe! – Rolou os olhos.
- Sabe, pequena , tenho uma brincadeira que você pode adorar. – abaixou-se na altura dela, prestava atenção nele. Agora já havia abraçado pela cintura, observando a cena.
- Me conte mais sobre ela e talvez eu aceite. – A frase fez o homem gargalhar.
- Me diz como é ter uma mini em casa?
- É como se apaixonar duas vezes por duas pessoas diferentes no mesmo dia. – respondeu fazendo um estalo com os lábios.

Sem dar muita bola para , desistiu de esperar a explicação e saiu correndo em direção a Ethan e brincando com algo do lado de fora. seguiu a filha até metade do caminho, certificando de que realmente ela não tiraria o casaco.
Foi questão de um minuto, assim que se virou para caminhar em direção a eles novamente, parou. agora estava gargalhando com , olhou ao redor, notando se achegar, acenou para o mesmo com um sorriso, com gestos dizendo que conversaria com ele depois, e então o viu voltar-se a , cumprimentando-o animado.
Ela não iria se intrometer, a conversa não pertencia a ela mais. Na realidade, olhar para ele lá, rindo e se dando bem com seus velhos amigos fazia seu coração aquecer. Sempre evitou levar para perto de tudo que lembrasse Cambridge, embora isso não afetasse diretamente seus amigos. sentia uma falta absurda deles sempre que se lembrava, mas ai também sempre surgia , e os boatos, e aquela dor de cabeça misturada com o estômago apertado ao lembrar-se de tudo, como uma ferida não cicatrizada. Cambridge era o limão que a fazia arder. Dava-lhe nos nervos, porém se afastar dos amigos foi um efeito colateral de seu coração dolorosamente partido.

- Uou, olhe por onde anda, bombonzinho.
- Tchu?
- Ah esses apelidos. – Sorriu. sentiu o corpo, agora um tanto maior e mais musculoso do amigo lhe tomar por inteiro, num abraço que a envolveu completamente. – Senti sua falta.
- Onde você estava?
- Acabei de chegar. Mas se você pergunta sobre minha vida, bom, digamos que eu decidi fugir de Cambridge também. Formei-me em políticas publicas em Georgetown.
- Então você não estava brincando! – A mulher sorriu. estava encantado por ela, de um jeito bom.
- Hã Hã. – negou com a cabeça. – Fiquei sabendo que você se formou em direito em Londres.
- Não fui tão longe quanto vocês, mas...
- Você não queria nem sair de Cambridge, .
- Ninguém queria na nossa época, até eu engravidar. Foi como se a ficha de todos caíssem, do tipo, ok, agora temos que parar e focar em algo.

apertou os lábios engolindo seco. Durante aquele pequeno diálogo ambos já haviam se direcionado para uma das mesas e já estava com um copo de destilado nas mãos. Ela ao ver que tinha soltado aquilo, fechou os olhos pesarosamente, passando a língua nos lábios.

- Sinto muito, eu não...
- Eu concordo que foi uma surpresa. Mas não foi por isso, eu nunca imaginei que me mudaria pra Washington, até porque você foi embora antes... Eu te procurei no dia seguinte em que você foi. Deveria ter ido antes, mas eu fiquei tão... Eu... Eu vacilei.
- Não foi culpa de ninguém. Sei que vocês sentiram que sim... Águas passadas. – Deu de ombros. Seus olhares se desviaram para passando correndo dentre eles, a mesma deu um pulo nos braços de , recebendo inúmeros beijos do mesmo.
- Olha o tamanho dela. – tornou seu olhar a . – E agora a também é mãe... Você casou-se com alguém que não é o ... Parece que estamos em um universo paralelo.
- Eu sei. – lançou um olhar culposo para o amigo. sempre fora seu maior conselheiro, ou melhor, todos eles eram, mas e ela tinham uma leveza no papo que ninguém conseguia bater. – Eu não sabia que eu ia casar. simplesmente organizou tudo e quando eu vi, eu já estava vestida de noiva dizendo sim.
- ... – O homem tomou um gole de sua cerveja, segurou o líquido por alguns segundos na boca antes de engoli-lo totalmente, parecendo pensar durante o ato. Enquanto isso, dedilhava a borda da taça, fazendo um tipo de som estranho. – Então... Ele e você, ... ...
- Complicado. – Arqueou a sobrancelha. – voltou há algumas semanas, tem pirado ultimamente, as vezes acho que não vou dar conta... E aí eu percebo que tenho o marido mais consensual de todos.
- Bom, não é pra menos, você e o têm “aquilo”. – A mulher entortou a cabeça sorrindo confusa.
- “Aquilo”?
- Costumamos chamar de ‘’encaixe perfeito’’. – Ela sorriu de lado, abaixando a cabeça em seguida. – Sempre comentamos isso. Vocês combinam e parece que o universo sabe, e se aproveita disso, eu acho incrível! Nunca vi coisa parecida.
- Eu não o via há nove anos. Quero dizer, eu costumava achar estranho também, mas acho que até o universo nos esqueceu agora... Acabamos de vez. – Disse firme.
- ! – desviou o olhar, notando atrás de , levantou animado indo cumprimentá-lo com um abraço caloroso.

Não, ele não queria olhá-la, mas o corpo todo de emanava uma energia parecida com imã que atraia seu olhar para ela, ainda mais depois daquela frase, sua vontade era de agarrá-la pelos braços e perguntar o que significava o termo “acabar”, ele não queria acabar com nada, muito pelo contrário, ele queria reconquistar todo o amor perdido, amizade, sorrisos, tudo, e isso não queria dizer que queria acabar com o casamento dela, só queria arrumar um jeito melhor de arrumar aquilo antes que fosse tarde demais.

- Fala muso da Georgetown. – brincou. – . – Cumprimentou-a com o olhar.
- Digamos que sou quase um Barack Obama.
- Ah claro, tirando o fato de que você é branco e não tem metade da inteligência dele.
- Vai à merda, . Não perde a mania de me zuar.
- Alguns hábitos nunca mudam. – rolou os olhos se levantando.
- Sim, tipo você tomar destilado achando que é água. – arqueou a sobrancelha a vendo secar aquele copo enorme cheio de curaçau. –
- Eu preciso disso pra aguentar os baques da vida jurídica.

Ah, não sabia nem o mínimo do que significava “baques’’ e como aguentá-los, pensou ele, porém apenas levantou as mãos em negação.

- E vocês não perderam a mania de se irritarem.
- Isso não pode faltar.
- , eu amo seu marido. – e chegaram, acompanhados de . O mesmo estava ainda na fase de cessar o riso, ela o olhou sem dizer uma só palavra, embora ele houvesse entendido.
- Eu também o amo. – Respondeu piscando em direção a ele.
- O vai cantar hoje, é isso mesmo? – chegou de supetão, abraçando e pelos ombros. Viu fazer um biquinho silencioso, nem pra sim, nem pra não.
- Qual é, ? Canta pro mundo, mas não canta pra gente? – não sabia porque, mas aquela conexão entre os olhares de e causavam-lhe um tipo de arrepio na espinha. Não era natural.
- Se todos calarem a boca na hora, eu canto. – brincou, virando a quinta garrafa de cerveja.
- Prometo calar a boca desses caras. Agora vamos, quer jogar um jogo de dança.
- Eu não sei dançar! – contestou. –
- Se ferrou, . – Todos gritaram para ele, menos . Pareciam íntimos dele de anos. gargalhou. –
- Mostre seus dotes a eles. Não se reprima, amor. – se aconchegou no marido, deslizando os braços por dentro do paletó entre a parte das costelas e peitoral. – Eu sei o seu potencial...
- , não vale molestar, ele vai ser seu rival! – gritou do outro lado, já preparando-se com para fazer o par para o Just Dance. –
- Deixa isso pra mais tarde. – sussurrou chegando perto da boca da mulher, segurou o rosto dela com as duas mãos, beijando o canto de seus lábios, o suficiente para deixá-la completamente mole.
- Tentarei. – A mulher mordeu os lábios se afastando dele. Logo estendeu suas mãos para que ele as agarrasse e assim foi feito.
- Vamos, ? – parou bruscamente, virando-se para .

Este acompanhava toda a situação de fora. não sabia o que estava sentindo. Completamente feliz por ver seus amigos ali, mas de uma forma diferente. Tudo passava por diante de seus olhos como uma cena de anos, mas agora a imagem incluía , era como se ele estivesse assistindo um filme do qual não fazia parte, de fora. Todos eles rindo, se abraçando, se xingando, e ele encantado olhando-a com .
E se, por acaso, nada tivesse dado errado, por benção do destino ele e poderiam estar juntos, no entanto, ela estaria tão radiante com ele como parecia ser com ?

- ? – Foi a vez de o chamar. –
- Com certeza. – Remexeu os cabelos sorrindo sem graça.

O resto da festa se baseou em danças, risos, derrapando, cantando desafinado, e os dois mascotes da festa – e Ethan – dançando no meio deles. Em certo momento grudou nas mãos de , puxou com a outra, e os três iniciariam uma sincronia de pezinhos, passos e muita ginga no meio daquele salão. Os personagens do jogo foram esquecidos quando aquilo aconteceu. e todos pararam involuntariamente para ver o show que os três estavam dando.
Não havia nada além de um amor recíproco trocado pelos dois em favor de .
Não durou mais que cinco minutos, saiu gargalhando ainda se remexendo, indo atrás de , abraçou-a pela cintura, agora contagiando o corpo dela também, de um lado para o outro, enquanto colava sua bochecha na dela. sentiu o nariz do homem roçar por ela, e depois por seu pescoço, enquanto ainda dançavam no mesmo ritmo. Fechou os olhos sorrindo e agarrando os cabelos da nuca dele.

- Eu vou pegar alguns cobertores pra colocar as crianças no sofá. – sussurrou no ouvido do marido. –
- Mas eles estão tão bem assim... – Murmurou de volta– Nós estamos.
- Não posso discordar. – se afastou para olhá-lo nos olhos, segurou seu rosto distribuindo alguns selinhos. – Eles estão cansados, não vai demorar... Eu já volto.

caminhou até o espaço interno, atrás dos balcões de bar, onde havia indicado ter posto os cobertores necessários caso as crianças sentissem sono. Foi rindo, quase levitando até lá, transando as pernas de leve. Definitivamente, naquele exato momento ela jamais poderia ter imaginado que a festa iria desenrolar daquela forma.
Revirou algumas caixas, encontrou bebidas e mais bebidas, lembrou-se de imediato da caixa da tal bebida que gostava, aquela que proporcionou que fosse até a casa de ... Puxou uma garrafa para fora da caixa, analisando-a, só não soube por quê, queria descobrir o que tinha de tão interessante nela.

- O vai ficar bolado se você tomar uma dele. – deu um pulo ao ouvir a voz de , estava baixa, um tanto arranhada, talvez pela bebida ou... Virou-se para ele já guardando a mesma na caixa.
- Eu só estava tentando achar o que ela tinha de tão diferente pra fazer o pirar a ponto de me mandar pra sua casa. – Deu alguns passos em direção a ele, rindo.
- Não foi tão ruim assim, vai? – riu de lado, o acompanhou.

Por alguns segundos eles ficaram em silêncio, não um desconfortável. Enquanto vasculhava a cabeça para procurar algo pra falar, observava um detalhe: Nas mãos do homem havia um papel higiênico levemente manchado com uma cor avermelhada. Gradativamente os olhos dela foram se encaminhando para a feição de , uma nova fresta do liquido que provavelmente sujara o papel estava escorrendo. Era sangue. estava sangrando.

- , você está sangrando! – Aumentou o tom, se aproximando de supetão para perto dele. Seus olhos estalaram ao ouvir, logo limpando o sangue, e tapando o buraco do qual ele saia. – Você... Alguém te...
- Seu marido não acabou comigo. Relaxa. – sorriu sem graça, um tanto fanho ao falar por estar tapando o sangue do nariz. –
- Eu sei que ele não fez nada. – Bufou. – Achei que talvez um dos outros...
- Não. Meu nariz sangra às vezes.
- Desde? – Observou-a analisá-lo com os olhos; seu rosto esquentou com aquilo. odiava a forma como conseguia deixá-lo vulnerável, quase como se estivesse literalmente nu de alma com ela.
- Virou um interrogatório agora? Preciso chamar seu marido pra me advogar. – riu divertido.
- Eu sou a advogada.
- Da parte contrária, não pode me obrigar a falar.
- Não mesmo. – Ela murmurou chateada. Foi um segundo. Um segundo foi o suficiente para que todo aquele clima leve se transformasse numa nuvem densa.

e não costumavam falar quando tinham esses conflitos. Suas mentes pareciam estar interligadas por algum fiozinho imaginário que não os fazia ter a necessidade de falar, porque sabiam exatamente o que o outro estava pensando, e sinceramente? Era assustador.

- Eu tentei. – Soltou. engoliu em seco, se afastando um passo. – Eu tentei falar, eu juro que eu tentei, eu só...
- Sabe, ... Depois de algum tempo eu parei de me lamentar e achar que você voltaria. Eu realmente sofri, me adaptar sem você foi ridiculamente difícil...
- ...
- Eu preciso falar, e essa é a chance de eu falar, então... – o dedo indicador dela estava levantado, o fazendo ficar calado. Com um suspiro ele travou o que tinha pra dizer. sabia que tinha bebido. – E aí eu conheci o , e ele foi tão...
- Eu sei. Exatos sete meses depois de terminarmos. – cortou-a. Seu sangue ferveu nas veias. – Sete meses?
- Sete meses, o quê? – entortou a cabeça. – Eu fiquei tão fodida, ! – A mulher abriu os braços, irritada, os colocando na cabeça depois. – Eu te amava tanto, tanto, que eu achava impossível amar alguém além de você, e aí eu o conheci, realmente, sete meses depois que nos conhecemos e depois de um de um bom tempo fomos nos relacionar, então...
- Foram sete meses, . – Afirmou duro.
- De onde você tirou essa merda? – murmurou. Seus olhos se avermelharam de leve. – Inventou outra desculpa pra dizer que não me amava?
- Eu? – fora a vez de ele abrir os braços, chegando um passo perto da mulher. – Eu te liguei toda porra de mês, . No momento em que eu cheguei naquela merda de cidade, tudo deu errado! – Os olhos dele se avermelharam mais brutalmente que os dela, conseguiu ver uma das veias dele saltar. – Se ao menos eu ouvisse sua voz, eu sei que de alguma forma algo se encaixaria então eu te liguei...
- Não vem com essa... – Murmurou sorrindo em descaso. Sentia-se ofegante. –
- Eu cheguei e te liguei. – Repetiu se aproximando um pouco mais, com a voz um tanto mais mansa. – E te liguei na semana seguinte, no mês seguinte, por uma porra de sete meses, e quando eu finalmente ouvi sua voz, e não a da passando o recado por você, eu te odiei! Mais ainda por sentir meu coração bater violentamente por você mesmo sabendo que você tinha outro, eu ME odiei por isso, por deixar toda essa merda acontecer. Porque eu te amava tanto, porra como eu te amava, que chegava a doer.
- Do que você está falando? – Ele viu-a se afastar os passos que tinha se aproximado, os olhos da mulher semicerraram a ponto de deixar suas bordas ainda mais encharcadas. – Você só me ligou depois de sete meses!
- Eu posso ter sido um filho da puta, , mas eu não sou mentiroso e você sabe disso, você... – Ele parou de falar quando viu aparecer cautelosamente, em passos extremamente lentos até eles. Seus olhos estavam vidrados nos dois.
- O que está acontecendo aqui?
- Merda. – botou as mãos na cabeça. – Merda. Merda.
- O que você quer dizer, !? – aumentou o tom. – Do que ele está falando, ? – Virou-se para a amiga.
- O que você disse, ? – perguntou entredentes.
- Eu achei que você me odiasse, mas a esse ponto? – tombou a cabeça nos ombros, abanando em seguida de olhos fechados. Seu corpo começou a doer por todas as extremidades. –
- Do que ele está falando?
- !
- Eu sinto muito, , mas dessa vez você não pode me culpar. – Ele comprimiu os lábios.
- Algum de vocês pode me responder? – entrou no meio, entorpecida de raiva. –
- Eu escondi as ligações porque eu te amo, . Foi minha maneira de te proteger. – soltou de supetão. Saiu como um cuspe, seu corpo pesou todo a ponto de que até chegasse a ficar um tanto corcunda. A sensação que teve foi do peito afundando. –
- Você o quê?
- ligou. – respondeu, engolindo em seco. – Por sete meses. Ele ligou todos os dias.

Naquela altura já estava saindo do local. Tudo o que ele dissera não fora nenhuma mentira, embora soubesse que provavelmente estivesse o odiando o dobro do que já o odiava, ele não tinha culpa dessa vez. Talvez tivesse culpa por o odiar, ou melhor, tinha certeza, mas aquele fardo em si, de ter escondido suas ligações, não era dele.
Sentiu-se um covarde ao sair da sala e ir embora à surdina, mas precisava. Seu corpo todo doía, sem falar naquele sangue jorrando do nariz. Não queria explicar, ou correr o risco de uma briga maior, só o que ele queria era a paz. Olhar para ainda lhe causava dor, ainda mais por não tê-la, e pior, por saber que apesar de tudo ela tinha esperanças nele, por pensar que quando ela ainda as alimentava, alguém havia as cortado e esse alguém ele costumava chamar de melhor amiga.
Obviamente, como já dito, não culpava pelo ódio, mas sempre tem aquele resquício dentro de qualquer ser humano normal, que esperava que entendesse. A frustração genérica sempre girou em torno disso e ele sabia: O fato de esperar algo que ele nunca receberia, nem em sonho.

- E você só... Deixou-me pensar que ele tinha me deixado?
- Ele deixou! riu sem humor. –E eu não queria te ver sofrer! Você estava acabada, eu odiava te ver chorando, eu... Eu não sabia o que fazer. Eu estava mais desesperada do que você!
- E aí você decidiu fazer a escolha por mim?
- Você não estava em condições de pensar algo racional.
- Aparentemente eu nunca estive, não é? – rebateu raivosa.
- O que você quer dizer?
- Que todas as minhas escolhas inconsequentes te fizeram pensar que poderia fazer a melhor escolha por mim.
- Pra te proteger! – gritou. O peito da mulher doía a cada respirada. – Pra te proteger, amiga. Eu sabia que ele iria te abalar, e eu estava tão irritada... – Murmurou chorosa. – Irritada por tudo que ele tinha feito com você, e por nos deixar. Todos nós, eu era amiga dele também... Eu nunca entendi...
- Eu não sei o que dizer. – deu um suspiro. – Eu vou embora.
- Você vai fazer isso?
- O que você esperava que eu fizesse? Porque não me contou antes?
- Porque eu sei que no meu lugar você faria o mesmo.
- Então você não me conhece.
- Não, talvez você não me conheça como achei que conhecesse, .

não esperou resposta ou quis prolongar a discussão, saiu em disparada pelo corredor até onde ainda rolavam músicas e sons de vozes. ficou lá de olhos fechados tentando absorver o máximo que podia, ou melhor, digerindo. Dava graças por não ter se envolvido, muito embora soubesse que ele desconfiaria, ele sempre desconfiava. Deus, como ela pedia que não. Seu peito parecia latejar.
Nove anos. Nove anos pra saber disso? Por que ele não calou a boca? Ela não queria saber, queria continuar aproveitando a noite e achando que tudo estava finalmente se encaixando.
É claro que não podia ser tão dramática, mas partindo do ponto da dimensão que aquilo poderia ter se tornado na época com uma explicação dele... Sinceramente, talvez tivesse razão e ela sabia disso. sempre tinha razão. jamais agiria com racionalidade, talvez implodisse por dentro, no entanto não podia deixar de pensar em todo o resto se aquilo não tivesse acontecido e sentia-se mal por isso. Não queria sentir tanto por isso, mas sentia. Seu coração doía, sua mente, seu corpo.

- Ei, demorou... Já acabou aquela que você gosta... – sorriu amistoso ao vê-la caminhar em direção a ele.
- Eu acho que bebi um pouco demais, podemos ir? – murmurou. Imediatamente endireitou a postura um tanto preocupado. Lá estava aquele olhar que ela não queria receber...
- Aconteceu algo?
- Eu só... Podemos?
- Tudo bem. dormiu, vou pegá-la. – Depositou um beijo cauteloso na bochecha da mulher.

aproveitou para colocar o casaco, pegar o de . Foi caminhando em passos lentos até a porta, dando de cara com , e parados na mesma, do lado de fora do estabelecimento fumando.
Esse hábito pelo menos era o mesmo.

-Hey... – ouviu assim que os amigos a notaram. – Onde você pensa que vai? – murmurou indo abraçá-la pelos ombros. – Nem conversamos...
- Teremos tempo, se você não sumir de novo. – Ela respondeu estalando um beijo no rosto do homem.
- Nunca sumi. Sempre estive aqui, e sempre estarei.
- Acho que alguém bebeu demais. – brincou rindo, fez careta.
- Todos estávamos precisando disso... Uma reunião! – se intrometeu. – Amo vocês, Lads.
- Oh... – riu cruzando os braços. Passou os olhos por todos, parando em . Ele em si a olhava fixamente, quando notou aquilo riu sem graça, indo até ele para não atrapalhar a conversa que agora e tinham iniciado.
- O que foi? Tem alface no meu dente? – A mulher brincou chocando seu ombro com o de .
- Eu não diria se tivesse, você sabe... – Eles riram um pouco mais. – Eu queria saber se está tudo bem com você de verdade?

ergueu os olhos para ele no mesmo segundo. Ah, quis chorar. Sentiu-se a mesma de dezessete anos quando contou para sobre sua gravidez, ele foi o primeiro que soube, não por escolha, mas porque foi quem a achou no meio daquelas ruas gélidas com o resultado em mãos, muito embora de certa forma fosse a pessoa mais certa para encontrá-la.
Olhando ali pra ele sentiu-se como se estivesse voltado naquele momento, assim como na época, a envolveu num abraço sem dizer nada. Na época, havia acabado de sair do médico quando o recebeu... As ruas de Cambridge estavam vazias, era um feriado e bom, quase ninguém ficava lá em feriados. encontrou uma garota desolada, agarrada sob o casaco vermelho, toca preta e botas ugg da mesma cor. Sabia que era de longe, mas ao mesmo tempo a mesma era irreconhecível.
Um nó formou-se na garganta de apenas por lembrar-se da cena, do olhar, do choro continuo e desesperado da amiga em seus ombros, sem que ele pudesse fazer nada para ajudar.

- Ela pediu pra dormir na casa do . – cortou o silêncio dentro do carro. – Está tudo bem com você?

Fazia alguns minutos desde que haviam saído da festa e permanecia quieta e estática. Não se mexia, nem mesmo os olhos. Estes estavam vidrados em algo do lado de fora, sabia que estava em outro mundo, na verdade, e se preocupava com isso.

- ?
- Oi? Desculpa, amor, repete. – chacoalhou a cabeça.
- Vou levar a no . Ela pediu antes de dormir, achei que...
- Está tarde...
- Eu prometi. Eu não posso quebrar a promessa. – trocou olhares com e a estrada por dois segundos. – A não ser que...
- Não, tudo bem... Você sabe onde fica? – Perguntou aleatoriamente.
- Sim, o me passou antes de ir. – Respondeu, arqueou a sobrancelha levemente. e trocando... Palavras? E não insultos? – Aliás, você sabe algo sobre o sair correndo da festa?
- Não. Por que eu saberia? – Murmurou fazendo gestos com as mãos. Ah, se ele soubesse... sentiu o peito apertar só de lembrar-se.
- Porque assim como ele, você está estranha desde que voltou do...
- Não, eu nem o vi saindo. Não estava com ele, eu nem sabia que tinha ido embora pra você ter uma ideia.
- Tudo bem. Se você está dizendo. – deu de ombros girando o volante, entrando na rua onde morava.

Foi diminuindo a velocidade, tentando achar a tal porta vermelha que havia indicado, mas eram tantas cores... Pior referência, era daltônico e tinha se esquecido disso. riu de leve ao perceber aquilo. Era por isso que amava aquele homem, ele era tão avoado as vezes que chegava a ser horrivelmente fofo.

- Qual é o número, ? – A mulher cortou o silêncio como se fosse óbvio. –
- Ele disse que era um de porta vermelha.
- Se esqueceu de dizer que era daltônico?
- Am... – torceu os lábios. – Liga pra ele.

relutou em pegar o celular. Sabia onde era, mas não podia saber, e o medo pairava em torno de que, se comentasse algo do tipo, ela estaria realmente ferrada, sem falar que a ultima coisa que gostaria era de ouvir a voz de naquela noite. Tinha ouvido o suficiente. Mas, por fim, pegou o celular e discou o número dele, reparando que realmente já era tarde, por volta das uma e meia da manhã.

- Oi. – Ouviu, viu o marido virar-se para encará-la ainda com as mãos no volante, mas parado no meio da rua.
- Ei, estamos na rua da sua casa... Qual é o numero do seu apartamento?
- O único de porta vermelha nessa rua é o meu, eu disse pro seu marido. – respondeu sonolento.
- Está escuro, , e bom, porta vermelha não é bem uma boa referência pra quem é daltônico. – ouviu o riso espontâneo do amigo soar do outro lado, mordendo os lábios para não se render aquilo.
- Ok. 542. Vou sair.

Em menos de um minuto viram um rapaz acenando tendo a certeza de que era ele. parou em frente à casa, descendo do carro em seguida, em si, ficou lá dentro por um tempo, dando longas respiradas, só saiu quando carregou a menininha para fora. Enrolou-a em um cobertor com a ajuda da mulher, já sendo orientado por sobre onde colocá-la.
foi os seguindo, fingindo ser a primeira vez que adentrava naquele local e sentia aquele perfume. Agora a casa de estava muito mais arrumada; as coisas estavam no lugar, e ele parecia estar compondo algo na sala. Ficou parada no meio da sala enquanto ouvia alguns sons vindos do quarto de . Quis mais que tudo ler o que ele estava escrevendo, ao lado, encostado no sofá, estava o violão.
Inevitavelmente imaginou-se sentada no mesmo ouvindo-o cantar, como fazia quando mais nova, ainda grávida. Ele tinha aquela mania de compor de madrugada, portanto dormia na sala o ouvindo-o repetir os mesmos versos. Algumas vezes sentia-o beijá-la de leve no rosto, cobri-la, acariciar sua barriga... Talvez, por culpa desses pequenos detalhes, ela tivesse sofrido tanto. Recusava-se pensar que aquilo tudo não tivesse passado de um nada... Que ele simplesmente tivesse se esquecido.

- , onde estão aqueles cadernos dela... me pediu. – apareceu de supetão. Seu corpo ficou leve com a chegada dele, como se todas aquelas lembranças fossem uma areia movediça que a puxava para baixo e baixo... Não dizia que era ruim, mas que a deixavam pesada, grosso modo.
- No porta malas. – Apontou. – Eu pego.
- Não, é rápido. Deixa comigo.

E ela continuou lá parada, acompanhando sumir pelo corredor em passos rápidos.

- Você não contou pra ele sobre... – a voz grossa de fez seu corpo tremer por segundos. A mulher fechou os olhos, se virando para ele apenas quando retomou os sentidos.
- Não. Ele não precisa saber, não foi nada. – Deu de ombros; viu abaixar a cabeça, é claro, fora como um soco no estômago. –
- Eu não tive a intenção de... Causar aquilo... Achei todo o tempo que você soubesse sobre as ligações, e sobre...
- Isso foi há muito tempo, , não deveria causar tanto impacto.
- Então causou?
- Não como você imagina. – Disse. – Eu preciso pensar.
- É claro... – Ficaram em silêncio por alguns segundos. Ele queria tanto, mas tanto segurá-la ali por mais tempo. Só a presença de lhe trazia paz.
- Então, é melhor eu ir indo. Se precisar de algo liga pra gente... – se virou sorrindo de lado.
- ?
- Sim?
- Eu queria dizer que tudo que eu disse foi completamente...
- Ei, então, tudo certo? – apareceu entregando os tais cadernos. sorriu sem graça, agradecendo desta forma.
- Claro. Como eu disse, , se precisar de qualquer coisa, liga pra gente.
- Irei.
- Até mais.
- Boa noite, se cuidem.

E junto com a porta se fechando, se extinguia mais uma chance de contar tudo pra ela, fazendo se perguntar com toda a fé que lhe ainda restava, que merda o universo queria dele. Porque sinceramente, ele não sabia dizer o que estava fazendo.

- O que você fez foi incrível. – falou em um determinado momento do trajeto até sua casa. Sentiu arrastar a mão que antes estava no câmbio, para suas coxas, dando um leve aperto por baixo do vestido.
- Eu disse que pegaria leve... – Sorriu amistoso. – Seus amigos são ótimos, . Por que nunca quis apresentá-los?
- Não foi bem assim. Não tive oportunidade de reuni-los longe de Cambridge.
- Esse é um problema que está superado. – Sentiu-o apertá-la novamente. – Eu sei que está, e estou orgulhoso disso, meu amor. – sorriu de lado, estacionando o carro na garagem de casa.
- Eu te amo.
- Ai de você se não amasse. – O homem a olhou com aquele sorriso torto que só ele conseguia dar, a fazendo sorrir também.

de imediato desafivelou o cinto para conseguir chegar até a boca do marido, assim que o fez, se debruçou sobre o corpo dele de uma maneira desajeitada o beijando melhor em seguida. Seus lábios delinearam os dela com delicadeza o fazendo sorrir de leve durante o beijo, entendendo a intenção de onde ela queria chegar, mesmo assim, não fez menção nenhuma de puxá-la para o colo dele, não ainda. Queria a provocar e conseguiu com êxito.
Então ela continuou: deslizou suas mãos pelo peitoral do homem, desabotoando os primeiros botões da camisa enquanto ainda o beijava, voltou a segurar seu rosto se jogando ainda mais para cima de seu corpo, não que fosse sua intenção direta, mas estava quase sendo inevitável.

- Dá tempo de chegar lá em cima.
- Precisamos chegar lá em cima? – entortou a cabeça um tanto ofegante, assim como ele. fingiu pensar, aquilo a deixava um tanto irritada a ponto de se apaixonar por ele ainda mais por isso.
- Deus, por que você é assim? – A mulher grunhiu botando as mãos no rosto.
- Porque se eu não fosse assim você não seria minha mulher hoje.
- Então você tem esse jeito por minha causa?
- Talvez você seja apenas um efeito colateral da minha masculinidade um tanto quanto grossa, por dentro melada... – maleou a cabeça fazendo-a gargalhar.
- Cala a boca, .
- Você pode fazer isso por mim, melhor até do que eu mesmo.

sorriu, e agora, lentamente foi indo em direção aos seus lábios.
Continuou de onde tinha parado, porém um pouco menos afobada, com muito mais carinho do que antes. com toda sutileza do mundo, puxou o banco do motorista um pouco mais pra trás, o suficiente para que a coubesse em seu colo, e só assim puxou-a para ele, sorrindo um pouco antes de voltar a beijá-la. Deslizou as mãos pelo corpo da mulher de cima a baixo, até onde a posição que estavam permitia, sem malicia alguma, muito embora a situação em que estavam exigisse um pouco, ele não sentia tanto que era algo estritamente sexual. Era apaixonado sempre que sentia ter “posse” sobre o corpo dela, porque, porra, para ele sempre foi maravilhoso sentir aquilo, desde a primeira vez que tiveram um momento como aquele.
tinha pra si, que o corpo dela havia se tornado um tipo de entorpecente, e olha que ele era contra as drogas. Das lícitas, ela deveria ser ilícita, porque de todas as formas ela o tirava do seu controle psíquico, racional, físico... Mas é o que dizem, sempre nos apaixonamos por aquilo que nos tira do nosso total controle, do contrário não seria tão inebriante.
ria quando ele dizia aquela frase, mas definitivamente desde o primeiro segundo, eles estavam atados pelos inebriantes laços do amor.





Continua...


Nota da autora: (19.05.2017) Eita, que capítulos tensos!! Meu coração estava pequenininho, depois grandão, e depois pequenininho... Não há como negar que esse marido é nosso amor de consumo, mas o pp1, convenhamos que também não fica muito pra trás, ein? Não vou estender por muito, só quero agradecer novamente por todas as meninas que leram até o final e que nos acompanham, estou adorando os comentários aqui embaixo, e também aberta a teorias e ideias. Para mais informações, esclarecimentos, crises existências, revoltas por causa da fic, por favor, entrem no nosso grupo no facebook e whatsapp! Sempre estamos disponíveis pra vocês! Te amamos florzinhas! Beijos. Família no facebook


Nota da Beta: Meninas, confesso que essa atualização mexeu com meus nervos rs! Meu coração ficou pequenininho e grandão, um ciclo vicioso, teve vezes que foi tudo ao mesmo tempo hahaha!
Nunca concordei com o que a fez com eles, mas eu entendo o lado dela, afinal, se não ela não se envolveria com o que cara... eu amo muitão, mas tenho minhas desconfianças com ele. Depois dessa atualização o subiu no meu conceito uhuul! Mas o tá ganhando ainda hahaha Continuem logo <3




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