Última atualização: 29/06/2018

I - Summer Storm

Chovia forte naquele dia, mas aquilo não fora capaz de pará-la, mesmo que tivesse praticamente ensopada após descer do carro. Querendo chamar o menos de atenção possível, a primeira vez que abriu a porta da sua nova casa eram exatas três e trinta da madrugada, e agradeceu mentalmente ao fato de tudo ser mobiliado e não precisar se preocupar com nada mais do que as duas malas e uma mochila que arrastava silenciosamente atrás de si.
Não era grande. Digo isso tanto em relação a casa, quanto em relação a cidade. Um prédio muito alto no centro de trinta casas, muitas repúblicas no meio de tais, e outros três prédios menores localizados em triângulo ao redor do prédio alto. Sua população não era de muito mais de duzentas e cinquenta pessoas, sendo que duzentas eram adolescentes de 15 a 20 anos, exatamente a faixa etária que nossa protagonista se encontrava.
Em relação à casa, era uma das poucas disponíveis para que uma pessoa só morasse e ficava próxima dos prédios. Um confortável local de um andar só, a primeira visão que teve após fechar sua porta foi a de uma sala de estar pintada de cores pastéis entre creme e marrom, com um sofá de três lugares posicionado entre uma mesa de centro e um balcão que demarcava o final da sala e início da cozinha.
A cozinha era do mesmo tamanho que a sala, mas tão bem distribuída quanto. Embutida no canto da parede, uma mesa de café da manhã para duas pessoas ficava à frente de uma janela coberta por cortinas grossas em tom de marrom - agradeceu por isso, não queria ser vista tão cedo - e no outro extremo da casa uma porta de duas folhas de vidro coberta também por uma cortina levava a um pequeno quintal com jardim.
O muro em quadrado evidenciava o final do terreno e início da casa de seus vizinhos, o que ela ignorou completamente no momento - na verdade, nem mesmo chegou ir até a parte de fora, nem mesmo viu o banheiro social que ficava na primeira porta do corredor ao lado esquerdo. Rapidamente andou até a suíte que era na porta à frente dessa, e não viu muito mais depois que trancou a porta, largou as malas em um canto, pegou uma toalha, tomou um banho rápido e após vestir roupas secas, se jogar na cama para dormir.
Com os olhos fechados e a mente anestesiada, ela apenas pediu uma coisa. Queria ter paz daquela vez, pelo menos até decidir o que fazer.

♣♣♣

Três semanas depois


Aquele dia amanheceu e anoiteceu com chuva, como acontecia em todos desde exatas três semanas atrás. O dono dos cabelos loiros acordava de seu cochilo da tarde tão animado quanto todos os dias, e mesmo que não houvesse Sol, era como se o sorriso e a sua própria existência fosse capaz de iluminar aquele local.
não era conhecido como mood maker por nada, ele não se importa de sacrificar suas bochechas para oferecer lindos sorrisos a todos que o veem, e isso é muito bem visto em uma cidade como Qar, ao menos pelos responsáveis por tais, já que em partes os jovens habitantes não entendem porque diabos ele é tão feliz o tempo todo, além ficarem incomodados com isso.
Na situação que todos ali estão, um sorriso daqueles era capaz de desestabilizar qualquer sanidade em revolta e muitas vezes, inveja.
Não era o caso de , que se tornara melhor amigo de em pouco tempo após se conhecerem. Os dois deram sorte e dividiam a casa apenas entre eles numa rua bem mais privativa da cidade, talvez por causa da família influente que ambos tinham, o que apenas despertava mais inveja em relação à dupla, mas permitia que entrasse no quarto de aos berros com uma feição assustada que até mesmo assustou ao mais velho.
, me deixa ficar aqui com você! ― pediu quase suplicante, fazendo o mais velho arquear uma das sobrancelhas, confuso. Não que negaria, apenas estava curioso.
― Por quê…?
― Porque eu juro pra você que eu vi uma explosão na casa vizinha. ― o mais novo falava com uma expressão que tentava ser séria e calma para não dar motivo as provocações de , mas não fora o suficiente e soube disso quando o amigo sorriu de canto.

― Você está com medo, ?
― Você entendeu, né? É na casa do lado, aquela que tá vazia e não tem luz desde que a gente chegou aqui. ― explicou direito para ver se agora sim a gravidade da situação entrava na cabeça de , afinal, como em uma casa com tudo desligado poderia ter uma explosão no quadro de luz ou algum eletrônico?
― Ué, mas isso é mais interessante ainda! Quer dizer que tem alguma coisa acontecendo lá. ― o sorriu animadamente com a hipótese, cutucando o mais baixo. ― Quer dizer, vai que é um fantasma e nós temos a oportunidade de vê-lo?!
― PARA COM ISSO, ! ― bateu levemente no ombro do outro que começou a rir.
― Você precisava ver a sua cara, sério. ― não aguentava em segurar os risos enquanto andava calmamente até seu guarda roupa para pegar a capa de chuva.
― P-Pera, você vai mesmo ir lá? Pra que essa capa de chuva?
― Pra que você acha? Eu vou lá, claro. Aliás, você devia pegar a sua também, porque vai que você fica sozinho e o fantasma resolve vir pra próxima casa pra explodir o quadro de luz aqui. ― o mais velho provocou já se vestindo, piscando um dos olhos escuros na direção do amigo, o vendo suspirar fundo e se levantar da cama para ir até ao segundo quarto da casa.
― Você joga baixo demais, .

♣♣♣


Não era a pessoa com a boca mais limpa que conhecia, porém naquele dia xingara tanto todas as coisas que até mesmo estava se sentindo mal consigo mesma e sua consciência pesava incômoda. Amaldiçoara até o tapete de boas vindas daquela casa, mas sinceramente, como poderia não o fazer?
Fazia três semanas que choviam ininterruptamente, se iniciando com o dia que se mudara, e agora ouvira um barulho de explosão enquanto tomava banho e a luz caíra, consequentemente fazendo com que tivesse que sair enrolada no roupão para ver o que estava acontecendo. E para piorar: era claro que a caixa ficava do lado de fora.
Sinceramente, não sabia se havia outro jeito de reagir a isso além de ódio mortal e esbravejar xingamentos, porque era óbvio que a caixa ia estar tão molhada quanto à grama do jardim e a não ser que quisesse morrer eletrocutada - o que começava a se tornar uma opção - não podia tocar nela.
E foi nesse momento que percebeu que estava apenas de roupão, com um lado da porta de vidro para os fundos aberta e que tremia totalmente de frio, mas não pôde prestar atenção em nada disso ao ver braços se apoiando na madeira frágil que separava os muros da casa, para pegar impulso e pular para o seu jardim.
O grito que se prendeu na garganta fora difícil de controlar, mas ela conseguiu. Não sabia se devia entrar e chamar a Polícia, trancar a porta e se esconder embaixo da cama até ser seguro de novo ou começar a gritar com aqueles doentes quando se lembrou de uma coisa: podia estar ali há três semanas, mas ninguém sabia. Aquela casa para todo o bairro era abandonada, e era exatamente por esse motivo que estava nela! Para que todos achassem que não existisse mais. Talvez os estranhos só houvessem se preocupado com a explosão e estivessem com medo de que causasse um incêndio.
― Meu Deus, meu Deus, meu Deus…
Ela murmurava baixo mesmo que estivesse praticamente histérica, vendo que quem quer que fosse conseguia pular o muro e a fazendo correr para dentro da casa e entrar em seu quarto. Amaldiçoou o fato de ter largado a porta do jardim apenas encostada e as chaves da casa toda na sala, não poderia trancar o quarto.
Aproveitou também para pegar as roupas que estavam em cima da cama e as vesti-las rapidamente antes de se esconder embaixo do móvel, sentindo a respiração completamente acelerada. Não podia ser descoberta de jeito algum ou parte da vida de paz e “liberdade” que estava levando iria por água a baixo. Não queria começar com as mentiras novamente.

♣♣♣


, você não pode pôr a mão aí! Quer morrer? ― tinha que gritar naquele quintal para que o o escutasse, assustado ao ver o amigo curiando a caixa de luz sem pudor algum mesmo debaixo daquela chuva torrencial.
― Ela estava funcionando normalmente, mas acho que sobrecarregou por causa da chuva. ― também falava alto para que o amigo o ouvisse, se afastando uns passos do gerador elétrico para manter a segurança.
― Se estava funcionando normalmente, quer dizer que tem alguém morando aqui?!
E na mesma hora que perguntou isso, um vento forte bateu contra a porta de vidro, a fazendo se abrir sozinha e ficar entreaberta, mostrando parte da cozinha que quase não podia ser identificada por conta da intensa escuridão, afinal, eram mais de oito da noite e o céu estava completamente preto, eles se guiavam pelas lanternas dos celulares.
Os dois amigos se entreolharam, como se perguntassem se deveriam entrar. Aquela altura do campeonato, as pernas do mais novo já tremiam intensamente, mas os pés ligeiros levavam o curioso para dentro da residência sem nem mesmo pensar nas consequências. Chegou até mesmo a procurar o interruptor por costume, mas logo se lembrou e começou a apontar o celular para todos os lugares.
entrou também encostando a porta, e os dois tiraram as capas e colocaram em cima do balcão que separava a sala da cozinha, primeira superfície plana que encontraram. Olhou o chão, não tinha como limpar seus sapatos e provavelmente sujaria tudo de lama, mas para uma casa abandonada o piso estava muito branquinho, assim como tudo perfeitamente limpo e arrumado, sentia até um cheiro de lavanda. Além disso, os potes estavam cheios de condimentos e comidas.
, eu acho que esse lugar não é abandonado. ― levantou a mão na direção do amigo, mão essa que segurava um celular tão recente quanto os deles com a foto de uma garota ruiva abraçada a um rapaz moreno, fazendo com que ambos arregalassem os olhos. Estavam invadindo a casa de alguém, só restava saber quem.
― HEY, TEM ALGUÉM AI? ― gritar a pergunta foi a primeira reação do , já pensando que a pessoa poderia ter se assustado com a explosão ou até mesmo se machucado, já olhando pelo chão para andar até o único corredor da casa, abrindo a primeira porta que levava ao banheiro social.
, a gente devia ir embora…
Sem dar o mínimo de atenção para o alerta do amigo, continuou andando até a segunda e última porta do local, entrando nela e apontando o celular para frente. Era um quarto feminino, provavelmente da ruiva da foto, com penteadeira e espelho enormes, cômoda com um abajur ao lado e um edredom florido em cima da cama,  fazendo conjunto com as fronhas dos travesseiros, junto com um roupão branco que era a única bagunça de todo o espaço.
― Não precisa ter medo, nós não queremos machucar você. ― ele tentou explicar para ver se caso ela estivesse ali, resolvesse aparecer, tocando de leve o roupão para constatar que ele estava molhado.
embaixo da cama apenas estava de olhos arregalados, com uma mão a frente da boca e tentando nem respirar naquela situação, tanto para não ser ouvida quanto porque se amaldiçoava por não limpar embaixo da cama e estar cheio de pó por ali, fazendo sua sinusite dar os primeiros sinais de que queria lhe visitar.
, vamos, mesmo que tenha alguém, a gente nem devia estar aqui, é errado… ― tentava em vão resgatar o resto de ética que imaginava que deveria ter após tantas aulas.
O ficou parado mais dois minutos próximo a cama, observando a sapatilha azul largada ali, quando suspirou e desistiu. Se havia mesmo alguém ali, a pessoa não queria ser encontrada e deveria ser um pouco mais respeitoso - invadir a casa, o quarto e ainda curiar a intimidade de uma desconhecida era o suficiente.
Porém, quando andava para a porta e já sinalizava que ia fechá-la, ouviu um espirro abafado vindo de debaixo da cama, seguido por um praguejar tão abafado quanto. colocou uma das mãos na frente do nariz e boca e prendeu a respiração, em choque, enquanto abria um largo sorriso satisfeito.
― Eu sabia!
― Vão para a sala. Agora.

♣♣♣


― Eu ofereceria um chá, mas não sei exatamente como tratar invasores. Além disso, como podem ver estou sem luz.
A voz grave e intimidadora de ressoou na sala enquanto ela abria uma gaveta do armário para pegar um pequeno pratinho de cerâmica e colocar uma vela. Nem morta gastaria bateria do celular para iluminar a casa, não sabia quanto tempo teria de discutir com aqueles infelizes e teria que ter uma bateria considerável para ligar pro eletricista de manhã.
Após ter ordenado que eles fossem até a sala, saiu debaixo da cama com toda a sua vergonha alheia de si mesma da situação deplorável que se encontrara e bateu as mãos no pijama de estrelinhas enquanto uma crise insistente de espirros lhe acometeu por cinco minutos, e um dos dois que não pensasse que ela não ouvira as risadinhas infelizes vindas do corredor, por que ela ouvira bem…
― Você não precisa ser ignorante, nós não sabíamos que tinha alguém na casa e ficamos preocupados com a explosão. ― se explicou com a feição ofendida, cerrando os olhos em direção a ruiva que finalmente colocava o pratinho com a vela acesa em cima do meio da mesa, podendo pela primeira vez ver a aparência das duas pestes e vice e versa.
― Porque claramente não deu pra perceber com tudo isso e você ainda teve que invadir meu quarto.
Aquele com quem iniciara a discussão possuía olhos tão escuros quanto toda a sua casa estava e podia ver quando a chama balançava relances da franja lisa em dourado cobrindo a sua testa, além das feições delicadas e não podia negar, até mesmo bonitas mesmo que não pudesse enxergá-las bem. O companheiro dele estava tão quieto e em choque que estava claro ter sido apenas arrastado, e por isso focaria apenas no , já que ele era o mandante com certeza.
― N-Nós achamos que você poderia ter se machucado! ― ele voltou a argumentar, franzindo o cenho com toda a grosseria da mulher. Não podia ver muito mais que os olhos que possuíam um incomum tom vermelho e pareciam ser bem mais intimidadores do que nunca vira em uma garota da sua idade.
― Estou muito bem, obrigada. Já podem ir embora. ― apontou para a porta a qual eles entraram, sem nem se importar se ainda chovia intensamente. Eles que pulassem o muro novamente.
― A sua família não te deu educação, garota? ― aquela frase de que se levantou e bateu as mãos contra a mesa fora o suficiente para acabar com a pouca paciência que ela estava tendo com os dois, a fazendo se levantar também e ir rapidamente até onde as capas deles estavam, ainda na escuridão, abrindo a porta e sendo iluminada pela luz fraca da lua.
― Você acha que eu tenho que ser grata a um invasor? ― franziu o cenho, pegando as roupas molhadas e as segurando na direção dos dois. ― Saiam, agora. Eu não vou pedir outra vez.
Silenciosamente, os dois obedeceram mesmo que estivesse contrariado, fazendo questão de retribuir ao olhar intimidador que ela lhe lançava ao passar pela mais baixa e pegar sua capa, momento que só foi interrompido por ter sido puxado por .
Após trancar a casa, apagou a vela e foi para o quarto com o auxílio do celular. Não se lembra bem que horas eram quando dormiu, apenas sabe que acordou com o travesseiro molhado e não fora das chuvas que, ironicamente, haviam parado naquela manhã após três semanas ininterruptas. Os leves raios de Sol que invadiam seu quarto a fizeram lembrar do invasor do dia anterior, mas ela apenas o amaldiçoou e socou o travesseiro, virando o rosto para o lado contrário da janela e tentando dormir de novo.

♣♣♣

― Hyung, como você dormiu? ― questionava com um sorriso de canto e olhos fechados pelo sono, ainda meio aéreo, pois o despertador havia tocado há apenas cinco minutos. Mas o sabia bem que aquela pergunta tinha outras intenções…
― Muito bem. ― mentiu com um sorriso amarelo. Nem pregara o olho durante um minuto sequer da noite, pensando na petulância e prepotência da sua mais recente e infeliz vizinha.
― Urru. ― o mais novo soltou sarcástico, já sabendo que aquilo definitivamente não era verdade.
― E você? Nenhum fantasma puxou seu pé?
― Não, mas eu juro que sonhei com aquela garota me enforcando e me perturbando a noite toda. ― sentiu até mesmo um arrepio ruim subir por sua nuca, fazendo sua expressão se contorcer em uma chorosa.
― ESQUECE AQUELA DEMÔNIA! ― a irritação explodiu do que não aguentou ouvi-la ser citada outra vez, fazendo arregalar os olhos assustado. ― Vamos, se arruma logo, nós vamos acabar atrasados se não sairmos daqui a pouco.
O mais novo concordou ainda um tanto chocado com aquele surto de , indo para o quarto rapidamente arrumar a gravata no pescoço. Não demoraram muito para estarem na rua, e por mais que tivesse mandado o amigo esquecê-la, ele mesmo não conseguia e não resistiu em encarar a casa ao passar na frente dela, estranhando um homem estar à frente da porta, parecendo esperar.
― Vamos, , a gente vai se atrasar!

♣♣♣


― Muito obrigada pelo serviço.
sorria esforçando-se para parecer simpática enquanto acompanhava o senhor de meia idade até a porta após pagá-lo e a abria para que ele saísse, ficando meio escondida pela madeira. Vai que alguém estava passando, né…
― Não se preocupe, querida, tenha um bom dia!
Assim que o senhor saiu, ela já fechava a porta rapidamente para suspirar aliviada, mas um pé impediu-lhe de completar sua ação, fazendo os olhos avermelhados se arregalarem e o coração bater tão forte que por pouco não caiu dura no chão, isso até a pessoa terminar de abrir a porta e se mostrar com um largo sorriso no rosto conhecido.
― VOCÊ QUER ME MATAR DO CORAÇÃO, , SEU INFELIZ! ― não se controlou em estapeá-lo não muito delicadamente quando o amigo se aproximou para lhe abraçar, rindo intensamente do seu susto.
― ERA PRA EFEITOS DRAMÁTICOS! Eu não consegui mesmo resistir, você precisava ver a sua cara, sério. ― o mais velho ainda ria, segurando os dois pulsos da menor suavemente para que ela parasse as agressões.
― Eu devia ter fechado a porta no teu pé. ― bufou, parando no lugar onde estava para respirar tranquilamente uns segundos e normalizar os seus batimentos cardíacos. ― Mas se você está aqui, é porque…
― Não, você ainda está segura, relaxa. ― o Chae sorriu para a garota, tentando acalmá-la. ― Mas eu tô sabendo que foi descoberta. Na verdade, não estou surpreso, com os vizinhos que você tem…
― Nem cita esses demônios, se eu pudesse jogava uma bomba na casa deles. ― a ruiva fez um bico nos lábios avermelhados, cruzando os braços a frente dos seios.
― Isso ia atingir a sua casa também, docinho. ― andava calmamente até o balcão da cozinha para se sentar em uma das banquetas, vendo um pratinho com uma vela metade derretida em cima de tal.
― Não que eu ligue muito, mas afinal, COMO VOCÊ JÁ SABE DISSO? Você me vigia ou algo assim?! ― olhou feio para o mais velho, andando até o balcão para tirar a vela dali e limpar o pratinho.
― Quase isso, hah. Você sabe que nós temos monitoramento em todas as ruas.
― Eles pularam o meu muro.
― Deu pra ver pela câmera da rua de trás. Eu vim pra confirmar se eles tinham te visto mesmo, você é esperta e achei que tivesse conseguido escapar, mas parece que sim.
― Eu espirrei… Debaixo da cama. ― ela explicou emburrada, ainda irritada por ter feito aquela burrice. ― Isso tudo é culpa sua, que me arrumou uma casa com a fiação ruim e vizinhos intrometidos.
― Ah para, eles são uns doces. O só é muito curioso. Na verdade, eu não sei como vieram os dois. ― quanto à fiação, não tinha argumentos.
― Eu nem tenho o mínimo de interesse. Mas me diz, o que você veio fazer aqui se confirmasse que me viram?
― Nós já havíamos conversamos sobre isso. Se você fosse descoberta, deveria seguir a rotina normal dos estudantes da cidade. ― suspirou desanimada ao ouvir isso, mas fechou os olhos e bufou. Haviam mesmo conversado sobre isso, o que não a fazia menos infeliz, mas deveria aceitar.
― Qual escola? ― aproveitou para colocar uma água para ferver após lavar a pouca louça que tinha na pia, assim faria um chá para os dois.
― Como tudo aqui é em um número específico, a única escola que aceitou a sua presença foi a Orkan Academy. Como um estudante ficou doente e voltou para a casa a pedido dos pais, ela pode te acolher. É o maior prédio de todos, o do meio.
― Quando eu começo?
― Amanhã. Eu trouxe seu uniforme no carro, você sabe que eu sou um dos conselheiros da Orkan, né? ― sorriu orgulhoso, claramente era por isso que havia conseguido uma vaga para a ruiva.
― Isso só me faz pensar que eu vou poder quebrar coisas e pessoas e sair ilesa. ― finalmente sorriu com um pouco mais de sinceridade, mas ao contrário do que achou, o coreano ficou assustado com a hipótese ao invés de rir. ― Tô brincando, cara, relaxa. ― ou talvez não…
― Ah, acho bom! Nós somos muito conceituados pra você ser a delinquente. ― o Kim relaxou um pouco e acabou rindo, já imaginando a andando de moto e jaqueta de couro por aí. ― Você está pronta, ?
― E eu tenho outra escolha, ?
Essa era a pergunta que fazia sempre desde o dia ao qual decidira ir para aquela cidade. E o coração de sabia muito bem a resposta. Não, ela não tinha outra escolha.



II - First Class

Podia ouvir em sua mente a voz de gritando “Você está tão fofa!” todo empolgado quando lhe obrigou a vestir o uniforme para que vissem como iria ficar e se tinha pegado o tamanho certo no dia anterior. Claramente para ele devia ser mesmo, a última vez que a vira daquele jeito já faziam alguns anos. Depois que se formou no ensino médio nunca mais achou que fosse colocar um uniforme maldito daqueles.
Os detestava. Trazia péssimas memórias de quando era mais nova, mas era até mesmo hilário ter vinte anos, dois anos de faculdade de medicina e estar vestindo meia calça três quartos, saia xadrez, camisa branca e lacinho no pescoço. Sorria de canto por fora, mas queria mesmo é morrer por dentro e mesmo que tenha interrompido sua divagação por um minuto para ler a mensagem de que chegara em seu celular, por dentro continuava querendo morrer.

“Não posso passar na sua casa para te buscar, mas não tem como se perder, não é? Não se atrasa
Todo mundo tá indo na mesma direção, é só seguir o fluxo. Eu estarei em uma reunião, mas fale com a coordenadora assim que chegar, te deixei um presente. Não esquece: você está uma fofa com esse uniforme! ahahaha”

― Ah ha ha ha ha… Uma fofa… Claro que sim… ― se olhou uma última vez no espelho para revirar os olhos e então pegar a mochila e sair pela porta para encarar sua nova realidade.
E estava completamente correto, mesmo que sua rua fosse sem saída e não houvesse mais de sete casas nela, pareciam que saíam delas centenas de adolescentes de hormônios a flor da pele de forma duvidosa, a fazendo respirar fundo. Não, não tinha mais vinte anos. Agora tinha dezesseis de novo, e era bom agir como tal ou não conseguiria se manter por ali por muito tempo.

♣♣♣


Naquele dia o Colégio estava completamente estranho e nem mesmo se esforçava pra entender o porquê. Não que fosse muito difícil porque as pessoas praticamente gritavam e isso apenas era mais estranho ainda já que geralmente ele descobriria rapidamente o motivo do alvoroço, mas naquele momento estava muito ocupado com outra coisa…
― Hyung, você não estudou antes em casa e deixou pra última hora?! ― arregalou os olhos ao encontrar o sentado em um dos bancos de pedra que cercavam a fonte de carpas cuspidoras de água, ao redor de uma estátua de Athena lendo um livro próximo a entrada do colégio e entre um pequeno círculo rodeado por árvores e natureza.
― O que você tá falando? Eu tô estudando pra esse teste a semana inteira. ― rolou os olhos nas órbitas com aquela fala do mais novo, vendo o amigo em pé na sua frente e cobrindo os raios de sol que lhe auxiliavam a enxergar.
― Para um pouco, a escola está um caos, você não vai conseguir se concentrar.
― Mas… Eu estava conseguindo até agora. ― o cerrou os olhos na direção do moreno, mas finalmente resolveu se desviar do livro para erguer as íris e entender o que estava acontecendo.
Quando olhou para o portão da escola, não conseguiu deixar de se assustar e adotar uma expressão surpresa. Parecia que uma celebridade estava por ali, porque literalmente uma multidão de adolescentes andava ao redor de quem quer que estivesse no meio deles por motivos que para o coreano eram completamente desconhecidos ou simplesmente entender o porquê da pessoa estar sendo seguida, inclusive pessoas dos outros colégios que ficavam ao redor dos que estavam.
― Nossa… Tem alguém famoso visitando aqui? ― questionou confuso, não lembrava de nenhum anúncio do diretor como acontecia quando iam jornalistas até lá para fazerem matérias.
― Não, o que eu ouvi é que tem uma aluna nova na nossa escola. ― parecia tão em choque quanto metade das pessoas que seguiam o pobre ser que atravessava ali perto.
― Como assim, é uma transferência? Eu sei que é raro conseguirem, mas pra quê tudo isso? ― o apontou para a multidão um tanto confuso.
― Não, não é uma transferência, ela é nova, nova mesmo. Veio de fora.
― D-De fora…? ― se levantou, sentindo a curiosidade lhe subir dos pés à cabeça.
― Sim, os boatos que tão correndo é que ela veio pra cá fugida da França. ― começou a andar para dentro da escola, vendo um pouco mais longe todos que a seguiam.
Eu fiquei sabendo que ela mantinha um tigre na casa dela e fugiu por causa da guarda ambiental.
Esse foi o primeiro comentário que ouviram quando nem mesmo pisaram dentro do prédio, ainda nos arredores do jardim, fazendo arquear uma das sobrancelhas. Não sabia mesmo se devia acreditar naquilo, fazia tanto tempo que não sabia nada sobre o lado de fora que talvez fosse verdade.
― SE PREPAREM! Ela é a abelha rainha e veio para fazer todos nós dos zangões dela! ― o grito de uma garota que passou por eles apontando para todos os presentes por ali foi bem assustador, e o começou a pensar que aquilo poderia ser o início de um apocalipse naquela cidade.
As pessoas estavam presas ali há tanto tempo que a sanidade delas poderia ser afetada pelo mais simples detalhe, e digamos que uma novata não era muito simples na concepção dos doidos daquele lugar. E nem naquela realidade, também.
― UM DIA ELA ME SOCOU! FOI IRADO!

Ok, aquilo tinha certeza que era mentira, a não ser que o “um dia” se referisse exatamente a “hoje”.
― Hey, vocês parecem mais controlados aqui… ― o falou ainda meio assustado com toda aquela comoção, se aproximando de uma dupla de pessoas da sua sala que sempre pareceram ser mentalmente estáveis. ― Vocês sabem algo da novata? Tipo, uma coisa de verdade? Ela é uma pessoa normal, né?
― NÃO MESMO! ― o grito acompanhado do fechar estrondoso da porta do armário fez e darem um pulo para trás de susto. ― Me falaram que é informação confidencial… ― a garota se aproximou com a voz em sussurros, assim como o amigo dela que fez o mesmo, colocando a mão à frente da boca para falar.
― Eu soube que ela desviava dinheiro pra manter uma mansão na França. ― fora o rapaz que disse, tentando ser o mais discreto possível.
― DA RAINHA! ― a menina gritou, fazendo os dois pularem de novo, assustados.
― SHH, fala baixo!!!
― Mas gente… A França nem tem rainha… ― falou com um pouco de medo da reação dos dois.
― COMO VOCÊ SABE? VOCÊ JÁ ESTÁ AQUI HÁ CINCO ANOS!
― É claro que não tem depois que ela faliu e destronou a coitada!
― Ok, é o suficiente pra mim, vamos sair daqui. ― forçou um sorriso na direção dos dois colegas e arrastou para longe. ― Mano do céu, que loucura é essa que tá acontecendo nesse lugar?
― Eu sabia que ia acontecer uma coisa dessas se as regras fossem quebradas alguma vez… Tá todo mundo doido na problematização. ― o mais novo falou encostando as costas na parede para respirar fundo algumas vezes. ― Olha ali. ― o dono dos cabelos pretos maneou a cabeça na direção da recepção da administração, fazendo o amigo olhar para o mesmo lugar.
De costas e com um alto rabo de cavalo com os cabelos ruivos presos nele, achou nunca ter visto aquela garota na vida. Ela estava finalmente sem a multidão ao redor dela já que ninguém tinha permissão de entrar ali sem justificativa, sentada numa poltrona e folheava uma revista extremamente calma, mas logo levantou e entrou na coordenação ao ser chamada, nem parecendo a abelha rainha fugitiva da Polícia, corrupta que bate em pessoas e derruba rainhas, além de extorquir dinheiro e manter animais em cárcere privado. Apenas uma adolescente normal querendo saber em qual sala ficaria no primeiro dia de aula.
Mas foi quando ela saiu da sala que arregalou os olhos ao vê-la olhando para a frente e encarando todas as pessoas que a esperavam. Mesmo que o rosto não lhe fosse assim tão familiar por conta da escuridão que estava quando se conheceram, aquele brilho avermelhado nos olhos era inconfundível, fazendo-o bater em com o cotovelo repetidas vezes para ver se ele havia percebido a mesma coisa.
Era ela, aquela infeliz satânica, grossa e ingrata. E apesar de estar calma há dois minutos, ela demonstrou mesmo ser toda a tirana que achavam que era quando foi travada pelos alunos em seu caminho até a classe e ao respirar fundo, falou pela primeira vez desde que foi vista e não precisou de nada mais para calar todo o resto dos corredores com a voz grave que ecoou pelo campus.
― Vocês podem, por favor, saírem da minha frente e me deixarem passar? E parem de me seguir também. ― a dona dos cabelos vermelhos juntou as sobrancelhas na direção daquele bando de stalkers, que assustados aos poucos abriram caminho para que ela andasse. ― Obrigada.
E, após dizer isso ela foi até as escadas, as subindo calmamente enquanto o Colégio emergia no mais absoluto silêncio. Até ela sumir pro próximo andar, claro.
― Isso é péssimo. E eu tenho um péssimo pressentimento sobre essa garota. ― murmurou vendo o caos que voltava a reinar entre todos os alunos.
― Não exagera, a gente nem a conhece. Quer dizer, tá que ela não é a pessoa mais simpática do mundo, mas você ia ficar feliz com dois estranhos invadindo a sua casa no meio da noite sendo que você é uma mulher e mora sozinha? ― tentou fazer o amigo cair em si, mas na verdade era meio impossível já que ele havia colocado em sua cabeça que a desconhecida era a filha da besta ou algo assim.
― TEVE MOTIVO, TÁ!
A bagunça toda foi interrompida pelo barulho do sinal que anunciou o início do dia letivo, fazendo-os suspirarem desanimados e não terem outra opção senão ir para a classe. o fez completamente incomodado. Estava com receio de subir e ser obrigado a vê-la no corredor, mas suspirou aliviado quando ao terminar as escadas, ela já havia sumido para dentro de uma das salas.
Nem passou na sua cabeça que talvez a sala a qual ela estivesse entrado pudesse ser a mesma que a sua… Mas para sua sorte, não. Não havia ninguém novo sentado próximo a janela, porém também não havia ninguém sentado em lugar nenhum porque estavam todos na porta da classe do fim do corredor, provavelmente a olhando.
― Relaxa, cara, eles vão se acostumar com ela e isso logo para… ― murmurou ao se sentarem um do lado do outro, fazendo o suspirar e dar de ombros, pegando o caderno de dentro da bolsa e o jogando em cima da mesa para se preparar para a prova.
― Espero que você esteja certo dessa vez… ― murmurou ao ver o professor entrando e olhando por toda a sala, para logo depois arquear uma das sobrancelhas e sair novamente.
― Eu estou, pode confiar.

♣♣♣


― É aqui que eu vou ficar? ― questionou ao entrar na classe e encontrá-lo em pé ao lado da lousa e próximo a porta, após ver que na parede acima da entrada havia o número que haviam lhe dado na secretaria ao qual deveria ir.
― Na verdade, não, aqui é a quarta classe. Eu só precisava dar um aviso e queria te encontrar antes pra você não acabar sentada no fundão da outra classe e ignorar o meu pedido de se apresentar formalmente. ― o Kim sorriu marotamente com aquele comentário, a fazendo revirar os olhos e cruzar os braços na frente dos seios, lhe olhando feio. ― Você fica ainda mais fofa com essa expressão. ― falou sussurrando com a mão acima dos lábios, já que todos ainda estavam prestando atenção nos dois e então começou a rir com a expressão dela que piorou ainda mais.
― Me diga logo aonde é que eu tenho que ir, inferno. ― resmungou irritada, batendo levemente uma das mãos na coxa de tão impaciente que estava.
― Vamos lá, eu tenho uma surpresa pra você. ― que a mulher nunca descobrisse que ele só queria ir com ela até a classe para ver a cara que ela faria quando visse deitado em uma das mesas mais ao fundo provavelmente dormindo como costumava ver. Ele era péssimo em Línguas e também não demonstrava muita animação em suas aulas…
― Olha lá a merda que você vai fazer,
― Eu não vou fazer nada, só estou te levando para a primeira classe. Mudei sua classe hoje só pra você assistir minha aula primeiro. ― o moreno fez um bico chateado nos lábios. ― Você tem que confiar mais em mim, sinceramente. ― o rapaz parecia chateado com aquele comentário enquanto parava na porta da sala para sair e esperar toda a multidão se dispersar.
― M-Me desculpa, . ― suspirou, tão nervosa com tudo o que estava acontecendo em sua volta que nem percebeu que aquilo era só drama. ― Eu estou… ― se interrompeu em cogitar falar qualquer palavra que demonstrasse o que estava sentindo porque já era ridículo o suficiente estar fingindo ser uma adolescente, quem dirá estar nervosa por isso… ― Qual a diferença de quarta e primeira classe?
― Ansiosa, nervosa, eu sei. Vem, o dia vai passar rápido e eu te levo pra casa depois e te explico no caminho, tá?
Isso se ela não lhe matasse quando entrasse na turma… Enfim chegaram a sala da primeira classe, onde a amiga fez questão de entrar na sua frente e não pode reprimir um sorrisinho de canto ao vê-la congelar os passos assim que encostou na lousa e olhou para frente, encontrando dois rostos conhecidos que lhe fizeram amaldiçoar muita coisa naquele momento. Claro, claro que o seu “amigo” faria aquilo de propósito. Ele realmente não tinha mais o que fazer da vida…
por sua vez ao ouvir o silêncio total na sala e sentir as várias batidas frenéticas de no seu ombro, ergueu o olhar e ao vê-la ali apertou a caneta com uma força tão grande que pode ouvir um pequeno estalo, sinalizando que ela estava pra quebrar. Voltou a si com o baixo barulho e deixou que seus olhos escuros a encararem sem pudor algum. Não era uma pessoa exatamente intimidadora, mas a sua expressão séria e olhos cerrados demonstravam quando não gostava de alguma coisa, e definitivamente não estava gostando daquilo.
― Bom dia, classe. Antes de aplicar nosso teste, eu acho que todos já perceberam que nós temos uma aluna nova e a partir de hoje ela irá frequentar as aulas com vocês. Por favor, se apresente. ― o professor olhou para de soslaio enquanto ajeitava sua pasta na mesa, sorrindo encorajador e recebendo de volta apenas um olhar fulminante de puro ódio.
― Meu nome é e eu tenho 17 anos. Por favor cuidem bem de mim. ― abaixou levemente as costas e então levantou, mantendo o olhar em qualquer lugar que não fosse naquele infeliz de cabelo de cuica descolorida.
― Alguém quer perguntar alguma coisa? ― ofereceu a oportunidade com um sorriso largo, ignorando o fato dela estar quase pulando em seu pescoço.
― Quero saber quais são as recomendações dela pra ter entrado aqui tão facilmente. ― uma garota de cabelos loiros curtos e olhos castanhos bem abertos perguntou, claramente julgando a mulher de cabelos vermelhos da cabeça aos pés e fazendo comemorar internamente.
― Não é óbvio? Ela deve ser muito rica. ― outra voz sussurrou de longe, arrancando risadinhas de algumas pessoas.
― Bom saber que você é adivinha e soube que foi muito fácil pra mim entrar aqui. Quando precisar dos seus serviços eu farei questão de pedir. ― a respondeu com um sorriso sarcástico e tom ainda pior, já dando o primeiro passo para ir até a última carteira vazia do fundo da classe.
― Eu mesmo a recomendei. é extremamente inteligente, fala três línguas e é considerada uma gênio com QI de 140, além disso, ela é muito boa na minha matéria e nos conhecemos porque ela ganhou uma competição de poesia há alguns meses atrás. Espero que não haja mais dúvidas sobre seu currículo e que não achem que as pessoas chegam até aqui por dinheiro. ― enquanto a sala a olhava com uma cara completamente estagnada, praticamente surtava ao ver que noventa por cento daquilo que o amigo falava era mentira, praticamente se desesperando enquanto ele sorria calmo.
― E-Eu já posso me sentar? ― questionou baixo, olhando para o mais alto completamente desnorteada. Estava com medo de alguém perguntar mais alguma coisa e dizer que esquecera de mencionar que ganhou o Nobel por algum motivo sem sentido.
― Sim, por favor, sente-se ao lado de . Hoje a prova é em dupla, e eu quero que você a faça com ele.
estava aceitando as coisas bem até agora, mas lembrar que era o mesmo nome de seu vizinho e que iria lhe obrigar a sentar e estudar com ele era demais. Parou no corredor e olhou para trás questionando o juízo do Kim com o olhar, que apenas abriu ainda mais o sorriso.
― Acho que ela não sabe quem é. , você pode erguer a mão, por favor?
se aproximou rapidamente da mais baixa e sorriu para , levando uma das mãos até seu ombro e o apertando levemente. E naquele momento tanto ela quanto ele souberam que não tinham outra opção senão obedecer e aceitar o que o mais velho estava mandando.

♣♣♣


Já era hora da saída quando saiu da classe pela primeira vez, já que nem ao menos saíra para comer alguma coisa durante o intervalo. Sentia todo o seu corpo doendo, principalmente suas costas por estar tanto tempo sentada naquela cadeira dura e seu pescoço de ficar tanto tempo com a cabeça abaixada. Estava tão desacostumada àquilo que sentia todos seus músculos chorarem quase mais que sua alma.
Aquela tortura só não era pior do que passar por tudo isso sentada durante o dia inteiro ao lado de , como descobriu ser o nome completo da pestinha durante algumas das chamadas, já que depois da aula de , quando visava alcançar sua tão adorada carteira aos fundos da classe, os professores não lhe deixaram nem mesmo sonhar em se levantar e teve de ficar durante todo o tempo aguentando aquele olhar de ranço que ele lhe direcionava.
Claro que não deixava barato, afinal, se estava vestida e tinha que parecer uma adolescente, fingiria que era uma e a cada oportunidade direcionava um olhar de nojo para o mais alto. Estava até mesmo se sentindo a própria Regina George, mas ele merecia! Cara babaca que achava que tinha que ser simpática porque ele invadira a sua casa no meio da noite…
Mas agora, agora era a hora de sua vingança. Não havia assistido a escola toda ir embora - com exceção de alguns stalkers meio doidos que continuavam lhe esperando na pracinha, achando que não estava vendo nenhum deles atrás das árvores - e não estava esperando há meia hora na porta da sala dos professores para não proferir todos os palavrões que conhecia na direção do dono dos cabelos escuros.
― SEU DESGRAÇADO! ― esse foi o primeiro assim que a porta se abriu e ele saiu sorridente, com uma pasta na mão. O sorriso aumentou assim que ouviu isso e ele direcionou o olhar até a mais baixa.
― Oi, nenê, fala isso baixo, por favor. ― o maior levou o indicador em cima dos seus próprios lábios ainda sorrindo e olhando de soslaio para todos os alunos que ainda os observavam de longe. ― Achei que você tinha ficado com raiva o suficiente pra ir sozinha, se não tinha saído quando o sinal tocou.
― Para de ser cínico, é justamente por causa da raiva que eu estou que eu te esperei esse tempo todo e você sabe muito bem. ― seu maxilar se travou ainda mais, fazendo a carranca piorar consideravelmente.
― Então eu vou te levar pra casa, eu te alimento e você vê se ainda vai ter vontade de me xingar enquanto come. ― o Kim piscou um dos olhos para a dona dos cabelos vermelhos e começou a andar logo depois, mal a esperando.
― Pode apostar que vou!
O caminho foi silencioso e entendeu ao passarem pela entrada da escola que não deveria estar fazendo aquilo. Apesar de não haverem superiores como em colégios normais, a administração da cidade saber sua situação e nem mesmo haver quebra de ética ou coisas mais sérias por ser uma mulher de vinte anos, todos pareciam abrir as janelas e os olhos conforme os viam passar.
Que todos achassem que havia feito uma cagada muito grande e seria advertida. Agradeceria muito.
Enfim chegaram na casa e uma das poucas persianas que não se abriram era a vizinha a si, a que vinha depois da sua. Estava quase completamente trancada se não fosse uma janela lateral provavelmente de um dos quartos, mas o tipo de cortina estava fechada e a luz do quarto podia-se ver que estava apagada. Talvez um daqueles tapados houvesse esquecido…
Quando viu, saía do banho com uma roupa bem mais confortável consistindo em um short mais curto do que a camiseta que usava e já estava na sua cozinha com um avental, quebrando alguns ovos que havia pegado em sua geladeira sem nem mesmo pedir permissão. Jogou-se no sofá sem ânimo até mesmo de brigar com o amigo. Aquele primeiro dia de aula havia sido pior do que todos os outros, aquilo tinha sugado sua alma.
― Você não vai me oferecer ajuda? ― ele perguntou provocativo ao ouvir o gemido de desaprovação que ela soltou. ― Ou nem me xingar ou falar que eu sou um filho da mãe?
― Estou cansada demais até pra isso. ― se virou no móvel, deixando o rosto contra o tecido macio e bocejando. ― Mas por que você fez aquilo, seu babaca? Só queria me zoar?
― Na verdade, não, tem um motivo. Lembra que eu disse que ia te explicar sobre o sistema de classes de Qar mais tarde? ― apenas soltou um barulho indescritível que ele tomou como um sim. ― Então, está na hora. Em Qar, você percebeu que nós temos quatro prédios no centro da cidade? Um deles é o administrativo, só é chamado assim porque os professores, poucos comerciantes, seguranças e médicos moram lá. O segundo é o prédio onde algumas poucas crianças estudam, isso é um projeto novo. O terceiro é o segundo maior prédio, é reservado para as pessoas que tiveram as notas mais baixas e médias no teste de admissão para Qar. Ele tem três áreas entre humanas, exatas e biológicas que são de escolha do aluno.
― Tá certo, e daí?
― O prédio principal, no meio, é o maior prédio da cidade, para aqueles que tiveram a maior nota nos testes aplicados quando chegaram aqui. Todos seus alunos não podem escolher apenas uma especialidade, pois são obrigados a aprender todas a fundo e não há tempo exato para se ficar nele. Nós temos nosso próprio sistema de separação de classes e avaliação de alunos.
― Tá, e o que isso tem haver com o fato de você ser um boboca e me fazer passar o dia todo do lado daquele embuste? ― o fato de ainda estar acordada sinalizava que ela estava no mínimo curiosa e interessada, só não sabia no quê. ― Ignorando o fato de você ter me colocado no pior lugar de todos.
― Calma, eu já ia chegar lá, sua apressada. E é o melhor lugar, de nada. ― ele revirou os olhos como se ela fosse uma estraga prazeres. ― Então, os alunos com as melhores notas da nossa escola ficam na Primeira Classe. Ela é formada por 10 alunos e nossa escola tem apenas setenta, então você já deve ter entendido que é bem raro conseguir entrar nela.
― POR QUE DIABOS VOCÊ ME COLOCOU NESSA CLASSE? ― a mulher sentou com os joelhos no sofá, apoiando as mãos no encosto do móvel e olhando para o mais velho com os cabelos bagunçados, o fazendo rir.
― Você é inteligente, , pra você manter o nível é fichinha. ― desviou da almofada que ela lançou em sua direção.
― EU NÃO QUERO ME ESFORÇAR, NÃO LEMBRO NEM COMO FAZ DIVISÃO DE DOIS NÚMEROS! ― a fez um bico ofendido e mimado, sinceramente já havia se formado uma vez e não estava nem um pouco disposta a se matar de estudar para se formar pela segunda.
― ME DEIXA TERMINAR! Aff, enfim, se você não alcança a meta da classe, você é rebaixado para a classe dois, e assim consecutivamente até chegar na classe sete. Caso você não atinja as notas da classe sete, você é transferido para a outra escola e é praticamente impossível voltar para a nossa. ― explicou como o professor que era enquanto a outra se esforçava para manter-se de olhos abertos. ― o alcançou a nota em todas as matérias, menos na minha. Ele é inteligente no nível da Primeira Classe, mas tem dificuldade em Linguagens e caso não atingisse a média, seria rebaixado.
― E o que diabos eu tenho haver com isso, veado? ― a expressão da menina se fechou de novo quando o nome do foi citado.
― Você é fluente em inglês, lindinha, eu sabia que você ia tirar a nota máxima. ― o Kim jogou uma pitada de sal no peixe, e foi então que a ficha da mais nova caiu e ela abriu a boca indignada.
― Você me usou pra ajudar aquele imbecil? ― o rosto dela ficou vermelho aos poucos, enquanto o outro apenas começava a rir baixinho.
― Em partes. A parte boa é que ele não é o melhor em exatas, mas com certeza é melhor que você. Você pode pedir pra ele retribuir o favor. ― dessa vez ele não conseguiu desviar e levou a almofada bem no meio da cabeça, ao menos estava de costas.
― Eu devia te expulsar da minha casa e nunca mais olhar na sua cara. ― ela falou completamente atônita com todo o plano mirabolante que o infeliz havia tramado, além de cogitar a possibilidade de que pediria ajuda para o embuste.
― Mas você não vai porque você quer comer meu peixe. ― piscou um dos olhos na direção da estática amiga que lhe olhou com uma expressão de noho. ― Sabe, , você está fingindo bem demais.
― Hã?
― Você realmente parece uma adolescente ofendida e imersa em problemas fúteis da idade. É bom te ver tão leve e despreocupada com coisas sérias. ― o rapaz não pode deixar de sorrir para si mesmo enquanto falava aquilo, levando a forma até o forno.
― A-Ah, isso… ― ela que não ousaria falar que não era fingimento. Na verdade, ele estava certo. Ao menos servira para distrair sua cabeça daquilo que realmente tirava seu sono. ― Eu sempre me entrego aos meus papéis, você sabe disso.
― Cuidado pra não confundir a realidade com a fantasia, . ― aconselhou olhando para trás agora com a expressão mais séria, fazendo a mulher suspirar.
― Eu nunca faria isso.



III - Dumb Dumb

Fora no último dia da semana que começara a sentir o peso e medir a dimensão de tudo o que estava acontecendo e de onde realmente estava. Era como se sua ficha realmente estivesse caindo enquanto descia calmamente as escadas do primeiro andar para ir até os fundos da escola, onde ficava o ginásio e devia se preparar para a aula de educação física.
As visitas de eram corriqueiras e já virara um acordo não verbalizado entre os dois que o garoto deveria levá-la para casa todos os dias e alimentá-la decentemente, em pedido de desculpas por agora ela e serem dupla - ou trio dependendo da situação - em praticamente todas as atividades em grupo e ainda terem que sentar lado a lado.
Aparentemente, após fazê-lo tirar a nota máxima naquele teste os professores ficaram surpresos com a boa influência que era e decidiram que eles formavam uma boa dupla sem perguntar qual era a vontade deles e mesmo que nem dirigissem a palavra um ao outro. Mas se havia alguém que parecia mais infeliz do que si mesma com aquela situação, com certeza essa pessoa era .
Naquela uma semana, pôde observá-lo bem e perceber a diferença quando ele estava ao seu lado e quando ele estava longe de si. Era como se fosse duas pessoas diferentes, mas sinceramente falando, ela não se importava nem um pouco. Aquilo era tão coisa de adolescente birrento e isso claramente ela não era, ou pelo menos achava que não.
No presente momento eles eram dupla em todas as matérias que já passaram trabalhos em grupo e contando, porque quando chegou no ginásio a primeira pessoa que viu foi parado ao lado de , o professor de esportes, ambos trocando sorrisinhos maldosos que fizeram um arrepio ruim subir por sua espinha. Sabia que aquilo não era boa coisa e com medo de que a bomba estourasse em seu colo, procurou um dos lugares vagos no fundo da arquibancada bem camuflada atrás de alguns alunos altos para que pudesse se esconder melhor.
― Então, classe, eu e o Professor temos conversado essa semana e tivemos uma ideia de motivá-los na aula de educação física, já que como nós sabemos vocês estão quase sempre mortos. ― com exceção de algumas garotinhas que faziam questão de se esforçar apenas para tentar chamar a atenção do professor, mas isso ele preferia não citar. Infelizmente, mesmo com a notícia a animação dos alunos não parecia ter melhorado muito. ― Dentro da urna vocês irão pegar as bolinhas que são de cor amarela, vermelha, azul e verde. Quem pegar a bolinha vermelha irá competir contra o time amarelo e quem pegar a azul irá competir contra a dupla verde.
― E o que a gente ganha com isso? ― uma voz masculina não identificada gritou entre o pequeno aglomerado de dez alunos.
― Como nós imaginávamos que vocês precisariam de um incentivo maior, nós combinamos que a dupla que ganhar vai poder usar o terraço para o que quiser e como quiser por um final de semana todinho. ― aquilo, para a deixar ainda mais confusa, pareceu deixar praticamente todos ali se entreolharam com um fogo que nunca os vira ter em momento nenhum por ali, inclusive sentado algumas cabeças mais afastado de si.
Apesar disso ninguém se atreveu a soltar nenhuma exclamação muito alta, e só se ouviu alguns burburinhos e sussurros entre amigos, afinal, além de e , passeava pela quadra livremente e com o olhar afiado na direção dos alunos, observando o comportamento deles concentradamente. não demorou para passar com as bolinhas dentro de uma urna e só prestou atenção para cruzar os dedos discretamente e pedir aos céus que não saísse com a bolinha da mesma cor de , porque aquele complô apenas já era o suficiente.
Para que respirasse aliviada, pegara uma bolinha de cor azul que logo foi completada por uma outra garota de sua classe. Já podia reconhecê-la de costas por conta dos cabelos platinados que caiam retos e lisos até sua cintura. Se bem lembrava, ela se chamava e não parecia ir muito com a sua cara, mas se bem que pensando um pouco ela não parecia ir com a cara de ninguém, já que nunca a vira conversando com nenhum dos colegas de classe a não ser , ao qual fora forçada a fazer dupla quando o lugar ao lado de tornou-se seu.
Aparentemente pelo o que havia dito, era a dupla da pessoa a qual fora embora e lhe dera a vaga, então estava “sobrando” há mais ou menos dois meses, geralmente fazendo trio com algum grupo aleatório. Finalmente o número de alunos tornou-se par de novo e puderam dividir a classe em cinco duplas, o que a levava ao ridículo torneio que lhe deixara feliz ao pegar a vermelha, mas acabou com qualquer animação que surgiu em si quando viu a outra pessoa que havia tirado a bolinha vermelha.
Apesar de não ser a pior opção possível, continuava sendo tão ruim quanto qualquer outras sete pessoas daquela classe, mas pelo menos parecia que sua sexta ia ser no mínimo engraçada. , assim que viu que também segurava uma bolinha vermelha e que ela olhava para ele com uma sobrancelha arqueada, engoliu em seco tão em choque que ela pode ver exatamente a onda que foi feita em sua garganta, lhe fazendo segurar uma risadinha maldosa que quis sair. Na cara de pau, o garoto tentou trocar de bolinha com que apenas saiu correndo e se sentou ao lado de , fazendo o corpo de se enrijecer medrosamente.
― Por favor, sentem ao lado da sua dupla… ― enquanto continuava com o discurso, apenas se ocupou em levantar e andar tranquilamente até onde estava, já que ele se mantivera completamente paralisado na primeira fileira da arquibancada. ― Nós vamos jogar queimada, vai ser um torneio com todas as classes.
― Queimada, sério? ― questionou o professor com uma sobrancelha arqueada, que apenas respondeu com um sorriso amarelo.
― Por que não? ― comentou com um sorriso de canto maldoso. A graça era ver as bolas voando na cara e toda aquela violência que explodia nos adolescentes competitivos.
― Não podia ser algo mais educativo? ― enquanto o pequeno debate se iniciava entre os mais velhos, se concentrava em respirar baixinho e discretamente para que sua presença fosse o menos notada possível.
― Você pode parar de segurar a respiração, eu não vou te agredir ou nada assim. ― murmurou revirando os olhos com tanto medo que emanava do rapaz. Ela estava folgadamente recostada no banco detrás e de braços e pernas cruzados, encarando o horizonte com uma expressão irritada.
― E-eu não estava pensando isso! ― o rapaz colocou ambas as mãos espalmadas a frente do peitoral em sinal de rendição, fazendo com que a sobrancelha da dona dos cabelos vermelhos se erguesse ainda mais.
― Ah, não mesmo? ― apontou com o dedo indicador para a posição a qual o se encontrava, completamente na defensiva, sorrindo de canto sarcástica. ― Você pode relaxar, meu problema não é com você.
― Ele não devia ser com o , também… ― soltou baixinho, receoso de que defender o amigo para ela pudesse ocasionar em algum cascudo. ― Ele é meio infantil às vezes, mas não é uma pessoa ruim. Se você o desculpasse, vocês podiam ser amigos, já que sempre estão juntos nas aulas...
― Ele nunca pediu desculpas para que eu o desculpasse. ― a respondeu ofendida, fechando os olhos e voltando a cruzar os braços em sua pose tão costumeiramente despreocupada.
― Se ele pedisse, você desculparia? ― os olhos do mais novo até mesmo brilharam levemente com a possibilidade. Afinal, era sempre melhor você manter os inimigos - ou só quem parece ser - como amigos, assim a fúria dele não te atinge.
― Bom, seria muito fácil, não é?
não entendeu porque após falar isso ela se levantou até que viu que havia tirado a bolinha vermelha para começar com os jogos. Respirou fundo e se levantou também, já que não tinha outra escolha senão obedecer.

♣♣♣


Louco era a palavra que descrevia como estava ficando com exímia perfeição. Hoje completava um mês e três dias desde aquela sexta-feira a qual sua irmã havia sumido completamente sem deixar nenhum vestígio além de levar todas as suas roupas e uma boa quantia em dinheiro e em joias, e claramente arrombar uma parte de seu coração que ficou completamente despedaçado ao entender que ela tivera coragem de lhe abandonar.
Não estava com raiva e nem magoado, entendia completamente o lado da irmã, mas se questionava porque ela não lhe contou e não lhe chamou pra ir consigo. Por quê?! Se não se importava de largar toda a vida que tinham para trás, podiam ser felizes juntos e sem toda aquela pressão em viver bem com o assassino de seus pais para manter as aparências. Apenas não fizera isso antes porque achava que ela nunca aceitaria, e agora ela mesma havia feito e sem nem deixar um bilhete para si avisando aonde estaria.
Não entrava na sua cabeça porque ela sumira sozinha e era por isso que sua mente começou a cogitar outras possibilidades… Talvez ela não tivesse fugido? Assim que chegou na casa de seu tio, se jogou no sofá da sala para tentar acalmar sua respiração e o seu coração após andar até lá. Não viu quanto tempo passou, mas ao menos agora seu peito subia e descia em um ritmo moderado, mas seu coração continuava apertado.
― Você já está aqui tão cedo? ― o homem questionou ao descer as escadas e encontrar o rapaz deitado no sofá com os olhos inchados focados no teto branco. ― Não dormiu essa noite de novo?
― Eu a procurei em todos os lugares. Já faz um mês e três dias. ― apesar do tom de voz calmo, podia-se sentir a agonia na voz de , que respirava fundo tentando manter-se são. ― Eu vou chamar a polícia, não aguento mais não saber onde ela está e se ela está bem…
― Não, eu já disse que não é prudente fazer isso! Se você chamar a polícia, tudo vai cair na mídia e os vão descobrir que ela fugiu. ― o tio respondeu tranquilamente, sentando na poltrona ao lado do sofá onde o outro estava deitado. Como esperado, ele não se importava em procurá-la, apenas em manter as aparências.
― Como você tem certeza que ela fugiu? A é daquele jeito, mas é só uma garota! Ela não sabe se defender sozinha. ― o mais velho se manifestou, sentando no sofá e esfregando uma mão na outra. ― Nós temos que mobilizar uma busca pela minha irmã.
― Eu sei que ela fugiu e acho que ela vai acabar voltando sozinha uma hora ou outra, quando o dinheiro acabar. ― o mais velho revirou os olhos com todo aquele desespero do sobrinho. Se fossem alguns meses atrás, sinceramente se livrar de tão facilmente seria uma benção, pois ai só lhe restaria se livrar de e com a irmã sumida seria fácil já que ele estaria mentalmente instável. Mas agora que achou um jeito de tirar proveito da existência daquela maldita, ela resolveu sumir… ― Mas se você faz tanta questão, eu vou dar um jeito nisso. Vou contratar alguns detetives discretamente, e qualquer informação eu aviso você. Acredite, eu estou tão interessado em achá-la quanto você.

♣♣♣


― Então vamos lá, semifinais!
organizava animadamente os próximos rounds enquanto descobria que a presença de não era tão ruim quanto ele achara que podia ser. Na verdade, depois deles ganharem o segundo embate há cinco minutos e sair um high five bem atrapalhado que fez automaticamente ao se classificarem, eles até mesmo estavam se sentindo mais confortáveis próximos um ao outro.
― Sabe, você é mesmo boa nisso. ― murmurou um tanto emburrado como uma forma de dissipar o silêncio constrangedor que pairava entre os dois.
― Obrigada. ― a ruiva agradeceu naturalmente, nem mesmo movendo os olhos que estavam fixos na quadra, analisando os colegas de classe se preparando para a primeira semifinal. ― Você também não é tão ruim quanto eu pensei.
O não soube bem se aquilo era ou não um elogio, por isso que resolveu ficar calado, mas balançou a cabeça positivamente para que ela não achasse que estava ignorando. provara que realmente não tinha problema nenhum consigo, o negócio mesmo era que entrava em quadra no momento. No final, era até mesmo fácil de lidar: o que perguntasse ela responderia, mas tinha medo por que nem sempre a resposta é exatamente aquela que se quer ouvir.
― Sabe qual é o segredo? ― o coreano arregalou os olhos ao ouvi-la questionando, mas por um momento ficou até empolgado em vê-la falando por iniciativa própria.
― Não, qual é? ― perguntou curioso, observando a garota que ainda encarava o quarteto se aquecendo por ordem do professor.
― Eu sou muito competitiva. Detesto perder, principalmente pra pirralhos. ― essa última parte saiu tão inconscientemente que nem mesmo percebeu que entregou o fato de ter mentido sua idade alguns dias atrás. ― Então acho bom você não estragar tudo. ― finalmente virou o rosto na direção onde sua dupla estava, desfazendo o sorriso de canto para ostentar uma expressão ameaçadora de sobrancelhas e cenho franzido.
Tudo o que havia pensado caiu por água a baixo completamente com aquilo e seus olhos se arregalaram. Meu Deus, que mulher assustadora! Tentou balbuciar alguma coisa que a respondesse, mas na verdade ele internamente sabia que ela estava certa e podia mesmo acabar fazendo cagada em algum dos jogos que tinham pela frente.
― Cara, relaxa! ― a suavizou a expressão e começou a rir do desespero do que apenas ficou ainda mais confuso. ― Eu só tô brincando com você, garoto. Já disse que não vou te agredir nem nada assim, que medo é esse que você tem?!
― PARA, você é assustadora! ― o choramingou chateado, cruzando os braços em cima do peitoral. ― Você não parece uma adolescente de dezessete anos!
Aquilo apenas fez rir ainda mais, porque na realidade ele não estava errado. Enquanto isso de longe observava a interação sem ouvi-los, mas pra ele nem precisava escutar. Já estava pistola o suficiente apenas por vê-la rindo da cara de tacho de seu amigo que até mesmo soltou um sorrisinho ou outro aleatoriamente. Aquilo podia ser considerado alta traição? Claramente que sim! Não podia deixar nunca uma pessoa tão ingênua quanto o ao lado da inimiga, mas o que podia fazer naquela situação…
Mesmo assim ainda achava que o amigo fora muito volúvel e isso internamente lhe revoltou. Ia puxar aquelas orelhas até que ele se lembrasse que devia se manter longe e odiando a praguinha, não de conversinha e rindo com ela, distribuindo high fives só porque haviam ganhado uma queimada idiota. Pegou a bola que estava usando pra treinar e mirou bem nas pernas de , para que aquilo servisse de aviso do que ele iria enfrentar mais tarde.
O problema é que a mira de nunca fora algo que ele realmente se orgulhava, e no meio do caminho pareceu até mesmo que uma mão invisível desviou o caminho da bola um pouquinho para que ela fosse exatamente na direção do rosto de que não teve como desviar por estar distraída virada para o outro lado. A maldição da bola acabou batendo exatamente na lateral do rosto da garota que se avermelhou na mesma hora, e pior: a ruiva levou a mão automaticamente até o nariz que começara a sangrar.

♣♣♣


Não houve jeito algum: mesmo com todas as ameaças que fizera de que o mataria assim que tivesse a oportunidade - e a presença dos professores não a inibira nem um pouco, ainda lhe obrigara a ir até a enfermaria com ela e cuidar do machucado que fizera. Ele não sabia nem um pouco como fazer isso, mas o fato era que a vermelhidão na área atingida estava ainda mais forte agora e o nariz da garota não parara de jorrar sangue até o presente momento.
― É s-sério, eu juro que…!
― SSHHH, SHHH, cala essa boca, garoto! ― entrou na enfermaria completamente transtornada, por sorte não havia mais ninguém ali além dos dois para ouvir os quase gritos da ruiva que rapidamente foi até a pia para lavar o rosto e o nariz, que secou meio de qualquer jeito com um papel toalha.
― Mas eu não fiz de propósito! ― claramente não conseguiu ficar quieto com o jeito rude da mais velha, lhe olhando feio e cruzando os braços enquanto ela procurava nos armários algo para estancar o sangramento.
― Ah tá, e você queria acertar quem? Seu melhor amigo? ― ela olhou feio para trás por alguns segundos, mostrando o inchaço no rosto. ― Fica quieto logo e não discute, você é mais útil assim. ― ela finalmente achou algumas gazes e também abriu a geladeira para encontrar uma compressa gelada.
― H-Hey, você não me deixa ser útil! Eu deveria estar cuidando de você! ― o correu até a geladeira para tentar pegar a compressa antes da dona dos cabelos vermelhos, mas foi em vão.
― Ah, claro, você quase quebra meu nariz e agora quer que eu te deixe cuidar dele? ― sentou-se numa poltrona num dos cantos do local, segurando um pouco da gaze na entrada da narina com uma mão e a compressa praticamente congelada contra a bochecha inchada, xingando baixo ao sentir o primeiro contato da pele quente contra o gelo.
― Me deixa pelo menos segurar isso aqui! ― não esperou permissão alguma da ruiva para colocar a mão na compressa por cima da mão da garota e apertá-la.
― A-ai! ― a fechou os olhos com força e tirou rapidamente a mão que estava por baixo da do rapaz, cortando o contato entre eles. ― Se vai fazer isso pelo menos faz direito! Não precisa apertar tanto. ― por um pouco ela não soltou um palavrão, mas acabou respirando fundo para segurar.
― M-Me desculpe… ― o arregalou um pouco os olhos com o que havia feito, tentando não demonstrar seu nervosismo. Se sentou na cadeira de acompanhante ao lado da poltrona que a garota estava.
Podia ouvir suavemente as batidas do coração dela completamente aceleradas provavelmente pela raiva e adrenalina que passara. era uma pessoa muito estressada, mais ainda do que achara quando se conheceram na casa. Mas ela parecia bem relaxada com mais cedo, mesmo que a personalidade ainda fosse difícil… Ela parecia estar sempre pressionada ou fugindo de algo, preocupada. Talvez fosse só uma tensão natural causada pelo gênio forte, ela não devia gostar nem quando as pessoas olhavam pra cara dela…
teve que esperar cinco minutos naquela mesma posição até sentir que a respiração e o coração dela estavam finalmente mais calmos. Ainda estava meio receoso de tentar explicar a situação para ela, mas não queria deixar a situação como estava. Diferente do dia da invasão, dessa vez ele realmente não havia feito de propósito e não queria machucá-la, por mais que a achasse muito chata.
― Hey, eu juro que eu queria acertar o . ― o enfim criou coragem pra falar, recebendo um olhar hostil de soslaio da garota. ― É sério, eu estou irritado com ele. Me desculpe por ter te acertado.
― Olha só, você sabe pedir desculpas. ― forçou uma expressão surpresa que fez o garoto revirar os olhos e fechar o semblante, arrancando uma risada sarcástica dela. ― Eu vou fingir que isso não aconteceu porque infelizmente a taxa de assassinatos nessa cidade é nula e eu seria pega muito facilmente, então está desculpado. ― ela respondeu com um suspiro frustrado ao fim de sua fala e teve de se esforçar para manter a postura e não mostrar que ela lhe deixava com medo. ― Mas não pense que esqueci sobre você e seu amigo pulando o muro da minha casa.
― NÓS NEM SABÍAMOS QUE VOCÊ MORAVA LÁ!
― Como estão indo as coisas por aqui? ― abriu a porta da enfermaria com um sorriso simpático no rosto que teve de se segurar para que ele não se transformasse em um maldoso ao ver segurando a compressa no rosto de .
― Ótimas. Você pode me dar a permissão pra ir pra casa assim que o sangramento parar. ― a forçou um sorriso sem abrir os lábios para o mais velho, tentando não dar nenhuma abertura para piadinhas de mal gosto.
― Por quê? Você me parece tão bem. Nós achamos que você pode voltar para as aulas normalmente depois que o sangramento parar. Seu rosto já nem tá mais inchado. ― o amigo falou com um sorriso completamente simpático e feliz, balançando a mão no ar como se não tivesse nada demais.
― COMO ASSIM, ? ― por alguns segundos ao se levantar e encarar o coreano de frente, esqueceu-se completamente de que falar daquela forma informal ali com o amigo era completamente desrespeitoso e suspeito para , que afinal, achava que eles tinham uma relação de professor e aluna apenas. Quando comentou isso inocentemente
― Calma, … ― cutucou levemente o braço dela para que ela se controlasse enquanto observava a cena completamente confuso.
― Vai ser bom pra você se acalmar também. Extravasar as emoções no esporte! Inclusive, a punição do é que nós vamos trocar as duplas e vocês dois vão competir juntos. ― falou rindo para a ruiva, já estrategicamente se posicionando próximo a porta.
― Q-QUÊ? ELE QUE APRONTOU, POR QUE EU TAMBÉM ESTOU SENDO PUNIDA? ― a ruiva voltou aos berros, enquanto o se contentou em ficar quieto para acabar não piorando ainda mais a sua situação.
― Vocês não está sendo punida, . Pense bem, você pode usar isso como vantagem. ― voltou a falar com um sorrisinho de canto. ― Agora eu preciso ir, tenho aulas pra dar. ― ele disse antes de sair finalmente pela porta e deixar os três lá.
Apesar de acharem que faria o mesmo e deixaria os dois novamente à sós, ele ainda ficou pra assistir o suspiro derrotado de enquanto ela se jogava numa das camas para se deitar e manter a expressão enfezada, segurando a compressa contra o rosto que tinha a outra metade escondida por um travesseiro.
― Hey, , você já pode voltar às aulas normalmente e espero que não volte a repetir seu erro. ― falou na direção do aluno que ainda estava um tanto estarrecido, se perguntando o quão diferente ela era para poder agir daquele jeito e não ser punida…
― Eu não vou repetir! ― o abaixou levemente as costas na direção do homem e sorriu de canto, saindo logo após rapidamente. Sua respiração estava um tanto descompassada, a curiosidade crescendo em relação à batendo forte em sua mente.
Assim que ouviu a porta fechando e alguns passos se afastando, ele respirou fundo e se aproximou de onde a menina estava, sentando na cama da frente para pesar um olhar não muito simpático sobre ela que apenas arqueou uma das sobrancelhas com a ação do conhecido. Bem, sabia que o homem não tinha a melhor das impressões sobre si, mas não achara que ele realmente ia querer ter aquela conversa no meio da enfermaria…
― Sinceramente, , quando você vai parar de se meter em problemas? ― questionou com um suspiro desanimado, cruzando ambos os braços à frente do peitoral.
― Talvez quando os problemas pararem de me perseguir? ― ela respondeu com um pequeno sorriso de canto sarcástico, após suspirar demasiadamente desanimada em ter de entrar naquele assunto quando sua cabeça latejava por causa do impacto da bola que provara há alguns minutos.
O garoto se absteve a ficar em silêncio por longos minutos, apenas mantendo o olhar não muito amigável que tinha para com a mais nova. Não era como se a detestasse ou algo assim, apenas não concordava com a forma que tinha de agir e lidar com seus problemas. Mas como “seus problemas” era algo autoexplicativo em ser dela, ele apenas se contentava em observá-la de longe.
― O seu tio começou as investigações. Você sabe que ele pode te rastrear facilmente, não deve demorar até que chegue aqui. ― apoiou o queixo em cima da palma da mão, numa feição pensativa. ― O que pretende fazer?
― Sinceramente ainda não tenho um plano formado… Achei que isso ia demorar mais pra acontecer. ― a ruiva murmurou para si mesma, largando a compressa no pequeno criado mudo ao lado da cama que estava e se preparando para levantar. ― Mas eu não me importo, eu vou fugir de novo, me esconder. Qualquer coisa pra que ele não me ache novamente.



IV - Do you know what time is?

Quando eles ganharam da última dupla do Colégio, a classe deles praticamente foi ao delírio, com exceção de e da própria que estava completamente entediada. Os outros alunos entendiam que era uma obrigação da Primeira Classe vencer as outras, então já entraram derrotados e soltaram nada senão um muxoxo de frustração que logo se tornou de esperança e empolgação ao lembrarem que com o terraço liberado, provavelmente tinham uma festa a caminho.
Cada Colégio tem seu próprio terraço que atende suas próprias necessidades conforme o nível do local, então consequentemente, o da Orkan é o mais bem equipado e suprido. Em dias normais, os terraços não são nada mais que pequenos centros como os de uma cidade normal, oferecendo comida aos preguiçosos que não querem cozinhar, materiais escolares, maquiagens, roupas e até mesmo uma música aqui e ali, além de o principal terraço contar com uma praça de entretenimento e até mesmo lojinhas de lembrancinhas, como uma total cidade turística.
Porém, algumas coisas mudam em comemorações de festivais ou em situações como aquela, onde dois alunos tinham total domínio sobre como usariam o espaço e para seria maravilhoso se não tivesse que dividir cinquenta por cento de seu poder com aquela mulher assustadora, que no momento estava tranquilamente deitada num banco, com as pernas cruzadas e a cabeça virada ao céu que era tampado pelo livro que ela segurava a frente dos olhos e lia despretensiosamente.
Mesmo que já tivesse passado o choque inicial de sua chegada, ainda havia aqueles curiosos e mais insistentes que continuavam a perseguindo, fingindo que estavam estudando no jardim quando na realidade estavam a observando e alguns mais audaciosos até mesmo tirando fotos, o que achava no mínimo meio doentio, mas… Aquela pose dela de desinteresse e a aura de mistério eram mesmo um tanto fascinantes em um local onde as pessoas não tinham muito o que esconder, pois mal havia o que fazer.
Após o dia todo em companhia de , iniciar uma conversa com ela não era difícil, o problema era mantê-la em bons termos. não gostava de falar com pessoas as quais ele não tinha muita afeição - ou o contrário, se preferir ser sincero, ele detestava - e ela logo iniciava as provocações para que ele abominasse ainda mais sua presença. Porém, não era como se estivessem tendo escolha daquela vez, como na maioria das outras que tiveram que se falar.
― Ocupada? ― questionou com uma expressão entediada, parando atrás do banco de braços cruzados e olhando para a capa do livro que cobria o rosto da ruiva.
― Pra você? Sempre. ― nem mesmo precisou olhar para saber a quem aquela voz pertencia, mas em contrapartida nem mesmo moveu um músculo até ouvir o suspiro irritado do . ― O que foi, vai ficar me admirando? Se eu me esqueci de te enviar uma das pesquisas dos trabalhos, é só dizer logo que eu faço. Inclusive, podia só mandar uma mensagem, não falar comigo pessoalm-
― Você conhece os terraços? ― o ignorou completamente as palavras que ela soltava no ar para perguntar, arqueando uma das sobrancelhas.
― Não, mas se você está comentando sobre também não tenho vontade de conhecer. ― a sorriu de canto maldosa, orgulhosa de si mesma pela resposta, expressão essa ainda velada pelo livro.
― Você não sabe falar como uma pessoa civilizada? ― o perdeu enfim a paciência, batendo com as mãos levemente na madeira do banco e a apertando, fechando os olhos para manter seu controle.
― Você não sabe bater na porta como uma pessoa civilizada, por que eu tenho que saber conversar?
― Argh, eu desisto de você, sinceramente. ― deu as costas já pisando forte para sair dali. A presença da garota era tão irritante que conseguia acabar completamente com o bom humor do .
― Ei, espera! ― ele ouviu as palavras dela saindo entre risos satisfeitos por tê-lo irritado, o que apenas o deixou ainda mais furioso, mas mesmo assim parou para escutá-la. ― Se é sobre a recompensa por ganhar a competição, faça o que quiser com ela, não estou interessada. Eu venço pelo título, não pelo o que ele dá.

♣♣♣

nunca se arrependera tanto em sua vida de palavras que havia falado com tanta certeza. Era uma maldita noite de sábado, a qual tentava se concentrar em lembrar como calculava o volume de alguma forma geométrica que não lembrava o nome, mas não conseguia raciocinar nem mesmo para lembrar-se de seu próprio nome por conta do barulho ensurdecedor que era emitido da Orkan.
Nem mesmo estava perto da academia para que o K-Pop infeliz parecesse tão alto, mas conseguia ouvir perfeitamente o “shy shy shy” e a multidão gritando enlouquecidamente “Cheer up babe” como se estivessem em sua própria sala, mas sua casa ficava aproximadamente há dez minutos e seis ruas lotadas de repúblicas e casas de caminhada.
Se soubesse que usaria o “prêmio” para aquilo, nunca daria ele de mão beijada como o fizera de manhã. Como aquele maldito planejara uma festa daquela magnitude em apenas algumas horas? Como aqueles terraços funcionavam…? Devia tê-lo deixado explicar quando teve a chance, pelo menos o choque de realidade não viria tão nitidamente.
― Me likey likey likey likey ―
Meu Deus, ouvira uma voz cantando aquele negócio a qual estava conformada que grudaria em sua mente por mais três meses e jurava que não era si mesma, era possível que já estava assim tão dominada pela maldição do K-Pop? Mas se estava se esforçando para manter sua boca fechada e também jurava que era uma voz masculina que estava vindo de seu corredor, quem diabos estaria profanando sua sagrada casa com aquele som?
Se tivesse uma arma provavelmente a teria pegado agora, porque se pulara seu muro pela segunda vez apenas para lhe infernizar - aquele infeliz não estava na festa, afinal? - não teria dó em fazê-lo chorar um pouquinho. Mas não foi a imagem do que abriu a porta de seu quarto enquanto colocava as pantufas de coelhinho, e sim uma a qual já deveria ter imaginado por ser ainda mais familiarizada.
― Olha, sinceramente eu só não vou te agredir porque estou mentalmente e fisicamente esgotada para levantar. ― voltou a se jogar na cama, largando o calçado de qualquer jeito por ali.
― Meu Deus, pra nem mesmo dar uma xingadinha... você tá mesmo, viu. Muito esforço mental pra não cantar TWICE? ― questionou com um sorriso divertido, deixando a porta do quarto aberta e fazendo o som ser ainda mais alto. ― Vai, eu sei que você quer.
― Como diabos esse negócio é tão alto? PARECE QUE O RÁDIO TÁ AQUI! ― reclamou de novo, escondendo o rosto com o travesseiro apertando as orelhas. ― Aliás, como você entrou aqui?
― Talvez esteja, você nunca vai saber se não sair dessa cama. ― o garoto piscou um dos olhos maldoso, arrancando apenas um olhar de nojo da mais nova. ― Eu tenho a sua chave reserva, esqueceu que você deixou comigo pra emergências?
― Ai, maldito dia…
― Ah, para, não é tão ruim assim! Pensa que ao menos você não teve que levantar pra abrir a porta.
― O que você tá querendo aqui, afinal? ― a ruiva questionou com o tom de voz completamente desolado, só querendo abafadores de ouvido potentes àquelas horas.
― Ué, e o que seria? Eu vim te buscar pra festa. ― inclusive já tomava a liberdade de abrir guarda roupa da amiga para fazer às vezes de escolher alguma roupa pra ela, já que sabia que se dependesse de não sairiam dali tão cedo.
― Não, nem pensar! Você me obriga a conviver com aquela peste, morar do lado dela e fazer o trabalho que for, mas ir a uma festa já é demais, ! Eu nem fui convidada, para de palhaçada!
― Mas é claro que você foi. O te convidou!
― Eu já disse que…

♣♣♣


― Que merda. Foi isso que eu disse. ― respondia completamente grosseira conforme o elevador subia todos os andares do prédio.
O cubículo ao qual estava agarrada as barras de ferro instaladas à frente do espelho como se sua vida dependesse disso - aos desavisados, ao qual não era o caso de que fazia questão de segurá-la levemente pela cintura, a ruiva detestava completamente elevadores e escadas - subia lentamente andar por andar com trancos que faziam a respiração da menina falhar de tempos em tempos e o rapaz segurar a risada.
― Não é tão ruim assim. ― o mais velho bateu empolgado no ombro da , se afastando logo depois quando o elevador deu o último tranco e abriu as portas no terraço.
não pôde evitar ficar surpresa ao ver aquilo. O elevador abria para o meio do local, um buraco redondo cavado no meio do prédio, e dava a visão que o terraço era nada mais que um espaço de trezentos e sessenta graus com mais três níveis que subiam além daquele, mas por escada-rolantes que se dividiam entre o espaço.
Era quase como um shopping center. Havia lojas de todos os tipos e todas as do primeiro andar estavam abertas, mas os outros aparentemente estavam interceptados. Não era muito difícil entender por que, já que o som e as luzes estavam completamente concentrados num dos lados do local junto com a pista de dança, enquanto o outro se dividia em bar e local com cadeiras para comerem.
― É incrível, não é? ― comentou com um sorriso orgulhoso, observando a expressão surpresa da garota.
― É… Parecia menor lá de fora. ― olhava tudo curiosamente e um pouco assustada. Como eles guardavam uma coisa tão grande em um lugar aparentemente tão pequeno? ― Tipo, bem menor.
― Ah, olha, o chegou! ― a voz de surgiu um pouco atrás dos dois, os fazendo olhar para trás e se cumprimentarem batendo as mãos.
― E não veio sozinho. ― fez questão de completar olhando para a dona dos cabelos vermelhos que fingiu estar distraída com a paisagem.
― Quando eu viajei pra Coréia e não fiquei sabendo? ― a mais nova questionou com toda aquela vibe que circulava no local. As luzes em neon chamativas, as coreografias em grupo e o karaokê em um dos cantos, além da própria música e comida, era tudo bem característico.
― Quando deu na mão do o prêmio. ― sorriu de canto ao responder, apontando levemente para o garoto que estava num dos balcões pedindo alguma coisa pra comer.
― O que você esperava, afinal? Não dava pra ouvir da sua casa? ― questionou um tanto confuso pela surpresa da amiga.
― Dava, mas isso aqui? ― apontou para a grandiosidade do local e do evento. ― Isso aqui não dava pra imaginar da minha casa.
― Bom, vamos deixar você aproveitar a festa então, temos que resolver coisas com a administração. ― foi quem chamou a atenção dos dois para as responsabilidades, fazendo a ruiva arquear uma das sobrancelhas, mas balançar os ombros sem se importar muito.
― Boa sorte. ― desejou por educação. Ainda tinha uma vozinha no fundo de sua mente que sussurrava que deveria ser educada e respeitosa em relação à , mesmo que ele fizesse questão de manter o relacionamento entre eles completamente nulo.
― Pra você também, viu. Se precisar de alguma coisa, diz que eu liberei. ― piscou um dos olhos na direção da amiga com a frase que entre eles estava cheia de duplo sentido.
― Nossa, mas tem isso aqui? ― arregalou os olhos um tanto chocada, não esperava isso vindo de uma organização a qual participava.
― Tem, existem alunos maiores que podem beber. Mas pega leve.
― Na realidade, eu acho melhor você nem pegar em nada. Não se esqueça da conversa que tivemos, pare de se meter em problemas.

♣♣♣


Sabia da conversa que havia tido com , mas pensando bem enquanto andava até o bar, um drinquezinho só não devia ter problema, não é mesmo? Era por isso que já estava na oitavo, também não devia ter problema. E também era exatamente por isso que o professor lhe mandara ficar na sua, afinal, ele conhecia bem a história.
Mas agora que em meio ao barulho alto de música e gritos ensurdecedores de adolescentes, já era tarde demais e a garota começara até mesmo a sorrir naturalmente, mesmo que fosse para as paredes ou para o próprio copo de plástico vermelho que segurava, falando que ele tinha muito bom gosto de ser da cor favorita dela.
― Eu realmente não esperava que você viesse até aqui hoje, mas que bom, assim eu não perdi tempo. ― uma voz masculina e desconhecida soou ao lado da garota sentada em uma banqueta, fazendo-a olhar para o lado com uma sobrancelha arqueada.
― E você, quem é? ― questionou, encarando o dono dos olhos angulados e cabelos em tom de castanho claro com uma expressão curiosa de olhos brilhantes. Mesmo que estivesse um pouco mais feliz, suas interações sociais nunca seriam das melhores e mais simpáticas.
― Ah, eu sou da Classe Dois, é por isso que você não me conhece. ― o rapaz sorriu curto para parecer mais simpático, sentando na banqueta vazia ao lado.
― Ah. ― a ruiva soltou com o tom de voz meio molenga, abrindo um pouco a boca em sinal de surpresa e mantendo a expressão assim, completamente fora de órbita. ― Entendi.
― Eu não queria que nós nos conhecêssemos nessa situação, mas já que aconteceu… Me chamam de . ― se apresentou calmamente, erguendo uma das mãos para que a mais velha a apertasse, o que ocorreu um pouco depois e extremamente lento.
― Eu sou . Mas pelo jeito você já sabe, né? ― ela acabou rindo um pouco ao constatar a última parte, afinal, pelo interesse que ele demonstrava devia ser um dos seus stalkers.
― Eu achei que você não pudesse beber. ― ele acabou comentando ao ver o estado alegre / acabado da garota que voltou a apoiar os braços em cima do balcão, mas também para ajudar a desviar a atenção do assunto.
― Tem muitas coisas que as pessoas não sabem sobre mim, daí elas começam a basear as coisas em achismo. ― era completamente a definição de pessoa chata em alguns estágios de sua bebedeira. Ainda não estava tão alta para ser considerada muito feliz mesmo que estivesse mais simpática, mas não estava sóbria o suficiente para estar em seu estado normal. E era por isso que ela ficava no meio termo que era o mais perto que chegava de ser uma filósofa. ― Ia ser bem mais fácil se tentassem me conhecer antes.
― Mas você não disse que tinha dezessete anos quando chegou? ― questionou confuso com aquela repentina fala da ruiva sendo que estava comentando uma coisa tão simples, as teorias de como ela chegara ali crescendo ainda mais em sua cabeça.
― Ah, eu fiz dezoito ontem. ― mentiu sem nem se importar com as consequências. Nem mesmo se lembrava em que mês estavam, quem dirá se estavam perto ou longe de seu aniversário.
― N-Nossa, achei que seu aniversário fosse em Novembro… ― o menino sussurrou mais para si do que para ela, percebendo o que havia soltado quando ela lhe encarou com a expressão confusa.
― OLHA, OLHA SÓ QUEM RESOLVEU APARECER! E parece que com capacidade de fazer amigos! ― claramente não estava muito longe da situação de em alegria e felicidade, mas nem era pelo álcool, afinal, aquela era a personalidade do longe da garota, aflorada apenas pelo dia festivo.
― E desde quando eu te dei intimidade pra falar assim comigo, garoto? Eu, ein. ― a garota olhou feio pro lado aonde vinha andando com até onde estava.
― Vamos ser legais hoje já que é um dia de festa. ― o pediu com um biquinho se formando nos lábios que acabou desarmando a , a deixando de olhos arregalados e bochechas um pouco avermelhadas.
― H-Hey, você não deveria estar bebendo! Como conseguiu isso aí? ― questionou apontando para a mão da ruiva que segurava um copo que claramente continha cerveja dentro.
― Meu Deus, ein, tá todo mundo achando que são meus pais hoje? ‘Cês tem que parar, eu nem tenho pais pra vocês fingirem que são eles. ― revirou os olhos, levando o copo para perto da boca. ― Isso aqui pode ser refrigerante, ué. ― falou, virando o copo logo após e fazendo uma careta que ela com certeza não faria se fosse apenas algum derivado de guaraná.
― Pelo cheiro, com certeza não é. ― constatou, olhando curioso para o objeto que ela largou em cima do balcão para então cruzar os braços.
― Você que é amigo dela, sabe como ela conseguiu isso? ― questionou curioso. Que ninguém descobrisse que o interesse dele era porque ele estava querendo fazer a mesma coisa.
― Ele nem meu amigo é, sentou aqui e começou a puxar papo. ― a ruiva se manifestou outra vez, balançando a mão no ar impaciente. ― E eu consegui simplesmente porque e -...
! ― o berro que saiu da boca do homem que se aproximava fez a ruiva dar até mesmo um pulinho assustado, arregalando os olhos.
! ― gritou em retribuição, porém mais pra animada do que pro tom de voz de bronca que ele usava, acenando enquanto o rapaz se aproximava.
― Eu não disse pra você se manter longe de bebidas? ― o dono dos cabelos em tom de castanho claro falou ao alcançá-la, segurando a mão da garota um tanto forte como mães fazem quando os filhos aprontam alguma.
― M-Mas eu só tomei alguns d…
― Eu disse NENHUM. ― frisou a última palavra com o tom de voz mais alto.
― Desculpa, Oppa. ― a ruiva murmurou, abaixando a cabeça quando seus lábios se juntaram em um biquinho desolado.
O mais velho arregalou os olhos e acabou respirando fundo algumas vezes, para se acalmar e voltar ao seu normal. Talvez estivesse sendo muito duro com ela…? Talvez não devesse ter gritado? Enfim, acabou puxando levemente a mão da garota para que ela começasse lhe seguir.
― Vamos, eu vou te levar pra casa.
E então os dois sumiram entre o pequeno aglomerado de adolescentes, fazendo os três rapazes que sobraram se entreolharem um tanto chocados com o que haviam acabado de assistir. Só havia algo maior ali do que o choque: o sentimento de curiosidade que crescia dentro deles.
― Primeiro o e agora o … O que tem nessa garota, afinal? ― questionou a si mesmo, largando os braços no balcão e a cabeça em cima deles.
― Ela só é irresponsável e precisa de supervisão. Agora vamos, eu quero me divertir hoje a noite!

♣♣♣


― Oppaaa!
perdera as contas de quantas vezes ouvira a garota falando isso em uma voz molenga e manhosa enquanto ainda tinha que segurá-la pela mão para guiá-la pelo caminho e vezes pela cintura porque ela dava indícios de tombar. Porém, ele sabia muito bem em qual dos “Oppa” sua paciência havia acabado, e nem precisara de tantos assim para que começasse a rolar os olhos.
― O que você quer agora? ― ele questionou, olhando para a expressão sonolenta da menor. Ela nem morava tão longe da escola, mas virar mais uma rua parecia uma tarefa quase impossível.
― Você nunca foi muito com a minha cara. ― temia que aquele assunto se iniciasse e sua respiração até mesmo se perdeu por alguns segundos quando ele apertou o passo para conseguir chegar mais rápido na casa da garota e poder deixá-la lá.
― Não comece com essas coisas, você sabe que não é assim que funciona e… ― parou de falar assim que percebeu que estava tentando se explicar pra uma bêbada. ― Vamos logo, sua casa é logo ali.
― NÃO! Eu quero falar agora. ― a ruiva teimou fechando a expressão em uma carranca meio falha, naquele estado o que conseguia era mais acabar sendo fofinha do que assustadora. ― Eu sempre fui legal com você, por que você nunca gostou de mim, Oppa?! Se nós tivéssemos dado certo eu nunca teria tido que fugir pra cá. Você podia ser meu herói.
― E-eu acho melhor você descansar. ― as bochechas do coreano começavam a ficar vermelhas aos poucos e ficava cada vez mais difícil de controlar a expressão quando ela se agarrava em sua camiseta e a puxava para baixo.
― P-Por quê?! ― mesmo meio sem jeito, quando chegaram à porta da casa da , ela acabou parando de frente a e o segurando pelos braços para prendê-lo - não que precisasse, porque ele não se mexeu, mantendo o contato visual e o obrigando a olhar para si.
― Você era uma colegial e eu estava na faculdade, como você queria que eu olhasse para você? ― o dono dos cabelos castanhos claro acabou estourando, mas ao menos ela não lembraria muito do que falasse no momento. ― Você era muito nova pra eu pensar em qualquer coisa que não fosse que você era irmã do meu melhor amigo.
― Foi por isso que você me ajudou, eu sabia. ― a ruiva suspirou, deixando o silêncio constrangedor cair entre eles e o clima se tornar bem mais sério. ― E agora? Eu ainda sou muito nova? ― a feição da menina se tornou até mesmo mais séria ao perguntar isso, mas em momento nenhum ela desviou o olhar dos traços delicados do garoto. E agora? Eu ainda sou muito nova?
O coreano foi pego de surpresa com aquilo e sentiu até mesmo suas orelhas esquentarem um pouco com aquela questão, tendo de respirar fundo diversas vezes enquanto pensava em como responder aquilo. Nem mesmo conseguia raciocinar direito com o que estava acontecendo ali, era demais para digerir em pouco tempo.
― Não é hora de conversar sobre isso. Você não está em condições. ― aquele tom de voz de sinalizava que ele não falaria mais nada do que já havia decidido, e ela não teve escolha se não abaixar a cabeça e aceitar, fixando os olhos no chão. ― Cadê a chave?
calmamente levou uma das mãos até o bolso traseiro da calça jeans que usava e pegou o que o rapaz pediu, já começando a andar para abrir a porta, mas acabou virando no meio do caminho ao perceber que o mais alto lhe seguia calmamente para dentro. Ela não entendeu bem o que aquilo queria dizer, talvez ele achasse que não fosse conseguir encaixar a chave na fechadura…?
Acabou estendendo a mão com o objeto para que pegasse, se era essa a preocupação ele mesmo podia abrir a porta. O homem ficou um pouco surpreso com a atitude dela, mas aquela expressão da ruiva lhe fez soltar um suspiro. Ela havia crescido, mas em situações como aquela ainda era a adolescente que havia conhecido. Não conseguiu resistir à vontade de puxá-la para um abraço mesmo que estivessem em um lugar exposto, a encaixando possessivamente em seus braços.
― Vamos, eu vou fazer um café pra você.

Cinco anos atrás


― Só me dê um minuto, eu vou buscar as documentações que a gente precisa acertar e então podemos ir pra empresa. ― avisava, apontando levemente para a escada que levava ao segundo andar da casa. ― Você pode sentar, fica à vontade.
apenas assentiu com a cabeça ao ouvir aquilo, indo até o sofá e se sentando. Não estava muito surpreso da casa nova de ser tão tecnológica, mas sinceramente esperava algo mais luxuoso. O amigo sempre lhe surpreendia e isso era bem engraçado, mas ele não devia estar querendo esbanjar muito por estar morando sozinho, afinal, apostava que a própria casa era o lugar que menos ficava.
Surpreendeu-se ao ouvir um clique na porta bem despretensioso, e logo após ela se abriu e revelou a imagem de uma garota de cabelos vermelhos presos em um alto rabo de cavalo que lhe impedia de ver seu comprimento claramente, mesmo que ele tivesse cachos longos balançando e uma franja tigelinha cobrindo toda sua testa. Os olhos grandes e em tom de castanho avelã, cobertos por uma maquiagem que se podia dizer pesada demais para alguém da idade dela, olharam para os lados, desconfiada, mas não para a frente. Sobre a roupa completamente inadequada ele nem ia comentar.
Foi por isso que quando ela deu o primeiro passo após trancar a porta e viu sapatos masculinos em pés cruzados que seu coração quase saiu pela boca, fazendo-a arregalar os olhos e voltar o passo. Mas, ironicamente, estava tão surpreso e confuso quanto a garota que apenas colocou um indicador sob os lábios.
― Quem é você? ― mesmo ela tendo pedido silêncio, o rapaz de cabelos claros não obedeceu, mas tomou cuidado para seu tom de voz não sair muito alto.
― Irmã dele. . ― a ruiva respondeu em um sussurro, olhando para as todos os ângulos em desespero e tentando descobrir onde o irmão estava. Já havia visto fotos de e ouvido muitas histórias desde que ele e o irmão se conheceram, mesmo que provavelmente ele não soubesse muito sobre si mesma.
― O-Oh, você mora aqui? ― a menina assentiu com a cabeça lentamente algumas vezes, meio chocada, fazendo questionar o porquê então de tanta necessidade de silêncio. Isso até pensar um pouquinho e sentir o cheiro no ar. ― Onde é que você estava?
― E-Er, eu estava… Na casa de um amigo… P-Por favor, não conta pra ele! ― juntou as mãos em sinal de oração, o tom de voz quase subindo pelo desespero que sentiu em seu irmão descobrir aquilo.
Foi quando ouviu uma porta sendo fechada no andar de cima e sem pensar nem meio segundo, correu para trás do balcão da cozinha para se esconder atrás dele, rezando que tivesse compaixão - mas não muito confiante nisso, ouvira histórias o suficiente sobre o rapaz para ter noção da personalidade responsável que ele tinha.
― Algum problema? Ouvi você falando. ― questionou com uma das sobrancelhas arqueadas ao descer as escadas, um pouco confuso principalmente ao ver a palidez do mais novo.
― Ah não, era só o telefone. ― respondeu com um sorriso amarelo.
― Estava no vibracall? Não ouvi tocar. ― o mais alto voltou a perguntar, desconfiado com aquela expressão e jeito de agir do amigo.
― Sim, isso mesmo, estava! Mas não se preocupe. Preciso resolver uma coisa, é meio sério, mas posso conversar com a pessoa mais tarde. A gente marcou de se encontrar na cafeteria da praça quando estiver escurecendo. ― deu detalhes tanto para que a história soasse convincente tanto para que Haley entendesse o recado. Esperava que ela fosse tão esperta quanto o irmão.
― Ah sim, se precisar de alguma ajuda, você sabe.
― Relaxa, eu posso resolver sozinho. Mas então, é melhor irmos antes que nos atrasemos pra reunião.



Estava chovendo quando chegou à cafeteria. Esperava que não estivesse ficando louca do jeito que achava que estava e que aquilo que havia falado era mesmo para si, porque sair correndo na metade do caminho com os pingos grossos batendo em seus cabelos tinha que valer a pena.
Assim que pisou o pé embaixo da cobertura, teve de passar as mãos em meio aos fios longos para desembaraçá-los e ajeitá-los um pouco, ao menos sua franja estava presa em um tic tac e não tivera de se preocupar com ela. Ia também ver seu rosto no reflexo do celular para se certificar de que não havia nada borrado, mas ao colocar a mão no bolso para puxá-lo, sentiu alguém apertando levemente seu ombro.
estava ali, atrás de si e seus centímetros a mais que o deixavam ainda mais assustador em conjunto com a pouca expressão que ele carregava, apenas de sobrancelhas frisadas. Os cabelos perfeitamente penteados para trás e a cacharréu branca coberta por um sobretudo preto. havia se preparado psicologicamente para ouvir um sermão, mas ao vê-lo na sua frente daquela forma, ela paralisou quase completamente.
― Que bom que você entendeu o recado. ― o rapaz soltou o ombro dela após ver que já havia chamado sua atenção, maneando a cabeça para trás. ― Vamos entrar.
A apenas obedeceu silenciosamente, seguindo-o pela porta que fez um sininho tocar assim que foi aberta. Havia vários lugares vazios, mas seguiu rapidamente até um dos cantos mais escuros e afastados das portas e das janelas. não tirava sua razão, estavam perto demais de casa para se darem ao luxo de ficarem muito expostos.
― Então… Você pode pedir o que quiser. ― tentou quebrar o gelo que estava entre os dois, mas percebeu que não ia ser muito fácil quando a garota apenas assentiu com a cabeça timidamente e nem mesmo moveu um músculo, o fazendo respirar fundo.
Ser um bom melhor amigo era difícil, ele pensava. Mas estava fazendo a coisa certa.
― Eu não sabia que você morava com o .
― Acho que eu vou querer um café gelado mesmo. ― a ruiva desconversou com um sorriso de nervosismo, apontando discretamente pra placa que anunciava a sugestão do dia.
― Ah sim, tudo bem. ― arqueou uma das sobrancelhas com a repentina mudança de humor e assunto dela, mas não deixou de chamar o garçom para pedir dois cafés, mas o seu bem preto e sem açúcar. Do jeito que as coisas iam, provavelmente precisaria. ― E então?
― É que… É que faz pouco tempo. ― finalmente cedeu, soltando o ar logo depois como se um peso estivesse saindo de suas costas. ― O juiz liberou que eu morasse com o meu irmão por algum tempo para verem como ele se sai.
― E por que tanto segredo sobre isso? Ele não me disse nada… ― o coreano assumiu uma postura pensativa, colocando uma das mãos na testa e se esforçando pra entender.
― Nós queremos ser discretos, porque o meu tio quer a minha guarda de qualquer jeito como vingança ao meu irmão ter conseguido controlar o dinheiro que ele queria. ― a explicou parte da situação, respirando fundo logo após. Em sua ingenuidade de adolescente que achava saber de tudo, não sabia exatamente até onde aquilo ia. ― Pelo menos isso é o que eu especulo. O não me fala muito sobre esse assunto, ele acha que pode me traumatizar. ― com essas últimas palavras à garota até mesmo deu uma risadinha, como se já não fosse.
― Bom, você não vai ser discreta e nem ajudar seu irmão a conseguir sua guarda passando a noite fora escondida em festas. ― começou o sermão, fazendo os ombros da garota se encolherem levemente enquanto ela arregalava os olhos. Por sorte o café havia chegado e ela tentou disfarçar seu nervosismo tomando um pouco. ― E eu nem vou perguntar o que foi aquilo mais cedo, porque eu sei exatamente.
― Eu só estou cansada de ficar trancada em casa. ― a ruiva murmurou um tanto baixo, fazendo uma expressão desolada.
― Mas você vai ter que aguentar mais um pouco, . Antes trancada na casa do seu irmão do que na do seu tio. ― ela não pôde discordar disso e acabou sorrindo sem ânimo quando acenou positivamente com a cabeça. ― Mas não faça isso de novo, ok? Você pode me ligar se estiver sufocada.
― M-Mesmo?
― Sim. Mas, por favor, se comporte.



V - Mysterious

Passava do meio dia quando se obrigou a levantar da cama, mesmo que praticamente se arrastando vagarosamente até o guarda roupa sem nem mesmo abrir os olhos direito. Já estava acordada fazia algum tempo esparramada na cama, mas não havia se dado ao trabalho de perceber que infelizmente continuava viva depois daquela vergonha tenebrosa que passara na noite anterior.

E eles diziam que bêbados não lembravam.

Quem dera.

Se ela ao menos conseguisse fingir que estava bêbada o suficiente para não se lembrar do que havia falado durante a noite, não teria problema algum, mas não tinha a capacidade mental de não ficar vermelha até as orelhas ao ver , não por agora, e provavelmente não teria tão cedo também. Imaginava que ele já soubesse do seu amor platônico e por isso mantinha aquela distância segura entre eles, mas sinceramente, uma confissão não era nada que nenhum dos dois estava precisando no momento.
Teve vontade de tentar se afogar no chuveiro mais de uma vez, mas sobreviveu veementemente a tentação, vestindo o pijama de ursinho sem nem mesmo se importar se havia acabado de acordar e já era hora do almoço. Não ia ver ninguém aquele dia e esperava que ninguém invadisse sua casa hoje, então não tinha problema andar por ai de camisola, certo? CERTO???

Exatamente, errado.

Dessa vez não fora exatamente uma invasão, mas entre todas as que ocorreram naquelas semanas, fora a coisa que mais lhe fez se arrepender em ter sobrevivido ao banho de alguns minutos atrás, e ainda era tarde demais pra correr de volta ao quarto porque já havia sido vista - o que não lhe impediu de o fazer e ela trancou a porta como quem foge do próprio assassino.
Mesmo que a opção de se trancar no quarto durante o dia todo até ouvir o barulho da porta da frente sendo aberta e fechada fosse completamente viável em seu pensamento, sabia que ele bateria na sua porta mais cedo ou mais tarde e não teria escolha se não sair dali. Então acabou cedendo, mesmo que tenha demorado meia hora pra isso, colocou uma roupa decente a qual podia ser vista publicamente e respirou fundo diversas vezes antes de finalmente sair do quarto.
Qual a sua surpresa quando não viu ninguém mais ali? já havia saído sem fazer barulho algum, e ela começara a duvidar se não estava ficando completamente louca e na verdade aquilo não fora uma alucinação…? A única coisa que não lhe deixou ter certeza disso foi ver em cima do balcão uma xícara de café preto ainda com fumaça subindo, ao lado de algumas torradas.
Embaixo do prato branco havia um papel com uma caligrafia redonda e bem feita, formando um número de telefone anotado em conjunto com uma frase que lhe fez sorrir pra si mesma, sentindo suas bochechas esquentarem mais uma vez. “Me ligue se estiver sufocada”.

É, talvez não fosse mais tão nova.

♣♣♣


O sábado passou rapidamente depois desse episódio, e ficou durante ele todo largada no sofá assistindo série nova aleatória na televisão, aproveitando que podia adiar algum tempo os trabalhos já que teria o domingo inteiro para estudar. Seu humor se manteve extremamente agradável e nem mesmo quando acordou no domingo e se lembrou de que deveria passá-lo ao lado de isso mudou.
Quase deixara passar que haviam combinado de fazer todos os deveres de uma vez naquele dia para que não tivessem que se aguentar mais do que o necessário, mas daquela vez ele não seria capaz de mudar seu humor e nem mesmo lhe estressar, na verdade estava crendo que nada seria por um bom tempo.
Ao menos havia aprendido como chegar aos terraços na sexta-feira passada, mesmo que não se agradasse andar naqueles malditos elevadores por mais tecnológicos e supostamente seguros que eles fossem. Diferentemente do dia da festa, agora todas as lojas do local estavam abertas, assim como o teto estava aberto para que a luz solar o iluminasse.
Pela segunda vez a garota não pode deixar de ficar um tanto abobalhada, aquela realidade alternativa era muito mais impressionante do que pensara quando resolvera entrar nela, e não tinha problemas em aproveitar a vista por agora. Mas não demorou muito, ainda tinha a missão de achar a biblioteca no meio daquele lugar imenso.
lhe dissera que era fácil de achar e ficava no segundo andar, mas sinceramente ao olhar o segundo andar a única coisa que prestou atenção foi o letreiro enorme do McDonalds. Saíra de casa tão apressada que nem mesmo tomara café, mas não era agora que poderia o fazer - ainda estava atrasada.
Lentamente se arrastou até a escada rolante, segurando firme no corrimão enquanto ela subia para encontrar a enorme biblioteca de estudos assim que a escada chegou ao fim. Era praticamente metade daquele andar e entendeu rapidamente porque dissera que a acharia facilmente, mas sinceramente, quem conseguia se concentrar nos estudos tendo um fast food tão perto? Aquilo era muito mal projetado!
― Heeey, você ainda tá dormindo? ― a voz de ao fundo de sua mente lhe despertou parcialmente do seu estado estático de fome, a fazendo erguer a cabeça para procurá-lo.
O infeliz estava encostado em uma das colunas de sustentação do meio do espaço, com a mochila meio caída pro lado por estar apoiada em um ombro só e bebendo algo que parecia ser café, com um sorrisinho de canto provocativo em sua direção após ter lhe chamado. O lugar não estava muito cheio talvez por causa do horário - quem em sã consciência ia estudar às dez horas da manhã do domingo? - ou apenas por ser um local grande demais para apenas cem alunos, então o único em sua linha de visão era o , e ela não demorou em se aproximar dele apenas para ter o prazer de passar reto.
― Bom dia pra você também. ― ela direcionou um polegar levantado para ele, indo até a recepção do lugar para se identificar e pegar a autorização de entrada.
O ficou por um minuto no mesmo lugar, tentando entender o que diabos tinha acontecido ali, e quando percebeu que devia ter tido sonhos muito bons ele simplesmente a seguiu, fazendo o mesmo que ela para pegar seu passe livre.
― O que aconteceu com você? A festa não acabou quando o te levou embora? ― apesar da conotação errada que aquilo poderia ter, falou com uma expressão tão inocente e curiosa que não conseguiu dar o esporro que ele merecia por cogitar algo assim.
― O que você quer dizer com isso? ― a ruiva arqueou uma das sobrancelhas em dúvida se ele queria mesmo dizer o que estava pensando. Ela realmente não sabia se ele estava apenas interpretando para zoar com a sua cara ou aquela inocência era verdadeira.
― Eu não sei, você que responde! Da onde vem esse bom humor? ― um sorriso de canto surgia nos lábios do , mas ele se esforçava para parecer inocente e assim não acabar sendo agredido.
― É melhor você parar de perguntar se não quiser que ele vá embora. ― a ruiva respondeu com um sorriso de canto sarcástico, pegando o crachá que a mulher deixara na mesa e então saindo em direção a uma das muitas mesas vazias.
Mesmo que ambos estivessem mantendo a política da boa vizinha naquele dia e os humores beirassem o amigável, as horas do dia se arrastavam tão lentamente e tediosamente enquanto estudavam Matemática que era impossível não se encher, principalmente porque odiava aquilo com todas as suas forças e estava morrendo de fome.
― Sinceramente, você não odeia matemática? ― perguntou confuso ao olhar todos os cálculos corretos na folha que ela lhe passara, enquanto a ruiva concentradamente analisava os seus.
― Com todas as forças da minha alma. ― ela murmurou, concentrada no papel que segurava entre os dedos indicador e anelar.
― Então como todos os seus cálculos estão sempre certos? ― o indagou completamente inconformado com aquilo. Não era possível que ela realmente fosse assim tão boa em tudo!
― Ah, isso é só uma coisa que eu estudei lá fora. ― a ruiva mexeu a cabeça para trás como se sinalizadas onde era “lá fora”. Em partes, não era mentira. realmente estudara tudo aquilo fora daquele lugar. Ele não precisava saber que ficara noites e noites estudando o cálculo de área e volume quando queria entrar no vestibular.
― Oh, a sua escola estava mais adiantada que aqui? ― ficou ainda mais perplexo do que antes ao ouvir aquilo. Os rumores eram que não havia educação à frente da Orkan, a ruiva já saber de algo que ainda estavam aprendendo era no mínimo chocante.
― A-Ah, não, eu estudava em casa. ― tratou de desconversar quando percebeu que havia sido pega e falado demais, forçando uma expressão decepcionada e então tentando voltar a se concentrar, deixando o apenas soltar um aaah.
― Nós estamos quase acabando, quer parar pra comer alguma coisa? ― questionou quando terminaram de resolver todos os cálculos, vendo que faltava apenas o trabalho de Literatura e o de Biologia.
Sinceramente estava esperando a oportunidade de falar aquilo desde a hora que se sentara ali. Não aguentava mais ver os adolescentes rindo e comendo felizes tão perto de si e não poder fazer o mesmo - só a parte de comer - portanto assim que o garoto falou aquilo a ruiva se levantou, concordando.
Os dois foram até a fila em silêncio e apenas falaram para fazer seus pedidos, mas era um silêncio diferente do que costumava rondá-los, ao menos para . Geralmente, o silêncio entre eles era ambos se ignorando mutuamente, mas o ficara curioso desde quando se lembrou que ela passara sua vida toda do outro lado e a chamara pra comer justamente para perguntar. Ele queria saber como estava, como era. Nem mesmo lembrava mais de como sua cidade parecia.
Mas claro que ele sabia que lidar com a ruiva não era tão simples, mesmo que ela estivesse de bom humor, ainda duvidava que ela fosse lhe responder tão facilmente. Mas não teria chance alguma se não perguntasse, e foi por isso que respirou fundo assim que terminou de tomar seu refrigerante e criou coragem.
― Como é… Lá fora? ― a voz de saiu baixa e melódica, completamente doce, como uma criança. não deixou de sorrir de canto, estava esperando ansiosamente a hora que ele lhe questionaria aquilo.
― Entendi porque você invade a casa das pessoas. A curiosidade é muita, não é? ― e claro que ela já tinha a resposta na ponta da língua, assim como havia mentalmente ensaiado os gestos e agora cruzava os braços em frente aos seios, encostando as costas na cadeira folgadamente.
― Mas você ainda não superou isso?! ― o bateu levemente as costas contra a madeira da cadeira para assumir a mesma postura que a garota, tão revoltada quanto a dela. ― O que é que você quer que eu faça pra esquecer isso de vez?!
― Ah, não sei. Pedir desculpas talvez seja bom, pra começar. ― a falou com um sorriso aberto e irônico, irritando ainda mais o asiático.
― Me desculpe, fiquei preocupado achando que a sua caixa de luz estourando podia causar um incêndio no bairro. Eu não planejava te matar nem nada, porque eu nem sabia que você existia. Se sente melhor agora? ― discursou completamente a contragosto, revirando os olhos no final.
― Na verdade não, você nem está se esforçando. ― a ruiva pegou uma batata frita com uma expressão chateada, como se quisesse vê-lo sofrer, mas acabou desistindo após colocar a batata na boca e ver o rosto de .
Ele estava genuinamente curioso, e mesmo que achassem o pior ser humano da face da Terra, ela ainda tinha sentimentos. Sua expressão acabou suavizando e ela se rendeu, levando uma das mãos ao bolso para pegar seu celular e colocar a senha, mexendo nele por alguns segundos até levantar a tela na altura do rosto do menino.
― Essa foi à última foto que eu tirei em um lugar aberto antes de vir pra cá. Foi na Torre Eiffel. É assim que o mundo é, provavelmente a mesma coisa que você lembrava. ― mostrou entediada, cansada de segurar o celular pra cima. ― Você pode pegar pra olhar direito. ― queria logo ter as mãos livres para voltar a comer.
obedeceu, ainda completamente abobalhado por saber que ela havia estado lá, esquecendo completamente dos rumores de que ela vinha da França. A garota estava de costas para a câmera, com o corpo direcionado ao monumento que estava bem afastado dela já que aparecia completamente na fotografia, e o rosto virado para trás com uma careta feia, provavelmente nervosa com quem havia a chamado para olhar para a foto.
Não resistiu a curiosidade e deslizou o dedo para o lado, voltando para a imagem anterior e vendo uma foto que julgou ser do mesmo dia já que a iluminação era a mesma e a garota usava a mesma roupa. estava novamente à frente da Torre, abraçada a um homem de terno e óculos, de cabelos pretos e olhos em um castanho avermelhado igual aos dela. Pensando bem, ele lembrava daquela foto!

levantou a mão na direção do amigo, mão essa que segurava um celular tão recente quanto os deles com a foto de uma garota ruiva abraçada a um rapaz moreno, fazendo com que ambos arregalassem os olhos.”

― Quem é esse cara com você na foto?! ― o questionou curioso, um sorriso de canto malicioso repuxando o canto de seus lábios enquanto levantava o celular levemente para que ela visse do que se tratava.
― H-Hey, eu não disse que você podia passar de foto! ― a garota falou frisando as sobrancelhas, erguendo a mão para que ele devolvesse o aparelho.
― Desculpa, não resisti. ― deu um sorriso amarelo, tentando amolecê-la.
apenas ficou em silêncio e suspirou, pegando o celular e sem querer esbarrando na tela e trocando outra vez a foto, o a viu um tanto borrada, mas ainda deu tempo de reconhecer uma terceira figura que estava entre e o homem desconhecido, mesmo que não lembrasse exatamente de quem era.
― Então…? ― questionou após algum tempo passar, ainda curioso com o que havia perguntado mais cedo. enquanto terminava seu refrigerante apenas ergueu os olhos em confusão.
― A-Ah, é meu irmão mais velho. Mas não pergunte mais nada sobre isso, eu não vou responder. ― fora a primeira vez no dia que a mulher de cabelos vermelhos usara um tom de voz tão duro, e a expressão séria que ela adotou deixou claro que aquele assunto não era para ser trazido à pauta.
― Vamos voltar então, ainda temos algumas coisas pra fazer. ― o garoto respirou fundo para criar coragem, levantando logo após e vendo que também levantou, mas foi pro lado contrário ao seu.
Mesmo que tenha gritado para que ela voltasse, logo a ruiva voltava da fila do fast food com dois milkshakes na mão, dando um para o garoto sem nem olhar para o lado e segurando o outro, voltando a andar como se nada tivesse acontecido.
― O-O…
― Cala a boca, não fala nada. Isso nunca aconteceu.

♣♣♣


era uma pessoa estranha.

Era essa a conclusão que chegara após duas horas, trocando de lugar da casa a cada cinco minutos. Já ficara no quintal observando a casa vizinha, na janela de seu quarto, na cozinha, na sua cama, e agora estava deitado no sofá olhando o teto completamente sem rumo. Desde a hora que os dois se separaram no shopping - mesmo sendo vizinhos eles não voltaram juntos e apesar da ruiva ter dito que iria fazer compras, ele tinha certeza que era apenas para evitar passar mais tempo consigo - o não conseguia pensar em nada que não fosse ela, e isso eram quatro da tarde, agora já eram praticamente seis e meia.
era uma pessoa misteriosa, também.
A forma que ela agia era no mínimo intrigante e ele havia sido fisgado, mal conseguira se concentrar direito em seus estudos depois que voltaram do “almoço”, sendo pior em Literatura do que já era normalmente. Uma hora doce e até mesmo um pouco sociável e do nada se tornava uma praga assustadora, o não conseguia raciocinar direito e formar uma opinião definitiva sobre ela como tinha no começo da semana, alguém digna de seu desprezo.
Ela podia ser uma pessoa ruim ou podia ser uma pessoa boa, podia ser uma fugitiva como diziam, ou simplesmente uma garota superestimada. E agora após conviver um pouco com a ruiva, ele realmente não conseguia identificar em qual das duas opções ela se encaixava mais. Isso porque nem começara a comentar sobre aquela terceira foto, a qual tinha certeza de que conhecia a outra pessoa nela.
― Ihh, acho que os estudos foram bem proveitosos. ― provocou com um sorriso de canto ao ver a expressão confusa e pensativa de .
― Estou pensando em Literatura. ― o asiático respondeu com uma expressão mais séria do que o normal, levantando e passando pelo amigo apenas para bagunçar levemente seus cabelos. ― Vou tomar um banho.
não pôde deixar de sorrir para si mesmo quando subiu as escadas para o quarto. Sabia bem que a última coisa a qual ele estaria pensando agora era literatura.

♣♣♣


Aquele final de semana passara mais rápido do que estava esperando, e curiosamente ao se levantar na segunda feira ele se sentia tão bem humorado quanto a um bom tempo. Fingiu não saber o motivo, mesmo que soubesse, e se vestiu como em todas as outras vezes, saindo um pouco atrasado porque não conseguia lembrar onde havia deixado algumas folhas de anotações importantes para a aula de biologia, vulgo colas inteligentes que roubara de no dia anterior.
A rua estava vazia por ter saído depois do horário, mas isso não era um problema para o que seguia aquele caminho já faziam praticamente cinco anos diversas vezes por dia. Seus passos eram tão decorados que podia fazê-lo de olhos fechados e chegaria ao Colégio completamente intacto nos três minutos que demorava.
O que lhe surpreendeu foi a primeira cena que viu ao chegar ao local, com e logo na porta enquanto o rapaz a puxava levemente pelo pulso para que ela o seguisse e ela parecia um tanto atônita. E foi aí que ele conseguiu reconhecer a terceira pessoa naquela foto. Entre e o dito irmão dela, estava .



VI - Troublemaker

― Eu te disse que isso não ia dar certo, . ― fazia questão de repetir a frase que mais dissera durante aqueles três meses e meio, e também que sempre fazia a garota fazer aquela expressão amuada que o desarmava completamente. ― Seu irmão me ligou e perguntou se eu tenho alguma ideia de onde você está. Vai saber se ele já não sabe e estava me dando a última chance de contar a verdade? Você sabe a situação que está me colocando?
― M-Mas não foi você quem me colocou aqui, , foi o ! ― ela tentou contornar a situação, como se aquilo amenizasse de alguma forma o que estava acontecendo. ― Você não sabia de nada até me ver, ele não pode brigar com você.
― Não faz diferença, o vai descobrir que eu sei agora e escondi dele e isso acabaria com a nossa amizade, agora eu estou envolvido nisso querendo ou não. ― ele passou uma das mãos nervosamente pelo cabelo, tentando manter a calma.
― Oppa, eu vou dar um jeito nisso! Eu vou consertar as coisas, eu juro, só me dá um tempo, até tudo se acalmar e o meu tio desistir da ideia de… ― engoliu em seco ao lembrar do que fugia, respirando fundo. ― Você sabe… Só mais um tempo.
― Nós não temos tempo,
― Nós temos, eu vou dar um jeito! Por favor, , eu estou implorando. ― a garota se aproximou alguns passos do mais velho, se controlando para não fazer nada que pudesse ser interpretado errado e por isso apenas o obrigando olhar fundo nos seus olhos com aquela proximidade que chegava a ser incômoda naquela situação, discretamente segurado a mão do rapaz que estava caída ao lado do corpo.
Os minutos passaram e nenhum dos dois parecia querer se afastar ou acabar com aquela tortura. sabia que sua resposta seria dada quando se afastasse e estava pesando bem na balança tudo o que podia perder se decidisse continuar ajudando . Mas não podia deixar com que a vida dela acabasse daquela forma também, era tão cruel… Os olhos dela brilhavam tanto em esperança, ao mesmo tempo em desespero. Suspirou.
A sempre lhe trazia problemas. Quando aprenderia que ela tinha que lidar com as coisas de forma adulta?
― Você vai ficar no meu apartamento por duas semanas, vai ser mais fácil lidar com a situação assim. É esse o tempo que vai ter pra decidir o que fazer. Depois disso eu não vou mais colocar minha mão em nada, . Quero que sejamos próximos, mas não quando você quer viver em uma mentira, fugindo de tudo. ― claro que aproveitou para puxar a orelha da mais nova no processo.
… Obrigada. ― mesmo com a bronca ela não se controlou, acabando com o espaço entre eles em um abraço que a fez sorrir largamente ao entrelaçar seus braços em seu pescoço. ― Mas eu queria saber que opção eu tenho se não fugir de tudo?

♣♣♣


Aquela garota era um problema, e um dos grandes. Sabia que devia se manter o mais longe dela possível, mas não conseguia. Era daqueles problemas tão grandes que engolia tudo ao redor, incluindo sua consciência e seu juízo. Ela havia levado os dois e agora estava atrasado completamente absorto em seus pensamentos, perdendo aula enquanto andava calmamente até o colégio quando devia estar correndo.
Tinha um seminário de História da Arte para apresentar com , mas sinceramente depois do que havia descoberto, ouvido e visto há minutos atrás não tinha cabeça para se concentrar em discursar em frente a classe, principalmente ao lado dela. Apesar de sua cabeça estar girando em diversas direções diferentes por tantas informações novas em um curto espaço de tempo, algumas coisas começavam a fazer sentido.
De início não entendera porque estava em uma foto com ela e com o irmão dela, mas agora entendia a proximidade dela com ele, mesmo que essa aparentasse ser bem mais que uma simples amizade, o que era reforçado quando lembrava daquela foto deles que não saia de sua cabeça desde que descobrira a identidade de quem era a terceira pessoa. também estava envolvido na história, apenas piorando o nó em seu cérebro. O que estava acontecendo afinal, o que ela escondia e por que estava fugindo?
― YA, SEU INFELIZ! ― não bastava apenas pensar na garota, agora ela fazia questão de se materializar ao seu lado ofegante e com o rosto vermelho de irritação, batendo em sua cabeça fortemente assim que gritou e lhe fazendo ir com o corpo pra frente, quase perdendo o equilíbrio.
― V-VOCÊ É LOUCA!
― VOCÊ ACHA QUE EU VOU DEIXAR VOCÊ FERRAR A MINHA NOTA?
Aquele choque de realidade o atingiu como um caminhão na pista, lhe fazendo ficar parado encarando a ruiva vestida com o uniforme a sua frente, enquanto suas mãos estavam aonde ela batera e ficara dolorido. Por que ela se importava? Ela realmente era uma estudante normal? Se ela pretendia ir embora, por que estava se esforçando? Ali, duas escolhas se abriam para o que estava em transe. Fingir que não havia visto nada ou confrontá-la. E após pensar um pouco, ele soube bem qual escolher.
― Desculpa… Eu não estou me sentindo bem hoje… ― havia uma verdade tão palpável no tom de voz dele que até mesmo vacilou a postura por alguns segundos, arregalando os olhos levemente.
― O que foi? ― mesmo que seu tom fosse rude e ela estivesse cruzando os braços a frente dos seios como quem não se importava, sabia que ela estava sim preocupada, o que piorava a cada segundo mais o estado de sua cabeça. Daqui a pouco estaria mesmo passando mal de verdade.
― Eu… Só estou tonto. Acho que perdi um pouco o rumo. ― usou a primeira desculpa que veio em sua mente, colocando a mão na testa dramaticamente como se estivesse novamente tendo uma crise.
― Se estava doente que ficasse em casa e me mandasse uma mensagem! Vai, você devia ir pra enfermaria agora e dormir um pouco. ― suspirou desanimada em ter que falar aquilo para o mais novo que parecia até mesmo estar mais pálido. ― Eu vou com você até lá.
― N-Não, não precisa! ― sinceramente, a última coisa que precisava agora era da presença constante da ruiva perto de si, porém a parte de dormir na enfermaria era uma boa. ― Vai lá e apresenta, você deve conseguir sozinha. Eu consigo ir até a enfermaria, é no térreo mesmo. ― tentou até mesmo sorrir um pouquinho para convencê-la, mas a garota não parecia muito confiante. ― Sério, vai lá, !
Aquele aegyo em combo com seu apelido a pegou completamente desprevenida, mas fora tão desnecessário para a mais velha que a fez na hora olhar como se ele estivesse completamente louco e suas bochechas até mesmo ficaram um pouco vermelhas de raiva. Ela não iria deixá-lo sozinho nem mesmo depois dele ter perdido, porém após daquilo ele merecia mais é cair com a cara no chão e rachar aquele rostinho bonitinho que estava com vontade de socar.
Então, apenas deu as costas e saiu andando com passos fortes, jogando o cabelo para o lado ao passar por ele. O suspirou desanimado, assistindo-a se afastar e massageando sua têmpora ao mesmo tempo que suspirava. Um problemão daqueles, bicho, como ia fazer para se livrar de que não saia de sua cabeça?

♣♣♣


estava com o coração dividido em sentimentos diferentes naquele momento enquanto arrumava suas malas a mando de . Estava metade assustada em pensar que seu irmão e seu tio já estavam se esforçando para lhe achar de um jeito que chegava a ser perigoso para sua fuga, mas também estava como uma adolescente apaixonada em pensar em ficar debaixo do mesmo teto que sua paixão de infância, além de um pouco de medo por isso também…
Nenhum dos dois pensou direito no que implicava o que haviam combinado mais cedo. Eram um homem e uma mulher e como haviam conversado, talvez não fosse mais a mesma criança de alguns anos atrás quando se conheceram. Talvez aquela situação fosse o que precisavam para que a visse finalmente com outros olhos, e sinceramente, estava disposta a aproveitá-la.
― Você vai ficar no meu apartamento por duas semanas. ― engrossou a voz, falando para si mesma enquanto começava a rir abobalhadamente logo depois, as bochechas esquentando. ― Quero que sejamos próximos. ― fazia a mesma coisa, rindo ainda mais.
Sabia que havia outras palavras entre essas, mas seu cérebro as extraiu deixando apenas o que lhe interessava. Fechava a última mala aos risos, a levando calmamente até a sala que observou com atenção, se despedindo silenciosamente e então sentindo o desespero novamente. Não sabia se conseguiria voltar para ali e continuar com a rotina que se acostumara a ter naqueles últimos meses, não sabia se seria encontrada.
Mas tinha conhecimento de que era uma mentira. Mas era uma mentira bem mais agradável do que a realidade, que queria se agarrar até não ter mais forças… Andou pelo balcão da cozinha, suspirando e então chegando até a porta que levava ao jardim. Não a abriu, mas pelo vidro viu que a luz do quarto dele ainda estava ligada, o que fez sua expressão se fechar. Depois ficava se sentindo mal na aula, mas apostava que estava vagabundando até agora, que já eram três da manhã, ao invés de ir dormir.
Revirou os olhos, ouvindo o celular tocar e vendo a mensagem de que havia chegado para lhe buscar. Aquele horário era o que podiam ser mais discretos, então ele estacionou com os faróis desligados, descendo do banco do motorista para ajudá-la com as malas. Escondia o rosto com uma máscara e um boné, assim mesmo que algum aluno os visse, não saberia quem ele era.
não podia evitar sorrir, principalmente quando entrou no carro do lado do carona. Era como se estivesse finalmente realizando seu sonho de adolescente em estar daquela forma com o mais velho, porém se esquecia do contexto que estavam e de olhar ao seu redor, não vendo que estava na janela de seu quarto agora com as luzes desligadas, observando o carro dar partida pela rua e sumir pelo horizonte.
O suspirou desanimado. Até quando não queria ela estava se tornando presente em sua rotina… Mas havia muitas coisas que não queria. Queria não saber para onde estava indo. Queria não se importar e muito mais, queria não começar a imaginar o que os dois fariam sozinhos naquele apartamento, por mais que soubesse que eram apenas medidas necessárias na situação que estavam. Ele queria não saber disso também.
Já fazia algum tempo desde que havia chegado ao apartamento de e estava sentada em seu sofá ainda sem coragem de nem mesmo olhar direito para a decoração do local. Só se lembrava de que era no sétimo andar e que o perfume dele estava incrustado em exatamente todos os cantos, todos os metros quadrados. Como seria capaz de lidar com aquilo? Não via nenhuma opção que lhe ajudasse, principalmente ao vê-lo aparecer no corredor agora sem o boné e a máscara que provavelmente deixara guardados, após levar suas malas também.
Os cabelos lisos em tom de castanho claro estavam despenteados caindo sobre o rosto e as bolsinhas embaixo do olho mostravam que ele ainda não havia dormido nada, o deixando ainda mais charmoso. Ao contrário do que acontecia com a maioria das pessoas, a cada ano que passava, a cada dia ele ficava mais bonito. Arriscava dizer até mesmo que a cada minuto que o olhava.
― Vamos, você precisa dormir… Nós precisamos. ― suspirou com aquilo, o cansaço do dia de trabalho e todas as preocupações parecendo se acumularem em suas costas. ― Você vai ficar no quarto de hóspedes. É dividido com o meu escritório, mas não acho que seja desconfortável, só não é a sua altura.
― A minha altura? ― se levantou rapidamente quando viu que o amigo já se dirigia ao seu mais novo quarto. ― O que você quer dizer com isso?
― Que eu não esperava receber uma mulher na minha casa. ― ouvir pronunciar aquela palavra se referindo a si a fez parar no corredor de olhos estatelados, o encarando em choque. Ele havia mesmo lhe chamado de mulher? ― Principalmente uma de alto nível como você, então não preparei nada. Espero que não se importe.
Ele abriu a porta do quarto de hóspedes e ergueu a mão para sinalizá-lo para ela, guiando os olhos da maçaneta para a garota. precisou de alguns segundos para se recuperar do que havia ouvido, suas bochechas vermelhas e a respiração descompassada. a deixara completamente louca com apenas uma palavra, não queria nem pensar em como ia dormir…
― Isso não importa, eu me sinto confortável em qualquer lugar que não seja a casa do meu tio. Achei que soubesse que eu não tenho essas frescuras. ― fez questão de frisar quando finalmente conseguiu formular uma linha de raciocínio novamente que não envolvia agarrá-lo. ― E você sabe, … ― deu alguns passos em frente, parando dois antes do rapaz e sorrindo. Um sorriso raro que o homem não via há muitos anos e o fez até mesmo ficar surpreso. ― Eu me sinto segura que eu esteja com você. Muito obrigada por tudo o que você sempre fez por mim desde quando nos conhecemos. Eu nunca vou esquecer.
tentou ficar sério e manter sua postura tão rígida quanto era normalmente, mas naquela hora nem ele mesmo aguentou e o canto de seu lábio se repuxou sem permissão enquanto analisava aquele sorriso de . Podia sentir que ela estava realmente feliz com aquela espécie de liberdade e por estar ali, fora das garras do tio, e isso o deixava satisfeito em ter feito todas aquelas coisas. Levou uma das mãos até o ombro da mais nova, se aproximando um passo.
― O meu quarto é na porta da frente se precisar. ― e então beijou o meio de sua testa protetoramente, demorando alguns segundos talvez desnecessários por ali. ― Boa noite, .
Quando acordou, se perguntou como conseguiu dormir mais que cinco minutos naquela noite. Apenas se lembrava de tantos pensamentos cruzados que quase lhe fizeram ter uma crise de ansiedade durante o tempo que deveria descansar, e agora o sol que passava entre a fresta da cortina incomodava um pouco seus olhos, em combinação com as batidas apressadas na porta que de início quase a causaram um ataque do coração até relembrar tudo o que havia acontecido.
Estava na casa de . E ele ainda estava batendo na porta.
― J-Já acordei! ― anunciou um tanto preguiçosa, passando as mãos pelos olhos ainda meio fechados.
― Sai logo ou o café vai esfriar.
Aquilo fez com que ela sorrisse de canto ao murmurar qualquer coisa em concordância. estava lhe mandando sair logo, não? Então não ia ter tempo de trocar de roupa, não é? Fez questão apenas de ir até o espelho que ficava no criado mudo embutido no armário e arrumar os cabelos para que não parecessem muito bagunçados, checando também se seu rosto não estava muito amassado para logo depois sair do quarto.
Saiu como se não estivesse vestindo apenas uma camiseta de seu irmão larga e comprida o suficiente apenas para cobrir a cueca feminina que usava com detalhes de renda, que aparecia a cada movimento brusco que fazia com os braços já que a camiseta subia. Sentou-se na cadeira a frente do mais velho como se ainda estivesse dormindo e observou a mesa posta demoradamente, apenas para algum tempo depois olhar para e se dar conta que ele estava concentrado mexendo no celular e nem mesmo olhara para si ainda.
Todo aquele Teatro e ele nem mesmo havia lhe olhado, nem mesmo erguera o rosto para dar bom dia. Sentou-se calmamente, mesmo que por dentro quisesse muito xingá-lo e quase o fez, se controlando apenas com uma mordida forte na parte interna de sua bochecha, enchendo a xícara inteira de café até a borda, sem nem se importar se não era assim tão fã de café, sentia que para manter sua sanidade convivendo com , precisaria de algo forte e álcool no momento não era uma opção.
― Eu acordei mais cedo e já me arrumei, então você pode ficar à vontade. ― o mais velho falava tranquilamente, ainda sem nem mesmo desviar os olhos da tela. ― Vou te esperar pra sairmos juntos, mas não se atrase.
― Tudo bem. ― respondeu apenas em um falso tom simpático que era bem perceptível. ― Eu vou tomar um banho. ― anunciou após virar a xícara completamente e respirar fundo.
Seguiu o caminho até o corredor sem olhar para trás porque sabia que ele não estaria olhando de qualquer jeito, entrando no banheiro e trancando a porta. Assim que ouviu o barulho da fechadura, jogou o celular na mesa e passou as mãos pelo rosto em desespero, limpando até mesmo algumas gotas de suor que ameaçavam escorrer pela sua testa.
O que aquela garota estava tentando? Tirar sua sanidade? Se continuasse fazendo aquilo não seria nada fácil. E alguma coisa em sua mente dizia que ia ser pior e ela ia fazer muito mais, aquilo fora apenas um presságio.
Tiveram de ser discretos quando chegaram no Colégio, quinze minutos mais cedo do que o horário de entrada para que tivesse o menor número de pessoas possíveis no estacionamento aos fundos do prédio. fora deitada no banco de passageiros atrás, assim ninguém a veria quando estivessem passando, e discretamente saiu pelo lado do muro quando estacionou.
Quando o rapaz também desceu do carro, os dois até mesmo respiraram aliviados, estavam crentes que estavam seguros quando a garota se virou para entrar no prédio do Colégio e deu de cara com . Ele estava com um sorriso malicioso nos lábios, mas na realidade não parecia assim muito feliz de ver aquela cena.
― Bonito, ein? Que bonito! Que cena mais linda, será que eu estou atrapalhando o casalzinho aqui? ― o amigo começou a dramatizar, cruzando os braços na frente do peitoral e então olhando feio para os dois.
, não é nada do que você está pensando… ― espalmou as mãos no ar. tudo bem saber daquilo, mas estava em choque pelo medo de alguém chegar ali e ver a situação.
― ISSO ME FAZ PENSAR QUE É EXATAMENTE O QUE EU ESTOU PENSANDO! ― o grito do rapaz fez se precipitar sobre ele, já com a mão erguida para tampar aquela boca grande.
― Não é NADA, NADA do que você está pensando. E nós podemos explicar tudo se você calar a boca. Mas não aqui, e não agora. ― sério e direto como sempre, falou em um tom firme que apenas fez com que o amigo ficasse de revoltado para extremamente preocupado.
― O que está acontecendo que eu, seu melhor amigo, não sei? ― após se desvencilhar da mão que cobria seus lábios e abafava sua voz, agora virou sua fúria para que estava com os ombros encolhidos assistindo aquela cena.
― Você vai à minha casa depois do horário de aula e nós vamos te contar. Mas agora não é o momento. ― voltou a falar pela ruiva, apontando discretamente para a entrada do colégio onde não podiam ver, mas podiam ouvir as vozes dos alunos que começavam a chegar.
― Tudo bem, mas eu quero saber todos os detalhes do porquê vocês passaram de duas pessoas que evitavam uma a outra pra estarem chegando juntos no mesmo carro. ― e então ele entrou no pátio, deixando e sozinhos novamente.
A suspirou desanimada, ouvindo o sinal tocar anunciando que devia ir para a aula, mas toda sua empolgação fora embora após aquela pequena discussão com o . É claro que pensara no rapaz antes e queria contar para ele, mas aquilo era sério demais para simplesmente mandar uma mensagem e queria falar pessoalmente, porém antes que pudesse ele mesmo viu. Entre seus pensamentos confusos, sentiu uma mão pousando em seu ombro e ao abaixar os olhos do céu até sua frente, viu sorrindo para si.
― Vai ficar tudo bem, não fique desanimada. ― o homem incentivou, apertando carinhosamente seu ombro para reforçar que ele estava ali. ― Agora vá pra aula antes que desconfiem mais de nós do que já desconfiam.
soltou uma risadinha com aquilo, concordando com a cabeça calmamente e então obedecendo, se misturando aos outros colegas que já estavam andando pelo pátio ou esperando o elevador para irem até suas salas. Olhou para trás, buscando ver uma última vez, mas ele já não estava mais lá, a fazendo suspirar outra vez.
― Por que pessoas apaixonadas suspiram tanto? ― seu coração deu um salto tão grande ao ouvir aquilo que quase saltou pela boca, fazendo colocar uma das mãos entre os seios e segurar a outra para não virá-la na cara de quem sabia muito bem que estava atrás de si.
, maldito… ― grasnou revoltada, sua expressão mudando completamente para uma infeliz. ― E por que você é tão intrometido?
― Então você admite que está apaixonada? ― ele questionou, a inocência mostrada em seu olhar nem de longe era seu verdadeiro pensamento.
― Você admite que é intrometido? ― voltou a perguntar da mesma forma que ele, cerrando os olhos.
― Facilmente. ― sorriu. Sorriu de uma forma tão cínica que por pouco a ruiva não perdeu a cabeça e o estapeou ali mesmo. Na verdade, ela o faria, se não houvesse chegado bem na hora. ― Todo mundo sabe disso.
― Wooah, vamos evitar agressões logo tão cedo, certo? ― ele sorriu condescendente, colocando uma das mãos no ombro do e a outra no de para se enfiar no meio dos dois e apartar qualquer briga que fosse iniciada, claramente por ela.
― Não se preocupe, , eu já estava de saída. ― forçou um sorriso para o garoto, então se desvencilhou de sua mão e saiu andando até os armários.
― Sinceramente, quando vocês vão parar com isso? ― questionou com um suspiro desanimado. Não estava em lado nenhum, só no da paz e do amor e queria que os dois se resolvessem logo porque sabia que no fundo estava interessado em , mas provavelmente demonstrava da forma errada.
― Quando o parar de seguir ela, né, ? ― puxou o mais novo pela gola da camisa ao vê-lo passar ao seu lado com os olhos focados na direção aonde estava.
― O-Oi?! ― respondeu se fazendo de desentendido e ficando assustado por estar sendo tão óbvio, arrancando um suspiro e fazendo balançar a cabeça negativamente.
estava mesmo escondendo alguma coisa, disso não tinha mais dúvidas, e aqueles stalkers como não ajudariam muito a manter o segredo enterrado. Não sabia bem se devia ajudá-la, aquilo não era exatamente um assunto seu e nem sabia o que poderia fazer, mas esperava que a garota fosse inteligente o suficiente para saber o que estava fazendo.

♣♣♣


― Podem começar, sou todo ouvidos.
cruzou os braços e as pernas impaciente, sentado no sofá da casa de e encarando tanto ele quanto que estavam sentados lado a lado no sofá da frente ao qual estava. Os dois se entreolharam com cara de quem sabia que havia aprontado e viria à bronca por aí, e ela não conseguia esconder seu nervosismo.
― Então… O descobriu que meu irmão e meu tio contrataram investigadores particulares para me procurarem e nós estamos com medo de que eles venham até aqui, já que eu tenho vocês dois de conhecido em Qar. ― explicou calmamente, deixando todo o ar sair de seus pulmões logo depois. Pensar em como contaria para durante toda a manhã fez parecer que era bem mais difícil do que realmente era.
― Só isso? Isso ia acontecer uma hora ou outra. ― ele revirou os olhos em descrença que tanto drama era pra algo que os três já deviam estar esperando. ― Esconder você na casa do não é uma boa ideia. Arrume suas malas, você vai pra minha. ― ditou, já se levantando e olhando para o corredor para irem até onde sabia que ficava o quarto de hóspedes.
ficou atônita olhando para do melhor amigo para que suspirou desanimado, segurando seu pulso para que não se levantasse e continuasse sentada ao seu lado.
― Não, ela vai ficar. ― ele se manifestou, jogando as costas para o encosto do sofá como se tivesse tentando ficar tranquilo.
― Como é?
, a amiga é sua. ― encarou o mais novo com o olhar impassível e frio de quem não iria mudar de ideia. ― Em qual lugar você acha que eles vão procurar primeiro? ― perguntou como se fosse óbvio. ― Com ela aqui, pelo menos você pode nos avisar antes e eu dou um jeito de tirá-la rápido daqui.
― Faz muita diferença, não é, nós nem moramos no mesmo prédio. ― revirou os olhos cruzando os braços na frente do peitoral, o silêncio sendo sua única resposta e lhe fazendo sentar novamente. ― Se é assim que vocês querem, mas eu não quero saber nem de vocês se tocando, inclusive pode soltar o pulso dela! ― apontou revoltado para a divisão do sofá onde ainda deixava sua mão sob o punho da menina.
Antes que fizessem qualquer outra coisa, ouviram batidas desesperadas e em sequência vindo da porta do apartamento, fazendo o casal arregalar os olhos enquanto ignorava, pensando ser apenas algum dos colegas de administração, talvez que estivesse precisando resolver alguma coisa com eles. Porém, como de costume era cuidadoso e levantou rapidamente, olhando pelo olho mágico do local apenas para confirmar suas suspeitas.
? ― essa pergunta em tom duvidoso foi apenas um aviso para que estava em seu sofá.
Ao ouvir esse nome, a congelou no lugar onde estava, o rosto empalidecendo completamente ao pensar que o irmão estava assim tão perto. olhou para , tentando manter a calma enquanto esperava que ele percebesse que ela estava entrando em uma crise e precisaria ser levada dali, ou colocaria tudo a perder.
― Desculpe vir sem avisar, mas eu realmente preciso de você agora.
A voz saiu abafada do outro lado da porta, mas ainda era a voz de seu irmão que fez o coração de quase sair pela boca. Ele estava ali, a apenas alguns passos de si, ele estava tão perto… Ela entrou em estado de choque, a saudade apertando tanto que não conseguia se segurar. Não conseguia acreditar que teria de se esconder dele, de fugir dele. Seus olhos se encheram de lágrimas e nem mesmo quando foi levada para os quartos despertou daquele estado.
respirou fundo antes de destrancar a porta, seu coração doía de ver naquele estado e também se apertou ao puxar a maçaneta e ver como se encontrava destruído. Os cabelos dele estavam mais compridos do que havia visto em toda a sua vida, caindo sobre os olhos inchados, avermelhados e com olheiras escuras embaixo deles, junto com uma barba por fazer que era praticamente chocante.
― Desculpa, não lembrava onde tinha deixado à chave. ― falou como desculpa, observando o amigo ainda atônito. Nem mesmo quando aquilo aconteceu vira o tão acabado como estava vendo agora. ― Entra.
― Não tem problema. ― ele fungou, jogando os cabelos para trás ao entrar e olhando a casa vazia e sempre perfeitamente arrumada de , se jogando no sofá sem nem ver que o amigo engolia em seco ao vê-lo sentado exatamente onde estava há alguns minutos atrás.
― Você quer alguma coisa? ― ficou em pé perto da cozinha pronto para pegar um copo d’água ou de alguma bebida. Se ficasse um pouco alto, provavelmente deixaria passar qualquer detalhe que estivesse na cena do crime.
― Só quero conversar. ― suspirou desanimado, deixando o rosto cair no encosto do móvel. ― Os investigadores estão andando pela cidade, procurando alguma pista dela. ― aquilo fez gelar e um arrepio subir por sua espinha. Se já não estivesse sentado, provavelmente pegaria alguma coisa pra ele mesmo beber. ― Eu não queria fazer isso, mas eu sei que é bem capaz dela estar por aqui por causa do .
― E o que você pensa disso? ― engoliu em seco. sempre fora inteligente, mal ele sabia que seu raciocínio estava correto.
― Pelo menos se estiver, eu sei que você e ele cuidariam dela por mim, então eu os perdoo. Eu sei como a consegue ser persuasiva quando ela quer, principalmente em uma situação como essa que ela está certa. ― com isso, todos os poros do corpo de se arrepiaram, sentindo um peso enorme saindo de suas costas. ― Mas não consigo ficar sem ela. É egoísta, não é? Não consigo entender porque ela preferiu fugir sem nem mesmo me dar uma dica.
― Talvez ela não quisesse atrapalhar sua vida agora que as pesquisas biológicas vão tão bem. ― o amigo tentou argumentar da forma mais neutra que conseguia para não acabar se entregando.
― Então ela realmente não me conhece bem. ― até mesmo sorriu de canto com aquela hipótese, balançando a cabeça negativamente. ― Acho que eu estou ficando louco, parece até que eu estou sentindo o cheiro dela.
― Vamos pro terraço, deve estar vazio agora. Nós podemos conversar melhor e espairecer um pouco lá. ― falou rapidamente, abrindo um meio sorriso e se levantando. Oferecendo a mão para que a pegasse para levantar.
Mesmo que não pudesse, estava feliz de ouvir que lhe perdoava. Isso com certeza o ajudaria a dormir a noite, mas não completamente em paz sabendo que o amigo estava procurando incansavelmente a irmã que estava bem mais perto do que ele imaginava no momento.

Luto contra as lágrimas enquanto escondo meu medroso coração
Eu irei te procurar

Ainda que eu não saiba onde você está
Sigo firme o compasso do meu coração
Posso ver você apenas de olhar o mapa desenhado em meu coração,
procurando lentamente

E daí se for longe? Eu vou te encontrar
Seguindo a linha onde nós dois continuamos

Quando você diz que meu nome está gravado em seu coração
Lembre-se da razão pela qual meus olhos ficaram grandes

Agora mesmo, preciso de alguma coisa que assemelha a você
Mas eu não tenho isso em mim
Então vamos nos encontrar novamente
Até que eu chegue, você precisa ficar bem
Estou te procurando agora mesmo

Eu realmente, realmente quero te ver
• I’m Looking For You Now, Seventeen

♣♣♣


, sai dessa janela, nós precisamos ir comprar comida!
gritou pela quinta vez do andar debaixo da casa, fazendo com que o revirasse os olhos se dando por vencido e saindo do quarto ao mesmo tempo que fechava a jaqueta ao descer as escadas. Tinham dois carros parados do outro lado da rua na frente da casa dela desde a hora que chegaram do colégio.
Não podia deixar de pensar que tinha alguma coisa errada, aquilo estava relacionado com ela ter saído de lá e o que aqueles homens queriam com a garota? Não conseguia se concentrar em fazer o que devia desde que os vira ali, por isso estava praticamente sendo arrastado por pelo caminho até o terraço.
O amigo até mesmo tentou lhe distrair enquanto andavam pelo local, mostrando algumas roupas em lojas ou coisas aleatórias, mas na verdade o que tirou sua concentração completamente foi ver sentado em uma das mesas da cafeteria com um homem a sua frente.
E ele reconheceu quem era.
sunbaenim! ― se aproximou praticamente correndo, acenando animadamente com a mão que não segurava as sacolas. Queria confirmar se era aquilo mesmo que estava pensando, e vendo a face de empalidecer rapidamente tinha certeza de que estava certo.
Não ia falar nada sobre , apenas estava curioso para conhecer o irmão dela de perto.
, o-oi! ― pela primeira vez em todos aqueles anos que estavam em Qar viu próximo de perder a compostura, enquanto os lábios dele tremiam levemente.
― Eu só vim te cumprimentar, é raro te ver fora do apartamento. ― e então curvou as costas levemente duas vezes na direção de cada um dos dois, demorando um pouco o olhar no irmão da garota.
Não sabia nem mesmo como ele se chamava, mas sabia que alguma coisa ia errado com ele pela expressão cansada. Porém, se o homem estava ali com , é por que ele deveria saber da presença de , não é?
― É verdade… ― olhou para que observava com seu natural olhar de raio x, como se analisasse se tinha alguma coisa errada com o que deveria ser um projeto de modelo de cidadão. ― Bom, eu recebi um amigo então nós resolvemos dar uma volta…
― Ahhh, eu estou atrapalhando, não é? Me desculpe! ― se curvou mais uma vez, sorrindo largamente junto com o pedido de desculpas. ― Vou deixá-los resolver seus assuntos. Foi um prazer.
E então ele virou de costas saindo, encontrando no meio do caminho. ignorou o que havia acontecido, mas não conseguiu. Sabia que agir daquela forma tão espalhafatosa era da natureza de , mas parecia que tinha alguma coisa fora do lugar.
O por sua vez voltou para casa calado, apenas respondendo quando esse lhe questionava alguma coisa. Sabia que o amigo ficaria preocupado e não sairia de seu pé, mas agora sua mente girava em tantas direções diferentes e estava tão confusa… parecia estar lhe perseguindo em todos os lugares que ia, e para completar foram parados ao entrar na rua de casa, os dois homens que estavam no carro agora estavam na porta da onde a ruiva morava.
― Hey, vocês dois moram nessa rua, não é? ― um deles questionou ao se aproximar, rodando a chave do carro em um dos dedos.
― Sim, logo ali. ― respondeu prontamente, claramente já em choque de medo de levar uma dura ali mesmo.
― Tem alguém morando nessa casa? ― o outro questionou, pegando um celular do bolso.
― Não. ― respondeu rapidamente antes que abrisse o bocão da royal. ― A última pessoa que morou nela foi embora já fazem uns seis ou sete meses, ela ficou doente. Dizem que essa casa é assombrada desde então porque nós ouvimos explosões vindas dela, então ninguém entra. ― inventou uma historinha pra mentira ser mais convincente, mas na realidade nem era uma mentira. não estava mais morando ali mesmo, a inquilina antes dela fora embora por doença e ouviram mesmo a explosão naquele dia.
― Hm… E vocês já viram essa garota nas redondezas? ― o mesmo cara que pegou o celular agora mostrava uma foto de .
Era uma foto tão bonita e pura que ficou extasiado a olhando por alguns segundos. A garota estava na praia e sorria largamente para a câmera, segurando um chapéu na cabeça com os cabelos voando e o vestido leve branco também. Ela parecia estar tão feliz ali…
― Não, mas se você quiser mandar essa foto, eu super aceito! Essa garota é muito bonita! ― como sempre voltava a ser o cara de pau de sempre, aproveitando para dar um largo sorriso na direção do investigador. Vai que, né?
, ela não é aquela garota? ― claro que ia querer dar com a língua nos dentes cedo ou tarde, claaaaro, mas não tinha problema porque o já havia se preparado para isso!
― É claro que não, enlouqueceu? Aquela lá não chega nem perto dessa aqui, olha como ela é bonita! ― apontou para a tela do celular, agindo tão naturalmente que até mesmo os dois homens ficavam confusos sobre o que estava acontecendo. Eles conheciam ou não, no final? ― Meu amigo a confundiu com uma garota que estuda com a gente há anos, acho que ele deve estar precisando de um óculos. ― revirou os olhos dramaticamente.
Os dois investigadores se entreolharam e então suspiraram. Se estudava com eles há anos, não podia ser já que ela sumira apenas há seis meses.
― Tudo bem então, era só isso. Obrigado.
― De nada, de nada, sempre as ordens! ― sorriu novamente, se curvando duas vezes e então saindo saltitante em direção a casa.
o seguiu com um sorriso nervoso, também movendo o pescoço em cumprimento. A primeira coisa que aconteceu quando fecharam a porta de casa foi soltar todo o ar que tinha prendido durante a atuação por cinco minutos tentando se acalmar e o amigo lhe encarar como se estivesse ficando louco.
― Por que você mentiu pra eles, ?! ― o questionou tentando controlar o tom de voz para que a rua toda não pudesse lhe ouvir.
― Porque eu sei demais sobre ela, . Mais do que você pensa e mais do que eu gosto de admitir.

♣♣♣


entrou em casa acabado e aliviado ao mesmo tempo. Não sabia descrever o quão seu coração estava em paz depois de conversar tanto com e tentar tranquilizá-lo, mas o cansaço mental de continuar escondendo o que sabia para o amigo era terrível. Além disso, também havia
Puxou o ar, trancando a porta e deixando a carteira em cima do balcão da cozinha enquanto ia tomar uma água para criar coragem de enfrentar outra coisa agora: a provável fúria de e a crise emocional que enfrentara durante aquelas horas que ficou fora.
Andou a passos lentos até o quarto de hóspedes como se não quisesse mesmo chegar lá, e realmente não queria muito não, porém tirou o resto de coragem que tinha e bateu na porta duas vezes antes de entrar, encontrando adormecida na cama de olhos inchados e sentado ao lado do móvel na cadeira que estava a frente da escrivaninha, fazendo um carinho calmo nos cabelos vermelhos.
Os dois ficaram em silêncio enquanto ele se levantava e saía com o menor ruído possível para não acordá-la, fechando a porta da mesma forma cuidadosa e encontrando com escorado na parede do corredor.
― Ele saiu da cidade? ― questionou preocupado, passando a mão nos cabelos para jogá-los para trás e recebendo apenas um aceno de cabeça positivo do amigo que lhe fez respirar aliviado.
― Desculpe não ter te contado antes. Ela disse que queria falar. ― pediu, erguendo os olhos na direção do mais novo que parecia tão cansado quanto si, mas deu de ombros.
― Tudo bem, eu estava nervoso na hora, mas entendo. ― mais um alívio para as costas de , parecia que finalmente ele ia conseguir dormir em paz.
― Ele disse que nos perdoa, . ― murmurou após algum tempo de silêncio entre os dois e virou o rosto para o lado contrário ao qual ele estava, um sorriso escapando por seus lábios. ― Eu sei que isso não te importa porque vocês nunca foram próximos, mas ele disse que se nós estamos escondendo ela, ele nos perdoa porque pelo menos ela está protegida.
― Vamos ver se esse discurso vai continuar quando ele descobrir que somos nós mesmo. ― aquelas palavras foram como um soco no estômago de que arregalou os olhos. Ao perceber o que havia feito ao acabar com a paz de espírito do mais velho, bateu levemente contra a própria cabeça. ― Mas provavelmente vai. Ele sabe que ela está certa, mesmo usando os métodos errados.
arfou, tentando se apegar aquilo. Sim, no final, o pior de tudo é que estava certa e todo mundo sabia.
― Como ela está? ― perguntou, olhando para a porta fechada.
― Destruída. Chorou no meu colo até dormir. ― também doía em ter que constatar aquilo. Aquela situação não era fácil pra nenhum deles e não seria para ninguém que se envolvesse nela. ― Mas amanhã ela vai acordar melhor.
― Assim espero… ― desejou, não sabia lidar bem nem mesmo com em sua casa, quem dirá com uma depressiva em sua casa. Ao menos não precisaria ir trabalhar, e já sabia o que fazer para acabar com aquele clima que ficaria na casa.
― Sabe, … ― começou a dar passos lentos na direção da sala, passando pela frente do amigo que o seguiu com uma cara de dúvida. ― Eu sempre soube que ela escolheria você mesmo que você não goste dela do mesmo jeito que ela gosta de você. Você chegou primeiro e sempre a ajudou dos bastidores, e eu entendo e aceito isso. ― pegou o casaco que deixara escondido atrás do sofá, o colocando calmamente. ― Mas parece que isso está mudando, não é?
Seu olhar firme buscou os olhos de , mas ele não tinha coragem de encará-lo de volta. nunca admitira ou dera sinais de que ele também era… Não, por que pensara “também” quando ainda estava confuso com seus próprios sentimentos e não sabia se via como uma mulher ou apenas como uma irmã a qual queria muito proteger de todos os problemas que se metia, e olha que não eram poucos.
― Você não tem responsabilidade alguma comigo, nós nem éramos amigos antes de começarmos a trabalhar juntos e também não sabia dos meus sentimentos por ela. ― deixou claro que a amizade deles não estava em jogo naquilo. Mas o que estava, preocupava bem mais. ― Mas se acontecer o que eu estou pensando que vai… Você tem a responsabilidade de cuidar dela. E eu acho bom você fazer isso direito.
E então, ele saiu batendo a porta sem se importar com o barulho, deixando paralisado com todas as aquelas informações em tão pouco tempo, todos os sentimentos conflitantes vindo a tona. O que deveria fazer agora…?



VII- Pinwheel

Todo seu corpo doía quando acordou no outro dia, como se todos seus ossos tivessem sido moídos. Estava acostumada a acordar mal, mas naquele dia sinceramente as proporções passavam do comum. Não fazia a mínima ideia de que horas eram, mas o calor que fazia no quarto estava lhe incomodando extremamente, evidenciando que às seis e meia da manhã já haviam passado e devia fazer um tempo…
Arregalou os olhos ao perceber isso, estava tão cansada que não havia ouvido o despertador tocando para ir para a aula?! E , ele não tinha lhe chamado antes de sair?! Levantou tão rápido que teve que sentar de novo no colchão, se sentindo zonza e perdendo o equilíbrio das próprias pernas.
Guiou uma das mãos até a testa ao sentir a cabeça latejar, olhando para o relógio que ficava na mesa do escritório do homem. Já passavam das oito e meia da manhã, esse horário com certeza já estava no Colégio, o que queria dizer que estava sozinha… Não queria ficar sozinha, só de ficar com seus próprios pensamentos naqueles poucos minutos já sentia que ia enlouquecer, tentando ao máximo não pensar no que havia acontecido na noite anterior.
Não queria pensar no irmão. Não queria lembrar da voz dele tão próxima e nem do que ouvira atrás da porta sem o consentimento de . Queria que tivesse perguntado mais sobre como ele estava se sentindo em relação a si, mas provavelmente não teria estruturas para aguentá-lo dizer sobre estar decepcionado. O que ainda lhe manteve em pé na noite passada foi ouvi-lo dizer que estava certa.
Balançou a cabeça para os lados para afastar os pensamentos e se levantou decidida, ignorando qualquer músculo dolorido ou dor de cabeça que lhe incomodaram. Perdera as primeiras aulas do dia, mas ainda podia pegar todas as outras, era só ir até o Colégio, não devia demorar mais de quinze minutos a pé de sua nova casa. Às vezes esquecia como Orkan era flexível com os horários, contanto que você tivesse uma frequência acima de noventa por cento em todas as aulas e notas acima da média oito, você podia chegar no horário que quisesse.
Bom, não havia faltado a nenhuma aula desde que fora obrigada a começá-las, então poderia até mesmo passar o dia inteiro em casa se quisesse, mas não estava disposta a lidar com sua crise existencial e seus demônios assim tão cedo, por isso agarrou o cabide que havia deixado preso na porta do armário com o uniforme e foi rapidamente até o banheiro.
, assim como no dia anterior, havia cuidadosamente deixado uma toalha vermelha dobrada em cima do balcão da pia lhe esperando, fazendo até um sorriso de canto aparecer em seus lábios com aquela demonstração de cuidado. Novamente ele estava cuidando de si, mesmo sabendo no que isso implicava e a se sentia a cada dia mais culpada por tê-lo envolvido nisso.
Suspirou, resolvendo afogar seus pensamentos em um banho que foi rápido, não queria se distrair demais e começar a divagar. Foi então que olhou bem para o que estava no cabide e arregalou os olhos. Por que tinha um vestido em tom creme com estampas de florzinhas pequenininhas em borrões de aquarela rosados e avermelhados ali?
Levou as costas das mãos até as orbes, às esfregando por alguns minutos para ter certeza que não estava sonhando ou delirando, mas o vestido continuava ali quando voltou a recair o olhar sob o cabide. Onde estava seu uniforme? E que roupa era aquela que nem ao menos conhecia…? Podia estar meio lerda hoje, pois só percebeu o bilhete grudado na parte das costas quando esbarrou acidentalmente nele com a mão, pegando-o rapidamente apenas para encontrar a caligrafia bem desenhada de com palavras que lhe tiraram o ar.

“Espero que goste desse presente.
Se arrume.”

Assim como todos os bilhetes que ele lhe deixava, não havia assinatura, apenas o recado que queria passar. Sentiu-se eufórica por alguns segundos, esquecendo tudo o que formava um peso enorme em suas costas e apenas sorrindo boba, obedecendo ao rapaz. Colocou o vestido que ele lhe dera, as mangas de ombro a ombro caindo folgadinhas tocavam sua pele de uma forma prazerosa, assim como o resto do tecido que emoldurava seu corpo pelo corte da peça, com a ajuda do decote reto.
Aquele vestido muito provavelmente nunca seria algo que escolheria sozinha, ele era muito delicado para , mas ironicamente ficara muito melhor do que pensara quando viu que devia colocá-lo. Atravessou o corredor para seu quarto correndo, não queria que lhe visse até estar pronta. Já que ele falara para se arrumar, faria direito.
Escolheu um sapato baixo, não sabia para onde e o que iam fazer afinal, e então pegou seu colar favorito que havia ganhado do irmão para que seu colo não ficasse totalmente exposto, a pequena pedra de rubi rodeada por uma moldura de ouro reluzindo quando o sol ou alguma luz qualquer batia nela. Sentia-se bem e segura com aquele colar, era como estivesse com o irmão consigo.
costumava dizer que aquela pedra era como seus olhos. Um brilho avermelhado único faiscava deles, ao mesmo tempo em que refletiam todos os sentimentos que ela escondia dentro do peito. Nunca conseguia disfarçar nada em seu olhar, em seu caso era realmente a janela da alma e todas suas verdades estavam expostas no fundo de suas íris. Mas tudo bem contanto que ninguém descobrisse isso e começasse a prestar atenção, não é? Isso não acontecia normalmente, as pessoas tinham medo de encará-la, então não se intimidava com aquela “fraqueza”.
Arrumou os cabelos do melhor jeito que pôde de última hora, ajeitando as pontas cacheadas e jogando a franja para o lado já que ela crescera demais para ser usada como quando chegara em Qar, que era cobrindo a testa. Tentou não se maquiar demais por estar de dia, então não demorou muito mais de vinte minutos para estar pronta e perfumada. Antes de sair, porém, olhou para a tela de seu celular.
Tinha uma mensagem simples de já estampando sua lockscreen, um ponto de interrogação com uma carinha pensativa do lado, provavelmente sinalizando o porquê diabos ela ainda não tinha chegado na aula. até mesmo soltou uma risadinha com aquilo, aquele garoto era muito idiota, mas não podia mentir e falar que não era divertido e engraçado com o jeito naturalmente espalhafatoso.
Por alguns segundos entrou em um monólogo interior, se perguntando se deveria avisar que não iria? Por mais que quisesse fazer birra e não o fazer, sabia que era errado deixá-lo sem notícias quando tinham obrigações a serem cumpridas juntos, como a apresentação do trabalho de Tecnologia aplicada em relações internacionais que fizeram por mensagens durante a semana que passou. Respirou fundo, digitando rapidamente uma mensagem que dizia “Eu te cobri em História da Arte, sua vez de fazer isso por mim”.
Bloqueou a tela logo depois, deixando o aparelho no silencioso e o guardando na pequena bolsa marrom que era segurada pela alça fina e longa em seu ombro, e então saiu do quarto, respirando fundo para encontrar o que lhe estava esperando.
…? ― chamou quando chegou à sala com passos cuidadosos e a viu vazia, arqueando uma das sobrancelhas. Ainda tinha aquela impressão de que algo errado estava acontecendo, mas para seu alívio o homem apenas saiu da varanda com as mãos nos bolsos e um sorriso calmo.
― Você demorou, já estava quase indo te acordar. ― ele sorriu bem humorado, deixando-se por alguns segundos observar o quão bonita estava. Era torturante pensar que aquela adolescente de maquiagem borrada e preta que conhecera se tornara uma mulher estonteante.
― Me desculpa, mas eu estou confusa. ― parou atrás do sofá, passando a mão levemente na testa e tentando pensar.
― Com o quê? ― aquilo sinceramente não era uma surpresa, óbvio que estaria se perguntando o que diabos está acontecendo, mas fazer aquele teatro era divertido demais para .
― Com tudo o que está acontecendo…? ― o tom da ruiva era tão duvidoso quanto sua expressão facial, arrancando uma risadinha satisfeita do mais velho.
― É óbvio, eu achei que você não estava em condições de encarar um dia de aula hoje, então nós dois vamos a um passeio. ― ele passou ao lado do balcão da cozinha, pegando a cesta de vime que a ruiva não tinha percebido que estava ali por estar confusa demais.
Confusa, perplexa, em choque.
Aquilo parecia um encontro ou estava só pensando demais?
Tinha que parar de agir como uma adolescente, a situação era apenas delicada demais e queria apenas lhe levar para se distrair e provavelmente tentar a convencer de que estava na hora de encarar as coisas de frente, como ele sempre dizia. E se ele estivesse pensando em a entregar e fosse levá-la até seu irmão? Ou pior, até seu tio?!
― Para de pensar demais. É só um passeio. Você ficou muito paranoica. ― bom, não que pudesse tirar a razão da menina afinal, mas vê-la perdendo toda a cor da face apenas porque queria levá-la para se distrair era um pouco desesperador.
respirou fundo, balançando a cabeça para sair de sua dimensão e deixando um sorriso tomar seus lábios. Era uma anta mesmo, quando aprenderia que podia confiar em cegamente? Ele nunca chegaria tão longe e daria o pé pra trás agora, nunca lhe entregaria daquela forma.
Mas a conversa sobre se entregar ela tinha certeza que ia rolar cedo ou tarde.
― Tudo bem, me desculpa, eu só…
― Não tem problema. Vamos? ― cortou-a delicadamente, não querendo que o clima pesasse logo no começo do dia.
Na verdade ele não queria que o clima pesasse em hora alguma daquele dia. Queria que fossem as melhores horas de em muito tempo e queria que o coração dela ficasse leve, e que ela pudesse lembrar do que aconteceria por toda a sua vida.

♣♣♣


Acordara naquele dia com um humor terrível que até mesmo assustara . Não entendia exatamente o porquê, mas toda aquela história envolvendo era torturante e lhe deixava extremamente estressado, principalmente quando ela fazia questão de simplesmente desaparecer. Qualquer sumiço da menina era capaz de acabar com sua sanidade e corroer todos os seus neurônios de pensar no porquê.
não apareceu na aula e já estava ficando tarde. Isso deixou agoniado e ele pegou o celular mesmo que fosse proibido dentro do Colégio, mandando uma mensagem perguntando onde ela estava. O aplicativo sinalizava que ela não olhava o aparelho desde as oito da noite do dia anterior e sinceramente, isso era preocupante, tanto que não se segurou em perguntar o que estava acontecendo.
Passou todas as aulas da parte da manhã mais inquieto do que naturalmente era. Praticamente não conseguia ficar sentado e suas pernas doíam de tanto que balançou os joelhos para tentar descarregar sua ansiedade em não poder ver se sua mensagem havia sido respondida. Para seu alívio finalmente, entrou em sua sala antes de enlouquecer, faltando duas aulas para o intervalo. E foi então que percebeu algo que piorou sua situação mental: Não vira durante todo o dia…
, você sabe sobre a ? Nós temos uma apresentação hoje, mas ela não chegou e nem me avisou nada. ― questionou, se levantando e encostando-se à mesa do professor assim que ele se sentou e abriu os livros.
― Na verdade, eu não faço a mínima ideia. ― o homem apenas sorriu calmamente e balançou a cabeça negativamente, fazendo um peso a mais se acumular nas costas de . ― Bom, você quer sair por essa aula pra treinar sua apresentação? Aparentemente vai sobrar pra você.
― Sim, por favor. ― concordou com um sorriso torto, tentando se forçar a parecer conformado.
― Fique à vontade então, mas se comporte.
O saiu após murmurar um agradecimento formal, pegando a mochila e sendo observado por que esperava alguma gracinha ou um sorrisinho satisfeito vindo de por ter conseguido se livrar da aula de educação física, mas o amigo lhe deixou ainda mais nervoso quando não recebeu nada além de um olhar preocupado e cheio de nervosismo vindo do .
saiu para o corredor e nem mesmo esperou chegar na biblioteca para pegar o celular do bolso e checar se a infeliz havia lhe mandado alguma mensagem. Por sorte sim, e um alívio enorme tomou seu corpo ao ver a notificação, porém esse alívio não durou muito, sentindo todo aquele misto de sentimentos controversos enchendo seu coração outra vez quando leu o conteúdo da mensagem.

Eu te cobri em História da Arte, sua vez de fazer isso por mim”.

Praguejou baixo. Por quê? Onde ela estava?! Por que ela havia faltado? Se o irmão dela havia ido a buscar no dia anterior, por que ela respondeu a mensagem ao invés de ignorar a sua existência totalmente agora que não precisariam se ver nunca mais? Mas ainda não fazia sentido, pelo o que ouvira falando da primeira vez, ela estava fugindo do próprio irmão também. Sua mente ficava mais confusa a cada dia e era terrível não saber a verdade e o que estava acontecendo.
Era desesperador não saber se ela ia voltar amanhã e se mandara aquela mensagem apenas para disfarçar. Passou uma das mãos pelos cabelos, os jogando para trás e tentando se acalmar ao jogar sua mochila em cima da mesa e respirar fundo para normalizar seus pensamentos. Daria um jeito de fazê-la falar consigo descobriria onde ela estava.
― Está tudo bem com você? ― a voz conhecida soou próxima, e ergueu o olhar confuso para procurar o dono dela.
― Sim, professor! ― respondeu rapidamente tentando sorrir, mas acabou com um mexer de lábios nervoso que fez arquear uma das sobrancelhas de forma que o pressionou para falar logo o que estava acontecendo. ― A me largou com um trabalho enorme pra apresentar sozinho, aquela irresponsável!
revirou os olhos, mas prestou atenção nos lábios do professor se crispando ao ouvi-lo falar da daquele jeito, o que apenas lhe deixou mais intrigado. Mesmo que fingisse não se importar e continuar corrigindo as provas e trabalhos que estavam espalhados pela mesa.
― Você não sabe onde ela está? ― aproveitou a deixa para perguntar, se sentindo orgulhoso de si mesmo por sua atuação. ― Nem ela e nem o professor , eu realmente precisava dos dois hoje. ― bom, por que não ser um pouco abusado, não é?
― Na verdade, eu acho que ela realmente não está bem. ― começou em um tom chateado, como se para fazê-lo se sentir culpado em ofendê-la. ― Ela não te mandou nenhuma mensagem?
― Na verdade sim, mas não ajudou muito, apenas disse que não ia vir. Ela acha que eu também não me preocupo? Não sou de pedra. ― queria se convencer que aquela parte era apenas uma atuação ao mesmo tempo que desviava seu olhar para os livros que tirava da mochila junto com as anotações sobre a apresentação que estudaria no almoço, mas sabia que não. Infelizmente, se preocupava de verdade. ― Queria saber o que está acontecendo.
― Bom, não é nada grave, você não precisa se preocupar tanto. ― um sorriso de canto apareceu nos lábios de , mas ele genuinamente começou a se preocupar com aquele forte interesse de em . ― Ela não estava se sentindo bem hoje e o está com ela na ala da enfermaria no outro prédio.
― Por que o ficaria com ela na enfermaria? ― agora foi quem arqueou uma das sobrancelhas, esperando que aquilo surpreendesse e ele ficasse nervoso o suficiente para soltar uma informação valiosa.
― Achei que você estava preocupado com o que ela tem. ― o homem respondeu calmamente, sorrindo sarcástico com aquele tom de ciúmes que usara inconscientemente.
― Você que me disse que eu não devia me preocupar tanto com isso, presumi que não era sério o suficiente pra perguntar. Mas pode me responder o que ela tem também, se não for pedir demais. ― o piscou um dos olhos para o mais velho, rindo divertido logo depois e arrancando uma risada de também.
― Mas você é mesmo um achado, . ― o professor riu anasalado, jogando a caneta entre os papéis e cruzando os braços, encostando as costas na cadeira para olhar o melhor. ― Tudo bem então, vamos lá. A está com alguns problemas, ela está se alimentando muito mal e ficou fraca. ― não havia melhor mentiroso que , mexera com a pessoa errada. ― E sobre o estar com ela, ele a encontrou na rua quando ela estava vindo e percebeu que ela não estava bem e estava fraca, ela acabou desmaiando e ele a levou pro hospital. Algo mais?
― Não, assim está ótimo, obrigado pelas informações. Por isso você é meu professor preferido. ― o garoto piscou travesso para , rindo baixo e vendo o professor começar a juntar as provas que deixara na mesa.
― Aham, sei. Se concentre na apresentação que você precisa fazer já, já e boa sorte, vai precisar. ― riu maldoso logo depois, saindo e deixando sozinho na biblioteca.
O garoto suspirou, tentando descobrir por pensamento até onde aquela história era mentira. Parecia muito real não estar cuidando de si mesma e passar mal, mas ainda tinha algo que não encaixava…
― Eu vou dar um jeito nisso.
Destravou o celular e começou a digitar. estava determinado; não pararia até saber a verdade. Queria saber quem era verdadeiramente e o que estava acontecendo com ela.

♣♣♣


― Onde nós estamos? ― questionou completamente chocada, quinze minutos após o carro de atravessar a fronteira que levava para fora de Qar.
― Onde estamos indo? É uma surpresa. ― ele sorriu de canto e apesar de ter arrancado um sorrisinho de também, ela balançou a cabeça negativamente.
― Não, qual país é esse, qual cidade? ― ela questionou calmamente como se aquilo não fosse nada estranho, observando a paisagem de flores roxas que se erguiam sob a montanha.
― V-Você não sabe…? ― ficou tão surpreso que por um segundo até mesmo desviou o olhar da estrada, mas voltou rapidamente pelo medo de acontecer algo ruim.
― Digamos que quando o me buscou antes de eu vir pra Qar, eu estava exausta e anestesiada o suficiente para não me lembrar de nada além de irmos para o aeroporto e depois chegarmos lá. Eu dormi o caminho todo. ― suspirou desanimada, lembrando-se daqueles dias com um pesar palpável.
― Ah, entendo. Onde você estava antes de chamar o ? ― o mais velho perguntou, levando rapidamente a mão até o rádio para abaixar o som e poderem conversar mais confortavelmente.
― Tailândia. Estou muito longe de lá? ― era ridículo como perdera completamente a noção de onde estava naqueles meses e nem mesmo se preocupara com isso, parecia ter ido para outra dimensão sem mesmo notar.
― Na verdade, você não foi muito longe, quando você perguntou se tinha viajado pra Coreia do Sul no dia da festa… Eu quis responder que sim, você tinha. Qar fica na Coreia do Sul, mais especificamente camuflada além de algumas montanhas de Jeju. Você realmente não percebeu a quantidade de asiáticos no núcleo? ― ele questionou com uma sobrancelha arqueada, concentrado na estrada mesmo que de vez em quando seu olhar vagasse rapidamente na direção de .
― Na verdade, eu nunca reparei muito, isso é… Nossa. ― um choque de realidade deu um tapa na cara da garota que arregalou um pouco os olhos, fitando o amigo. ― Todo mundo sabe a localização de Qar? Meu irmão chegou nela muito facilmente, achei que fosse mais secreto, sabe?
― O seu irmão é milionário, não é muito difícil achar qualquer coisa nessa condição. ― até riu baixinho, revirando os olhos com aquela pergunta da mais nova. ― Você que o diga, afinal, como é que sabia que o estava envolvido com o projeto?
― Eu posso te responder isso depois que você me responder. ― sorriu divertida, timidamente desviando os olhos para a janela.
― Bom… Não. ― aquele assunto era um pouco mais sério do que gostaria que fosse, e sinceramente não queria muito trazê-lo para a pauta. Mas já que ela estava curiosa dessa forma… ― Ninguém sabe onde está, na verdade. As coisas em Qar e no projeto são mais sérias do que você pensa, . ― suspirou para organizar os pensamentos antes de externá-los. ― Talvez vendo lá de dentro é algo simples, como um internato, mas de fora, é muito maior. É uma cadeia de núcleos em cada país, com aproximadamente cem adolescentes em cada. Quem está lá não sai, e nem sabe onde está ou tem contato com o mundo externo. A internet é bloqueada para qualquer coisa que não seja a biblioteca de estudos que montamos no começo do projeto e o aplicativo que vocês usam pra se comunicar.
― Isso… É muito sério, sinceramente não sei se é realmente algo bom quando você coloca desse jeito. ― levou uma das mãos até os cabelos, mexendo neles de forma nervosa. ― Como eles não sabem para onde foram…?
― Sabe, nem eu sei mais se é algo bom… ― acabou pensando alto, mordendo seu lábio logo após, mas então ao perceber o que falara, rapidamente retomou a postura. ― Eu me lembro como se fosse ontem da inauguração de Qar. Estava chovendo. Os alunos pegaram voos que deram voltas e voltas em lugares aleatórios para não saber quanto tempo voaram até o lugar que iam, os ônibus que os levaram até lá eram fechados, ninguém tinha noção da onde estava, mas no começo estavam todos empolgados…
observou o olhar perdido na estrada do mais velho ao narrar aquilo, e por mais que quisesse não pode deixar de pensar em e em como ele deveria estar no dia em que isso aconteceu. Será que ele fora pra lá voluntariamente? O que passava na cabeça daquele garoto…? Teve vontade de perguntar isso para , mas assim que ia abrir a boca o próprio começou a falar antes.
― Bom, mas vamos mudar de assunto, hoje é nosso day-off, certo? Não vamos falar de coisas sérias.
― Você está certo. ― concordou rapidamente ao perceber o desconforto do mais velho em entrar naquele assunto, sorrindo levemente para tentar amenizar o clima que havia se instalado no lugar.
Remexeu-se ansiosa, querendo saber onde estavam indo, o que fariam e o real porquê de ter lhe tirado de Qar. Ele a conhecia bem o suficiente para saber que odiava surpresas. E ela o conhecia bem o suficiente para saber que ele não faria uma para si, a não ser que fosse alguma coisa muito importante.
Algum tempo depois que passaram apenas falando sobre coisas aleatórias como o clima e cantando músicas que gostavam esporadicamente quando alguma tocava no rádio, parou o carro em frente a uma paisagem no mínimo estonteante. desceu do carro em um segundo, sentindo o vento carregado com a maresia bater contra seu corpo e parecer levar metade do peso que carregava em suas costas com isso.
sorriu ao observar a cena, descendo também e andando até o porta malas para pegar a cesta com tudo o que havia preparado. só conseguia pensar em como a atmosfera era diferente de que quando estava em Qar, o ar parecia mais fresco e arejado e o sol mais quente. Talvez fosse apenas porque realmente fosse, já que estava na praia.
Estava acostumada a ficar presa em lugares, mas nada se comparava a sensação de liberdade que tinha quando finalmente podia sair de seus confinamentos.
― Surpresa. ― sussurrou perto de seu ouvido após ficar algum tempo apenas observando a paisagem ao redor de si.
Um arrepio subiu violentamente pela espinha da ruiva que arregalou os olhos com aquela proximidade e a voz sussurrada do rapaz em seu ouvido. Um sentimento estranho se apoderou de todos os seus poros do corpo e todos os seus pelos se eriçaram. tinha o poder de fazer aquilo apenas falando e estando perto de si, o que fazer?!
… ― murmurou baixinho, seus olhos aos poucos se enchendo d’água de uma forma que ela achou ridícula, mas não conseguiu conter.
Aos poucos com o esforço de se segurar seus ombros acabaram subindo e descendo e a garota fungou. Talvez estivesse sensível por conta da situação do dia anterior, mas sinceramente precisava daquele momento, das lágrimas escorrendo por seus olhos e caindo na areia, sendo absorvidas como a água salgada do mar.
, e-ei, não chora, por favor! ― ele se desesperou no mesmo momento, largando a cesta na areia e então dando um passo em frente para apertar a garota em um abraço lateral. ― Eu quero que nós tenhamos um momento feliz, por favor, não fique assim…
― Eu… Estou feliz. ― a respondeu para a surpresa do mais velho que a encarou confuso, principalmente porque ela se remexeu em seus braços até virar de frente para si e colocar cada mão ao lado de sua cintura, se agarrando em si. ― Estou muito feliz. , eu nunca te agradeci por cuidar tanto de mim. Pelo contrário, quando nós nos reencontramos e eu estava… Meio alta, eu falei várias coisas que eu não deveria ter falado.
― Você…
― Me deixa falar, por favor. ― o apertou ainda mais em um abraço, respirando fundo para controlar sua voz, torcendo para que ela não quebrasse pela emoção exagerada. ― Talvez você tenha sempre feito isso pelo meu irmão, mas não muda nada o fato de que você sempre esteve lá por mim quando eu precisei. E eu menti, eu quase nunca fui legal com você. Eu era uma adolescente idiota e você… Você tinha toda razão em nunca olhar pra mim de outra forma.
, por favor, esqueça isso tudo. ― não resistiu, levando uma das mãos até os cabelos da menina e a puxando para si, fazendo-a encostar em seu ombro. ― Eu nem me lembrava do que você disse, não precisa se preocupar…
, tem uma coisa que eu nunca tive coragem de te contar. ― não pensava com clareza naquele momento, mas parecia a coisa certa a se fazer. Sabia os sentimentos dele por si, seria mais fácil superar os seus próprios se simplesmente os jogasse ao vento, não…? ― Eu… Eu sempre…
― Eu sei, . Eu sempre soube. Me desculpe se eu fui insensível com os seus sentimentos, mas eu sempre achei que você só estava confusa com tudo por causa da situação e pensou errado já que eu estava por perto. ― afagou os cabelos da mais nova carinhosamente, seus olhos caindo para a areia da praia. ― Eu não podia, você sabe disso. Você era nova demais e a irmã do meu melhor amigo, eu nunca poderia me apaixonar por você.
― Eu sei que você não me correspondia. Eu só queria…
― Naquela época, . Eu nunca poderia me apaixonar por você naquela época. ― a interrompeu delicadamente, respirando de forma pesada logo depois e afastando o rosto da garota para poder olhá-la nos olhos. ― Eu vou ser sincero com você como devia ter sido antes, mas eu estou realmente confuso com os meus sentimentos. Eu não sei se é certo te ver como alguém se não aquela adolescente, mas ao mesmo tempo eu… Quero. Eu tenho me sentido estranho perto de você. Eu sempre quis cuidar de você, e sim, no começo podia até ser porque você era irmã do , mas depois era porque eu sabia que você era só uma criança machucada e traumatizada em fase de crescimento. E agora eu não sei o que pensar. Eu quero tentar te ver como uma adulta, alguém que eu posso estar ao lado… Como… ― as bochechas do rapaz começaram a ficar avermelhadas em pensar em falar àquelas palavras que rodavam a sua mente. ― Como… Você entende, não é?
A estava tão atônita com tudo o que havia ouvido que era até mesmo difícil de formular uma resposta decente para aquela… Declaração? havia mesmo se declarado para si? Era realidade… Aquilo que sempre sonhou estava se tornando realidade bem diante de seus olhos e não conseguia nem mesmo respirar direito, estava até mesmo pálida.
― Você está bem? Me responde alguma coisa, você está me fazendo ficar ansioso. ― mesmo sabendo que sempre fora apaixonada por si, vê-la naquele estado estava sendo capaz de tirar toda sua sanidade.
― Sim, sim, eu estou bem, eu só não… Eu não estava esperando… Eu realmente não estava esperando. ― balbuciou ao se esforçar pra voltar à realidade, um sorriso trêmulo aos poucos aparecendo em seus lábios. ― Eu nem sei o que devia responder, sinceramente.
― Você tem que me responder se acha que eu ainda posso ser seu herói. ― riu nervoso, levando uma das mãos para a bochecha da menina e limpando o caminho da lágrima que escorrera por ali mais cedo.
― Você já é meu herói. ― respondeu simplesmente, seus olhos se perdendo nos olhos de .
― Vamos tentar fazer dar certo juntos, certo? Vamos ter simplesmente um encontro por hoje. Como duas pessoas normais que querem se conhecer melhor.
A ruiva assentiu sem nem mesmo piscar, os dois olhares presos um no outro de forma tão intensa que o mundo não parecia existir naquele momento. aproximava os rostos aos poucos, suas pálpebras se fechando aos poucos, mas quando estava prestes a beijá-la quando os pingos grossos de chuva começaram a cair sem aviso, fazendo os dois se separarem em um pulo e começar a rir.
O mais velho pegou a cesta rapidamente e então a mão da menina, puxando-a para um abrigo seguro enquanto não resistia à risada dela e ria junto. Por sorte não se molharam demais, mas quando se abrigaram no deque da pousada a chuva piorou drasticamente, tão alta que eles mal conseguiam se ouvir.
― Estava sol há cinco minutos! ― reclamou, balançando a cabeça negativamente para o céu completamente nublado.
― É uma chuva de verão, ela vem sem aviso e muda toda a rotina de quem ela afeta. Me lembra bem uma pessoa que virou a minha vida de cabeça pra baixo… ― ele riu, deixando a cesta em cima de uma pequena mesa de madeira que estava por ali, ainda sem soltar a mão de .
― Bom, você parece ter gostado disso no final, então não deve ser tão ruim. ― respondeu balançando os ombros, suas bochechas se avermelhando mais do que gostaria de admitir.
― É, eu sempre gostei de chuvas de Verão, .

♣♣♣


Também chovia em Qar, mas começou assim que entrou no quarto após tomar um banho. Já havia escurecido e o dia passara tão rápido que nem conseguia acreditar que já eram oito e meia da noite… Suspirou, queria que o tempo tivesse parado e pudesse passar todo o resto de sua vida naquela praia com , mesmo que ficassem apenas conversando no deque da pousada fechada, comendo os lanches que ele havia preparado e presos pela chuva como fizeram naquele dia. Aquele pensamento não a incomodava nem um pouco.
Sorriu abobalhada para si mesma. Ainda estava cedo já que o rapaz fizera questão de sair quando começou a escurecer, já que voltariam à rotina no dia seguinte e enquanto se aproximava da janela para abri-la e observar a chuva caindo, aproveitando o barulho que sempre lhe agradou intensamente. Não podia deixar de se perguntar como dormiria naquela noite.
Sempre amou cata-ventos e os montava com quando era uma criança, deixando-os espalhados pelo jardim que sua mãe cultivava. Sua mãe… Ela amava encontrá-los no meio das flores e dizia que deixavam tudo mais vivo. Aos poucos, os cata-ventos foram se tornando mais engenhosos, coloridos e maiores, além de um presente para a mulher. Os dois irmãos ficavam escondidos atrás das moitas e árvores para ver a reação dela ao encontrá-los e nunca se cansavam de ver a felicidade em seus olhos.
Havia um cata-vento ali, preso do lado de fora da janela, girando de forma incansável por causa da ventania da tempestade, pensando em como sua vida estava sendo como um, girando e girando para direções diferentes durante todo o tempo sem ter pausa alguma. Mas daquela vez, pelo menos, pensou que estava chegando a algum lugar. O lugar que sempre queria. Sua mãe iria amar a sua vida como amava os cata-ventos…? Provavelmente não. Não era a filha corajosa e responsável que ela queria que fosse.
Suspirou e balançou a cabeça para os lados, tentando afastar aqueles pensamentos, dando passos para trás após fechar a janela. Pegou seu celular e ligou a internet dele pela primeira vez desde manhã, querendo ver o cronograma dos trabalhos e se havia esquecido de fazer algum, mas ficou em completo choque ao ver a quantidade de mensagens que estavam sendo notificadas. Abriu a tela, preocupada que fosse algo sério, mas encontrou apenas um spam de mensagens aleatórias.
Todas eram de .
A primeira após sua resposta sendo por volta das onze e quinze.

“Tudo bem não vir hoje, mas espero que você não tenha esquecido da apresentação de amanhã então, não vou apresentar duas coisas seguidas sozinho! Você já treinou?”

Essa era acompanhada com um emote e carinha emburrada. Desceu um pouco a tela para encontrar a próxima, aproximadamente meia hora depois essa.

“Você pode me ajudar com o dever de literatura? Não se atreva a dizer não, não se esqueça do dever de física quântica que eu fiz pra você.”

Agora a carinha era brava, e se repreendeu pela vontade de rir que teve ao ver isso.

“Nós vamos nos encontrar no fim de semana para fazer o seminário com a e o , certo? Onde vai ser? Podemos marcar na sua casa pra eu poder ir até lá finalmente sendo convidado a entrar.”

“Hey, você não vai faltar amanhã também, não é?
Não que eu estivesse preocupado e nem tenha perguntado, mas o me disse que você passou mal. Não é nada sério, não é? Você vai voltar logo, não vai?”

“Por que você não está respondendo? Eu estou tentando resolver coisas sérias aqui!”

Quando terminou se pegou rindo tanto que era uma surpresa até mesmo para si própria. Depois dessa última mensagem, marcada como cinco e dezessete da tarde, havia carinhas em sequência de um pato impaciente e rabugento, fazendo bater com a palma da mão na cabeça com todo aquele desespero de .
Meu Deus, aquele garoto era um idiota, mas ao menos era divertido. Estava começando a gostar dele como pessoa, quem sabe não o perdoava pelo dia da invasão se ele mandasse mais alguns memes? Bom, só o tempo ia dizer. Por agora, iria torturá-lo mais um pouco e não responderia nenhuma das mensagens, além de tirar a notificação de visualizado. Queria saber até quando ele insistiria em mandar mensagens, mas, além disso, uma curiosidade foi plantada na cabeça de aquele dia. Uma que ela se esforçou para ignorar.

Por que ele se preocupa tanto?




VIII - Jealousy

Ainda parecia flutuar nas nuvens durante todo aquele dia, desde quando acordou, se arrumou, tomou café com e agora, quando chegava no Colégio e sentava na sua carteira que ficava do lado da janela, jogando a mochila em cima da mesa. Era a que havia sobrado já que todos tinham seus lugares cativos, mas não tinha motivo algum para reclamar dela, a não ser que sentava ao lado.
O pior é que por mais que detestasse admitir e fingisse que não, nem isso estava lhe incomodando mais e a existência de se tornara suportável em sua vida, porém, não era como se fosse deixá-lo saber disso, claro. Sorriu para si mesma com o seu melhor humor em tempos, olhando a rua vazia que levava até a Orkan.
Desde quando começara a ir com para o prédio sempre chegava adiantada, já que o horário dele de trabalho começava meia hora antes do seu horário letivo. Aquilo não era um problema para si, e tirou o fichário e o estojo de dentro da bolsa para estudar sobre a apresentação que teria com mais tarde.
Ao menos era um tema ao qual se sentia confortável, outro motivo para seu humor estar ótimo, já que falariam sobre a evolução da medicina e a influência da tecnologia em suas áreas. Sorriu de canto encarando o discurso que havia preparado, baseado em pesquisas e no que já sabia antes de chegar em Qar. A pior parte de tudo de ter que ser novamente uma adolescente em uma espécie de ensino médio, é a que mostrava que estava gostando genuinamente daquilo. Era como se pudesse consertar tudo o que fez de errado em sua própria adolescência, ser normal alguma vez.
Ser simplesmente uma boa aluna e uma adolescente que podia aproveitar a vida simples de estudo. Era isso que ela queria ser.
― Olha só quem é que resolveu dar o ar da graça! ― o tom de era tão animado que podia arriscar dizer que ele estava feliz por vê-la ali, além de ouvir um tom de alívio nos nuances de sua voz.
― Sentiu minha falta? ― questionou sarcástica, girando o corpo até se sentar lateralmente, virar para o e encará-lo com uma expressão entediada, cruzando as pernas.
― Ah, logo cedo… ― reclamou manhoso, balançando a cabeça negativamente e indo para a sua mesa que ficava atrás de , resolvendo que iria ler algumas anotações e ignorar os dois completamente.
― Só até lembrar da sua personalidade, aí a saudade parece que nunca nem existiu. ― ele reclamou, sentando na carteira ao lado da de , mas virado para frente e apenas com o rosto levemente inclinado para o lado, olhando-a de soslaio.
― Por que isso agora? Achei até que estávamos nos dando bem ultimamente. ― a arqueou uma das sobrancelhas para o e um tanto ofendida, o olhando confusa com aquele tom de discutindo a relação que ele havia usado na frase.
― Você podia ter respondido as mensagens depois de visualizar. ― fez um bico nos lábios, mas na verdade, queria se estapear por estar sendo tão imbecil e falando justamente para todos os motivos de suas preocupações sobre as suas próprias preocupações. Não tinha direito de perguntar aquilo, não tinha direito de cobrá-la respostas. ― Eu sei que eu não tenho nada haver com a sua vida, e que você não deve explicação nenhuma pra mim, mas… ― a voz do mais novo ia sumindo aos poucos, ficando mais baixinha até que mal pudesse o ouvir. ― … eu fiquei preocupado.
― Você o quê? ― claro que ela havia ouvido e era apenas uma provocação, mas antes que falasse qualquer outra coisa, o professor os interrompeu entrando na sala e fazendo-os perceber que todos os outros colegas de classe já haviam chegado e em sua maioria, os encaravam fixamente.
suspirou e balançou a cabeça, acabando com qualquer pensamento pessoal sobre que tentou agredir seu cérebro com aquela cena que ele fizera. Sua mente só tinha espaço para um cara, e definitivamente não era o . Por mais bonitinho que ele parecesse quando choramingava daquela forma.

♣♣♣


, eu vou precisar usar a minha casa nesse fim de semana. ― suspirava desanimada com isso, passando uma das mãos nos cabelos e os jogando para trás. ― O cismou que os trabalhos em quarteto tem que ser feitos lá, porque seria falta de educação duas meninas irem a casa de dois garotos e divide a casa com mais três garotas que nos atrapalhariam durante os estudos. Ela e o concordaram, então eu não tenho opção.
Os dois olhavam para os lados incansavelmente, tentando ver se alguém aparecia no corredor da sala dos professores onde estavam, mas por sorte todos aparentavam estar no intervalo, comendo ou simplesmente descansando. também falava bem baixinho, apenas para ter certeza de que ninguém estava ouvindo mesmo se estivesse a perseguindo. O que infelizmente, era bem mais comum do que parecia ser.
― Tudo bem, a chave está no meu carro. ― apesar disso, algo não parecia estar assim tão bem, as hipóteses surgindo na mente do mais velho. ― Você vai ficar lá esse fim de semana inteiro?
― Sim, são trabalhos demais pra fazermos em um dia só, e eu não posso arriscar eles chegarem lá e eu não estar, seria suspeito. ― céus, só de pensar em passar um fim de semana inteiro com o no seu pé tinha vontade de morrer. ― Além disso, eu preciso arrumar a casa inteira pra dar a impressão de que ela está sendo habitada. ― riu sem humor com isso, revirando os olhos.
― Está tudo bem, não se preocupe. ― riu também, tentando ficar relaxado, pelo menos na frente de . ― Eu posso levar algumas roupas pra você depois da aula, me mande mensagem quando estiver sozinha.
― Obrigada, eu vou. ― e em falar em mensagem, o celular de vibrou assim que terminou de falar, a fazendo o pegar do bolso e ver a mensagem de lhe xingando porque deviam estar estudando para a apresentação, mas ela simplesmente sumiu assim que o sinal tocou. Suspirou desanimada outra vez, mas daquela vez, respondeu, mesmo que fosse o xingando também e avisando que já estava indo. ― Eu preciso ir agora, tenho que montar um seminário.
― Com o ? ― o mais velho segurou a risada pelo nariz ao ver a expressão de desgosto na face da ruiva que concordou com a cabeça.
― Sim, com o .
― Boa sorte. Nos vemos mais tarde. ― acenou com uma das mãos, vendo a assentir com a cabeça e se afastar, acenando de volta.
passou uma das mãos pelos cabelos e mordeu os lábios, sentindo aquele nervosismo em relação a , o mesmo que sentira no shopping. Não queria acreditar que havia alguma coisa errada acontecendo, mas tinha que dar um jeito, porque o rapaz estava sim, sendo muito suspeito. E era sua obrigação não deixar que isso acontecesse.

♣♣♣


foi embora normalmente quando o sinal tocou, porém evitou andar muito próxima de e , deixando com que fossem a sua frente. Não queria dar nenhuma abertura para que o garoto puxasse algum assunto sobre não vê-la mais voltando para casa ou indo para o Colégio no mesmo horário em que eles estavam indo, coisa que era muito comum acontecer.
Quando abriu a porta, uma mistura de sentimentos inundou sua cabeça e coração. Uma parte confusa, a outra insegura e uma que não resistiu não sorrir quando viu tudo exatamente da mesma forma que tinha deixado quando saiu às pressas durante a madrugada. Tinha um certo reconforto em voltar para aquele lugar que chamou de casa durante aqueles meses, como se tivesse, de alguma forma, voltando para o lugar certo.
Mesmo sabendo que não, aquela não era a sua casa, e nem era para onde devia voltar. A verdade é que nem sabia onde era sua casa, e o lugar que sempre lhe forçaram a chamar de lar, era o último que queria voltar em toda sua vida.
Jogou a mochila no sofá e prendeu os cabelos em um rabo de cavalo alto. Não fazia assim tanto tempo que havia saído dali, na verdade fazia quatro dias, mas parecia como se fizesse um século, principalmente pelo cheiro de ambiente fechado que tomou conta de todos os cômodos. Respirou fundo, criando coragem para começar a cozinhar algum miojo para lhe dar energias e então a faxinar, mas ouviu sua campainha tocando antes que se mexesse.
Céus, se já fosse
Assim que virou, a porta se abriu sozinha, lhe fazendo dar dois passos para trás pelo susto e quase sair correndo para o quintal para retribuir o favor e pular o muro do vizinho, mas para o seu alívio e ódio, era só com um sorriso maldoso no canto dos lábios, segurando algumas sacolas na mão.
― Oops, eu esqueci que tinha a chave. ― ele riu assim que viu que a ruiva já estava com uma das mãos no coração e a outra ameaçando jogar o celular na sua cara.
― Sério, por que você tem essa necessidade de sempre me assustar?! ― choramingou, se jogando no sofá com a barriga para cima, encarando o teto enquanto tentava acalmar seus batimentos cardíacos.
― Bom, pelo menos eu te dou comida depois. ― trancou a porta após entrar, erguendo a mão com uma sacola de fast food presa em seu pulso junto com um suporte para copos descartáveis, fazendo a feição de se iluminar na hora e um sorriso aparecer. ― Também trouxe suas roupas.
― Agora sim, agora nós podemos conversar. ― ela sentou num dos lados do sofá, batendo com a palma da mão no outro assento para que o amigo se sentasse nele. O mais velho balançou a cabeça negativamente, rindo logo depois, mas obedecendo e se sentando também, deixando a sacola na mesinha de centro.

A garota pegou a sacola de roupas e então rapidamente se levantou, passando no seu quarto para jogá-la em cima da sua cama.
― Espera, eu vou pegar um pano. ― anunciou ao reaparecer do corredor, indo até o quintal e na lavanderia que ficava em um dos cantos, pegando o pano e o álcool, sem nem mesmo olhar para os lados, cima, ou para a casa vizinha, deixando a porta do quintal aberta ao entrar.
Não estava tão frio então a escancarou de vez, não ia incomodar se o vento da tarde entrasse pela casa e ajudasse o cheiro estranho que estava a ir embora.
― E então, o que te traz até a minha residência? ― perguntou quando pegou a sacola e colocou-a outra vez no colo de que já segurava o suporte para copos, limpando o vidro rapidamente e deixando os dois ao lado no sofá. Nem precisaria guardá-los, logo os usaria outra vez.
― Eu preciso de motivos para visitar a minha melhor amiga? ― ele perguntou quase ofendido, começando a tirar os lanches do pacote e ajeitá-los na mesinha, a puxando levemente para mais perto do sofá.
― Não exatamente, mas depois dos acontecidos, eu imagino que sim. ― a respondeu de forma calma já sentada, com o olhar direcionado para baixo enquanto brincava calmamente com o papel que protegia o canudo. ― Quer dizer, claro que além de ser um ótimo amigo e vir até aqui para me distrair de tudo de ruim e consolar caso precise. ― riu pelo nariz, olhando de soslaio para ele que mantinha-se focado na comida.
Mas não ia demorar muito, sabia bem qual assunto seria jogado em pauta. E não tinha certeza de como responderia às perguntas, por isso estava tão insegura e desconfortável.
― Eu sou mesmo uma pessoa maravilhosa, não é? ― respondeu convencido, virando para a mais nova e piscando um dos olhos.
― É claro que você é. ― ela balançou os ombros naturalmente, sorrindo de canto e começando a comer as batatas fritas. ― Agora me diz sobre o que você quer conversar logo, eu preciso dar um jeito nessa casa e me preparar psicologicamente para ver e correndo por todo o meu piso.
― Que horror, você está começando a aproveitar a companhia deles, para de se fazer de difícil. ― o rapaz riu outra vez, olhando para com um olhar reprovativo que a fez balançar os ombros. ― E pelo menos a é normal.
― Alguém tinha que ser nesse lugar, né, achava que minha vida era ruim fora daqui, ai eu entro e só tem louco.
― Ué, quer voltar lá pra fora?
― Cala a boca, pelo amor de Deus. ― ela riu de desespero, desferindo um tapa no braço de que riu ainda mais.
― E então, como foi lá fora ontem? ― perguntou de um jeito provocativo e continuou comendo como se não tivesse falado nada demais, enquanto a ruiva praticamente engasgava com o próprio refrigerante.
― V-Você…
― Claro que eu sei, eu sei de tudo que acontece aqui, quem você acha que te cobriu pro ? ― o mais velho revirou os olhos com a ingenuidade da menina.
― Ele falou com você…? ― perguntou chocada, parando até mesmo de comer para olhar para que apenas sinalizou que sim com a cabeça, deixando claro que aquele não era o assunto que ele queria manter em pauta. ― Até onde você sabe?
― Não muito, só que os dois pombinhos resolveram ir dar um passeio em Jeju. ― falou sarcástico, trazendo o canudo para os lábios logo depois.
― Não aconteceu nada demais, choveu o dia inteiro. ― respondeu desinteressada as insinuações do mais velho e ao seu tom sarcástico.
― Ah, me poupe, sinceramente! ― pegou uma batata, a passou no ketchup e então passou na bochecha de uma distraída que o olhou com uma expressão de nojo tão acentuada que o amigo até mesmo se assustou.
― Você! ― murmurou com desgosto, empurrando o ombro do amigo para o lado com toda a sua força enquanto ele ria.
― Não me provoque, posso fazer pior. ― ele arqueou uma das sobrancelhas como se a desafiasse.
― Você está louco, ?! ― ergueu uma das suas também, mas com uma conotação diferente da do rapaz, em dúvida entre duas coisas: o que poderia ser pior e se ele achava mesmo que podia intimidá-la.
― Eu te avisei! ― ele retrucou com um sorriso maldoso nos lábios, aproveitando que a ruiva deixava o copo de refrigerante na mesinha e então agilmente prendendo os dois braços dela ao lado do corpo com os seus, fazendo as pernas da garota também ficarem presas embaixo das suas, pois quando a virou para si no movimento, elas subiram no sofá.
Automaticamente soube o que ele ia fazer, mas já estava imóvel e sua única opção era curvar a coluna para trás até parecer que ia dobrá-la em completo desespero entre gritos de reprovação, enquanto ria escandalosamente e tentava alcançar a bochecha da amiga, colocando a língua pra fora.
― SÉRIO, VOCÊ É NOJENTO, EU VOU DAR NA SUA CARA! ― ela ameaçou em gritos altos, tentando balançar os pés forte o suficiente para incomodá-lo.
― Como se você nem consegue se mexer?! ― questionou ainda com a expressão sapeca, apenas para ver o rosto da amiga se avermelhar em revolta com aquela constatação e ela se mexer com ainda mais fervor.
O mais velho se esforçava ainda mais para que sua língua alcançasse seu objetivo, até que moveu seu quadril de uma forma um tanto perigosa e fez com que sua força afrouxasse consideravelmente com o movimento inesperado. Quando recuperou o controle já era tarde demais, e a garota molhava o dedo no molho para passar em seu nariz.
Arregalou os olhos com a petulância daquela infeliz, e no outro segundo os dois corriam em volta do sofá, mesa de centro, balcão e saíam para o quintal, rindo como os dois idiotas que estavam acostumados há serem alguns anos, que transformavam qualquer coisa em diversão, algo que pelas tensões do que passava, acabava se perdendo em algum momento.
As risadas e os gritos eram tão altos que podiam ser ouvidos da casa ao lado. Mas não era exatamente a única coisa que estava podendo presenciar: com a porta do quintal escancarada daquela forma, ele podia ver a cena nitidamente enquanto estudava. Nunca amaldiçoou tanto ter mudado o lugar de sua escrivaninha para a janela quando como viu puxando a ponta da blusa de e a fazendo perder o equilíbrio, mas para que ela não se machucasse, ele virou os corpos e a fez cair por cima de si, segurando a cintura dela.
A ruiva riu ainda mais, gritando sobre como ele não tinha coragem de nem mesmo a deixar cair sem se colocar a sua frente enquanto apontava um dedo na direção do rapaz provocativa e debochada. Logo os dois estavam rolando na grama, brincando com uma alegria e naturalidade que ele nunca esperou ver exalar daquela garota. Era como um dorama da tarde passando na televisão, onde a protagonista tinha personalidades diferentes dependendo da pessoa que estava interagindo e aquilo acabou quebrando seu coração em diversos pedaços ao constatar que havia imaginado errado: Não era com que devia estar preocupado.

♣♣♣


Algumas horas se passaram e expulsou após aquela brincadeirinha, alegando que precisava limpar a casa e depois disso ainda tomar um banho e lavar os cabelos depois de ficar suja de terra. Ele aceitou a condição com um pouco de insistência, e agora ela finalmente podia respirar fundo de alívio ao terminar de secar os cabelos, se jogando no sofá e sentindo a camisa leve e confortável de seu irmão que havia roubado antes de ir embora abraçando seu corpo.
Ainda tinha duas horas e meia até que o motivo de seus pesadelos batesse na porta da frente e o deixar entrar, então calmamente pegou o controle da televisão para ver algum survival aleatório com uma quantidade ridícula de coreanos bonitos. Aquilo, claramente, não era permitido dentro das limitações de Qar - imagina só se as futuras cidadãs da cidade se concentrariam em seus estudos assistindo produce101 e decorando o nome dos cento e um? - mas , como o bom melhor amigo que era, havia dado uma pirateada básica para si na sua terceira semana na cidade e descolou alguns canais de TV a cabo.
Havia acabado de encontrar um que havia chamado sua atenção, só pra descobrir depois de dois minutos que ele tinha apenas quinze anos, lhe fazendo questionar sua moral e ética, quando bateriam na porta de sua casa. Não tinham passado nem cinco minutos que estava ali sentada, não era possível que já tivesse na hora de algum dos três chegarem, por isso abriu a porta despreocupadamente, não se dando ao trabalho nem de desligar a TV ou trocar de roupa.
Um descuido seu, claro, sabia que a única pessoa que poderia ser e bateria na porta , já que tinha a chave. Antes aquela hipótese seria remota o suficiente para se precaver, mas agora não era mais tanto, não é? Manteve esse fio de esperança que foi massacrado quando girou a chave na fechadura e puxou a maçaneta, abrindo a porta praticamente inteira e mexendo nos cabelos despreocupadamente, com os olhos levemente fechados pelo sono e cansaço, o suficiente para demorarem a focar em quem estava ali, parado.
Em uma situação normal, já estaria na sala da garota, saltitando entre seus móveis. Mas vê-la com a camisa de tamanho maior que o seu corpo que não lhe deixava saber se ela estava vestindo ou não algo na parte das pernas o deixou completamente petrificado, e parecia que não só a si, como também a própria que bateu a porta em um estrondo assim que digeriu quem era.
, o próprio enviado para tirar sua paz.
Não raciocinou por alguns minutos, encarando a porta branca e a chave que girou, mas recobrou a consciência quando ouviu a respiração pesada do outro lado da porta. Correu rapidamente para desligar a televisão e para ir ao quarto e colocar a roupa que deixava separada em cima da cadeira da escrivaninha. Tinha certeza que nunca havia colocado uma calça jeans e regata tão rápido na sua vida e quando reabriu a entrada da casa,
continuava com a mesma expressão, agora se perguntando se aquilo realmente havia acontecido ou seu cérebro estava lhe pregando peças, porque literalmente deixou a porta aberta, deu as costas e saiu andando como se exatamente nada tivesse acontecido.
― Eu posso mesmo entrar na sua casa? ― ele dramatizou ao recuperar seus sentidos e conseguir formular alguma coisa ao ver a porta aberta para si. ― Ooh, o ângulo é diferente entrando por esse ângulo, é bem legal. ― provocou, tentando começar com as piadas para aliviar a própria tensão.
― Entre logo e feche a porta antes que eu mude de ideia, porque você sabe que está adiantado demais pro aceitável. Por que você chegou tão cedo? Não foi esse o combinado. ― a reclamou, sentando no sofá e cruzando uma das pernas em um movimento que fez com que prendesse a respiração com o lampejo da lembrança das pernas nuas dela há alguns minutos atrás.
Rapidamente virou para a rua e fechou a porta, engolindo em seco. Não era hora, nem era situação para isso. Na verdade, ia colocar em sua cabeça que aquilo fora apenas um delírio.
― Parece que alguém esqueceu que ia me ajudar com o trabalho de literatura hoje, não é? ― ele se virou outra vez com um sorriso infantil e tom de voz igual, finalmente parecendo ter recobrado sua estabilidade mental, mas manteve-se em pé, observando-a.
― Eu não me lembro de ter concordado com isso. ― respondeu com sua sinceridade áspera como de costume, deixando o cotovelo apoiado na coxa e o rosto na palma da mão, olhando para o chão como se tentasse recordar quando havia prometido aquilo.
… ― chamou manhoso, não acreditando que ela lhe trataria daquela forma ou recusaria ajuda para si. O bico já estava até se formando nos lábios.
Aish, já que você já está aqui, né. ― a resmungou assim que ouviu o choramingo, se levantando e olhando o rapaz pela primeira vez, vendo que ele trazia a mochila junto as costas. ― Puxa a mesa, senta e arruma as coisas, vou pegar meus materiais.
concordou vitorioso, vendo-a sumir no corredor e obedecendo o que ela havia dito. Quando se viu sentado no sofá com o caderno e o livro abertos na sua frente, suspirou, olhando por toda a extensão da casa de . Ela estava lhe contando uma mentira sem nem mesmo saber, tentando fazer com que acreditasse que morava ali, que era normal e que não havia nada de errado acontecendo.
Suspirou, observando as paredes brancas do lugar. O quão errado era estar magoado pela mentira que queria que acreditasse? O quão errado era ainda estar incomodado com a cena dela com de mais cedo, principalmente ao vê-la numa camisa masculina? Passou uma das mãos nos cabelos, os jogando para trás, uma tentativa frustrada de aliviar sua adrenalina.
― Então, qual a sua dúvida? ― questionou quando voltou a sala, carregando dois livros, um caderno e o estojo que jogou na mesa sem muita cerimônia, sentando em cima das suas pernas lateralmente no outro canto do sofá e deixando um abismo entre ela e , mesmo que estivesse virada para ele.
― Er… Tudo? Eu sinceramente não entendo como ler um romance antigo e relacionar com o período histórico vai me ajudar a me tornar um cidadão melhor. ― o se arrependeu de falar assim que terminou de pronunciar a última palavra, ao ver a sobrancelha de subindo até o teto como se ela houvesse acabado de ouvir uma blasfêmia.
― Senhor. ― a menina soltou entre os lábios, parecendo ter um colapso mental por alguns segundos antes de conseguir organizar seus pensamentos para começar a falar. ― Ok, vamos deixar as coisas claras por aqui. A literatura não é só um romance, ela é uma arte maravilhosa que conta a história da humanidade através de sutis alusões dentro de suas histórias. Conhecimento histórico, arte e literatura estão fortemente ligados e relacionados, como um documentário informativo dentro de uma história que te cativa para não se tornar entediante. ― explicou da forma mais didática que conseguiu pensar, respirando mais uma vez para recuperar o ar. ― Você, definitivamente, tem que entender que o movimento literário faz parte de causas sociais poderosíssimas. Já ouviu falar da Literatura dos escravos africanos quando foram levados ao Brasil e a outros países por tráfico humano?
estava boquiaberto tamanha a eloquência da garota e também o conhecimento que ela despejou em sua cara, não tendo forças para fazer muito mais senão negar com a cabeça por alguns segundos, balançando-a de um lado para o outro lentamente, absorvendo o máximo de informações que conseguiu naquele pequeno discurso dela.
― Meu Pai, o que ensinam nessa escola? ― olhou feio em direção a Orkan, balançando a cabeça negativamente e se levantando. Apesar do drama, estava claramente empolgada em falar sobre um assunto que dominava. ― Tudo bem então, pegue o seu caderninho e se prepare, vou te dar um intensivão de tudo o que eu sei. Se o seu cérebro explodir, lembre-se que foi você quem pediu ajuda.
falou exatamente por uma hora e meia em sua cabeça, e tomou cinco garrafas d'água no processo. Quando ela engoliu a saliva pela milésima vez, soltou um suspiro pesado logo depois e umedeceu os lábios com a língua, com um sorriso de canto satisfeito aparecendo neles logo após.
estava completamente admirado, entorpecido pelo som da sua voz e pela inteligência que ela esfregou em sua cara incansavelmente. Estava tão impressionado que até mesmo ignorou como os lábios cheios e avermelhados se moviam, ou como o decote da regata azul se tornava perigoso quando ela abaixava um pouco ou a ajeitava para baixo.
Se ela quisesse ter feito uma lavagem cerebral em si, teria. Por um segundo quase riu ao se lembrar do primeiro dia de , quando gritaram que ela era o Hitler feminino. Se a discursasse por dez minutos na escola, se tornariam todos nazistas. E isso era, sem dúvidas, uma comparação terrível.
― Então, você acha que consegue fazer seu trabalho agora? ― ouviu-a perguntar após alguns minutos do mais puro silêncio. O tórax da ruiva subia e descia levemente, a respiração levemente alterada após explicar tanta coisa.
― S-Sim, com certeza… ― balbuciou ainda em choque, piscando mais do que o necessário tentando se situar na vida.
― Ótimo, ainda falta um tempo pros outros chegarem, vamos comer. ― comemorou em ter terminado com folga de praticamente quase uma hora. Dava tempo e sobrava de irem até algum terraço pegar algo para comer e voltarem antes de e chegarem.
não entendeu o porquê ela falou aquilo e entrou outra vez para o quarto, apenas pegando que iam sair quando a viu terminando de amarrar uma fita de um tipo de camisa de seda meio transparente branca que colocou por cima da regata azul, para não parecer tão largada.
― Nós vamos sair… Juntos? ― ele questionou em dúvida com a conotação de suas palavras e do que estava acontecendo.
― Bom, eu vou comer, se você não está com vontade é só ficar aí estudando. Meu quarto está trancado e eu vou levar a chave. ― fez questão de avisar, mostrando o molho que estava em sua mão. ― Ou você pode ir pra sua casa também, tanto faz.
― N-Não, eu estou com fome! Vamos! ― no mesmo segundo negou todas as ofertas da garota que os afastassem e se levantou, colocando o casaco de moletom com capuz que havia trazido para saírem.
ignorou aquela empolgação adolescente do e então rumou até a porta logo depois, torcendo a cada passo para que não encontrassem ninguém conhecido, nem no caminho e nem no shopping. internamente fazia o mesmo, porque sabia o que poderia desencadear ser visto com a ruiva em uma situação tão intimista, desse bullying e zoação até ameaças reais do fã clube secreto de stalkers que havia sido formado na escola.
Até mesmo quis desviar o caminho e irem para o terraço de outro Colégio, mas não teve coragem e quando viu estavam lá, com a porta do elevador saindo e pulando pra fora na velocidade da luz. Eles seguiam em silêncio durante todo o trajeto e por isso, as mãos dele se remexiam impacientemente nos bolsos.
Odiava aquele silêncio e, por mais que detestasse admitir, queria ouvir mais a voz da garota. Mas quando terminaram de subir a escada rolante para o segundo piso, viu de soslaio algo que fez todo o seu corpo tremer, e se desesperar no mesmo segundo. Tinha que fazer alguma coisa, e tinha que fazer rápido.
― A-Ai, eu preciso muito ver uma coisa na loja de materiais, vem comigo! ― puxou a mão da garota no mesmo segundo, praticamente correndo até a loja.
o olhou como se ele tivesse perdido completamente o juízo, mas não teve opção senão ir com ele, já que estava sendo arrastada. deu uma olhada discreta para trás e viu o perigo próximo, o que lhe fez rapidamente tomar outra providência antes que abrisse a boca.
― N-Nossa, você não ficou com frio aqui dentro? Esse ar condicionado está muito forte, pode te deixar gripada! ― ele reclamou, tirando a própria jaqueta e a colocando na sem permissão alguma, puxando o capuz para esconder os cabelos tão característicos dela.
Foi aí, segurando a mão dela, virado para a entrada da loja, que os viu entrando. E também viu saindo de seu estado atônito e petrificado, sabendo bem o que viria depois: ela ia gritar todos os xingamentos que conhecia e chamar a atenção de todos para si. Respirou fundo ao pensar que não tinha opção alguma, e curvou a coluna, levando uma das mãos até a nuca da ruiva e colando seus lábios de uma vez só.
Não foi nada delicado como os lábios macios dela eram, tamanho seu desespero pela situação, e nem mesmo durou mais que alguns segundos ou o deixou aproveitar a sensação, pois logo lhe empurrou de uma forma tão raivosa que cambaleou algumas vezes para trás, mas sorriu orgulhoso ao ver que não havia mais ninguém por aí, e se ela quisesse matá-lo, podia ficar à vontade.
Mas não. lhe encarou com a face em chamas, e, após um minuto em completo choque, ela saiu correndo, descendo as escadas rolantes sem esperar os degraus e sumindo no elevador. respirou fundo algumas vezes, tentando processar a própria merda. Mas estava tudo bem por que, aquela merda tinha propósitos maiores e mais nobres, por isso tinha sido feita.
por sua vez, não pensou em nada quando saiu correndo do lugar, agarrando no apoio do elevador com toda a sua força e esquecendo até mesmo que ainda estava com a jaqueta de . O capuz, porém, caiu durante a corrida, fazendo os cabelos longos esvoaçarem no ar antes de finalmente conseguir se esconder entre alguns outros poucos alunos no “meio de transporte”.
Ninguém desviou o olhar para encará-la ali, todos sabiam que crises de ansiedade eram uma das coisas mais comuns em Qar, principalmente na Orkan. Mas mesmo assim, mesmo que ninguém estivesse lhe encarando, ela voltou a cobrir o rosto, sentindo o ar faltar e a respiração falhar algumas vezes, o desconforto dos pequenos trancos do elevador misturado ao choque do que havia acontecido.
Andou tão rápido pela rua que parecia uma corrida, e quando chegou em casa, encostou a porta e se sentou no sofá, sem saber bem o que deveria pensar ou fazer, o cheiro de impregnado na roupa que estava ao redor do seu corpo também ajudava a confundir seus pensamentos, principalmente pela sensação de conforto estranha que ele trazia. Ao perceber esses pensamentos, rapidamente tirou a jaqueta e a jogou do outro lado do sofá, passando ambas as mãos pelo rosto e pelos cabelos.
O que havia sido aquilo? As ações do tinham sido estranhas demais para que encarasse como se aquilo realmente tivesse acontecido por querer, mas não tinha outra explicação senão essa, não quando estava tão inundada por seus próprios sentimentos.
Só saiu de seu transe quando ouviu as batidas na porta, lhe fazendo erguer a cabeça e olhar no relógio de parede que passou literalmente meia hora em um colapso mental. Pigarreou, tentando se recuperar e voltar a colocar seus pensamentos no lugar para levantar, mas a porta foi aberta antes que chegasse até ela, já que havia a esquecido aberta.
― Com licença… ― a voz calma de invadiu seus tímpanos e por um segundo fez até que seus ânimos parassem de se exaltar, tamanha a serenidade de seu tom.
― Claro, entra. ― apontou de uma forma um pouco esquisita para o ambiente a sua volta, pegando os livros em cima da mesa e os tirando para preparar o ambiente para a segunda rodada de estudos.
Não sabia porquê, mas sempre se sentia desconfortável dentro de si mesma quando estava no mesmo ambiente que . Talvez pela forte impressão que tinha que ela lhe detestava, ou simplesmente por sua falta de habilidade social, principalmente com mulheres, suas irmãs que nunca teve muita proximidade.
simplesmente entrou, encostou a entrada da casa e sentou no sofá que havia apontado, ignorando a blusa masculina que facilmente reconheceu como sendo de no sofá e então olhando para o nada. Ela parecia não sentir necessidade alguma de diálogo, mas naquele momento, a sentia e não prendeu a língua quando precisou.
― Então, você já fez o trabalho de Literatura? ― questionou a coisa mais aleatória que veio em sua cabeça, agora, ao invés de sentar no sofá, sentou na almofada que estava no chão, do outro lado da mesa de centro.
― Sim, já. ― a platinada lhe respondeu no mesmo tom de antes. A apatia estampada na sua cara era desconcertante, e a cada segundo que passava tinha certeza que a garota abominava sua existência.
Desviou os olhos, encarando um vaso que ficava na decoração do pequeno espaço para café da manhã. Passou uma das mãos no cabelo e ao fazer isso, a lhe olhou com uma das sobrancelhas levemente arqueadas, como se houvesse percebido sua inquietação.
― Está tudo bem com você? ― a colega de classe questionou ao ver que estava prestes a ter um ataque de pânico, que suas mãos tremiam levemente e sua testa pingava um pouco de suor.
― S-Sim, eu só… Esses trabalhos me deixam ansiosa. ― murmurou em resposta, sorrindo de canto para tentar ser mais convincente.
lhe encarou nos olhos, deixando o silêncio dominar a situação. Ela lhe analisava de uma forma tão intensa e profunda com aquele olhar que teve vontade de correr e se esconder, com medo do que a garota era capaz de descobrir apenas com isso. Ela parecia poder ler a sua mente.
― Não precisa mentir. Nós não somos amigas, mas eu realmente detesto quando mentem. ― explicou calmamente, deixando a bolsa com os materiais didáticos no assento vazio ao seu lado no sofá e cruzando as pernas.
― Desculpa. ― sussurrou como uma criança envergonhada que havia sido pega pela mãe fazendo besteira. apenas balançou os ombros, como se não tivesse importância.
― Sabe, quando você chegou eu me perguntei porque todos estavam tão interessados por você. ― o tom de voz da dona dos cabelos brancos era baixo e ela parecia estar saindo completamente da sua zona de conforto ao falar tanto com alguém. ― Mas agora eu entendo. Você realmente parece estar escondendo algo durante todo o tempo, isso deve ter deixado a todos curiosos.
sorriu mais largo agora, sentindo-se relaxar levemente, descobrindo aos poucos que talvez não fosse ódio e apenas tivesse mesmo aquela personalidade fria.
― Eu não pareço esconder algo. ― de repente, liberar seu estresse e desabafar em cima da garota não pareceu algo muito ruim, mesmo que no fundo, soubesse que era uma péssima ideia. ― Eu realmente escondo.
A porta se abriu outra vez e revelou e , fazendo o foco da situação e da conversa das duas. foi quem a abriu e entrou saltitante na casa da ruiva, pleno por dessa vez não ser uma invasão e nem mesmo temer uma agressão por parte da dona. O , ironicamente, gostava de e havia aprendido a lidar com ela, mas percebeu que havia algo errado quando a ruiva e se encararam por um segundo e então viraram o rosto um pro outro, a particularmente raivosa.
― Chegamos para alegrar a noite de vocês. ― por sua vez não perdeu a empolgação e então se aproximou com o atrás.
Estava pronto para sentar ao lado de , mas lhe empurrou e fez com que fosse na direção de . Encarou o amigo em dúvida do que havia sido aquilo, mas sentou sem questionar, vendo o colocando uma sacola em cima da mesa, na frente de que nem mesmo prestou atenção, já que encarava o livro em sua mão.
― Oi. ― o cumprimento das duas foi mais pra um murmúrio, e pareceu perder metade do espírito empolgado com aquilo.
― Vai me dizer que vocês já brigaram de novo?! ― o suspirou desanimado, balançando a cabeça negativamente em reprovação total as ações dos dois.
Tanto como desviaram o olhar, não querendo nem mesmo responder o que havia, de fato, acontecido entre os dois.
― Ah, fala sério vocês, viu. Não tem como estudarmos direito se os pombinhos não aguentam nem olhar um pra cara do outro. ― revirou os olhos, frustrado, jogando sua mochila no chão ao seu lado. ― Vamos fazer um exercício de confiança.
― Um o quê? ― murmurou, olhando para o adolescente ao seu lado como se ele tivesse perdido o juízo.
― Quando as pessoas têm impressões ruins umas das outras, a melhor coisa a se fazer é deixar elas conhecerem sua história, assim, a imagem inicial vai embora. Vamos, falem um pouco de vocês. Da onde você é, ? ― ele perguntou, fazendo a garota ficar pálida por um segundo e arregalar os olhos.
Nesse meio tempo, ergueu o tronco e foi até a cozinha tomar um copo d'água, murmurando um pequeno pedido de licença e deixando claro que aquela situação não lhe despertava muito interesse, enquanto , de repente, pareceu estar muito interessado naquele tipo de exercício, tanto que até mesmo pareceu esquecer a situação que estavam.
― Brasil. ― ela respondeu apenas, desviando o olhar para o caderno que havia colocado na mesa logo depois como se fosse o ser mais inocente da face da Terra.
― S-Sério? Eu achei que fosse França. ― o não resistiu em ficar calado por mais tempo, a encarando com a lembrança daquela foto da torre Eiffel em sua mente.
― Por que seria? ― ela não se deu ao trabalho de olhá-lo, mantendo-se concentrada em batucar levemente o lápis na folha branca.
― Bom, é isso que… Dizem por aí. ― o tom de voz da garota fez passar a mão levemente pelos cabelos, sem graça, e suspirou desanimado ao observar se sentando outra vez.
― Não está parecendo funcionar, vou ter que perguntar coisas mais pessoais. ― o murmurou para si mesmo, mas a ruiva o ouviu já que estava ao seu lado, a fazendo o olhar como se ele estivesse perdendo a sanidade. ― Qual o tipo ideal de vocês?
pareceu engasgar com o ar, enquanto a se perguntou o que diabos aquilo queria dizer, arqueando uma das sobrancelhas para que suspirou alto, revirando os olhos.
― O meu o quê? ― sinceramente, não fazia a mínima ideia do que aquilo queria dizer, mas não é como se eles acreditassem nela.
― Sério, não é algo difícil, a pode responder, inclusive. ― ele apontou uma das mãos para a platinada que havia acabado de cruzar as pernas.
― Não sou capaz, porque não há um. ― calmamente respondeu, observando as próprias unhas com desinteresse total ao que se desenrolava. Estava ali para estudar, não para servir de cobaia na terapia de casal do futuro casal.
― Bom, mas se existisse, ela falaria! ― respondeu um pouco exasperado pela resposta da platinada, uma daquelas que não esperava nem um pouco. Aquelas duas mulheres presentes eram terríveis. ― Vamos, , conta o seu!
― Por que sou eu que sempre tenho que responder primeiro? ― ela questionou, querendo que alguém se propusesse a fazer antes de si para saber do que diabos estavam falando ali.
― Não seja tão infantil. ― a bronqueou , que a olhou de volta com uma expressão de dúvida.
― O meu é uma garota que fique bem usando jeans e camiseta branca. ― naquele momento, todos ignoraram o fato de que havia alguém ali com essa característica. E não era . ― E que tenha covinhas. Eu realmente gosto de covinhas. ― ele comentou com um ar envergonhado, sorrindo logo depois e deixando as suas próprias aparecerem. ― Agora os dois bebês chorões já podem falar.
mantinha o olhar fixo na porta que levava até o quintal da casa, parecendo querer sair correndo até lá e pular o muro novamente de volta para a sua zona de segurança, se trancando no quarto por no mínimo uma semana. Ao ver a situação dele que era levemente pior que a sua - pelo menos aparentava ser, resolveu se pronunciar primeiro.
Pelo menos agora sabia enfim que “tipo ideal” provavelmente era mania adolescente, onde as pessoas podiam facilitar a formas de flertar ou tomar foras mais facilmente - devia ser épico quando perguntavam para um crush e a pessoa respondia “não é você”, queria presenciar uma dessas.
― O meu tipo ideal é uma pessoa mais velha, responsável e que me faça sentir segura quando está presente. ― recitou e acabou levando às costas para trás um momento e apoiando as mãos a cada lado do corpo para manter o equilíbrio, fechando os olhos calmamente. ― Alguém que eu possa confiar.
Mas antes de fechá-los, acabou por ver de relance o lanche natural e o suco de laranja que ele havia deixado em sua frente por quando ele chegou. Seu coração pulou um batimento, e ela disfarçou o desconforto de ter falado o que havia acabado de falar, enquanto o vagava o olhar pelo lugar até encontrar a pose despreocupada da ruiva.

Sabia bem quem ela havia descrito, mas não sabia quem ele mesmo iria descrever, porque não podia falar o seu tipo ideal real. Não quando ele encaixava-se perfeitamente naquela peste em forma de mulher, que havia acabado de fazer seu coração quebrar em alguns pedaços, mesmo que ele fingisse para si mesmo que não havia se importado nem um pouco com o que ela havia falado.
Não quando isso implicaria em lhe fazer admitir que ela era alguém que queria proteger.



IX - Fast Pace

traçou um plano enquanto se revirava na cama incansavelmente durante a madrugada. Iria visitar de manhã, na hora que ele estaria tomando café, e contaria para ele o que havia acontecido na tarde do dia anterior, então ele lhe daria um pé na bunda e teria tempo de voltar para sua casa, fazer um último trabalho com que faltara no dia anterior e, se tudo saísse como o seu planejado, depois teria mais ou menos umas cinco horas pra chorar as pitangas da frustração antes de ter que dormir pra ir pra aula.
Passou a noite inteira em completo desespero no seu quarto, não apenas a de sexta, mas a de sábado também. Agora era a manhã de domingo, e ela usava uma blusa de moletom rosa com uma máscara branca para disfarçar quem estava entrando no prédio da administração. Enquanto subia as escadas - morava no terceiro andar, não eram muitos lances e preferia isso do que andar de elevador - o medo e as perguntas voltaram a sua mente, fazendo suas mãos suarem nos bolsos.
Devia mesmo contar para , era o certo a se fazer? Como ele iria reagir? Por que se sentia como se houvesse o traído? Ou por que parecia que isso havia saído de controle? Qual era, exatamente, a relação dela com , e por que mexeu daquela forma com a sua cabeça?
Sabia que sim, devia contar. Não queria esconder aquilo, já convivia com mentiras demais para adicionar omissão a sua lista. Mas sobre as outras perguntas, preferia nem mesmo cogitar a resposta. Antes de bater na porta do apartamento de , respirou fundo algumas vezes para tomar coragem de encará-lo. Se sentia péssima pelo o que havia acontecido, e na verdade não era nem sua culpa.
Ele abriu assim que bateu duas vezes, a fazendo petrificar quando o mais velho lhe ofereceu um repuxar de lábios e ficou de lado para que entrasse. respirou fundo algumas vezes, e então entrou, passando uma das mãos pela máscara, pensando em tirá-la e a outra para puxar o capuz para trás assim que a porta foi fechada.
― Como está sendo seu final de semana? ― questionou educadamente, girando o corpo para observar a ruiva que mexia insistentemente na máscara.
Apesar do acessório lhe incomodar em demasiado, não sabia bem se tinha coragem de tirá-lo para mostrar seus lábios comprimidos um no outro. Os lábios que beijaram na sexta feira, e agora ela queria ser capaz de arrancá-los por lhe proporcionarem tão maldita sensação, que ainda não raciocinara se fora boa ou ruim, apenas fora alguma coisa. Não teve escolha, e arrancou o tecido fino ao ter que responder .
― Está… Sendo normal. ― tentou ser convincente na mentira, usando da melhor tática que tinha e desviando o olhar naturalmente. Se ele lhe olhasse nos olhos, saberia que havia mesmo algo errado. ― Nós precisamos conversar… ― suspirou. Quanto mais direta fosse, melhor seria.
― Huh, aconteceu alguma coisa? ― o corpo do homem se tencionou ao mesmo momento que se sentava, esquecendo um segundo do café para ficar no sofá mesmo. estava tão tenso quanto .

sabia tanto quanto ela.

― Sim, eu… Acho que eu não preciso ficar mais por aqui, não é? ― a ruiva continuou em pé, mais especificamente, perto da porta, como se esperasse por alguma bomba sendo jogada no apartamento e estivesse estrategicamente se posicionando para correr bem rápido quando isso acontecesse. se preparou para responder, mas ela continuou antes disso. ― Quer dizer, eu não acho certo agora que… nós dois… ― protelou, não sabendo qual desculpa usar. ― É, meu irmão já veio aqui, né, ele não deve voltar… E também, bem… O … Ele me beijou. ― sua voz se tornou tão abafada e sussurrada nessa última parte que mal pode ouvi-la.
, o esteve aqui. ― o mais velho ignorou completamente a confissão da , até porque, ele já sabia. Ele havia visto. ― Na sexta feira. Eu estive com ele no terraço.
A mente de naquele momento se tornou um borrão cinza e seus pensamentos se embaralharam, esquecendo-se completamente de para, naquele momento, focar-se em problemas reais, não da sua vida fabricada de adolescente. Ela perdeu o equilíbrio do próprio corpo e precisou ser amparada por , que deixou-a sentada para pegar um copo d'água.
Ela não ligou as coisas, e também não ligaria. Sua mente naquele momento, não pensava e nem raciocinava. Nada mais era importante além daquilo, daquela segunda vez que estiveram tão perto e outra vez, tão longe.
― Ele me disse que precisava apenas conversar e que estar aqui fazia parecer que ele estava perto de você, que parecia até que ele podia sentir seu cheiro. ― suspirou desanimado, correndo a mão pelos cabelos lisos e os arrastando vagarosamente para trás após entregar o copo para a menina, sentando ao seu lado e segurando sua mão. ― Não sei se ele precisa apenas de um amigo, ou se desconfia de alguma coisa.
― Se… Se ele desconfiasse, eu não estaria mais aqui. Você sabe, ele me acharia, de algum jeito. ― murmurou, o rosto pálido preocupando o mais velho que apertou carinhosamente sua mão dentro da dele.
― Você está certa. ― aproveitou também para levar a outra mão até os cabelos longos, os acariciando lentamente para acalmar a ruiva. ― Eu acho que talvez ele volte mais vezes, mas eu nunca sei quando ele está sozinho ou não. Quando ele vem até aqui, posso te esconder e controlá-lo. Mas se ele vier com vigias espalhados pela cidade, eles podem te pegar.
― Eu… Entendo. ― sorriu sem abrir os lábios, erguendo o olhar timidamente para por alguns segundos. ― Continuamos juntos, então.
― Sim, claro. ― ele também sorriu, vendo que esse gesto parecia auxiliar a acalmar a garota.
― Eu ainda preciso voltar pra lá mais uma vez hoje, mas acho que consigo vir pra cá à noite. Eu vou… Tomar cuidado, certo? ― a tentou passar confiança, mas ainda estava claramente abalada com a situação.
― Por favor, . Nós estamos indo longe demais, então não seja pega, certo? ― se aproximou levemente, depositando um beijo suave em sua testa e então deixando-a se afastar.
A garota ajeitou os cabelos para dentro do capuz e ajeitou bem o rosto da máscara, acenando de forma infantil antes de se despedir e sair pela porta. forjou um sorriso extremamente convincente, observando-a sumir pelo corredor e esporadicamente aparecer na paisagem de sua janela, virando a esquina de forma rápida.
Respirou fundo e franziu o cenho.
A cena era nítida em sua mente. Primeiro vira , então agarrou para dentro de uma loja e não foi capaz de impedir que o homem seguisse o mesmo caminho - ele parecia guiado por alguma coisa, alguma ligação extremamente forte. Então, viu escondendo os cabelos marcantes e formas corporais diferenciadas da menina, lhe fazendo estranhar ainda mais.
Naquele momento, ele lhe viu também, quando pisaram a primeira vez no estabelecimento. E poucos segundos depois, ele a beijou, dando o tempo e uma desculpa para que arrastasse o amigo para longe dos dois. Aquele beijo não representava nada para o ego ou orgulho de , mas representava uma boa parcela da sanidade de .
E isso é porque ela nem sabia o contexto, e nem imaginava que sabia demais, e agora tinha certeza disso. Entretanto, não deixaria aquilo desestabilizá-la ainda mais, então resolveu que não a contaria nada, ou ela voltaria a ficar mais paranoica ainda. Queria preservar o que a garota ainda tinha para se despreocupar e distrair.
Suspirou desanimado, jogando o pescoço para trás no sofá e olhando para o teto. Protegeria , mais uma vez, mesmo que o que fizesse fosse parecer controverso para a garota ao primeiro momento, e custasse bem mais do que um beijo.

♣♣♣


Não bastava ter que passar praticamente todo o seu fim de semana enfurnada em casa com : logo após a segunda aula do dia, o professor anunciara mais um trabalho, que claramente seria em dupla. E claramente a sua dupla era formada pelos dois.
praticamente nem mesmo o olhara na cara desde que haviam chegado, o incômodo pelo o que havia acontecido ainda fazia seu estômago revirar. Precisavam conversar sobre aquilo, mas na realidade, isso era claro que resolver as coisas era a última coisa que queria fazer, principalmente se dependesse dela. Agora que não tinha mais opção se não suportar ficar sozinha outra vez com , ela resolveu apagar definitivamente aquilo que havia acontecido, fazendo seu cérebro substituir a cena por programas de TV.
O por sua vez, não estava nada feliz com aquilo. Na verdade, a forma apática que lhe olhou quando sentou a sua frente na mesa da biblioteca fez com que tivesse vontade de enfiar as mãos nos cabelos e arrancá-los fio por fio, sabendo que não aguentaria ficar naquele clima com a ruiva por mais muito tempo. Talvez se a esperasse falar algo, ficariam daquela forma pra sempre. E isso o assustava mais, por que ele não fazia ideia do que falar como desculpa para frear aquilo que havia começado. Existia sequer uma desculpa plausível para o que fizera?
― O tema é…
. ― interrompeu assim que ela começou, fazendo-a erguer os olhos sem erguer a cabeça, se olhando de uma forma extremamente assustadora que lhe fez tremer um pouco.
― Hm? ― ela murmurou em resposta arqueando uma das sobrancelhas, já sabendo para qual rumo àquela conversa ia, o que a deixou irritada antes mesmo de ser confirmada.
― Nós precisamos conversar, você sabe, não é? ― levou um dos dedos até a nuca, a coçando levemente com o dedo indicador.
― Sobre o quê? ― estava decidida a não tocar no assunto, e não seria uma expressão desconcertada do que a faria mudar de ideia naquele momento.
― Sobre sexta feira, no shopping. ― porém, vê-la se esquivando do assunto daquela forma apenas o deixava ainda mais determinado.
― O que aconteceu sexta no shopping? ― ela perguntou inocentemente, pegando alguns tic tacs para prender a parte do cabelo que cairia em seu rosto quando se abaixasse para estudar, dificultando sua leitura.
― Você quer mesmo que eu fale em voz alta? ― sussurrou de uma forma insinuativa, com um sorriso de canto que a fez querer socá-lo no meio dos olhos.
O aproveitou e também olhou sugestivamente de um lado para o outro, como se a lembrasse de que, caso o fizesse falar, outras pessoas poderiam ouvir. Estavam perto da janela, e a dupla mais próxima longe o suficiente para não conseguir escutá-los, mas naquele lugar nunca se sabia quando alguém simplesmente não estava stalkeando atrás da estante de livros.
sabia bem porque ele faria.
― Não temos nada pra falar sobre aquilo. ― a postura da mais velha mudou no mesmo segundo para a defensiva e arredia que ela costumava adotar quando entravam em um assunto ao qual ela não queria. Já a vira algumas vezes, o suficiente para começar a reconhecer.
― Tem certeza? Você vai simplesmente fingir que não aconteceu e seguir o baile? ― ele arqueou uma das sobrancelhas, encostando as costas na poltrona para ter uma visão mais ampla de , o suficiente para ver que a ela brincava com os próprios dedos, com as mãos apoiadas em cima da saia do uniforme.
― E por que eu faria diferente? Você deveria estar agradecido por que eu nem tentei te matar. ― ela bufou, agora mais irritada e prestes a perder a paciência. ― Você quer falar sobre isso por quê? O que isso muda, ? Não é melhor simplesmente esquecer e continuar com a evolução lenta de “eu odeio você” pra “você se tornou suportável” que estávamos tendo? Não estrague tudo agora.
As palavras da garota lhe pegaram desprevenido e ele arregalou os olhos. Ela estava certa, no final, na verdade só queria falar sobre aquilo para ter certeza de que também se lembrava. Que a também havia sentido. Não mudaria nada, e muito menos o faria contar a verdade. Apenas queria outra vez relembrar o ocorrido, dessa vez com ela, talvez no fundo esperando vê-la corada ou sem graça para poder nutrir algum tipo de esperança.
― Eu já estraguei, . Nós realmente precisamos conversar. ― ele suspirou desanimado, mas agora nem sabia bem sobre o que deveriam falar. O que justificaria suas ações, além de sentimentos? A verdade que não era uma opção viável naquele momento.
― Fala então. Eu vou ouvir, mas não é como se eu realmente tivesse algo pra dizer também. ― ela não fazia a mínima ideia do que fazer, porque ignorou tanto o acontecido pelo medo, que não raciocinou como se sentia em relação aquilo. Devia ter odiado, não? Se sentindo uma traidora? Se era assim que deveria ter se sentido, era assim que falaria ter se sentido.
― Bom, primeiro, desculpe. ― ele começou, puxando levemente os cabelos da própria nuca pra baixo pelo nervosismo.
― Hm? ― o murmúrio de e sua sobrancelha até o céu lhe fizeram parar para repetir a palavra, assim, ela teria muita certeza do que havia ouvido e nunca mais poderia dizer que não sabia pronunciá-la.
― Des-...
― Ah, finalmente achei vocês!
Agora foi outra voz que interrompeu, e se sentiu infinitamente mais nervoso ao ver parando ao lado da mesa onde estavam, sorrindo largamente, de forma simpática. Isso não podia, de jeito nenhum, ser um bom presságio.
― Algum problema? ― tentou disfarçar o nervosismo ao ter os dois no mesmo ambiente, mas era difícil quando os rapazes lhe davam dois tipos de ansiedade diferente.
lhe dava a ansiedade da presença, de estar ali e trazer consigo todos aqueles sentimentos que faziam o coração da ruiva praticamente explodir para cada próxima ação do mais velho. Enquanto isso, o na sua frente lhe trazia a ansiedade da lembrança do momento em que seus lábios se tocaram e seu mundo pareceu virar de cabeça pra baixo - mais do que já estava.
― Acho que esqueceram de falar pra vocês, mas os dois não são mais uma dupla. ― ao falar aquilo, se esforçou para manter a expressão mais neutra possível em sua face e não vacilar de forma alguma para que ninguém pensasse que era pessoal.
― O-oi?
― É, nós percebemos que a diferença de opiniões entre vocês pode ocasionar uma baixa nas notas, então decidimos separá-los. Você pode voltar a fazer dupla com o , . ― explicou, e a praticamente não aguentou a mentira deslavada que aquilo era, mas se manteve quieta. Pelo menos por enquanto.
― E eu? ― perguntou com um tom sarcástico que facilmente detectou, mas resolveu ignorar. O que tinham para conversar, os dois podiam fazer mais tarde, sem a presença do no meio deles.
― Você vai fazer dupla com a a partir de hoje. Os dois já foram avisados, acredito que é só se encontrarem agora. ― ele sorriu condescendente ao explicar para a garota, e após isso voltou a virar em direção a porta. ― Bom, era só isso mesmo.
e se entreolharam quando saiu, ainda um pouco chocados com o que havia acabado de acontecer. E, mesmo que nenhum dos dois fosse admitir, no fundinho estavam ambos contrariados com aquela separação. O que ela claramente não deixou transparecer quando levantou com um largo sorriso, segurando sua mochila rente ao ombro e acenando animadamente.
― Tchauzinho!

♣♣♣



― Ok, nós precisamos conversar.
Foi a primeira coisa que a ruiva falou assim que entraram no apartamento, após passar todo o caminho em silêncio no carro. tirou o casaco que lhe protegia do frio do lado de fora, e acenou positivamente com a cabeça, suspirando e se sentando no sofá.
― Eu imaginei que sim. ― não parecia muito empolgado, e era apenas por um motivo: não sabia bem o que poderia dizer que disfarçaria tudo o que não sabia que estava acontecendo, e também nem deveria saber. ― Pode falar.
― Eu realmente aprecio você ter pensado em mim e acabado com a história do ser minha dupla. ― ela começou em um tom tão confiante que realmente aparentava que ela estava feliz com a situação, mesmo que no fundo todo mundo soubesse que não. ― Mas por que isso agora? Se quisessem mesmo me separar, já teriam feito antes.
Ela estava certa, e mordeu o próprio lábio enquanto pensava em alguma forma de escapar daquela situação. A sabia de seus sentimentos pelo mais velho e agora tinha noção dos dele por si também, mas não seria por isso que iria gostar ou aceitar se estivesse manipulando as situações para lhe afastar de por ciúmes, principalmente porque essa era a única opção que passava pela sua cabeça depois do que havia acontecido no fim de semana.
― Qual é a resposta que você quer ouvir? ― ele perguntou depois de ver a garota sentar também no outro sofá e deixar alguns minutos de silêncio entre os dois, aos quais usou para pensar.
― A verdadeira, teria outra? ― arqueou uma das sobrancelhas para ele, como se houvesse ouvido uma blasfêmia. ― E que de preferência, não envolva ciúmes ou você tentando controlar quem se aproxima de mim.
― Eu sinto muito, então. ― deixou o corpo ir pra trás, batendo a coluna contra o sofá e decidindo que seria simplesmente mais fácil se deixasse a garota pensando nas conclusões que ela própria tirara.
, você está falando sério? ― aquilo realmente não fazia o feitio do mais velho, e uma vertigem passou pelo corpo dela ao imaginar que aquela opção era a correta. Levou uma das mãos a sua nuca, aplicando uma certa pressão no contato para poder aliviar a tensão. ― É dessa forma que você vai agir?!
― Ele te beijou, . Você quer que eu ignore isso e finja que não me incomodou? ― arqueou uma das sobrancelhas, puxando os fios escuros dos cabelos para trás com os dedos. ― Não teria ponto algum nós iniciarmos uma relação se isso não tivesse me incomodado.
A ruiva abriu a boca, balbuciando algumas vezes em uma tentativa de respondê-lo a altura. Seu sangue essa hora já estava tão quente que suas bochechas haviam se avermelhado, e ela não pensou muito quando simplesmente levantou e saiu andando até a porta.
― Se é dessa forma então, eu prefiro que a gente não inicie relação nenhuma.
E, no mesmo momento que a porta fechou em um estrondo, os olhos de também se fecharam e suas mãos foram até sua testa que havia começado a doer. Por que tudo tinha que ser sempre tão complicado entre os dois? Por que nunca conseguiam desenvolver o que tinham sem alguma coisa atrapalhá-los?! Como poderia contar para que estava perto demais de descobrir tudo o que haviam guardado, e por isso a afastara dele dessa forma?
Sabia que aquilo ia mexer demais com o psicológico da garota e acabar com toda a segurança que ela estava criando aos poucos, mesmo com os rodeando. Se perguntou se o melhor era continuar mentindo para protegê-la, ou contar uma verdade que com certeza a destruiria. O ar saiu de seus pulmões de uma forma mais agressiva, ao mesmo tempo em que se levantou e pegou o casaco para procurar onde havia ido.

♣♣♣


Não era como se odiasse , mas sinceramente, se tornava um pouco difícil de gostar de alguém tão superestimada. Não que fosse culpa dela, mas a garota não auxiliava em sua forma de agir e dizia isso com base no que conviveram. Toda vez que a via, ela geralmente era mal educada e os dias aos quais tiveram que estudar com e perto, ela não passava uma boa sensação.
Mesmo assim, tentava não julgá-la demais e imaginava que havia algo muito maior acontecendo por trás. Não pensava muito nos defeitos da , porque também era uma pessoa com uma personalidade controversa. Mas não conseguia morrer de amores pela garota quando ela lhe deixara esperando na porta de sua casa quando tinham uma sessão de estudos marcada.
Sua paciência normalmente era longa, mas daquela vez foi tão testada que quando viu estava apertando a campainha da casa vizinha em plenas sete da noite, esperando a presença de um dos moradores para tentar ter alguma explicação que lhe deixasse menos irritada.
… ― constatou desanimada quando a porta se abriu. ― Você por acaso sabe alguma coisa sobre a sua vizinha?
Ah, sim, ele sabia muitas coisas. Principalmente que naquele momento ela devia estar no apartamento de , sendo o casal mais feliz de Qar.
― Sobre onde ela está? Eu realmente não sei de nada… ― coçou a nuca, um tanto em dúvida sobre o que estava acontecendo. ― Por quê?
― Tínhamos marcado seis e meia. Ela não atende a porta. ― explicou direta como costumava ser, e disfarçou seu desconforto.
se importava demais com a mentira que sustentava para simplesmente fazer aquilo agora. Se ela não estava ali, alguma coisa havia acontecido, e seus instintos começaram a entrar em alerta no mesmo segundo.
― Ela não faria isso se alguma coisa não tivesse acontecido. ― o rosto e tom de vozes do rapaz se tornaram repentinamente sérios, e arqueou uma das sobrancelhas. ― Ela deve ter tido algum problema.
― Por que você a defende tanto? ― não era como se aquilo a ofendesse, mas sinceramente, estava perplexa. De todos que via, o era quem mais parecia desprezar veementemente, e, ironicamente, era também quem mais estava perto dela.
― Ela é uma pessoa legal, . Você só demora um pouco pra descobrir isso. ― riu desconcertado, passando uma das mãos nos cabelos e sentindo a bochecha avermelhar com aquele fato sendo jogado na sua cara tão abertamente.
― Certo. Obrigada, então. ― a acenou com a cabeça e então virou as costas para começar a andar de volta para casa.
― Até depois!
acenou animado, e fechou a porta alguns segundos depois, pegando o seu casaco antes de olhar para a janela para confirmar se já havia ido embora e abrir a porta rapidamente para sair.
― Hey, onde você vai? ― a voz de soou das escadas junto com os passos. ― Quem era na porta?
― Agora não, . Quando eu voltar te explico. ― e então bateu a porta, seguindo pela rua sem nem mesmo olhar para trás.

♣♣♣


passou metade da sua tarde comendo e na biblioteca, estudando. E a outra metade, permitiu-se explorar um pouco os lugares que não conhecia naquele lugar, como os jardins e a praça principal, que ficava na entrada do Colégio, evitando ficar parada por muito tempo em um lugar só - afinal, é isso que se faz quando não se quer ser encontrada. A Orkan ficava no centro dos prédios, no meio de toda a cidade de Qar. Era dali que saia toda a esperança de um futuro com cidadãos mais conscientizados e de uma sociedade melhor.
Sua construção não era simples, apesar do prédio único ser. Ao seu redor, além da quadra e do portão cercado por um muro alto, diversos jardins arborizados deixavam o ambiente menos desconfortável para os alunos. E acabava de descobrir um que com certeza era mais agradável do que o que ficava na entrada, facilmente encontrado por qualquer um.
Depois de algumas árvores cercando a lateral da escola, encontrava-se uma pequena trilha, formando um caminho para um jardim pequeno, com apenas três bancos e uma fonte baixa e cinza, sem estátua alguma em seu meio. Não tinha ninguém ali, até porque era segunda e quem não estava no terraço, provavelmente estaria em casa, estudando.
O silêncio era sua única companhia, e por alguns minutos pôde sentir que o barulho dentro da sua cabeça estava diminuindo e que ela estava parando de latejar e rodar em tantas dimensões diferentes. Ainda não conseguia raciocinar direito com o que havia acontecido naquele dia, e deitou o corpo em um dos bancos de pedra, tentando colocar seus pensamentos em ordem.
e tinham pés que seguiam em ritmos acelerados para direções diferentes.
Essa era a conclusão que havia tirado naqueles minutos aos quais aproveitou a própria companhia. Mesmo que os dois tentassem manter suas mãos entrelaçadas, os caminhos aos quais deveriam seguir eram diferentes. Mas no fundo, ela sabia que havia uma opção de não se separarem, e estava disposta a escolhê-la, até a discussão que tiveram.
Foi apaixonada por durante seis anos. O relacionamento deles passou por situações curiosas e intangíveis, mas no fim, sabia que ele sempre estaria lá quando precisasse. Aceitou, porém, que aquilo não passava de amizade e obrigação e agora ao descobrir que podiam dar um passo a mais, aquela ação do mais velho lhe desestabilizara completamente.
Como poderia aceitar agora, depois de seis anos e tudo o que haviam passado, que não haviam sido feitos para ficarem juntos? Depois de todo esse tempo falando para sua mente e coração que ele era o homem da sua vida, como iria se convencer do contrário?
O frio começava a se tornar incômodo quando percebeu que havia perdido completamente a noção do tempo e se esquecido até mesmo que teria de voltar para sua casa para encontrar-se com . Arregalou os olhos, lembrando que não estava com a chave e nem com o celular para pedir para .
E estava começando a pensar em levantar quando alguém atravessou as árvores, aparecendo na trilha e a fazendo ter vontade de se afogar na fonte que nem mesmo tinha um metro.
― Oiê. ― cumprimentou empolgado por tê-la achado na terceira tentativa. A primeira foi a biblioteca, a segunda a sala de estudos e agora, o jardim, o lugar mais discreto que havia conseguido pensar.
― Você estava me procurando ou é só impressão? ― ela questionou perplexa com a empolgação dele ao notar sua presença.
― Sem impressão. Eu estava mesmo te procurando. ― admitiu calmamente, sentando no banco que ficava de frente ao que ela estava.
― Você sabe que pode parar de me encher o saco agora, não sabe? Não temos mais vínculo nenhum. ― suspirou, aproveitando que estava deitada de barriga para cima e olhando o céu ao invés do rosto do garoto.
― Eu sei, mas é difícil ignorar sua existência quando a sua dupla de trabalho vai até a minha casa me perguntar se eu sabia onde você estava. ― ele respondeu sarcástico, mas a preguiça de era tanta que ela nem mesmo se mexeu.
― Estou muito atrasada? ― perguntou. Não que tivesse muito interessada, ou tivesse a intenção de sair dali tão cedo.
― Seu compromisso foi cancelado, madame. ― ele riu enquanto suspirou, resmungando.
― E o que vocês está fazendo aqui? ― conseguiu discernir essas palavras após algum tempo de murmúrios desconexos.
― Eu fiquei preocupado, ué. Não é óbvio?
A naturalidade que ele falou aquilo daquela vez, tão em alto e bom som, fez com que sentisse um tremor no seu corpo, que apenas conseguiu disfarçar facilmente porque estava deitada. Virou aos poucos o rosto na direção do , encarando o sorriso de canto que tomava conta das suas feições.
― De novo? ― ela questionou com uma das sobrancelhas arqueadas, e ele riu, assentindo com a cabeça.
― Pois é, acho que é por conta dessa sua personalidade difícil, eu sempre acho que algo de errado está acontecendo com você, então eu me preocupo. ― a explicação de fez com que as pupilas de diminuíssem pelo choque. ― Devo ter me acostumado com a sua presença.
― Não precisa se preocupar. Não tem nada errado acontecendo, nem agora e nem antes.
Outra vez o coração do se quebrou ao ouvir a mentira sair dos lábios dela. A ruiva quebrou o contato visual, voltando a encarar o céu.
― Não consegui terminar de falar hoje de manhã. ― comentou quando o silêncio caiu entre eles, tomando o ar até que seus pulmões de enchessem para também tomar coragem. ― Você não precisa falar nada se não quiser, mas eu quero pedir desculpas. Eu nunca devia ter te beijado, e também não tenho uma explicação pra isso, além de que eu não estava raciocinando direito. Também nunca deveria ter invadido a sua casa, mas essa foi sem querer. ― ele riu, tentando quebrar o gelo e vendo que o canto do lábio da ruiva tremeu, mesmo ela tendo controlado o sorriso que queria sair. ― Eu só queria que nós pudéssemos ignorar isso tudo, eu não aguento mais esse muro construído entre nós. ― suspirou, resolvendo parar por ali. Não queria especificar porque aquilo lhe incomodava tanto. Não ainda. ― Nós não podemos simplesmente sermos amigos?
A pergunta atingiu de uma forma tão forte que ela teve que parar por alguns segundos para digeri-la. Amigos… Não havia amigos em sua vida desde e . Não havia pessoas as quais podia confiar além dos dois, que estavam presentes em praticamente toda a linha do tempo do seu passado. Seu cérebro de embaralhou. Era capaz de confiar em alguém senão eles? Era capaz de manter um relacionamento normal de amizade com alguma pessoa, sem que essa fosse afetada por seus problemas?
Ela realmente não sabia. Mas quando olhou para o lado e viu a mão estendida de , algo dentro de si estalou. Não, não sabia. Mas talvez estivesse na hora de descobrir.
― Até onde esse pedido é pelo fato das minhas aulas de Literatura serem ótimas e eu ser fluente em inglês? ― questionou com um sorriso, e riu alto, um riso tão bonito e espontâneo que ela também sorriu.
― Droga, me pegou. ― ele estava prestes a recolher a mão e fingir que aquilo nunca havia acontecido quando sentiu-a sendo segurada.
― Amigos. ― sorriu de canto olhando nos olhos do , enquanto o acordo foi selado com um aperto simples.
― Ótimo. ― ele sorriu largamente, sentindo seus ombros relaxarem. O novo começo entre os dois, finalmente, era tudo o que queria naquelas últimas semanas. ― Agora eu acho que você deveria ir conversar com ele.
― H-huh?
. Não sei o que aconteceu, mas sei que você não deixaria uma sessão de estudos pra trás por nada. ― suspirou, tentando ignorar o fato de que os olhos de terem brilhado quando citou aquele nome, e o quanto isso o havia incomodado. ― Qualquer coisa que tenha sido, é sempre melhor conversar.

♣♣♣



Havia voltado com aquele bordão girando e girando em seu cérebro.

É sempre melhor conversar.

Céus, a que ponto havia chegado para estar levando conselhos de tão a sério assim? Devia mesmo estar ficando fora de si. Soltou uma risada anasalada para o nada, balançando a cabeça e atravessando a porta do elevador que se abriu, indo na terceira porta sem olhar para os lados apenas para encontrá-la trancada.
Apertou a campainha algumas vezes, esperando que atendesse, mas não demorou muito para perceber que ele também havia saído. Deixou-se então sentar no tapetinho que ficava na entrada, o puxando um pouco para o lado para poder encostar as costas na parede. Encolheu suas pernas e as abraçou, agradecendo por estar ao menos quentinha dentro de seu casaco.
Não tinha literalmente nada para fazer além de olhar para as paredes pintadas de bege e marrom do corredor, e aos poucos seus sentidos foram se tornando mais fracos até que caiu no sono, com o rosto abaixado coberto pelos cabelos e a testa encostada nos joelhos.
, subindo os andares, se perguntava como diabos aquela garota sumira daquela forma em uma cidade que não era nada grande para ter tantos esconderijos. Suspirou desanimado, pegando o celular para ver se já estava muito tarde. Procurava o número de na agenda quando desceu no seu andar, a primeira coisa que encontrou sendo os cabelos vermelhos que lhe fizeram suspirar de alívio.
― Hey, … ― chamou calmamente, agachando e apoiando um de seus joelhos no chão para ficar na mesma altura da garota. Ela nem mesmo se mexeu, e arqueou uma das sobrancelhas, levando uma das mãos ao ombro da garota adormecida e o chacoalhando delicadamente. ―

Não recebeu como resposta mais do que um resmungo preguiçoso e seus olhos se reviraram nas orbes, levantando e abrindo a porta para logo depois voltar e pensar em um jeito de levar a mulher para dentro. Estava prestes a pegá-la no colo, quando se remexeu delicadamente, fazendo os cabelos caírem para o outro lado e deixarem seu rosto a vista.
suspirou ao encarar os traços femininos e, agora, tão maduros. ainda parecia uma adolescente, mas o cansaço e a tensão que ela transmitia com sua feição pareciam envelhecê-la diversos anos. Ao erguer sua mão, hesitou algumas vezes em tocar a epiderme da ruiva, mas vacilou por alguns segundos e deixou-se acariciar a bochecha dela com a ponta de seus dedos.
― Eu também não queria que as coisas fossem desse jeito, . Mas tudo o que eu faço é pra te proteger, eu não aguento te ver envolvida emocionalmente demais com alguma coisa. Eu tenho medo do que isso pode trazer pra você, eu não quero que você sofra mais…
Levou a mão para alguns fios do cabelo da garota que se desprendiam das mechas e se espalhavam para atrapalhar a visão completa de seu rosto, os retirando dali. aproximou os lábios da testa de , depositando um beijo carinhoso e demorado ali.
― Isso pode acabar com nós, mas um dia você vai entender o porquê. Você é mais importante que nós nesse momento, . E eu vou fazer tudo o que tiver ao meu alcance para proteger você.
Ele estava pronto para se afastar enfim, mas assim que cessou a proximidade, a foi rápida em retomá-la com ainda mais intensidade, acabando com qualquer espaço entre eles quando suas mãos seguraram nos ombros de e ela juntou os lábios em um beijo.



X - Destroyer

Os dias pareciam se arrastar como anos depois do que intitulou uma das maiores cagadas que havia feito em toda a sua vida, mesmo que sua rotina fosse exatamente a mesma naquelas três semanas.
Apesar desse pequeno momento que apelidara de deslize ou incidente, tudo parecia correr bem. O seu status na Orkan estava crescendo exponencialmente, mesmo que ela se importasse o suficiente para nem mesmo saber disso, ou pelo menos fingir que não sabia para manter-se calma. As suas notas mantinham-se entre as três mais altas da classe um e aqueles trabalhos enormes eram a melhor forma de distrair a sua mente da saudade que esmagava seu coração.
Os trabalhos e bem… As novas companhias que havia arrumado.
― Gostei mais do jeito que você fez. ― respondeu com um sorriso leve nos lábios pálidos pela falta de maquiagem, coisa que ela acabara largando de mão para poder dormir até mais tarde quando as provas ficaram muito intensas, e resolvera adotar o costume após elas passarem. Dormir era com certeza mais importante do que estar maquiada.
― Fica assim, então. ― respondeu como sempre em seu tom calmo, fazendo a ruiva assentir com a cabeça.
― Esse era o último, estamos liberadas. ― a jogou os braços para trás, arqueando as costas e juntando as mãos no ar para se espreguiçar depois de algumas horas sentada daquela mesma forma.
― Eu estou, mas você…
― É, eu prometi que ia ajudar o no trabalho de inglês. ― manteve o tom neutro ao falar isso, pegando o celular que estava ao lado do livro aberto para checar o horário. ― Ele deve chegar em uns dez minutos.
― Você sabe que o poderia ajudá-lo, não sabe? ― a questionou como se aquela pergunta não fosse nada, começando a ajeitar seus materiais dentro do estojo azulado.
― Sim, eu sei, mas segundo ele eu sou bem melhor explicando do que o . ― a deu a mesma resposta que havia a dado ao fazer a exata mesma pergunta para ele quando o lhe pediu ajuda.
― E você acredita nisso? ― prendeu o ar por alguns segundos, disfarçando a vergonha com uma tosse forçada. Já estava convivendo com há um tempo, mas não sabia se ia se acostumar com a forma direta que ela falava tão cedo.
― Eu realmente explico melhor, então, não é mentira. ― piscou um dos olhos para a platinada, jogando o cabelo para o lado e rindo baixo.
balançou a cabeça negativamente, mas deixou um esboço de sorriso escapar com tamanha humildade da mais velha, terminando de guardar as coisas na bolsa e levantando.
― Estou indo então.
― Até depois, se lembrar de algo me avisa. ― acenou para que assentiu com a cabeça, fazendo o mesmo rapidamente antes de sumir pela porta da biblioteca.
nem mesmo se deu ao trabalho de guardar seus materiais, apenas encostando as costas na cadeira e olhando o teto abobadado do local. Pensou em como aquelas três semanas foram tão calmas que nem mesmo pareciam sua vida.
Fazia anos que não experimentava uma paz como aquela, a paz de não viver sendo pressionada ou psicologicamente aterrorizada durante todo o dia. Podia estar sendo observada de perto por alguns na escola, mas nenhum parecia uma ameaça real.
Além disso, havia feito amigos, mesmo com o início controverso e com o fato de que se retraía em chamá-los dessa forma, afinal, eles não a conheciam realmente, mas eram boas companhias.
não aparecera outra vez, e mesmo que soubesse que ele ainda estava lhe procurando, ficava mais calma em saber que ele estava gastando seus esforços na Europa, segundo o que havia contado para … Lembrar de a fez morder o lábio em nervosismo. Era a única coisa que tirava a sua paz.
― Ei, ! ― uma voz masculina que parecia familiar soou próxima, e a ruiva piscou algumas vezes para despertar do devaneio que estava.
― O-oi… ― respondeu em um murmúrio, olhando para os lados para poder encontrar o dono do timbre. Foi então que o viu, parado ao lado da mesa com um sorriso largo.
Não teve dificuldades em reconhecê-lo, mesmo que não soubesse bem quem era. Segundo e , todos o conheciam apenas como , e ele era o melhor aluno da segunda classe, estando prestes a subir de nível. Mas não era por isso que sabia quem ele era. Era porque, na verdade, nos corredores também era conhecido como o “presidente do seu fã clube”, ou simplesmente como o stalker mais dedicado que não desistiu de si mesmo após aqueles meses.
― Faz tempo que nós não nos falamos… ― ele comentou, tentando puxar assunto com a ruiva que assentiu com a cabeça. Sempre sentia-se desconfortável perto dele, era como se cada gesto seu estivesse sendo filmado para uma análise posterior a qual seria usada para traçar seu perfil psicológico. ― Você está aqui sozinha?
― Mais ou menos, na verdade eu estou esperando alguém… ― sorriu sem graça, olhando para o rapaz. Por sua sorte, pôde ver uma cabelereira inconfundível aparecendo pela porta que fez com que praticamente suspirasse de alívio. ― Olha ele ali. ― apontou com a cabeça para a entrada.
olhou para trás indiferente, mas a sua expressão mudou para uma raivosa assim que viu que se tratava de . fingiu não notar, mas conseguiu ver como seus olhos brilharam de raiva quando o chegou com um sorriso largo e parou do outro lado da mesa.
― Ah, ele… Claro. ― grunhiu baixinho, mas ela o ouviu. Ele então rapidamente já virou as costas, murmurando que deixaria-os sozinhos e se afastando. estranhou a mudança de humor, mas a voz animada da peste não deixou que pensasse muito sobre isso.
― Eu não posso me atrasar um segundo e você já fica rodeada de fãs. ― revirou os olhos, claramente brincando e erguendo uma das mãos para ameaçar pesá-la em cima da cabeça de .
― O quê? ― ela defendeu-se desferindo um tapa leve na destra do garoto que a recuou entre risos.
Acabou olhando para os lados para tentar entender o que ele havia dito, percebendo que não era só que estava lhe observando, como também um pequeno grupo de garotos e garotas de outras classes. Sentiu um arrepio subir por sua espinha, reprimindo um suspiro.
― Você chegou adiantado, meu querido. ― apontou para a tela do celular que mostrava que chegara seis minutos antes do combinado, aproveitando também para tirar o foco daquela conversa sobre os stalkers. não fazia ideia do quanto aquilo assustava e incomodava a mulher.
― Estava com saudades dessa sua cara de constipação eterna. ― o falou ainda sorrindo, jogando a mochila em cima da sua parte na mesa e sentando logo depois.
― Se você soubesse o quanto eu odeio você… ― cerrou os olhos na direção do que apenas riu alto, balançando a cabeça negativamente.
― Já faz um tempo que eu não caio mais nesse papo, jagi. ― teve vontade de agredi-lo com uma voadora quando ouviu-o pronunciar aquela palavra, mas apenas abaixou a cabeça e escondeu o rosto com os cabelos para disfarçar o riso contido.
― Vamos logo, eu tenho mais o que fazer. ― ela murmurou ao se recuperar, mordendo a bochecha por dentro para manter a postura, mas seus olhos ainda que inconscientemente sempre vagavam para o canto da biblioteca, tentando descobrir se ainda estavam lhe observando por ali.
― Eu aposto que não tem. ― ele juntou as sobrancelhas ao perceber o desconforto de , cruzando os braços na frente do peitoral e se esparramando na cadeira. ― Eu acho que consigo sobreviver sem a nossa aula de hoje, por que nós não vamos fazer outra coisa?
― Anh? O que eu iria fazer com você, ? ― questionou confusa com aquele convite inesperado, debruçando os braços na mesa e empurrando um pouco os livros para frente.
― Passear, ué! Nós somos amigos, não tem nada de errado nisso. Você conhece o terraço da Eryan? ― se empolgou assim que perguntou isso, e por um segundo teve um deja vu, lembrando de quando ele havia questionado se sabia sobre os terraços. Reprimiu um sorriso.
― Não, mas se o da Orkan é o melhor, por que a gente iria até lá? ― ela perguntou confusa, mas tão internamente empolgada que esqueceu tudo o que estava acontecendo ao redor.
― Por que lá tem novos ares, gente diferente, e é uma boa desculpa pra nós não estudarmos hoje. ― ele explicou naturalmente, esperando pela resposta da mais velha que apenas riu, mas alguns segundos depois estava guardando os materiais dentro da bolsa, o fazendo comemorar.
Como havia dito, a diferença do terraço do Colégio Eryan era apenas os novos ares e o fato dele ter apenas dois andares e um layout mais simples. Não era todo dia que podiam entrar em terraços aos quais não eram o do seu próprio Colégio, mas aos domingos isso normalmente era liberado.
A parte engraçada era que como o terraço da Orkan estava liberado naquele dia, claramente maior parte de toda a população de Qar estava nele, fazendo aquele espaço estar quase completamente vazio se não fosse por uma ou outra pessoa que estudava ou comia tranquilamente por ali. Estava vazio o suficiente para que ninguém tivesse coragem de segui-los tão de perto.
― Viu? Não tem exatamente nada de especial, tirando aquela parede de vidro legal. ― ele apontou para um dos cantos do local que mostrava a quadra da Eryan, consideravelmente menor do que a da Orkan.
― Isso chega a ser redundante. Por que ter dois lugares praticamente iguais, não era mais fácil se todo mundo usasse o mesmo terraço? ― perguntou com uma das sobrancelhas arqueadas, intrigada com a tamanha baboseira que aquilo era.
― Serve como reforço de separação de classes e incentivo ao mesmo tempo. Só os melhores podem ter o melhor. ― o tom de se tornou sério e rancoroso por alguns segundos, assustando a ruiva que não esperava aquele ar vindo dele. ― E se você quer ter o melhor, seja um dos melhores.
O sentou no banco de madeira que ficava de frente para a parede de vidro, e sentou ao seu lado, observando as próprias unhas e como estava precisando tirar suas cutículas.
― Parece ridículo pra mim, sinceramente. ― ela murmurou tão baixo que apenas a ouviu porque estavam próximos.
― É, pra mim também. ― ele concordou, suspirando. arqueou uma das sobrancelhas com aquele tom melancólico, cruzando as pernas e virando o rosto para encará-lo.
, o que você acha de Qar no geral? ― questionou curiosa. Aquilo na verdade era algo que sempre quisera perguntar, não exclusivamente para o , mas para qualquer um que vivia ali. Queria saber como aquele lugar era para alguém que não tinha opção se não estar ali, mesmo não sabendo se ele tinha ou não.
― Você realmente quer falar sobre isso? Eu não sei se é uma boa ideia. ― a forma contida que ele falou aquilo foi como um balde de água fria sendo jogado em cima de si.
nunca havia recusado lhe responder nada e era a primeira vez que o via tão sério. Por alguns segundos, lembrou-se da primeira vez que estiveram juntos na biblioteca e em quão ansioso e desesperado ele estava por qualquer fragmento do lado de fora. Mordeu seu lábio, um tanto nervosa. Nunca havia pensado que poderia ter problemas também, apenas sabia lidar com eles de uma forma bem melhor que si.
― Desculpe… ― murmurou ao perceber que aquele era um assunto delicado para o rapaz e que não devia tocar em tal, o fazendo balançar a cabeça negativamente.
― Está tudo bem. ― ele respirou fundo antes de se recompor e voltar a sorrir largamente. ― Bom, vamos lá! Eu estou com fome, você não está? ― o questionou animadamente, já em pé na frente da ruiva que sorriu de canto, aliviada por vê-lo tão empolgado novamente.
― Morrendo.

♣♣♣


Já havia anoitecido quando andava espreitando para chegar até o prédio que se acostumara a dizer a si mesma que era onde morava. ainda achava melhor que dividissem o apartamento, mesmo sabendo que não estava nem no mesmo continente que eles, e concordara por saber que ele estava certo e querendo seu melhor.
Era sempre assim após as sessões de estudos com . Dizia que precisava fazer compras ou estudar mais, dava o espaço de tempo de dez minutos que era o intervalo para ele chegar em casa e então saía, seguindo o caminho com cuidado para que ninguém visse-a entrando no prédio. Naquele dia, porém, estava com uma sensação ruim que fazia com que seus passos fossem mais rápidos.
Queria chegar ao apartamento o mais rápido possível e se esconder em seu quarto, embaixo do edredom. Queria arrancar aquela impressão de que tinha alguém com os olhos fixos em suas costas, ou que podia a qualquer segundo ser atacada por trás.
Sua respiração começou a ficar ofegante enquanto tentava convencer-se de que era apenas algo fabricado por sua cabeça por já estar muito escuro para andar pela rua, ou qualquer desculpa ridícula dessas.
Quando percebeu, já estava correndo e abrindo a porta do local em desespero, nem mesmo querendo esperar o elevador e subindo as escadas de uma forma tão eufórica que seu coração estava prestes a sair pela boca.
Ao abrir a porta do apartamento de uma forma violenta e a trancar rapidamente logo depois, percebeu o quanto o suor escorria por sua testa e o calor parecia que iria fazê-la explodir em alguns segundos, lhe fazendo arrancar o casaco pesado, o jogando no sofá e passando as mãos pelos cabelos freneticamente.
O barulho da porta fez com que aparecesse no corredor, arregalando os olhos ao encontrá-la completamente exasperada na frente da porta, com o peitoral subindo o descendo tão rápido que o fez se aproximar no mesmo minuto.
?! Você… Você está bem, o que aconteceu? ― ele questionou em choque, colocando as mãos nos ombros da menina para chamar a atenção dela para si, sentindo que o corpo feminino tremia.
Naquele momento não existia desconforto ou nada que havia acontecido entre eles. Ao sentir a presença de e a segurança que ele lhe transmitia, deixou aquele amontoado de sentimentos ruins saírem em forma de lágrimas, encostando a sua testa no peitoral de , que apesar de preocupado, deu-a aquele espaço para que ela se recuperasse, apenas afagando seus cabelos carinhosamente.
― Shh, shh, está tudo bem agora, eu estou aqui… ― ele sussurrou perto do ouvido da garota, envolvendo-a em seus braços daquela forma protetora que sempre fazia quando ela era mais nova.
Por um segundo ao pensar nisso, lembrou também que aquilo já acontecera antes, em episódios isolados aos quais queria não lembrar. E assim que ela se acalmou um pouco, mordeu o lábio inferior, nervoso de constatar o que especulara.
― Você teve uma crise de pânico, não foi? ― murmurou quando o corpo da ruiva parou de tremer e ela estava conseguindo respirar pelo nariz, o choro diminuindo aos poucos.
não falou nada, apenas assentiu com a cabeça e apenas ficou ainda mais nervoso com isso.
Existiam poucas coisas que odiava na vida como o sentimento de pânico e horror que se apossava de seu corpo quando tinha uma daquelas crises, mas se tornara ainda mais terrível porque fazia anos que não experimentava da sensação de tornar-se irracional pelo medo. Fazia anos. Ela achava que já tinha superado aquilo…
― D-Descul…
― Não, nem termine. ― colocou um dos dedos na frente dos lábios dela delicadamente, a fazendo pausar a palavra. ― Não existe pelo quê se desculpar. Está tudo bem, certo?
― Mas, eu…
, está tudo bem. Você está segura aqui, e é isso que importa. ― ele depositou um beijo calmo no meio de seus cabelos, e então se afastou um pouco para arriscar sorrir de canto. ― Agora vá tomar um banho, eu vou fazer uma coisa pra você comer, ok?
falava com a ruiva assim como falaria com uma criança assustada que acabara de acordar de um pesadelo e estava mentalmente cansada. Suspirou quando ela sumiu pelo corredor, após concordar, e passou uma das mãos nos cabelos, um tanto nervoso. Se recompondo para ir até a cozinha para cozinhar alguma coisa para a garota.
Queria acreditar que era apenas uma reação de seu corpo após todo o estresse que ela passara durante daqueles anos, mas sinceramente, se havia tido uma crise de pânico… É porque algum motivo tinha. E estava com medo de descobrir qual era.
por sua vez apenas respirou fundo ao sentir a água quente batendo contra a sua pele pálida pela falta de ar que tivera. Tentou se recuperar aos poucos, mas sabia que a presença de havia sido o suficiente para seu organismo encontrar o equilíbrio outra vez.
Naquelas três semanas, o clima entre eles não estava sendo dos mais confortáveis mesmo que estivessem se esforçando e a relação dos dois estava regredindo. Porém, sabia e ia saber por toda sua vida que sempre seria o seu porto seguro, não importava quanto tempo passasse.
Sentiu o cheiro de chá de camomila pelo corredor assim que abriu a porta do banheiro após se vestir, agora estando bem agasalhada, com um moletom no mínimo dois tamanhos maior que seu tamanho real. mordeu o lábio ao ver a cena, sabendo o que aquilo significava mesmo sem precisar perguntar.
Era uma forma de se esconder. queria sentir-se segura.
Ela fazia muito isso quando era mais nova. Os moletons eram conjuntos com capuzes que cobriam praticamente todo seu rosto e feições. Seu coração se partiu ao vê-la voltando aos velhos hábitos, mas sabia que uma abordagem direta agora seria a pior opção.
― Você não precisa ir pra aula amanhã. ― ele comentou com um sorriso de canto compreensivo, terminando de ajeitar algumas torradas em um prato e a chamando para sentar no balcão. ― Podemos passar o dia juntos. O que você acha?
sentiu seu estômago formigar ao ouvir aquele convite, erguendo o olhar para cima ao sentar-se na banqueta branca. Eles estavam todos aqueles dias se evitando, mas agora de repente queria que passassem o dia juntos? Mas sinceramente, precisava daquilo. Precisava passar um dia trancada, sem olhares curiosos e julgadores em cima de si.
― Você não precisa trabalhar? ― ela perguntou, timidamente colocando uma mecha do cabelo atrás da própria orelha. Não queria atrapalhar mais , e também não queria que ele fizesse nada por pena.
― Eu posso tirar o dia de folga. Também estou precisando disso. ― suspirou, deixando a comida que havia preparado na frente da garota e então dando a volta no balcão, para sentar-se ao lado dela. ― Está melhor agora?
― Sim… ― respondeu em um sussurro, erguendo a mão para pegar a xícara de chá quente. ― Estou mais calma.
― Ótimo. ― levou uma das mãos aos cabelos longos, percorrendo toda a extensão deles com os dedos.
Queria falar alguma coisa, mas sabia que não era necessário. Aquele momento entre eles, enquanto a observava assoprando a bebida quente com um biquinho nos lábios, era preenchido apenas pelo carinho que tinham um pelo outro, e palavras apenas o estragariam.
sempre foi uma pessoa paciente. Ele observou-a cair no sono no sofá enquanto assistiam algum programa que ela havia escolhido, a levando para cama logo após. Então, ele mal conseguiu dormir a noite em seu quarto, esperando ansiosamente o momento em que iria acordar e eles poderiam conversar.

Ao terminar de arrumar a mesa do café da manhã para eles quase as nove e dez, horário que a ruiva costumava acordar de sábado e domingo, ele sentou-se à mesa que ficava de frente para a porta de vidro de correr que levava a pequena varanda. Reprimiu um suspiro e então massageou a têmpora com o dedo indicador e anelar, tentando aliviar a pressão que estava naquela região enquanto a esperava.
queria ter dormido até o meio dia como podia fazer já que havia lhe dado o dia de folga, mas não foi aquilo que fez. Como um despertador fisiológico, exatamente no horário que acordava todos os dias sentiu o sono lhe abandonando. Revirou o corpo tantas vezes que perdeu as contas, tentando cair no sono outra vez, mas não conseguia ficar em paz.
Pegou o celular quando desistiu, vendo a notificação de algumas mensagens perdidas, sendo mais da metade só de e as outras de e . Arqueou uma das sobrancelhas ainda com os olhos meio fechados e cheios de areia, mas abriu a conversa.

“Já terminou suas compras?”

Essa estava marcada que havia chegado às oito e doze da noite, aproximadamente uma hora depois dele ter lhe deixado no terraço. A próxima era de aproximadamente meia hora depois, e então todas tinham em sequência, com apenas alguns minutos de diferença uma da outra.

“Ainda não?!
O Terraço da Eryan não é grande assim, está planejando comprar ele todo?

Qual é, está com mania de ignorar minhas mensagens de novo?

Eu só quero saber se você chegou bem em casa.

Mas agora você está me deixando preocupado de novo por parar de me responder do nada. Aish, como eu te detesto, garota.

Enfim, me avise quando ver as mensagens. Vou estar aqui, planejando o seu funeral com o .”

prensou os lábios para não começar a dar risada escandalosamente com aquelas mensagens. Como era exagerado e dramático ela já sabia, mas às vezes esquecia-se de como isso também podia ser fofo e engraçado.
Passou uma das mãos pelos olhos para abri-los um pouco mais, e então sorriu para a tela, começando a digitar tranquilamente.

“Não passei bem ontem e não mexi no celular, então não vi suas mensagens. Desculpe não ter avisado que havia chegado.”

Apagou e reescreveu a última parte algumas vezes, se perguntando se deveria mesmo mandar, mas acabou apertando enviar no fim, escrevendo outra e mandando sem nem mesmo perceber.

“Aliás, eu não vou pro Colégio hoje. Ainda não estou bem.”

Cerrou os olhos para si mesma ao reler isso. Por que estava se justificando para , se eles não tinham mais parceria alguma? Tinha que mandar uma mensagem avisando , e não ele… Umedeceu os lábios ao perceber como havia se entregado, mas colocou o celular no criado mudo e bocejou, virando o corpo e tentando dormir de novo.
Eram nove e vinte quando despertou de uma vez, desistindo de forçar seu cérebro a dormir já que ele não queria mais de jeito nenhum. Acabou se levantando e deixando o celular para trás, não se importando muito com o aparelho.
Assim que saiu, encontrou sentado na mesa, com alguns papéis em mãos e uma caneta na outra, fazendo algumas anotações.
― Bom dia. ― cumprimentou com um sorriso sem graça, sentando na cadeira que ficava de frente para ele.
― Bom dia. ― o mais velho respondeu com um sorriso leve, largando tudo o que estava fazendo para trás e depositando toda a atenção na ruiva. ― Dormiu bem?
― Sim, dormi bem. ― a respondeu calmamente, sentindo uma de suas mãos que estava em cima da mesa de vidro sendo segurada e acariciada por . Aquele carinho tão familiar e aconchegante lhe fez sorrir para si mesma, mesmo que isso a fizesse parecer uma boba.
, sobre ontem… Aconteceu alguma coisa que eu precise saber? ― questionou, deixando toda a preocupação que tinha transparecer naqueles segundos.
ponderou se havia realmente acontecido algo sério, mas acabou apenas balançando a cabeça negativamente, desanimada.
― Eu tive a sensação de estar sendo seguida. Da mesma forma que eu sentia quando eu realmente era seguida por… Por ele. ― desviou o olhar ao falar sobre aquilo, e apertou um pouco mais sua mão para lhe confortar mais. ― Eu não sei se tinha algo realmente acontecendo, mas… Me senti muito, muito mal e quis sair correndo.
― Entendi. ― ele murmurou, cerrando os olhos com o que havia ouvido, sabendo que tinha alguma coisa errada. ― Se acontecer alguma coisa, qualquer uma que pareça ser suspeita, me avise, certo? Eu preciso saber de tudo.
assentiu com a cabeça, finalmente deixando seus olhares se encontrarem e um sorriso sair de seus lábios. retribuiu com um mais aberto, e então soltou sua mão, encostando-se na cadeira.
― Não quero esse clima aqui o dia inteiro. Vamos nos divertir, quer maratonar Friends? ― perguntou animado enquanto enchia a xícara de café. ― Ou talvez você prefira Produce101? ― ele sorriu provocativo.
― O q-quê?! Como você sabe…? ― arregalou os olhos, sentindo as bochechas ao ser pega no flagra e ainda se denunciar daquela forma que fez com que mordesse a bochecha para se auto martirizar. ― , aquele…
― Se for o feminino, estou completamente disposto. ― comentou como se não fosse nada demais, e entreabriu os lábios em descrença.
― N-Nunca! ― sentiu as maçãs do rosto queimarem ainda mais, surtando internamente só de pensar em vê-lo observando as menininhas do programa.
E foi então quando viu rindo daquela forma ao perceber que estava com ciúmes, que entendeu o que ele estava tentando fazer. Ele estava tentando deixá-la confortável outra vez, e fazê-la esquecer aquilo que havia acontecido. sorriu um pouco mais animada com isso, mas a verdade é que não sabia se queria esquecer.
… ― chamou, tentando criar coragem para externar aquilo que estava preso em sua garganta há três semanas. Mas como poderia dizer? Não sabia como falar quando não tinha nem mais certeza do que deveria dizer.
Era como se houvessem voltado a estaca zero, de quando era a adolescente apaixonada e incapaz de conversar e olhá-lo nos olhos. Não sabia mais como falar de seus sentimentos para ele, e isso estava lhe corroendo por dentro. Tudo o que queria era colocar as cartas na mesa.
― Huh? ― soltou como incentivo para fazê-la falar, e apenas sorriu, suspirando e erguendo o olhar para encarar aqueles olhos escuros e profundos, perdendo toda a coragem que deveria ter.
― Obrigada.
Não era aquilo que queria ter falado, mas engoliu o resto a seco. Não era a hora e nem o momento, pensou. Talvez fosse melhor deixar cair no esquecimento, não…?

Passara todo dia com na sala assistindo a série que tanto gostavam, dividindo o sofá e as pipocas. Entre as risadas e os choros contidos da ruiva, em algum momento ele desabou em seu ombro e acabou dormindo. sorriu e o ajeitou em seu colo delicadamente, tomando cuidado para não acordá-lo e usando a coberta que estava esticada em seu colo para cobri-lo.
Perdeu a noção de quanto tempo ficou apenas observando as feições do rapaz, e não resistiu, acariciando com o polegar os pequenos detalhes de seu rosto. tinha pequenas bolsinhas embaixo dos olhos, e algumas linhas de expressão que deixavam-o ainda mais adorável.
queria sorrir, mas sabia que ele aparentava cansaço.
Como sempre quando via , e em um daqueles momentos vulneráveis, ela sentiu-se extremamente culpada por ser um fardo emocional e psicológico tão grande e que afetava tanto as pessoas que estavam ao seu redor, tentando lhe ajudar.
Tudo o que ela queria era não fazê-los serem obrigados a isso. O senso de responsabilidade que tanto quanto haviam criado sobre si era um peso na vida de ambos e queria que eles se livrassem disso, mas ao mesmo tempo, sabia que precisava desesperadamente dos dois em sua vida para fugir do seu destino traçado fora daquela Ilha.
Pela primeira vez desde que havia chegado ali, enquanto observava toda aquela exaustão no rosto adormecido, ela teve vontade de desistir e deixar tudo o que estava fazendo em Qar para trás. Teve vontade de gritar para seu irmão onde estava e mandar que a buscassem, mesmo sabendo o que iria acontecer depois.
Aquele era o seu destino e a sua história. Por que tantas pessoas se afetavam por que não queria fazer algo que havia sido colocado como sua responsabilidade? Tinha que aceitar.
Não tinha como fugir daquilo. Apenas estava adiando o inevitável, e destruindo vidas no processo. Porque aquilo era o que sempre fora desde quando mais nova, uma destruidora.
Sentiu um nó na garganta ao chegar nessa conclusão. Estava sempre deixando uma bagunça por onde passava, e nem desse jeito conseguia compreender a falta de necessidade que as pessoas tinham de se libertarem de si. No fundo, gritava para que não a deixassem.
Mas sabia que se uma hora acabassem cansando e a deixassem, concordaria. Porque se fosse , ela também deixaria.
Ouviu duas batidas na porta do apartamento que lhe fizeram despertar de seus pensamentos, retirando a mão que acariciava o rosto de para levá-la até seus olhos que começavam a lacrimejar. Fez menção de acordá-lo quando a porta abriu, fazendo seu coração dar um salto e então se acalmar ao ver entrando com uma expressão preocupada.
… ― sussurrou ao encontrá-la no sofá e ver a cena. Sorriu mesmo assim, colocando ambas as mãos no bolso e ignorando completamente o que estava vendo. ― Você está melhor? Ele me contou. ― continuou falando baixo para não acordar o mais velho.
― Está tudo bem agora, . ― a sorriu para o melhor amigo, tentando usar aquele gesto para acabar com a bagunça que estava acontecendo em sua mente há alguns minutos, também balançando a cabeça positivamente.
― Que bom, eu fiquei preocupado.
prensou os lábios ao ouvir aquelas palavras do amigo. Claro, era aquilo que mais fazia. Preocupar as pessoas.
, que cara é essa? Pode mudar essa expressão agora. Ou melhor, pode mudar assim que eu contar pra você o que vai acontecer na semana que vem, porque isso com certeza vai te deixar de bom humor! ― tentou com um sorriso de canto, sentando no outro sofá e olhando nos olhos da amiga que arqueou uma das sobrancelhas.
― Por que eu sinto que não é algo que eu vá gostar tanto assim…?



Continua...




Nota da autora: NÃO ME MATEM, EU AMO TODAS VOCÊS, E SE VOCÊS ME MATAREM MINHA ALMA NÃO VAI CONSEGUIR DIGITAR OS OUTROS CAPÍTULOS ♡

Sério, ISSO É PRA UM BEM MAIOR, PRECISAVA ACONTECER!!! HAUAHAUAHAU VOCÊS VÃO ME PERDOAR E ENTENDER UM DIA ㅠㅠ Imagino como vocês devem ter ficado putas pensando que o relacionamento dos pps estava desabrochando finalmente e ai temos esse final de capítulo, o mais pau no cu que eu já fiz em Trespass por enquanto, UAHAUAHAUAHUA IM SO SORRY

Mas se vocês querem uma boa notícia: esse capítulo é um marco na história da fanfic, importantíssimo, e eu estou muito feliz de ter chego no que eu planejei até agora. Daqui pra frente a tendência é só melhorar (ou piorar, depende de pra quem rsrs) e quero agradecer a cada comentário de incentivo que foi deixado, isso me dá forças enormes pra continuar!

Eu posso dizer que estamos quase na metade de Trespass, mas ainda tem muita, muiiita coisa pra acontecer e muita água pra correr! Espero que vocês estejam gostando tanto quanto eu, e realmente, muito obrigada por todas as vezes que vocês tiraram uns minutinhos do dia pra deixar um comentário na caixinha. Eu releio e lembro de todos com um carinho intangível.

Um beijo e um abraço muito apertado pra cada uma! ♡







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Very NICE


Nota da beta: O passado da pp é algo que de alguma forma sempre vem atormentar a pobrezinha, tadinha! Não é algo fácil, mesmo! Ahhh, eu estou amando a amizade dela com o pp1, é algo tão leve que nhaááááa kkkkk <3
Quero mais na minha mesa pra onteeeem <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.




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