Última atualização: 15/04/2018

I - Summer Storm

Chovia forte naquele dia, mas aquilo não fora capaz de pará-la, mesmo que tivesse praticamente ensopada após descer do carro. Querendo chamar o menos de atenção possível, a primeira vez que abriu a porta da sua nova casa eram exatas três e trinta da madrugada, e agradeceu mentalmente ao fato de tudo ser mobiliado e não precisar se preocupar com nada mais do que as duas malas e uma mochila que arrastava silenciosamente atrás de si.
Não era grande. Digo isso tanto em relação a casa, quanto em relação a cidade. Um prédio muito alto no centro de trinta casas, muitas repúblicas no meio de tais, e outros três prédios menores localizados em triângulo ao redor do prédio alto. Sua população não era de muito mais de duzentas e cinquenta pessoas, sendo que duzentas eram adolescentes de 15 a 20 anos, exatamente a faixa etária que nossa protagonista se encontrava.
Em relação à casa, era uma das poucas disponíveis para que uma pessoa só morasse e ficava próxima dos prédios. Um confortável local de um andar só, a primeira visão que teve após fechar sua porta foi a de uma sala de estar pintada de cores pastéis entre creme e marrom, com um sofá de três lugares posicionado entre uma mesa de centro e um balcão que demarcava o final da sala e início da cozinha.
A cozinha era do mesmo tamanho que a sala, mas tão bem distribuída quanto. Embutida no canto da parede, uma mesa de café da manhã para duas pessoas ficava à frente de uma janela coberta por cortinas grossas em tom de marrom - agradeceu por isso, não queria ser vista tão cedo - e no outro extremo da casa uma porta de duas folhas de vidro coberta também por uma cortina levava a um pequeno quintal com jardim.
O muro em quadrado evidenciava o final do terreno e início da casa de seus vizinhos, o que ela ignorou completamente no momento - na verdade, nem mesmo chegou ir até a parte de fora, nem mesmo viu o banheiro social que ficava na primeira porta do corredor ao lado esquerdo. Rapidamente andou até a suíte que era na porta à frente dessa, e não viu muito mais depois que trancou a porta, largou as malas em um canto, pegou uma toalha, tomou um banho rápido e após vestir roupas secas, se jogar na cama para dormir.
Com os olhos fechados e a mente anestesiada, ela apenas pediu uma coisa. Queria ter paz daquela vez, pelo menos até decidir o que fazer.

♣♣♣

Três semanas depois


Aquele dia amanheceu e anoiteceu com chuva, como acontecia em todos desde exatas três semanas atrás. O dono dos cabelos loiros acordava de seu cochilo da tarde tão animado quanto todos os dias, e mesmo que não houvesse Sol, era como se o sorriso e a sua própria existência fosse capaz de iluminar aquele local.
não era conhecido como mood maker por nada, ele não se importa de sacrificar suas bochechas para oferecer lindos sorrisos a todos que o veem, e isso é muito bem visto em uma cidade como Qar, ao menos pelos responsáveis por tais, já que em partes os jovens habitantes não entendem porque diabos ele é tão feliz o tempo todo, além ficarem incomodados com isso.
Na situação que todos ali estão, um sorriso daqueles era capaz de desestabilizar qualquer sanidade em revolta e muitas vezes, inveja.
Não era o caso de , que se tornara melhor amigo de em pouco tempo após se conhecerem. Os dois deram sorte e dividiam a casa apenas entre eles numa rua bem mais privativa da cidade, talvez por causa da família influente que ambos tinham, o que apenas despertava mais inveja em relação à dupla, mas permitia que entrasse no quarto de aos berros com uma feição assustada que até mesmo assustou ao mais velho.

, me deixa ficar aqui com você! ― pediu quase suplicante, fazendo o mais velho arquear uma das sobrancelhas, confuso. Não que negaria, apenas estava curioso.
― Por quê…?
― Porque eu juro pra você que eu vi uma explosão na casa vizinha. ― o mais novo falava com uma expressão que tentava ser séria e calma para não dar motivo as provocações de , mas não fora o suficiente e soube disso quando o amigo sorriu de canto.

― Você está com medo, ?

― Você entendeu, né? É na casa do lado, aquela que tá vazia e não tem luz desde que a gente chegou aqui. ― explicou direito para ver se agora sim a gravidade da situação entrava na cabeça de , afinal, como em uma casa com tudo desligado poderia ter uma explosão no quadro de luz ou algum eletrônico?
― Ué, mas isso é mais interessante ainda! Quer dizer que tem alguma coisa acontecendo lá. ― o sorriu animadamente com a hipótese, cutucando o mais baixo. ― Quer dizer, vai que é um fantasma e nós temos a oportunidade de vê-lo?!
― PARA COM ISSO, ! ― bateu levemente no ombro do outro que começou a rir.
― Você precisava ver a sua cara, sério. ― não aguentava em segurar os risos enquanto andava calmamente até seu guarda roupa para pegar a capa de chuva.
― P-Pera, você vai mesmo ir lá? Pra que essa capa de chuva?
― Pra que você acha? Eu vou lá, claro. Aliás, você devia pegar a sua também, porque vai que você fica sozinho e o fantasma resolve vir pra próxima casa pra explodir o quadro de luz aqui. ― o mais velho provocou já se vestindo, piscando um dos olhos escuros na direção do amigo, o vendo suspirar fundo e se levantar da cama para ir até ao segundo quarto da casa.
― Você joga baixo demais, .

♣♣♣


Não era a pessoa com a boca mais limpa que conhecia, porém naquele dia xingara tanto todas as coisas que até mesmo estava se sentindo mal consigo mesma e sua consciência pesava incômoda. Amaldiçoara até o tapete de boas vindas daquela casa, mas sinceramente, como poderia não o fazer?
Fazia três semanas que choviam ininterruptamente, se iniciando com o dia que se mudara, e agora ouvira um barulho de explosão enquanto tomava banho e a luz caíra, consequentemente fazendo com que tivesse que sair enrolada no roupão para ver o que estava acontecendo. E para piorar: era claro que a caixa ficava do lado de fora.
Sinceramente, não sabia se havia outro jeito de reagir a isso além de ódio mortal e esbravejar xingamentos, porque era óbvio que a caixa ia estar tão molhada quanto à grama do jardim e a não ser que quisesse morrer eletrocutada - o que começava a se tornar uma opção - não podia tocar nela.
E foi nesse momento que percebeu que estava apenas de roupão, com um lado da porta de vidro para os fundos aberta e que tremia totalmente de frio, mas não pôde prestar atenção em nada disso ao ver braços se apoiando na madeira frágil que separava os muros da casa, para pegar impulso e pular para o seu jardim.
O grito que se prendeu na garganta fora difícil de controlar, mas ela conseguiu. Não sabia se devia entrar e chamar a Polícia, trancar a porta e se esconder embaixo da cama até ser seguro de novo ou começar a gritar com aqueles doentes quando se lembrou de uma coisa: podia estar ali há três semanas, mas ninguém sabia. Aquela casa para todo o bairro era abandonada, e era exatamente por esse motivo que estava nela! Para que todos achassem que não existisse mais. Talvez os estranhos só houvessem se preocupado com a explosão e estivessem com medo de que causasse um incêndio.

― Meu Deus, meu Deus, meu Deus…

Ela murmurava baixo mesmo que estivesse praticamente histérica, vendo que quem quer que fosse conseguia pular o muro e a fazendo correr para dentro da casa e entrar em seu quarto. Amaldiçoou o fato de ter largado a porta do jardim apenas encostada e as chaves da casa toda na sala, não poderia trancar o quarto.
Aproveitou também para pegar as roupas que estavam em cima da cama e as vesti-las rapidamente antes de se esconder embaixo do móvel, sentindo a respiração completamente acelerada. Não podia ser descoberta de jeito algum ou parte da vida de paz e “liberdade” que estava levando iria por água a baixo. Não queria começar com as mentiras novamente.

♣♣♣


, você não pode pôr a mão aí! Quer morrer? ― tinha que gritar naquele quintal para que o o escutasse, assustado ao ver o amigo curiando a caixa de luz sem pudor algum mesmo debaixo daquela chuva torrencial.
― Ela estava funcionando normalmente, mas acho que sobrecarregou por causa da chuva. ― também falava alto para que o amigo o ouvisse, se afastando uns passos do gerador elétrico para manter a segurança.
― Se estava funcionando normalmente, quer dizer que tem alguém morando aqui?!

E na mesma hora que perguntou isso, um vento forte bateu contra a porta de vidro, a fazendo se abrir sozinha e ficar entreaberta, mostrando parte da cozinha que quase não podia ser identificada por conta da intensa escuridão, afinal, eram mais de oito da noite e o céu estava completamente preto, eles se guiavam pelas lanternas dos celulares.
Os dois amigos se entreolharam, como se perguntassem se deveriam entrar. Aquela altura do campeonato, as pernas do mais novo já tremiam intensamente, mas os pés ligeiros levavam o curioso para dentro da residência sem nem mesmo pensar nas consequências. Chegou até mesmo a procurar o interruptor por costume, mas logo se lembrou e começou a apontar o celular para todos os lugares.
entrou também encostando a porta, e os dois tiraram as capas e colocaram em cima do balcão que separava a sala da cozinha, primeira superfície plana que encontraram. Olhou o chão, não tinha como limpar seus sapatos e provavelmente sujaria tudo de lama, mas para uma casa abandonada o piso estava muito branquinho, assim como tudo perfeitamente limpo e arrumado, sentia até um cheiro de lavanda. Além disso, os potes estavam cheios de condimentos e comidas.

, eu acho que esse lugar não é abandonado. ― levantou a mão na direção do amigo, mão essa que segurava um celular tão recente quanto os deles com a foto de uma garota ruiva abraçada a um rapaz moreno, fazendo com que ambos arregalassem os olhos. Estavam invadindo a casa de alguém, só restava saber quem.

― HEY, TEM ALGUÉM AI? ― gritar a pergunta foi a primeira reação do , já pensando que a pessoa poderia ter se assustado com a explosão ou até mesmo se machucado, já olhando pelo chão para andar até o único corredor da casa, abrindo a primeira porta que levava ao banheiro social.
, a gente devia ir embora…

Sem dar o mínimo de atenção para o alerta do amigo, continuou andando até a segunda e última porta do local, entrando nela e apontando o celular para frente. Era um quarto feminino, provavelmente da ruiva da foto, com penteadeira e espelho enormes, cômoda com um abajur ao lado e um edredom florido em cima da cama,  fazendo conjunto com as fronhas dos travesseiros, junto com um roupão branco que era a única bagunça de todo o espaço.

― Não precisa ter medo, nós não queremos machucar você. ― ele tentou explicar para ver se caso ela estivesse ali, resolvesse aparecer, tocando de leve o roupão para constatar que ele estava molhado.

embaixo da cama apenas estava de olhos arregalados, com uma mão a frente da boca e tentando nem respirar naquela situação, tanto para não ser ouvida quanto porque se amaldiçoava por não limpar embaixo da cama e estar cheio de pó por ali, fazendo sua sinusite dar os primeiros sinais de que queria lhe visitar.

, vamos, mesmo que tenha alguém, a gente nem devia estar aqui, é errado… ― tentava em vão resgatar o resto de ética que imaginava que deveria ter após tantas aulas.

O ficou parado mais dois minutos próximo a cama, observando a sapatilha azul largada ali, quando suspirou e desistiu. Se havia mesmo alguém ali, a pessoa não queria ser encontrada e deveria ser um pouco mais respeitoso - invadir a casa, o quarto e ainda curiar a intimidade de uma desconhecida era o suficiente.
Porém, quando andava para a porta e já sinalizava que ia fechá-la, ouviu um espirro abafado vindo de debaixo da cama, seguido por um praguejar tão abafado quanto. colocou uma das mãos na frente do nariz e boca e prendeu a respiração, em choque, enquanto abria um largo sorriso satisfeito.

― Eu sabia!
― Vão para a sala. Agora.

♣♣♣


― Eu ofereceria um chá, mas não sei exatamente como tratar invasores. Além disso, como podem ver estou sem luz.

A voz grave e intimidadora de ressoou na sala enquanto ela abria uma gaveta do armário para pegar um pequeno pratinho de cerâmica e colocar uma vela. Nem morta gastaria bateria do celular para iluminar a casa, não sabia quanto tempo teria de discutir com aqueles infelizes e teria que ter uma bateria considerável para ligar pro eletricista de manhã.
Após ter ordenado que eles fossem até a sala, saiu debaixo da cama com toda a sua vergonha alheia de si mesma da situação deplorável que se encontrara e bateu as mãos no pijama de estrelinhas enquanto uma crise insistente de espirros lhe acometeu por cinco minutos, e um dos dois que não pensasse que ela não ouvira as risadinhas infelizes vindas do corredor, por que ela ouvira bem…

― Você não precisa ser ignorante, nós não sabíamos que tinha alguém na casa e ficamos preocupados com a explosão. ― se explicou com a feição ofendida, cerrando os olhos em direção a ruiva que finalmente colocava o pratinho com a vela acesa em cima do meio da mesa, podendo pela primeira vez ver a aparência das duas pestes e vice e versa.
― Porque claramente não deu pra perceber com tudo isso e você ainda teve que invadir meu quarto.

Aquele com quem iniciara a discussão possuía olhos tão escuros quanto toda a sua casa estava e podia ver quando a chama balançava relances da franja lisa em dourado cobrindo a sua testa, além das feições delicadas e não podia negar, até mesmo bonitas mesmo que não pudesse enxergá-las bem. O companheiro dele estava tão quieto e em choque que estava claro ter sido apenas arrastado, e por isso focaria apenas no , já que ele era o mandante com certeza.

― N-Nós achamos que você poderia ter se machucado! ― ele voltou a argumentar, franzindo o cenho com toda a grosseria da mulher. Não podia ver muito mais que os olhos que possuíam um incomum tom vermelho e pareciam ser bem mais intimidadores do que nunca vira em uma garota da sua idade.
― Estou muito bem, obrigada. Já podem ir embora. ― apontou para a porta a qual eles entraram, sem nem se importar se ainda chovia intensamente. Eles que pulassem o muro novamente.
― A sua família não te deu educação, garota? ― aquela frase de que se levantou e bateu as mãos contra a mesa fora o suficiente para acabar com a pouca paciência que ela estava tendo com os dois, a fazendo se levantar também e ir rapidamente até onde as capas deles estavam, ainda na escuridão, abrindo a porta e sendo iluminada pela luz fraca da lua.
― Você acha que eu tenho que ser grata a um invasor? ― franziu o cenho, pegando as roupas molhadas e as segurando na direção dos dois. ― Saiam, agora. Eu não vou pedir outra vez.

Silenciosamente, os dois obedeceram mesmo que estivesse contrariado, fazendo questão de retribuir ao olhar intimidador que ela lhe lançava ao passar pela mais baixa e pegar sua capa, momento que só foi interrompido por ter sido puxado por .
Após trancar a casa, apagou a vela e foi para o quarto com o auxílio do celular. Não se lembra bem que horas eram quando dormiu, apenas sabe que acordou com o travesseiro molhado e não fora das chuvas que, ironicamente, haviam parado naquela manhã após três semanas ininterruptas. Os leves raios de Sol que invadiam seu quarto a fizeram lembrar do invasor do dia anterior, mas ela apenas o amaldiçoou e socou o travesseiro, virando o rosto para o lado contrário da janela e tentando dormir de novo.

♣♣♣

― Hyung, como você dormiu? ― questionava com um sorriso de canto e olhos fechados pelo sono, ainda meio aéreo, pois o despertador havia tocado há apenas cinco minutos. Mas o sabia bem que aquela pergunta tinha outras intenções…
― Muito bem. ― mentiu com um sorriso amarelo. Nem pregara o olho durante um minuto sequer da noite, pensando na petulância e prepotência da sua mais recente e infeliz vizinha.
― Urru. ― o mais novo soltou sarcástico, já sabendo que aquilo definitivamente não era verdade.
― E você? Nenhum fantasma puxou seu pé?
― Não, mas eu juro que sonhei com aquela garota me enforcando e me perturbando a noite toda. ― sentiu até mesmo um arrepio ruim subir por sua nuca, fazendo sua expressão se contorcer em uma chorosa.
― ESQUECE AQUELA DEMÔNIA! ― a irritação explodiu do que não aguentou ouvi-la ser citada outra vez, fazendo arregalar os olhos assustado. ― Vamos, se arruma logo, nós vamos acabar atrasados se não sairmos daqui a pouco.

O mais novo concordou ainda um tanto chocado com aquele surto de , indo para o quarto rapidamente arrumar a gravata no pescoço. Não demoraram muito para estarem na rua, e por mais que tivesse mandado o amigo esquecê-la, ele mesmo não conseguia e não resistiu em encarar a casa ao passar na frente dela, estranhando um homem estar à frente da porta, parecendo esperar.

― Vamos, , a gente vai se atrasar!

♣♣♣


― Muito obrigada pelo serviço.

sorria esforçando-se para parecer simpática enquanto acompanhava o senhor de meia idade até a porta após pagá-lo e a abria para que ele saísse, ficando meio escondida pela madeira. Vai que alguém estava passando, né…

― Não se preocupe, querida, tenha um bom dia!

Assim que o senhor saiu, ela já fechava a porta rapidamente para suspirar aliviada, mas um pé impediu-lhe de completar sua ação, fazendo os olhos avermelhados se arregalarem e o coração bater tão forte que por pouco não caiu dura no chão, isso até a pessoa terminar de abrir a porta e se mostrar com um largo sorriso no rosto conhecido.

― VOCÊ QUER ME MATAR DO CORAÇÃO, , SEU INFELIZ! ― não se controlou em estapeá-lo não muito delicadamente quando o amigo se aproximou para lhe abraçar, rindo intensamente do seu susto.
― ERA PRA EFEITOS DRAMÁTICOS! Eu não consegui mesmo resistir, você precisava ver a sua cara, sério. ― o mais velho ainda ria, segurando os dois pulsos da menor suavemente para que ela parasse as agressões.
― Eu devia ter fechado a porta no teu pé. ― bufou, parando no lugar onde estava para respirar tranquilamente uns segundos e normalizar os seus batimentos cardíacos. ― Mas se você está aqui, é porque…
― Não, você ainda está segura, relaxa. ― o Chae sorriu para a garota, tentando acalmá-la. ― Mas eu tô sabendo que foi descoberta. Na verdade, não estou surpreso, com os vizinhos que você tem…
― Nem cita esses demônios, se eu pudesse jogava uma bomba na casa deles. ― a ruiva fez um bico nos lábios avermelhados, cruzando os braços a frente dos seios.
― Isso ia atingir a sua casa também, docinho. ― andava calmamente até o balcão da cozinha para se sentar em uma das banquetas, vendo um pratinho com uma vela metade derretida em cima de tal.
― Não que eu ligue muito, mas afinal, COMO VOCÊ JÁ SABE DISSO? Você me vigia ou algo assim?! ― olhou feio para o mais velho, andando até o balcão para tirar a vela dali e limpar o pratinho.
― Quase isso, hah. Você sabe que nós temos monitoramento em todas as ruas.
― Eles pularam o meu muro.
― Deu pra ver pela câmera da rua de trás. Eu vim pra confirmar se eles tinham te visto mesmo, você é esperta e achei que tivesse conseguido escapar, mas parece que sim.
― Eu espirrei… Debaixo da cama. ― ela explicou emburrada, ainda irritada por ter feito aquela burrice. ― Isso tudo é culpa sua, que me arrumou uma casa com a fiação ruim e vizinhos intrometidos.
― Ah para, eles são uns doces. O só é muito curioso. Na verdade, eu não sei como vieram os dois. ― quanto à fiação, não tinha argumentos.
― Eu nem tenho o mínimo de interesse. Mas me diz, o que você veio fazer aqui se confirmasse que me viram?
― Nós já havíamos conversamos sobre isso. Se você fosse descoberta, deveria seguir a rotina normal dos estudantes da cidade. ― suspirou desanimada ao ouvir isso, mas fechou os olhos e bufou. Haviam mesmo conversado sobre isso, o que não a fazia menos infeliz, mas deveria aceitar.
― Qual escola? ― aproveitou para colocar uma água para ferver após lavar a pouca louça que tinha na pia, assim faria um chá para os dois.
― Como tudo aqui é em um número específico, a única escola que aceitou a sua presença foi a Orkan Academy. Como um estudante ficou doente e voltou para a casa a pedido dos pais, ela pode te acolher. É o maior prédio de todos, o do meio.
― Quando eu começo?
― Amanhã. Eu trouxe seu uniforme no carro, você sabe que eu sou um dos conselheiros da Orkan, né? ― sorriu orgulhoso, claramente era por isso que havia conseguido uma vaga para a ruiva.
― Isso só me faz pensar que eu vou poder quebrar coisas e pessoas e sair ilesa. ― finalmente sorriu com um pouco mais de sinceridade, mas ao contrário do que achou, o coreano ficou assustado com a hipótese ao invés de rir. ― Tô brincando, cara, relaxa. ― ou talvez não…
― Ah, acho bom! Nós somos muito conceituados pra você ser a delinquente. ― o Kim relaxou um pouco e acabou rindo, já imaginando a andando de moto e jaqueta de couro por aí. ― Você está pronta, ?
― E eu tenho outra escolha, ?

Essa era a pergunta que fazia sempre desde o dia ao qual decidira ir para aquela cidade. E o coração de sabia muito bem a resposta. Não, ela não tinha outra escolha.



II - First Class

Podia ouvir em sua mente a voz de gritando “Você está tão fofa!” todo empolgado quando lhe obrigou a vestir o uniforme para que vissem como iria ficar e se tinha pegado o tamanho certo no dia anterior. Claramente para ele devia ser mesmo, a última vez que a vira daquele jeito já faziam alguns anos. Depois que se formou no ensino médio nunca mais achou que fosse colocar um uniforme maldito daqueles.
Os detestava. Trazia péssimas memórias de quando era mais nova, mas era até mesmo hilário ter vinte anos, dois anos de faculdade de medicina e estar vestindo meia calça três quartos, saia xadrez, camisa branca e lacinho no pescoço. Sorria de canto por fora, mas queria mesmo é morrer por dentro e mesmo que tenha interrompido sua divagação por um minuto para ler a mensagem de que chegara em seu celular, por dentro continuava querendo morrer.

“Não posso passar na sua casa para te buscar, mas não tem como se perder, não é? Não se atrasa
Todo mundo tá indo na mesma direção, é só seguir o fluxo. Eu estarei em uma reunião, mas fale com a coordenadora assim que chegar, te deixei um presente. Não esquece: você está uma fofa com esse uniforme! ahahaha”

― Ah ha ha ha ha… Uma fofa… Claro que sim… ― se olhou uma última vez no espelho para revirar os olhos e então pegar a mochila e sair pela porta para encarar sua nova realidade.

E estava completamente correto, mesmo que sua rua fosse sem saída e não houvesse mais de sete casas nela, pareciam que saíam delas centenas de adolescentes de hormônios a flor da pele de forma duvidosa, a fazendo respirar fundo. Não, não tinha mais vinte anos. Agora tinha dezesseis de novo, e era bom agir como tal ou não conseguiria se manter por ali por muito tempo.

♣♣♣


Naquele dia o Colégio estava completamente estranho e nem mesmo se esforçava pra entender o porquê. Não que fosse muito difícil porque as pessoas praticamente gritavam e isso apenas era mais estranho ainda já que geralmente ele descobriria rapidamente o motivo do alvoroço, mas naquele momento estava muito ocupado com outra coisa…

― Hyung, você não estudou antes em casa e deixou pra última hora?! ― arregalou os olhos ao encontrar o sentado em um dos bancos de pedra que cercavam a fonte de carpas cuspidoras de água, ao redor de uma estátua de Athena lendo um livro próximo a entrada do colégio e entre um pequeno círculo rodeado por árvores e natureza.
― O que você tá falando? Eu tô estudando pra esse teste a semana inteira. ― rolou os olhos nas órbitas com aquela fala do mais novo, vendo o amigo em pé na sua frente e cobrindo os raios de sol que lhe auxiliavam a enxergar.
― Para um pouco, a escola está um caos, você não vai conseguir se concentrar.
― Mas… Eu estava conseguindo até agora. ― o cerrou os olhos na direção do moreno, mas finalmente resolveu se desviar do livro para erguer as íris e entender o que estava acontecendo.

Quando olhou para o portão da escola, não conseguiu deixar de se assustar e adotar uma expressão surpresa. Parecia que uma celebridade estava por ali, porque literalmente uma multidão de adolescentes andava ao redor de quem quer que estivesse no meio deles por motivos que para o coreano eram completamente desconhecidos ou simplesmente entender o porquê da pessoa estar sendo seguida, inclusive pessoas dos outros colégios que ficavam ao redor dos que estavam.

― Nossa… Tem alguém famoso visitando aqui? ― questionou confuso, não lembrava de nenhum anúncio do diretor como acontecia quando iam jornalistas até lá para fazerem matérias.
― Não, o que eu ouvi é que tem uma aluna nova na nossa escola. ― parecia tão em choque quanto metade das pessoas que seguiam o pobre ser que atravessava ali perto.
― Como assim, é uma transferência? Eu sei que é raro conseguirem, mas pra quê tudo isso? ― o apontou para a multidão um tanto confuso.
― Não, não é uma transferência, ela é nova, nova mesmo. Veio de fora.
― D-De fora…? ― se levantou, sentindo a curiosidade lhe subir dos pés à cabeça.
― Sim, os boatos que tão correndo é que ela veio pra cá fugida da França. ― começou a andar para dentro da escola, vendo um pouco mais longe todos que a seguiam.
Eu fiquei sabendo que ela mantinha um tigre na casa dela e fugiu por causa da guarda ambiental.

Esse foi o primeiro comentário que ouviram quando nem mesmo pisaram dentro do prédio, ainda nos arredores do jardim, fazendo arquear uma das sobrancelhas. Não sabia mesmo se devia acreditar naquilo, fazia tanto tempo que não sabia nada sobre o lado de fora que talvez fosse verdade.

― SE PREPAREM! Ela é a abelha rainha e veio para fazer todos nós dos zangões dela! ― o grito de uma garota que passou por eles apontando para todos os presentes por ali foi bem assustador, e o começou a pensar que aquilo poderia ser o início de um apocalipse naquela cidade.

As pessoas estavam presas ali há tanto tempo que a sanidade delas poderia ser afetada pelo mais simples detalhe, e digamos que uma novata não era muito simples na concepção dos doidos daquele lugar. E nem naquela realidade, também.

― UM DIA ELA ME SOCOU! FOI IRADO!

Ok, aquilo tinha certeza que era mentira, a não ser que o “um dia” se referisse exatamente a “hoje”.

― Hey, vocês parecem mais controlados aqui… ― o falou ainda meio assustado com toda aquela comoção, se aproximando de uma dupla de pessoas da sua sala que sempre pareceram ser mentalmente estáveis. ― Vocês sabem algo da novata? Tipo, uma coisa de verdade? Ela é uma pessoa normal, né?
― NÃO MESMO! ― o grito acompanhado do fechar estrondoso da porta do armário fez e darem um pulo para trás de susto. ― Me falaram que é informação confidencial… ― a garota se aproximou com a voz em sussurros, assim como o amigo dela que fez o mesmo, colocando a mão à frente da boca para falar.
― Eu soube que ela desviava dinheiro pra manter uma mansão na França. ― fora o rapaz que disse, tentando ser o mais discreto possível.
― DA RAINHA! ― a menina gritou, fazendo os dois pularem de novo, assustados.
― SHH, fala baixo!!!
― Mas gente… A França nem tem rainha… ― falou com um pouco de medo da reação dos dois.
― COMO VOCÊ SABE? VOCÊ JÁ ESTÁ AQUI HÁ CINCO ANOS!
― É claro que não tem depois que ela faliu e destronou a coitada!
― Ok, é o suficiente pra mim, vamos sair daqui. ― forçou um sorriso na direção dos dois colegas e arrastou para longe. ― Mano do céu, que loucura é essa que tá acontecendo nesse lugar?
― Eu sabia que ia acontecer uma coisa dessas se as regras fossem quebradas alguma vez… Tá todo mundo doido na problematização. ― o mais novo falou encostando as costas na parede para respirar fundo algumas vezes. ― Olha ali. ― o dono dos cabelos pretos maneou a cabeça na direção da recepção da administração, fazendo o amigo olhar para o mesmo lugar.

De costas e com um alto rabo de cavalo com os cabelos ruivos presos nele, achou nunca ter visto aquela garota na vida. Ela estava finalmente sem a multidão ao redor dela já que ninguém tinha permissão de entrar ali sem justificativa, sentada numa poltrona e folheava uma revista extremamente calma, mas logo levantou e entrou na coordenação ao ser chamada, nem parecendo a abelha rainha fugitiva da Polícia, corrupta que bate em pessoas e derruba rainhas, além de extorquir dinheiro e manter animais em cárcere privado. Apenas uma adolescente normal querendo saber em qual sala ficaria no primeiro dia de aula.
Mas foi quando ela saiu da sala que arregalou os olhos ao vê-la olhando para a frente e encarando todas as pessoas que a esperavam. Mesmo que o rosto não lhe fosse assim tão familiar por conta da escuridão que estava quando se conheceram, aquele brilho avermelhado nos olhos era inconfundível, fazendo-o bater em com o cotovelo repetidas vezes para ver se ele havia percebido a mesma coisa.
Era ela, aquela infeliz satânica, grossa e ingrata. E apesar de estar calma há dois minutos, ela demonstrou mesmo ser toda a tirana que achavam que era quando foi travada pelos alunos em seu caminho até a classe e ao respirar fundo, falou pela primeira vez desde que foi vista e não precisou de nada mais para calar todo o resto dos corredores com a voz grave que ecoou pelo campus.

― Vocês podem, por favor, saírem da minha frente e me deixarem passar? E parem de me seguir também. ― a dona dos cabelos juntou as sobrancelhas na direção daquele bando de stalkers, que assustados aos poucos abriram caminho para que ela andasse. ― Obrigada.

E, após dizer isso ela foi até as escadas, as subindo calmamente enquanto o Colégio emergia no mais absoluto silêncio. Até ela sumir pro próximo andar, claro.

― Isso é péssimo. E eu tenho um péssimo pressentimento sobre essa garota. ― murmurou vendo o caos que voltava a reinar entre todos os alunos.
― Não exagera, a gente nem a conhece. Quer dizer, tá que ela não é a pessoa mais simpática do mundo, mas você ia ficar feliz com dois estranhos invadindo a sua casa no meio da noite sendo que você é uma mulher e mora sozinha? ― tentou fazer o amigo cair em si, mas na verdade era meio impossível já que ele havia colocado em sua cabeça que a desconhecida era a filha da besta ou algo assim.
― TEVE MOTIVO, TÁ!

A bagunça toda foi interrompida pelo barulho do sinal que anunciou o início do dia letivo, fazendo-os suspirarem desanimados e não terem outra opção senão ir para a classe. o fez completamente incomodado. Estava com receio de subir e ser obrigado a vê-la no corredor, mas suspirou aliviado quando ao terminar as escadas, ela já havia sumido para dentro de uma das salas.
Nem passou na sua cabeça que talvez a sala a qual ela estivesse entrado pudesse ser a mesma que a sua… Mas para sua sorte, não. Não havia ninguém novo sentado próximo a janela, porém também não havia ninguém sentado em lugar nenhum porque estavam todos na porta da classe do fim do corredor, provavelmente a olhando.

― Relaxa, cara, eles vão se acostumar com ela e isso logo para… ― murmurou ao se sentarem um do lado do outro, fazendo o suspirar e dar de ombros, pegando o caderno de dentro da bolsa e o jogando em cima da mesa para se preparar para a prova.
― Espero que você esteja certo dessa vez… ― murmurou ao ver o professor entrando e olhando por toda a sala, para logo depois arquear uma das sobrancelhas e sair novamente.
― Eu estou, pode confiar.

♣♣♣


― É aqui que eu vou ficar? ― questionou ao entrar na classe e encontrá-lo em pé ao lado da lousa e próximo a porta, após ver que na parede acima da entrada havia o número que haviam lhe dado na secretaria ao qual deveria ir.
― Na verdade, não, aqui é a quarta classe. Eu só precisava dar um aviso e queria te encontrar antes pra você não acabar sentada no fundão da outra classe e ignorar o meu pedido de se apresentar formalmente. ― o Kim sorriu marotamente com aquele comentário, a fazendo revirar os olhos e cruzar os braços na frente dos seios, lhe olhando feio. ― Você fica ainda mais fofa com essa expressão. ― falou sussurrando com a mão acima dos lábios, já que todos ainda estavam prestando atenção nos dois e então começou a rir com a expressão dela que piorou ainda mais.
― Me diga logo aonde é que eu tenho que ir, inferno. ― resmungou irritada, batendo levemente uma das mãos na coxa de tão impaciente que estava.
― Vamos lá, eu tenho uma surpresa pra você. ― que a mulher nunca descobrisse que ele só queria ir com ela até a classe para ver a cara que ela faria quando visse deitado em uma das mesas mais ao fundo provavelmente dormindo como costumava ver. Ele era péssimo em Línguas e também não demonstrava muita animação em suas aulas…
― Olha lá a merda que você vai fazer,
― Eu não vou fazer nada, só estou te levando para a primeira classe. Mudei sua classe hoje só pra você assistir minha aula primeiro. ― o moreno fez um bico chateado nos lábios. ― Você tem que confiar mais em mim, sinceramente. ― o rapaz parecia chateado com aquele comentário enquanto parava na porta da sala para sair e esperar toda a multidão se dispersar.
― M-Me desculpa, . ― suspirou, tão nervosa com tudo o que estava acontecendo em sua volta que nem percebeu que aquilo era só drama. ― Eu estou… ― se interrompeu em cogitar falar qualquer palavra que demonstrasse o que estava sentindo porque já era ridículo o suficiente estar fingindo ser uma adolescente, quem dirá estar nervosa por isso… ― Qual a diferença de quarta e primeira classe?
― Ansiosa, nervosa, eu sei. Vem, o dia vai passar rápido e eu te levo pra casa depois e te explico no caminho, tá?

Isso se ela não lhe matasse quando entrasse na turma… Enfim chegaram a sala da primeira classe, onde a amiga fez questão de entrar na sua frente e não pode reprimir um sorrisinho de canto ao vê-la congelar os passos assim que encostou na lousa e olhou para frente, encontrando dois rostos conhecidos que lhe fizeram amaldiçoar muita coisa naquele momento. Claro, claro que o seu “amigo” faria aquilo de propósito. Ele realmente não tinha mais o que fazer da vida…
por sua vez ao ouvir o silêncio total na sala e sentir as várias batidas frenéticas de no seu ombro, ergueu o olhar e ao vê-la ali apertou a caneta com uma força tão grande que pode ouvir um pequeno estalo, sinalizando que ela estava pra quebrar. Voltou a si com o baixo barulho e deixou que seus olhos escuros a encararem sem pudor algum. Não era uma pessoa exatamente intimidadora, mas a sua expressão séria e olhos cerrados demonstravam quando não gostava de alguma coisa, e definitivamente não estava gostando daquilo.

― Bom dia, classe. Antes de aplicar nosso teste, eu acho que todos já perceberam que nós temos uma aluna nova e a partir de hoje ela irá frequentar as aulas com vocês. Por favor, se apresente. ― o professor olhou para de soslaio enquanto ajeitava sua pasta na mesa, sorrindo encorajador e recebendo de volta apenas um olhar fulminante de puro ódio.
― Meu nome é e eu tenho 17 anos. Por favor cuidem bem de mim. ― abaixou levemente as costas e então levantou, mantendo o olhar em qualquer lugar que não fosse naquele infeliz de cabelo de cuica descolorida.
― Alguém quer perguntar alguma coisa? ― ofereceu a oportunidade com um sorriso largo, ignorando o fato dela estar quase pulando em seu pescoço.
― Quero saber quais são as recomendações dela pra ter entrado aqui tão facilmente. ― uma garota de cabelos loiros curtos e olhos castanhos bem abertos perguntou, claramente julgando a mulher de cabelos da cabeça aos pés e fazendo comemorar internamente.
― Não é óbvio? Ela deve ser muito rica. ― outra voz sussurrou de longe, arrancando risadinhas de algumas pessoas.
― Bom saber que você é adivinha e soube que foi muito fácil pra mim entrar aqui. Quando precisar dos seus serviços eu farei questão de pedir. ― a respondeu com um sorriso sarcástico e tom ainda pior, já dando o primeiro passo para ir até a última carteira vazia do fundo da classe.
― Eu mesmo a recomendei. é extremamente inteligente, fala três línguas e é considerada uma gênio com QI de 140, além disso, ela é muito boa na minha matéria e nos conhecemos porque ela ganhou uma competição de poesia há alguns meses atrás. Espero que não haja mais dúvidas sobre seu currículo e que não achem que as pessoas chegam até aqui por dinheiro. ― enquanto a sala a olhava com uma cara completamente estagnada, praticamente surtava ao ver que noventa por cento daquilo que o amigo falava era mentira, praticamente se desesperando enquanto ele sorria calmo.
― E-Eu já posso me sentar? ― questionou baixo, olhando para o mais alto completamente desnorteada. Estava com medo de alguém perguntar mais alguma coisa e dizer que esquecera de mencionar que ganhou o Nobel por algum motivo sem sentido.
― Sim, por favor, sente-se ao lado de . Hoje a prova é em dupla, e eu quero que você a faça com ele.

estava aceitando as coisas bem até agora, mas lembrar que era o mesmo nome de seu vizinho e que iria lhe obrigar a sentar e estudar com ele era demais. Parou no corredor e olhou para trás questionando o juízo do Kim com o olhar, que apenas abriu ainda mais o sorriso.

― Acho que ela não sabe quem é. , você pode erguer a mão, por favor?

se aproximou rapidamente da mais baixa e sorriu para , levando uma das mãos até seu ombro e o apertando levemente. E naquele momento tanto ela quanto ele souberam que não tinham outra opção senão obedecer e aceitar o que o mais velho estava mandando.

♣♣♣


Já era hora da saída quando saiu da classe pela primeira vez, já que nem ao menos saíra para comer alguma coisa durante o intervalo. Sentia todo o seu corpo doendo, principalmente suas costas por estar tanto tempo sentada naquela cadeira dura e seu pescoço de ficar tanto tempo com a cabeça abaixada. Estava tão desacostumada àquilo que sentia todos seus músculos chorarem quase mais que sua alma.
Aquela tortura só não era pior do que passar por tudo isso sentada durante o dia inteiro ao lado de , como descobriu ser o nome completo da pestinha durante algumas das chamadas, já que depois da aula de , quando visava alcançar sua tão adorada carteira aos fundos da classe, os professores não lhe deixaram nem mesmo sonhar em se levantar e teve de ficar durante todo o tempo aguentando aquele olhar de ranço que ele lhe direcionava.
Claro que não deixava barato, afinal, se estava vestida e tinha que parecer uma adolescente, fingiria que era uma e a cada oportunidade direcionava um olhar de nojo para o mais alto. Estava até mesmo se sentindo a própria Regina George, mas ele merecia! Cara babaca que achava que tinha que ser simpática porque ele invadira a sua casa no meio da noite…
Mas agora, agora era a hora de sua vingança. Não havia assistido a escola toda ir embora - com exceção de alguns stalkers meio doidos que continuavam lhe esperando na pracinha, achando que não estava vendo nenhum deles atrás das árvores - e não estava esperando há meia hora na porta da sala dos professores para não proferir todos os palavrões que conhecia na direção do dono dos cabelos escuros.

― SEU DESGRAÇADO! ― esse foi o primeiro assim que a porta se abriu e ele saiu sorridente, com uma pasta na mão. O sorriso aumentou assim que ouviu isso e ele direcionou o olhar até a mais baixa.
― Oi, nenê, fala isso baixo, por favor. ― o maior levou o indicador em cima dos seus próprios lábios ainda sorrindo e olhando de soslaio para todos os alunos que ainda os observavam de longe. ― Achei que você tinha ficado com raiva o suficiente pra ir sozinha, se não tinha saído quando o sinal tocou.
― Para de ser cínico, é justamente por causa da raiva que eu estou que eu te esperei esse tempo todo e você sabe muito bem. ― seu maxilar se travou ainda mais, fazendo a carranca piorar consideravelmente.
― Então eu vou te levar pra casa, eu te alimento e você vê se ainda vai ter vontade de me xingar enquanto come. ― o Kim piscou um dos olhos para a dona dos cabelos e começou a andar logo depois, mal a esperando.
― Pode apostar que vou!

O caminho foi silencioso e entendeu ao passarem pela entrada da escola que não deveria estar fazendo aquilo. Apesar de não haverem superiores como em colégios normais, a administração da cidade saber sua situação e nem mesmo haver quebra de ética ou coisas mais sérias por ser uma mulher de vinte anos, todos pareciam abrir as janelas e os olhos conforme os viam passar.
Que todos achassem que havia feito uma cagada muito grande e seria advertida. Agradeceria muito.
Enfim chegaram na casa e uma das poucas persianas que não se abriram era a vizinha a si, a que vinha depois da sua. Estava quase completamente trancada se não fosse uma janela lateral provavelmente de um dos quartos, mas o tipo de cortina estava fechada e a luz do quarto podia-se ver que estava apagada. Talvez um daqueles tapados houvesse esquecido…

Quando viu, saía do banho com uma roupa bem mais confortável consistindo em um short mais curto do que a camiseta que usava e já estava na sua cozinha com um avental, quebrando alguns ovos que havia pegado em sua geladeira sem nem mesmo pedir permissão. Jogou-se no sofá sem ânimo até mesmo de brigar com o amigo. Aquele primeiro dia de aula havia sido pior do que todos os outros, aquilo tinha sugado sua alma.

― Você não vai me oferecer ajuda? ― ele perguntou provocativo ao ouvir o gemido de desaprovação que ela soltou. ― Ou nem me xingar ou falar que eu sou um filho da mãe?
― Estou cansada demais até pra isso. ― se virou no móvel, deixando o rosto contra o tecido macio e bocejando. ― Mas por que você fez aquilo, seu babaca? Só queria me zoar?
― Na verdade, não, tem um motivo. Lembra que eu disse que ia te explicar sobre o sistema de classes de Qar mais tarde? ― apenas soltou um barulho indescritível que ele tomou como um sim. ― Então, está na hora. Em Qar, você percebeu que nós temos quatro prédios no centro da cidade? Um deles é o administrativo, só é chamado assim porque os professores, poucos comerciantes, seguranças e médicos moram lá. O segundo é o prédio onde algumas poucas crianças estudam, isso é um projeto novo. O terceiro é o segundo maior prédio, é reservado para as pessoas que tiveram as notas mais baixas e médias no teste de admissão para Qar. Ele tem três áreas entre humanas, exatas e biológicas que são de escolha do aluno.
― Tá certo, e daí?
― O prédio principal, no meio, é o maior prédio da cidade, para aqueles que tiveram a maior nota nos testes aplicados quando chegaram aqui. Todos seus alunos não podem escolher apenas uma especialidade, pois são obrigados a aprender todas a fundo e não há tempo exato para se ficar nele. Nós temos nosso próprio sistema de separação de classes e avaliação de alunos.
― Tá, e o que isso tem haver com o fato de você ser um boboca e me fazer passar o dia todo do lado daquele embuste? ― o fato de ainda estar acordada sinalizava que ela estava no mínimo curiosa e interessada, só não sabia no quê. ― Ignorando o fato de você ter me colocado no pior lugar de todos.
― Calma, eu já ia chegar lá, sua apressada. E é o melhor lugar, de nada. ― ele revirou os olhos como se ela fosse uma estraga prazeres. ― Então, os alunos com as melhores notas da nossa escola ficam na Primeira Classe. Ela é formada por 10 alunos e nossa escola tem apenas setenta, então você já deve ter entendido que é bem raro conseguir entrar nela.
― POR QUE DIABOS VOCÊ ME COLOCOU NESSA CLASSE? ― a mulher sentou com os joelhos no sofá, apoiando as mãos no encosto do móvel e olhando para o mais velho com os cabelos bagunçados, o fazendo rir.
― Você é inteligente, , pra você manter o nível é fichinha. ― desviou da almofada que ela lançou em sua direção.
― EU NÃO QUERO ME ESFORÇAR, NÃO LEMBRO NEM COMO FAZ DIVISÃO DE DOIS NÚMEROS! ― a fez um bico ofendido e mimado, sinceramente já havia se formado uma vez e não estava nem um pouco disposta a se matar de estudar para se formar pela segunda.
― ME DEIXA TERMINAR! Aff, enfim, se você não alcança a meta da classe, você é rebaixado para a classe dois, e assim consecutivamente até chegar na classe sete. Caso você não atinja as notas da classe sete, você é transferido para a outra escola e é praticamente impossível voltar para a nossa. ― explicou como o professor que era enquanto a outra se esforçava para manter-se de olhos abertos. ― o alcançou a nota em todas as matérias, menos na minha. Ele é inteligente no nível da Primeira Classe, mas tem dificuldade em Linguagens e caso não atingisse a média, seria rebaixado.
― E o que diabos eu tenho haver com isso, veado? ― a expressão da menina se fechou de novo quando o nome do foi citado.
― Você é fluente em inglês, lindinha, eu sabia que você ia tirar a nota máxima. ― o Kim jogou uma pitada de sal no peixe, e foi então que a ficha da mais nova caiu e ela abriu a boca indignada.
― Você me usou pra ajudar aquele imbecil? ― o rosto dela ficou vermelho aos poucos, enquanto o outro apenas começava a rir baixinho.
― Em partes. A parte boa é que ele não é o melhor em exatas, mas com certeza é melhor que você. Você pode pedir pra ele retribuir o favor. ― dessa vez ele não conseguiu desviar e levou a almofada bem no meio da cabeça, ao menos estava de costas.
― Eu devia te expulsar da minha casa e nunca mais olhar na sua cara. ― ela falou completamente atônita com todo o plano mirabolante que o infeliz havia tramado, além de cogitar a possibilidade de que pediria ajuda para o embuste.
― Mas você não vai porque você quer comer meu peixe. ― piscou um dos olhos na direção da estática amiga que lhe olhou com uma expressão de noho. ― Sabe, , você está fingindo bem demais.
― Hã?
― Você realmente parece uma adolescente ofendida e imersa em problemas fúteis da idade. É bom te ver tão leve e despreocupada com coisas sérias. ― o rapaz não pode deixar de sorrir para si mesmo enquanto falava aquilo, levando a forma até o forno.
― A-Ah, isso… ― ela que não ousaria falar que não era fingimento. Na verdade, ele estava certo. Ao menos servira para distrair sua cabeça daquilo que realmente tirava seu sono. ― Eu sempre me entrego aos meus papéis, você sabe disso.
― Cuidado pra não confundir a realidade com a fantasia, . ― aconselhou olhando para trás agora com a expressão mais séria, fazendo a mulher suspirar.
― Eu nunca faria isso.



III - Dumb Dumb

Fora no último dia da semana que começara a sentir o peso e medir a dimensão de tudo o que estava acontecendo e de onde realmente estava. Era como se sua ficha realmente estivesse caindo enquanto descia calmamente as escadas do primeiro andar para ir até os fundos da escola, onde ficava o ginásio e devia se preparar para a aula de educação física.
As visitas de eram corriqueiras e já virara um acordo não verbalizado entre os dois que o garoto deveria levá-la para casa todos os dias e alimentá-la decentemente, em pedido de desculpas por agora ela e serem dupla - ou trio dependendo da situação - em praticamente todas as atividades em grupo e ainda terem que sentar lado a lado.
Aparentemente, após fazê-lo tirar a nota máxima naquele teste os professores ficaram surpresos com a boa influência que era e decidiram que eles formavam uma boa dupla sem perguntar qual era a vontade deles e mesmo que nem dirigissem a palavra um ao outro. Mas se havia alguém que parecia mais infeliz do que si mesma com aquela situação, com certeza essa pessoa era .
Naquela uma semana, pôde observá-lo bem e perceber a diferença quando ele estava ao seu lado e quando ele estava longe de si. Era como se fosse duas pessoas diferentes, mas sinceramente falando, ela não se importava nem um pouco. Aquilo era tão coisa de adolescente birrento e isso claramente ela não era, ou pelo menos achava que não.
No presente momento eles eram dupla em todas as matérias que já passaram trabalhos em grupo e contando, porque quando chegou no ginásio a primeira pessoa que viu foi parado ao lado de , o professor de esportes, ambos trocando sorrisinhos maldosos que fizeram um arrepio ruim subir por sua espinha. Sabia que aquilo não era boa coisa e com medo de que a bomba estourasse em seu colo, procurou um dos lugares vagos no fundo da arquibancada bem camuflada atrás de alguns alunos altos para que pudesse se esconder melhor.

― Então, classe, eu e o Professor temos conversado essa semana e tivemos uma ideia de motivá-los na aula de educação física, já que como nós sabemos vocês estão quase sempre mortos. ― com exceção de algumas garotinhas que faziam questão de se esforçar apenas para tentar chamar a atenção do professor, mas isso ele preferia não citar. Infelizmente, mesmo com a notícia a animação dos alunos não parecia ter melhorado muito. ― Dentro da urna vocês irão pegar as bolinhas que são de cor amarela, vermelha, azul e verde. Quem pegar a bolinha vermelha irá competir contra o time amarelo e quem pegar a azul irá competir contra a dupla verde.
― E o que a gente ganha com isso? ― uma voz masculina não identificada gritou entre o pequeno aglomerado de dez alunos.
― Como nós imaginávamos que vocês precisariam de um incentivo maior, nós combinamos que a dupla que ganhar vai poder usar o terraço para o que quiser e como quiser por um final de semana todinho. ― aquilo, para a deixar ainda mais confusa, pareceu deixar praticamente todos ali se entreolharam com um fogo que nunca os vira ter em momento nenhum por ali, inclusive sentado algumas cabeças mais afastado de si.

Apesar disso ninguém se atreveu a soltar nenhuma exclamação muito alta, e só se ouviu alguns burburinhos e sussurros entre amigos, afinal, além de e , passeava pela quadra livremente e com o olhar afiado na direção dos alunos, observando o comportamento deles concentradamente. não demorou para passar com as bolinhas dentro de uma urna e só prestou atenção para cruzar os dedos discretamente e pedir aos céus que não saísse com a bolinha da mesma cor de , porque aquele complô apenas já era o suficiente.
Para que respirasse aliviada, pegara uma bolinha de cor azul que logo foi completada por uma outra garota de sua classe. Já podia reconhecê-la de costas por conta dos cabelos platinados que caiam retos e lisos até sua cintura. Se bem lembrava, ela se chamava e não parecia ir muito com a sua cara, mas se bem que pensando um pouco ela não parecia ir com a cara de ninguém, já que nunca a vira conversando com nenhum dos colegas de classe a não ser , ao qual fora forçada a fazer dupla quando o lugar ao lado de tornou-se seu.
Aparentemente pelo o que havia dito, era a dupla da pessoa a qual fora embora e lhe dera a vaga, então estava “sobrando” há mais ou menos dois meses, geralmente fazendo trio com algum grupo aleatório. Finalmente o número de alunos tornou-se par de novo e puderam dividir a classe em cinco duplas, o que a levava ao ridículo torneio que lhe deixara feliz ao pegar a vermelha, mas acabou com qualquer animação que surgiu em si quando viu a outra pessoa que havia tirado a bolinha vermelha.
Apesar de não ser a pior opção possível, continuava sendo tão ruim quanto qualquer outras sete pessoas daquela classe, mas pelo menos parecia que sua sexta ia ser no mínimo engraçada. , assim que viu que também segurava uma bolinha vermelha e que ela olhava para ele com uma sobrancelha arqueada, engoliu em seco tão em choque que ela pode ver exatamente a onda que foi feita em sua garganta, lhe fazendo segurar uma risadinha maldosa que quis sair. Na cara de pau, o garoto tentou trocar de bolinha com que apenas saiu correndo e se sentou ao lado de , fazendo o corpo de se enrijecer medrosamente.

― Por favor, sentem ao lado da sua dupla… ― enquanto continuava com o discurso, apenas se ocupou em levantar e andar tranquilamente até onde estava, já que ele se mantivera completamente paralisado na primeira fileira da arquibancada. ― Nós vamos jogar queimada, vai ser um torneio com todas as classes.
― Queimada, sério? ― questionou o professor com uma sobrancelha arqueada, que apenas respondeu com um sorriso amarelo.
― Por que não? ― comentou com um sorriso de canto maldoso. A graça era ver as bolas voando na cara e toda aquela violência que explodia nos adolescentes competitivos.
― Não podia ser algo mais educativo? ― enquanto o pequeno debate se iniciava entre os mais velhos, se concentrava em respirar baixinho e discretamente para que sua presença fosse o menos notada possível.
― Você pode parar de segurar a respiração, eu não vou te agredir ou nada assim. ― murmurou revirando os olhos com tanto medo que emanava do rapaz. Ela estava folgadamente recostada no banco detrás e de braços e pernas cruzados, encarando o horizonte com uma expressão irritada.
― E-eu não estava pensando isso! ― o rapaz colocou ambas as mãos espalmadas a frente do peitoral em sinal de rendição, fazendo com que a sobrancelha da dona dos cabelos se erguesse ainda mais.
― Ah, não mesmo? ― apontou com o dedo indicador para a posição a qual o se encontrava, completamente na defensiva, sorrindo de canto sarcástica. ― Você pode relaxar, meu problema não é com você.

― Ele não devia ser com o , também… ― soltou baixinho, receoso de que defender o amigo para ela pudesse ocasionar em algum cascudo. ― Ele é meio infantil às vezes, mas não é uma pessoa ruim. Se você o desculpasse, vocês podiam ser amigos, já que sempre estão juntos nas aulas...
― Ele nunca pediu desculpas para que eu o desculpasse. ― a respondeu ofendida, fechando os olhos e voltando a cruzar os braços em sua pose tão costumeiramente despreocupada.
― Se ele pedisse, você desculparia? ― os olhos do mais novo até mesmo brilharam levemente com a possibilidade. Afinal, era sempre melhor você manter os inimigos - ou só quem parece ser - como amigos, assim a fúria dele não te atinge.
― Bom, seria muito fácil, não é?

não entendeu porque após falar isso ela se levantou até que viu que havia tirado a bolinha vermelha para começar com os jogos. Respirou fundo e se levantou também, já que não tinha outra escolha senão obedecer.

♣♣♣


Louco era a palavra que descrevia como estava ficando com exímia perfeição. Hoje completava um mês e três dias desde aquela sexta-feira a qual sua irmã havia sumido completamente sem deixar nenhum vestígio além de levar todas as suas roupas e uma boa quantia em dinheiro e em joias, e claramente arrombar uma parte de seu coração que ficou completamente despedaçado ao entender que ela tivera coragem de lhe abandonar.
Não estava com raiva e nem magoado, entendia completamente o lado da irmã, mas se questionava porque ela não lhe contou e não lhe chamou pra ir consigo. Por quê?! Se não se importava de largar toda a vida que tinham para trás, podiam ser felizes juntos e sem toda aquela pressão em viver bem com o assassino de seus pais para manter as aparências. Apenas não fizera isso antes porque achava que ela nunca aceitaria, e agora ela mesma havia feito e sem nem deixar um bilhete para si avisando aonde estaria.
Não entrava na sua cabeça porque ela sumira sozinha e era por isso que sua mente começou a cogitar outras possibilidades… Talvez ela não tivesse fugido? Assim que chegou na casa de seu tio, se jogou no sofá da sala para tentar acalmar sua respiração e o seu coração após andar até lá. Não viu quanto tempo passou, mas ao menos agora seu peito subia e descia em um ritmo moderado, mas seu coração continuava apertado.

― Você já está aqui tão cedo? ― o homem questionou ao descer as escadas e encontrar o rapaz deitado no sofá com os olhos inchados focados no teto branco. ― Não dormiu essa noite de novo?
― Eu a procurei em todos os lugares. Já faz um mês e três dias. ― apesar do tom de voz calmo, podia-se sentir a agonia na voz de , que respirava fundo tentando manter-se são. ― Eu vou chamar a polícia, não aguento mais não saber onde ela está e se ela está bem…
― Não, eu já disse que não é prudente fazer isso! Se você chamar a polícia, tudo vai cair na mídia e os vão descobrir que ela fugiu. ― o tio respondeu tranquilamente, sentando na poltrona ao lado do sofá onde o outro estava deitado. Como esperado, ele não se importava em procurá-la, apenas em manter as aparências.
― Como você tem certeza que ela fugiu? A é daquele jeito, mas é só uma garota! Ela não sabe se defender sozinha. ― o mais velho se manifestou, sentando no sofá e esfregando uma mão na outra. ― Nós temos que mobilizar uma busca pela minha irmã.
― Eu sei que ela fugiu e acho que ela vai acabar voltando sozinha uma hora ou outra, quando o dinheiro acabar. ― o mais velho revirou os olhos com todo aquele desespero do sobrinho. Se fossem alguns meses atrás, sinceramente se livrar de tão facilmente seria uma benção, pois ai só lhe restaria se livrar de e com a irmã sumida seria fácil já que ele estaria mentalmente instável. Mas agora que achou um jeito de tirar proveito da existência daquela maldita, ela resolveu sumir… ― Mas se você faz tanta questão, eu vou dar um jeito nisso. Vou contratar alguns detetives discretamente, e qualquer informação eu aviso você. Acredite, eu estou tão interessado em achá-la quanto você.

♣♣♣


― Então vamos lá, semifinais!

organizava animadamente os próximos rounds enquanto descobria que a presença de não era tão ruim quanto ele achara que podia ser. Na verdade, depois deles ganharem o segundo embate há cinco minutos e sair um high five bem atrapalhado que fez automaticamente ao se classificarem, eles até mesmo estavam se sentindo mais confortáveis próximos um ao outro.

― Sabe, você é mesmo boa nisso. ― murmurou um tanto emburrado como uma forma de dissipar o silêncio constrangedor que pairava entre os dois.
― Obrigada. ― a agradeceu naturalmente, nem mesmo movendo os olhos que estavam fixos na quadra, analisando os colegas de classe se preparando para a primeira semifinal. ― Você também não é tão ruim quanto eu pensei.

O não soube bem se aquilo era ou não um elogio, por isso que resolveu ficar calado, mas balançou a cabeça positivamente para que ela não achasse que estava ignorando. provara que realmente não tinha problema nenhum consigo, o negócio mesmo era que entrava em quadra no momento. No final, era até mesmo fácil de lidar: o que perguntasse ela responderia, mas tinha medo por que nem sempre a resposta é exatamente aquela que se quer ouvir.

― Sabe qual é o segredo? ― o coreano arregalou os olhos ao ouvi-la questionando, mas por um momento ficou até empolgado em vê-la falando por iniciativa própria.
― Não, qual é? ― perguntou curioso, observando a garota que ainda encarava o quarteto se aquecendo por ordem do professor.
― Eu sou muito competitiva. Detesto perder, principalmente pra pirralhos. ― essa última parte saiu tão inconscientemente que nem mesmo percebeu que entregou o fato de ter mentido sua idade alguns dias atrás. ― Então acho bom você não estragar tudo. ― finalmente virou o rosto na direção onde sua dupla estava, desfazendo o sorriso de canto para ostentar uma expressão ameaçadora de sobrancelhas e cenho franzido.

Tudo o que havia pensado caiu por água a baixo completamente com aquilo e seus olhos se arregalaram. Meu Deus, que mulher assustadora! Tentou balbuciar alguma coisa que a respondesse, mas na verdade ele internamente sabia que ela estava certa e podia mesmo acabar fazendo cagada em algum dos jogos que tinham pela frente.

― Cara, relaxa! ― a suavizou a expressão e começou a rir do desespero do que apenas ficou ainda mais confuso. ― Eu só tô brincando com você, garoto. Já disse que não vou te agredir nem nada assim, que medo é esse que você tem?!
― PARA, você é assustadora! ― o choramingou chateado, cruzando os braços em cima do peitoral. ― Você não parece uma adolescente de dezessete anos!

Aquilo apenas fez rir ainda mais, porque na realidade ele não estava errado. Enquanto isso de longe observava a interação sem ouvi-los, mas pra ele nem precisava escutar. Já estava pistola o suficiente apenas por vê-la rindo da cara de tacho de seu amigo que até mesmo soltou um sorrisinho ou outro aleatoriamente. Aquilo podia ser considerado alta traição? Claramente que sim! Não podia deixar nunca uma pessoa tão ingênua quanto o ao lado da inimiga, mas o que podia fazer naquela situação…
Mesmo assim ainda achava que o amigo fora muito volúvel e isso internamente lhe revoltou. Ia puxar aquelas orelhas até que ele se lembrasse que devia se manter longe e odiando a praguinha, não de conversinha e rindo com ela, distribuindo high fives só porque haviam ganhado uma queimada idiota. Pegou a bola que estava usando pra treinar e mirou bem nas pernas de , para que aquilo servisse de aviso do que ele iria enfrentar mais tarde.
O problema é que a mira de nunca fora algo que ele realmente se orgulhava, e no meio do caminho pareceu até mesmo que uma mão invisível desviou o caminho da bola um pouquinho para que ela fosse exatamente na direção do rosto de que não teve como desviar por estar distraída virada para o outro lado. A maldição da bola acabou batendo exatamente na lateral do rosto da garota que se avermelhou na mesma hora, e pior: a levou a mão automaticamente até o nariz que começara a sangrar.

♣♣♣


Não houve jeito algum: mesmo com todas as ameaças que fizera de que o mataria assim que tivesse a oportunidade - e a presença dos professores não a inibira nem um pouco, ainda lhe obrigara a ir até a enfermaria com ela e cuidar do machucado que fizera. Ele não sabia nem um pouco como fazer isso, mas o fato era que a vermelhidão na área atingida estava ainda mais forte agora e o nariz da garota não parara de jorrar sangue até o presente momento.

― É s-sério, eu juro que…!
― SSHHH, SHHH, cala essa boca, garoto! ― entrou na enfermaria completamente transtornada, por sorte não havia mais ninguém ali além dos dois para ouvir os quase gritos da que rapidamente foi até a pia para lavar o rosto e o nariz, que secou meio de qualquer jeito com um papel toalha.
― Mas eu não fiz de propósito! ― claramente não conseguiu ficar quieto com o jeito rude da mais velha, lhe olhando feio e cruzando os braços enquanto ela procurava nos armários algo para estancar o sangramento.
― Ah tá, e você queria acertar quem? Seu melhor amigo? ― ela olhou feio para trás por alguns segundos, mostrando o inchaço no rosto. ― Fica quieto logo e não discute, você é mais útil assim. ― ela finalmente achou algumas gazes e também abriu a geladeira para encontrar uma compressa gelada.
― H-Hey, você não me deixa ser útil! Eu deveria estar cuidando de você! ― o correu até a geladeira para tentar pegar a compressa antes da dona dos cabelos , mas foi em vão.
― Ah, claro, você quase quebra meu nariz e agora quer que eu te deixe cuidar dele? ― sentou-se numa poltrona num dos cantos do local, segurando um pouco da gaze na entrada da narina com uma mão e a compressa praticamente congelada contra a bochecha inchada, xingando baixo ao sentir o primeiro contato da pele quente contra o gelo.
― Me deixa pelo menos segurar isso aqui! ― não esperou permissão alguma da para colocar a mão na compressa por cima da mão da garota e apertá-la.
― A-ai! ― a fechou os olhos com força e tirou rapidamente a mão que estava por baixo da do rapaz, cortando o contato entre eles. ― Se vai fazer isso pelo menos faz direito! Não precisa apertar tanto. ― por um pouco ela não soltou um palavrão, mas acabou respirando fundo para segurar.
― M-Me desculpe… ― o arregalou um pouco os olhos com o que havia feito, tentando não demonstrar seu nervosismo. Se sentou na cadeira de acompanhante ao lado da poltrona que a garota estava.

Podia ouvir suavemente as batidas do coração dela completamente aceleradas provavelmente pela raiva e adrenalina que passara. era uma pessoa muito estressada, mais ainda do que achara quando se conheceram na casa. Mas ela parecia bem relaxada com mais cedo, mesmo que a personalidade ainda fosse difícil… Ela parecia estar sempre pressionada ou fugindo de algo, preocupada. Talvez fosse só uma tensão natural causada pelo gênio forte, ela não devia gostar nem quando as pessoas olhavam pra cara dela…
teve que esperar cinco minutos naquela mesma posição até sentir que a respiração e o coração dela estavam finalmente mais calmos. Ainda estava meio receoso de tentar explicar a situação para ela, mas não queria deixar a situação como estava. Diferente do dia da invasão, dessa vez ele realmente não havia feito de propósito e não queria machucá-la, por mais que a achasse muito chata.

― Hey, eu juro que eu queria acertar o . ― o enfim criou coragem pra falar, recebendo um olhar hostil de soslaio da garota. ― É sério, eu estou irritado com ele. Me desculpe por ter te acertado.
― Olha só, você sabe pedir desculpas. ― forçou uma expressão surpresa que fez o garoto revirar os olhos e fechar o semblante, arrancando uma risada sarcástica dela. ― Eu vou fingir que isso não aconteceu porque infelizmente a taxa de assassinatos nessa cidade é nula e eu seria pega muito facilmente, então está desculpado. ― ela respondeu com um suspiro frustrado ao fim de sua fala e teve de se esforçar para manter a postura e não mostrar que ela lhe deixava com medo. ― Mas não pense que esqueci sobre você e seu amigo pulando o muro da minha casa.
― NÓS NEM SABÍAMOS QUE VOCÊ MORAVA LÁ!
― Como estão indo as coisas por aqui? ― abriu a porta da enfermaria com um sorriso simpático no rosto que teve de se segurar para que ele não se transformasse em um maldoso ao ver segurando a compressa no rosto de .
― Ótimas. Você pode me dar a permissão pra ir pra casa assim que o sangramento parar. ― a forçou um sorriso sem abrir os lábios para o mais velho, tentando não dar nenhuma abertura para piadinhas de mal gosto.
― Por quê? Você me parece tão bem. Nós achamos que você pode voltar para as aulas normalmente depois que o sangramento parar. Seu rosto já nem tá mais inchado. ― o amigo falou com um sorriso completamente simpático e feliz, balançando a mão no ar como se não tivesse nada demais.
― COMO ASSIM, ? ― por alguns segundos ao se levantar e encarar o coreano de frente, esqueceu-se completamente de que falar daquela forma informal ali com o amigo era completamente desrespeitoso e suspeito para , que afinal, achava que eles tinham uma relação de professor e aluna apenas. Quando comentou isso inocentemente
― Calma, … ― cutucou levemente o braço dela para que ela se controlasse enquanto observava a cena completamente confuso.
― Vai ser bom pra você se acalmar também. Extravasar as emoções no esporte! Inclusive, a punição do é que nós vamos trocar as duplas e vocês dois vão competir juntos. ― falou rindo para a , já estrategicamente se posicionando próximo a porta.
― Q-QUÊ? ELE QUE APRONTOU, POR QUE EU TAMBÉM ESTOU SENDO PUNIDA? ― a voltou aos berros, enquanto o se contentou em ficar quieto para acabar não piorando ainda mais a sua situação.
― Vocês não está sendo punida, . Pense bem, você pode usar isso como vantagem. ― voltou a falar com um sorrisinho de canto. ― Agora eu preciso ir, tenho aulas pra dar. ― ele disse antes de sair finalmente pela porta e deixar os três lá,

Apesar de acharem que faria o mesmo e deixaria os dois novamente à sós, ele ainda ficou pra assistir o suspiro derrotado de enquanto ela se jogava numa das camas para se deitar e manter a expressão enfezada, segurando a compressa contra o rosto que tinha a outra metade escondida por um travesseiro.

― Hey, , você já pode voltar às aulas normalmente e espero que não volte a repetir seu erro. ― falou na direção do aluno que ainda estava um tanto estarrecido, se perguntando o quão diferente ela era para poder agir daquele jeito e não ser punida…
― Eu não vou repetir! ― o abaixou levemente as costas na direção do homem e sorriu de canto, saindo logo após rapidamente. Sua respiração estava um tanto descompassada, a curiosidade crescendo em relação à batendo forte em sua mente.

Assim que ouviu a porta fechando e alguns passos se afastando, ele respirou fundo e se aproximou de onde a menina estava, sentando na cama da frente para pesar um olhar não muito simpático sobre ela que apenas arqueou uma das sobrancelhas com a ação do conhecido. Bem, sabia que o homem não tinha a melhor das impressões sobre si, mas não achara que ele realmente ia querer ter aquela conversa no meio da enfermaria…

― Sinceramente, , quando você vai parar de se meter em problemas? ― questionou com um suspiro desanimado, cruzando ambos os braços à frente do peitoral.
― Talvez quando os problemas pararem de me perseguir? ― ela respondeu com um pequeno sorriso de canto sarcástico, após suspirar demasiadamente desanimada em ter de entrar naquele assunto quando sua cabeça latejava por causa do impacto da bola que provara há alguns minutos.

O garoto se absteve a ficar em silêncio por longos minutos, apenas mantendo o olhar não muito amigável que tinha para com a mais nova. Não era como se a detestasse ou algo assim, apenas não concordava com a forma que tinha de agir e lidar com seus problemas. Mas como “seus problemas” era algo autoexplicativo em ser dela, ele apenas se contentava em observá-la de longe.

― O seu tio começou as investigações. Você sabe que ele pode te rastrear facilmente, não deve demorar até que chegue aqui. ― apoiou o queixo em cima da palma da mão, numa feição pensativa. ― O que pretende fazer?
― Sinceramente ainda não tenho um plano formado… Achei que isso ia demorar mais pra acontecer. ― a murmurou para si mesma, largando a compressa no pequeno criado mudo ao lado da cama que estava e se preparando para levantar. ― Mas eu não me importo, eu vou fugir de novo, me esconder. Qualquer coisa pra que ele não me ache novamente.



IV - Do you know what time is?

Quando eles ganharam da última dupla do Colégio, a classe deles praticamente foi ao delírio, com exceção de e da própria que estava completamente entediada. Os outros alunos entendiam que era uma obrigação da Primeira Classe vencer as outras, então já entraram derrotados e soltaram nada senão um muxoxo de frustração que logo se tornou de esperança e empolgação ao lembrarem que com o terraço liberado, provavelmente tinham uma festa a caminho.
Cada Colégio tem seu próprio terraço que atende suas próprias necessidades conforme o nível do local, então consequentemente, o da Orkan é o mais bem equipado e suprido. Em dias normais, os terraços não são nada mais que pequenos centros como os de uma cidade normal, oferecendo comida aos preguiçosos que não querem cozinhar, materiais escolares, maquiagens, roupas e até mesmo uma música aqui e ali, além de o principal terraço contar com uma praça de entretenimento e até mesmo lojinhas de lembrancinhas, como uma total cidade turística.
Porém, algumas coisas mudam em comemorações de festivais ou em situações como aquela, onde dois alunos tinham total domínio sobre como usariam o espaço e para seria maravilhoso se não tivesse que dividir cinquenta por cento de seu poder com aquela mulher assustadora, que no momento estava tranquilamente deitada num banco, com as pernas cruzadas e a cabeça virada ao céu que era tampado pelo livro que ela segurava a frente dos olhos e lia despretensiosamente.
Mesmo que já tivesse passado o choque inicial de sua chegada, ainda havia aqueles curiosos e mais insistentes que continuavam a perseguindo, fingindo que estavam estudando no jardim quando na realidade estavam a observando e alguns mais audaciosos até mesmo tirando fotos, o que achava no mínimo meio doentio, mas… Aquela pose dela de desinteresse e a aura de mistério eram mesmo um tanto fascinantes em um local onde as pessoas não tinham muito o que esconder, pois mal havia o que fazer.
Após o dia todo em companhia de , iniciar uma conversa com ela não era difícil, o problema era mantê-la em bons termos. não gostava de falar com pessoas as quais ele não tinha muita afeição - ou o contrário, se preferir ser sincero, ele detestava - e ela logo iniciava as provocações para que ele abominasse ainda mais sua presença. Porém, não era como se estivessem tendo escolha daquela vez, como na maioria das outras que tiveram que se falar.

― Ocupada? ― questionou com uma expressão entediada, parando atrás do banco de braços cruzados e olhando para a capa do livro que cobria o rosto da .
― Pra você? Sempre. ― nem mesmo precisou olhar para saber a quem aquela voz pertencia, mas em contrapartida nem mesmo moveu um músculo até ouvir o suspiro irritado do . ― O que foi, vai ficar me admirando? Se eu me esqueci de te enviar uma das pesquisas dos trabalhos, é só dizer logo que eu faço. Inclusive, podia só mandar uma mensagem, não falar comigo pessoalm-
― Você conhece os terraços? ― o ignorou completamente as palavras que ela soltava no ar para perguntar, arqueando uma das sobrancelhas.
― Não, mas se você está comentando sobre também não tenho vontade de conhecer. ― a sorriu de canto maldosa, orgulhosa de si mesma pela resposta, expressão essa ainda velada pelo livro.
― Você não sabe falar como uma pessoa civilizada? ― o perdeu enfim a paciência, batendo com as mãos levemente na madeira do banco e a apertando, fechando os olhos para manter seu controle.
― Você não sabe bater na porta como uma pessoa civilizada, por que eu tenho que saber conversar?
― Argh, eu desisto de você, sinceramente. ― deu as costas já pisando forte para sair dali. A presença da garota era tão irritante que conseguia acabar completamente com o bom humor do .
― Ei, espera! ― ele ouviu as palavras dela saindo entre risos satisfeitos por tê-lo irritado, o que apenas o deixou ainda mais furioso, mas mesmo assim parou para escutá-la. ― Se é sobre a recompensa por ganhar a competição, faça o que quiser com ela, não estou interessada. Eu venço pelo título, não pelo o que ele dá.

♣♣♣

nunca se arrependera tanto em sua vida de palavras que havia falado com tanta certeza. Era uma maldita noite de sábado, a qual tentava se concentrar em lembrar como calculava o volume de alguma forma geométrica que não lembrava o nome, mas não conseguia raciocinar nem mesmo para lembrar-se de seu próprio nome por conta do barulho ensurdecedor que era emitido da Orkan.
Nem mesmo estava perto da academia para que o K-Pop infeliz parecesse tão alto, mas conseguia ouvir perfeitamente o “shy shy shy” e a multidão gritando enlouquecidamente “Cheer up babe” como se estivessem em sua própria sala, mas sua casa ficava aproximadamente há dez minutos e seis ruas lotadas de repúblicas e casas de caminhada.
Se soubesse que usaria o “prêmio” para aquilo, nunca daria ele de mão beijada como o fizera de manhã. Como aquele maldito planejara uma festa daquela magnitude em apenas algumas horas? Como aqueles terraços funcionavam…? Devia tê-lo deixado explicar quando teve a chance, pelo menos o choque de realidade não viria tão nitidamente.

― me likey likey likey likey ―

Meu Deus, ouvira uma voz cantando aquele negócio a qual estava conformada que grudaria em sua mente por mais três meses e jurava que não era si mesma, era possível que já estava assim tão dominada pela maldição do K-Pop? Mas se estava se esforçando para manter sua boca fechada e também jurava que era uma voz masculina que estava vindo de seu corredor, quem diabos estaria profanando sua sagrada casa com aquele som?
Se tivesse uma arma provavelmente a teria pegado agora, porque se pulara seu muro pela segunda vez apenas para lhe infernizar - aquele infeliz não estava na festa, afinal? - não teria dó em fazê-lo chorar um pouquinho. Mas não foi a imagem do que abriu a porta de seu quarto enquanto colocava as pantufas de coelhinho, e sim uma a qual já deveria ter imaginado por ser ainda mais familiarizada.

― Olha, sinceramente eu só não vou te agredir porque estou mentalmente e fisicamente esgotada para levantar. ― voltou a se jogar na cama, largando o calçado de qualquer jeito por ali.
― Meu Deus, pra nem mesmo dar uma xingadinha... você tá mesmo, viu. Muito esforço mental pra não cantar TWICE? ― questionou com um sorriso divertido, deixando a porta do quarto aberta e fazendo o som ser ainda mais alto. ― Vai, eu sei que você quer.
― Como diabos esse negócio é tão alto? PARECE QUE O RÁDIO TÁ AQUI! ― reclamou de novo, escondendo o rosto com o travesseiro apertando as orelhas. ― Aliás, como você entrou aqui?
― Talvez esteja, você nunca vai saber se não sair dessa cama. ― o garoto piscou um dos olhos maldoso, arrancando apenas um olhar de nojo da mais nova. ― Eu tenho a sua chave reserva, esqueceu que você deixou comigo pra emergências?
― Ai, maldito dia…
― Ah, para, não é tão ruim assim! Pensa que ao menos você não teve que levantar pra abrir a porta.
― O que você tá querendo aqui, afinal? ― a questionou com o tom de voz completamente desolado, só querendo abafadores de ouvido potentes àquelas horas.
― Ué, e o que seria? Eu vim te buscar pra festa. ― inclusive já tomava a liberdade de abrir guarda roupa da amiga para fazer às vezes de escolher alguma roupa pra ela, já que sabia que se dependesse de não sairiam dali tão cedo.
― Não, nem pensar! Você me obriga a conviver com aquela peste, morar do lado dela e fazer o trabalho que for, mas ir a uma festa já é demais, ! Eu nem fui convidada, para de palhaçada!
― Mas é claro que você foi. O te convidou!
― Eu já disse que…

♣♣♣


― Que merda. Foi isso que eu disse. ― respondia completamente grosseira conforme o elevador subia todos os andares do prédio.

O cubículo ao qual estava agarrada as barras de ferro instaladas à frente do espelho como se sua vida dependesse disso - aos desavisados, ao qual não era o caso de que fazia questão de segurá-la levemente pela cintura, a detestava completamente elevadores e escadas - subia lentamente andar por andar com trancos que faziam a respiração da menina falhar de tempos em tempos e o rapaz segurar a risada.

― Não é tão ruim assim. ― o mais velho bateu empolgado no ombro da , se afastando logo depois quando o elevador deu o último tranco e abriu as portas no terraço.

não pôde evitar ficar surpresa ao ver aquilo. O elevador abria para o meio do local, um buraco redondo cavado no meio do prédio, e dava a visão que o terraço era nada mais que um espaço de trezentos e sessenta graus com mais três níveis que subiam além daquele, mas por escada-rolantes que se dividiam entre o espaço.
Era quase como um shopping center. Havia lojas de todos os tipos e todas as do primeiro andar estavam abertas, mas os outros aparentemente estavam interceptados. Não era muito difícil entender por que, já que o som e as luzes estavam completamente concentrados num dos lados do local junto com a pista de dança, enquanto o outro se dividia em bar e local com cadeiras para comerem.

― É incrível, não é? ― comentou com um sorriso orgulhoso, observando a expressão surpresa da garota.
― É… Parecia menor lá de fora. ― olhava tudo curiosamente e um pouco assustada. Como eles guardavam uma coisa tão grande em um lugar aparentemente tão pequeno? ― Tipo, bem menor.
― Ah, olha, o chegou! ― a voz de surgiu um pouco atrás dos dois, os fazendo olhar para trás e se cumprimentarem batendo as mãos.
― E não veio sozinho. ― fez questão de completar olhando para a dona dos cabelos que fingiu estar distraída com a paisagem.
― Quando eu viajei pra Coréia e não fiquei sabendo? ― a mais nova questionou com toda aquela vibe que circulava no local. As luzes em neon chamativas, as coreografias em grupo e o karaokê em um dos cantos, além da própria música e comida, era tudo bem característico.
― Quando deu na mão do o prêmio. ― sorriu de canto ao responder, apontando levemente para o garoto que estava num dos balcões pedindo alguma coisa pra comer.
― O que você esperava, afinal? Não dava pra ouvir da sua casa? ― questionou um tanto confuso pela surpresa da amiga.
― Dava, mas isso aqui? ― apontou para a grandiosidade do local e do evento. ― Isso aqui não dava pra imaginar da minha casa.
― Bom, vamos deixar você aproveitar a festa então, temos que resolver coisas com a administração. ― foi quem chamou a atenção dos dois para as responsabilidades, fazendo a arquear uma das sobrancelhas, mas balançar os ombros sem se importar muito.
― Boa sorte. ― desejou por educação. Ainda tinha uma vozinha no fundo de sua mente que sussurrava que deveria ser educada e respeitosa em relação à , mesmo que ele fizesse questão de manter o relacionamento entre eles completamente nulo.
― Pra você também, viu. Se precisar de alguma coisa, diz que eu liberei. ― piscou um dos olhos na direção da amiga com a frase que entre eles estava cheia de duplo sentido.
― Nossa, mas tem isso aqui? ― arregalou os olhos um tanto chocada, não esperava isso vindo de uma organização a qual participava.
― Tem, existem alunos maiores que podem beber. Mas pega leve.
― Na realidade, eu acho melhor você nem pegar em nada. Não se esqueça da conversa que tivemos, pare de se meter em problemas.

♣♣♣


Sabia da conversa que havia tido com , mas pensando bem enquanto andava até o bar, um drinquezinho só não devia ter problema, não é mesmo? Era por isso que já estava na oitavo, também não devia ter problema. E também era exatamente por isso que o professor lhe mandara ficar na sua, afinal, ele conhecia bem a história.
Mas agora que em meio ao barulho alto de música e gritos ensurdecedores de adolescentes, já era tarde demais e a garota começara até mesmo a sorrir naturalmente, mesmo que fosse para as paredes ou para o próprio copo de plástico vermelho que segurava, falando que ele tinha muito bom gosto de ser da cor favorita dela.

― Eu realmente não esperava que você viesse até aqui hoje, mas que bom, assim eu não perdi tempo. ― uma voz masculina e desconhecida soou ao lado da garota sentada em uma banqueta, fazendo-a olhar para o lado com uma sobrancelha arqueada.
― E você, quem é? ― questionou, encarando o dono dos olhos angulados e cabelos em tom de castanho claro com uma expressão curiosa de olhos brilhantes. Mesmo que estivesse um pouco mais feliz, suas interações sociais nunca seriam das melhores e mais simpáticas.
― Ah, eu sou da Classe Dois, é por isso que você não me conhece. ― o rapaz sorriu curto para parecer mais simpático, sentando na banqueta vazia ao lado.
― Ah. ― a soltou com o tom de voz meio molenga, abrindo um pouco a boca em sinal de surpresa e mantendo a expressão assim, completamente fora de órbita. ― Entendi.
― Eu não queria que nós nos conhecêssemos nessa situação, mas já que aconteceu… Me chamam de . ― se apresentou calmamente, erguendo uma das mãos para que a mais velha a apertasse, o que ocorreu um pouco depois e extremamente lento.
― Eu sou . Mas pelo jeito você já sabe, né? ― ela acabou rindo um pouco ao constatar a última parte, afinal, pelo interesse que ele demonstrava devia ser um dos seus stalkers.
― Eu achei que você não pudesse beber. ― ele acabou comentando ao ver o estado alegre / acabado da garota que voltou a apoiar os braços em cima do balcão, mas também para ajudar a desviar a atenção do assunto.
― Tem muitas coisas que as pessoas não sabem sobre mim, daí elas começam a basear as coisas em achismo. ― era completamente a definição de pessoa chata em alguns estágios de sua bebedeira. Ainda não estava tão alta para ser considerada muito feliz mesmo que estivesse mais simpática, mas não estava sóbria o suficiente para estar em seu estado normal. E era por isso que ela ficava no meio termo que era o mais perto que chegava de ser uma filósofa. ― Ia ser bem mais fácil se tentassem me conhecer antes.
― Mas você não disse que tinha dezessete anos quando chegou? ― questionou confuso com aquela repentina fala da sendo que estava comentando uma coisa tão simples, as teorias de como ela chegara ali crescendo ainda mais em sua cabeça.
― Ah, eu fiz dezoito ontem. ― mentiu sem nem se importar com as consequências. Nem mesmo se lembrava em que mês estavam, quem dirá se estavam perto ou longe de seu aniversário.
― N-Nossa, achei que seu aniversário fosse em Novembro… ― o menino sussurrou mais para si do que para ela, percebendo o que havia soltado quando ela lhe encarou com a expressão confusa.
― OLHA, OLHA SÓ QUEM RESOLVEU APARECER! E parece que com capacidade de fazer amigos! ― claramente não estava muito longe da situação de em alegria e felicidade, mas nem era pelo álcool, afinal, aquela era a personalidade do longe da garota, aflorada apenas pelo dia festivo.
― E desde quando eu te dei intimidade pra falar assim comigo, garoto? Eu, ein. ― a garota olhou feio pro lado aonde vinha andando com até onde estava.
― Vamos ser legais hoje já que é um dia de festa. ― o pediu com um biquinho se formando nos lábios que acabou desarmando a , a deixando de olhos arregalados e bochechas um pouco avermelhadas.
― H-Hey, você não deveria estar bebendo! Como conseguiu isso aí? ― questionou apontando para a mão da que segurava um copo que claramente continha cerveja dentro.
― Meu Deus, ein, tá todo mundo achando que são meus pais hoje? ‘Cês tem que parar, eu nem tenho pais pra vocês fingirem que são eles. ― revirou os olhos, levando o copo para perto da boca. ― Isso aqui pode ser refrigerante, ué. ― falou, virando o copo logo após e fazendo uma careta que ela com certeza não faria se fosse apenas algum derivado de guaraná.
― Pelo cheiro, com certeza não é. ― constatou, olhando curioso para o objeto que ela largou em cima do balcão para então cruzar os braços.
― Você que é amigo dela, sabe como ela conseguiu isso? ― questionou curioso. Que ninguém descobrisse que o interesse dele era porque ele estava querendo fazer a mesma coisa.
― Ele nem meu amigo é, sentou aqui e começou a puxar papo. ― a se manifestou outra vez, balançando a mão no ar impaciente. ― E eu consegui simplesmente porque e -...
! ― o berro que saiu da boca do homem que se aproximava fez a dar até mesmo um pulinho assustado, arregalando os olhos.
! ― gritou em retribuição, porém mais pra animada do que pro tom de voz de bronca que ele usava, acenando enquanto o rapaz se aproximava.
― Eu não disse pra você se manter longe de bebidas? ― o dono dos cabelos em tom de castanho claro falou ao alcançá-la, segurando a mão da garota um tanto forte como mães fazem quando os filhos aprontam alguma.
― M-Mas eu só tomei alguns d…
― Eu disse NENHUM. ― frisou a última palavra com o tom de voz mais alto.
― Desculpa, Oppa. ― a murmurou, abaixando a cabeça quando seus lábios se juntaram em um biquinho desolado.

O mais velho arregalou os olhos e acabou respirando fundo algumas vezes, para se acalmar e voltar ao seu normal. Talvez estivesse sendo muito duro com ela…? Talvez não devesse ter gritado? Enfim, acabou puxando levemente a mão da garota para que ela começasse lhe seguir.

― Vamos, eu vou te levar pra casa.

E então os dois sumiram entre o pequeno aglomerado de adolescentes, fazendo os três rapazes que sobraram se entreolharem um tanto chocados com o que haviam acabado de assistir. Só havia algo maior ali do que o choque: o sentimento de curiosidade que crescia dentro deles.

― Primeiro o e agora o … O que tem nessa garota, afinal? ― questionou a si mesmo, largando os braços no balcão e a cabeça em cima deles.
― Ela só é irresponsável e precisa de supervisão. Agora vamos, eu quero me divertir hoje a noite!

♣♣♣


― Oppaaa!

perdera as contas de quantas vezes ouvira a garota falando isso em uma voz molenga e manhosa enquanto ainda tinha que segurá-la pela mão para guiá-la pelo caminho e vezes pela cintura porque ela dava indícios de tombar. Porém, ele sabia muito bem em qual dos “Oppa” sua paciência havia acabado, e nem precisara de tantos assim para que começasse a rolar os olhos.

― O que você quer agora? ― ele questionou, olhando para a expressão sonolenta da menor. Ela nem morava tão longe da escola, mas virar mais uma rua parecia uma tarefa quase impossível.
― Você nunca foi muito com a minha cara. ― temia que aquele assunto se iniciasse e sua respiração até mesmo se perdeu por alguns segundos quando ele apertou o passo para conseguir chegar mais rápido na casa da garota e poder deixá-la lá.
― Não comece com essas coisas, você sabe que não é assim que funciona e… ― parou de falar assim que percebeu que estava tentando se explicar pra uma bêbada. ― Vamos logo, sua casa é logo ali.
― NÃO! Eu quero falar agora. ― a teimou fechando a expressão em uma carranca meio falha, naquele estado o que conseguia era mais acabar sendo fofinha do que assustadora. ― Eu sempre fui legal com você, por que você nunca gostou de mim, Oppa?! Se nós tivéssemos dado certo eu nunca teria tido que fugir pra cá. Você podia ser meu herói.
― E-eu acho melhor você descansar. ― as bochechas do coreano começavam a ficar vermelhas aos poucos e ficava cada vez mais difícil de controlar a expressão quando ela se agarrava em sua camiseta e a puxava para baixo.
― P-Por quê?! ― mesmo meio sem jeito, quando chegaram à porta da casa da , ela acabou parando de frente a e o segurando pelos braços para prendê-lo - não que precisasse, porque ele não se mexeu, mantendo o contato visual e o obrigando a olhar para si.
― Você era uma colegial e eu estava na faculdade, como você queria que eu olhasse para você? ― o dono dos cabelos castanhos claro acabou estourando, mas ao menos ela não lembraria muito do que falasse no momento. ― Você era muito nova pra eu pensar em qualquer coisa que não fosse que você era irmã do meu melhor amigo.
― Foi por isso que você me ajudou, eu sabia. ― a suspirou, deixando o silêncio constrangedor cair entre eles e o clima se tornar bem mais sério. ― E agora? Eu ainda sou muito nova? ― a feição da menina se tornou até mesmo mais séria ao perguntar isso, mas em momento nenhum ela desviou o olhar dos traços delicados do garoto. E agora? Eu ainda sou muito nova?

O coreano foi pego de surpresa com aquilo e sentiu até mesmo suas orelhas esquentarem um pouco com aquela questão, tendo de respirar fundo diversas vezes enquanto pensava em como responder aquilo. Nem mesmo conseguia raciocinar direito com o que estava acontecendo ali, era demais para digerir em pouco tempo.

― Não é hora de conversar sobre isso. Você não está em condições. ― aquele tom de voz de sinalizava que ele não falaria mais nada do que já havia decidido, e ela não teve escolha se não abaixar a cabeça e aceitar, fixando os olhos no chão. ― Cadê a chave?

calmamente levou uma das mãos até o bolso traseiro da calça jeans que usava e pegou o que o rapaz pediu, já começando a andar para abrir a porta, mas acabou virando no meio do caminho ao perceber que o mais alto lhe seguia calmamente para dentro. Ela não entendeu bem o que aquilo queria dizer, talvez ele achasse que não fosse conseguir encaixar a chave na fechadura…?

Acabou estendendo a mão com o objeto para que pegasse, se era essa a preocupação ele mesmo podia abrir a porta. O homem ficou um pouco surpreso com a atitude dela, mas aquela expressão da lhe fez soltar um suspiro. Ela havia crescido, mas em situações como aquela ainda era a adolescente que havia conhecido. Não conseguiu resistir à vontade de puxá-la para um abraço mesmo que estivessem em um lugar exposto, a encaixando possessivamente em seus braços.

― Vamos, eu vou fazer um café pra você.

Cinco anos atrás


― Só me dê um minuto, eu vou buscar as documentações que a gente precisa acertar e então podemos ir pra empresa. ― avisava, apontando levemente para a escada que levava ao segundo andar da casa. ― Você pode sentar, fica à vontade.

apenas assentiu com a cabeça ao ouvir aquilo, indo até o sofá e se sentando. Não estava muito surpreso da casa nova de ser tão tecnológica, mas sinceramente esperava algo mais luxuoso. O amigo sempre lhe surpreendia e isso era bem engraçado, mas ele não devia estar querendo esbanjar muito por estar morando sozinho, afinal, apostava que a própria casa era o lugar que menos ficava.
Surpreendeu-se ao ouvir um clique na porta bem despretensioso, e logo após ela se abriu e revelou a imagem de uma garota de cabelos presos em um alto rabo de cavalo que lhe impedia de ver seu comprimento claramente, mesmo que ele tivesse cachos longos balançando e uma franja tigelinha cobrindo toda sua testa. Os olhos grandes e em tom de castanho avelã, cobertos por uma maquiagem que se podia dizer pesada demais para alguém da idade dela, olharam para os lados, desconfiada, mas não para a frente. Sobre a roupa completamente inadequada ele nem ia comentar.
Foi por isso que quando ela deu o primeiro passo após trancar a porta e viu sapatos masculinos em pés cruzados que seu coração quase saiu pela boca, fazendo-a arregalar os olhos e voltar o passo. Mas, ironicamente, estava tão surpreso e confuso quanto a garota que apenas colocou um indicador sob os lábios.
― Quem é você? ― mesmo ela tendo pedido silêncio, o rapaz de cabelos claros não obedeceu, mas tomou cuidado para seu tom de voz não sair muito alto.
― Irmã dele. . ― a respondeu em um sussurro, olhando para as todos os ângulos em desespero e tentando descobrir onde o irmão estava. Já havia visto fotos de e ouvido muitas histórias desde que ele e o irmão se conheceram, mesmo que provavelmente ele não soubesse muito sobre si mesma.
― O-Oh, você mora aqui? ― a menina assentiu com a cabeça lentamente algumas vezes, meio chocada, fazendo questionar o porquê então de tanta necessidade de silêncio. Isso até pensar um pouquinho e sentir o cheiro no ar. ― Onde é que você estava?
― E-Er, eu estava… Na casa de um amigo… P-Por favor, não conta pra ele! ― juntou as mãos em sinal de oração, o tom de voz quase subindo pelo desespero que sentiu em seu irmão descobrir aquilo.

Foi quando ouviu uma porta sendo fechada no andar de cima e sem pensar nem meio segundo, correu para trás do balcão da cozinha para se esconder atrás dele, rezando que tivesse compaixão - mas não muito confiante nisso, ouvira histórias o suficiente sobre o rapaz para ter noção da personalidade responsável que ele tinha.

― Algum problema? Ouvi você falando. ― questionou com uma das sobrancelhas arqueadas ao descer as escadas, um pouco confuso principalmente ao ver a palidez do mais novo.
― Ah não, era só o telefone. ― respondeu com um sorriso amarelo.
― Estava no vibracall? Não ouvi tocar. ― o mais alto voltou a perguntar, desconfiado com aquela expressão e jeito de agir do amigo.
― Sim, isso mesmo, estava! Mas não se preocupe. Preciso resolver uma coisa, é meio sério, mas posso conversar com a pessoa mais tarde. A gente marcou de se encontrar na cafeteria da praça quando estiver escurecendo. ― deu detalhes tanto para que a história soasse convincente tanto para que Haley entendesse o recado. Esperava que ela fosse tão esperta quanto o irmão.
― Ah sim, se precisar de alguma ajuda, você sabe.
― Relaxa, eu posso resolver sozinho. Mas então, é melhor irmos antes que nos atrasemos pra reunião.



Estava chovendo quando chegou à cafeteria. Esperava que não estivesse ficando louca do jeito que achava que estava e que aquilo que havia falado era mesmo para si, porque sair correndo na metade do caminho com os pingos grossos batendo em seus cabelos tinha que valer a pena.
Assim que pisou o pé embaixo da cobertura, teve de passar as mãos em meio aos fios longos para desembaraçá-los e ajeitá-los um pouco, ao menos sua franja estava presa em um tic tac e não tivera de se preocupar com ela. Ia também ver seu rosto no reflexo do celular para se certificar de que não havia nada borrado, mas ao colocar a mão no bolso para puxá-lo, sentiu alguém apertando levemente seu ombro.
estava ali, atrás de si e seus centímetros a mais que o deixavam ainda mais assustador em conjunto com a pouca expressão que ele carregava, apenas de sobrancelhas frisadas. Os cabelos perfeitamente penteados para trás e a cacharréu branca coberta por um sobretudo preto. havia se preparado psicologicamente para ouvir um sermão, mas ao vê-lo na sua frente daquela forma, ela paralisou quase completamente.

― Que bom que você entendeu o recado. ― o rapaz soltou o ombro dela após ver que já havia chamado sua atenção, maneando a cabeça para trás. ― Vamos entrar.

A apenas obedeceu silenciosamente, seguindo-o pela porta que fez um sininho tocar assim que foi aberta. Havia vários lugares vazios, mas seguiu rapidamente até um dos cantos mais escuros e afastados das portas e das janelas. não tirava sua razão, estavam perto demais de casa para se darem ao luxo de ficarem muito expostos.

― Então… Você pode pedir o que quiser. ― tentou quebrar o gelo que estava entre os dois, mas percebeu que não ia ser muito fácil quando a garota apenas assentiu com a cabeça timidamente e nem mesmo moveu um músculo, o fazendo respirar fundo.

Ser um bom melhor amigo era difícil, ele pensava. Mas estava fazendo a coisa certa.

― Eu não sabia que você morava com o .
― Acho que eu vou querer um café gelado mesmo. ― a desconversou com um sorriso de nervosismo, apontando discretamente pra placa que anunciava a sugestão do dia.
― Ah sim, tudo bem. ― arqueou uma das sobrancelhas com a repentina mudança de humor e assunto dela, mas não deixou de chamar o garçom para pedir dois cafés, mas o seu bem preto e sem açúcar. Do jeito que as coisas iam, provavelmente precisaria. ― E então?
― É que… É que faz pouco tempo. ― finalmente cedeu, soltando o ar logo depois como se um peso estivesse saindo de suas costas. ― O juiz liberou que eu morasse com o meu irmão por algum tempo para verem como ele se sai.
― E por que tanto segredo sobre isso? Ele não me disse nada… ― o coreano assumiu uma postura pensativa, colocando uma das mãos na testa e se esforçando pra entender.
― Nós queremos ser discretos, porque o meu tio quer a minha guarda de qualquer jeito como vingança ao meu irmão ter conseguido controlar o dinheiro que ele queria. ― a explicou parte da situação, respirando fundo logo após. Em sua ingenuidade de adolescente que achava saber de tudo, não sabia exatamente até onde aquilo ia. ― Pelo menos isso é o que eu especulo. O não me fala muito sobre esse assunto, ele acha que pode me traumatizar. ― com essas últimas palavras à garota até mesmo deu uma risadinha, como se já não fosse.
― Bom, você não vai ser discreta e nem ajudar seu irmão a conseguir sua guarda passando a noite fora escondida em festas. ― começou o sermão, fazendo os ombros da garota se encolherem levemente enquanto ela arregalava os olhos. Por sorte o café havia chegado e ela tentou disfarçar seu nervosismo tomando um pouco. ― E eu nem vou perguntar o que foi aquilo mais cedo, porque eu sei exatamente.
― Eu só estou cansada de ficar trancada em casa. ― a murmurou um tanto baixo, fazendo uma expressão desolada.
― Mas você vai ter que aguentar mais um pouco, . Antes trancada na casa do seu irmão do que na do seu tio. ― ela não pôde discordar disso e acabou sorrindo sem ânimo quando acenou positivamente com a cabeça. ― Mas não faça isso de novo, ok? Você pode me ligar se estiver sufocada.
― M-Mesmo?
― Sim. Mas, por favor, se comporte.



V - Mysterious

Passava do meio dia quando se obrigou a levantar da cama, mesmo que praticamente se arrastando vagarosamente até o guarda roupa sem nem mesmo abrir os olhos direito. Já estava acordada fazia algum tempo esparramada na cama, mas não havia se dado ao trabalho de perceber que infelizmente continuava viva depois daquela vergonha tenebrosa que passara na noite anterior.

E eles diziam que bêbados não lembravam.

Quem dera.

Se ela ao menos conseguisse fingir que estava bêbada o suficiente para não se lembrar do que havia falado durante a noite, não teria problema algum, mas não tinha a capacidade mental de não ficar vermelha até as orelhas ao ver , não por agora, e provavelmente não teria tão cedo também. Imaginava que ele já soubesse do seu amor platônico e por isso mantinha aquela distância segura entre eles, mas sinceramente, uma confissão não era nada que nenhum dos dois estava precisando no momento.
Teve vontade de tentar se afogar no chuveiro mais de uma vez, mas sobreviveu veementemente a tentação, vestindo o pijama de ursinho sem nem mesmo se importar se havia acabado de acordar e já era hora do almoço. Não ia ver ninguém aquele dia e esperava que ninguém invadisse sua casa hoje, então não tinha problema andar por ai de camisola, certo? CERTO???

Exatamente, errado.

Dessa vez não fora exatamente uma invasão, mas entre todas as que ocorreram naquelas semanas, fora a coisa que mais lhe fez se arrepender em ter sobrevivido ao banho de alguns minutos atrás, e ainda era tarde demais pra correr de volta ao quarto porque já havia sido vista - o que não lhe impediu de o fazer e ela trancou a porta como quem foge do próprio assassino.
Mesmo que a opção de se trancar no quarto durante o dia todo até ouvir o barulho da porta da frente sendo aberta e fechada fosse completamente viável em seu pensamento, sabia que ele bateria na sua porta mais cedo ou mais tarde e não teria escolha se não sair dali. Então acabou cedendo, mesmo que tenha demorado meia hora pra isso, colocou uma roupa decente a qual podia ser vista publicamente e respirou fundo diversas vezes antes de finalmente sair do quarto.
Qual a sua surpresa quando não viu ninguém mais ali? já havia saído sem fazer barulho algum, e ela começara a duvidar se não estava ficando completamente louca e na verdade aquilo não fora uma alucinação…? A única coisa que não lhe deixou ter certeza disso foi ver em cima do balcão uma xícara de café preto ainda com fumaça subindo, ao lado de algumas torradas.
Embaixo do prato branco havia um papel com uma caligrafia redonda e bem feita, formando um número de telefone anotado em conjunto com uma frase que lhe fez sorrir pra si mesma, sentindo suas bochechas esquentarem mais uma vez. “Me ligue se estiver sufocada”.

É, talvez não fosse mais tão nova.

♣♣♣


O sábado passou rapidamente depois desse episódio, e ficou durante ele todo largada no sofá assistindo série nova aleatória na televisão, aproveitando que podia adiar algum tempo os trabalhos já que teria o domingo inteiro para estudar. Seu humor se manteve extremamente agradável e nem mesmo quando acordou no domingo e se lembrou de que deveria passá-lo ao lado de isso mudou.
Quase deixara passar que haviam combinado de fazer todos os deveres de uma vez naquele dia para que não tivessem que se aguentar mais do que o necessário, mas daquela vez ele não seria capaz de mudar seu humor e nem mesmo lhe estressar, na verdade estava crendo que nada seria por um bom tempo.
Ao menos havia aprendido como chegar aos terraços na sexta-feira passada, mesmo que não se agradasse andar naqueles malditos elevadores por mais tecnológicos e supostamente seguros que eles fossem. Diferentemente do dia da festa, agora todas as lojas do local estavam abertas, assim como o teto estava aberto para que a luz solar o iluminasse.
Pela segunda vez a garota não pode deixar de ficar um tanto abobalhada, aquela realidade alternativa era muito mais impressionante do que pensara quando resolvera entrar nela, e não tinha problemas em aproveitar a vista por agora. Mas não demorou muito, ainda tinha a missão de achar a biblioteca no meio daquele lugar imenso.
lhe dissera que era fácil de achar e ficava no segundo andar, mas sinceramente ao olhar o segundo andar a única coisa que prestou atenção foi o letreiro enorme do McDonalds. Saíra de casa tão apressada que nem mesmo tomara café, mas não era agora que poderia o fazer - ainda estava atrasada.
Lentamente se arrastou até a escada rolante, segurando firme no corrimão enquanto ela subia para encontrar a enorme biblioteca de estudos assim que a escada chegou ao fim. Era praticamente metade daquele andar e entendeu rapidamente porque dissera que a acharia facilmente, mas sinceramente, quem conseguia se concentrar nos estudos tendo um fast food tão perto? Aquilo era muito mal projetado!

― Heeey, você ainda tá dormindo? ― a voz de ao fundo de sua mente lhe despertou parcialmente do seu estado estático de fome, a fazendo erguer a cabeça para procurá-lo.

O infeliz estava encostado em uma das colunas de sustentação do meio do espaço, com a mochila meio caída pro lado por estar apoiada em um ombro só e bebendo algo que parecia ser café, com um sorrisinho de canto provocativo em sua direção após ter lhe chamado. O lugar não estava muito cheio talvez por causa do horário - quem em sã consciência ia estudar às dez horas da manhã do domingo? - ou apenas por ser um local grande demais para apenas cem alunos, então o único em sua linha de visão era o , e ela não demorou em se aproximar dele apenas para ter o prazer de passar reto.

― Bom dia pra você também. ― ela direcionou um polegar levantado para ele, indo até a recepção do lugar para se identificar e pegar a autorização de entrada.

O ficou por um minuto no mesmo lugar, tentando entender o que diabos tinha acontecido ali, e quando percebeu que devia ter tido sonhos muito bons ele simplesmente a seguiu, fazendo o mesmo que ela para pegar seu passe livre.

― O que aconteceu com você? A festa não acabou quando o te levou embora? ― apesar da conotação errada que aquilo poderia ter, falou com uma expressão tão inocente e curiosa que não conseguiu dar o esporro que ele merecia por cogitar algo assim.
― O que você quer dizer com isso? ― a arqueou uma das sobrancelhas em dúvida se ele queria mesmo dizer o que estava pensando. Ela realmente não sabia se ele estava apenas interpretando para zoar com a sua cara ou aquela inocência era verdadeira.
― Eu não sei, você que responde! Da onde vem esse bom humor? ― um sorriso de canto surgia nos lábios do , mas ele se esforçava para parecer inocente e assim não acabar sendo agredido.
― É melhor você parar de perguntar se não quiser que ele vá embora. ― a respondeu com um sorriso de canto sarcástico, pegando o crachá que a mulher deixara na mesa e então saindo em direção a uma das muitas mesas vazias.

Mesmo que ambos estivessem mantendo a política da boa vizinha naquele dia e os humores beirassem o amigável, as horas do dia se arrastavam tão lentamente e tediosamente enquanto estudavam Matemática que era impossível não se encher, principalmente porque odiava aquilo com todas as suas forças e estava morrendo de fome.

― Sinceramente, você não odeia matemática? ― perguntou confuso ao olhar todos os cálculos corretos na folha que ela lhe passara, enquanto a concentradamente analisava os seus.
― Com todas as forças da minha alma. ― ela murmurou, concentrada no papel que segurava entre os dedos indicador e anelar.
― Então como todos os seus cálculos estão sempre certos? ― o indagou completamente inconformado com aquilo. Não era possível que ela realmente fosse assim tão boa em tudo!
― Ah, isso é só uma coisa que eu estudei lá fora. ― a mexeu a cabeça para trás como se sinalizadas onde era “lá fora”. Em partes, não era mentira. realmente estudara tudo aquilo fora daquele lugar. Ele não precisava saber que ficara noites e noites estudando o cálculo de área e volume quando queria entrar no vestibular.
― Oh, a sua escola estava mais adiantada que aqui? ― ficou ainda mais perplexo do que antes ao ouvir aquilo. Os rumores eram que não havia educação à frente da Orkan, a já saber de algo que ainda estavam aprendendo era no mínimo chocante.
― A-Ah, não, eu estudava em casa. ― tratou de desconversar quando percebeu que havia sido pega e falado demais, forçando uma expressão decepcionada e então tentando voltar a se concentrar, deixando o apenas soltar um aaah.
― Nós estamos quase acabando, quer parar pra comer alguma coisa? ― questionou quando terminaram de resolver todos os cálculos, vendo que faltava apenas o trabalho de Literatura e o de Biologia.

Sinceramente estava esperando a oportunidade de falar aquilo desde a hora que se sentara ali. Não aguentava mais ver os adolescentes rindo e comendo felizes tão perto de si e não poder fazer o mesmo - só a parte de comer - portanto assim que o garoto falou aquilo a se levantou, concordando.
Os dois foram até a fila em silêncio e apenas falaram para fazer seus pedidos, mas era um silêncio diferente do que costumava rondá-los, ao menos para . Geralmente, o silêncio entre eles era ambos se ignorando mutuamente, mas o ficara curioso desde quando se lembrou que ela passara sua vida toda do outro lado e a chamara pra comer justamente para perguntar. Ele queria saber como estava, como era. Nem mesmo lembrava mais de como sua cidade parecia.
Mas claro que ele sabia que lidar com a não era tão simples, mesmo que ela estivesse de bom humor, ainda duvidava que ela fosse lhe responder tão facilmente. Mas não teria chance alguma se não perguntasse, e foi por isso que respirou fundo assim que terminou de tomar seu refrigerante e criou coragem.

― Como é… Lá fora? ― a voz de saiu baixa e melódica, completamente doce, como uma criança. não deixou de sorrir de canto, estava esperando ansiosamente a hora que ele lhe questionaria aquilo.
― Entendi porque você invade a casa das pessoas. A curiosidade é muita, não é? ― e claro que ela já tinha a resposta na ponta da língua, assim como havia mentalmente ensaiado os gestos e agora cruzava os braços em frente aos seios, encostando as costas na cadeira folgadamente.
― Mas você ainda não superou isso?! ― o bateu levemente as costas contra a madeira da cadeira para assumir a mesma postura que a garota, tão revoltada quanto a dela. ― O que é que você quer que eu faça pra esquecer isso de vez?!
― Ah, não sei. Pedir desculpas talvez seja bom, pra começar. ― a falou com um sorriso aberto e irônico, irritando ainda mais o asiático.
― Me desculpe, fiquei preocupado achando que a sua caixa de luz estourando podia causar um incêndio no bairro. Eu não planejava te matar nem nada, porque eu nem sabia que você existia. Se sente melhor agora? ― discursou completamente a contragosto, revirando os olhos no final.
― Na verdade não, você nem está se esforçando. ― a pegou uma batata frita com uma expressão chateada, como se quisesse vê-lo sofrer, mas acabou desistindo após colocar a batata na boca e ver o rosto de .

Ele estava genuinamente curioso, e mesmo que achassem o pior ser humano da face da Terra, ela ainda tinha sentimentos. Sua expressão acabou suavizando e ela se rendeu, levando uma das mãos ao bolso para pegar seu celular e colocar a senha, mexendo nele por alguns segundos até levantar a tela na altura do rosto do menino.

― Essa foi à última foto que eu tirei em um lugar aberto antes de vir pra cá. Foi na Torre Eiffel. É assim que o mundo é, provavelmente a mesma coisa que você lembrava. ― mostrou entediada, cansada de segurar o celular pra cima. ― Você pode pegar pra olhar direito. ― queria logo ter as mãos livres para voltar a comer.

obedeceu, ainda completamente abobalhado por saber que ela havia estado lá, esquecendo completamente dos rumores de que ela vinha da França. A garota estava de costas para a câmera, com o corpo direcionado ao monumento que estava bem afastado dela já que aparecia completamente na fotografia, e o rosto virado para trás com uma careta feia, provavelmente nervosa com quem havia a chamado para olhar para a foto.
Não resistiu a curiosidade e deslizou o dedo para o lado, voltando para a imagem anterior e vendo uma foto que julgou ser do mesmo dia já que a iluminação era a mesma e a garota usava a mesma roupa. estava novamente à frente da Torre, abraçada a um homem de terno e óculos, de cabelos pretos e olhos em um castanho avermelhado igual aos dela. Pensando bem, ele lembrava daquela foto!

levantou a mão na direção do amigo, mão essa que segurava um celular tão recente quanto os deles com a foto de uma garota abraçada a um rapaz moreno, fazendo com que ambos arregalassem os olhos.”

― Quem é esse cara com você na foto?! ― o questionou curioso, um sorriso de canto malicioso repuxando o canto de seus lábios enquanto levantava o celular levemente para que ela visse do que se tratava.
― H-Hey, eu não disse que você podia passar de foto! ― a garota falou frisando as sobrancelhas, erguendo a mão para que ele devolvesse o aparelho.
― Desculpa, não resisti. ― deu um sorriso amarelo, tentando amolecê-la.

apenas ficou em silêncio e suspirou, pegando o celular e sem querer esbarrando na tela e trocando outra vez a foto, o a viu um tanto borrada, mas ainda deu tempo de reconhecer uma terceira figura que estava entre e o homem desconhecido, mesmo que não lembrasse exatamente de quem era.

― Então…? ― questionou após algum tempo passar, ainda curioso com o que havia perguntado mais cedo. enquanto terminava seu refrigerante apenas ergueu os olhos em confusão.
― A-Ah, é meu irmão mais velho. Mas não pergunte mais nada sobre isso, eu não vou responder. ― fora a primeira vez no dia que a mulher de cabelos usara um tom de voz tão duro, e a expressão séria que ela adotou deixou claro que aquele assunto não era para ser trazido à pauta.
― Vamos voltar então, ainda temos algumas coisas pra fazer. ― o garoto respirou fundo para criar coragem, levantando logo após e vendo que também levantou, mas foi pro lado contrário ao seu.

Mesmo que tenha gritado para que ela voltasse, logo a voltava da fila do fast food com dois milkshakes na mão, dando um para o garoto sem nem olhar para o lado e segurando o outro, voltando a andar como se nada tivesse acontecido.

― O-O…
― Cala a boca, não fala nada. Isso nunca aconteceu.

♣♣♣


era uma pessoa estranha.

Era essa a conclusão que chegara após duas horas, trocando de lugar da casa a cada cinco minutos. Já ficara no quintal observando a casa vizinha, na janela de seu quarto, na cozinha, na sua cama, e agora estava deitado no sofá olhando o teto completamente sem rumo. Desde a hora que os dois se separaram no shopping - mesmo sendo vizinhos eles não voltaram juntos e apesar da ter dito que iria fazer compras, ele tinha certeza que era apenas para evitar passar mais tempo consigo - o não conseguia pensar em nada que não fosse ela, e isso eram quatro da tarde, agora já eram praticamente seis e meia.
era uma pessoa misteriosa, também.

A forma que ela agia era no mínimo intrigante e ele havia sido fisgado, mal conseguira se concentrar direito em seus estudos depois que voltaram do “almoço”, sendo pior em Literatura do que já era normalmente. Uma hora doce e até mesmo um pouco sociável e do nada se tornava uma praga assustadora, o não conseguia raciocinar direito e formar uma opinião definitiva sobre ela como tinha no começo da semana, alguém digna de seu desprezo.
Ela podia ser uma pessoa ruim ou podia ser uma pessoa boa, podia ser uma fugitiva como diziam, ou simplesmente uma garota superestimada. E agora após conviver um pouco com a , ele realmente não conseguia identificar em qual das duas opções ela se encaixava mais. Isso porque nem começara a comentar sobre aquela terceira foto, a qual tinha certeza de que conhecia a outra pessoa nela.

― Ihh, acho que os estudos foram bem proveitosos. ― provocou com um sorriso de canto ao ver a expressão confusa e pensativa de .
― Estou pensando em Literatura. ― o asiático respondeu com uma expressão mais séria do que o normal, levantando e passando pelo amigo apenas para bagunçar levemente seus cabelos. ― Vou tomar um banho.

não pôde deixar de sorrir para si mesmo quando subiu as escadas para o quarto. Sabia bem que a última coisa a qual ele estaria pensando agora era literatura.

♣♣♣


Aquele final de semana passara mais rápido do que estava esperando, e curiosamente ao se levantar na segunda feira ele se sentia tão bem humorado quanto a um bom tempo. Fingiu não saber o motivo, mesmo que soubesse, e se vestiu como em todas as outras vezes, saindo um pouco atrasado porque não conseguia lembrar onde havia deixado algumas folhas de anotações importantes para a aula de biologia, vulgo colas inteligentes que roubara de no dia anterior.
A rua estava vazia por ter saído depois do horário, mas isso não era um problema para o que seguia aquele caminho já faziam praticamente cinco anos diversas vezes por dia. Seus passos eram tão decorados que podia fazê-lo de olhos fechados e chegaria ao Colégio completamente intacto nos três minutos que demorava.
O que lhe surpreendeu foi a primeira cena que viu ao chegar ao local, com e logo na porta enquanto o rapaz a puxava levemente pelo pulso para que ela o seguisse e ela parecia um tanto atônita. E foi aí que ele conseguiu reconhecer a terceira pessoa naquela foto. Entre e o dito irmão dela, estava .



VI - Troublemaker

― Eu te disse que isso não ia dar certo, . ― fazia questão de repetir a frase que mais dissera durante aqueles três meses e meio, e também que sempre fazia a garota fazer aquela expressão amuada que o desarmava completamente. ― Seu irmão me ligou e perguntou se eu tenho alguma ideia de onde você está. Vai saber se ele já não sabe e estava me dando a última chance de contar a verdade? Você sabe a situação que está me colocando?
― M-Mas não foi você quem me colocou aqui, , foi o ! ― ela tentou contornar a situação, como se aquilo amenizasse de alguma forma o que estava acontecendo. ― Você não sabia de nada até me ver, ele não pode brigar com você.
― Não faz diferença, o vai descobrir que eu sei agora e escondi dele e isso acabaria com a nossa amizade, agora eu estou envolvido nisso querendo ou não. ― ele passou uma das mãos nervosamente pelo cabelo, tentando manter a calma.
― Oppa, eu vou dar um jeito nisso! Eu vou consertar as coisas, eu juro, só me dá um tempo, até tudo se acalmar e o meu tio desistir da ideia de… ― engoliu em seco ao lembrar do que fugia, respirando fundo. ― Você sabe… Só mais um tempo.
― Nós não temos tempo,
― Nós temos, eu vou dar um jeito! Por favor, , eu estou implorando. ― a garota se aproximou alguns passos do mais velho, se controlando para não fazer nada que pudesse ser interpretado errado e por isso apenas o obrigando olhar fundo nos seus olhos com aquela proximidade que chegava a ser incômoda naquela situação, discretamente segurado a mão do rapaz que estava caída ao lado do corpo.

Os minutos passaram e nenhum dos dois parecia querer se afastar ou acabar com aquela tortura. sabia que sua resposta seria dada quando se afastasse e estava pesando bem na balança tudo o que podia perder se decidisse continuar ajudando . Mas não podia deixar com que a vida dela acabasse daquela forma também, era tão cruel… Os olhos dela brilhavam tanto em esperança, ao mesmo tempo em desespero. Suspirou.
A sempre lhe trazia problemas. Quando aprenderia que ela tinha que lidar com as coisas de forma adulta?

― Você vai ficar no meu apartamento por duas semanas, vai ser mais fácil lidar com a situação assim. É esse o tempo que vai ter pra decidir o que fazer. Depois disso eu não vou mais colocar minha mão em nada, . Quero que sejamos próximos, mas não quando você quer viver em uma mentira, fugindo de tudo. ― claro que aproveitou para puxar a orelha da mais nova no processo.
… Obrigada. ― mesmo com a bronca ela não se controlou, acabando com o espaço entre eles em um abraço que a fez sorrir largamente ao entrelaçar seus braços em seu pescoço. ― Mas eu queria saber que opção eu tenho se não fugir de tudo?

♣♣♣


Aquela garota era um problema, e um dos grandes. Sabia que devia se manter o mais longe dela possível, mas não conseguia. Era daqueles problemas tão grandes que engolia tudo ao redor, incluindo sua consciência e seu juízo. Ela havia levado os dois e agora estava atrasado completamente absorto em seus pensamentos, perdendo aula enquanto andava calmamente até o colégio quando devia estar correndo.
Tinha um seminário de História da Arte para apresentar com , mas sinceramente depois do que havia descoberto, ouvido e visto há minutos atrás não tinha cabeça para se concentrar em discursar em frente a classe, principalmente ao lado dela. Apesar de sua cabeça estar girando em diversas direções diferentes por tantas informações novas em um curto espaço de tempo, algumas coisas começavam a fazer sentido.
De início não entendera porque estava em uma foto com ela e com o irmão dela, mas agora entendia a proximidade dela com ele, mesmo que essa aparentasse ser bem mais que uma simples amizade, o que era reforçado quando lembrava daquela foto deles que não saia de sua cabeça desde que descobrira a identidade de quem era a terceira pessoa. também estava envolvido na história, apenas piorando o nó em seu cérebro. O que estava acontecendo afinal, o que ela escondia e por que estava fugindo?

― YA, SEU INFELIZ! ― não bastava apenas pensar na garota, agora ela fazia questão de se materializar ao seu lado ofegante e com o rosto vermelho de irritação, batendo em sua cabeça fortemente assim que gritou e lhe fazendo ir com o corpo pra frente, quase perdendo o equilíbrio.
― V-VOCÊ É LOUCA!
― VOCÊ ACHA QUE EU VOU DEIXAR VOCÊ FERRAR A MINHA NOTA?

Aquele choque de realidade o atingiu como um caminhão na pista, lhe fazendo ficar parado encarando a vestida com o uniforme a sua frente, enquanto suas mãos estavam aonde ela batera e ficara dolorido. Por que ela se importava? Ela realmente era uma estudante normal? Se ela pretendia ir embora, por que estava se esforçando? Ali, duas escolhas se abriam para o que estava em transe. Fingir que não havia visto nada ou confrontá-la. E após pensar um pouco, ele soube bem qual escolher.

― Desculpa… Eu não estou me sentindo bem hoje… ― havia uma verdade tão palpável no tom de voz dele que até mesmo vacilou a postura por alguns segundos, arregalando os olhos levemente.
― O que foi? ― mesmo que seu tom fosse rude e ela estivesse cruzando os braços a frente dos seios como quem não se importava, sabia que ela estava sim preocupada, o que piorava a cada segundo mais o estado de sua cabeça. Daqui a pouco estaria mesmo passando mal de verdade.
― Eu… Só estou tonto. Acho que perdi um pouco o rumo. ― usou a primeira desculpa que veio em sua mente, colocando a mão na testa dramaticamente como se estivesse novamente tendo uma crise.
― Se estava doente que ficasse em casa e me mandasse uma mensagem! Vai, você devia ir pra enfermaria agora e dormir um pouco. ― suspirou desanimada em ter que falar aquilo para o mais novo que parecia até mesmo estar mais pálido. ― Eu vou com você até lá.
― N-Não, não precisa! ― sinceramente, a última coisa que precisava agora era da presença constante da perto de si, porém a parte de dormir na enfermaria era uma boa. ― Vai lá e apresenta, você deve conseguir sozinha. Eu consigo ir até a enfermaria, é no térreo mesmo. ― tentou até mesmo sorrir um pouquinho para convencê-la, mas a garota não parecia muito confiante. ― Sério, vai lá, !

Aquele aegyo em combo com seu apelido a pegou completamente desprevenida, mas fora tão desnecessário para a mais velha que a fez na hora olhar como se ele estivesse completamente louco e suas bochechas até mesmo ficaram um pouco vermelhas de raiva. Ela não iria deixá-lo sozinho nem mesmo depois dele ter perdido, porém após daquilo ele merecia mais é cair com a cara no chão e rachar aquele rostinho bonitinho que estava com vontade de socar.
Então, apenas deu as costas e saiu andando com passos fortes, jogando o cabelo para o lado ao passar por ele. O suspirou desanimado, assistindo-a se afastar e massageando sua têmpora ao mesmo tempo que suspirava. Um problemão daqueles, bicho, como ia fazer para se livrar de que não saia de sua cabeça?

♣♣♣



estava com o coração dividido em sentimentos diferentes naquele momento enquanto arrumava suas malas a mando de . Estava metade assustada em pensar que seu irmão e seu tio já estavam se esforçando para lhe achar de um jeito que chegava a ser perigoso para sua fuga, mas também estava como uma adolescente apaixonada em pensar em ficar debaixo do mesmo teto que sua paixão de infância, além de um pouco de medo por isso também…
Nenhum dos dois pensou direito no que implicava o que haviam combinado mais cedo. Eram um homem e uma mulher e como haviam conversado, talvez não fosse mais a mesma criança de alguns anos atrás quando se conheceram. Talvez aquela situação fosse o que precisavam para que a visse finalmente com outros olhos, e sinceramente, estava disposta a aproveitá-la.

― Você vai ficar no meu apartamento por duas semanas. ― engrossou a voz, falando para si mesma enquanto começava a rir abobalhadamente logo depois, as bochechas esquentando. ― Quero que sejamos próximos. ― fazia a mesma coisa, rindo ainda mais.

Sabia que havia outras palavras entre essas, mas seu cérebro as extraiu deixando apenas o que lhe interessava. Fechava a última mala aos risos, a levando calmamente até a sala que observou com atenção, se despedindo silenciosamente e então sentindo o desespero novamente. Não sabia se conseguiria voltar para ali e continuar com a rotina que se acostumara a ter naqueles últimos meses, não sabia se seria encontrada.
Mas tinha conhecimento de que era uma mentira. Mas era uma mentira bem mais agradável do que a realidade, que queria se agarrar até não ter mais forças… Andou pelo balcão da cozinha, suspirando e então chegando até a porta que levava ao jardim. Não a abriu, mas pelo vidro viu que a luz do quarto dele ainda estava ligada, o que fez sua expressão se fechar. Depois ficava se sentindo mal na aula, mas apostava que estava vagabundando até agora, que já eram três da manhã, ao invés de ir dormir.
Revirou os olhos, ouvindo o celular tocar e vendo a mensagem de que havia chegado para lhe buscar. Aquele horário era o que podiam ser mais discretos, então ele estacionou com os faróis desligados, descendo do banco do motorista para ajudá-la com as malas. Escondia o rosto com uma máscara e um boné, assim mesmo que algum aluno os visse, não saberia quem ele era.
não podia evitar sorrir, principalmente quando entrou no carro do lado do carona. Era como se estivesse finalmente realizando seu sonho de adolescente em estar daquela forma com o mais velho, porém se esquecia do contexto que estavam e de olhar ao seu redor, não vendo que estava na janela de seu quarto agora com as luzes desligadas, observando o carro dar partida pela rua e sumir pelo horizonte.
O suspirou desanimado. Até quando não queria ela estava se tornando presente em sua rotina… Mas havia muitas coisas que não queria. Queria não saber para onde estava indo. Queria não se importar e muito mais, queria não começar a imaginar o que os dois fariam sozinhos naquele apartamento, por mais que soubesse que eram apenas medidas necessárias na situação que estavam. Ele queria não saber disso também.
Já fazia algum tempo desde que havia chegado ao apartamento de e estava sentada em seu sofá ainda sem coragem de nem mesmo olhar direito para a decoração do local. Só se lembrava de que era no sétimo andar e que o perfume dele estava incrustado em exatamente todos os cantos, todos os metros quadrados. Como seria capaz de lidar com aquilo? Não via nenhuma opção que lhe ajudasse, principalmente ao vê-lo aparecer no corredor agora sem o boné e a máscara que provavelmente deixara guardados, após levar suas malas também.
Os cabelos lisos em tom de castanho claro estavam despenteados caindo sobre o rosto e as bolsinhas embaixo do olho mostravam que ele ainda não havia dormido nada, o deixando ainda mais charmoso. Ao contrário do que acontecia com a maioria das pessoas, a cada ano que passava, a cada dia ele ficava mais bonito. Arriscava dizer até mesmo que a cada minuto que o olhava.

― Vamos, você precisa dormir… Nós precisamos. ― suspirou com aquilo, o cansaço do dia de trabalho e todas as preocupações parecendo se acumularem em suas costas. ― Você vai ficar no quarto de hóspedes. É dividido com o meu escritório, mas não acho que seja desconfortável, só não é a sua altura.
― A minha altura? ― se levantou rapidamente quando viu que o amigo já se dirigia ao seu mais novo quarto. ― O que você quer dizer com isso?
― Que eu não esperava receber uma mulher na minha casa. ― ouvir pronunciar aquela palavra se referindo a si a fez parar no corredor de olhos estatelados, o encarando em choque. Ele havia mesmo lhe chamado de mulher? ― Principalmente uma de alto nível como você, então não preparei nada. Espero que não se importe.

Ele abriu a porta do quarto de hóspedes e ergueu a mão para sinalizá-lo para ela, guiando os olhos da maçaneta para a garota. precisou de alguns segundos para se recuperar do que havia ouvido, suas bochechas vermelhas e a respiração descompassada. a deixara completamente louca com apenas uma palavra, não queria nem pensar em como ia dormir…

― Isso não importa, eu me sinto confortável em qualquer lugar que não seja a casa do meu tio. Achei que soubesse que eu não tenho essas frescuras. ― fez questão de frisar quando finalmente conseguiu formular uma linha de raciocínio novamente que não envolvia agarrá-lo. ― E você sabe, … ― deu alguns passos em frente, parando dois antes do rapaz e sorrindo. Um sorriso raro que o homem não via há muitos anos e o fez até mesmo ficar surpreso. ― Eu me sinto segura que eu esteja com você. Muito obrigada por tudo o que você sempre fez por mim desde quando nos conhecemos. Eu nunca vou esquecer.

tentou ficar sério e manter sua postura tão rígida quanto era normalmente, mas naquela hora nem ele mesmo aguentou e o canto de seu lábio se repuxou sem permissão enquanto analisava aquele sorriso de . Podia sentir que ela estava realmente feliz com aquela espécie de liberdade e por estar ali, fora das garras do tio, e isso o deixava satisfeito em ter feito todas aquelas coisas. Levou uma das mãos até o ombro da mais nova, se aproximando um passo.

― O meu quarto é na porta da frente se precisar. ― e então beijou o meio de sua testa protetoramente, demorando alguns segundos talvez desnecessários por ali. ― Boa noite, .

Quando acordou, se perguntou como conseguiu dormir mais que cinco minutos naquela noite. Apenas se lembrava de tantos pensamentos cruzados que quase lhe fizeram ter uma crise de ansiedade durante o tempo que deveria descansar, e agora o sol que passava entre a fresta da cortina incomodava um pouco seus olhos, em combinação com as batidas apressadas na porta que de início quase a causaram um ataque do coração até relembrar tudo o que havia acontecido.
Estava na casa de . E ele ainda estava batendo na porta.

― J-Já acordei! ― anunciou um tanto preguiçosa, passando as mãos pelos olhos ainda meio fechados.
― Sai logo ou o café vai esfriar.

Aquilo fez com que ela sorrisse de canto ao murmurar qualquer coisa em concordância. estava lhe mandando sair logo, não? Então não ia ter tempo de trocar de roupa, não é? Fez questão apenas de ir até o espelho que ficava no criado mudo embutido no armário e arrumar os cabelos para que não parecessem muito bagunçados, checando também se seu rosto não estava muito amassado para logo depois sair do quarto.
Saiu como se não estivesse vestindo apenas uma camiseta de seu irmão larga e comprida o suficiente apenas para cobrir a cueca feminina que usava com detalhes de renda, que aparecia a cada movimento brusco que fazia com os braços já que a camiseta subia. Sentou-se na cadeira a frente do mais velho como se ainda estivesse dormindo e observou a mesa posta demoradamente, apenas para algum tempo depois olhar para e se dar conta que ele estava concentrado mexendo no celular e nem mesmo olhara para si ainda.
Todo aquele Teatro e ele nem mesmo havia lhe olhado, nem mesmo erguera o rosto para dar bom dia. Sentou-se calmamente, mesmo que por dentro quisesse muito xingá-lo e quase o fez, se controlando apenas com uma mordida forte na parte interna de sua bochecha, enchendo a xícara inteira de café até a borda, sem nem se importar se não era assim tão fã de café, sentia que para manter sua sanidade convivendo com , precisaria de algo forte e álcool no momento não era uma opção.

― Eu acordei mais cedo e já me arrumei, então você pode ficar à vontade. ― o mais velho falava tranquilamente, ainda sem nem mesmo desviar os olhos da tela. ― Vou te esperar pra sairmos juntos, mas não se atrase.
― Tudo bem. ― respondeu apenas em um falso tom simpático que era bem perceptível. ― Eu vou tomar um banho. ― anunciou após virar a xícara completamente e respirar fundo.

Seguiu o caminho até o corredor sem olhar para trás porque sabia que ele não estaria olhando de qualquer jeito, entrando no banheiro e trancando a porta. Assim que ouviu o barulho da fechadura, jogou o celular na mesa e passou as mãos pelo rosto em desespero, limpando até mesmo algumas gotas de suor que ameaçavam escorrer pela sua testa.
O que aquela garota estava tentando? Tirar sua sanidade? Se continuasse fazendo aquilo não seria nada fácil. E alguma coisa em sua mente dizia que ia ser pior e ela ia fazer muito mais, aquilo fora apenas um presságio.
Tiveram de ser discretos quando chegaram no Colégio, quinze minutos mais cedo do que o horário de entrada para que tivesse o menor número de pessoas possíveis no estacionamento aos fundos do prédio. fora deitada no banco de passageiros atrás, assim ninguém a veria quando estivessem passando, e discretamente saiu pelo lado do muro quando estacionou.
Quando o rapaz também desceu do carro, os dois até mesmo respiraram aliviados, estavam crentes que estavam seguros quando a garota se virou para entrar no prédio do Colégio e deu de cara com . Ele estava com um sorriso malicioso nos lábios, mas na realidade não parecia assim muito feliz de ver aquela cena.

― Bonito, ein? Que bonito! Que cena mais linda, será que eu estou atrapalhando o casalzinho aqui? ― o amigo começou a dramatizar, cruzando os braços na frente do peitoral e então olhando feio para os dois.
, não é nada do que você está pensando… ― espalmou as mãos no ar. tudo bem saber daquilo, mas estava em choque pelo medo de alguém chegar ali e ver a situação.
― ISSO ME FAZ PENSAR QUE É EXATAMENTE O QUE EU ESTOU PENSANDO! ― o grito do rapaz fez se precipitar sobre ele, já com a mão erguida para tampar aquela boca grande.
― Não é NADA, NADA do que você está pensando. E nós podemos explicar tudo se você calar a boca. Mas não aqui, e não agora. ― sério e direto como sempre, falou em um tom firme que apenas fez com que o amigo ficasse de revoltado para extremamente preocupado.
― O que está acontecendo que eu, seu melhor amigo, não sei? ― após se desvencilhar da mão que cobria seus lábios e abafava sua voz, agora virou sua fúria para que estava com os ombros encolhidos assistindo aquela cena.
― Você vai à minha casa depois do horário de aula e nós vamos te contar. Mas agora não é o momento. ― voltou a falar pela , apontando discretamente para a entrada do colégio onde não podiam ver, mas podiam ouvir as vozes dos alunos que começavam a chegar.
― Tudo bem, mas eu quero saber todos os detalhes do porquê vocês passaram de duas pessoas que evitavam uma a outra pra estarem chegando juntos no mesmo carro. ― e então ele entrou no pátio, deixando e sozinhos novamente.

A suspirou desanimada, ouvindo o sinal tocar anunciando que devia ir para a aula, mas toda sua empolgação fora embora após aquela pequena discussão com o . É claro que pensara no rapaz antes e queria contar para ele, mas aquilo era sério demais para simplesmente mandar uma mensagem e queria falar pessoalmente, porém antes que pudesse ele mesmo viu. Entre seus pensamentos confusos, sentiu uma mão pousando em seu ombro e ao abaixar os olhos do céu até sua frente, viu sorrindo para si.

― Vai ficar tudo bem, não fique desanimada. ― o homem incentivou, apertando carinhosamente seu ombro para reforçar que ele estava ali. ― Agora vá pra aula antes que desconfiem mais de nós do que já desconfiam.

soltou uma risadinha com aquilo, concordando com a cabeça calmamente e então obedecendo, se misturando aos outros colegas que já estavam andando pelo pátio ou esperando o elevador para irem até suas salas. Olhou para trás, buscando ver uma última vez, mas ele já não estava mais lá, a fazendo suspirar outra vez.

― Por que pessoas apaixonadas suspiram tanto? ― seu coração deu um salto tão grande ao ouvir aquilo que quase saltou pela boca, fazendo colocar uma das mãos entre os seios e segurar a outra para não virá-la na cara de quem sabia muito bem que estava atrás de si.
, maldito… ― grasnou revoltada, sua expressão mudando completamente para uma infeliz. ― E por que você é tão intrometido?
― Então você admite que está apaixonada? ― ele questionou, a inocência mostrada em seu olhar nem de longe era seu verdadeiro pensamento.
― Você admite que é intrometido? ― voltou a perguntar da mesma forma que ele, cerrando os olhos.
― Facilmente. ― sorriu. Sorriu de uma forma tão cínica que por pouco a não perdeu a cabeça e o estapeou ali mesmo. Na verdade, ela o faria, se não houvesse chegado bem na hora. ― Todo mundo sabe disso.
― Wooah, vamos evitar agressões logo tão cedo, certo? ― ele sorriu condescendente, colocando uma das mãos no ombro do e a outra no de para se enfiar no meio dos dois e apartar qualquer briga que fosse iniciada, claramente por ela.
― Não se preocupe, , eu já estava de saída. ― forçou um sorriso para o garoto, então se desvencilhou de sua mão e saiu andando até os armários.
― Sinceramente, quando vocês vão parar com isso? ― questionou com um suspiro desanimado. Não estava em lado nenhum, só no da paz e do amor e queria que os dois se resolvessem logo porque sabia que no fundo estava interessado em , mas provavelmente demonstrava da forma errada.
― Quando o parar de seguir ela, né, ? ― puxou o mais novo pela gola da camisa ao vê-lo passar ao seu lado com os olhos focados na direção aonde estava.
― O-Oi?! ― respondeu se fazendo de desentendido e ficando assustado por estar sendo tão óbvio, arrancando um suspiro e fazendo balançar a cabeça negativamente.
estava mesmo escondendo alguma coisa, disso não tinha mais dúvidas, e aqueles stalkers como não ajudariam muito a manter o segredo enterrado. Não sabia bem se devia ajudá-la, aquilo não era exatamente um assunto seu e nem sabia o que poderia fazer, mas esperava que a garota fosse inteligente o suficiente para saber o que estava fazendo.

♣♣♣


― Podem começar, sou todo ouvidos.

cruzou os braços e as pernas impaciente, sentado no sofá da casa de e encarando tanto ele quanto que estavam sentados lado a lado no sofá da frente ao qual estava. Os dois se entreolharam com cara de quem sabia que havia aprontado e viria à bronca por aí, e ela não conseguia esconder seu nervosismo.

― Então… O descobriu que meu irmão e meu tio contrataram investigadores particulares para me procurarem e nós estamos com medo de que eles venham até aqui, já que eu tenho vocês dois de conhecido em Qar. ― explicou calmamente, deixando todo o ar sair de seus pulmões logo depois. Pensar em como contaria para durante toda a manhã fez parecer que era bem mais difícil do que realmente era.
― Só isso? Isso ia acontecer uma hora ou outra. ― ele revirou os olhos em descrença que tanto drama era pra algo que os três já deviam estar esperando. ― Esconder você na casa do não é uma boa ideia. Arrume suas malas, você vai pra minha. ― ditou, já se levantando e olhando para o corredor para irem até onde sabia que ficava o quarto de hóspedes.

ficou atônita olhando para do melhor amigo para que suspirou desanimado, segurando seu pulso para que não se levantasse e continuasse sentada ao seu lado.

― Não, ela vai ficar. ― ele se manifestou, jogando as costas para o encosto do sofá como se tivesse tentando ficar tranquilo.
― Como é?
, a amiga é sua. ― encarou o mais novo com o olhar impassível e frio de quem não iria mudar de ideia. ― Em qual lugar você acha que eles vão procurar primeiro? ― perguntou como se fosse óbvio. ― Com ela aqui, pelo menos você pode nos avisar antes e eu dou um jeito de tirá-la rápido daqui.
― Faz muita diferença, não é, nós nem moramos no mesmo prédio. ― revirou os olhos cruzando os braços na frente do peitoral, o silêncio sendo sua única resposta e lhe fazendo sentar novamente. ― Se é assim que vocês querem, mas eu não quero saber nem de vocês se tocando, inclusive pode soltar o pulso dela! ― apontou revoltado para a divisão do sofá onde ainda deixava sua mão sob o punho da menina.

Antes que fizessem qualquer outra coisa, ouviram batidas desesperadas e em sequência vindo da porta do apartamento, fazendo o casal arregalar os olhos enquanto ignorava, pensando ser apenas algum dos colegas de administração, talvez que estivesse precisando resolver alguma coisa com eles. Porém, como de costume era cuidadoso e levantou rapidamente, olhando pelo olho mágico do local apenas para confirmar suas suspeitas.

? ― essa pergunta em tom duvidoso foi apenas um aviso para que estava em seu sofá.

Ao ouvir esse nome, a congelou no lugar onde estava, o rosto empalidecendo completamente ao pensar que o irmão estava assim tão perto. olhou para , tentando manter a calma enquanto esperava que ele percebesse que ela estava entrando em uma crise e precisaria ser levada dali, ou colocaria tudo a perder.

― Desculpe vir sem avisar, mas eu realmente preciso de você agora.

A voz saiu abafada do outro lado da porta, mas ainda era a voz de seu irmão que fez o coração de quase sair pela boca. Ele estava ali, a apenas alguns passos de si, ele estava tão perto… Ela entrou em estado de choque, a saudade apertando tanto que não conseguia se segurar. Não conseguia acreditar que teria de se esconder dele, de fugir dele. Seus olhos se encheram de lágrimas e nem mesmo quando foi levada para os quartos despertou daquele estado.
respirou fundo antes de destrancar a porta, seu coração doía de ver naquele estado e também se apertou ao puxar a maçaneta e ver como se encontrava destruído. Os cabelos dele estavam mais compridos do que havia visto em toda a sua vida, caindo sobre os olhos inchados, avermelhados e com olheiras escuras embaixo deles, junto com uma barba por fazer que era praticamente chocante.

― Desculpa, não lembrava onde tinha deixado à chave. ― falou como desculpa, observando o amigo ainda atônito. Nem mesmo quando aquilo aconteceu vira o tão acabado como estava vendo agora. ― Entra.
― Não tem problema. ― ele fungou, jogando os cabelos para trás ao entrar e olhando a casa vazia e sempre perfeitamente arrumada de , se jogando no sofá sem nem ver que o amigo engolia em seco ao vê-lo sentado exatamente onde estava há alguns minutos atrás.
― Você quer alguma coisa? ― ficou em pé perto da cozinha pronto para pegar um copo d’água ou de alguma bebida. Se ficasse um pouco alto, provavelmente deixaria passar qualquer detalhe que estivesse na cena do crime.
― Só quero conversar. ― suspirou desanimado, deixando o rosto cair no encosto do móvel. ― Os investigadores estão andando pela cidade, procurando alguma pista dela. ― aquilo fez gelar e um arrepio subir por sua espinha. Se já não estivesse sentado, provavelmente pegaria alguma coisa pra ele mesmo beber. ― Eu não queria fazer isso, mas eu sei que é bem capaz dela estar por aqui por causa do .
― E o que você pensa disso? ― engoliu em seco. sempre fora inteligente, mal ele sabia que seu raciocínio estava correto.
― Pelo menos se estiver, eu sei que você e ele cuidariam dela por mim, então eu os perdoo. Eu sei como a consegue ser persuasiva quando ela quer, principalmente em uma situação como essa que ela está certa. ― com isso, todos os poros do corpo de se arrepiaram, sentindo um peso enorme saindo de suas costas. ― Mas não consigo ficar sem ela. É egoísta, não é? Não consigo entender porque ela preferiu fugir sem nem mesmo me dar uma dica.
― Talvez ela não quisesse atrapalhar sua vida agora que as pesquisas biológicas vão tão bem. ― o amigo tentou argumentar da forma mais neutra que conseguia para não acabar se entregando.
― Então ela realmente não me conhece bem. ― até mesmo sorriu de canto com aquela hipótese, balançando a cabeça negativamente. ― Acho que eu estou ficando louco, parece até que eu estou sentindo o cheiro dela.
― Vamos pro terraço, deve estar vazio agora. Nós podemos conversar melhor e espairecer um pouco lá. ― falou rapidamente, abrindo um meio sorriso e se levantando. Oferecendo a mão para que a pegasse para levantar.

Mesmo que não pudesse, estava feliz de ouvir que lhe perdoava. Isso com certeza o ajudaria a dormir a noite, mas não completamente em paz sabendo que o amigo estava procurando incansavelmente a irmã que estava bem mais perto do que ele imaginava no momento.

Luto contra as lágrimas enquanto escondo meu medroso coração
Eu irei te procurar

Ainda que eu não saiba onde você está
Sigo firme o compasso do meu coração
Posso ver você apenas de olhar o mapa desenhado em meu coração,
procurando lentamente

E daí se for longe? Eu vou te encontrar
Seguindo a linha onde nós dois continuamos

Quando você diz que meu nome está gravado em seu coração
Lembre-se da razão pela qual meus olhos ficaram grandes

Agora mesmo, preciso de alguma coisa que assemelha a você
Mas eu não tenho isso em mim
Então vamos nos encontrar novamente
Até que eu chegue, você precisa ficar bem
Estou te procurando agora mesmo

Eu realmente, realmente quero te ver
• I’m Looking For You Now, Seventeen

♣♣♣


, sai dessa janela, nós precisamos ir comprar comida!

gritou pela quinta vez do andar debaixo da casa, fazendo com que o revirasse os olhos se dando por vencido e saindo do quarto ao mesmo tempo que fechava a jaqueta ao descer as escadas. Tinham dois carros parados do outro lado da rua na frente da casa dela desde a hora que chegaram do colégio.
Não podia deixar de pensar que tinha alguma coisa errada, aquilo estava relacionado com ela ter saído de lá e o que aqueles homens queriam com a garota? Não conseguia se concentrar em fazer o que devia desde que os vira ali, por isso estava praticamente sendo arrastado por pelo caminho até o terraço.
O amigo até mesmo tentou lhe distrair enquanto andavam pelo local, mostrando algumas roupas em lojas ou coisas aleatórias, mas na verdade o que tirou sua concentração completamente foi ver sentado em uma das mesas da cafeteria com um homem a sua frente.
E ele reconheceu quem era.

sunbaenim! ― se aproximou praticamente correndo, acenando animadamente com a mão que não segurava as sacolas. Queria confirmar se era aquilo mesmo que estava pensando, e vendo a face de empalidecer rapidamente tinha certeza de que estava certo.

Não ia falar nada sobre , apenas estava curioso para conhecer o irmão dela de perto.

, o-oi! ― pela primeira vez em todos aqueles anos que estavam em Qar viu próximo de perder a compostura, enquanto os lábios dele tremiam levemente.
― Eu só vim te cumprimentar, é raro te ver fora do apartamento. ― e então curvou as costas levemente duas vezes na direção de cada um dos dois, demorando um pouco o olhar no irmão da garota.

Não sabia nem mesmo como ele se chamava, mas sabia que alguma coisa ia errado com ele pela expressão cansada. Porém, se o homem estava ali com , é por que ele deveria saber da presença de , não é?

― É verdade… ― olhou para que observava com seu natural olhar de raio x, como se analisasse se tinha alguma coisa errada com o que deveria ser um projeto de modelo de cidadão. ― Bom, eu recebi um amigo então nós resolvemos dar uma volta…
― Ahhh, eu estou atrapalhando, não é? Me desculpe! ― se curvou mais uma vez, sorrindo largamente junto com o pedido de desculpas. ― Vou deixá-los resolver seus assuntos. Foi um prazer.

E então ele virou de costas saindo, encontrando no meio do caminho. ignorou o que havia acontecido, mas não conseguiu. Sabia que agir daquela forma tão espalhafatosa era da natureza de , mas parecia que tinha alguma coisa fora do lugar.
O por sua vez voltou para casa calado, apenas respondendo quando esse lhe questionava alguma coisa. Sabia que o amigo ficaria preocupado e não sairia de seu pé, mas agora sua mente girava em tantas direções diferentes e estava tão confusa… parecia estar lhe perseguindo em todos os lugares que ia, e para completar foram parados ao entrar na rua de casa, os dois homens que estavam no carro agora estavam na porta da onde a morava.

― Hey, vocês dois moram nessa rua, não é? ― um deles questionou ao se aproximar, rodando a chave do carro em um dos dedos.
― Sim, logo ali. ― respondeu prontamente, claramente já em choque de medo de levar uma dura ali mesmo.
― Tem alguém morando nessa casa? ― o outro questionou, pegando um celular do bolso.
― Não. ― respondeu rapidamente antes que abrisse o bocão da royal. ― A última pessoa que morou nela foi embora já fazem uns seis ou sete meses, ela ficou doente. Dizem que essa casa é assombrada desde então porque nós ouvimos explosões vindas dela, então ninguém entra. ― inventou uma historinha pra mentira ser mais convincente, mas na realidade nem era uma mentira. não estava mais morando ali mesmo, a inquilina antes dela fora embora por doença e ouviram mesmo a explosão naquele dia.
― Hm… E vocês já viram essa garota nas redondezas? ― o mesmo cara que pegou o celular agora mostrava uma foto de .

Era uma foto tão bonita e pura que ficou extasiado a olhando por alguns segundos. A garota estava na praia e sorria largamente para a câmera, segurando um chapéu na cabeça com os cabelos voando e o vestido leve branco também. Ela parecia estar tão feliz ali…

― Não, mas se você quiser mandar essa foto, eu super aceito! Essa garota é muito bonita! ― como sempre voltava a ser o cara de pau de sempre, aproveitando para dar um largo sorriso na direção do investigador. Vai que, né?

, ela não é aquela garota? ― claro que ia querer dar com a língua nos dentes cedo ou tarde, claaaaro, mas não tinha problema porque o já havia se preparado para isso!
― É claro que não, enlouqueceu? Aquela lá não chega nem perto dessa aqui, olha como ela é bonita! ― apontou para a tela do celular, agindo tão naturalmente que até mesmo os dois homens ficavam confusos sobre o que estava acontecendo. Eles conheciam ou não, no final? ― Meu amigo a confundiu com uma garota que estuda com a gente há anos, acho que ele deve estar precisando de um óculos. ― revirou os olhos dramaticamente.

Os dois investigadores se entreolharam e então suspiraram. Se estudava com eles há anos, não podia ser já que ela sumira apenas há seis meses.

― Tudo bem então, era só isso. Obrigado.
― De nada, de nada, sempre as ordens! ― sorriu novamente, se curvando duas vezes e então saindo saltitante em direção a casa.

o seguiu com um sorriso nervoso, também movendo o pescoço em cumprimento. A primeira coisa que aconteceu quando fecharam a porta de casa foi soltar todo o ar que tinha prendido durante a atuação por cinco minutos tentando se acalmar e o amigo lhe encarar como se estivesse ficando louco.

― Por que você mentiu pra eles, ?! ― o questionou tentando controlar o tom de voz para que a rua toda não pudesse lhe ouvir.
― Porque eu sei demais sobre ela, . Mais do que você pensa e mais do que eu gosto de admitir.

♣♣♣


entrou em casa acabado e aliviado ao mesmo tempo. Não sabia descrever o quão seu coração estava em paz depois de conversar tanto com e tentar tranquilizá-lo, mas o cansaço mental de continuar escondendo o que sabia para o amigo era terrível. Além disso, também havia
Puxou o ar, trancando a porta e deixando a carteira em cima do balcão da cozinha enquanto ia tomar uma água para criar coragem de enfrentar outra coisa agora: a provável fúria de e a crise emocional que enfrentara durante aquelas horas que ficou fora.
Andou a passos lentos até o quarto de hóspedes como se não quisesse mesmo chegar lá, e realmente não queria muito não, porém tirou o resto de coragem que tinha e bateu na porta duas vezes antes de entrar, encontrando adormecida na cama de olhos inchados e sentado ao lado do móvel na cadeira que estava a frente da escrivaninha, fazendo um carinho calmo nos cabelos .
Os dois ficaram em silêncio enquanto ele se levantava e saía com o menor ruído possível para não acordá-la, fechando a porta da mesma forma cuidadosa e encontrando com escorado na parede do corredor.

― Ele saiu da cidade? ― questionou preocupado, passando a mão nos cabelos para jogá-los para trás e recebendo apenas um aceno de cabeça positivo do amigo que lhe fez respirar aliviado.
― Desculpe não ter te contado antes. Ela disse que queria falar. ― pediu, erguendo os olhos na direção do mais novo que parecia tão cansado quanto si, mas deu de ombros.
― Tudo bem, eu estava nervoso na hora, mas entendo. ― mais um alívio para as costas de , parecia que finalmente ele ia conseguir dormir em paz.
― Ele disse que nos perdoa, . ― murmurou após algum tempo de silêncio entre os dois e virou o rosto para o lado contrário ao qual ele estava, um sorriso escapando por seus lábios. ― Eu sei que isso não te importa porque vocês nunca foram próximos, mas ele disse que se nós estamos escondendo ela, ele nos perdoa porque pelo menos ela está protegida.
― Vamos ver se esse discurso vai continuar quando ele descobrir que somos nós mesmo. ― aquelas palavras foram como um soco no estômago de que arregalou os olhos. Ao perceber o que havia feito ao acabar com a paz de espírito do mais velho, bateu levemente contra a própria cabeça. ― Mas provavelmente vai. Ele sabe que ela está certa, mesmo usando os métodos errados.

arfou, tentando se apegar aquilo. Sim, no final, o pior de tudo é que estava certa e todo mundo sabia.

― Como ela está? ― perguntou, olhando para a porta fechada.
― Destruída. Chorou no meu colo até dormir. ― também doía em ter que constatar aquilo. Aquela situação não era fácil pra nenhum deles e não seria para ninguém que se envolvesse nela. ― Mas amanhã ela vai acordar melhor.
― Assim espero… ― desejou, não sabia lidar bem nem mesmo com em sua casa, quem dirá com uma depressiva em sua casa. Ao menos não precisaria ir trabalhar, e já sabia o que fazer para acabar com aquele clima que ficaria na casa.
― Sabe, … ― começou a dar passos lentos na direção da sala, passando pela frente do amigo que o seguiu com uma cara de dúvida. ― Eu sempre soube que ela escolheria você mesmo que você não goste dela do mesmo jeito que ela gosta de você. Você chegou primeiro e sempre a ajudou dos bastidores, e eu entendo e aceito isso. ― pegou o casaco que deixara escondido atrás do sofá, o colocando calmamente. ― Mas parece que isso está mudando, não é?

Seu olhar firme buscou os olhos de , mas ele não tinha coragem de encará-lo de volta. nunca admitira ou dera sinais de que ele também era… Não, por que pensara “também” quando ainda estava confuso com seus próprios sentimentos e não sabia se via como uma mulher ou apenas como uma irmã a qual queria muito proteger de todos os problemas que se metia, e olha que não eram poucos.

― Você não tem responsabilidade alguma comigo, nós nem éramos amigos antes de começarmos a trabalhar juntos e também não sabia dos meus sentimentos por ela. ― deixou claro que a amizade deles não estava em jogo naquilo. Mas o que estava, preocupava bem mais. ― Mas se acontecer o que eu estou pensando que vai… Você tem a responsabilidade de cuidar dela. E eu acho bom você fazer isso direito.

E então, ele saiu batendo a porta sem se importar com o barulho, deixando paralisado com todas as aquelas informações em tão pouco tempo, todos os sentimentos conflitantes vindo a tona. O que deveria fazer agora…?



VII- Pinwheel

Todo seu corpo doía quando acordou no outro dia, como se todos seus ossos tivessem sido moídos. Estava acostumada a acordar mal, mas naquele dia sinceramente as proporções passavam do comum. Não fazia a mínima ideia de que horas eram, mas o calor que fazia no quarto estava lhe incomodando extremamente, evidenciando que às seis e meia da manhã já haviam passado e devia fazer um tempo…
Arregalou os olhos ao perceber isso, estava tão cansada que não havia ouvido o despertador tocando para ir para a aula?! E , ele não tinha lhe chamado antes de sair?! Levantou tão rápido que teve que sentar de novo no colchão, se sentindo zonza e perdendo o equilíbrio das próprias pernas.
Guiou uma das mãos até a testa ao sentir a cabeça latejar, olhando para o relógio que ficava na mesa do escritório do homem. Já passavam das oito e meia da manhã, esse horário com certeza já estava no Colégio, o que queria dizer que estava sozinha… Não queria ficar sozinha, só de ficar com seus próprios pensamentos naqueles poucos minutos já sentia que ia enlouquecer, tentando ao máximo não pensar no que havia acontecido na noite anterior.
Não queria pensar no irmão. Não queria lembrar da voz dele tão próxima e nem do que ouvira atrás da porta sem o consentimento de . Queria que tivesse perguntado mais sobre como ele estava se sentindo em relação a si, mas provavelmente não teria estruturas para aguentá-lo dizer sobre estar decepcionado. O que ainda lhe manteve em pé na noite passada foi ouvi-lo dizer que estava certa.
Balançou a cabeça para os lados para afastar os pensamentos e se levantou decidida, ignorando qualquer músculo dolorido ou dor de cabeça que lhe incomodaram. Perdera as primeiras aulas do dia, mas ainda podia pegar todas as outras, era só ir até o Colégio, não devia demorar mais de quinze minutos a pé de sua nova casa. Às vezes esquecia como Orkan era flexível com os horários, contanto que você tivesse uma frequência acima de noventa por cento em todas as aulas e notas acima da média oito, você podia chegar no horário que quisesse.
Bom, não havia faltado a nenhuma aula desde que fora obrigada a começá-las, então poderia até mesmo passar o dia inteiro em casa se quisesse, mas não estava disposta a lidar com sua crise existencial e seus demônios assim tão cedo, por isso agarrou o cabide que havia deixado preso na porta do armário com o uniforme e foi rapidamente até o banheiro.
, assim como no dia anterior, havia cuidadosamente deixado uma toalha vermelha dobrada em cima do balcão da pia lhe esperando, fazendo até um sorriso de canto aparecer em seus lábios com aquela demonstração de cuidado. Novamente ele estava cuidando de si, mesmo sabendo no que isso implicava e a se sentia a cada dia mais culpada por tê-lo envolvido nisso.
Suspirou, resolvendo afogar seus pensamentos em um banho que foi rápido, não queria se distrair demais e começar a divagar. Foi então que olhou bem para o que estava no cabide e arregalou os olhos. Por que tinha um vestido em tom creme com estampas de florzinhas pequenininhas em borrões de aquarela rosados e avermelhados ali?
Levou as costas das mãos até as orbes, às esfregando por alguns minutos para ter certeza que não estava sonhando ou delirando, mas o vestido continuava ali quando voltou a recair o olhar sob o cabide. Onde estava seu uniforme? E que roupa era aquela que nem ao menos conhecia…? Podia estar meio lerda hoje, pois só percebeu o bilhete grudado na parte das costas quando esbarrou acidentalmente nele com a mão, pegando-o rapidamente apenas para encontrar a caligrafia bem desenhada de com palavras que lhe tiraram o ar.

“Espero que goste desse presente.
Se arrume.”

Assim como todos os bilhetes que ele lhe deixava, não havia assinatura, apenas o recado que queria passar. Sentiu-se eufórica por alguns segundos, esquecendo tudo o que formava um peso enorme em suas costas e apenas sorrindo boba, obedecendo ao rapaz. Colocou o vestido que ele lhe dera, as mangas de ombro a ombro caindo folgadinhas tocavam sua pele de uma forma prazerosa, assim como o resto do tecido que emoldurava seu corpo pelo corte da peça, com a ajuda do decote reto.
Aquele vestido muito provavelmente nunca seria algo que escolheria sozinha, ele era muito delicado para , mas ironicamente ficara muito melhor do que pensara quando viu que devia colocá-lo. Atravessou o corredor para seu quarto correndo, não queria que lhe visse até estar pronta. Já que ele falara para se arrumar, faria direito.
Escolheu um sapato baixo, não sabia para onde e o que iam fazer afinal, e então pegou seu colar favorito que havia ganhado do irmão para que seu colo não ficasse totalmente exposto, a pequena pedra de rubi rodeada por uma moldura de ouro reluzindo quando o sol ou alguma luz qualquer batia nela. Sentia-se bem e segura com aquele colar, era como estivesse com o irmão consigo.
costumava dizer que aquela pedra era como seus olhos. Um brilho avermelhado único faiscava deles, ao mesmo tempo em que refletiam todos os sentimentos que ela escondia dentro do peito. Nunca conseguia disfarçar nada em seu olhar, em seu caso era realmente a janela da alma e todas suas verdades estavam expostas no fundo de suas íris. Mas tudo bem contanto que ninguém descobrisse isso e começasse a prestar atenção, não é? Isso não acontecia normalmente, as pessoas tinham medo de encará-la, então não se intimidava com aquela “fraqueza”.
Arrumou os cabelos do melhor jeito que pôde de última hora, ajeitando as pontas cacheadas e jogando a franja para o lado já que ela crescera demais para ser usada como quando chegara em Qar, que era cobrindo a testa. Tentou não se maquiar demais por estar de dia, então não demorou muito mais de vinte minutos para estar pronta e perfumada. Antes de sair, porém, olhou para a tela de seu celular.
Tinha uma mensagem simples de já estampando sua lockscreen, um ponto de interrogação com uma carinha pensativa do lado, provavelmente sinalizando o porquê diabos ela ainda não tinha chegado na aula. até mesmo soltou uma risadinha com aquilo, aquele garoto era muito idiota, mas não podia mentir e falar que não era divertido e engraçado com o jeito naturalmente espalhafatoso.
Por alguns segundos entrou em um monólogo interior, se perguntando se deveria avisar que não iria? Por mais que quisesse fazer birra e não o fazer, sabia que era errado deixá-lo sem notícias quando tinham obrigações a serem cumpridas juntos, como a apresentação do trabalho de Tecnologia aplicada em relações internacionais que fizeram por mensagens durante a semana que passou. Respirou fundo, digitando rapidamente uma mensagem que dizia “Eu te cobri em História da Arte, sua vez de fazer isso por mim”.
Bloqueou a tela logo depois, deixando o aparelho no silencioso e o guardando na pequena bolsa marrom que era segurada pela alça fina e longa em seu ombro, e então saiu do quarto, respirando fundo para encontrar o que lhe estava esperando.

…? ― chamou quando chegou à sala com passos cuidadosos e a viu vazia, arqueando uma das sobrancelhas. Ainda tinha aquela impressão de que algo errado estava acontecendo, mas para seu alívio o homem apenas saiu da varanda com as mãos nos bolsos e um sorriso calmo.

― Você demorou, já estava quase indo te acordar. ― ele sorriu bem humorado, deixando-se por alguns segundos observar o quão bonita estava. Era torturante pensar que aquela adolescente de maquiagem borrada e preta que conhecera se tornara uma mulher estonteante.
― Me desculpa, mas eu estou confusa. ― parou atrás do sofá, passando a mão levemente na testa e tentando pensar.
― Com o quê? ― aquilo sinceramente não era uma surpresa, óbvio que estaria se perguntando o que diabos está acontecendo, mas fazer aquele teatro era divertido demais para .
― Com tudo o que está acontecendo…? ― o tom da era tão duvidoso quanto sua expressão facial, arrancando uma risadinha satisfeita do mais velho.
― É óbvio, eu achei que você não estava em condições de encarar um dia de aula hoje, então nós dois vamos a um passeio. ― ele passou ao lado do balcão da cozinha, pegando a cesta de vime que a não tinha percebido que estava ali por estar confusa demais.

Confusa, perplexa, em choque.
Aquilo parecia um encontro ou estava só pensando demais?
Tinha que parar de agir como uma adolescente, a situação era apenas delicada demais e queria apenas lhe levar para se distrair e provavelmente tentar a convencer de que estava na hora de encarar as coisas de frente, como ele sempre dizia. E se ele estivesse pensando em a entregar e fosse levá-la até seu irmão? Ou pior, até seu tio?!

― Para de pensar demais. É só um passeio. Você ficou muito paranoica. ― bom, não que pudesse tirar a razão da menina afinal, mas vê-la perdendo toda a cor da face apenas porque queria levá-la para se distrair era um pouco desesperador.

respirou fundo, balançando a cabeça para sair de sua dimensão e deixando um sorriso tomar seus lábios. Era uma anta mesmo, quando aprenderia que podia confiar em cegamente? Ele nunca chegaria tão longe e daria o pé pra trás agora, nunca lhe entregaria daquela forma.
Mas a conversa sobre se entregar ela tinha certeza que ia rolar cedo ou tarde.

― Tudo bem, me desculpa, eu só…
― Não tem problema. Vamos? ― cortou-a delicadamente, não querendo que o clima pesasse logo no começo do dia.

Na verdade ele não queria que o clima pesasse em hora alguma daquele dia. Queria que fossem as melhores horas de em muito tempo e queria que o coração dela ficasse leve, e que ela pudesse lembrar do que aconteceria por toda a sua vida.

♣♣♣


Acordara naquele dia com um humor terrível que até mesmo assustara . Não entendia exatamente o porquê, mas toda aquela história envolvendo era torturante e lhe deixava extremamente estressado, principalmente quando ela fazia questão de simplesmente desaparecer. Qualquer sumiço da menina era capaz de acabar com sua sanidade e corroer todos os seus neurônios de pensar no porquê.
não apareceu na aula e já estava ficando tarde. Isso deixou agoniado e ele pegou o celular mesmo que fosse proibido dentro do Colégio, mandando uma mensagem perguntando onde ela estava. O aplicativo sinalizava que ela não olhava o aparelho desde as oito da noite do dia anterior e sinceramente, isso era preocupante, tanto que não se segurou em perguntar o que estava acontecendo.
Passou todas as aulas da parte da manhã mais inquieto do que naturalmente era. Praticamente não conseguia ficar sentado e suas pernas doíam de tanto que balançou os joelhos para tentar descarregar sua ansiedade em não poder ver se sua mensagem havia sido respondida. Para seu alívio finalmente, entrou em sua sala antes de enlouquecer, faltando duas aulas para o intervalo. E foi então que percebeu algo que piorou sua situação mental: Não vira durante todo o dia…

, você sabe sobre a ? Nós temos uma apresentação hoje, mas ela não chegou e nem me avisou nada. ― questionou, se levantando e encostando-se à mesa do professor assim que ele se sentou e abriu os livros.
― Na verdade, eu não faço a mínima ideia. ― o homem apenas sorriu calmamente e balançou a cabeça negativamente, fazendo um peso a mais se acumular nas costas de . ― Bom, você quer sair por essa aula pra treinar sua apresentação? Aparentemente vai sobrar pra você.
― Sim, por favor. ― concordou com um sorriso torto, tentando se forçar a parecer conformado.
― Fique à vontade então, mas se comporte.

O saiu após murmurar um agradecimento formal, pegando a mochila e sendo observado por que esperava alguma gracinha ou um sorrisinho satisfeito vindo de por ter conseguido se livrar da aula de educação física, mas o amigo lhe deixou ainda mais nervoso quando não recebeu nada além de um olhar preocupado e cheio de nervosismo vindo do .
saiu para o corredor e nem mesmo esperou chegar na biblioteca para pegar o celular do bolso e checar se a infeliz havia lhe mandado alguma mensagem. Por sorte sim, e um alívio enorme tomou seu corpo ao ver a notificação, porém esse alívio não durou muito, sentindo todo aquele misto de sentimentos controversos enchendo seu coração outra vez quando leu o conteúdo da mensagem.

Eu te cobri em História da Arte, sua vez de fazer isso por mim”.

Praguejou baixo. Por quê? Onde ela estava?! Por que ela havia faltado? Se o irmão dela havia ido a buscar no dia anterior, por que ela respondeu a mensagem ao invés de ignorar a sua existência totalmente agora que não precisariam se ver nunca mais? Mas ainda não fazia sentido, pelo o que ouvira falando da primeira vez, ela estava fugindo do próprio irmão também. Sua mente ficava mais confusa a cada dia e era terrível não saber a verdade e o que estava acontecendo.
Era desesperador não saber se ela ia voltar amanhã e se mandara aquela mensagem apenas para disfarçar. Passou uma das mãos pelos cabelos, os jogando para trás e tentando se acalmar ao jogar sua mochila em cima da mesa e respirar fundo para normalizar seus pensamentos. Daria um jeito de fazê-la falar consigo descobriria onde ela estava.

― Está tudo bem com você? ― a voz conhecida soou próxima, e ergueu o olhar confuso para procurar o dono dela.
― Sim, professor! ― respondeu rapidamente tentando sorrir, mas acabou com um mexer de lábios nervoso que fez arquear uma das sobrancelhas de forma que o pressionou para falar logo o que estava acontecendo. ― A me largou com um trabalho enorme pra apresentar sozinho, aquela irresponsável!

revirou os olhos, mas prestou atenção nos lábios do professor se crispando ao ouvi-lo falar da daquele jeito, o que apenas lhe deixou mais intrigado. Mesmo que fingisse não se importar e continuar corrigindo as provas e trabalhos que estavam espalhados pela mesa.

― Você não sabe onde ela está? ― aproveitou a deixa para perguntar, se sentindo orgulhoso de si mesmo por sua atuação. ― Nem ela e nem o professor , eu realmente precisava dos dois hoje. ― bom, por que não ser um pouco abusado, não é?
― Na verdade, eu acho que ela realmente não está bem. ― começou em um tom chateado, como se para fazê-lo se sentir culpado em ofendê-la. ― Ela não te mandou nenhuma mensagem?
― Na verdade sim, mas não ajudou muito, apenas disse que não ia vir. Ela acha que eu também não me preocupo? Não sou de pedra. ― queria se convencer que aquela parte era apenas uma atuação ao mesmo tempo que desviava seu olhar para os livros que tirava da mochila junto com as anotações sobre a apresentação que estudaria no almoço, mas sabia que não. Infelizmente, se preocupava de verdade. ― Queria saber o que está acontecendo.
― Bom, não é nada grave, você não precisa se preocupar tanto. ― um sorriso de canto apareceu nos lábios de , mas ele genuinamente começou a se preocupar com aquele forte interesse de em . ― Ela não estava se sentindo bem hoje e o está com ela na ala da enfermaria no outro prédio.
― Por que o ficaria com ela na enfermaria? ― agora foi quem arqueou uma das sobrancelhas, esperando que aquilo surpreendesse e ele ficasse nervoso o suficiente para soltar uma informação valiosa.
― Achei que você estava preocupado com o que ela tem. ― o homem respondeu calmamente, sorrindo sarcástico com aquele tom de ciúmes que usara inconscientemente.
― Você que me disse que eu não devia me preocupar tanto com isso, presumi que não era sério o suficiente pra perguntar. Mas pode me responder o que ela tem também, se não for pedir demais. ― o piscou um dos olhos para o mais velho, rindo divertido logo depois e arrancando uma risada de também.
― Mas você é mesmo um achado, . ― o professor riu anasalado, jogando a caneta entre os papéis e cruzando os braços, encostando as costas na cadeira para olhar o melhor. ― Tudo bem então, vamos lá. A está com alguns problemas, ela está se alimentando muito mal e ficou fraca. ― não havia melhor mentiroso que , mexera com a pessoa errada. ― E sobre o estar com ela, ele a encontrou na rua quando ela estava vindo e percebeu que ela não estava bem e estava fraca, ela acabou desmaiando e ele a levou pro hospital. Algo mais?
― Não, assim está ótimo, obrigado pelas informações. Por isso você é meu professor preferido. ― o garoto piscou travesso para , rindo baixo e vendo o professor começar a juntar as provas que deixara na mesa.
― Aham, sei. Se concentre na apresentação que você precisa fazer já, já e boa sorte, vai precisar. ― riu maldoso logo depois, saindo e deixando sozinho na biblioteca.

O garoto suspirou, tentando descobrir por pensamento até onde aquela história era mentira. Parecia muito real não estar cuidando de si mesma e passar mal, mas ainda tinha algo que não encaixava…

― Eu vou dar um jeito nisso.

Destravou o celular e começou a digitar. estava determinado; não pararia até saber a verdade. Queria saber quem era verdadeiramente e o que estava acontecendo com ela.

♣♣♣


― Onde nós estamos? ― questionou completamente chocada, quinze minutos após o carro de atravessar a fronteira que levava para fora de Qar.
― Onde estamos indo? É uma surpresa. ― ele sorriu de canto e apesar de ter arrancado um sorrisinho de também, ela balançou a cabeça negativamente.
― Não, qual país é esse, qual cidade? ― ela questionou calmamente como se aquilo não fosse nada estranho, observando a paisagem de flores roxas que se erguiam sob a montanha.
― V-Você não sabe…? ― ficou tão surpreso que por um segundo até mesmo desviou o olhar da estrada, mas voltou rapidamente pelo medo de acontecer algo ruim.
― Digamos que quando o me buscou antes de eu vir pra Qar, eu estava exausta e anestesiada o suficiente para não me lembrar de nada além de irmos para o aeroporto e depois chegarmos lá. Eu dormi o caminho todo. ― suspirou desanimada, lembrando-se daqueles dias com um pesar palpável.
― Ah, entendo. Onde você estava antes de chamar o ? ― o mais velho perguntou, levando rapidamente a mão até o rádio para abaixar o som e poderem conversar mais confortavelmente.
― Tailândia. Estou muito longe de lá? ― era ridículo como perdera completamente a noção de onde estava naqueles meses e nem mesmo se preocupara com isso, parecia ter ido para outra dimensão sem mesmo notar.
― Na verdade você não foi muito longe, quando você perguntou se tinha viajado pra Coreia do Sul no dia da festa… Eu quis responder que sim, você tinha. Qar fica na Coreia do Sul, mais especificamente camuflada além de algumas montanhas de Jeju. Você realmente não percebeu a quantidade de asiáticos no núcleo? ― ele questionou com uma sobrancelha arqueada, concentrado na estrada mesmo que de vez em quando seu olhar vagasse rapidamente na direção de .
― Na verdade, eu nunca reparei muito, isso é… Nossa. ― um choque de realidade deu um tapa na cara da garota que arregalou um pouco os olhos, fitando o amigo. ― Todo mundo sabe a localização de Qar? Meu irmão chegou nela muito facilmente, achei que fosse mais secreto, sabe?
― O seu irmão é milionário, não é muito difícil achar qualquer coisa nessa condição. ― até riu baixinho, revirando os olhos com aquela pergunta da mais nova. ― Você que o diga, afinal, como é que sabia que o estava envolvido com o projeto?
― Eu posso te responder isso depois que você me responder. ― sorriu divertida, timidamente desviando os olhos para a janela.
― Bom… Não. ― aquele assunto era um pouco mais sério do que gostaria que fosse, e sinceramente não queria muito trazê-lo para a pauta. Mas já que ela estava curiosa dessa forma… ― Ninguém sabe onde está, na verdade. As coisas em Qar e no projeto são mais sérias do que você pensa, . ― suspirou para organizar os pensamentos antes de externá-los. ― Talvez vendo lá de dentro é algo simples, como um internato, mas de fora, é muito maior. É uma cadeia de núcleos em cada país, com aproximadamente cem adolescentes em cada. Quem está lá não sai, e nem sabe onde está ou tem contato com o mundo externo. A internet é bloqueada para qualquer coisa que não seja a biblioteca de estudos que montamos no começo do projeto e o aplicativo que vocês usam pra se comunicar.
― Isso… É muito sério, sinceramente não sei se é realmente algo bom quando você coloca desse jeito. ― levou uma das mãos até os cabelos, mexendo neles de forma nervosa. ― Como eles não sabem para onde foram…?
― Sabe, nem eu sei mais se é algo bom… ― acabou pensando alto, mordendo seu lábio logo após, mas então ao perceber o que falara, rapidamente retomou a postura. ― Eu me lembro como se fosse ontem da inauguração de Qar. Estava chovendo. Os alunos pegaram voos que deram voltas e voltas em lugares aleatórios para não saber quanto tempo voaram até o lugar que iam, os ônibus que os levaram até lá eram fechados, ninguém tinha noção da onde estava, mas no começo estavam todos empolgados…

observou o olhar perdido na estrada do mais velho ao narrar aquilo, e por mais que quisesse não pode deixar de pensar em e em como ele deveria estar no dia em que isso aconteceu. Será que ele fora pra lá voluntariamente? O que passava na cabeça daquele garoto…? Teve vontade de perguntar isso para , mas assim que ia abrir a boca o próprio começou a falar antes.

― Bom, mas vamos mudar de assunto, hoje é nosso day-off, certo? Não vamos falar de coisas sérias.
― Você está certo. ― concordou rapidamente ao perceber o desconforto do mais velho em entrar naquele assunto, sorrindo levemente para tentar amenizar o clima que havia se instalado no lugar.

Remexeu-se ansiosa, querendo saber onde estavam indo, o que fariam e o real porquê de ter lhe tirado de Qar. Ele a conhecia bem o suficiente para saber que odiava surpresas. E ela o conhecia bem o suficiente para saber que ele não faria uma para si, a não ser que fosse alguma coisa muito importante.
Algum tempo depois que passaram apenas falando sobre coisas aleatórias como o clima e cantando músicas que gostavam esporadicamente quando alguma tocava no rádio, parou o carro em frente a uma paisagem no mínimo estonteante. desceu do carro em um segundo, sentindo o vento carregado com a maresia bater contra seu corpo e parecer levar metade do peso que carregava em suas costas com isso.
sorriu ao observar a cena, descendo também e andando até o porta malas para pegar a cesta com tudo o que havia preparado. só conseguia pensar em como a atmosfera era diferente de que quando estava em Qar, o ar parecia mais fresco e arejado e o sol mais quente. Talvez fosse apenas porque realmente fosse, já que estava na praia.
Estava acostumada a ficar presa em lugares, mas nada se comparava a sensação de liberdade que tinha quando finalmente podia sair de seus confinamentos.

― Surpresa. ― sussurrou perto de seu ouvido após ficar algum tempo apenas observando a paisagem ao redor de si.

Um arrepio subiu violentamente pela espinha da que arregalou os olhos com aquela proximidade e a voz sussurrada do rapaz em seu ouvido. Um sentimento estranho se apoderou de todos os seus poros do corpo e todos os seus pelos se eriçaram. tinha o poder de fazer aquilo apenas falando e estando perto de si, o que fazer?!

… ― murmurou baixinho, seus olhos aos poucos se enchendo d’água de uma forma que ela achou ridícula, mas não conseguiu conter.

Aos poucos com o esforço de se segurar seus ombros acabaram subindo e descendo e a garota fungou. Talvez estivesse sensível por conta da situação do dia anterior, mas sinceramente precisava daquele momento, das lágrimas escorrendo por seus olhos e caindo na areia, sendo absorvidas como a água salgada do mar.

, e-ei, não chora, por favor! ― ele se desesperou no mesmo momento, largando a cesta na areia e então dando um passo em frente para apertar a garota em um abraço lateral. ― Eu quero que nós tenhamos um momento feliz, por favor, não fique assim…
― Eu… Estou feliz. ― a respondeu para a surpresa do mais velho que a encarou confuso, principalmente porque ela se remexeu em seus braços até virar de frente para si e colocar cada mão ao lado de sua cintura, se agarrando em si. ― Estou muito feliz. , eu nunca te agradeci por cuidar tanto de mim. Pelo contrário, quando nós nos reencontramos e eu estava… Meio alta, eu falei várias coisas que eu não deveria ter falado.
― Você…
― Me deixa falar, por favor. ― o apertou ainda mais em um abraço, respirando fundo para controlar sua voz, torcendo para que ela não quebrasse pela emoção exagerada. ― Talvez você tenha sempre feito isso pelo meu irmão, mas não muda nada o fato de que você sempre esteve lá por mim quando eu precisei. E eu menti, eu quase nunca fui legal com você. Eu era uma adolescente idiota e você… Você tinha toda razão em nunca olhar pra mim de outra forma.
, por favor, esqueça isso tudo. ― não resistiu, levando uma das mãos até os cabelos da menina e a puxando para si, fazendo-a encostar em seu ombro. ― Eu nem me lembrava do que você disse, não precisa se preocupar…
, tem uma coisa que eu nunca tive coragem de te contar. ― não pensava com clareza naquele momento, mas parecia a coisa certa a se fazer. Sabia os sentimentos dele por si, seria mais fácil superar os seus próprios se simplesmente os jogasse ao vento, não…? ― Eu… Eu sempre…
― Eu sei, . Eu sempre soube. Me desculpe se eu fui insensível com os seus sentimentos, mas eu sempre achei que você só estava confusa com tudo por causa da situação e pensou errado já que eu estava por perto. ― afagou os cabelos da mais nova carinhosamente, seus olhos caindo para a areia da praia. ― Eu não podia, você sabe disso. Você era nova demais e a irmã do meu melhor amigo, eu nunca poderia me apaixonar por você.
― Eu sei que você não me correspondia. Eu só queria…
― Naquela época, . Eu nunca poderia me apaixonar por você naquela época. ― a interrompeu delicadamente, respirando de forma pesada logo depois e afastando o rosto da garota para poder olhá-la nos olhos. ― Eu vou ser sincero com você como devia ter sido antes, mas eu estou realmente confuso com os meus sentimentos. Eu não sei se é certo te ver como alguém se não aquela adolescente, mas ao mesmo tempo eu… Quero. Eu tenho me sentido estranho perto de você. Eu sempre quis cuidar de você, e sim, no começo podia até ser porque você era irmã do , mas depois era porque eu sabia que você era só uma criança machucada e traumatizada em fase de crescimento. E agora eu não sei o que pensar. Eu quero tentar te ver como uma adulta, alguém que eu posso estar ao lado… Como… ― as bochechas do rapaz começaram a ficar avermelhadas em pensar em falar àquelas palavras que rodavam a sua mente. ― Como… Você entende, não é?

A estava tão atônita com tudo o que havia ouvido que era até mesmo difícil de formular uma resposta decente para aquela… Declaração? havia mesmo se declarado para si? Era realidade… Aquilo que sempre sonhou estava se tornando realidade bem diante de seus olhos e não conseguia nem mesmo respirar direito, estava até mesmo pálida.

― Você está bem? Me responde alguma coisa, você está me fazendo ficar ansioso. ― mesmo sabendo que sempre fora apaixonada por si, vê-la naquele estado estava sendo capaz de tirar toda sua sanidade.
― Sim, sim, eu estou bem, eu só não… Eu não estava esperando… Eu realmente não estava esperando. ― balbuciou ao se esforçar pra voltar à realidade, um sorriso trêmulo aos poucos aparecendo em seus lábios. ― Eu nem sei o que devia responder, sinceramente.
― Você tem que me responder se acha que eu ainda posso ser seu herói. ― riu nervoso, levando uma das mãos para a bochecha da menina e limpando o caminho da lágrima que escorrera por ali mais cedo.
― Você já é meu herói. ― respondeu simplesmente, seus olhos se perdendo nos olhos de .
― Vamos tentar fazer dar certo juntos, certo? Vamos ter simplesmente um encontro por hoje. Como duas pessoas normais que querem se conhecer melhor.

A assentiu sem nem mesmo piscar, os dois olhares presos um no outro de forma tão intensa que o mundo não parecia existir naquele momento. aproximava os rostos aos poucos, suas pálpebras se fechando aos poucos, mas quando estava prestes a beijá-la quando os pingos grossos de chuva começaram a cair sem aviso, fazendo os dois se separarem em um pulo e começar a rir.
O mais velho pegou a cesta rapidamente e então a mão da menina, puxando-a para um abrigo seguro enquanto não resistia à risada dela e ria junto. Por sorte não se molharam demais, mas quando se abrigaram no deque da pousada a chuva piorou drasticamente, tão alta que eles mal conseguiam se ouvir.

― Estava sol há cinco minutos! ― reclamou, balançando a cabeça negativamente para o céu completamente nublado.
― É uma chuva de verão, ela vem sem aviso e muda toda a rotina de quem ela afeta. Me lembra bem uma pessoa que virou a minha vida de cabeça pra baixo… ― ele riu, deixando a cesta em cima de uma pequena mesa de madeira que estava por ali, ainda sem soltar a mão de .
― Bom, você parece ter gostado disso no final, então não deve ser tão ruim. ― respondeu balançando os ombros, suas bochechas se avermelhando mais do que gostaria de admitir.
― É, eu sempre gostei de chuvas de Verão, .

♣♣♣


Também chovia em Qar, mas começou assim que entrou no quarto após tomar um banho. Já havia escurecido e o dia passara tão rápido que nem conseguia acreditar que já eram oito e meia da noite… Suspirou, queria que o tempo tivesse parado e pudesse passar todo o resto de sua vida naquela praia com , mesmo que ficassem apenas conversando no deque da pousada fechada, comendo os lanches que ele havia preparado e presos pela chuva como fizeram naquele dia. Aquele pensamento não a incomodava nem um pouco.
Sorriu abobalhada para si mesma. Ainda estava cedo já que o rapaz fizera questão de sair quando começou a escurecer, já que voltariam à rotina no dia seguinte e enquanto se aproximava da janela para abri-la e observar a chuva caindo, aproveitando o barulho que sempre lhe agradou intensamente. Não podia deixar de se perguntar como dormiria naquela noite.
Sempre amou cata-ventos e os montava com quando era uma criança, deixando-os espalhados pelo jardim que sua mãe cultivava. Sua mãe… Ela amava encontrá-los no meio das flores e dizia que deixavam tudo mais vivo. Aos poucos, os cata-ventos foram se tornando mais engenhosos, coloridos e maiores, além de um presente para a mulher. Os dois irmãos ficavam escondidos atrás das moitas e árvores para ver a reação dela ao encontrá-los e nunca se cansavam de ver a felicidade em seus olhos.
Havia um cata-vento ali, preso do lado de fora da janela, girando de forma incansável por causa da ventania da tempestade, pensando em como sua vida estava sendo como um, girando e girando para direções diferentes durante todo o tempo sem ter pausa alguma. Mas daquela vez, pelo menos, pensou que estava chegando a algum lugar. O lugar que sempre queria. Sua mãe iria amar a sua vida como amava os cata-ventos…? Provavelmente não. Não era a filha corajosa e responsável que ela queria que fosse.
Suspirou e balançou a cabeça para os lados, tentando afastar aqueles pensamentos, dando passos para trás após fechar a janela. Pegou seu celular e ligou a internet dele pela primeira vez desde manhã, querendo ver o cronograma dos trabalhos e se havia esquecido de fazer algum, mas ficou em completo choque ao ver a quantidade de mensagens que estavam sendo notificadas. Abriu a tela, preocupada que fosse algo sério, mas encontrou apenas um spam de mensagens aleatórias.
Todas eram de .
A primeira após sua resposta sendo por volta das onze e quinze.

“Tudo bem não vir hoje, mas espero que você não tenha esquecido da apresentação de amanhã então, não vou apresentar duas coisas seguidas sozinho! Você já treinou?”

Essa era acompanhada com um emote e carinha emburrada. Desceu um pouco a tela para encontrar a próxima, aproximadamente meia hora depois essa.

“Você pode me ajudar com o dever de literatura? Não se atreva a dizer não, não se esqueça do dever de física quântica que eu fiz pra você.”

Agora a carinha era brava, e se repreendeu pela vontade de rir que teve ao ver isso.

“Nós vamos nos encontrar no fim de semana para fazer o seminário com a e o , certo? Onde vai ser? Podemos marcar na sua casa pra eu poder ir até lá finalmente sendo convidado a entrar.”

“Hey, você não vai faltar amanhã também, não é?
Não que eu estivesse preocupado e nem tenha perguntado, mas o me disse que você passou mal. Não é nada sério, não é? Você vai voltar logo, não vai?”

“Por que você não está respondendo? Eu estou tentando resolver coisas sérias aqui!”

Quando terminou se pegou rindo tanto que era uma surpresa até mesmo para si própria. Depois dessa última mensagem, marcada como cinco e dezessete da tarde, havia carinhas em sequência de um pato impaciente e rabugento, fazendo bater com a palma da mão na cabeça com todo aquele desespero de .
Meu Deus, aquele garoto era um idiota, mas ao menos era divertido. Estava começando a gostar dele como pessoa, quem sabe não o perdoava pelo dia da invasão se ele mandasse mais alguns memes? Bom, só o tempo ia dizer. Por agora, iria torturá-lo mais um pouco e não responderia nenhuma das mensagens, além de tirar a notificação de visualizado. Queria saber até quando ele insistiria em mandar mensagens, mas, além disso, uma curiosidade foi plantada na cabeça de aquele dia. Uma que ela se esforçou para ignorar.

Por que ele se preocupa tanto?






Continua...




Nota da autora: Eu nem sei o que falar aqui além de que eu estou COM MEDO de vocês, de uma pessoazinha em especial que vai me matar com esse capítulo AUAHUAHUAHA TO COM O CU NA MÃO PORÉM PLENA, eu amo o pp2 com todas as minhas forças e eu precisava disso acontecendo, ME DESCULPEM SUAHSUHUSAH Eu espero que vocês tenham gostado dessa atualização, eu estou super empolgada com o rumo que a história está tomando, tomara que vocês também!
Um beijo pra cada e vejo vocês logo! ♥








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Nota da beta: Ele se preocupa porque tá apaixonado, bebê! Tadinho, todo ciumentinho hahahah! Eu não quero ela dando uns pegas no pp2, mesmo ele sendo um amor de pessoa e tal, porque ele tá sendo um fofo, confesso rs. Quero o pp1 e ela porque os dois tem uma química, que nossa! Hhahaha, Continue, amooor! <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.




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