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01: Você acredita em destino?



Estava para fazer um ano que morava em Londres. A bolsa de estudos havia sido conquistada após muito sangue, suor e lágrimas, como dizia a música de uma antiga boyband que não havia dado certo. A escolha clichê de cidade não era sua culpa. Queria apenas qualquer país que fosse na Europa, já que não importava tanto assim – o pequeno continente poderia ser visitado por completo com alguma facilidade.
O intercâmbio de um ano e meio seria estendido por mais seis meses, apenas porque havia conseguido a participação em um grande projeto da faculdade. Não saberia explicar exatamente do que se tratava, afinal, o que mais lhe interessara no projeto havia sido a possibilidade de estender seus meses no exterior. Trabalhara duro para fazer parte daquilo e continuar na Inglaterra, sendo bancada pelo governo de seu país natal e ainda recebendo uma ajuda em dinheiro do próprio projeto.
Às vezes, na calada da noite, quando se deitava sozinha em sua desnecessariamente grande cama de casal, deixava que uma sensação que misturava vazio e culpa lhe invadissem. Os amigos deixados para trás haviam ficado felizes por sua conquista – geralmente ninguém que saía do Brasil sentia vontade de voltar. Já a família ficara decepcionada, especialmente seus pais, que contavam os dias para rever a filha única. A condição financeira da família não permitia que a visita no exterior fosse uma possibilidade.
Ainda assim, ela decidira ficar. A possibilidade de realmente construir uma vida naquele país a atraía, mesmo que soubesse que precisaria voltar para o Brasil e finalizar o último ano de estudos. Era parte do acordo. Nenhum estudante que participava daquele programa de bolsas poderia ficar direto no país de intercâmbio. Mas, se conseguisse os contatos certos, ela conseguiria voltar para Londres depois que terminasse os estudos. Ou ao menos era no que se forçava a acreditar. Forçar em si mesma um pouco de esperança era o que a movia.
Seu único problema em Londres era a falta de amizades. Nunca havia sido uma garota sociável e extrovertida, precisava admitir, mas aquilo já estava beirando o ridículo. Quase um ano morando na cidade e sequer havia feito um amigo em quem pudesse confiar. Não que fosse completamente solitária. Conhecia várias pessoas, especialmente colegas de classe, com quem às vezes saía, tomava algumas bebidas e dava várias risadas. Mas não existia em sua vida aquela pessoa que ia até seu apartamento, assistia as mesmas séries ou ouvia seus maiores segredos. Também nunca havia existido alguém assim no Brasil.
Talvez realmente fosse solidão. Ela acreditava ser realmente boa nessa coisa de ser solitária. Mesmo ali no metrô lotado, estava perdida em seus devaneios, analisando a própria e desinteressante vida, e como estava sendo uma decepção para si mesma. Em nove meses de Londres ainda não havia feito um amigo. Ou ido ao London Eye. Por que ela ainda não havia ido ao London Eye?!
Saltou do veículo no mesmo momento em que ele parou, sendo um pouco empurrada, mas não se importando, sentindo-se leve. Para alguém que havia nascido e crescido na cidade de São Paulo, alguns empurrões no metrô significavam nada. Tirou o celular do bolso para conferir algumas mensagens, especialmente dos grupos que fazia parte. Nenhuma era interessante, o que a fez bufar.
Ao atingir a calçada, a claridade fez com que seus olhos ardessem. Em momentos como aquele, ela agradecia por ter olhos escuros. As reclamações de um conhecido de olhos verdes invadiram sua mente por um breve momento, fazendo-a soltar um riso do qual ninguém compartilhava. Em pequenos momentos como aquele, sentia uma pontada de saudade do Brasil.
Enfiou a mão na bolsa transversal, a fim de pegar a chave do prédio. Estranhou a falta de um objeto retangular, o maior e mais espaçoso da bolsa. Puxou-a para mais perto de si e abriu o máximo que pode, praticamente mergulhado o rosto em seu interior. Soltou a bolsa sentindo uma repentina raiva após constatar o óbvio: sua carteira havia sido furtada.
Bufando, continuou seguindo seu caminho, os dedos indo rapidamente de um lado ao outro da tela do celular. Estava furiosa, escrevendo um furioso post em sua rede social favorita. Seu sangue quente e os palavrões que repetia mentalmente dirigiam-se para si mesma. Para alguém que havia nascido e crescido em São Paulo, ela havia sido absurdamente estúpida.
Tirou os olhos da tela do celular e encarou o caminho à sua frente. Apenas mais dois quarteirões e enfim estaria em sua tão pequena porém querida residência. Não era todo o estudante que tinha o privilégio de morar sozinho. Talvez o fato de que havia sido mandada para a mais minúscula kitnet da qual já havia tido notícia explicasse alguma coisa. Apenas a cama que havia comprado já ocupava praticamente todo o “quarto”. A única coisa que havia se permitido ter em exagerado tamanho. O sofá era de dois lugares, e a televisão tinha vinte e duas polegadas. A pequena mesa quadrada tinha espaço para apenas duas pessoas, e uma das cadeiras ameaçava quebrar. A geladeira assemelhava-se a um frigobar de hotel. A sala, cozinha e quarto não possuíam separação física, parecendo que tudo fazia parte do mesmo cômodo. Apenas o banheiro tinha paredes. Também não havia uma área de serviço onde pudesse lavar as roupas, portanto havia feito um convênio com uma lavanderia local, que acabara se provando extremamente eficiente.
Ao menos ela estava finalmente chegando em casa. Baixou novamente os olhos, pronta para continuar a redigir o texto, mas a tela do celular acabou se tornando um borrão. Seus dedos fecharam-se no ar, chocando-se contra a palma de sua mão. Levantou a cabeça rapidamente a tempo de ver um rapaz de bicicleta levar seu celular. Sua boca abriu-se por conta do choque, mas o grito morreu em sua garganta. Respirou fundo algumas vezes e novamente seus olhos arderam, o que não fazia sentido, afinal, ela já havia se acostumado à claridade.
Arrastou os pés até o banco mais próximo, no qual jogou todo o peso do corpo. Os olhos ainda ardiam, e logo sentiu as bochechas ficarem úmidas. Levou a mão ao próprio rosto e secou as lágrimas que caíam sem seu consentimento. As pessoas ao seu redor encaravam-na, viam suas lágrimas brilharem e seguiam suas vidas. Ela não era ninguém importante, ninguém merecedor de atenção. Apenas mais uma das muitas meninas que choravam sozinhas na rua. Ela abaixou a cabeça, apenas para tentar evitar aqueles olhares. Deixou as mãos caírem sobre os joelhos, as lágrimas caírem na própria coxa.
Um calor repentino aqueceu o lado direito de seu corpo, mas ela não tinha ânimo para sequer olhar para o lado. Uma mão apareceu perto da sua, tomando cuidado para não tocar sua perna. Um lenço de papel branco ameaçava balançar contra o fraco vento. Ela não o pegou. Levantou a cabeça e virou o rosto para o lado direito.
O rosto que a encarava era conhecido. Não tão conhecido como os da boyband que ela mais escutava no momento, mas suficientemente conhecido. Ela havia visto-o em um ótimo musical que estava em cartaz no melhor teatro londrino. Também havia visto-o naquele filme com o nome difícil ou esquecível demais, mas com uma temática tão pesada que as cenas se repetiam em sua cabeça.
Ela também já havia visto aquele olhar várias vezes, inclusive em si mesma. Olhava assim os cachorros magros, abandonados na rua. Ou quando assistindo algum documentário de pessoas com doenças em estágio terminal. Aqueles olhos a encaravam com pena. E aquilo fez que a velocidade que as lágrimas deixavam seus olhos aumentasse.
A mão do homem, que ainda segurava o lenço, subiu na altura de seus olhos. Ela pegou-o de sua mão, realmente apreciando o gesto, e assoou o nariz. As lágrimas ela podia secar com as próprias mãos, mas não podia dizer o mesmo do nariz.
— Obrigada. — obrigou a voz a deixar a garganta, mesmo não sendo tão bem sucedida. O início da palavra havia saído quase inaudível, e o restante parecia ter sido falado de dentro de um tanque cheio d’água.
— Disponha. — a voz dele era baixa e calma, exatamente como ela se lembrava das peças. Suas sobrancelhas estavam franzidas, aparentando preocupação. — Precisa de ajuda?
— Não sei.
Ela não queria ter respondido tão vagamente, era estúpido, mas ao menos havia sido sincera. Naquele momento, não podia dizer com certeza o que precisava. O sangue fervendo era misturado ao frio na barriga, que por sua vez parecia ser ofuscado por um aperto no coração. Raiva, medo, tristeza. Todos os sentimentos que, juntos, faziam com que sua cabeça latejasse.
— O que aconteceu com você? — a voz baixa do homem soou novamente. Ela lembrou-se dele cantando na peça, interpretando um doutor maluco, um tanto quanto engraçado. Se a situação fosse outra, provavelmente teria sorrido.
— Roubaram minha carteira no metrô. E agora roubaram meu celular.
— Duas pessoas diferentes? — os olhos dele arregalaram.
Ela apenas balançou a cabeça da maneira convencionada que indicava “sim”. Ele provavelmente estava pensando o quão azarada ela havia sido. Furtada duas vezes em menos de dez minutos. A probabilidade certamente não estava a seu favor.
— Sinto muito. — as palavras dele soaram sinceras.
Ela novamente apenas balançou a cabeça. Ele “sentir muito” não mudaria em absolutamente nada sua situação, ambos tinham conhecimento deste fato. O pequeno lenço estava agora amassado em sua mão. As lágrimas já haviam parado de cair, mas as pessoas ainda a encaravam. Julgou estar com o nariz e olhos vermelhos, o que sempre acontecia quando chorava demais. Passou a mão pelas bochechas, certificando-se de que não estavam mais molhadas, e em seguida respirou fundo. Precisaria ia à delegacia. Depois, cancelar os cartões de crédito e o número do celular. Mas apenas no dia seguinte, já que a tarde já estava chegando ao fim e as lojas e serviços de atendimento ao consumidor já haviam fechado. De qualquer maneira, não voltaria ao metrô com o rosto daquele jeito.
— Você mora por aqui? — a voz do homem assustou-a. Por alguns poucos segundos, havia deixado que as preocupações tomassem sua mente, fazendo com que esquecesse completamente que ele ainda estava ali. — Digo... Você não tem dinheiro para pegar o metrô novamente, certo? Levaram sua carteira.
A necessidade de explicação dava-se à confusão perante a expressão assustada dela. Talvez ela estivesse achando que a curiosidade sobre o local que morava pudesse ter um motivo malicioso por trás, ele não podia afirmar com certeza. Em todo caso, era melhor explicar.
— Moro na próxima rua. — a voz dela agora soava melhor, ainda que mais aguda que o usual.
— Eu posso te acompanhar. — pela primeira vez um sorriso apareceu no rosto de um deles.
Ela já havia visto aquele sorriso algumas vezes, parecia tão sincero quanto nas telas e teatros, o que a confundiu. Não sabia dizer se ele atuava naquele momento. Torcia para que não; era um sorriso caloroso e amigável demais para ser estragado por uma falsidade tão desnecessária.
— Agradeço, mas não precisa. — sua tentativa de sorriso falhou. — Não quero te tirar de sua rota.
— Na realidade eu continuarei em minha rota. Também moro na próxima rua.
A informação a pegou desprevenida. Novamente, a decepção consigo mesma. Dez meses em Londres e nunca havia percebido que morava na mesma rua de . Por isso ele não estava sendo parado por fãs. As pessoas daquele bairro já eram acostumadas com sua presença. Com exceção dela, provavelmente.
— Nesse caso eu agradeço a companhia. — finalmente conseguiu sorrir.
Viu-o se levantar e julgou que deveria imitar o gesto. Jogou o lenço amassado na lixeira mais próxima e juntos começaram a caminhar silenciosamente. Por mais que ela soubesse quem ele era, ela não o conhecia, portanto não poderia manter assunto. Mal conseguia fazê-lo com pessoas que conhecia há anos.
— Você já sabe como vai fazer para recuperar os documentos que foram levados? — o assunto acabaria sempre voltando para aquilo.
— Vou resolver tudo amanhã pela manhã. — o plano já estava traçado em sua mente. — Tudo o que é possível resolver aqui, pelo menos. Acho que ficarei um tempo na embaixada Brasileira. Lá costuma ser um pouco enrolado, provavelmente para não nos deixar esquecer de como as coisas funcionam no Brasil.
Permitiu-se dar uma risadinha da própria piada enquanto ele a encarava curioso.
— Você é do Brasil? Que legal! O que faz aqui na Inglaterra?
— Intercâmbio. Consegui uma bolsa pelo governo brasileiro. Agora consegui uma de pesquisa pela própria faculdade.
— Então você deve ser boa no que faz. — o sorriso simpático dele era reconfortante. Gostava de ver pela tela do cinema, mas pessoalmente parecia ainda mais simpático. — As universidades daqui não costumam ser tão acolhedoras.
Novamente permitiu-se rir. Ainda que sua situação não fosse a melhor, não poderia ficar se lamentando pela eternidade, e ao seu lado havia esse homem que claramente estava tentando ajudá-la a melhorar o humor. Parou de caminhar assim que chegou em frente ao prédio que morava. Chamar de prédio era uma maneira simpática de falar, já que possuía apenas três andares, o que anulava completamente a necessidade de elevador.
— Eu moro aqui. — apontou para a construção antiga, a mais antiga do bairro inteiro.
— Claro. Eu moro naquela casa. — ele apontou para a penúltima casa da rua, umas das mais bonitas. — Não hesite em tocar a campainha se precisar de qualquer coisa.
— Obrigada, . — ela coçou a nuca, deixando um sorriso sem graça adornar os lábios.
Ele levantou as sobrancelhas. Em momento nenhum havia falado seu nome, mas geralmente não havia a necessidade, como ela havia acabado de provar. Ela sequer havia percebido que cometera esse deslize. Talvez a ideia de que muitos soubessem quem ele era estivesse gravada em sua cabeça e saber o nome dele acabasse se tornando natural.
— Não precisa agradecer. Mas seria realmente simpático de sua parte me falar seu nome.
— Claro! Me desculpe. — a risada soou nervosa, deixando claro que ela estava sem graça. — Me chamo .
Disse o nome no sotaque britânico que estava acostumada a ouvir. No início tentava dizer da maneira certa e brasileira, mas sempre era obrigada a repetir duas ou três vezes até que a pessoa desistisse e falasse da maneira britanizada. No fim acabou cansando e falando da forma britânica já de primeira, poupando esforços de ambas as partes.
. — ele repetiu, bastante britânico. — Espero que você fique bem. E por favor, não hesite em pedir ajuda.
Agradecendo mais uma ou duas vezes, ela deu as costas para o homem e passou a chave no portão do prédio, abrindo-o. Ao menos isso não havia sido roubado. Subiu os dois lances de escada que levavam ao segundo andar e girou a chave na fechadura, abrindo a porta de madeira escura do tão pequeno apartamento. Após fechar a porta atrás de si e garantir que havia trancado, deixou o corpo cair no sofá de dois lugares.
Pegou o notebook e acessou a internet. Havia recebido alguns emails da universidade, seu professor e coordenador de projeto passando novas instruções. Em seguida abriu todas as redes sociais que estavam conectadas também no celular e alterou as senhas. Por fim, entrou no site da embaixada Brasileira na Inglaterra para descobrir o que devia ser feito a respeito de seu RG e cartões de bancos – Brasileiros e Ingleses – que havia perdido. Sua felicidade era saber que o passaporte ainda estava seguro na gaveta da cômoda.
Fechou então o notebook, o desânimo novamente invadindo sua mente e seu corpo. Respirando fundo, colocou o notebook no chão com cuidado e se deitou no sofá, as pernas ficando para fora. Pegou o controle que estava quase completamente afundado no vão do sofá e ligou a televisão. Ironicamente, a tela exibia um programa em que fazia uma participação. Deixou-se sorrir enquanto analisava a atuação dele e ele exibia o mesmo sorriso que lhe dera mais cedo. Atuação ou não, era um sorriso acolhedor, o que ela realmente precisava naquele momento, e ela tinha a sensação de que ele entendia isso. sabia que não iria tocar a campainha de sua casa, nem se realmente estivesse precisando. Ela nunca mais o veria, ao menos não pessoalmente, mas por hora, aquilo havia sido o bastante.


02: Um passo menor que a perna



Ela sabia que teria um dos dias mais longos e corridos desde que chegara em Londres. Pela manhã, foi para a universidade apenas para avisar que não poderia ficar por lá naquele dia em específico. Explicou tudo o que havia ocorrido no dia anterior e recebeu várias expressões chocadas e palavras de apoio, nada além do esperado. Seu professor e coordenador era o que a sociedade rotulava de “boa pessoa”, com grandiosa compaixão e compreensão. Deixou que ela se ausentasse naquele dia sem nenhum tipo de desconto. Estava para começar uma longa jornada. Ao menos havia feito o famoso B.O. pela internet.
Sua primeira parada foi a loja da operadora de seu antigo celular. Cancelou o antigo número e logo um novo foi oferecido, assim como um novo aparelho. Talvez aquela fosse a única vantagem real do plano móvel que possuía, e não é exatamente inteligente chamar de vantagem algo do qual você pode usufruir apenas em casos extremos. Como em um assalto.
No banco demorou um pouco mais para cancelar os cartões que haviam sido levados. A burocracia dava-lhe sono, e sua atenção desviava para qualquer canto, inclusive o bebedouro que pingava a cada dez segundos. calculou o desperdício de água por minuto, logo em seguida calculando quanto tempo levaria para que aquela goteira secasse um galão inteiro de água.
— Vocês precisam arrumar a torneira daquele bebedouro. — foi a resposta de para “a senhorita pode por favor informar novamente o seu número de passaporte?”.
O atendente piscou para ela algumas vezes, tentando compreender o que ela dizia. Sendo completamente sincera, ela não se importava. Pegou o passaporte na bolsa e colocou sobre a mesa, deixando que o atendente se resolvesse sozinho. Mais longos minutos se passaram até que finalmente os cartões fossem cancelados e o pedido para novos fosse efetuado. Ser assaltada era uma burocracia muito maior do que qualquer um imaginava.
Por fim, foi até a embaixada Brasileira na Inglaterra. Achava certa graça da maneira de falar, mas não tinha com quem compartilhar. Na recepção, pegou uma senha e sentou-se. Nove pessoas estavam em sua frente. Apoiou a cabeça contra o encosto do banco e decidiu prestar atenção na televisão. Mesmo que se tratasse da embaixada brasileira, o programa que passava era inglês. E, novamente, ela viu .
Sempre havia achado estranhamente engraçado como as coisas das quais você toma conhecimento começam a te perseguir. Provavelmente sempre via o rosto dele pela televisão, mas apenas agora realmente reparava. Uma amiga havia aprendido sobre isso durante a faculdade, e havia lhe explicado, mas ela não havia se importado o bastante para prestar atenção. Agora se arrependia um pouco, mas apenas um pouco. Existia toda uma magia por trás desse pequeno mistério.
A embaixada acabou sendo muito mais rápida do que imaginava, e logo seus cartões brasileiros também haviam sido cancelados. Tudo finalmente estava resolvido. Ela ainda poderia voltar para a universidade se quisesse, mas achou que merecia se dar uma folga. Agora, quando estava no metrô, garantia que a bolsa estivesse completamente visível todo o tempo, sempre apertada firmemente contra seu corpo. Não iria correr o mesmo risco novamente, ao menos não com tanta facilidade ou por conta de um erro tão iniciante.
Ao descer na rua, também se atentava mais às pessoas que caminhavam perto de si. De repente, todos pareciam ter expressões maliciosas em seus rostos. Seu psicológico estava um pouco abalado. Caminhou rapidamente as duas quadras até sua rua, que era tão pacata. Nunca havia sequer ouvido falar sobre invasão domiciliar ou assaltos que aconteceram ali; mas até o dia anterior também não sabia que morava ali. Talvez ela não fosse um bom indicativo, no final das contas.
Antes de colocar a chave no portão do prédio, deixou-se encarar o portão da casa dele. Parecia que nada acontecia, o que era provavelmente a verdade. estava estrelando um grande musical em Londres, sua agenda deveria estar mais do que ocupada. E mesmo se não estivesse, ela não iria até a casa dele. Qual desculpa clichê usaria se o fizesse? Acabou o açúcar?
Entrando no prédio, conseguia apenas pensar na vontade que sentia de rever o homem. Não sabia exatamente se porque ele havia sido realmente prestativo em um momento de necessidade ou se porque ele não parava de aparecer em cartazes e programas. Talvez, na verdade, fosse porque ela realmente queria um amigo. Mas que tipo de pessoa simplesmente se torna amiga de um famoso?
Enquanto jogava a bolsa no sofá e em seguida a empurrava para o chão, de forma a se deitar confortável, ela pensava em como era péssima nessa questão de tomar uma atitude, especialmente quando o tópico era relacionamentos, qualquer que fosse tipo. Não havia tido problemas em ir atrás das duas bolsas de estudos, mas bater na casa do quase vizinho? Impossível. Ajudaria se ele não fosse famoso, claro. Estufou as bochechas com ar, brava consigo mesma, e então franziu as sobrancelhas após reparar a quantidade de vezes que havia sentido raiva de si mesma desde o dia anterior.
Quando sentimentos ruins são constantemente voltados a si mesmo, alguma coisa certamente está errada. E não havia a menor dúvida sobre o quê estava errado. Talvez fosse a hora de ela finalmente tomar uma atitude. Agir de acordo com sua idade, para começar. Levantou-se do sofá, pegou as chaves e saiu de casa. Desceu as escadas correndo, como sempre fazia, e sempre com o mesmo medo de errar um degrau e acabar descendo o restante rolando. Mas chegou ao fim bem e viva, era o que importava.
Saiu do prédio e andou poucos metros até a casa que havia apontado para ela no dia anterior. Durante a curta caminhada, se perguntou se não seria estranho aparecer na casa dele sem um real motivo aparente. Provavelmente não. Ele mesmo havia convidado-a a ir até lá. Claro que ele havia sido específico ao dizer “se precisar de algo”. Precisar de um amigo contava?
Levantou a mão em direção a campainha, mas parou a poucos centímetros. Era mais difícil do que havia imaginado. estava se descobrindo bastante insegura, e como aquilo realmente explicava a falta de amigos. Mordeu o interior da própria bochecha e ficou na ponta dos pés, olhando o interior da garagem. Não sabia porque havia ficado na ponta dos pés, não fazia a menor diferença. Provavelmente era apenas uma compulsão para se mexer, já que a mão continuava estática, exatamente a centímetros da campainha.
Por fim voltou os pés para a altura normal e abaixou a mão. Era isso, ela não iria tocar a maldita campainha. De repente teve certeza que a acharia louca, ou ficaria com pena. Ela não iria suportar aquele olhar de pena novamente. Eles ficariam ali, apenas se encarando, sem saber muito bem o que falar um para o outro. No fim ela apenas agradeceria mais algumas vezes e iria embora, e aí sim eles nunca mais sequer conversariam.
De cabeça baixa ela voltou para o próprio prédio e subiu as escadas se arrastando. Pelo menos dessa vez não corria o risco de cair. Após jogar-se no sofá – o gesto mais comum de sua vida – ficou encarando o teto. Não sabia o que estava jogando fora: a chance de fazer um novo amigo ou a de passar vergonha. Pelo sim e pelo não, havia decidido não arriscar. E isso a fazia sentir-se miserável. Um, apenas um passo. Era tudo o que ela precisava. Não deveria ser tão difícil assim se aproximar de um ator.
E talvez não fosse.
Talvez tivesse sido possível ouvir o estalo em sua cabeça com a ideia que surgira. Sentou-se rapidamente e pegou o notebook, acessando o site de ingressos do teatro de Londres. Um único passo, era o que precisava, certo? Então daria. Talvez a sorte ficasse ao seu favor. Escolheu a poltrona mais ao centro e próxima do palco que conseguiu e efetuou a compra em débito automático, afinal, ainda estava sem cartão de crédito. Sentiu-se um pouco mais feliz. Não sabia se havia sido a melhor ideia, mas ao menos havia sido seu primeiro passo.

***


Ao sentar-se na poltrona praticamente colada ao palco, sentiu um friozinho na barriga que a fez rir sozinha. Já havia assistido a peça, mas não com o mesmo intuito. “Notice me, senpai!”, era tudo o que ela pensava, trazendo de volta os bons tempos da adolescência. E novamente ria sozinha. Era exatamente aquilo que ela queria que acabasse, as risadas solitárias. Queria compartilhar suas bobeiras com alguém. É impressionante como uma pessoa sendo simpática da maneira certa no momento certo pode despertar o desejo de conhecê-la melhor. havia feito um ótimo trabalho com .
A cena de , que interpretava o personagem principal, era já a primeira. Assim que ele subiu no palco, algumas pessoas começaram a aplaudir, e ela acabou acompanhando. Disse algumas falas e começou a cantar a música que abria o musical. Enquanto ia de um lado para o outro, cantando muito bem, seu olhar encontrou o de , mas nenhuma reação foi esboçada. Ela se perguntou se ele não se lembrava dela, se não se importava ou se apenas era um ótimo ator. Torceu para que a última opção fosse a que retratava a realidade.
Uma vez mais apaixonou-se pelo musical, tão bem produzido, tão bem encenado. Suspirou alto quando a última música começou e finalmente terminou. Os atores se juntaram no palco e deram as mãos enquanto o público aplaudia de pé. abaixou-se, fazendo a reverência e, ao se levantar, novamente deixou que os olhos encontrassem os de . Ela sorria e aplaudia fervorosamente. E então ele sorriu para ela.
O sorriso de em sua direção fez com que sentisse emoções que iam da extrema alegria a vergonha tão rapidamente que não entendia como uma pessoa podia se sentir de tantas maneiras diferentes em tão pouco tempo. Sorriu de volta, torcendo para que ele percebesse que o sorriso era especificamente para ele, e não porque a peça havia realmente sido maravilhosa. Os lábios de se mexeram rapidamente, deixando claro que ele havia sim entendido o sorriso.
“Espera!”
Ela balançou a cabeça concordando enquanto os atores saíam do palco. Aos poucos, o teatro foi esvaziando. Ela não sabia onde esperar. Tentou perguntar ao segurança em qual direção ficava o backstage, o que logo se provou não ter sido a melhor das ideias. O olhar desconfiado que lhe fora lançado já dizia tudo. A última coisa que precisava era de alguém quando que ela era uma fã louca. Tentou se informar pelas fãs loucas e logo foi levada por uma multidão para o local por onde os atores iriam sair.
Longos minutos se passaram até a gritaria começar. Tão logo ele apareceu, foi cercado por dezenas de garotas, estendendo-lhe cadernos e celulares. Ele sorria para todas, sempre extremamente simpático. Ela ficou mais ao fundo, apenas observando. Não se sentia no direito de cortar nenhuma das fãs. Após vários minutos, o rosto dele virou em sua direção. Ele sorriu e terminou de assinar o caderno de uma fã, em seguida fazendo-lhe um gesto para se aproximar. Ela se sentiu um pouco idiota, se metendo no meio de tantas fãs sem sequer ter a intenção de pegar um autógrafo.
— Quer dizer que você veio me ver? — a brincadeira era adornada pelo sorriso simpático. Os olhos estavam alegres, uma ótima mudança daquela pena que havia presenciado na semana anterior.
— Pela segunda vez.
— Não achei que você fosse me procurar. — ele parou a conversa para falar qualquer coisa com uma fã e tirar uma foto, voltando a atenção para ela poucos minutos depois.
— Eu até tentei, mas...
— Eu vi. — ele a cortou enquanto assinava o último caderno e em seguida trocava algumas palavras com a última fã. Os seguranças começaram a tentar afastá-lo, mas ele segurou sua mão e arrastou-a junto dele para longe da multidão. — Eu te vi parada no meu portão, decidindo se tocava ou não minha campainha. E então você foi embora.
— Estou me sentindo estúpida. — a risada nervosa dela não passou despercebida por ele. — Sim, eu fui até sua casa e não consegui tocar a campainha. Fiquei com medo.
— De quê? — ele parou de andar tão logo chegaram na calçada, completamente vazia, e soltou o braço dela.
— De você me achar louca.
— Ficar no meu portão, com a mão estendida no ar e na ponta dos pés te fez parecer louca. — ele riu enquanto ela apenas dava um tapa na própria testa. — Você está bem?
— Sim. — ela piscou rapidamente, tentando clarear a própria mente, interpretando corretamente a pergunta dele. — Já resolvi toda a documentação. Até mesmo consegui um novo celular!
Ela levantou o aparelho simples e balançou-o no ar, como se festejasse. Ele riu e o tirou de sua mão delicadamente. Desbloqueou a tela, o que a fez perceber que precisava configurar uma senha de bloqueio, e começou a digitar rapidamente.
— O que está fazendo? — ela olhou curiosa para os dedos ágeis dele, que em poucos segundos lhe devolveu o aparelho.
— Anotando meu número. — ele deu um sorriso que a fez ficar sem graça. — Caso você precise de ajuda, entende? Você não parece ter muitos contatos.
Ele fez um careta ao final da frase enquanto ela apenas mordia o interior da bochecha e enfiava o celular de volta no bolso. Ele não havia tentando ser chato ou se meter em sua vida, ela sabia disso. Ele provavelmente pensava que o motivo da falta de contatos era por ela ter perdido todos os anteriores. O homem não sabia que aqueles cinco números eram todos os contatos que ela possuía, dois em Londres, do projeto da universidade, e três do Brasil, sendo um deles o número que a mãe e o pai dividiam.
— Quer carona? — apontou para o carro preto parado na esquina.
— Obrigada, mas vou ter que recusar. — ela sorriu sem saber ao certo motivo da recusa.
Ela teria que pegar o metrô novamente, o que nunca havia sido um problema, mas ainda assim não havia motivos para trocar o conforto de um carro por um metrô. Talvez depois daquilo ela queria apenas pensar sozinha. teve o tato de não lhe perguntar o motivo, apenas aceitando sua decisão calado. Já havia entendido que não seria alguém fácil de lidar, mas sentia que ela precisava de um amigo. Qualquer pessoa que fique sentada no meio da rua chorando sozinha precisa de ajuda.
— Tudo bem. — ele bateu uma mão na outra, produzindo uma alta palma, fazendo-a dar um pulo. Não conseguiram evitar as risadas que se seguiram. — Desculpe por isso. De qualquer maneira... Espero que, da próxima vez, você não tenha medo de tocar a campainha. Mesmo que você pareça meio louca, prometo que vou abrir o portão.
Sorriram e se despediram, entrando no carro e caminhando até o metrô. Novamente vários sentimentos a confundiam, mas um era muito mais forte. Um calor em seu peito, que a fazia ter esperança, plantando em sua mente a ideia de que as coisas iriam mudar, e mudar para melhor.


03: A infância permanece em você



A semana dela havia sido bastante corrida. Uma falha havia sido descoberta no projeto, e ela passava praticamernte o dia inteiro na universidade, entre testes e pesquisas sem fim, as constantes e malucas tentativas de todo o grupo de corrigir a pequena falha que poderia fazer com que o projeto inteiro acabasse completamente perdido.
Em meio a loucura de casa-universidade-casa, ela não havia tido tempo de ligar para ele. O contato estava salvo como “” há quase uma semana e ela ainda sequer havia lhe mandado uma única mensagem, nem ao menos um simples “oi”. A maior parte da culpa era a correria da universidade. Mas também havia aquela pequena parcela de insegurança. Era fato que tal insegurança havia diminuído consideravelmente desde que ele anotara o próprio número do celular dela, mas ainda assim sempre teria aquele bichinho que falava “será?”.
Porém, desta vez, ela estava decidida a tomar uma atitude. Ele mesmo havia, novamente, convidado-a para uma visita. Ela não iria ficar recusando por toda e eternidade, especialmente porque ele havia visto-a indo até sua casa e desistindo. Sempre que a imagem dele contanto aquilo aparecia em sua mente, suas bochechas ficavam instantaneamente vermelhas. Como poderia ser tão idiota!
Assim que acordou na sexta-feira, pegou o celular e navegou até os contatos, clicando no nome de e encostando o aparelho contra o ouvido. Mesmo que anos de estudo provassem que era fisicamente impossível, ela suspeitava que o barulho da chamada estivesse fazendo seu estômago gelar.
— Alô? — a voz rouca soou do outro lado.
Dado o horário, ela sabia que havia a chance de acordá-lo, mas se não ligasse naquele hora, não conseguiria mais.
— Sou eu, . — a risada nervosa serviu como tentativa de descontração. — Desculpa te acordar.
— Não se desculpe. — um suspiro ao final da frase deixou claro que ele se espreguiçava. — Eu deveria ter levantado uma hora atrás. A que devo a honra?
Repetiu uma de suas muitas manias e mordeu o interior da própria bochecha. Colocando de uma maneira um pouco dramática, era chegada a hora. Sua atitude certeira sendo enfim tomada.
— Quanto você é familiarizado com o conceito “almoço de domingo”?
— Se você estiver se referindo a qualquer coisa que vá além de um almoço que acontece nos domingos, não sou nada familiarizado.
Ambos riram. Era especialmente engraçado ouvir a voz sonolenta de fazendo algumas piadas, forçando a descontração entre os dois.
— É quase isso, na verdade. Mas também domingo é o dia de reunir a família e amigos para um almoço especial. — ela explicava enquanto andava de um lado para o outro da sala, tentando de todas as maneiras não soar idiota. — Então eu pensei que seria legal se nós... Hum... Se nós fizéssemos um almoço de domingo, sabe?
— Eu não achei que você fosse me ligar. — sua voz não soava séria, mas também não parecia mais tão brincalhão. — Fiquei esperando qualquer contato nos primeiros dias, mas nada aconteceu, cheguei a pensar que você tinha simplesmente apagado meu número. E então, quase uma semana depois, você me liga e me convida para um almoço de domingo. Como eu não iria te achar louca, ?
Ela abriu a boca algumas vezes, sem conseguir encontrar palavras para reagir àquela frase. Não era justo! Ela finalmente havia tomado uma atitude e era aquilo que ganhava em troca? Não parecia valer tão a pena assim.
— Eu... Estive ocupada com o projeto da universidade. — sua voz soou baixa. — É uma desculpa horrível, mas...
— Ei, espera aí! — a voz alta dele fez com que ela afastasse o celular alguns centímetros. — Eu não estou reclamando! Não, nem pensar. Eu apenas acho engraçada a sua maneira de lidar com as coisas, é divertido. Sim, eu aceito um almoço de domingo com você.
A risada foi sincera, com um leve toque do alívio que sentia. Por um momento, havia acreditado que iria recusar seu convite, e que provavelmente havia começado a odiá-la. Às vezes sua capacidade de sempre esperar o pior a deixava impressionada. Combinaram que o almoço aconteceria na casa de , já que não tinha certeza se os dois caberiam confortavelmente em sua kitnet. Ele reclamou do exagero dela; ela disse que ele só achava ser exagero porque nunca havia ido até lá. No fim ele fez questão de cuidar de tudo – dos ingredientes ao preparo da comida. Ela, já graduada em almoço de domingo, disse que então levaria a sobremesa.
Uma energia renovadora encheu o ambiente, do apartamento a , que agora tinha um sorriso involuntário no rosto. Admitia que não havia sentido aquela energia muitas vezes durante a vida, a certeza de realização. Mas, em todas as poucas vezes que acontecera, sempre havia valido a pena.

***


Ela visitava o mercado especializado em alimentos brasileiro muito raramente, por dois principais motivos. Primeiro, era um pouco fora de mão, praticamente fazendo-a atravessar a cidade. Segundo, as coisas acabavam sendo um pouco caras demais. Mas ela precisava dos ingredientes para fazer seu doce favorito, e ali era o melhor lugar para encontrá-los.
Enquanto voltava para o apartamento, repassava toda a simples receita na própria cabeça. Não tinha muita certeza se o doce sairia bom. Havia se arriscado a fazer apenas uma vez, e não saíra uma obra prima, nem perto do que o que sua mãe fazia. Mas brigadeirão era, de fato, um dos doces mais gostosos que ja havia provado, e tinha certeza que nunca havia comido.
Assim que colocou a chave no portão do prédio, deixou-se encarar a casa dele, que ela sabia estar vazia. Nos sábados ele fazia apresentações duplas, então ficava praticamente o dia inteiro fora de casa. Abriu o portão ao mesmo tempo em que abria um sorriso, subindo as escadas correndo, quase escorregando ao final e rindo do desespero que havia sentido com a possibilidade de cair.
Dentro da kitnet, começou a juntar todos os ingredientes em uma vasilha e misturar. A mãe havia ensinado que geralmente é melhor misturar na mão do que no liquidificador ou batedeira, evitava deixar o doce com buraquinhos. Era o que fazia para que os pudins fossem perfeitamente lisos. Não gostava muito da técnica, mas queria impressionar. Se estava disposto a fazer todo o almoço, ela no mínimo deveria levar uma boa sobremesa, especialmente porque seria uma sobremesa tipicamente brasileira.
Após colocar o doce na vasilha e deixar em banho maria, sentou-se no sofá e ligou a televisão. Torcia para que o doce saísse melhor do que sua primeira tentativa, ainda no Brasil. Mas também, se saísse exatamente como saíra a primeira vez, ficaria bastante gostoso.

***


Acordou no domingo se sentindo ansiosa. Na geladeira, o doce estava pronto, perfeitamente lindo, como se via nas imagens da internet. Não havia experimentado, o que a deixava um pouco receosa quanto ao sabor. Olhava o relógio a cada minuto, esperando que o horário combinado logo chegasse, mas sentindo como se o tempo tivesse parado. Quando finalmente o ponteiro mostrou o horário esperado, vestiu-se rapidamente e arrumou o doce na vasilha, orgulhosa do próprio trabalho.
Deixou o prédio e caminhou rapidamente até a casa de . Novamente parou em frente e respirou fundo, mas desta vez tocou a campainha. Após poucos segundos viu o rosto sorridente dele aparecer na janela, e logo ele estava abrindo o portão. Deu-lhe um abraço torto, tomando cuidado para não derrubar a vasilha que ela segurava. Em seguida começou a caminhar, guiando-a para o interior da casa.
A primeira coisa que ela notou ao entrar na sala foi o enorme piano de cauda, a madeira polida. Não fazia ideia de que sabia tocar. A decoração era simples, bastante moderna. reparou que não sabia muito sobre a vida do rapaz. Nunca havia pesquisado nada sobre a vida dele, nem sequer era fã. Mas aquele piano na sala despertou a curiosidade.
Enquanto o seguia pela residência até a cozinha, sentiu um delicioso cheiro de comida. Não sabia o que ele havia preparado, mas se o sabor condizisse com o cheiro, certamente estava maravilhoso. Percebeu naquele momento o quanto estava com fome. indicou a geladeira para que ela guardasse o doce enquanto ele começava a colocar os pratos e copos na mesa. Sentiu-se um pouco sem graça em abrir a geladeira dele, ainda não possuíam esse nível de intimidade; na verdade, não possuíam nenhum nível de intimidade. Mas mesmo assim a abriu e guardou o brigadeirão.
Sentou-se na mesa de seis lugares e se perguntou se costumava receber visitas. Aparentemente ele morava sozinho, logo o tamanho da mesa não fazia muito sentido em sua cabeça. Encheu o prato com a carne e legumes cozidos que ele havia preparado, e logo descobriu que ele realmente era um bom cozinheiro.
— E então? — o olhar ansioso dele pedia a opinião da comida.
— Isso está maravilhoso! Como você não é enorme de gordo? — ela riu, olhando para os braços dele, os músculos claros através da manga.
— Eu só cozinho em ocasiões especiais. — ele riu, olhando para ela.
achava um pouco intimidante a maneira como ele sempre a olhava nos olhos, raramente desviando. Ele também se mexia bastante, não conseguindo ficar parado um único minuto. Não parava de falar nem para mastigar, sempre engolindo a comida muito rapidamente.
— Como foi sua semana? — perguntou casualmente. Ela não era muito boa em conversa fiada, mas também não possuía nenhum assunto realmente interessante.
— Menos corrida que a sua, provavelmente. Eu ainda estou bastante envolvido com a peça, então não tenho feito muito mais do que isso. Às vezes um photoshoot aqui, uma entrevista ali, nada de mais.
“Nada de mais” definitivamente não era o que achava de tudo aquilo. Quando estava com ele, olhando seu rosto, era impossível não lembrar que ele era conhecido. Mas sempre deixava que a dimensão de sua fama lhe escapasse. Talvez porque nunca havia conhecido ninguém famoso, ou simplesmente porque, naquele momento, ele parecia nada mais do que uma pessoa normal.
Após a deliciosa refeição, ajudou a tirar os pratos da mesa e logo pegaram o brigadeirão. Ele olhou curioso para o doce. Nunca sequer havia visto algo parecido com aquilo, mas estava realmente curioso para provar. Encheram duas vasilhas com o doce. Assim que colocou a primeira colherada na boca, sentiu-se feliz. Inicialmente porque o sabor lhe lembrou da família e do país natal. Em seguida porque havia acertado a receita, e estava quase tão bom quanto o de sua mãe.
— Ok, qual o nome disso? — os olhos de encontraram os seus, o canto da boca sujo de chocolate fazendo-a rir.
— Brigadeirão. — a palavra sem tradução deixou o rapaz bastante confuso.
— Certo, eu nunca vou conseguir falar essa palavra. — os dois riram. — Mas isso está realmente bom! Bem mais doce do que estou acostumado, mas bom!
Ela riu da reação dele. Realmente, os doces ingleses não costumavam ser tão açucarados quanto os brasileiros, então ter gostado havia deixado-a especialmente feliz. Comeram praticamente metade da travessa de doce e depois se entupiram de água. Finalmente, os dois estavam jogados nas cadeiras da mesa, as barrigas estufadas após tanta comida. O silêncio entre eles não era constrangedor. Era o momento para digerir, a refeição e aquele momento, aquela amizade em formação.
Após vários minutos, se levantou repentinamente, batendo palmas, assustando . Ela notou que era um gesto comum da parte dele, e se realmente fosse passar tanto tempo com ele quanto esperava, era melhor se acostumar. Ele avisou que iria lavar a louça, mas que ela poderia ficar na sala assistindo televisão ou fazendo o que quer que lhe agradasse. recusou prontamente e se levantou, seguindo-o o até a cozinha. revirou os olhos enquanto abria a torneira e pegava a esponja, enchendo-a de sabão.
— Sai daqui, . Vai descansar, ver televisão, mexer na internet, sei lá. — ele não parecia bravo, mas um pouco impaciente.
— Me deixa te ajudar, . — ela se aproximou do rapaz e da pia. — Me deixa lavar. Ou secar, tanto faz.
— Não. — ele se virou para ela rapidamente, mexendo a mão para ilustrar a palavra.
Uma grande quantidade de sabão atingiu o rosto de . No momento em que a espuma encontrou o rosto, cobrindo parte da bochecha e da boca, ela fechou os olhos, sem acreditar que aquilo havia acontecido. Levou a mão lentamente ao local e tentou secar-se. realmente queria pedir desculpas, mas ao abrir a boca, o único som produzido foi o de sua risada. A cara que ela havia feito no momento em que o sabão lhe atingiu o rosto havia sido simplesmente hilária e ele não conseguia segurar o riso.
— Não precisa rir tanto. — ela falou, ainda tentando se livrar do sabão.
— Você diz isso porque não está se vendo! — a frase soou estranha em meio às risadas.
revirou os olhos e levou a mão até a dele, pegando uma grande quantidade do sabão e passando no rosto dele. Sorriu quando ele abriu a boca em choque, feliz com a vingança. Um pouco infantil, sim, mas satisfatória. não se demorou em começar a jogar água em sua direção, e em poucos minutos, o que deveria ser uma séria atividade de “arrumar a cozinha” acabou se transformando em uma infantil “guerrinha de água e sabão”. Em poucos minutos, seus rostos, camisas e braços estavam completamente molhados, assim como o chão e sapatos, e as calças cobertas de respingos. Ao fim da guerra e de várias risadas, se encararam.
— E pensar que eu queria apenas ajudar. — ria enquanto olhava para o chão todo molhado.
— Pelo menos foi mais divertido. — ele estava apoiado contra a pia, estabilizando a respiração. — Oficialmente desisto de arrumar a cozinha. Vamos, vou pegar uma toalha para nós, e camisas secas.
precisou segurar , que escorregou e quase caiu assim que deu o primeiro passo. Seguiram até a sala entre piadinhas sobre equilíbrio e reclamações. Ela se sentou na beira do enorme sofá, com medo de molhar o estofado, enquanto ia até o quarto pegar toalhas e camisas. Após poucos segundos voltou sem camisa, com uma toalha na cabeça e nas mãos duas outras camisas e uma toalha. Já havia visto-o sem camisa por conta da peça, então o corpo malhado não mais chamava tanta atenção.
Ele jogou uma toalha e uma camisa em sua direção, em seguida apontando para o banheiro. Rapidamente ela foi até o cômodo, se secou e trocou a camisa, sentindo o sutiã ainda um pouco úmido, mas não o bastante para deixar duas marcas redondas na camisa dele. Saiu do banheiro e voltou para a sala, onde ele estava deitado meio torto no sofá, já trajando uma camisa limpa. Ela riu enquanto se sentava no outro sofá, encarando-o, os curtos cabelos molhados jogados para um único lado.
— Obrigada pela camisa. — ela sorriu um pouco sem graça.
— Não precisa agradecer. Pra isso servem os amigos.
— Nós somos amigos? — a pergunta escapou de sua boca antes que pudesse se controlar, fazendo com que ele sentasse corretamente no sofá, olhando diretamente em seus olhos.
— Não somos?
— Não sei. — ela balançou os ombros, as bochechas um pouco mais quentes. — Sempre pensei que a amizade exigia um tempo maior de conhecimento.
— Eu já te vi chorar, você já me ouviu cantar, me esperou nos bastidores da peça, eu fiz almoço pra você, você fez doce pra mim e fizemos guerra de água e sabão. — ele levantou um dedo para cada evento que já haviam passado juntos. — Alguma coisa nós temos que ser.
— Podemos ser quase amigos. — ela riu, percebendo que sim, eles provavelmente já eram amigos.
Quase? — cruzou os braços, mas um sorriso tomou conta de seus lábios e olhos.
— Você acha que já passamos o suficiente para sermos amigos. Eu ainda acho que precisamos nos conhercer um pouco mais. Podemos ser quase amigos, por enquanto. — ela não conseguia não sorrir. Era a discussão mais divertida que tivera em anos.
— E até quando vamos ser quase?
— Podemos ir evoluindo com o tempo. Começamos com quase vizinhos, agora somos quase amigos. Os próximos passos são: quase melhores amigos, quase namorados, quase casados, quase felizes, quase divorciados. — ela imitou o gesto dele de levantar um dedo para cada item e logo os dois gargalhavam alto.
— Tudo bem, aceito ser seu quase-qualquer-coisa. — ele se levantou e foi até o outro sofá, sentando ao lado dela. — Mas só paro após o divórcio.
— Negócio fechado! — ela riu e estendeu a mão.
Ele revirou os olhos antes de afastar a mão dela e a abraçar, selando a quase amizade mais verdadeira que ela teria em toda sua vida. Muito mais do que todas as amizades completas.


04: Na falta da mãe...



O erro do projeto finalmente havia sido corrigido, graças a ela. Se a universidade desse menções honrosas, ela certamente teria recebido uma. Seu coordenador oficialmente era seu puxa-saco, o que a deixava realmente feliz. Se havia aprendido uma coisa durante a vida, essa coisa era a importância de ter contatos, e professores universitário sempre são os melhores contatos que um aluno pode ter.
Agora ela conseguia descansar melhor, respirar, ter vida social. Não que sua vida social fosse grande coisa; basicamente se resumia a , que basicamente estava sempre ocupado com a questão de ser famoso. Recentemente ele havia dado uma entrevista para um programa de talk-show que a fez rir todo o tempo. Gostava de ver como ele era exatamente o mesmo, independente da pessoa com quem conversava. Haviam passado a trocar mensagens diárias sobre amenidades, geralmente contando sobre como haviam sido os dias de cada um. O dia dele era sempre bem mais divertido.
estava um pouco triste porque logo sua peça chegaria ao fim. estava feliz porque logo a universidade entraria em férias de verão, o que significava férias das aulas e do trabalho. Mesmo que a ideia de ter férias de verão no meio do ano a confundisse, ela ainda assim estava animada, especialmente porque pretendia passar o tempo com seu mais novo e único amigo. Eles estavam combinando coisas demais, e ela mal podia esperar.

***


Em sua última semana de trabalho, viu-se obrigada a tirar férias com dois dias de antecedência. Um dia um pouco nublado, umas gotas de chuva, um vento gelado e imunidade baixa foram a receita de sua desgraça; no dia seguinte, acordou sentindo o corpo bastante mole, a cabeça doendo, a garganta ardendo. Já conhecia muito bem aqueles sintomas, já havia vivido muito cada uma das sensações. Ela estava definitivamente resfriada.
Ligou para o coordenador de projeto e contou de sua mais nova condição. Ele, sempre compreensivo, disse-lhe que não tinha problema – ela já havia feito tanto pelo projeto! Acabou autorizando-a a entrar de férias dois dias mais cedo. Não que ficar doente seja a melhor parte de se estar de férias.
Ela se vestiu com a mais alta e fina moda: calça e blusa de moletom. Deitou-se no sofá, ainda que torta, deixando ao lado um rolo de papel higiênico para assoar o nariz a cada dez minutos. Jogou o edredom por cima do próprio corpo, ligou a televisão e ficou assistindo as reprises da Warner, seu programa preferido de sempre. Vez ou outra sentia um incômodo na garganta. Sabia exatamente todos os remédios que precisava, mas não tinha forças para se levantar do sofá e ir comprá-los.
Após dois episódios de uma série que já havia assistido ao menos cinco vezes, viu o celular vibrar, avisando que havia recebido uma nova mensagem. Ponderou não se mexer e ignorar completamente. A simples ideia de ter que tirar o braço debaixo do calor da coberta era o suficiente para quase fazê-la desistir. A única coisa que a fez pegar o aparelho foi o conhecimento prévio de quem havia lhe mandado a mensagem.
“Bom dia de trabalho para você!”
Ela sorriu para a mensagem de . Todos os dias ela recebia exatamente aquelas palavras no momento em que ele acordava – geralmente algumas horas depois dela. Dramatizou um pouco a situação e respondeu dizendo que preferia estar trabalhando e saudável do que de férias e morrendo. Novamente o celular vibrou, mas desta vez o nome de ocupou grande parte da tela.
— Oi. — ela deslizou o botão verde do aparelho e o encostou contra o próprio rosto, achando-o frio e percebendo que sua voz parecia fraca.
— O que você tem? — sua voz soou preocupada, e ela não pode deixar de achar fofo.
— Só um resfriado bobo. — do tipo que te derruba e te faz pensar que vai morrer, ela completou mentalmente, mas decidiu parar com o drama.
— Precisa de alguma coisa? ‘Tá tomando remédios?
Recusou a oferta e citou alguns dos remédios que ainda não tinha criado coragem de ir até a farmácia comprar. Ouviu um pequeno sermão da parte dele, especialmente porque não estava tomando o medicamento que deveria. Após mais algumas reclamações, ele finalmente se despediu e ela pode desligar o celular. Se mexeu no desconfortável sofá, levantando-se em seguida. Decidiu que iria fazer o que todo doente fazia de melhor: dormir. Mexeu o móvel da televisão de modo a deixá-la virada para a cama e se deitou, fechando os olhos e apagando rapidamente.

***


Acordou assustada com o barulho do interfone. Constantemente se esquecia que morava em um prédio, quem dirá que possuía um interfone. Saiu de baixo do edredom com alguma dificuldade, sentindo frio tão logo a coberta foi afastada. Colocou os chinelos com os pés trocados e se arrastou poucos metros até o interfone que havia ao lado da porta, pegando e posicionando-o contra o ouvido.
? — o sotaque forte do porteiro soou. Ela sabia que ele não era britânico, mas não fazia ideia de qual parte da Europa ele era. — Tem um rapaz aqui querendo subir.
— Um rapaz? — ela coçou o olho direito, não acordada o bastante para processar a informação. — Que rapaz?
— Alto, bonitão. Disse que se chama .
Ela saltou um desanimado “ah” e autorizou a subida. Colocou o interfone no gancho e bateu a própria testa contra a parede, arrependendo-se no momento em que sentiu o frio contra o corpo quente, e a cabeça já dolorida piorar. Não sabia o que pretendia, mas definitivamente não estava bem humorada. Quando ficava doente, só tinha forças para deitar e dormir. Poucos minutos depois ouviu uma batida da porta. Girou a tranca e a abriu, dando de cara com um sorridente com sacolas na mão.
— O que é isso? — perguntou antes do famoso “oi”. Começava a se acostumar a não usar a palavra como forma de cumprimento.
Isso sou eu sendo um ótimo quase amigo. — ele se convidou a entrar, observando o local, uma kitnet de um único cômodo. — Realmente, você mora em um cubículo.
revirou os olhos e trancou a porta atrás de si, se arrastando de volta até a cama e sentando-se com as pernas cruzadas. Viu-o apoiar as sacolas na pequena mesa e começar a esvaziá-las com calma.
— Seja lá o que você está tramando, eu não ‘tô com ânimo. — ela foi direta. Apenas em três momentos de sua vida falava exatamente o que pensava: doente, bêbada e emotiva demais, a terceira mais comum durante a TPM.
— Não estou tramando nada. Já disse, estou apenas sendo um bom amigo. — ela se segurou para não corrigir com o “quase”. Ele agora procurava algo em seu armário, logo pegando um copo e enchendo-o com água. — Você está doente e abandonada. Vim cuidar de você.
Ela inclinou a cabeça, mostrando curiosidade, enquanto ele caminhava até a cama com algumas pequenas caixas em uma mão e o copo cheio d’água na outra. Entregou-lhe o copo e começou a abrir as caixas, que ela agora via se tratar de caixas de remédios, especificamente os que ela havia dito que precisava tomar. Deu-lhe então três pílulas, as quais ela engoliu uma atrás da outra. Sentiu a mão dele contra a sua testa para então pegar o copo de sua mão e se afastar novamente.
Abriu outra sacola, de onde tirou uma garrafa térmica. Novamente mexeu em seu armário até achar uma xícara, a única do jogo de três que ainda possuía asa. Viu-o enchê-la com um líquido meio esverdeado. Novamente foi até a cama e lhe entregou a xícara.
— E isso é o que? — ela olhava desconfiada para o conteúdo.
— Um chá que minha mãe fazia quando eu ficava doente. — o sorriso dele era encorajador. — Não é o mais gostoso, admito, mas ajuda bastante.
Então fez um sinal para que ela bebesse. levou a xícara a boca e sorveu o líquido com cuidado. O gosto não era de seu agrado, mas decidiu confiar em , bebendo tudo o mais rápido que conseguia. Havia sido realmente cuidadoso da parte dele comprar todos os remédios que ela precisava e ainda preparar-lhe chá. Ao finalizar, entregou a xícara vazia para ele, que levou até a pia. Uma vez mais ele voltou para a cama enquanto ela apenas o encarava. Desta vez ele não levava nada para ela beber.
— Pode voltar a dormir. — ele sentou na beirada da cama enquanto tirava os próprios sapatos.
— Você vai ficar aqui? — ela soou mais chocada do que gostaria.
— Claro que vou. — ele se questionou se a sanidade dela estava sendo afetada pela doença. — Alguém tem que te fazer beber os remédios no horário certo. E o chá. E te fazer sopa quando você acordar.
Ela riu, achando que toda aquela preocupação dele era fofa. Era bom ter alguém ajudando-a, apenas para variar. Balançou a cabeça e se deitou na cama, entrando novamente embaixo do edredom quentinho, adorando a sensação de aconchego. Sentiu subir na cama ao seu lado, mas ele não se deitou. Permaneceu apenas sentado, zapeando pelos canais da televisão. então se permitiu fechar os olhos e mais uma vez mergulhar em um profundo sono.

***


Era a terceira vez no dia que acordava. Dessa vez acordou sentindo a gola da camisa e a testa suadas. Rapidamente se livrou da coberta e se sentou na cama, sentindo-se enjoada. Ao seu lado, perguntou se estava tudo bem, mas ela não conseguiu responder. No momento em que abriu a boca, decidiu que era melhor correr até o banheiro, o que fez o mais depressa possível. Assim que adentrou o cômodo, bateu a porta atrás de si e se ajoelhou em frente ao sanitário, onde despejou todos os nadas que havia comido, sentindo a garganta queimar.
Deu descarga e lavou a boca, se arrastando de volta para cama, de onde ele a encarava com preocupação. Ainda sentia calor, provavelmente um indicativo de que a febre havia baixado, e ao menos agora o enjoo havia passado. A cabeça doía um pouco, assim como a garganta.
— O que você ‘tá sentindo? — ele e encarou enquanto ela se ajeitava novamente na cama.
Desta vez não se deitou, apenas ficou sentada ao lado dele. Ela apenas resmungou e apoiou a cabeça no ombro dele. Ele passou o braço pelo corpo dela, puxando-a para mais perto de si, deixando os dois um pouco mais confortáveis. esperou que acabasse pegando no sono novamente, mas não aconteceu. Ficaram apenas em silêncio, sentados na cama.
— Vou fazer uma sopa pra você. — ele disse após vários minutos.
— Não quero. — a voz dela era manhosa, o que o fazia querer rir. — Eu vou acabar vomitando.
— Nesse caso é melhor que você tenha algo no estômago.
Gentilmente ele a afastou. Ela resmungou, ainda sem realmente apoiar a ideia de fazer uma sopa, mas ele realmente não parecia se importar muito. Ela observou enquanto tirava outros ingredientes das sacola e procurava por uma panela. Se perguntou como não havia reparado na grande quantidade de sacolas que ele havia carregado. Observou-o ter um pouco de dificuldade para acender o fogão com o fósforo, o que a fez rir um pouco e arrepender-se logo após sentir a garganta arder.
Cruzou os braços, odiando a situação em que se encontrava. Sentiu raiva da baixa imunidade. Lembrou-se de como havia tomado todas as precauções possíveis para que não adoecesse durante o inverno, tudo para que ficasse doente na primavera. Inicialmente pensou que pudesse se tratar de carma após tantas mentiras e recusas para sair um pouco mais de casa, mas se fosse a realidade, provavelmente já teria pagado seus pecados quando havia sido duplamente assaltada.
Parecia que haviam se passado horas quando voltou para a cama com uma tigela em mãos e entregou para . Ela suspirou, encarando a fumaça que saía do recipiente e segurando a colher com firmeza. A sopa parecia rala, típica sopa de doente que ela odiava. Encheu a colher com o caldo, soprou levemente e levou-a até a boca, sentindo gosto nenhum. Não sabia se porque era “sopa de doente” ou se, por estar doente, não sentia bem nenhum gosto. Após lembrar-se do almoço que havia cozinhado para eles, teve certeza que a segunda opção era a correta.
— Você tá fazendo uma cara horrível.
— Porque eu ‘tô doente. — ela reclamou após dar a última colherada na sopa e entregar o pote para . Ele, por sua vez, levou até a pia e o lavou rapidamente, voltando para a cama depois e deitando ao lado de . Ela o encarou alguns segundos antes de deitar-se também. — Aliás, você deveria ir embora.
— Que mal agradecida. — ele ficou de lado, apoiando a cabeça na mão. — Cuidei de você como uma mãe e você me expulsa do seu cubículo?
— Não quero que você também fique doente.
— Eu não vou ficar doente. Não fico há anos. Não se preocupe. — ele então sorriu e se deitou direito. sentiu-o puxá-la para mais perto, abraçando-a. — O importante é que você melhore logo. Daqui a pouco eu também estarei de férias, e nós temos muita coisa para fazer por essa Europa.
Ambos riram e ficaram mais um tempo repassando todos os planos, até cair no sono novamente. apenas encarava o teto, feliz por saber que ela finalmente tinha alguém para cuidá-la, e especialmente feliz por saber que ele era essa pessoa.


05: Rumo ao não tão conhecido



O período como doente só não havia se tornado o período do fim de sua felicidade porque fez questão de estar ao lado dela quase todo o tempo. Brincou que eles poderiam estar se tornando quase melhores amigos, mas negou com veemência. Para ela, ainda estava faltando alguns momentos mais profundos e conversas sentimentais. Mas admitiu finalmente que era bem provável que eles pudessem tirar o quase da frente de amigos.
Os planos foram quase por água abaixo quando ela descobriu que a peça de seria estendida por mais duas semanas por conta do sucesso. Mais da metade da lista de afazeres de férias teria que ser descartada, afinal, a última semana de julho já estava quase começando. Ainda assim tinha esperanças de que conseguissem completar ao menos as atividades realizadas em Londres.
— Eu estou triste, . — revirou os olhos, tendo o gesto imitado por ela. — Você deveria me dar um período de luto.
Novamente estavam com os olhos presos na tela do notebook dela, por mais que ele ainda reclamasse, por estar na pequena kitnet e pela lerdeza com a qual o aparelho trabalhava. Ela havia desistido de explicar para ele que o dinheiro que ganhava do governo Brasileiro e da Universidade estavam muito longe de mantê-la com luxos, então agora apenas fingia que não se importava com as reclamações dele.
— Se eu te der um período de luto, não vou conseguir fazer nem metade do que quero por aqui. E sabe quanto tempo eu ainda tenho de Europa? Pouco mais que onze meses. E serão meses de puro trabalho, porque a Universidade que me contratou vai exigir ainda mais de mim.
— Luto. — ele repetiu, como se ela não houvesse explicado nada.
Uma vez mais ocupou-se em revirar os olhos. Se tratando de , quando ele decidia fazer drama por o que quer que fosse, ele era muito bem sucedido, e ela simplesmente ainda não havia descoberto como tirar esse “bichinho” dele.
, quero ir ao London Eye. — ela sorriu, olhando-o com o canto dos olhos. — Na verdade quero ir a todos os pontos turísticos aqui de Londres.
— Mais de um ano em Londres e você ainda não visitou nenhum ponto turístico. — balançou a cabeça e estalou a língua na boca, fazendo um barulho que lembrava muito o “tsc” que lia em revistinhas infantis. — Sabe o que você precisava todo esse tempo, ? Eu.
— Nem vou fingir que posso negar. — ela virou a cabeça, podendo olhar nos olhos de e sorrir enquanto via a expressão de choque que tomava conta do rosto do rapaz.
Pelo que ela – e ele – bem se lembrava, nunca havia feito um elogio tão direto, ainda que indiretamente. levou a mão ao coração, fingindo estar emocionado, fazendo com que se arrependesse das próprias palavras. Depois riu ao ver a expressão da garota. Tirou o antigo notebook do colo dela, deixando-o em um lugar seguro, e a puxou para mais perto dele, prendendo o corpo dela em seus braços.
— Vou te levar para visitar os lugares mais legais de Londres. — ele deitou a cabeça no ombro dela, fechando os olhos enquanto se sentia confortável. — Mas o London Eye vai ser o último tá?
— Por quê? — ela se ajeitou melhor no pequeno sofá, deixando usá-la como apoio, também abraçando-o. Ele havia inventado essa posição quando estava cuidando dela doente, e ela precisava admitir que realmente havia gostado.
— Porque você precisa ver Londres a noite.

***

Se morasse com teria acordado-o com frenéticas batidas em sua porta, tamanha animação dela na manhã em que iriam começar a passear pela cidade de Londres, o único local que eles conseguiriam visitar com calma. Seu banho foi embalado ao som de Garota de Ipanema, cantado por ela mesma, que apesar de não ter a voz nem perto de boa, ao menos se divertia. Secou-se murmurando uma música que não sabia a letra nem o nome, mas achava o ritmo legal.
Passou a escova pelo cabelo com força, tentando tirar os enormes nós que ali se formavam todos os dias. Lembrou-se da fase de cabelo curto e toda a facilidade que lhe trazia. Suspirou de saudades e perguntou-se se não deveria voltar àquele estilo e toda a comodidade que lhe trazia, mas acabou deixando o assunto de lado tão logo lembrou-se da demora que os fios levavam para crescer.
Colocou a roupa mais confortável que havia conseguido encontrar, e que com certeza não estava na moda, ao menos não naquele ano. Talvez se tivesse voltado quatro ou cinco anos no tempo, faria um grande sucesso com aquela vestimenta. Mas naquele momento? De maneira nenhuma. Imaginou um cenário em que alguém tirava uma foto sua apenas para torná-la motivo de chacota na internet, mas acabou rindo de sua própria e absurda ideia. Provavelmente estava ficando maluca.
Pulou quando ouviu o interfone tocar, não sabendo ao certo se porque não esperava pelo som tão alto ou se porque sabia quem estava aguardando-a e tudo o que pretendiam fazer. Desceu as escadas sentindo-se vitoriosa, sem sequer cambalear. Estava realmente “pegando o jeito da coisa”, tinha esperanças de que ainda antes de sua volta ao Brasil ela conseguiria descer aqueles degraus com os olhos fechados, mas ainda não estava pronta para arriscar.
Encontrou parado no portão, usando óculos escuros e com um cigarro entre os dedos, que vez ou outra ele levava à boca. O clima bom ficava cada vez menos quente, o fim do verão já marcando Agosto da maneira conhecida por todos os londrinos. O que não era o caso de . Quando no Brasil, podia afirmar sem nenhuma dúvida que o outono, que em poucas semanas teria início, era sua estação preferida. Porém na Inglaterra a estação servia apenas para lembrar-lhe que logo o inverno chegaria, e com ele a neve, e os casacos pesados. Ela odiava casacos pesados.
— Bom dia! — apagou o cigarro assim que ela se aproximou e sorriu, aproximando o rosto do dela para lhe beijar a bochecha. Seu nariz ficou um pouco incomodado pelo cheiro da nicotina, mas ela reparou que na verdade combinava com ele.
Ela particularmente nunca havia feito o estilo “morte a todos os tipos de drogas”. Não se importava em ver pessoas fumando, bebendo, o que quer que fosse. Para ela cada um poderia fazer suas escolhas e conviver com isso. Claro, haviam as drogas mais pesadas que sempre provocavam uma exceção em seu pensamento. Mas no que se tratava de drogas lícitas – e maconha – ela não via sérios problemas ao uso.
— Bom dia para você! — o braço dela enlaçou o dele de maneira firme. Ele riu e ela não soube dizer se por conta do gesto ou da animação que ela certamente apresentava.
— Você não parece ter dormido. — ele não perguntava, apenas constatava. Parando para pensar melhor, notou que ele fazia isso com alguma frequência, como se fosse incapaz de formular uma teoria errada.
— Infelizmente para seu ego, dormi muito bem. — o gesto infantil de mostrar a língua foi mais forte que ela, mas a risada de apenas mostrava o quanto ele não se importava com infantilidade. — Só estou feliz porque finalmente vou passear por Londres.
— A felicidade é por Londres ou por estar comigo?
— Já disse para baixar esse ego. — ela bateu o próprio cotovelo contra a coluna dele, e o gemido de dor que o rapaz soltou apenas lhe mostrou o quanto ela havia exagerado na força aplicada. — Desculpa.
— Tudo bem, só não volte a me agredir, ou eu juro que te largo sozinha em uma rua muito escura de Londres.
A ideia de sendo mau a fez rir, e a risada dela o fez estreitar os olhos. Em momentos como aquele, um simplesmente não conseguia levar o outro a sério, provavelmente o maior indicativo de que a amizade deles estava se solidificando cada vez mais. Ele soltou o braço do aperto que ela estava dando e o passou pelos ombros dela, apreciando como a altura dos dois era perfeita para andarem naquela posição, aproveitando daquele meio abraço.
Durante o dia se sentiu uma criança, pulando ao interagir com cada um dos pontos turísticos da cidade na qual morava já havia um ano. Sua animação era o suficiente para poder ignorar sempre que uma nova fã se aproximava de para pedir um autógrafo ou uma foto. Até mesmo achou que havia conseguido ignorar com eficácia a menina que havia tentado roubar beijo do amigo.
— Fala comigo, ! — ela o sentia balançar sua mão com força enquanto fingia estar realmente interessada na vitrine de uma loja. — Para de fazer a ciumenta!
— Como você ousa! — seu corpo virou-se tão rapidamente que teve certeza de que, se não fosse pela mão de segurando a sua, ela teria beijado a calçada. — Eu não estou com ciúme de você.
— Tem certeza? — o sorriso no rosto dele fez o sangue de ferver. Era incrível como ele conseguia transformar um gesto que deveria ser gentil em algo tão incrivelmente irritante.
— Você sente algum prazer secreto em me provocar?
— Não é secreto. — os olhos dele estavam presos ao dela, e tudo o que ela conseguiu pensar foi em como eles eram tão perfeitos. Ela não fazia ideia de qual cor era aquela, mas sabia que a amava. — É algo entre melhores amigos.
— Está começando a escurecer e você tem ainda tem que me levar ao London Eye.
Ela segurou a mão dele com firmeza e o arrastou pelas ruas de Londres. Se recusava a comentar a última afirmação de . Se fosse sincera diria que sim, eram como melhores amigos. Mas se sentia tremendamente incomodada por chamar de melhor amigo alguém que conhecia há poucos mais de dois meses. Não gostava da maneira como ele havia chegado e invadido sua vida, como ele já era a pessoa com quem mais havia trocado mensagens de textos e ligações telefônicas. Ou como ele já decorara as maneiras de provocá-la e fazê-la rir. Talvez ele soubesse até mesmo os melhores pontos de seus copo para fazer cócegas.
Não queria usar as palavras “melhor amigo” para defini-lo, mas sentia que quaisquer outras não fariam jus ao que de fato acontecia entre os dois. Lembrou-se quando ela sugeriu o uso do “quase”. Era sua maneira de admitir o que estava acontecendo sem, de fato, admitir. Era assim que se mantinha em sua zona de conforto, a maneira que havia encontrado para esconder os sentimentos. Era assim que havia decidido agir em relação a no momento em que o conheceu.
Observou enquanto ele pagava os ingressos para entrar no London Eye, vendo-o sorrir e fazer piada com o atendente. Notou que nunca deixaria de achar incrível a maneira como sempre iria se encantar com os pequenos gestos de . Viu-o se aproximar dela novamente, fazendo uma pequena reverência e indicando a cabine para que ela entrasse primeiro.
Conforme subiam, conseguia entender porque havia feito questão de irem àquela hora. Ainda não estava completamente escuro, mas o céu já começava a escurecer. O sol do dia não havia sido o bastante para pintar o céu de laranja como ela tanto amava, mas as luzes se acendendo já eram uma ótima maneira de iluminar a cidade. Talvez ela não houvesse conseguido conhecer e tão sonhada Cidade Luz, mas ali sentia como se tivesse um amostra quase grátis – mesmo que o Luz de Paris não tivesse a mesma conotação do que ela vivia no momento.
Seus pés a fizeram se aproximar do que seria a parede da cabine, mas ela achava errado chamar algo feito completamente de vidro transparente de parede. Suas mãos tocaram o local como se pudessem tocar o céu, observando enquanto ficavam cada vez mais alto. Sentiu um pequeno frio na barriga ao olhar para baixo, a mente automaticamente imaginando se sobreviveria se caísse. Riu sozinha de seu próprio pessimismo, tentando debochar de si mesma.
Sentiu um pouco de calor no momento em que o corpo de aproximou-se do dela. O céu que já escurecia fazia com que o vidro refletisse sua imagem. Ali conseguiu ver que estava exatamente atrás dela, exatamente uma cabeça a mais de altura. O corpo dele encostou no dela e ele usou seu ombro para apoiar o próprio queixo. não evitou sorrir quando sentiu os braços dele contornarem sua cintura e se fecharem em sua barriga, um pouco abaixo de seus seios.
A mente e o corpo de entraram em conflito. Por um lado ela sabia que simplesmente gostava de abraçar as pessoas, do mais simples conhecido ao mais forte relacionamento; grande parte de seus gestos eram para demonstrar amizade. Por outro lado ela via seu rosto refletido no vidro e podia dizer com alguma certeza que seus olhos estavam presos nela, e sua respiração era notável contra o pescoço dela. Em momentos como aquele não conseguia não associar ao romantismo.
— Está gostando? — a pergunta dele a deixou inicialmente confusa.
Primeiro ela pensou que ele se referia a posição em que estavam, aquele abraço tão romântico. Julgou que não soaria bem se respondesse que sim, estava amando. Depois pensou que talvez ele estivesse falando do passeio e a vista em si. Não iria negar que estava completamente encantada pelas luzes de Londres. Uma pena que o corpo dele atrapalhasse sua concentração.
— Amando. — ela respondeu após decidir que ele certamente estava falando da vista. Automaticamente colocou os braços por cima do dele, como se o abraçasse também. — Obrigada.
— Eu prometi, não? — o reflexo mostrou que ele sorria, e que seus olhos ainda estavam completamente voltados para o rosto dela. — Desculpa não ter conseguido te levar pela Europa como gostaria.
— Não tem problema. — delicadamente ela afrouxou o aperto das mãos dele, soltando o abraço e quase se arrependendo no mesmo momento. Virou-se, dando as costas para Londres e ficando de frente para . Percebeu que não sabia afirmar com certeza qual paisagem era mais bela. — Vamos ter outras oportunidades.
O sorriso dele parecia encantador. não sabia dizer com certeza se a repentina vontade de lhe beijar era apenas porque o clima sugeria ou se realmente se tratava de um desejo mais profundo. Por não se sentir certa, optou por voltar a observar Londres, e desta vez apenas parou ao seu lado, também prendendo o olhar no céu que, aos poucos, apresentava várias estrelas. Balançou a mão até que encontrasse a dele e a segurando, entrelaçando os dedos da maneira que uma dia havia lido ser romântica. Discordou da pessoa que havia escrito. Ali, naquele momento, o aperto de mão era um selo de uma longa e duradoura amizade.


06: Todo mundo espera pelos boatos



Ela sentiu a testa gelar quando a apoiou contra a barra de ferro no metrô. Segurou-se para não soltar um alto suspiro, que achava não combinar com a ocasião em que se encontrava. Era tanto a primeira semana de Setembro quanto a primeira semana de aulas, ou no caso dela, a primeira semana de volta ao projeto, já que era ao redor do que sua vida universitária girava. Pensou que, naquele momento de sua vida e levando em consideração o quanto já estava avançada no curso – estaria cursando o último ano se estivesse no Brasil – ela achava que estava em um ótimo momento, profissionalmente falando. Ter um projeto daquele nível em seu currículo certamente abriria portas.
Enquanto descia do metrô observava as pessoas ao seu redor, tão perdidas em suas próprias vidas. Constatou que as coisas por ali não eram tão diferentes de São Paulo, se fosse sincera. Talvez quando realmente se analisava os hábitos, gostos, pudesse ser possível notar a diferença. Mas ali, no momento em que todos saíam ou entravam no metrô às pressas, todas as cidades eram exatamente iguais.
Ao chegar na universidade caminhou até a sala de sempre, fazendo o mesmo caminho que ela achava que nunca mais iria esquecer, virando nos mesmos corredores e cumprimentando os mesmos funcionários. Não conseguia deixar de cumprimentar sempre que passava por alguém, e todos já pareciam ter se acostumado com essa mania, já com as cabeças erguidas para lhe devolver o sorriso matinal.
A porta do laboratório rangeu no momento em que foi aberta. Ao fundo seu coordenador já estava sentado, os olhos presos em um notebook prateado, aberto a sua frente. No canto ela via Gustav e Molly conversando animados, provavelmente contando o que haviam feito de bom nas férias. Henry e Phillip ainda não estavam presentes, os únicos que faltavam para fechar a equipe. Viu o coordenador levantar a cabeça quando entrou, lhe lançando um adorável sorriso.
Caminhou até o armário, onde deixou a bolsa em um apertado espaço, que vez ou outra precisava dividir com Molly. Ela nunca deixaria de achar incrível como eles poderiam fazer uma imensa bagunça para a construção de aparelhos biomédicos. Enquanto forçava a bolsa no pequeno compartimento escutou alguns passos e logo sentiu uma presença ao seu lado. Primeiramente estranhou, afinal não era de conversar com os colegas de equipe além do estritamente necessário para os projetos, mas virou o rosto, vendo os olhos azuis de Molly brilharem, parecendo realmente animada com algo. Por alguns segundos se perguntou porque ela estaria tão feliz, mas logo pensou que uma pessoa tão animada assim não é de esconder o motivo, então em poucas frases trocadas ela descobriria o que a animava.
— Bom dia, Molly. — ela lançou o mais afável sorriso que pode, um que ela julgava ser o seu melhor. — O que temos de novidade?
— Ah, nada demais, não. — Molly deu uma risada alta e agitou a mão, como se espantasse algum inseto invisível que voava entre elas, levando a concluir que talvez Molly não estivesse ali para falar da própria vida, e sim da de outra pessoa. — E você? Como vão as coisas?
O tom dela fez com que franzisse as sobrancelhas. Havia sido tão sugestivo que não conseguia entender onde a menina chegar. No gesto mais comum de confusão, inclinou a cabeça. Ponderou se deveria falar algo que pudesse parecer uma indireta e a deixasse menos patética ou se perguntava de uma vez o que Molly pretendia com aquela conversa fiada.
— ‘Tá acontecendo alguma coisa, Molly? — ela acabou optando pela segunda opção.
— Eu não consigo esconder. — a menina riu enquanto balançava a cabeça em concordância, achando Molly um pouco boba por constatar o óbvio. Na realidade havia ficado impressionada ao saber que ela de fato tentava ser discreta. — É verdade que você está namorando aquele ator?
— Ator?
. — Molly balançou a mão da mesma maneira que havia feito anteriormente, só não atraindo a atenção de porque ela estava ocupada demais processando as palavras que havia acabado de ouvir. — Não é verdade? Eu li em uma revista...
— Revista? — piscou algumas vezes, imaginando que havia acabado de fazer sua cara de idiota piorar um pouco.
pensou que Molly se sentia tão sem graça quanto ela havia se sentido na primeira vez que foi a casa de – e que não tocou a campainha. A boca de Molly mexia sem parar, quase tão rápido quanto suas mãos, e certamente algum som saía de sua garganta, mas ela não saberia dizer ao certo o que ela dizia. Algo sobre uma foto e o London Eye. Talvez com um pouco de paciência ela pudesse pegar as palavras soltas que ouvia de Molly e formar uma frase que fizesse sentido, mas não tinha certeza.
Apenas pediu licença, saindo da sala exatamente ao mesmo tempo que Henry e Phillip chegavam, falando um “oi” tão torto quanto seco, e ela ainda não sabia como havia juntado os dois com tanta perfeição. Virou à direita e entrou no banheiro feminino, escondendo-se na primeira cabine vazia, batendo a porta com alguma força ao fechar.
Tirou o celular do bolso e deslizou o dedo muito rapidamente pela tela, vendo a agenda chegar até o último contato. Bufou e voltou a deslizar um pouco mais, desta vez com mais calma, finalmente achando o número de . Clicou em seu nome, abrindo o contato e mais informações sobre. Viu a selfie que ele havia tirado há pouco tempo, o sorriso feliz e os olhos brilhantes.
fez uma pequena careta antes de bloquear o celular e o deslizar para o bolso. Havia oficialmente desistido de falar com sobre o que acabara de descobrir. Para começar, ela sabia que a única culpa que ele poderia ter em toda a história era o fato de ser famoso – e ela seria uma idiota se jogasse isso em suas costas. Também considerou que falar com ele não mudaria absolutamente nada em relação ao que estava acontecendo. Por fim percebeu que, se um dia fosse ser vítima de boatos de relacionamentos, não via como ter como possível par poderia ser algo ruim.

***

Durante o restante da semana ela precisou aturar a colega de trabalho em seu pé todo o tempo. Para ser sincera, ainda não entendia muito bem a história toda, mas Molly parecia realmente decidida a se redimir com ela de alguma maneira, e aparentemente havia escolhido se tornar sua amiga. O único problema era que realmente não queria uma nova amiga, ao menos não uma que tivesse como assunto principal – e único, se fosse admitir – a vida de outras pessoas como Molly gostava de fazer. encontrava muito mais interesse em discutir sobre filmes e séries, duas de suas coisas preferidas no mundo inteiro.
Ela precisava se segurar para não revirar os olhos enquanto Molly caminhava e tagarelava ao seu lado. Havia se convidado para acompanhá-la até a saída, mesmo sob seus inúmeros protestos. Não que ela houvesse de fato dito que não queria a companhia da outra, apenas havia tentado deixar implícito enquanto caminhavam, mas entendia que Molly não tão esperta para assuntos sociais e humanos quanto era para engenharia, aparentemente.
A primeira visão que teve ao atingir a calçada foi do seu suposto namorado, e só não riu ao se lembrar dos boatos porque se preocupou em estreitar os olhos na direção de . Ele apenas sorriu, os olhos cobertos por um óculos escuro, mas o rosto voltado na direção dela. Seus costas estavam apoiadas contra a porta do carro preto, lhe dando um ar que havia aprendido com livros e filmes se chamar bad boy, o que em sua humilde opinião talvez combinasse com a aparência de , mas nada tinha a ver com sua personalidade.
Ao seu lado viu que Molly parou de caminhar. Virou o rosto calmamente para encarar a colega, mas ela parecia ocupada demais olhando para . percebeu que ele havia apenas complicado ainda mais sua situação aparecendo na universidade daquela maneira, mas ver a expressão de Molly compensaria ao menos uma parte de toda a dor de cabeça que se seguiria. Deu um rápido adeus para a colega antes de caminhar até o amigo, parando de frente para ele e cruzando os braços de maneira torta por conta da bolsa que ainda segurava.
— Amo como você sempre fica feliz em me ver. — ele disse enquanto se afastava do carro para se aproximar dela e dava um beijo em sua testa. Ela sorriu ao sentir os lábios dele, e mesmo sabendo que aquele gesto poderia causar ainda mais falatório, não se importou. Era bom tê-lo ali.
— Você sabe que meu forte não é surpresas. Aconteceu alguma coisa?
— Eu vou te levar para um lugar. — ele balançou os ombros com uma casualidade impressionante. — Acho que é algo que um namorado faça, e li por aí que sou o seu.
Ele riu e ela revirou os olhos, e apenas aqueles gestos poderiam descrever com perfeição cada um dos dois. Ele apontou o carona para que ela entrasse no carro. se sentiu confusa por dois segundos. Dada sua falta de costume de andar de carros pela Inglaterra, constantemente esquecia-se que eles possuíam o volante do lado errado – e é claro que, para os ingleses, os brasileiros é quem estavam do lado errado. Assim que ambos entraram no carro, ela começou uma bateria de questões para ele, mas ele não parecia disposto a responder nenhuma.
Dirigia com calma pelas ruas de Londres, soltando respostas monossilábicas para cada questão dela. sentiu-se incomodada. No geral o grande falador era , não ela, e se ele estava tão quieto e sorrindo daquela maneira, algo bom não poderia estar planejando. Ou talvez fosse tão bom que precisava se conter para não falar antes do tempo. Ela suspirou e inclinou a cabeça até que sentisse o encosto do banco, prendendo os olhos nas ruas para tentar ter qualquer dica sobre o local de destino, mas todo seu conhecimento de caminho em Londres se resumiam ao metrô. Se sentiu realmente incomodada por tomar conhecimento de mais uma falta de conhecimento do local em que estava. Era provavelmente a única pessoa que viajava para outro país e não saía de dentro de casa.
Mas ainda que possuísse conhecimento quase nulo no que se dizia a cidade em si, ela não era uma completa leiga, e ainda que fosse não era necessário muito para que alguém reconhecesse o Palácio de Buckingham. Talvez fosse a imponência excessiva ou o que havia aprendido desde pequena sobre princesas e príncipes, mas ela poderia jurar que o castelo parecia brilhar. Piscou os olhos algumas vezes, sem saber muito bem o motivo, já que o brilho com certeza estava apenas em sua imaginação. Virou para a cabeça para direita para poder encarar , que apesar de continuar olhando para a estrada ostentava um enorme sorriso no rosto conforme diminuía a velocidade do carro até parar totalmente.
— Você não fez isso.
— É claro que eu fiz. — após parar o veículo ele podia finalmente virar o rosto para ficar de frente para ela, amando ver o choque estampado em sua face. Achava absurdamente fácil agradar , mas sempre se esforçaria para surpreender ao máximo. — Eu sou ou não um ótimo namorado?
— Sobre isso... — ela franziu as sobrancelhas, tentando não sorrir e acabar passando a impressão errada. Ela não poderia se dar ao luxo de acabar confundindo as coisas, não após o episódio do London Eye, em que ela havia sentido tantas coisas não compartilhadas. — Não te incomoda?
— Eu já estou acostumado com boatos. Dizem que é um dos preços da fama. — os ombros dele subiram e desceram em um claro gesto de falta de importância. Ela não sabia como ele conseguia sempre se manter tão calmo. — Daqui a pouco eles cansam de mim e parte para outro, alguém mais famoso, com certeza. Sempre tem um astro teen pronto para levar um escândalo novo a público.
deu a ela um sorriso de conforto, como se dissesse que no fim tudo ficaria bem. entendeu a intenção e sorriu como retorno, como se dissesse que sim, acreditava que no fim tudo ficaria bem. Lembrou de uma frase que dizia que tudo fica bem no fim, e se ainda não está bem é porque ainda não é o fim. Nunca havia dado muitos créditos àquelas palavras, mas decidiu que as levaria em consideração dali em diante.
Seguiu o gesto de para que saíssem do carro e lado a lado caminharam até o Palácio, onde fariam a última visita do dia, uma cortesia de . não sabia muito bem o que pensar enquanto passava por cada cômodo. Seu conhecimento sobre monarquia era próximo a zero, isso se não realmente atingisse o número. Talvez seu maior conhecimento sobre o regime houvesse sido adquirido por filmes da Disney, e algo lhe dizia que certamente não era um bom indicativo.
Seu conhecimento em arte também não era exatamente vasto. Na realidade, se não fosse pelo guia que os acompanhava e explicava cada quadro e escultura que ali estavam, ela estaria apenas pensando que as cores eram realmente bonitas. Não sabia diferenciar expressionismo e impressionismo, ou Van Gogh de Monet. Mas sabia achar as coisas bonitas, e julgava que o fazia muito bem.
Ao fim do dia ela sentia a cabeça girar, tamanha a quantidade de informações que havia absorvido. Dentro do carro não parou de falar um único minuto, enquanto preocupava-se apenas em rir e balançar a cabeça, concordando com seja lá o que tanto falava. Sua atenção estava na estrada, iluminada pelo farol baixo e as luzes dos postes na rua.
só notou que não haviam voltado para a casa no momento em que as rodas do carro pararam de girar. Suas sobrancelhas quase se encontraram quando as franziu, encarando o rosto sorridente de . Novamente ele a havia levado para um local surpresa, mas desta vez ela sequer havia notado. Uma vez mais ele fez um gesto para que eles descessem do veículo, e não demorou muito para que estivessem sentados à uma mesa de um restaurante simples.
— E agora? O que estamos fazendo? — perguntou enquanto passava os olhos pelo cardápio que o garçom de gravata borboleta havia acabado de lhe entregar, notando que nenhum prato parecia conter carne. — Por que estamos em um restaurante vegetariano?
— Vegano. — a correção sorridente de fez com que ela abrisse e fechasse a boca algumas vezes, mas ficando em silêncio no fim. — Eu tenho uma notícia.
— A notícia é que você vai virar vegetariano? — ela ainda olhava o cardápio, tentando escolher alguma das opções apenas na sorte. Não entendia mais da metade das palavras ali escrita, e tinha a sensação de que, mesmo se estivessem em português, ela continuaria sem saber do que se tratavam. — Porque, se for, vou precisar fazer alguns ajustes na minha vida.
— Você gosta tanto assim de ser parte da minha vida? — a expressão de era tão perfeitamente mista que não conseguia dizer ao certo se ele estava feliz ou chocado. Ela sentiu o sangue correr mais depressa por seu rosto e decidiu que iria permanecer olhando o cardápio ao invés de respondê-lo. — Vou aceitar como um sim. De qualquer maneira… Não, a notícia é outra. Vou para os Estados Unidos.
— Quê? — os olhos de piscaram algumas vezes, como se limpar a visão fosse ajudá-la em algo.
— Semana que vem, na verdade. Consegui um papel em um filme, coadjuvante, mas ainda assim… De qualquer maneira, vou ficar lá até o fim de outubro, acho. O papel não é grande, então não vou precisar ficar muito, mas talvez acabe participando de algumas ações promocionais e–
— Uau. — a voz dela cortou a dele enquanto balançava as mãos na frente do corpo, um gesto claro para que ele parasse de falar um pouco. — Isso é ótimo, ! Assim você para de ficar tão triste pelo fim da sua peça. Já faz quase um mês, sabe?
— Golpe baixo. — as palavras dele soaram realmente rudes, mas ele sorria. Ele estava adquirindo a mania de sempre deixar claro para quando era brincadeira e quando de fato falava sério, apenas para evitar mal entendidos. — Mas é basicamente isso, vou ficar setembro e outubro meio longe.
O garçom se aproximou com um bloquinho em mãos, pronto para anotar o pedido. disse o nome do prato que seu agente havia lhe indicado quando disse para ele que aquele era um ótimo restaurante. pediu o prato de nome mais criativo, sem fazer a menor ideia do que comeria, mas sem se importar demais; era basicamente o que fazia com comida japonesa, apenas comer.
deixou que escolhesse as bebidas. Confiava no gosto dele, e de sabor surpresa já bastava o que teria em seu prato. Viram o garçom se afastar apressado, o mesmo passo que todos os garçons usavam ali, e em todos os restaurantes que ela já havia ido, se fosse honesta. De lados opostos da mesa, os dois se encaravam, ambos rostos sem uma expressão específica.
— Você vai sentir minha falta. — o rosto de permanecia sem expressão, parecendo sério demais, diferente demais do comum. estava exatamente da mesma maneira. E os dois estavam segurando a risada.
— Não.
— Vai morrer de saudades.
— Nem pensar.
— Vai chorar lembrando de mim.
— Nunca.
Voltaram a se silenciar quase ao mesmo tempo em que o garçom apareceu novamente, uma garrafa de vinho em mãos e duas taças, que ele colocou na frente de cada um e serviu a bebida para então se afastar novamente. Os dois se encararam e, quase simultaneamente, levaram a taça de vinho aos lábios. a soltou antes de , que permanecia com o vidro encostados nos lábios, os olhos presos nos de .
— E você, vai sentir minha falta? — ela lentamente desencostou a taça dos lábios e apoiou novamente na mesa.
— Quase isso.
Quase?
A cumplicidade no sorriso dos dois era verdadeira, notável para qualquer um que passasse por ali. Os dedos de se fecharam ao redor da taça e ele a levantou, convidando para um brinde.


07: Meia saudade de meio você



achou que lidaria melhor com a ausência de . Era seu costume achar que lidaria bem com qualquer coisa que lhe acontecesse, como se fosse completamente adaptável. Mas, na primeira semana longe do amigo, descobriu que não era bem assim que a vida funcionava. Enquanto Molly tagarelava sobre qualquer programa que estivesse passando na televisão, ela se perdia em pensamentos envolvendo .
A primeira estranheza desde que ele embarcara para os Estados Unidos havia sido não acordar com uma mensagem dele. Com a diferença de fuso, que ela considerava enorme, era quase como se acordasse quando estava indo dormir. Sabia que nunca admitiria em voz alta, mas já havia se acostumado às mensagens matutinas de e não sentia que sua manhã estava completa sem elas.
Na segunda semana de ausência, sentiu falta das visitas, tanto dele quanto dela. Sempre que voltava da universidade, encarava a casa de antes de colocar a própria chave no portão de seu pequeno prédio. Por mais que soubesse que o local permanecia exatamente da mesma maneira, sua mente insistia em lhe fazer acreditar que a casa parecia completamente sem vida, como se há muito houvesse sido abandonada.
Apenas na terceira semana após a partida de , ela finalmente recebeu alguma notícia do amigo. Estava sentada ao lado de Molly no refeitório da universidade, fingindo que prestava atenção no que a garota dizia, quando viu o celular começar a vibrar em cima da mesa. Apenas de ler o nome de na tela ela sentiu que o dia já havia melhorado. Usou de sua boa educação e pediu licença a Molly antes de praticamente correr até o jardim, sentando-se em uma fonte que ela nunca havia visto ser ligada e atendendo o celular.
— Olá, Senhor Famoso. — ela atendeu utilizando um tom de voz pomposo, ouvindo rir do outro lado da linha. No mesmo momento sentiu o coração acelerar uma batida. Ela realmente sentia saudade. — Lembrou que tem amiga?
— Eu sabia que você iria sentir saudades. — a voz dele soava levemente metalizada. Talvez fosse por conta da ligação internacional, ou talvez ele estivesse em um lugar propício, mas ela tinha certeza que ele estava sorrindo, e isso a levava a concluir que ela não era a única com saudades. — Desculpa a demora. As gravações estão meio malucas, estava complicado fazer uma pausa para te ligar, ainda mais com esses outros programas que nós temos que participar. Acredita que vou em um talk show?
— Bom saber suas prioridades, mocinho. — ela fingiu provocar, sabia que ele entenderia a brincadeira. Eles já estavam acostumados a brincar dessa forma. — Então, vai virar um famoso ator de Hollywood?
— Hollywood não é para mim. Nem filmes, para ser sincero. Eu descobri que me dou bem melhor com séries e teatro. — em sua imaginação, havia balançado os ombros. Lembrou-se que o que havia levado à fama fora o papel principal em um seriado inglês realmente famoso, mas que ela havia assistido poucos episódios. — Enfim, não posso falar muito, só queria saber mesmo como você estava. Além de com saudades, claro.
— Como se você não estivesse. As coisas aqui estão tranquilas. É um pouco chato ficar sozinha, ainda mais com a Molly enchendo a paciência o tempo todo. Não sei porque, mas ela cismou que nós somos amigas.
— E por que você não tenta ser amiga dela? — o tom sério de fez com que se mexesse desconfortavelmente na mureta da fonte. Ela simplesmente odiava quando as pessoas eram sérias sobre assuntos importantes, e o fato de que acontecesse com frequência era ainda pior. — Você sabe que não pode depender apenas de mim para ter amigos aí na Inglaterra, certo?
— Eu sei. — ela revirou os olhos e fez bico, se sentindo um pouco infantil. — Mas é que sei lá, sabe?
— Não, não sei. — ele riu da resposta completamente sem nexo dela. — Você precisa sair um pouco da sua zona de conforto, sabia?
— Você me tira da minha zona de conforto. Sempre. Você me deixa completamente desconfortável.
— Eu me esforço. — os dois riram, mas sentiu-se subitamente envergonhada. Se alguém perguntasse, ela não saberia o motivo. Apenas sabia que estava com as bochechas mais quente que o normal, provavelmente avermelhadas. — Eu vou te dar uma tarefa, . Você vai ter que levar Molly para minha festa de Halloween. E interagir com ela. Aluguem as fantasias juntas.
Os olhos de reviraram, entediados, e ela acabou soltando uma grande quantidade de ar pelas narinas. havia lhe contado que tinha como tradição dar uma festa a fantasia em todo Halloween, e mesmo que no momento estivesse nos Estados Unidos, aquele ano não seria diferente. Ele havia garantido que voltaria para a tal festa. E havia intimado-a a comparecer. Fantasiada.
já havia em várias festas da faculdade com os dois únicos amigos que tinha no Brasil, mas ainda assim ela não se sentia exatamente animada com a ideia. O essencial em uma festa era ter amigos para se divertir, e algo lhe dizia que o não ficaria com ela todo o tempo.
— Não quero. — foi a resposta que ela deu a . Era sincera, carregava todo o seu problema em se socializar, especialmente quando para tanto teria que sair tanto assim de sua zona de conforto.
— Eu sei que não. Mas você precisa.
— Não vou fazer isso por você, .
— Não estou pedindo que faça por mim, . Estou pedindo para que faça por você mesma. — pareceu soprar contra o bocal do celular. Ao fundo ela conseguiu ouvir outras vozes. — Olha, vou precisar desligar agora. Faça o que você achar melhor. E... Eu estou com saudade. Muita.
— Eu também. — ela sussurrou as duas palavras antes de ouvir a linha ficar muda.
Ela ficou um tempo encarando a tela escura do celular. Desde que havia conhecido ele a fazia sair de sua zona de conforto, mesmo que sem querer. E por mais que vasculhasse sua mente para entender o motivo, ela não conseguia explicar porque ele a fazia se desafiar tanto – ainda que fosse coisas pequenas para qualquer outra pessoa. Se convidar para um almoço era muito para ela mesma. Ainda assim ela precisava confessar que, o que quer que estivesse fazendo em sua vida, ela teria que acostumar. E, lá no fundo, ela sabia que acabaria agradecendo.

***

Assim que chegou na universidade no dia seguinte, viu o sorriso feliz de Molly vir em sua direção. Achava engraçado como parecia que sempre via primeiro o sorriso de Molly antes de vê-la por inteiro. O sorriso da outra garota destacava-se demais no rosto simpático dela. E sempre que o sorriso se dirigia a , ela se sentia um pouco desconfortável. Mas precisava se lembrar do que havia falado.
— Bom dia, Molly. — forçou um sorriso, tentando fazê-lo o mais sincero possível, mas ainda assim ela tinha a impressão que a inocente Molly nunca notaria a diferença. — Animada?
— É fácil estar animada quando a gente trabalha com o que ama, né?
O sorriso sincero de Molly fez com que se sentisse um pouco incomodada. Ela realmente gostava de projetar equipamentos que facilitavam a medicina, mas nenhum ser humano normal deveria ser tão feliz acordando tão cedo com o clima tão sem graça quanto o de Londres. Os ingleses que a perdoassem, mas ela realmente sentia saudades do céu tão azul que seu Brasil lhe oferecia com alguma frequência.
Ela respirou fundo enquanto via Molly começar a se arrumar para começarem mais um longo dia de trabalho. Ela havia prometido a si mesma que iria conseguir convidar a colega para a tal festa de , por mais que não fizesse a menor ideia de como iria agir assim que o fizesse. Tinha a sensação de que Molly seria uma daquelas pessoas que acabam grudando em você, e não importa muito se você não quer; a pessoa está simplesmente lá, grudada, parecendo que nunca irá sair.
— Então... — o esforço que fez para que sua voz não soasse completamente entediada quase lhe proporcionou cansaço físico. — O que você irá fazer no Halloween?
— Halloween? Sempre fico em casa. — Molly não parecia dar muita importância para a data. não entendia muito bem como o 31 de Outubro funcionava nos países que o comemoravam, mas sempre tivera em mente que todos amavam a data. Aparentemente estava enganada. — E você?
— Eu... O vai dar uma festa.
— O ? — os olhos da outra mulher praticamente brilhavam. não sabia o motivo, mas a menção de havia despertado ainda mais o interesse de Molly, se é que era possível. — Ontem ele estava em um talk show americano.
— É, ele falou algo...
— Ele falou de você. — Molly a interrompeu, mas não teve tempo de se importar com a interrupção.
Ela se virou para a mulher, os olhos aumentando de tamanho devido ao susto, sem porém realmente enxergá-la. Sabia que iria em um desses programas, e também que ela não poderia assistir, afinal a televisão americana não era exibida gratuitamente na Inglaterra, e o curto período que uma operadora havia deixado como teste gratuito já havia expirado. Havia pensado em procurar mais tarde no YouTube, mas agora não tinha certeza se de fato queria. Não sabia se era a melhor ideia saber o que havia falado sobre ela.
— Você não assistiu? — a voz de Molly a lembrou que ainda estava dividindo o local com a ela, e que a menina já estava pronta, parecendo apenas esperar que terminassse de se arrumar para que pudessem trabalhar.
— Minha televisão não tem muitos canais.
— Ah. — viu o rosto de Molly ficar vermelho, e ao invés de achar engraçado, apenas sentiu um certo incômodo. — Não se preocupe, ele não falou nada demais.
Ela respirou fundo, sem conseguir acreditar no que faria a seguir. Iria culpar Molly pelo resto da vida, juraria de pés juntos que a mulher havia atiçado sua curiosidade, quando na verdade tudo o que ela realmente queria era sair dali o mais rápido o possível.
— O que ele falou?
— O apresentador perguntou se eram verdade os boatos, sabe, do namoro de vocês... E ele disse que não, que vocês são apenas bons amigos.
Por algum motivo aquilo deixou um pouco desanimada. Não sabia exatamente o porquê. Talvez ela esperasse que ele falasse um pouco mais dela, de como eles costumavam se divertir juntos, como as risadas eram frequentes, ou como sempre se mandavam “bom dia” e “boa noite”. Ou, ainda mais, como ele havia ajudado-a em um momento extremamente difícil mesmo sem conhecê-la. Ao menos não havia contado sobre ela não batendo em sua porta.
— Ah sim, é verdade. — ela não conseguiu forçar um sorriso, então apenas suspirou e começou a sair do local junto a Molly, indo até o laboratório encontrar o restante da equipe. — Molly... Se você quiser ir para a festa de Halloween do , você será mais do que bem vinda.
Molly pareceu tão chocada quanto parecera alguns minutos antes. Algo dizia a que uma parte de Molly estava se perguntando se ela estava bem, ou se algum andróide havia substituido-a. Ela não saberia se aquela teoria era verdade, mas se fosse não poderia culpá-la. Nunca havia se mostrado exatamente receptiva a novas amizades, e então de maneira completamente aleatória estava convidando-a para uma festa. Ninguém nunca entenderia .
— Eu? Em uma festa do ?
— É... — franziu as sobrancelhas, estranhando o comportamento da outra mulher. O que havia de tão especial assim? E então um estalo em sua mente lembrou que o era famoso, e provavelmente faria uma grande festa. Com mais famosos. De repente estar com uma boa fantasia pareceu essencial. — Aliás, é uma festa a fantasia.
— Você já alugou a sua?
— Ainda não.
— Nós podemos ir procurar depois do expediente!
Molly desatou a falar, parando apenas quando começaram a desenhar mais um projeto. A ideia de sair com Molly após o expediente incomodava um pouco , mas ao mesmo tempo a deixava um pouco ansiosa. Por mais que não achasse a garota a melhor das companhias, ao menos iria passear um pouco por Londres, experimentar algumas fantasias... Parecia divertido. Talvez, como começava a parecer bastante corriqueiro, estivesse certo.


08: Halloween é tipo isso



franziu as sobrancelhas para a própria imagem refletida no espelho. O vestido listrado em preto e vermelho mal chegava na metade da coxa. Ela nunca havia usado nada tão curto em toda sua vida. Na altura da barriga possuía três rasgos, como se houvesse sido feito por uma garra, que deixava sua pele a mostra. A bota preta de salto parava um pouco antes do meio de sua canela. Em cima da cama um chapéu e uma luva com quatro garras a aguardavam.
Ainda não acreditava que havia deixado Molly convencê-la de que uma fantasia feminina de Freddy Krueger era uma boa ideia, enquanto ela se vestia de algo semelhante à Noiva Cadáver. Deveria ter insistido para trocarem, a fantasia de Molly deixava muito menos pele à mostra. Mas agora era tarde demais. Agora ela já estava vestida como o personagem dos filme de terror.
Faltava apenas .
Ele havia chegado a Londres no dia anterior, mas eles ainda não haviam tido a oportunidade de se encontrar. precisava encontrar-se com as pessoas que haviam ficado responsáveis pela organização da festa enquanto ele estava fora, e teve que trabalhar, como de costume. Ainda assim ele havia ligado tão logo chegou ao aeroporto, avisando que tudo havia ocorrido bem durante a viagem e dizendo que iria passar na cara dela para irem juntos à festa.
Portanto, quando o interfone soou, ela pensou na possibilidade de seu coração acabar parando de funcionar devido a velocidade absurda com a qual batia. Em uma última respirada, a mais profunda, pegou a luva que em cima da cama e saiu quase correndo pela porta. Desta vez desceu os degraus com calma, o vestido não facilitava em nada o seu caminhar, e se havia um dia em que ela não poderia arriscar nenhum acidente, esse dia era o Halloween. Ao menos aquele Halloween.
Tão logo chegou no portão do prédio e viu a figura de parado do outro lado, os cabelos mais bagunçados que nunca e as roupas pretas com cintos, a perfeita roupa utilizada nos filmes de Edward, Mãos de Tesoura, sentiu as pernas tremerem, fazendo-a momentaneamente perder o equilíbrio e tropeçar em nada. A risada alta que ele soltou com a cena foi o bastante para que ela se recuperasse e corresse em sua direção.
deu dois passos para trás, soltando um pouco de ar ao sentir se jogar em seus braços, literalmente. Os pés dela estavam longe do chão, a perna dobrada para trás. Os braços dela estavam ao redor do pescoço dele, ajudando a sustentar o abraço, enquanto ele segurava firmemente sua cintura e a girava no ar duas vezes. O rosto dela estava enterrado no pescoço dele, e ela parecia falar várias coisas que ele era incapaz de compreender.
— E não é que você morreu mesmo de saudades? — ele provocou antes de delicadamente colocá-la de volta ao chão, a tempo de ver seus olhos revirarem. Como ele havia sentido falta de vê-la revirar os olhos. — Não se preocupe, eu também morri.
— Por mais que eu odeie admitir, eu realmente senti um pouco de saudade.
— Um pouco?
— Bem pouco. — ela sorriu antes de abraçá-lo de novo, apoiando-se completamente contra o corpo do amigo, amando o calor que ele transmitia. — Quase nada. — ela sussurrou. E então, sem se afastar um único centímetro, levantou a cabeça para olhar em seus olhos, aqueles mesmos olhos de cor indefinida que ela amava. — Que tal não irmos para a festa e ficarmos em casa?
Ela via claramente que aquela frase poderia ter duas conotações, e se fosse honesta sequer poderia adivinhar qual delas tomaria como verdade, mas sendo ainda mais honesta, não se importava. Tudo o que sentia era uma enorme necessidade de passar um tempo com ele e só ele, nem que fosse fazendo absolutamente nada. Talvez fosse aquele sentimento que as pessoas chamavam de “matar a saudade”.
— Eu te juro que se não tivesse gastado tanto e não tivesse tanta gente me esperando nessa festa, eu aceitaria seu convite sem pensar duas vezes. — ela sentiu os lábios ele pressionando o topo de sua cabeça, o que era realmente fácil, já que ele era facilmente vinte centímetros mais alto do que ela, e o salto da bota que usava mal chegava a dez centímetros. — Vamos?
Os dois entraram no carro que aguardava parado em frente o prédio, ambos no banco do passageiro. franziu a sobrancelha para uma luva que imitava as mãos de tesoura do filme, complemento da fantasia de . Suspirou antes de colocar a própria luva de garras ao lado da luva dele. Ambas poderiam complicar um pouco suas vidas, e ambos sabiam que provavelmente não as usariam durante toda a noite.
Uma estranha vibração próxima ao seio de assustou-a. Ela demorou alguns segundos para lembrar-se de que ali havia um pequeno bolso interno costurado, exatamente do tamanho de seu celular. Viu franzir a sobrancelha quando ela fazia um pequeno contorcionismo para pegar o aparelho, vendo uma mensagem de Molly avisando-a de que esperaria na porta do local para que pudessem entrar juntas, onde aliás ela já estava.
Mais alguns minutos e o carro parou em frente a um enorme salão. Alguns carros estavam parados perto. Parados na porta, podia ver dois seguranças com cara de poucos amigos, o que ela achava comum em se tratando de seguranças. Parecendo um pouco acanhada também estava Molly, olhando ansiosa para todos os lados. cutucou , apontando a garota e vendo-o rir antes de saírem do veículo.
A fantasia de Molly parecia realmente boa. O vestido que ela havia alugado era tão bom quanto o do filme, e precisava admitir que a maquiagem que a mulher havia feito ficara realmente muito boa. Assim que seus olhos se encontraram, ela viu um sorriso aliviado adornar o rosto de Molly, sendo seguido rapidamente por um sorriso constrangido ao notar quem estava caminhando ao seu lado.
— Molly. — abriu seu melhor sorriso, não o forçado que costumava dar para a outra garota, mas o sincero que costumava dar quando estava na companhia de . — Esse é o . , essa é a Molly.
— Prazer! — abriu um enorme sorriso e se inclinou da direção de Molly, puxando-a para um apertado abraço. viu o choque tomar conta de cada parte do rosto de Molly. Claro que ela não esperava que o rapaz fosse tão caloroso. — É realmente bom finalmente te conhecer.
— Finalmente? — a voz dela não parecia estável, mesmo após soltá-la. sequer podia culpá-la, sabia que o amigo tinha esse efeito em algumas pessoas, e considerava Molly um tanto quanto suscetível.
— A fala muito de você, sempre coisas ótimas. — o braço de enlaçou a cintura de , dando um leve apertão em sua cintura, como se quisesse dizer algo, e ela sabia exatamente o que era. “Não desminta”. E ela não iria.
— Eu não sabia disso, ! — Molly parecia realmente emocionada, o que fez com que se sentisse mal por não se sentir mal, e por mais que parecesse impossível, ela sabia que era completamente real. — Eu fico realmente feliz por saber que você se lembra de mim.
— Claro. — sorriu para a menina, apertando a mão de em sua cintura, também transmitindo uma mensagem. “Eu juro que vou te matar”.
pediu licença para elas, alegando que precisaria entrar logo, afinal a festa ainda era dele, os convidados o esperavam. preferiu esperar um pouco, entrar depois do rapaz. Não estava pronta para receber toda a atenção que ele receberia assim que os pés tocassem o chão do salão, e para ser honesta não saberia dizer que estava pronta para receber qualquer tipo de atenção que ser amiga dele traria.
— Ele é legal. — Molly balançou a cabeça, olhando para a porta pela qual ele havia acabado de entrar.
— Ele é o melhor.

***

e Molly estavam paradas próximas a mesa de comida. ocupava-se em comer algumas das coisas que ela não gostava realmente – os doces da Inglaterra estavam muito longe de atingir a quantidade de açúcar que ela de fato gostava. Molly batia o pé no ritmo da música que tocava alto, a cabeça virando para todos os lados, observando cada um dos convidados de . Desde que haviam entrado no local, ele ainda não havia aparecido para conversar com elas, indo de um lado para o outro, tentando falar com todos os convidados.
Aquilo incomodava um pouco, admitia. Molly não era sua companhia preferida no mundo e ela definitivamente queria poder matar a saudade do amigo. Mas entendia que ele precisava fazer aquilo, precisava estar com seus convidados e se mostrar em bom anfitrião. Ela repetia para si mesma que teria tempo de sobra para encontrar o amigo a sós em algum outro momento.
Mas, enquanto não acontecia, ela era obrigada a ficar parada em um canto do enorme salão, ao lado de Molly, que agora provavelmente achava que elas eram amigas. Mal se deu conta quando um rapaz da faixa etária delas vestido de Cowboy aproximou-se da mesa em que elas estavam praticamente encostadas e começou a conversar com Molly, que em algum momento a puxou de lado dizendo se tratar de alguém realmente famoso na Inglaterra, e que havia acabado de chamá-la para dançar. parabenizou a garota, dizendo que ela deveria aproveitar a chance a ir dançar com o tal famoso.
Enquanto os dois se afastavam, deixando sozinha, ela reparou que não fazia a menor ideia de quem era o rapaz. Pensou que talvez ela fosse uma daquelas pessoas que não se importam em fofocas de famosos a ponto de saber quem é quem, ou que gostam de evitar procurar tudo sobre o que está na moda, mas concluiu rapidamente que provavelmente o rapaz era famoso apenas na Inglaterra, logo era mais do que esperado que ela não reconhecesse. Não poderia obrigar um inglês a reconhecer o Bruno Gagliasso, por exemplo.
Ela caminhou até o bar, pedindo uma cerveja, recebendo uma que ela não conhecia, bastante amarga porém agradável, ou o mais agradável que uma cerveja amarga pudesse ser. Na outra ponta do bar ela conseguia ver um casal conversar. O rapaz, alto, moreno, perfeito para agências de modelo, ao lado de uma menina loira, com um sorriso divertido, parecendo realmente atenta ao que o rapaz falava. Eles estavam próximos, mas não o bastante para que ela pudesse dizer com certeza que eram namorados. Talvez amigos? Seria uma amizade sincera, a ponto de ficar perto demais sem nenhuma segunda intenção.
Enquanto bebia a cerveja não conseguia evitar a comparação entre o casal e ela e . Ela sabia que conseguia ter aquela sinceridade com ele, que poderia ficar perto demais sem ter intenções a mais. Eles poderiam parecer um casal, mesmo que fossem apenas amigos. E ela realmente apreciava aquilo. Gostava da maneira que eles haviam se tornado tão próximos, ainda que o tempo fosse tão pouco. Mas sabia que intimidade nunca foi algo a ser medido por tempo, e sim afinidade.
— Ei. — mesmo com o barulho alto ao seu redor, ela levou um susto com aquele “ei”, que havia soado próximo demais a seu ouvido, ainda que a voz que havia pronunciado-o fosse muito conhecida. Seu rosto virou-se rápido demais para a direita, de onde tinha ouvido a voz de , e ela poderia jurar que o pescoço havia estalado. — Por que você está parada em uma festa? E para onde está olhando com tanta vontade?
Ele mexeu a cabeça, tentando acompanhar a direção do olhar dela, e encontrou o mesmo casal conversando animadamente, os dois com bebidas na mão. soltou uma risada alta, não o bastante para se sobressair em meio ao som alto, tanto das músicas quanto das conversas, mas alto o bastante para que conseguisse ouvi-lo. Ela levantou as sobrancelhas, a curiosidade clara em sua expressão.
— Você também? — ao contrário do que as palavras poderiam fazer parecer, o tom dele não parecia nada surpreso. Era como se ele esperasse que alguém fosse ficar encarando o casal, que agora havia largado os copos e se dirigido para o meio da pista, onde dançavam animadamente a música eletrônica que havia começado. — Eles não são namorados. Se você quiser posso apresentar vocês.
— Como? — inclinou a cabeça, sentindo-se ainda mais confusa. então balançou a cabeça e a mão que segurava o copo, derramando algumas gotas da bebida na mão, imaginando que logo aquilo ficaria grudento e melecado.
— Está tudo bem, todo mundo sempre se interessa por ele. — trocou o copo de mão e balançou a mão agora livre, tentando de livrar da bagunça que ele mesmo havia feito e jogando algumas gotas para o lado, acertando . Ela se preocupou apenas em revirar os olhos.
— Não sei porque. Ele nem é tudo isso. — o tom de voz desinteressado e o balançar de ombros dela foram o bastante para chamar a atenção de . Decidiu deixar a bebida de lado por alguns minutos e desenvolver melhor aquele assunto.
— Tem certeza? Porque, desde que me lembro, ele sempre foi cobiçado. Literalmente capa de várias revistas adolescentes e vencedor de “galã inglês” por três anos seguidos.
— Não estou dizendo que ele é feio. — ela sorriu e reparou que sua bebida havia acabado. Levou a mão até o copo de e o pegou, dando um gole em uma bebida excessivamente doce. Fez uma careta incomodada e a devolveu para o amigo. — É claro que ele ganhou vários prêmios. Ele é extremamente comum. Não, não comum. Padrão. Branco, barba, olhos claros, corpo malhado mas não malhado demais… Ele não tem nada de novo, nada de diferente. Ah, e ele é famoso, gente famosa ganha sessenta por cento de beleza por tabela.
— Você acabou de inventar isso.
— É verdade! — ela começou a rir exatamente ao mesmo tempo que ele, o que poderia prejudicar um pouco a veracidade de seu discurso, mas sabia que com não teria esse problema. — Existem coisas que adicionam beleza apenas por estarem ali. Fama, farda de exército, olhos delineados…
— Então você só me acha lindo por que eu sou famoso?
— Eu nunca disse que te acho lindo.
— Nem precisa. — a mão dele segurou a dela e a puxou para perto de si. — E já que resolvemos o problema do “cara bonito dentro do padrão”, vamos resolver o segundo problema: você está em uma festa, existe um código de ética em que você não pode ficar parada. Vamos dançar.
Ele a arrastou até praticamente o centro da pista, parando com um sorriso e começando a guiá-la em uma dança maluca e divertida. Apesar de não ser profissional, não era um mau dançarino. também não era, havia feito anos de aulas de balé da infância até a adolescência, mas se sentia sem prática. Porém, ao seu lado, parecia não se importar se ela dançava bem ou não. Importava apenas que fosse ela.
Após puxá-la para aquela dança, não a largou mais. Durante o restante da noite, fez questão de permanecer ao lado da amiga. Bebendo, dançando, comendo e rindo, rindo muito. Em algum momento Molly foi avisá-los que iria embora com o cara famoso, que sequer havia entendido o nome, porque na verdade ela nem se importava. O importante era estar ali, se divertindo com seu amigo. Às vezes eles se sentavam em umas cadeiras próximas ao bar, onde descansavam e riam de alguma história que ele contava sobre os Estados Unidos. Tudo parecia ótimo.
O céu parecia começar a clarear quando eles puderam ir embora. Várias horas antes havia alertado que ele ficaria na festa até o último convidado, mas que ela poderia apenas avisar quando quisesse ir embora que ele mandaria seu motorista levá-la para casa, mas ela não conseguia ver sentido em ir sem ele, e acabou aguardando ao seu lado durante toda a madrugada. Quando avisou que eles finalmente poderiam ir embora, estava quase dormindo em pé.
Dentro do carro, apoiou a cabeça no ombro de , fechando os olhos e dormindo profundamente. Ele ficou em silêncio, dividido entre observar a rua e observar a amiga. Apenas quando o carro estacionou em frente sua casa, reuniu coragem para acordar . Tal qual uma criança, ela levantou a cabeça a contra gosto e coçou o olho, tentando entender onde estavam. Ele apenas riu e agradeceu o motorista, ajudando a amiga a sair do carro e indo em direção ao portão.
? A gente tá na sua casa. — ela disse enquanto observava-o abrir o portão e entrar na casa, sem pensar muito antes de segui-lo.
— Sim. — ele sorriu e trancou o portão, passando o braço pelo ombro dela e guiando para dentro da casa.
— Mas minha casa é na outra esquina.
— Eu sei. — ele agora a guiava por dentro da casa, em direção ao que sabia ser seu quarto, onde havia estado menos vezes do que ele havia no quarto dela. — Mas eu deixo você dormir aqui hoje.
apontou para a cama, e não pareceu pensar duas vezes antes de se deitar e simplesmente apagar. Ele sorriu, indo até ela e tirando sua bota com alguma dificuldade, em seguida puxando um lençol para cobri-la. Livrou-se da fantasia, aquele monte de cintos da roupa de Edward definitivamente não eram práticos. Em seguida deitou-se ao lado de , usando o mesmo lençol para se cobrir e abraçando a amiga, finalmente deixando-se apagar por completo.


09: Vamos brincar de Tinder



Na vida de , existiam momentos em que ela simplesmente não estava com humor, e era exatamente àquilo que ela atribuía sua pouca interação social. Por “não estar com humor” ela queria dizer que simplesmente queria fazer nada. Nem ao menos ficar apenas deitada em sua cama olhando para o teto parecia uma boa opção. Não era uma mistura louca de vontades, como acontecia algumas vezes, em que ela queria fazer tanta coisa que acabava ficando sem fazer nada. Era apenas uma ausência total de vontade.
Acontecia especialmente quando nevava. Não que naquele dia estivesse nevando, mas estava chovendo e o vento estava bastante gelado, o outono cada dia mais se transformando em inverno. Para ela, era quase a mesma coisa. O barulho da chuva contra a janela apagava qualquer humor que ela sequer havia sonhado em possuir. Seu humor de chuva era quase parecido com seu humor de doente. A única coisa que ainda a salvava era, como sempre, .
— Trata-se de matemática básica, . Eu estou sozinho, você está sozinha. Está chovendo, desânimo. Juntos, podemos nos animar. — pelo telefone ela conseguia ouvir que ele mastigava algo. A irritava a falta de vontade do rapaz em usar mensagens de texto para conversas mais longas. — Vem pra cá.
— Você acabou de falar o principal: está chovendo.
— Eu tenho certeza que você não vai ter tempo de se molhar.
Não foi preciso muito para que desligasse o celular e se arrumasse para ir até a casa dele. Ela não sabia se era extremamente convincente ou se ela era realmente muito fácil de ser convencida. Preferiu acreditar na primeira opção, apenas para que não se sentisse meio idiota.
Um pouco mau humorada, deixou o prédio e caminhou poucos passos até o final da rua. Não precisou tocar a campainha para avisar de sua chegada. estava encostado contra a parede, soprando para o alto a fumaça do cigarro que segurava entre os dedos. Algumas gotas de chuva caiam sobre o rapaz, que não aparentava se importar. Por sua vez, só conseguia se perguntar como ele fazia para manter o cigarro aceso mesmo com a chuva molhando-o.
O sorriso que ela recebeu ao chegar quase a fez sorrir também, porém as gotas que a ainda a molhavam não deixavam que ela o fizesse. Revirou os olhos enquanto apagava o cigarro e deixava que ela entrasse em sua casa. A sensação que o aquecedor provocava era maravilhosa, levando-a a tirar o pesado e molhado casaco, que não possuía mais serventia alguma.
— Espero que seus planos para esse dia sejam ótimos. — ela dizia enquanto pendurava o casaco próximo a porta e ia até o sofá, se jogando da maneira desconfortável que ela mais amava. — Eu não faço o tipo que sai na chuva, nem mesmo por .
— O que é triste, porque eu valho a pena. — empurrou a perna dela para longe e também se deitou no sofá. Sua posição confortável consistia em praticamente se jogar por cima de , tornando a posição dela ainda mais desconfortável. — Na verdade eu estou aceitando sugestões do que fazer.
ponderou. Em suas tardes chuvosas costumava apenas se enfiar em baixo das cobertas e assistir a inúmeros filmes na televisão. Porém, nos raros momentos em que tinha companhia, gostava apenas de comer, beber, jogar conversa fora. Incrivelmente, jogar conversa fora era o que mais gostava em ter companhia.
— O que você tem de bom para comer e beber?
— Várias coisas não saudáveis, whisky e vodka.
— Whisky e vodka? — as sobrancelhas dela levantaram em surpresa. De todas as reviravoltas para o dia, ficar bêbada não estava em nenhuma delas. — Quer ficar bêbado?
— Para ser honesto, considerei a ideia apenas agora. — ele levantou o corpo, livrando de seu peso e se arrumando melhor no sofá. — Poderíamos jogar algum drinking game. Seria divertido.
pensou muito bem a respeito e concluiu que a ideia era péssima, portanto acabou aceitando e assistindo aparecer na sala com uma grande garrafa de alguma vodca que ela, em toda sua vida de Balalaikas e Orloffs, sequer havia ouvido falar. Perguntou-se se aquela bebida seria melhor que as vodkas baratas que tanto havia tomado em festas baratas de faculdade, mas por algum motivo teve certeza que não seria tão melhor assim.
Em pouco tempo na mesa de centro estava a garrafa de vodca – ela nunca conseguiria pronunciar aquele nome –, dois copos americanos comuns e dois copos de shot, ao que ela não se deu ao trabalho de perguntar porquê possuía. Para ser completamente sincera, se ela tivesse dinheiro, teria os mais diferentes tipos de copos para os mais variados tipos de bebidas.
— Qual jogo você tem em mente? — perguntou após seguir o sinal dele para que se sentassem no chão, mais próximos a mesa de centro.
— Estou aceitando sugestões. — os olhos dele fixos ao dela pareciam ansiosos.
— Já jogou “Tinder”?
Não era o nome do jogo, apenas a maneira como era jogado, mas como ela não sabia o nome correto, chamava-o apenas de Tinder. As regras eram simples: no celular dele, eles deixariam o aplicativo com distância máxima e preferências para mulheres. Sempre que uma mulher aparecesse fazendo o famoso “bico de pato”, com decote muito grande ou cabelo jogado de lado, eles teriam que beber um gole de vodca. Se aparecesse alguém chamada , ela teria que beber dois goles. Se aparecesse qualquer variação do nome Amelia – ela havia escolhido –, teria que beber dois goles. E, se a pessoa curtida desse match, viraria a dose.
No celular de , as regras eram semelhantes. Também colocado em distância máxima, porém com preferência para homens, eles deveriam beber um gole se o homem aparecesse com seu animal de estimação, sem camisa ou em algum ponto turístico. Se aparecesse algum outro , o rapaz teria que tomar dois goles. Se aparecesse qualquer variação do nome Charlie – ele havia escolhido –, ela teria que beber dois goles. Se desse match, viraria a dose.
— Entendeu?
— Não muito. — o rapaz respondeu enquanto aguardava o aplicativo abrir. — Mas durante o jogo a gente vai se entendendo.
Com um balançar de ombros, concordou. Já no início do jogo, duas das regras apareceram, ambas no celular de . achou engraçado a mania de jogar o cabelo para um lado que, aparentemente, grande parte das garotas tinham ao tirar fotos. Também notou que parecia popular entre as mulheres, recebendo diversos matches. Em poucos minutos ele já havia bebido o triplo que ela, e metade da garrafa já havia se esvaziado. As risadas eram agora mais constantes, e eles não prestavam mais muita atenção atenção aos nomes que apareciam nas telas, ignorando completamente algumas regras.
O barulho de chuva ainda estava forte do lado externo, mas no interior as risadas sem sentido o cobriam. Ela não sabia porque riam tanto, mas gostava de estar rindo. No início do dia cinza não havia imaginado que riria tanto daquela maneira. Devia ter acostumado com a ideia de que sempre tentaria lhe fazer sorrir.
— Por que você está tão animada? — ele perguntou após um gritinho de alegria que ela soltou ao ver um match em sua tela. Sempre que aquilo acontecia, ela reagia exatamente da mesma maneira.
— Porque talvez eu ainda tenha a chance de beijar alguém nesse país. — ela não sentiu vergonha de falar uma de suas maiores vontades.
Por mais juvenil que pudesse parecer, ela sempre tivera essa vontade de ficar com algum estrangeiro. Talvez fosse um desejo comum nas brasileiras no geral, afinal, todas as – poucas – amigas que já havia tido também passavam pelo mesmo desejo. E faltando apenas cinco meses para voltar ao seu país natal, seria realmente uma pena se ela não conseguisse realizar um desejo tão simples.
— E pra que você precisa do Tinder? Eu estou bem aqui, na sua frente.
Ela fingiu revirar os olhos para fingir não se importar. Nunca havia tido a maior das auto estimas, portanto acreditar em uma cantada estava fora de cogitação, especialmente do seu quase melhor amigo. A experiência adquirida em pseudo relacionamentos anteriores lhe dizia com todas as letras que, se um amigo desse em cima de , provavelmente estava apenas brincando.
— Sério que você curtiu essa? — a mudança de assunto pareceu correta. Constantemente ela criticava o “gosto” dele para mulheres. Sempre as muito magras, muito brancas, muito perfeitas. Ela não gostava de padrões de beleza.
— Ela era linda! — sorriu ao ver o match aparecer na tela, exatamente ao mesmo tempo que virava mais uma dose.
— Nem era. — também virou uma dose, apenas pela vontade de beber um pouco mais.
— Você nunca acha ninguém bonita.
— Não gosto de padrão de beleza. — ela balançou os ombros, fazendo pouco caso do assunto. Em sua opinião, beleza era algo extremamente relativo, e completamente indigno de discussão. — Sempre acabo me sentindo atraída por aqueles que são mais... Esquisitos, por assim dizer.
— Esquisitos? — a cabeça de foi tomada por figuras beirando o extraterrestre, o que o fez perceber que o álcool definitivamente estava afetando seu corpo.
— Não esquisitos do tipo não humanos. Esquisitos do tipo que você tem que gastar um tempo estudando para perceber a beleza, sabe? Que você não bate o olho e pensa que a pessoa é bonita porque um dia falaram que aquilo é um padrão. — viu a tela do celular bloquear e descobriu que não lembrava o desenho para desbloquear. Olhou para a garrafa, quase no fim, e para seu copo vazio, suspirando em seguida.
— Tipo...? — ele se sentia completamente confuso, mas não conseguia dizer se por conta da bebida ou da explicação dela.
— Tipo você. — ela ignorou o aparelho e encarou os olhos dele, novamente se perdendo na cor indefinida que eles eram. decidiu que quando descobrisse de qual cor se tratava, a consideraria sua favorita. — Você é exatamente o tipo de beleza esquisita que sempre me atrai.
— Você é, realmente, esquisita demais.
levou um susto quando sentiu o corpo de aproximar-se do seu, especialmente quando os lábios dele tocaram os dela. O gosto da vodka estava absurdamente forte, mas ao fundo ela conseguia sentir um pouco do gosto da nicotina do cigarro que ele fumara mais cedo. Ou seria apenas o cheiro de suas roupas?
O longo selinho a incomodou. Por mais macios que os lábios dele parecessem, ela não queria que ele apenas ficasse ali parado, deixando seus lábios tão pressionados um contra o outro. Mexeu a cabeça para o outro lado e abriu um pouco mais seus lábios, deixando que sua língua tocasse os lábios de , tendo a certeza de que a nicotina estava presente apenas no cheiro de sua camisa.
Ela apenas percebeu o que realmente estava acontecendo quando a língua dele tocou a dela. Se contasse a alguém que estava a beijar , talvez não acreditassem. Se dissesse que os lábios dele pareciam incríveis contra os seus, diriam que estava exagerando. Mas a verdade era que ela estava aproveitando cada parte daquele momento, porque era simplesmente incrível demais, e o medo de que nunca mais se repetisse parecia muito real.
Sua mão direita encontrou os cabelos na nuca dele, incrivelmente sedosos e com quais ela já havia brincado tantas vezes. Com os olhos fechados e a boca ocupada demais, sentiu a mão dele tocar sua cintura e dar um leve aperto, puxando-a mais para perto dele. Se perguntou o quão colados eles poderiam ficar, e logo descobriu que era um valor próximo a muito, o bastante para que ela tivesse alguma dificuldade para deixar as mãos passearem pelo corpo dele, exatamente da mesma maneira que ele agora fazia com ela. Por um breve momento, xingou-se por não usar uma blusa mais fina.
Separaram-se e se encararam, o momento que temia, e tudo o que conseguia pensar era “e agora?”. por sua vez apenas sorriu e se levantou, e sem nada falar estendeu a mão para ela. Um pouco confusa e ligeiramente tonta, ela aceitou, e logo foi direcionada ao sofá, onde puderam se sentar com maior conforto. Novamente ele lhe beijou, deixando-a grata por não precisar ocupar o tempo com um desconfortável assunto pós-beijo. Ela sequer sabia como deveria ser um assunto pós-beijo.
Sentiu que aos poucos o corpo dele fazia certa pressão sobre o dela, lentamente deitando-a contra o estofado. decidiu não tentar resistir, em seguida pensando que talvez não houvesse sido sua melhor ideia. As pernas de encaixaram-se com perfeição entre as dela, sem tornar o momento desconfortável. O problema real acabou por ser os lábios dele, que agora começavam a traçar uma linha completamente torta pelo pescoço de , e ia descendo...
Ela respirou fundo, tentando manter a concentração, o que, ela acabou percebendo, era incrivelmente difícil quando os lábios de seu amigo beijavam e sugavam a região entre o pescoço e os seios, que ela realmente não sabia o nome. Aquilo era realmente maravilhoso e, portanto, ela deveria parar com aquilo o mais rápido possível.
... — levou um susto ao notar que sua voz estava estranhamente baixa, próxima de falhar.
— Sim? — ele deixou de beijá-la, o que quase a fez apenas pedir que esquecesse e, por favor, retomasse a ação.
— Acho melhor pararmos por aqui.
— Tudo bem. — ela se assustou ao perceber que ele havia simplesmente concordado com o pedido. — Posso apenas perguntar o motivo?
— Porque se você me beijar apenas mais uma vez eu não vou mais conseguir parar. — a sinceridade de bêbada dela surpreendeu. — E eu não gosto de fazer sexo quando estou bêbada.
— Não brinca. — ele sorriu, saindo completamente de cima dela e, uma vez mais na noite, estendendo a mão para que ela pudesse sentar-se no sofá, preocupando em se sentar ao seu lado.
— É verdade. — ela endireitou a coluna e arrumou a blusa. — Considero minha performance melhor quando estou sóbria.
— Tudo bem, eu espero até que o efeito do álcool acabe.
Ela o encarou um pouco assustada. Tentou procurar em seus olhos algum indício de que ele estava brincando, mas não encontrou nada. O sorriso em seus lábios também não eram de grande ajuda. Cogitou a ideia de que ele estivesse apenas tirando sarro dela, mas instantaneamente sentiu a pele queimar em cada parte que os lábios dele haviam tocado, e decidiu que talvez ele realmente estivesse falando sério.
— Se você continuar me olhando assim, eu vou acabar te beijando. De novo. — o rosto aproximou novamente do dela. esperou mais um beijo, mas ele apenas apoiou o queixo em seu ombro. — E não pense que vou esquecer o que você acabou de dizer. Um dia você vai ter que me mostrar essa performance.


10: Coisas que a música provoca



O clima estava ficando cada vez mais frio com a chegada de dezembro. Para ser muito sincera, com certeza preferia o calor, especialmente porque a chegada do inverno também significava neve, e se havia algo que ela não havia gostado era a neve. Durante todos seus anos morando no Brasil, ela havia sonhado em ver neve, mas assim que conseguiu, percebeu que não era nada de mais, e que ela definitivamente não gostava.
Outro ponto de dezembro que não a deixava exatamente feliz era ter apenas um mês de férias, só para poder aproveitar com calma as datas comemorativas. Ela gostava mais do calendário brasileiro, achava que as estações faziam mais sentido na parte sul do planeta. Ter o verão no fim e começo do ano era a melhor coisa que ela poderia desejar, e nesses momentos sentia uma absurda falta de seu país.
Por fim, o natal estava chegando, seu segundo natal em Londres. No ano anterior ela havia ficado sozinha em casa, assistindo tantos filmes quanto possível, ouvindo algumas comemorações e cantorias. Na Inglaterra as pessoas pareciam comemorar a data de maneira muito mais tranquila, sem a loucura que ela costumava presenciar no Brasil. E ela sentia falta da loucura. Para aquele ano, ela pretendia repetir o ano anterior; natal definitivamente não era “sua coisa”.
No último dia de aula e trabalho, o rosto fino de Molly exibia o mais enorme sorriso. Ela estava incrivelmente mais amigável do que nunca após o Halloween, como se a festa de houvesse sido o que ela precisava para confirmar que as duas eram oficialmente amigas. Ele concordava, achava que Molly já havia atingido o necessário para ser amiga. O único problema era que a achava realmente chata.
— Quais são seus planos para as férias? — ela perguntou enquanto se arrumava, esvaziando completamente o armário, fazendo sua mochila ficar absurdamente grande com tanto material.
— Ficar em casa, acho. — ela balançou os ombros, sem perguntar quais seriam os planos de Molly, porque tinha a sensação que, se o fizessem, a menina desataria a falar. E ela definitivamente não tinha a menor paciência.
— E o ? Vocês não vão... Sei lá?
preferiu não falar nada. Preferia não comentar nada sobre com absolutamente ninguém. Não que eles estivessem de fato tendo algo, mas depois da primeira vez que eles haviam “ficado” – um termo que, aliás, ela odiava –, havia acontecido mais algumas, e se havia uma coisa com a qual ela não estava com cabeça para lidar, era com as pessoas comentando sobre sua vida. Especialmente Molly, que havia entrado em sua vida apenas porque queria falar dele. E dela. E o boato. Ela não estava pronta para mais boatos.
Mas não adiantava. Assim que saiu do prédio da universidade, viu-o parado, encostado contra a porta do carro, esperando-a, exatamente da maneira que ele havia feito quando a levou para um passeio e contou que teria que ficar quase dois meses nos Estados Unidos. Ela suspirou antes de se despedir de Molly e caminhar até ele, listando mentalmente alguns países para os quais ele poderia ir desta vez. Não que ele viajar fosse um problema – só não era a melhor coisa a acontecer justo quando ela estava novamente de férias, e ainda mais tão perto assim de importantes datas comemorativas.
— Pra onde você vai agora? — ela perguntou de uma vez, fazendo uma careta. É, ela realmente não queria que ele viajasse de novo.
— Sua casa, espero. — ele riu antes de puxá-la para um apertado e gelado abraço. Ela sorriu aliviada, encaixando-se contra o corpo dele, sentindo-se protegida da brisa gelada que ela juraria já trazer uma amostra de neve. — Só vim te dar uma carona no seu último dia. Porque, como você bem sabe, eu sou absurdamente legal.
— Baixa o ego. — ela olhou para cima, encarando o sorriso divertido e, ao mesmo tempo, convencido do amigo. Estreitou os olhos em sua direção, tentando entender porque ele era daquela maneira, mas logo percebeu que era algo do qual ela já havia desistido há um bom tempo. — Sabe o que eu acabei de pensar?
— Que você me ama demais?
— Não. — ela revirou os olhos ao mesmo tempo que ele balançou os ombros. Era um chute válido, afinal. — Eu nunca te vi tocar piano.
Ela já havia perdido a conta de quantas vezes havia ido na casa dele, e sempre que ia acabava ficando um tempo olhando para o magnífico piano que ele possuía na sala, o qual ela nunca havia visto funcionando. havia comentado que sabia tocar, mas saber que ele tocava não era a mesma coisa de ouví-lo tocar, e ela havia decidido ali, naquele minuto, que queria que ele tocasse alguma música para ela.
— Então vamos para a minha casa. Eu toco o piano, você toca-
— Cala a boca! — ela usou toda força que conseguiu reunir para dar um tapa em seu braço, calando-o antes que ele pudesse concluir a frase. Mesmo com a expressão de dor, ele ainda ria dela, que agora ficava com o rosto vermelho. — Esquece, melhor eu ir pra minha casa, você ir pra sua...
— Ah não, agora já era, tarde demais. Entra no carro que agora você vai ouvir todo o reportório de “músicas que eu adaptei pro piano mas não ficaram tão boas assim”. Você vai amar.

***

A primeira coisa que fez ao entrar na casa de foi pedir para que ele ligasse o aquecedor. A segunda foi se deitar no sofá e fechar os olhos, tentando descansar a mente do dia corrido que havia tido, logo pensando que teria algumas semanas para si mesma, e tinha como grandes planos ficar em sua quente casa, embaixo de seu delicioso edredom, aproveitando todo o calor que conseguiria nos dias nevados que estavam por vir.
Ela não sabia dizer em que momento a calma melodia do piano tocado por invadiu seus pensamentos, e menos ainda em que momento ela havia se sentado, parando para observá-lo. Eram raras as vezes em que ela via-o tão sério como naquele momento. Ele parecia concentrado nas teclas, tocando cada uma com paciência, e logo começando a cantar calmamente a letra, a voz tão afinada quanto possível. Não demorou muito para que ela reconhecesse a canção.
já havia perdido as contas de quantas vezes havia falado o quanto Radiohead parecia tão triste, como as canções sempre lhe deixavam um pouco para baixo. Mas ali, naquele momento, enquanto tocava e cantava uma das canções da banda, de repente ela presenciava uma das mais belas músicas. Ela se levantou do sofá e caminhou até o piano, sentando-se ao no espaço do banquinho, como aparentemente acontecia em todos os bons pianos. Ela tinha certeza de que aqueles bancos eram projetados para mais de uma pessoa. levantou a cabeça e a encarou, abrindo um terno sorriso, sem parar de tocar nem cantar.
Ela ficou em completo silêncio, sem saber muito bem se observava os ágeis dedos dele, indo e voltando pelas teclas brancas e pretas, ou se ficava encarando-o, observando o movimento de seus lábios enquanto entoava a letra daquela música que um dia ela havia dito ser triste demais, mas que agora já não tinha tanta certeza se ainda pensava assim. Suspirou alto quando a canção chegou ao fim, fazendo ele dar uma risada baixa.
— E então? — os olhos dele pareciam tomados por expectativa, e ela se perguntou o motivo para tanto. Será que ele realmente não sabia que, além de ótimo ator, ele era um excelente músico?
— Então o que?
— Palhaça. — ele riu alto e puxou para perto de si, envolvendo-a em seus braços e a apertando contra seu corpo em algo que poderia ser praticamente considerado um “abraço de urso”. — Eu sei que você ama Radiohead. — ele fez questão de usar toda a ironia que conseguia, lembrando-se das vezes em que havia ouvido-a reclamar do “excesso de tristeza” da banda.
— Eu não sou muito fã da banda, admito. Mas com certeza sou sua fã. — ela levantou o queixo, olhando os olhos de . Espera, aquilo era verde? Finalmente havia descoberto que seus olhos eram verdes escuros? Ou seria na verdade castanho esverdeados? Talvez fossem verdes, mas não pareciam em nada com os verdes que ela estava acostumada a ver.
Seja lá qual fosse a cor, ela sabia que era a mais linda cor que já havia visto. Com um pequeno sorriso, levantou um pouco o queixo e endireitou a coluna e o pescoço, conseguindo subir o corpo o bastante para que seus lábios encostassem nos lábios dele, roubando um rápido beijo, tão rápido que ele mal teve tempo de reagir antes que ela pudesse se afastar, ainda sorrindo.
— Essa é minha recompensa? Se for assim, toco o CD inteiro...
— Às vezes te acho muito melhor quieto. — ela colocou a mão em sua nuca e delicadamente o fez abaixar um pouco, dessa vez deixando que o beijo durasse mais tempo, aproveitando cada momento que ele lhe proporcionava.
Desde de a primeira vez que haviam se beijado, o gesto estava se tornando comum entre os dois, e eles sequer haviam conversado sobre isso. Apenas trocavam beijos quando o momento parecia oportuno. às vezes se pegava pensando nas implicações que aquilo poderia ter, e se lembrando de quando havia decidido colocar o “quase” em sua relação. Talvez, e apenas talvez, eles estivessem entrando no ponto de quase namorados. Mas sua certeza era quase nula, e parecia que nem ela nem achavam um bom momento para conversar sobre.
A verdade é que ela sequer sabia como deveria conversar sobre aquele assunto. Sua experiência com relacionamentos era realmente pouca, ao contrário dele, que praticamente havia tido uma namorada por ano. O que, claro, desencadeava outro ponto na mente sempre preocupada de . O que iria lhe garantir que ela não seria apenas a menina daquele ano? Que logo ele enjoaria e estaria com uma menina nova? Não que ela estivesse perdidamente apaixonada, mas ela definitivamente estava apegada ao amigo, e a simples ideia de o perder já a deixava assustada.
E se todos esses pensamentos eram o suficiente para se assustar, ela não queria saber o que aconteceria se os compartilhasse com . Muito provavelmente ela só estava pensando demais no assunto, criando em sua cabeça histórias que nunca aconteceriam, futuros que nunca chegariam. Por mais que achasse que já havia passado a “fase de ficar” há alguns anos, talvez fosse melhor permanecer daquela maneira, tendo o melhor dos dois mundos – o melhor amigo e o quase namorado.
— Aliás, tenho um convite para te fazer. — ele disse após o que pareceu uma longa troca de beijos, mas que havia chegado ao fim e substituída por um simples abraço. — O que você pretende fazer no natal?
— Ver muita série e muito filme.
— Quer ir para Northampton comigo?
O senso comum sempre havia dito que natal era uma época muito família, onde todo mundo viajava para a casa de parentes. No Brasil sua família – a qual ela não era realmente muito chegada, com exceção dos pais – se reunia para assar peru, chester, tender. E sua mãe sempre fazia farofa com uvas passas e pedaços de damasco. odiava damasco. Mas mesmo assim, aquilo era o natal, estar com uma família que não gostava tanto assim para comer uma comida que gostava menos ainda. E no fim, sem sequer saber explicar o porque, ela ainda via certa magia na data.
Uma vez, muito vagamente, havia comentado que sua família era de Northampton. Apenas isso, sem mais nenhuma fala ou referência, ou ainda uma dica. Mas naquele momento, sentiu o peso do convite que ele havia lhe feito. Era natal. E ele iria para Northampton. E estava querendo levá-la junto. Mesmo ignorando completamente a conotação romântica que aquilo pudesse ter, ela sabia que conhecer sua família seria uma grande coisa. Se intrometer na família de um amigo é sempre uma grande coisa.
— Sério? — a resposta dela foi composta por um pouco de choque. Ela realmente não esperava por um convite como aquele. Ele franziu as sobrancelhas em sua direção.
— É, é sério. Minha irmã não vai conseguir ir esse ano, então só seria meus pais e eu. E agora você, se você quiser.
— Sua mãe sabe disso?
— Quê? — ele balançou a cabeça e seus braços soltaram , o permitindo se arrastar um pouco no banco, criando um curtíssimo espaço entre os dois, mas o suficiente para que ele pudesse analisar a expressão dela com mais calma. — O que tem a ver?
— É a casa dela. No natal. Vai colocar uma estranha lá? — os dedos dela passearam rapidamente pelo próprio cabelo, um claro nervosismo tomando conta de si.
— Estranha? Deixa de ser doida. — ele sorriu, o que a deixou um pouco aliviada. Aparentemente ela estava apenas, como sempre, pensando demais. — Você é minha amiga. Melhor amiga, eu diria. E... Bom, você sabe. Vai ser legal. Melhor do que ficar sozinha aqui.
— É, talvez seja... — ela respondeu no automático. Sua mente ainda estava presa no “você sabe”. O que ela deveria saber?
— Ótimo. Então está combinado. Northampton no natal. Quase duas horas de carro. Você vai amar.


11: Jingle Bells



Na véspera de Natal não sabia se sentia ansiosa, nervosa, alegre ou se simplesmente sentia nada. O nada era o mais próximo, quando todos os sentimentos se juntam em uma nova intensidade e você simplesmente não sente mais nenhum deles. A pequena mochila que havia arrumado estava pendurada em apenas um de seus ombros, pendendo para a direita, a alça prestes a escorregar por seu braço. Segundo , eles não ficariam muito tempo em Northampton, logo estariam de volta para Londres. não poderia se sentir mais agradecida.
Tocou a campainha da casa do amigo e precisou esperar alguns longos segundos até que ele finalmente aparecesse, vestindo um engraçado suéter. Ela se encolheu um pouco dentro da pesada jaqueta que usava. Não havia nevado ainda, mas a previsão era que mais tarde chovesse. Talvez ela conseguisse um clichê em sua vida e a neve caísse exatamente no dia vinte e cinco de dezembro. Por enquanto deveria se contentar apenas com o clima gelado, o vento praticamente cortando as partes do rosto que ficavam descobertas.
— Oi! — a voz dele soou animada demais quando ele abriu o portão e a puxou para um forte e quente abraço. Em Londres ela amava aquecedores tanto quanto amava ar condicionados no Brasil. — Entra, preciso só terminar de embrulhar alguns presentes.
Enquanto entrava na tão conhecida casa, sentiu o rosto começar a arder, especialmente ao ver algumas caixas espalhadas pelo chão, papel picado jogado para todo o lado. Seu pouco dinheiro não havia lhe permitido comprar muitas coisas, portanto havia optado por alguns pertences exclusivamente brasileiros que os pais haviam mandado alguns meses antes, mas que poderia facilmente comprar mais assim que voltasse a seu país. Também havia ido à lojinha de produtos brasileiros e comprado os ingredientes necessários para cozinhar um pavê de chocolate, tão clássico nos natais brasileiros.
— Oh. — ela falou, encarando as caixas, todas já completamente encapadas, apenas faltando passar alguma fita. — Seus presentes são... Legais.
— Você não parece acreditar nas próprias palavras.
— Não é isso. É só... Esquece. — ela suspirou e colocou a mochila em cima do sofá, logo deixando que a pesada jaqueta seguisse o mesmo caminho, fazendo o mesmo com o cachecol e a touca que usava, deixando os cabelos livres. — Quer ajuda com isso?
Ele agradeceu enquanto ela se abaixava e o ajudava a passar algumas fitas pelas caixas, transformando-as em presentes exatamente iguais aos que via em revistas e televisões. Mas aquela arrumação apenas fazia com que ela pensassse mais e mais em que tudo que estava acontecendo. Em como ela iria conhecer os pais de , e como isso era importante. podia negar pelo resto de sua vida, mas ela sabia que ligava sim para o que as pessoas pensavam sobre ela, especialmente se tais pessoas fossem os pais de um grande amigo – e talvez quase namorado, ela ainda não sabia bem.
O que, é claro, trazia outro ponto. Como seria apresentada a eles? Como amiga, provavelmente. Era o que, de fato, eram. E aquilo não deveria incomodá-la, e ela estava completamente disposta a não deixar que aquele pensamento a atormentasse, não mais. Não no natal, não na frente dos pais dele. Talvez depois que voltasse para Londres – de onde ainda nem havia saído – ela se permitisse surtar por conta dessa relação sem títulos nem rótulos, e ela não era segura de si o suficiente para falar que não ter um rótulo estiva totalmente OK.
E ela era quem tinha inventado o maldito quase.
— Bom, acho que é isso. — os olhos de encaravam os embrulhos com o orgulho de um pai vendo o filho adentrar a escola sozinho pela primeira vez. — Acho que isso vai dar. Só vou colocar no carro e nós podemos sair.
Com um sorriso beirando o juvenil, ele saiu da sala, deixando apenas e os presentes. Ele não havia notado que ela não estava feliz. Sequer percebera que sua animação havia se esvaído por completo. Não viu que o brilho de seus olhos haviam se apagado. Para ele, a oportunidade de se reunir com a família era tão importante que ele não teria tempo ou paciência para ver que precisava de alguma palavra de apoio. E ela sequer poderia culpá-lo por aquilo. Talvez ele simplesmente não fosse o cara perfeito que ela idealizava.
Ele voltou para a sala com uma mochila pendurada por uma alça no ombro direito. Disse a que aparentemente estava tudo enfim pronto, e que eles poderiam colocar tudo no carro para finalmente partirem. Ao sair de dentro da residência do amigo, sentiu o frio cortar sua pele. Quando no Brasil, sempre reclamava da decoração envolvendo bonecos e flocos de neve, já que em seu país natal dezembro era um dos ápices de calor. Mas ali, na Inglaterra, ela sentia um certo sentido, ainda que assim o fosse apenas na Europa.
Ela se sentou no banco do carona – errado, ela tinha certeza que aquele era o lado errado; iria fazer uma pesquisa e descobrir de qual lado a maioria do planeta utilizava o volante. sentou-se ao seu lado, dando partida e começando a dirigir pelas ruas de Londres, não por tempo o bastante, logo entrando em uma rodovia, aos poucos se afastando da cidade, logo com a paisagem praticamente igual durante boa parte da viagem. Exatamente igual ao Brasil, se fosse sincera. Pequenos detalhes – ou grandes, dependendo do ponto de vista – sempre acabavam sendo semelhantes.
O rosto de estava virado para o lado esquerdo, olhando através do vidro escuro da janela. Ela segurava alguns suspiros vez ou outra, tentando evitar ao máximo a sensação de “vídeo de música triste”, quase frequente em momentos como aquele. Faltando apenas ter onde apoiar o cotovelo, para então poder apoiar o queixo na mão, ela finalmente deixou um baixo suspiro escapar pelos lábios, ao mesmo tempo em que sentia a mão de tocar seu joelho. Virou o rosto para a direita, vendo que uma mão dele ainda segurava o volante, e os olhos pareciam estar alternando entre encarar a estrada e desviar em sua direção.
— Ei. — a voz dele soava baixa, quase um sussurro. — Não pense que não notei. O que está acontecendo?
Ela olhou para baixo, vendo a mão dele tocando seu joelho de uma maneira quase delicada. Ele não apertava, não fazia carinho, nada. Sua mão estava apenas pousada ali, como se estivesse pousada no encosto de uma cadeira ou sofá. não tentava de nenhuma maneira se mostrar invasivo. Ele havia percebido, mas certamente considerava que há coisas que devem ser contadas, e coisas que devem permanecer guardadas. Ele estava certo, e ela sabia que ele sabia, por mais confuso que pudesse soar. Por esse motivo sorriu.
— Está tudo bem.
— Eu não acredito em você. — a mão dele deixou a perna dela, voltando para o volante. Um pequeno sorriso surgiu no rosto dele, por milésimos de segundos. — Mas tudo bem se não quiser falar sobre isso.
— Aham. — ela balançou a cabeça e olhou para a estrada a sua frente. O padrão de rodovia se repetia, e ela quase não via curvas. Virou a cabeça para a esquerda e olhou pela janela. Talvez ela pudesse se sentir em um clipe musical no fim.

***

Quando o carro estacionou em uma casa aparentemente simples, as pontas dos dedos de pareceram mais geladas do que o comum, o que só poderia significar que ela estava realmente muito nervosa. Ao seu lado, parecia mais animado do que nunca, e se tratando dele aquilo realmente significava muito. Os dois saíram do carro ao mesmo tempo, pegando as mochilas e os presentes, indo até a porta e tocando a campainha.
Uma mulher loira, com um penteado moderno envolvendo uma franja abriu a porta. Assim que os olhos dela encontraram os de , um sorriso tão grande quanto sua boca permitia abriu-se radiante, ao mesmo tempo em que abria e os braços e dava um passo para frente, ignorando completamente as caixas que ele segurava e o envolvendo em um abraço apertado o bastante para que ele soltasse um gemido.
— Mãe! — ele falou em um suspiro seguido de uma risada. não evitou arregalar os olhos. Achava que a mulher fosse irmã dele, tão jovem sua aparência. — Assim eu derrubo os presentes!
— Quem liga para presentes? O importante é você estar aqui! — ela disse antes de se afastar, ainda sorrindo para o filho. Virou então o rosto, os olhos encontrando os de . Ela respirou fundo, sentindo-se tão envergonhada quanto possível. — Você deve ser ?
Ela apenas confirmou, antes de ter a mãe de também a puxando para um apertado abraço. Aparentemente abraçar era de família. O abraço das duas durou muito menos do que o da mãe e filho, mas não se importou. Apenas de ter recebido um abraço, e não apenas um aperto de mão, já se sentia desconfortável o bastante.
falou bastante de você. Fico feliz que tenha aceitado se juntar a nós.
— Eu que agradeço o convite. — percebeu que sua voz havia falhado em algumas sílabas e se obrigou a limpar a garganta antes de continuar. — É um prazer, Sra. .
— Não, não, nada de “senhora”, por favor. Me chamo Lynne. Entrem, vocês dois, está realmente frio aqui fora. — enquanto eles entravam em uma pequena e aconchegante casa, Lynne não parecia disposta a parar de tagarelar, algo que realmente agradecia; ela certamente não saberia manter assunto. — A Laura não vai conseguir vir esse ano, então fico realmente feliz que você tenha trazido companhia, . Vocês estão namorando?
perguntou-se o quão estranho seria se desse meia volta e fosse embora dali, e andasse sem rumo por Northampton até que encontrasse qualquer meio de transporte que a levasse de volta a Londres. Ou se, talvez, espremer um limão nos próprios olhos ardesse menos do que aquela pergunta. Respirou fundo antes de virar o rosto na direção de , vendo-o de cabeça baixa. Aparentemente ele também havia ficado sem reação. Quem diria que aquele assunto viria à tona tão cedo.
— Ainda não, mãe. — o sorriso mais nervoso do mundo se estampou em seu rosto enquanto ele levantava a cabeça e encarava a mãe. — Mas é só uma questão de tempo.
As sobrancelhas de arquearam-se o máximo possível, para em seguida franzirem. Lynne olhou do filho para a nova convidada, e talvez nora? Ela se sentia confusa, mas era claro que sua confusão nem se comparava a que estava sentindo. Se arrependeu um pouco por ter feito a pergunta, mas era tarde demais para remoer o fato. Talvez fosse melhor apenas deixá-los sozinhos por alguns minutos.
— Bom, seu pai foi comprar algumas coisas para a ceia, logo deve estar chegando. Me deixe levar esses presentes para a sala enquanto vocês se acomodam no antigo quarto de . — Lynne pegou os presentes que eles carregavam e saiu do hall de entrada, deixando-os sozinhos.
virou para , os braços cruzados. O sorriso nervoso havia desaparecido de seu rosto, substituído por uma expressão nervosa, como se ele estivesse em apuros e soubesse disso. Ela deu alguns passos até ele, ficando exatamente de frente para o rapaz, podendo olhar em seus olhos com mais facilidade.
— Uma questão de tempo? — ela quase sussurrava, os olhos soltando faíscas na direção do amigo.
— E é mentira? — ele levantou apenas uma sobrancelha. Ela abriu a boca uma, duas, três vezes para tentar responder, mas nenhum som foi emitido. A expressão nervosa foi substituída por um sorriso convencido. — Exatamente. Vem cá. — ele a puxou para perto, abaixando o rosto e tomando seus lábios em um rápido beijo. Depois afastou o rosto, vendo-a ficar vermelha. — Vamos, temos que arrumar as coisas. É natal, você sabe, uma época de milagres.


12: Feliz Navidad!



Ela não conseguia dormir, e alegava três motivos para tanto. O primeiro, estar em uma casa completamente nova, em uma cama nova, com travesseiros novos. Dormir fora de casa nunca é tão bom quanto o conforto da própria cama – e ela sabia bem demais, afinal, havia demorado mais de um mês para se acostumar com sua residência em Londres. O segundo era o que Lynne havia falado no dia anterior e como ela achava desgastante fingir que não havia importância, especialmente após dizer que o namoro era apenas uma questão de tempo. O terceiro e último era, claro, o corpo de deitado ao seu lado na cama.
Não que eles nunca houvessem dormido juntos, mas antes ela não possuía todas as preocupações e ideias de um possível namoro com o homem. Era bem mais fácil ignorar tudo antes. Mas claro, ali estavam, dividindo a mesma cama de viúva, embaixo dos mesmos grossos lençóis. O rosto dele virado em sua direção, os olhos fechados e a expressão serena, completamente em paz. Havia duas pintinhas do lado esquerdo do rosto dele, descendo o maxilar, já em direção ao pescoço, próximo a orelha. Bem específico, chamando sua atenção mais do que o normal.
Ela deu um pequeno sorriso, se sentindo meio boba. A expressão serena dele era quase como um calmante. Mas aquelas duas pintinhas lhe davam um ar meio inocente, e ela sequer sabia porque as relacionava à inocência. Mexeu a mão com cuidado e a levou até o rosto dele, tocando-o com cuidado, traçando uma linha reta entra os dois pequenos pontos. gemeu baixo, uma reclamação leve, e se mexeu na cama. O braço dele, antes em uma posição sem sentido, moveu-se até encontrar a cintura dela e a abraçar, puxando seu corpo para perto. Ele mexeu o pescoço até que seu rosto estivesse apoiado no ombro dela, respirando cabelo e não parecendo se importar.
— Não. — a voz ele estava rouca e falhada, uma prova de que ele ainda não estava muito acordado.
— Não o que? — sussurrava, também passando os braços ao redor do corpo dele e o apertando em um abraço. Ela realmente amava estar com ele.
— Não acorda. Não levanta. Não sai daqui. — ela sentiu os lábios dele pressionarem a pele do ombro dela. E pronto, ela estava completamente derretida. Era só o que lhe faltava. — Vamos ficar o dia inteiro na cama.
— Hoje é natal, . — ela argumentou sem se esforçar muito. Com o frio que fazia, sabia que a opção de permanecer embaixo das cobertas era simplesmente a melhor de todas. Nenhum ser humano comum deveria se animar em levantar da cama no inverno.
— Olha que ótimo jeito de comemorar. — a cabeça dele moveu pelo ombro dela, subindo, descendo, beijando várias partes daquela região do corpo dela. Talvez ficar ali com ele o dia inteiro não fosse uma ideia ruim no fim...
— Só mais um pouco, tá? Eu quero ajudar sua mãe com a preparação da ceia.

***

apareceu na sala cantando, completamente animado. Assim que viu a mãe, a puxou para um abraço e um demorado beijo no rosto. , que caminhava logo atrás, observou sorrindo. Achava fofa a maneira como ele era tão próximo dos pais, o que a fazia sentir um tanto de saudade dos seus. Diferente de , ela e os pais não eram de demonstrar muito amor, especialmente fisicamente. Mas certamente se amavam, muito. Mais do que ela costumava dizer.
! — Lynne aproximou-se, também a abraçando. — Bom dia! Meu filho te deixou dormir essa noite?
A frase ambígua fez o sangue de ir diretamente para seu rosto, deixando-o quente e muito provavelmente vermelho, a julgar a risada que soltava a seu lado. Não teve coragem de olhar nos olhos de Lynne ao responder que havia dormido muito bem. Nem sabia o motivo da vergonha, uma vez que ela e o quase namorado não haviam feito nada demais; umas trocas de beijos, carícias e fim. Uma longa noite de sono. O suspiro de alívio foi contido em sua garganta quando David, pai de , apareceu na sala, um simpático sorriso e um aperto de mão forte para cumprimentá-la.
Não demorou muito até que todos estivessem devidamente divididos entre as tarefas para um especial almoço de natal. e Lynne cozinhavam em perfeita harmonia. David limpava a sala e colocava mais alguns enfeites que havia comprado de última hora. parecia muito concentrada em fazer seu pavê, usando a receita que havia pedido para a mãe mandar há poucos dias. Ela conseguia se ver chorando com muita clareza se caso qualquer coisa saísse errado.
Mas tudo deu certo. Não com a beleza da televisão ou dos ideais que tanto almejava, mas tão certo quanto deveria dar. Todos se sentaram à mesa, animados para a ceia. não falava muito, apenas porque não tinha muito o que dizer. Observava a relação familiar fluir de maneira fantástica, mas não se sentia apta a interferir. Deixava apenas que o sorriso ficasse estampado no rosto, apreciando os alimentos – nada semelhantes aos que era acostumada – que estavam espalhados por toda a mesa.
Antes de sobremesa eles se deram aquele estranho canudo, em que cada um puxava uma ponta, além de colocarem na cabeça aquela estranha coroa de papel. Ela não via o menor sentido entre as coroas e o natal, mas não iria falar nada, afinal a intrusa era ela. Em alguns momentos da vida é melhor não falar nada, e aquele certamente era um deles. Mas o clima estava favorável, todos elogiavam o seu pavê. E ela não havia precisado ouvir aquela piada horrível, que havia perdido a graça mais ou menos nos anos 90.
A preocupação retornou apenas quando os levantaram dizendo que a melhor hora havia finalmente chegado – a troca de presentes. definitivamente não considerava a melhor hora. Ela estava receosa em relação ao que havia levado para os pais de , e a pior parte era que não havia comprado nada para ele. A pedra de gelo em sua barriga parecia ficar cada vez maior, uma súbito desejo de sair correndo dali, e pelo que conhecia de descargas de adrenalina, não duvidava nada que conseguiria correr por alguns bons quilômetros antes de se cansar.
Mas estampou o sorriso no rosto enquanto todos se encaminhavam na sala e se acomodavam próximos a aconchegante lareira. Ela sequer abriu a boca enquanto Lynne falava algumas palavras bonitas sobre o natal e o quão especial é a data. Vez ou outra lançava um olhar meio desesperado para , que estava um pouco longe dela, mas ele sequer parecia notar. Mas nenhum momento foi pior do que quando a mãe dele disse que ela poderia começar a entrega.
— Começa você, ! Os convidados primeiro! — Lynne provavelmente achava que estava sendo legal com a garota, mas o real desejo dela era enfiar a cara na terra e nunca mais sair. Inveja de todo avestruz.
Enquanto caminhava até a árvore analisou a possibilidade de cair, uma vez que suas pernas pareciam realmente moles, mas acabou chegando do outro lado da sala inteira. Falou algumas palavras bonitas e de agradecimento pela hospitalidade e entregou os presentes para Lynne e David. Eles pareceram realmente felizes com os produtos de beleza feitos a partir de elementos naturais brasileiros e um livro de fotografia sobre o Brasil, o segundo realmente prendendo a atenção de David.
O casal deu a ela um enorme e lindo casaco, junto com um par de botas, que pareciam perfeitos para o inverno. Não lembrava de ter perguntado qual era seu número, então julgou que ele havia procurado escondido para passar para os pais. Agradeceu que ele tivesse se esforçado para manter tudo em segredo, sem levantar suspeitas. Logo era chegado o momento em que ele entregaria os presentes. Entregou primeiro os dos pais, esperando que eles abrissem e ficassem entretidos com os novos aparelhos celulares para só então caminhar até , lhe estendendo um envelope vermelho.
— Feliz natal. — a voz dele estava baixa, um sorriso bobo brincando em seu rosto.
Ela franziu as sobrancelhas, um pouco desconfiada, mas acabou sorrindo antes de abrir o envelope, que continha uma passagem de avião para Berlim no dia 31 de Dezembro. Dali menos de uma semana. Com os olhos maiores que o normal, ela encarou novamente, que parecia realmente orgulhoso de si mesmo.
, eu não... — ela tentava falar, mas as palavras haviam morrido em sua garganta. Mais do que as borboletas de felicidade no estômago, ela sentiam todo o sangue queimar em vergonha e culpa.
— Eu não esqueci que havia prometido te levar para passear pela Europa. A Alemanha é um começo.
— Eu não comprei nada pra você. — ela atropelou as palavras, falando rápido demais. O rosto dela ardia, ela tinha certeza que a temperatura do local havia subido alguns graus. Não era possível que o que sentia era apenas vergonha.
— E daí? — ele riu e a puxou para um abraço, seguido de um beijo roubado. Ela tentou fingir que os pais dele não estavam na sala enquanto apreciava a sensação de possuir os lábios de contra os seus. Quando se separaram, baixou a cabeça, o rosto ainda queimando, porém por um motivo completamente diferente. — Vamos dormir no mesmo quarto, você pode me dar algum presente mais tarde.
A risada de Lynne foi o que precisou para saber que ele não havia falado baixo o bastante. Lançando-lhe um olhar que gostava de chamar de “mortífero”, mas provavelmente não era mais que “bravinho”, ela se afastou dele, pedindo licença e indo para a cozinha pegar um copo d’água. Com tudo o que havia acontecido em tão pouco tempo, ela certamente precisava de um longo gole.


Continua...



Nota da autora: (26/07/2017) OIR
EU VOLTEI MAIS RÁPIDO DO QUE PENSEI
Primeiro pq a fic foi indicada aqui no site É O QUE?
Como se não bastasse esse auge da alegria, ainda teve UM MONTE de gente nova comentando O QUE ME DEIXOU MAIS DO QUE FELIZ AAAAA
Aí eu fiquei feliz e inspirada e o capítulo saiu muito rápido ahhaahahn
Então mto obrigada a todas que leem e principalmente que comentam essa fic VCS ARRASAM AAAAAAAA


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