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Última atualização: 06/10/2021

Capítulo 1

— Café, café, café... — cantei alegremente, me atirando em cima de Clover.
As gravações de hoje haviam começado às 2 horas da manhã, o que tinha me feito acordar meia-noite e fingir estar acordada até agora, enquanto parte minha ainda estava adormecida. Felizmente anos de experiência tinham me ajudado a não deixar o sono atrapalhar, mas era inevitável a necessidade de café a cada intervalo.
— Você já tomou cinco expressos nas últimas horas, . — Clover me repreendeu. — Vai ter um treco se tomar mais um.
— Ainda temos mais duas horas de gravação, amor da minha vida. — abri meu melhor sorriso, jogando um braço ao redor do pescoço dela. — Eu assumo qualquer responsabilidade por eventuais ataques cardíacos.
— Você é terrível, . — ela suspirou, estendendo a bandeja. — Anda, pega logo.
— Eu te amo, nunca duvide disso. — apertei o rosto dela entre as mãos, tascando um beijo barulhento na bochecha gorducha da faz-tudo do set.
Pegando um dos cafés da bandeja, fui em direção ao canto do set, louca para descansar os pés doloridos pelas botas de salto que minha personagem tinha decidido usar para uma festa. Um sofá solitário no canto do jardim, longe o suficiente das dezenas de atores que estavam aglomerados mais na frente para uma das cenas da festa, chamou minha atenção e eu me joguei nele sem pestanejar, estirando os pés no tecido azul. Um bocejo escapou assim que encostei a cabeça na almofada fofinha, mas tratei de dar mais um gole no expresso antes de fechar os olhos.
— E essa moleza toda?
A voz sussurrada no meu ouvido fez meu pescoço arrepiar e, percebendo isso, o dono da voz riu.
— Eu mereço os cinco minutos de intervalo. — resmunguei, fechando os olhos. — Estou aqui faz duas horas.
— Eu te falei para ir dormir cedo. — me lembrou.
— Eu precisava terminar a segunda temporada de Virgin River. — respondi, nem um pouco culpada por mal ter dormido à tarde.
— Valeu a pena? — perguntou.
Abri os olhos, focando no rosto do homem bonito encostando casualmente com o rosto a centímetros do meu. estava usando as roupas de Theodore, o personagem com caráter duvidoso, passado sombrio, poderes desconhecidos e o maior jeito de bad boy que encontraria minha personagem na floresta na próxima cena.
— O final foi mais desesperador do que o da primeira temporada. — choraminguei, descendo mais dois goles de expresso. — Eu não devia ter assistido assim que lançou, .
— Isso eu concordo. — ele sorriu enviesado. — Você ficou insuportável quando assistiu a primeira temporada, .
Abri a boca, indignada com a acusação, embora ele estivesse completamente certo. Eu tendia a ficar obcecada com algumas coisas de vez em quando e quando a primeira temporada de Virgin River estreou, estávamos gravando a segunda temporada de Shadow Preachers. tinha ficado com o dever de me aturar comentando e implorando para que ele assistisse também, de tão obcecada que eu fiquei.
— Eu ainda era tolerável. — me defendi, piscando para ele. — Aliás, você devia assistir.
revirou os olhos, contornando o sofá para sentar perto de mim. Soltei um suspiro exasperado quando ele segurou minhas pernas, mas quando pensei que ele ia empurrar para o chão, meu amigo as colocou em seu colo.
— Vou assistir algum dia. — deu a mesma resposta de sempre.
— Você diz isso há um ano. — reclamei, acomodando melhor meus pés no colo dele.
— E continuarei dizendo por mais um. — disse, com a expressão presunçosa na cara. — Você vai ter forças para ir para o aniversário da Cheryl mais tarde?
— É claro que sim. — respondi, quase ofendida por ele ter sugerido o contrário. — Vou dormir duas horinhas, tomar um energético e estou pronta para outra.
— Saudável, saudável... — murmurou, obviamente me julgando. — Já avisei que você vai ter um infarto antes dos 30.
— Eu sempre quis morrer jovem só para ficar linda para sempre. — suspirei dramaticamente, mordendo a tampa de plástico do meu copo de café.
— Realmente é muito bonito se tornar um corpo em decomposição no auge do que deveria ser seus 28 anos. — ele assentiu, carregado de ironia.
— Chato. — bati meu calcanhar com força na coxa dele.
— Sincero. — ele segurou meu tornozelo, erguendo minha perna no ar. — É muito mórbida essa sua obsessão por morrer jovem.
— Eu sempre falo brincando! — me defendi, olhando para a ponta da minha bota no ar. — Você que leva a sério.
— Eu aprendi a acreditar nas coisas que você fala, até mesmo nas mais absurdas. — empurrou minha perna ainda mais para cima, provavelmente esperando uma reclamação minha. — Especialmente depois do meu aniversário.
Não segurei a risada ao lembrar do aniversário dele ano passado quando eu saí de dentro de um bolo de aniversário enorme enviado para o hotel dele quando estávamos gravando as cenas na Escócia, como avisei por semanas que iria fazer. não acreditou, mas foi memorável a expressão no rosto dele quando me viu sair cantando feliz aniversário bem ao estilo Marilyn Monroe no aniversário do JFK.
Touché, meu amigo. — dei mais um longo gole no expresso, reverenciando mentalmente o café.
— O intervalo acabou, crianças. — Maggie, a diretora se aproximou de nós dois. — Vamos lá, hora de Theodore entrar em cena.
— Hora da diversão! — ergui meu café para Maggie, dando um sorriso malicioso para o . — Vamos lá deixar o Theodore corromper a Claire como você me corrompeu, .
Ele delicadamente desceu minha perna e empurrou para o chão, se libertando da minha perna que estava no colo dele também.
— Você quis dizer como você me corrompeu, certo? — ele levantou, virando para mim. — Porque nós dois sabemos que você é o lado podre da nossa amizade.
— Eu devia ficar ofendida. — abri a boca, ultrajada.
— Você sabe que é a mais pura verdade. — sorrindo, estendeu a mão para mim. — Vamos lá, Claire Lehman.
— Vamos, Theodore Willhoft.
— Vamos voltar da parte que Claire se afasta da festa em direção à floresta após ouvir as vozes que só ela escuta. — Maggie recapitulou, nos guiando em direção ao tumulto no centro do jardim. — Então ela começa a seguir essas vozes que a levam até Theodore. , você precisa retocar a maquiagem, a testa tá brilhando um pouco, o Gale está te esperando.
Olhei na direção que Maggie apontou atrás das câmeras onde a cadeira com meu nome estava e a mesa de maquiagem de Gale bem ao lado com as luzes voltadas para ele. Assenti rapidamente e corri até ele, que estava terminando de retocar a maquiagem de uma das figurantes.
— A Mama Maggie pediu para você me pintar, Gale. — avisei, enfiando as mãos no meu sobretudo grosso e quentinho.
— Sua testa está brilhosa, só um pouco de pó resolve. — ele me escaneou rapidamente, voltando sua atenção para a pele da garota na cadeira. — E mais batom, já que você insiste em tirar com esses cafés.
— A culpa não é minha se meu corpo clama por cafeína. — e para provar meu ponto, levei o copo até a boca e tomei o resto do café. — Pronto, juro que esse é meu último.
— É bom ser. — Gale murmurou, focando em arrumar o delineado da garota. — Você vai para a festa da Cheryl?
— Nada nesse mundo me impediria de sair em uma sexta à noite quando não temos gravação amanhã. — joguei o copo vazio no lixo ao lado da mesa de maquiagem. — Você vai, não vai?
— É claro. — respondeu como se fosse óbvio. — Nada nesse mundo me impediria de sair em uma sexta à noite quando não temos gravação amanhã. — Gale piscou para mim, abrindo um sorriso conspiratório. — Prontinho, linda. — ele falou para a garota.
Com um “obrigada”, a garota lançou um sorriso educado para nós dois e correu de volta para o local da gravação. Sentei na cadeira e cruzei as pernas, esperando enquanto Gale procurava meu pó e o batom.
— Então, santa ou pecadora? — ele perguntou, voltando para a minha frente.
— O que você acha? — inclinei a cabeça para cima e fechei os olhos quando o pincel tocou meu rosto.
Cheryl adorava uma festa temática e no próprio aniversário ela não ia deixar passar em branco, ainda mais quando estávamos gravando em Londres. O tema da festa seria “Santos e Pecadores” e eu tinha simplesmente amado a ideia, apesar de ainda estar indecisa sobre qual dos dois escolher.
— Pecadora. — respondeu tão rápido que eu quase me senti ofendida. — Mas como você é sonsa, diria que vai de anjo.
— Você é ridículo. — ri, socando a barriga durinha dele. — Você vai descobrir na festa, não vou contar.
— Ai! — resmungou, puxando meu cabelo, o que me fez soltar um grunhido. — Eu vou de santo e o Leon vai de pecador.
— E depois a sonsa sou eu? — impliquei.
— Eu pelo menos não nego. — Gale fez uma dancinha com as sobrancelhas, inclinando o ombro para cima em superioridade. — Vai, fica quieta que é hora do batom.
Fiquei calada para que Gale passasse o batom e assim que ele terminou, me despedi e voltei para onde seria a próxima cena. estava conversando com Albert, um dos câmeras, e Maggie me chamou assim que me viu.
— Uma das câmeras vai fechar no rosto quando você estiver chegando perto do , OK? A Claire está quase hipnotizada, andando no automático, sem medo nenhum, só ansiedade pelo que ela está sentindo. — Maggie instruiu, já andando na frente para onde a cena começaria. — Você não vai olhar para nenhum outro lugar, só para frente.
Assenti, me atentando a cada palavra que Maggie Pearson, uma das mais renomadas diretoras da atualidade, ia me instruindo. Meu cansaço ia totalmente embora quando o assunto era atuar, mesmo que há cinco minutos eu estivesse prestes a dormir novamente. Eu era sempre arremetida por uma onda de paixão e entusiasmo que é frequente quando se faz algo que você ama e essa série tinha se tornado o meu trabalho favorito desde o ano passado.

***

segurou a porta do carro para mim quando saiu e a ouvi bufar enquanto eu me arrastava pelo banco traseiro até a porta aberta. Soltei um agradecimento para o motorista do Uber quando saí e endireitei meu vestido preto imediatamente. O vestido longo de cetim tinha a parte superior de corpete, o que fazia meus seios saltarem para fora dele por ser tão apertado. As costas eram nuas e uma fenda parava no alto da minha coxa esquerda, deixando o vestido coberto por cristais pretos ainda mais escandaloso. Um bracelete de cobra se enroscava do meu pulso até o cotovelo e o colar de rubis vermelhos era a única coisa com cor no meu visual. Penas negras desciam ao redor do decote das costas como asas de um anjo caído, me dando o ar de pecadora que eu tanto queria.
— O que você já tá reclamando? — perguntei para .
— Dos paparazzi que quase viram meus peitos quando eu saí. — resmungou, infeliz, apontando para os dois homens com as câmeras na mão próximos ao portão da casa.
Apesar de estar de santa, estava usando um vestido branco gelo com uma saia completamente transparente, mostrando a calcinha hot pants por baixo. O decote era folgado o suficiente e, se ela vacilasse, alguém seria sortudo ao ter um vislumbre dos seios dela. Uma tiara angelical de flores em diamantes dava o toque final no loOK.
— O mundo seria um lugar melhor com fotos dos seus peitos espalhadas pela internet. — brinquei, enganchando o braço no dela.
— Eles seriam o estopim para a paz mundial, né? — ela abriu seu melhor sorriso falso, me puxando com ela para a entrada.
— Com certeza. — assenti efusivamente.
e eu cumprimentamos os seguranças e, após verificarem nossos nomes na lista, nos deixaram passar. O jardim já dava indícios do que iríamos encontrar lá dentro, com holofotes brancos, pretos e vermelhos iluminando o caminho de pedra até a casa que brilhava com as mesmas cores, pelo que dava para ver pelas paredes de vidro. Chegando na festa, e eu paramos para cumprimentar conhecidos em cada canto, grande parte deles fazendo parte do elenco ou da produção da série, enquanto o outro resto se diversificava entre cantores, atores e modelos.
— E a aniversariante? — perguntou para Colton.
— Ela se perdeu em algum lugar. — respondeu, os olhos focados na minha amiga. — E você devia se perder comigo.
Soltei uma risada, virando imediatamente para observar a reação de com essa cantada barata, mas ela simplesmente fingiu que não ouviu e saiu no meio da festa sem explicação alguma, me deixando ao lado de Colton.
— Por que quanto mais ela pisa, mais eu me apaixono, ? — Colton suspirou, virando o resto do whisky na boca. — É sério, uma hora eu vou cansar.
— Você diz isso há quase um ano, lindo. — dei uma tapinha solidário no ombro dele. — Mas eu te admiro pelo esforço.
— Ela não. — resmungou amargamente.
é assim mesmo, a última namorada dela levou quase dois anos para conseguir que ela aceitasse o pedido de namoro. — contei, esperando deixa-lo mais feliz. — E o primeiro namorado dela antes da Edwina também ralou horrores.
— Quem ralou horrores?
Olhei para o lado com a voz familiar que chegou na conversa e foi impossível não olhar dos pés à cabeça. Ele estava com uma camisa vinho que abraçava muito bem seus músculos e uma jaqueta de couro preta por cima. Diabolicamente bonito como sempre, é claro.
— Os exs da . — expliquei, focando no rosto dele que estava com um sorriso presunçoso por ter notado meu olhar. — Um pecador?! Não esperava.
— Você me corrompeu, te disse. — respondeu, interceptando um garçom para pegar um copo de whisky.
— Eu me sinto lisonjeada por tal feito. — coloquei a mão no peito como se estivesse emocionada.
— Chegou agora? — Colton perguntou para .
— Há uns minutos. — explicou. — Estava conversando com a Nora.
— A Nora? — arqueei uma sobrancelha, cheia de segundas intenções.
— Nem começa. — ele cortou, apontando um dedo ameaçador na minha direção.
— Nem falei nada. — pisquei os cílios com meu melhor ar angelical.
— Não sabia que tinha uma história com a Nora. — Colton se interessou.
— É porque não tem. — cortou.
— Ainda. — ressaltei. — Vem, vamos procurar a Cheryl, preciso cumprimentar ela.
Saí na frente com e Colton ao meu encalço, parando eventualmente para cumprimentar alguns conhecidos até que finalmente avistei Cheryl próxima ao bar. Ela estava de santa, como eu já esperava e usava asas brancas que eram dignas de desfiles da Victoria’s Secret.
— Agora a festa já pode começar! — Cheryl gritou assim que me viu.
— Feliz aniversário, diaba! — ri, a abraçando como deu, por conta das asas. — Você tá incrível.
— E você tá o próprio pecado, ! — ela me deu um beijo na bochecha, se voltando para depois. — E você me faz querer pecar, lindo.
— Tenho certeza de que seu namorado desaprovaria isso. — riu, a abraçando também. — Mas ele não precisaria saber, não é?
— Os pecadores querem me corromper, socorro! — ela se abanou, parando ao lado de Colton. — Você eu já falei.
— E não recebi tantos elogios assim. — reclamou, fechando a cara.
— Não fica magoado, meu amor. — ela beijou a bochecha dele também. — Vamos todos tomar alguns shots para iniciar a noite, sei que vocês não têm gravação amanhã.
— Ah, eu estou pronta para tudo essa noite! — tomei o resto da margarita da minha taça em um único gole. — Vamos lá.
Cheryl pediu oito shots de tequila e cada um ficou com dois, prontos para virar um atrás do outro. Fazia tanto tempo que eu tinha realmente saído para festejar sem me preocupar com o dia seguinte que essa noite eu estava mais que ansiosa para aproveitar ao máximo depois dos últimos dias cheios de trabalho e noites não dormidas. Por mais que eu amasse meu trabalho, era impossível não me sentir sobrecarregada em alguns momentos e hoje eu estava preparada para não pensar em nada.
— Tin-tin! — Cheryl puxou o brinde com o primeiro shot e quando batemos os copinhos contra os outros, bebemos na mesma hora.
A tequila desceu amargando na minha boca, mas antes de chupar o limão, entornei o segundo shot e só assim coloquei a rodelinha de limão na boca, ansiosa para quebrar o gosto. Uma onda de calor fez meus braços pinicarem levemente quando a tequila bateu e eu sorri para os outros três que tinham acabado de virar o segundo shot também.
— Definitivamente não sou uma pessoa de tequila. — lambeu o lábio inferior para tirar o excesso do sumo de limão.
— Isso é coisa que gente velha fala. — zombei, deixando minha rodela de limão de volta no prato.
semicerrou os olhos, me dando aquele olhar perigoso que seu personagem na série era especialista.
— Eu vou te mostrar quem é o velho essa noite. — ele retrucou.
— Isso é uma promessa? — mordi o canto da boca, segurando um sorriso malicioso.
— Você pode apostar, . — garantiu, o que me fez sorrir de vez.
— Mal posso esperar, .
Com um sorrisinho enviesado, bebeu mais um gole do copo de whisky que pegou no começo da festa, me olhando por cima da borda. Eu não era imune à beleza e aos olhos penetrantes dele, só fingia ser a maior parte do tempo por sermos bons amigos, mas foi inevitável a pontada de expectativa que tomou conta de mim ao imaginar as milhares de maneiras que ele poderia me mostrar isso.
— Vamos dançar? — perguntei para Cheryl.
— Por favor. — ela respondeu.
Eu não precisava de bebida para poder dançar, mas os shots de tequila foram com certeza um incentivo e os drinks que fui tomando em seguida ajudaram mais ainda. Eu simplesmente não conseguia parar para conversar por tempo demais e acabava arrastando alguém comigo para a pista de dança sempre que possível. Depois de mais um drink que envolveu tequila e absinto, eu já estava quase cruzando a linha tênue entre bêbada e muito bêbada, o que me fez recorrer ao bar para pegar uma garrafa de água.
— Uma água, por favor. — pedi a um dos barmans, que prontamente me entregou uma. — Obrigada!
— Você tá linda essa noite, .
Olhei para o lado, incrédula, ao reconhecer a voz masculina tão perto de mim. Os cabelos loiros estavam maiores, o sorriso cafajeste continuava o mesmo e ele parecia ainda mais bonito do que a última vez que nos vimos. Elliot Grayson, meu ex-namorado, era meu maior karma e eu sabia que merecia isso por permitir que ele continuasse se esgueirando para minha vida a cada término de namoro. O último, há seis meses, estava sendo o mais longo dos nossos três anos de idas e vindas e provavelmente só porque ele tinha passado uma temporada nos Estados Unidos.
— Eu sei. — sorri secamente. — Pensei que você ainda estivesse longe daqui.
— Por quê? Sentiu saudade? — ele apoiou o cotovelo no balcão, se inclinando para perto de mim.
— Foram os oito meses mais tranquilos da minha vida, na verdade.
E tinham sido mesmo. Elliot e eu não éramos mais apaixonados um pelo outro há tempo demais, mas era conveniente estar com ele sempre que ele me pedia para voltar. O sexo era bom, eu tinha alguém para ir comigo a eventos e minha família gostava dele, mas a dor de cabeça e as brigas eram tão frequentes que eu me sentia sugada a cada momento com ele.
— Eu não acredito em você. — ele deu de ombros, puxando minha mão que estava sem a garrafa de água. — Porque eu senti sua falta.
— Você pode acreditar no que quiser, se isso te consolar, Elliot. — bufei, puxando minha mão de volta, mas ele me segurou com mais força.
— Não vem bancar a difícil agora, . — ele riu, girando para ficar de frente para mim. — A gente podia almoçar amanhã, o que você acha? Relembrar os velhos tempos.
— Eu... — antes que eu desse uma resposta irritada ou me sentisse inclinada a dar um soco na cara dele, uma mão na minha cintura me puxou para trás, contra um peito largo e forte. A frase morreu na minha boca e eu olhei para cima, encontrando com um sorriso torto nos lábios e um olhar sereno direcionado para Elliot.
Baby, você ficou me devendo uma dança. — falou, dessa vez olhando para mim. — Vim cobrar.
Observei, com deleite, as orelhas de Elliot ficarem vermelhas e sua expressão se tornar completamente tensa com a súbita presença de , do qual ele sempre morreu de ciúmes. e eu nos tornamos amigos quase que imediatamente nas gravações da primeira temporada, mesmo que nossos personagens nem interagissem, e Elliot odiava a nossa proximidade com todas as forças.
— Sou toda sua. — respondi, abrindo um sorriso arteiro para , depois voltando a olhar para o meu ex-namorado. — Adeus, Elliot.
Puxei meu braço novamente, mas dessa vez ele não tentou me impedir e com a mão na base da minha coluna, me guiou até a pista de dança lotada.
— Não achei que você precisasse ser resgatada, mas não consegui segurar o impulso de provocar o Elliot depois de saber que ele tinha ciúmes de nós dois — explicou, abaixando o rosto na altura do meu ouvido para que eu pudesse escutá-lo.
— Você chegou na hora certa. — parei, virando de frente para ele. — Ver a expressão dele foi melhor do que o soco que eu pretendia dar.
— Isso era algo que eu gostaria de ter visto. — admitiu, lançando um olhar por cima do meu ombro.
— E baby?! — perguntei, me referindo ao que ele me chamou.
— Como eu disse, não resisti. — deu um passo para mais perto de mim, envolvendo um braço ao redor da minha cintura. — Mas agora eu quero dançar com você.
— Vai me mostrar que não é velho? — impliquei. Ele soltou um riso nasalado.
— Entre outras coisas.
— Agora você me deixou intrigada. — coloquei uma mão no ombro dele, erguendo o queixo para encará-lo melhor. — Que coisas?
— A dançar de verdade. — disse, abaixando a cabeça na minha direção. — Não o que você estava fazendo com aqueles caras.
— Ah, é? Aquilo não era dança? — franzi o cenho, me fazendo de desentendida.
— Aquilo não é dança quando se tem uma mulher como você nos braços. — ele ergueu o canto da boca em um sorrisinho.
— Então me mostra. — murmurei, momentaneamente zonza pela intensidade daqueles olhos brilhando com os lasers dos jogos de luz.
Eu não reconhecia a música e mesmo se conhecesse, a letra provavelmente teria sumido da minha mente quando começamos a dançar. A batida era sexy, o toque me levava a rebolar, roçando meu corpo no dele a cada movimento. Suas mãos escorregavam pelo meu corpo, às vezes roçando na pele nua das minhas costas e provocando arrepios pelo meu corpo inteiro. Não sabia explicar como, mas realmente dançar com ele não chegava perto de com os outros que eu dancei essa noite.
— Nada mal para um velho. — quebrei o silêncio, escorregando minha mão pelo ombro dele até o pescoço, ficando perigosamente próxima dele.
— Ainda com essa de velho? — ele balançou a cabeça lentamente, seus olhos adquirindo um brilho perigoso de desafio.
— Ainda não me convenceu totalmente. — escorreguei a mão pelo peito dele, o empurrando um pouquinho para trás.
Sem falar nada, com a mão que ainda estava no meu quadril, me girou de costas para ele e grudou seu peito nas minhas costas, me fazendo arquejar pelo impacto, mas minha mente bêbada queria muito mais que uma dança agora. A mão dele deslizou lentamente pelo braço nu até minha barriga, onde ele espalmou, me segurando contra seu corpo enquanto seguíamos o ritmo lento e sexy da música. Minha bunda estava grudada no quadril dele e a cada rebolada que eu dava, meu corpo ficava ainda mais quente.
— O seu ex-namorado parece estar apreciando o show. — sussurrou no meu ouvido.
Fiquei levemente tonta com a proximidade da boca dele do meu rosto, mas procurei Elliot com o olhar até encontrá-lo onde o deixamos minutos atrás. Seus dedos estavam apertados no copo de whisky, seu olhar fulminante direcionado para mim, o que me deixou ainda mais tentada a fazer o que já estava na minha cabeça há minutos.
— Você acha que devíamos irritá-lo ainda mais? — perguntei, o olhando por cima do ombro. O sorriso lento que ele me dirigiu fez meu estômago apertar.
— Ah, eu acho que devemos irritá-lo mais um pouco.
— E o que você sugere? — perguntei, umedecendo meus lábios que de repente ficaram muito secos.
O olhar dele acompanhou o movimento da minha língua e me virando de frente para ele novamente, colocou uma mão no meu queixo, enquanto a outra ficou na minha cintura. Ele ergueu meu rosto para ele e abaixou o próprio, me encontrando na metade do caminho. Sua respiração se misturava com a minha, nossas bocas estavam tão próximas que se algum de nós falasse, elas iriam roçar.
— Alguma coisa que pode ser muito estúpida para dois amigos bêbados fazerem. — murmurou, os lábios roçando levemente nos meus.
— Eu estou inclinada a cometer coisas estúpidas hoje. — respondi, mal ousando respirar agora. — Você está?
Os olhos dele estavam nublados como os meus, o meio sorriso bêbado o deixava ainda mais bonito e sua mão grande ainda me segurava pelo quadril mesmo que não estivéssemos mais dançando. Ele, lentamente, deslizou a mão que estava no meu queixo até meu cabelo, embrenhando os dedos pelas mechas bagunçadas de tanto dançar. Um suspiro escapou pelos meus lábios quando sua mão fechou ao redor dos meus cabelos em um leve puxão.
— Acho que isso responde.
Foi a última coisa que ele disse antes de me beijar.
Meus olhos fecharam automaticamente, minhas mãos encontraram um rumo nos antebraços fortes dele e quando minha língua encontrou a dele, eu quase gemi em antecipação. Perdi totalmente a compostura com o gosto de whisky na língua dele e pela forma que seu corpo encaixou no meu quando me empurrei ainda mais para perto. segurou meu quadril com mais força, os dedos quase puxando o tecido fino do meu vestido.
Meu coração estava disparado, minha mente nublada pelo álcool, porém mais confusa ainda pelo beijo que roubou o resto de sobriedade que ainda restava no meu corpo. No momento eu não dava a mínima que era meu amigo, pois tudo que eu queria dele era mais. Mais toques, mais beijos. Mais. Nem lembrava de como chegamos a esse beijo, tudo o que eu queria era terminar isso em outro lugar.
Deus me ajudasse quando a sobriedade voltasse, pois agora eu estava condenada pelo pecado da luxúria.

Capítulo 2

Meu coração parecia prestes a sair pela boca a qualquer segundo e meus braços doíam tanto que eu podia muito bem ter esmagado eles com rodas de caminhão, mas nem isso me fazia parar de bater a corda naval com o que restava das minhas forças. Para mim, o remédio favorito para esquecer os problemas era descontar na academia e hoje não tinha sido diferente. Às nove da manhã, acordei — minha melhor amiga e personal trainer — e viemos de ressaca e tudo para a academia.
— Se eu soubesse que tudo que precisava para você aumentar a intensidade do treino era beijar o , eu teria pedido para ele te beijar antes. — cruzou os braços, parecendo bastante satisfeita.
Soltei um grunhido para ela, mas nem me dignei a responder, focando apenas no barulho da corda batendo no chão e em como meu corpo estava prestes a ceder a qualquer momento. Depois de um treino intenso de membros inferiores, 4 km corridos na esteira e 20 minutos de funcional, eu devia estar exausta o suficiente para não pensar no que aconteceu na festa de ontem, mas minha mente sempre voltava para o beijo.
— Pronto, já deu. — me liberou, conferindo o cronômetro do relógio.
Sem fôlego algum, larguei as cordas e caí de costas no chão, jogando um braço em cima do rosto enquanto tentava normalizar minha respiração. Eu tinha certeza de que estava tão vermelha que facilmente me camuflaria no top que eu estava usando. jogou minha toalha em cima de mim e eu resmunguei algo que pareceu muito com um agradecimento.
— Quer ir comer waffles? — sugeri, espiando minha amiga pela brecha da toalha.
— Você treinou desse jeito e quer se encher de carboidrato? — a careta dela quase me fez sentir culpada. Quase.
— Eu malho para poder comer, . — estendi o braço para verificar meu Apple Watch. — E segundo isso, perdi 910 calorias ativas, o que me deixa comer pelo menos mil calorias no café da manhã.
— Sua conta está muito errada. — ela riu, frisando o “muito”.
— É a única que importa. — me sentei, sentindo meu abdômen queimar com o movimento. — Eu preciso de excessos para lidar com o excesso de ontem à noite.
— Ah, pelo amor de Deus. — revirou os olhos. — , você e o são adultos, podem lidar com um beijo.
Mas a verdade é que tinha sido bem mais do que um beijo. Tá, nem chegamos a transar por conta da interrupção de Gale, que caiu da escada ao tentar escorregar no corrimão e monopolizou a atenção da festa, fazendo com que e eu acordássemos para a realidade. Porém, o que eu senti durante aquele beijou foi muito mais do que um beijo deveria ser. Não que de repente eu tivesse me apaixonado por ele, não. Mas eu tinha sentido uma urgência e uma necessidade tão grandes que tinham me deixado assustada até agora. Eu tinha inseguranças ao ficar com alguém pela primeira vez, mas com ele eu simplesmente queria mais e não estava nada preocupada com o resto.
— Podemos... — concordei, balançando a cabeça lentamente. — Somos adultos e maduros.
— Maturidade é uma palavra forte para você. — corrigiu, me lançando um sorriso amigável. — Mas enfim, continua.
— Ele me mandou mensagem ontem quando chegou da festa, mas eu não tive coragem de ler ainda. — admiti, realmente me sentindo o cúmulo da imaturidade.
— Você merece uns tapas de vez em quando, sabia? — bufou.
— Se for na bunda, eu quero. — sorri maliciosa, tentando desviar do assunto.
— Você é impossível. — dessa vez revirou os olhos. — Vamos tomar café e então você vai voltar para casa e responder o como uma pessoa decente faria. Vocês têm gravação na segunda, não pode fugir dele para sempre.
— Era o que eu temia. — suspirei, estendendo a mão para ela me levantar. — Vai, vamos comer muito carboidrato e aí eu arrumo coragem para responder à mensagem.
— Para alguém que deu em cima do Leonardo DiCaprio com uma cantada terrível sobre o Gatsby, você tá bem mole. — zombou, segurando minha mão para me puxar.
— Ei, ele ainda riu, OK?! — mostrei a língua para ela. — Eu considerei aquela risada quase um sexo pesadão. Ele é meu amor desde Romeu e Julieta, você sabe.
riu e me puxou com ela para o vestiário. Depois de pegarmos nossas coisas, passamos em um restaurante perto da academia para o café cheio de carboidrato e gordura que eu tanto queria. Por mais que eu amasse meu tradicional café da manhã inglês, hoje eu estava muito inclinada para waffles com bacon, que foi o que eu pedi, acompanhado de dois muffins de blueberry e um croissant de chocolate.
Depois de um café bem reforçado, se despediu e eu finalmente retornei à minha casa. Depois de um banho que demorou bem mais do que o normal, eu encarei o celular que eu tinha ignorado a manhã toda. Tinha algumas mensagens pendentes e dezenas de marcações no Instagram, mas fui direto até o número do e abri a mensagem.

:
Sobre a festa... Devemos conversar? (03:29 A.M)

Mordi o lábio, encarando a mensagem curta. Depois de tomar dois lattes que serviram para clarear minha mente, eu estava me sentindo muito mais sensata para resolver essa situação. Éramos adultos, amigos e nos deixamos levar pelo álcool, então tudo o que eu senti provavelmente era consequência da bebida. Eu tinha certeza de que amanhã tudo estaria resolvido. Portanto, respondi como a sensata que eu sou.

:
Acho que podemos concordar que bebida e dois amigos impulsivos não é uma combinação muito boa, né? LOL (11:30 AM)
Relaxa, vamos seguir como se nada tivesse acontecido e esquecer (11:31 AM)


Enviei, atirando o celular para o outro lado do quarto. Miranda, sentada no travesseiro ao meu lado, me lançou um olhar carregado de julgamento e eu encarei seus olhos azul e verde sem remorso algum.
— Não me julga! — reclamei, mas ela continuou julgando.
Eu tinha nomeado minha gata em homenagem a Miranda, de O Diabo Veste Prada, e a felina parecia ter herdado a personalidade completa da personagem ícone de Meryl Streep. Ela adorava sentar em toda sua imponência, me julgar, odiar todo mundo e me acordar a qualquer hora que quisesse para pedir comida. Ela não ligava se eram duas da manhã ou que eu tinha acabado de chegar de alguma gravação e estava cansada. Até mesmo carinho era só quando ela quisesse, o que me fazia sentir usada. Eu tinha pesquisado sobre a personalidade de gatos persas e eles não eram como a minha Miranda. Eu tinha criado uma pequena ditadora ao colocar seu nome assim.
— Eu estou passando por uma situação muito difícil, Mimi. — contei, a puxando para o meu colo. — Você conhece o , o bonitão que você adora. A gente se beijou e eu estou com medo de ficar estranho, porque eu acho que eu quero beijá-lo de novo, sabe? E eu estou surtando com isso como se eu fosse uma adolescente. Mas eu enviei uma mensagem para ele e acho que vai dar tudo certo.
Miranda me encarou com aquele mesmo olhar desinteressado, mas apoiou a cabeça no meu braço enquanto eu fazia carinho nela.
— Folgada. — bufei.
Olhei para o meu celular do outro lado da cama e talvez tenha sido a força do pensamento, mas o som de mensagem soou e eu me atirei contra ele. Miranda soltou um miado nada contente com o quase esmagamento e saiu do meu colo com cara de poucos amigos.
— Desculpa! — gritei para ela.
Olhei para a barra de notificações e meu coração saltou ao ver o nome de nas mensagens.

:
Acho que podemos concordar que você me corrompeu, (11:35 AM)

Ri, incrédula que ele estivesse tocando nessa tecla.

:
Que eu me lembre, você que sugeriu (11:36 AM)


A resposta não demorou nada.

:
E que eu me lembre, você concordou (11:37 AM)

:
Você acabou de assumir a responsabilidade pelo beijo (11:37 AM)


:
Eu não sei do que você está falando... (11:39 AM)
Não foi você que disse que queria esquecer? (11:39 AM)

Eu ri ao ler a última mensagem. A minha coisa favorita sobre era o quanto ele me fazia sentir confortável. Quando nos conhecemos na primeira leitura do roteiro do episódio piloto, fiquei totalmente intimidada pela beleza de deus grego e a carreira que ele já tinha, mas, desde o primeiro momento, fez o máximo para que eu me sentisse confortável com ele. De alguma forma, ele sabia escolher as palavras certas e fazer as coisas certas. E agora não era uma exceção. Se eu estava surtando antes, agora eu sentia que podíamos deixar o beijo para trás.

***

Se eu achava que podia deixar o beijo para lá, estava muito enganada.
Depois de um final de semana onde eu tentei arduamente não pensar no maldito beijo, a segunda-feira chegou e trouxe com ela um dia cheio ao lado de . Era uma merda estarmos gravando agora o sequestro da minha personagem, nos obrigando a trabalhar juntos e praticamente sozinhos nas cenas de Theodore e Claire na mansão do mestre das sombras. Enquanto terminavam uma externa com nos jardins, eu tinha aproveitado para dar uma lida no roteiro da próxima cena, onde aconteceria a briga dos nossos personagens, e me concentrar em alguma coisa que não envolvesse olhar para ele.
, você tá sem café? Toma esse, linda.
Lentamente ergui meu olhar para Gale. Franzi o cenho, desconfiada com a súbita gentileza dele ao me entregar um copo de papel com um café recém-feito. Ele tentava por tudo que era mais sagrado me afastar da cafeína, então eu tinha motivo suficiente para ficar desconfiada.
— Bem doce, bem forte e com duas bombas de creme. — ele acrescentou, muito orgulhoso. — Como você gosta.
— O que você quer, hein? — perguntei sem rodeios.
— Eu estar sendo gentil é tão surpreendente? — Gale teve a cara de pau de se fazer de ofendido.
— Não tanto, mas geralmente você só me traz café quando quer algo. — retruquei, deixando o roteiro de lado. — Me diz.
— Primeiro, gostaria de me desculpar por ter interrompido sua pegação com o . — ele mordeu o lábio, parecendo muito culpado. — Eu não contava com aquilo.
— Acho que você nos salvou. — admiti, dando um gole no café quentinho. — Nós estávamos bêbados e provavelmente acabaríamos no banheiro da Cheryl em minutos.
— Você quase transou com aquele homem, ! E ele quase transou com você, a própria Afrodite dos mortais. — Gale me olhou como se eu estivesse louca. — E tá me dizendo que eu salvei vocês? Eu não estou te entendendo.
— Nós somos amigos, Gale!
— E daí?! Sexo entre amigos só fortalece as amizades. — ele abriu um sorriso malicioso.
— Ou estraga. — acrescentei.
— Não se os dois forem adultos que sabem lidar com sexo casual. Sexo é sexo, .
Joguei a cabeça para trás, encostando nas costas da cadeira. Eu sabia lidar com sexo casual, era meu tipo favorito de sexo. Apesar de levar um tempo para que eu me sentisse confortável com alguém antes de transar a primeira vez, eu curtia sexo casual depois disso. Era fácil e sem complicação para quem tinha pouco tempo como eu. Não sei por que estava fazendo tanto drama com a possibilidade de quase ter feito sexo com o , especialmente já que não tinha rolado.
— Bom, não rolou nada, então não importa se sexo entre amigos fortalece a amizade. — girei o rosto para encará-lo, tentando parecer indiferente.
— Você tá me dizendo que a tensão que eu venho sentindo aqui é nada? — Gale riu, me empurrando para o lado para sentar perto de mim. — Meu amor, você por acaso notou os olhares que ele tem te dado a manhã toda?
Mordi a tampa do copo de café enquanto minha mente fazia um giro sobre nossa manhã. Nossos olhares tinham se encontrado bastante quando estávamos fora das câmeras e eu tinha sim sentido uma tensão quando precisamos ficar de frente um para o outro enquanto ajustavam a luz do cenário, mas parecia coisa da minha cabeça porque eu ainda estava tensa pensando no beijo.
— Não foi nada. — retruquei. — Você tá vendo coisa onde não tem.
— Para de negar! — Gale me repreendeu, dando uma tapa na minha mão. — Vocês eram amigos, se beijaram e isso acendeu uma chama entre os dois. O que custa admitir?
— Custa que não vai acontecer de novo! — grunhi, chutando o tornozelo dele. — Nós combinamos que iríamos esquecer.
— Ai! — ele reclamou, me chutando de volta.
— Ai! Para com isso, Gale! — o repreendi, puxando minhas pernas para cima.
— Você que tem que parar com isso! — ele disse, decidido. — Você quer isso, eu sinto que ele também quer. Joga a indireta e vê o que acontece. Eu estou sentindo a tensão entre você e o , bonitinha.
— O que tem eu?
Meu coração gelou quando olhei para o lado e avistei vindo em nossa direção com toda a imponência que ele exalava com as botas de couro, o suéter de gola alta e o sobretudo preto do figurino de Theodore.
— Nada. — cortei rapidamente. — Terminaram a externa?
— Sim, temos dez minutos antes de filmarmos a próxima cena. — explicou, vindo sentar perto de nós dois. — A da biblioteca.
— Eu tava dando uma lida nela antes do Gale me atrapalhar. — comentei, lançando um olhar recriminador para Gale.
— Eu vim trazer café. — Gale fez uma careta, levantando do sofá. — E você é mal agradecida! Agora se me dão licença, vou voltar para os meus deveres.
Observamos em silêncio Gale nos dar as costas e sair a passos firmes por uma das portas do corredor.
— OK, então... — ri, me voltando para . — Quer subir?
— Vamos lá! — ele estendeu a mão para mim.
Segurei a mão dele e me puxou em um solavanco leve, mas que foi suficiente para que eu chegasse bem perto dele. Meu corpo inteiro formigou com a proximidade e eu engoli em seco, recuando imediatamente.
— Com quem você deixou o Kal? — perguntei, pegando o roteiro que eu tinha deixado no sofá. — A quis me matar quando chegou em casa e viu que eu tinha deixado a Miranda lá.
— Você deixou a sua gata no apartamento dela sem que a soubesse? — ele riu, balançando a cabeça em negação. — Colton se ofereceu para ficar com o Kal, ele adora ir correr no parque com meu cachorro para atrair olhares.
— Se ela soubesse, não ia ficar, então como tenho a chave, deixei lá antes de encontrar vocês. — dei de ombros, nada culpada. odiava Miranda e Miranda a odiava também, mas as duas precisavam trabalhar isso. — Quanto ao Colton, ele está usando seu cachorro como armadilha de mulheres e você permite?
— Eu vejo isso como um modo de retribuir o favor. — se explicou, encolhendo os ombros. — Colton gosta de atenção e o Kal gosta mais do Colton do que de um hotel canino.
— É por isso que você adora sair para correr com o Kal também? — provoquei, empurrando-o de leve pelo ombro. — Para atrair olhares?
— Como se eu precisasse do Kal para isso. — ele brincou, abrindo um sorriso malicioso. Eu ri, jogando a cabeça para trás.
— Que convencido! — balancei a cabeça em reprovação.
Ele não estava mentindo, óbvio. era bom de se olhar e eu admitia isso mesmo quando não estava obcecada pelo beijo dele.
— Realista. — corrigiu, me empurrando pelo ombro também, o que me fez quase tropeçar para o lado.
— Ei! — fiz uma careta, segurando no antebraço dele para me equilibrar. — Você não pode brincar disso, .
— É injusto que você possa me empurrar e eu não. — retrucou, parecendo uma criança birrenta.
— Você tem o triplo da minha força! — justifiquei, soltando seu braço. — Quase me jogou na parede.
— Você está exagerando.
— Não estou. — retruquei, também como uma criança birrenta.
— Está! — afirmou, me olhando pelo canto do olho. — Porque te jogar na parede seria assim.
Segurando meu pulso, girou meu corpo e recuou comigo em um movimento ágil e forte até que minhas costas batessem contra a parede de mármore no corredor. O ar sumiu dos meus pulmões, mas não pelo impacto e sim pelo corpo dele ter ficado tão perto do meu nessa posição. Ele colocou um braço ao lado da minha cabeça e lentamente fechou a outra mão ao redor do meu pescoço, segurando levemente. Meu pulso acelerou e eu senti um calor se espalhando pelo meu corpo inteiro com o mísero toque. Os dedos dele escorregaram um pouco mais, pressionando o ponto de pulsação no meu pescoço.
Me senti quase tonta com a proximidade e quando seu olhar desfocado encontrou o meu, eu soube que ele estava sentindo o mesmo. Entreabri os lábios, precisando de mais ar e o olhar de caiu para a minha boca quando ele deu mais um passo para perto de mim. Minha pele formigou em antecipação, meu coração acelerou só com a ideia de beijá-lo novamente e ergui a cabeça na direção dele, esperando por mais.
. — ele sussurrou, a voz rouca e profunda. — Eu...
Mas o que ele ia dizer foi interrompido com um barulho estrondoso vindo do fim do corredor. Nós dois disparamos o olhar para a entrada, vendo que tinham deixado o carrinho de café escorregar pela rampa até se chocar com a parede.
— Droga! — a voz ecoou no outro corredor, provavelmente do Johnny.
Imediatamente voltei a encarar , que me olhou de volta.
— É assim que se joga alguém na parede. — murmurou, lentamente soltando meu pescoço. — Como o Theodore vai fazer com a Claire na próxima cena.
Eu quis grunhir de frustração pela interrupção do que eu tinha certeza que seria o nosso segundo beijo. Mesmo assim, soltei uma risada sem graça e bati com meu roteiro nele.
— Idiota. — resmunguei, saindo na frente. — Vamos logo.
Reprimi um suspiro, tentando me recompor e dar um jeito na bagunça que os últimos 30 segundos tinham feito comigo. Eu precisava muito superar aquele beijo ou beijar outra vez, porque uma coisa era certa: minha sanidade estaria seriamente comprometida se alguma dessas coisas não acontecesse rápido.

***

— Por que você tá aqui sozinha enquanto todo mundo foi dormir?
Olhei para o lado, lançando um sorriso breve para antes de voltar a admirar a vista de onde eu estava sentada no parapeito da varanda. Ainda tínhamos gravações em Kent amanhã, portanto, estávamos hospedados na cidade por hoje. Eu tinha fugido do jantar mais cedo que os outros e me escondido no terraço do hotel, o melhor lugar para admirar a noite que estava linda hoje.
— É dia de Lua cheia. — comentei, apoiando o queixo nos meus joelhos que estavam puxados contra o peito. — Eu tenho uma tradição com meu pai há muito tempo, nós sempre saímos para olhar a Lua quando ela tá cheia.
— E como surgiu isso? — perguntou, se aproximando de mim.
— Quando a minha irmã morreu, eu tinha muitos pesadelos, então dormir também se tornou um pesadelo. Eu ficava acordada até tarde e só deitava quando estava exausta o suficiente para saber que não iria sonhar. — murmurei, sentindo meu peito apertar um pouquinho, como era normal quando esse era o assunto. — Um dia, meu pai me encontrou chorando e tão desesperada por estar cansada, que o assustei. Foi difícil me acalmar, mas quando finalmente consegui, ele me levou para uma colina perto da nossa casa em uma noite de Lua cheia.
parou na minha frente, encostando o quadril no parapeito, os olhos atentos em mim, esperando que eu continuasse.

— E aí, ele me contou que nas noites de Lua cheia, se eu olhasse direitinho para a Lua, eu poderia ver a Delilah, porque nessas noites os anjos saíam para brincar na Lua e por isso ela ficava tão grande. Nas noites de Lua cheia, a Lua era iluminada pelas asas dos anjos enquanto eles voavam por lá. — foi impossível não sorrir, lembrando do quanto eu fiquei feliz em ouvir essa história. — E eu me apeguei à ideia de que a minha irmã estava feliz e brincando na Lua, como ela sempre quis. A Delilah queria ser astronauta, e aos dez anos eu jurava que ela tinha conseguido algo muito melhor do que ser astronauta. Parece besteira agora, mas mesmo quando eu cresci, ainda tenho apego a essa ideia.
Não doía mais tanto lembrar da minha irmã gêmea, mas existia um vazio que eu nunca consegui e nunca conseguiria preencher. Pisquei os cílios rapidamente, tentando afastar as lágrimas que encheram meus olhos, o que era comum sempre que eu lembrava. Quando olhei para , seu olhar estava cheio de ternura.
— É uma história bonita. — murmurou, virando para olhar a Lua também.
— É, não é? — suspirei, olhando na mesma direção. — Depois disso, comecei a usar essa história para me confortar e voltei a dormir direito aos poucos. Repetimos isso mês após mês, ano após ano e eu continuo até agora.
— Eu posso ir embora se você preferir ficar sozinha. — ofereceu, me olhando de soslaio. — Não queria incomodar.
— Ah, não. — neguei rapidamente. — Eu tô bem, gosto da companhia. Terminaram de jantar agora?
— Sim. O Gale e a Ciara pediram outra garrafa de vinho, já estavam meio alegres quando a Maggie cortou os dois e mandou todo mundo ir dormir. — ele cruzou os braços. — Você sabe como eles ficam quando estão assim.
Ciara e Gale eram da equipe de maquiagem e a melhor dupla quando o assunto era beber demais quando não deviam.
— Eles começaram a falar demais? — fiz uma careta, já imaginando. — Porque essa é a primeira fase.
— Sim, eles começaram. — assentiu, abrindo um sorrisinho de quem sabe de alguma coisa. — Disseram umas coisas bem interessantes, sabia?
— O que eles falaram? — franzi o cenho, desconfiada. — E por que você tá me olhando assim?
— Porque eles me contaram coisas interessantes sobre você. — falou, parecendo muito feliz com o meu receio.
Minha mente imediatamente viajou até a conversa que Gale e eu tivemos à tarde e a necessidade dele para que eu contasse ao sobre meus sentimentos sobre o beijo.
— O que eles falaram, ? — insisti, jogando minhas pernas para fora do parapeito e me levantando. Ele riu, se afastando de mim.
— Bom, a Ciara me confirmou sobre aquela tatuagem que você negou que tinha, depois de ter alegremente me contado sobre ela e desmentido no dia seguinte. — mordiscou a ponta do lábio, caindo o olhar para o meu quadril.
— Eu não acredito que ela me traiu assim! — abri a boca, descrente que Ciara tinha vazado a informação para ele. — Ela prometeu que nunca ia te falar isso.
— Você nunca nos deixou a sós quando ela estava na fase 1 da embriaguez. — ele se vangloriou, parecendo muito orgulhoso.
— Eu não acredito. — semicerrei os olhos, não comprando essa história. — E onde ela disse que essa tatuagem está, hein?
— Você quer que eu mostre em você onde ela disse que está? — sugeriu, com malícia despontando no olhar.
— Tarado! — acusei, batendo na mão dele.
— Ei! — riu mais ainda. — Eu estava brincando, OK? Ela me disse que ninguém nunca viu sua tatuagem de Mestre Yoda porque está muito bem escondida pelas calcinhas de biquini quando você vai à praia.
— É no ossinho do quadril, OK? Não embaixo! Eu não ia desrespeitar o Mestre Yoda tatuando ele na minha virilha — esclareci, o que só aumentou sua risada. — Para de rir de mim, .
— Desculpa, mas... — ele não conseguiu nem terminar a frase de tanto rir. — Meu Deus, você tem um Mestre Yoda!
Eu queria ficar irritada, mas estava me segurando muito para não rir junto e manter a pose de brava.
— Eu tinha dezoito anos, um amor crescente por Star Wars e pais que não queriam me ver tatuada, não tive escolha! — bufei, olhando sem graça alguma para a crise de risos dele. — É bom que você tropece e caia da varanda por estar debochando de mim.
Ele umedeceu os lábios, tentando se recompor e parando de rir aos poucos.
— Eu estou rindo com você, não de você. — retrucou, o que me fez mostrar a língua para ele. — Muito madura, , muito madura.
— Eu não estou rindo!
— Pois devia. — disse, dessa vez só com um sorriso enorme nos lábios. — Mas agora você me deve o prêmio da nossa aposta.
e eu tínhamos apostado que ele não descobriria se a minha tatuagem era real ou não, depois que eu neguei de forma muito convincente que só disse aquilo porque estava bêbada. Não tínhamos estipulado um prêmio, mas agora eu estava com medo do que poderia ser cobrado.
— Devo?! — me fiz de desentendida.
— Sim, você deve. — pontuou, se aproximando de mim novamente. — Mas eu vou pensar com carinho e te cobro quando me for oportuno.
— Você é um grande inconveniente. — cruzei os braços, fazendo birra.
— Mas eu ainda nem disse o que o Gale andou falando. — arqueou as sobrancelhas em pura provocação.
— Ele falou que eu estou noiva do Leonardo DiCaprio? Porque se falou, é verdade. — tentei parecer super séria. — Vamos nos casar em junho.
— Acho que essa informação ele guardou para si mesmo. — ele bateu o indicador nos lábios como se estivesse pensando, o que atraiu meu olhar para a área. Por que ele tinha que chamar minha atenção para aquela boca? — Mas esse noivado pode estar em problemas pela informação que ele me deu.
Um sinal de alerta soou na minha mente na hora em que ele disse isso, me fazendo crer ainda mais que Gale tinha contado para ele sobre como eu me sentia sobre o beijo.
— E por quê? — perguntei, tentando soar o mais casual possível.
— Porque o nosso beijo te deixou, nas palavras dele, “perturbada”. — seu tom de voz ficou mais sério agora, assim como sua postura. — E eu queria te pedir desculpas se o que aconteceu na festa passou dos limites e te deixou perturbada. Nós estávamos bêbados e eu me deixei levar, mas em momento algum queria te deixar desconfortável, .
Olhando para o rosto tão sério, o olhar quase culpado e os ombros encolhidos como se ele tivesse feito algo errado, eu senti muita vontade de rir. Gale sabia que viria falar comigo se sonhasse que o beijo tinha me deixado desconfortável, porque o é assim. E Gale também sabia que eu falaria a verdade em um confronto. Que bastardo esperto!
— Você não precisa se preocupar quanto a isso, . — mordi a língua, desviando o olhar do dele. — Garanto que o beijo não me deixou desconfortável.
— E por que ele diria que te deixou perturbada? — franziu o cenho.
— Não foi a um perturbada ruim que ele se referiu. — cocei a bochecha, me forçando a encará-lo. — A verdade é que eu gostei de te beijar e queria repetir, mas sei que isso é meio errado e que não devemos repetir já que a gente trabalha junto e pode dar um problemão. Eu nem ia mencionar nada, mas a cobra ardilosa do Gale planejou muito bem isso e agora eu estou falando pelos cotovelos porque eu sempre falo pelos cotovelos quando eu sou posta em uma situação que eu não quero estar, mas tudo bem porque nós somos amigos e estamos sendo sinceros, então tudo bem falarmos a verdade. Você não me deixou desconfortável e nós vamos esquecer toda essa história, OK?
parecia estar se esforçando muito para não sorrir, mas seus lábios estavam comprimidos e repuxados, o que denunciava completamente sua vontade.
— É bonitinho que eu te deixei nervosa assim. — ele implicou, como adorava fazer comigo.
— Ah, cala a boca! — resmunguei.
— Tem certeza de que eu não te deixei desconfortável? — questionou.
— Sim, , eu tenho certeza. — suspirei, esperando encerrar logo esse tópico. — Eu te beijei porque quis, pode acreditar. Podemos encerrar esse assunto e esquecer isso?
Ele prendeu o lábio inferior entre os dentes, atraindo — mais uma vez em menos de 10 minutos — o meu olhar para sua boca. Seu olhar se perdeu em um ponto atrás de mim e um silêncio estranho tomou conta do terraço por um momento. Quando seu olhar encontrou o meu de novo, alguma coisa naqueles olhos me enviou uma alerta bem grande de problema.
— Tudo bem, podemos esquecer isso se é o que você quer. — decretou, dando de ombros.
Eu não sei o que esperava que ele dissesse, mas me senti decepcionada por a resposta não ter sido ele me puxando para outro beijo e me encurralando na parede com a mão no meu pescoço como ele tinha feito hoje à tarde. Mas eu pedi para esquecer, não foi? Eu que disse que colegas de trabalho se pegando não dava certo. É, ele estava sendo sensato, assim como eu.
— Ótimo! — sorri largamente, tão falso que doeu minhas bochechas.
— Ótimo. — ele concordou, sorrindo casualmente. — Eu vou indo, preciso dar uma lida no roteiro antes de dormir. Você vem?
— Vou ficar mais um pouquinho. — apontei para trás de mim, indicando que ficaria apreciando a vista mais um pouco. — Boa noite, .
— Boa noite, . — ele se despediu, caminhando até as portas francesas que davam para o terraço.
Dei as costas para ele, voltando para meu lugar no parapeito, aliviada por ter tido essa conversa e frustrada pelo mesmo motivo.
— Ah, ?!
— Eu! — virei imediatamente quando o ouvi falar meu nome.
— Já que estamos sendo sinceros, o beijo também me deixou do tipo bom de perturbado. — parou na porta, sorrindo enviesado para mim. — Eu gostaria de ter te beijado essa tarde antes que você tivesse pedido para esquecer.
E dito isso, ele foi embora, me deixando completamente desnorteada, como tinha se tornado frequente desde sexta à noite. também queria me beijar de novo e eu tinha cometido a burrada de pedir para ele esquecer.

Capítulo 3

Meus pés me moviam em uma velocidade que eu não lembrava de já ter corrido antes, nem mesmo na esteira, e mesmo assim eu não conseguia parar de rir enquanto continuava a correr, sem fôlego e parecendo uma bêbada de tanto pender de um lado para outro. Cruzei uma esquina, me vendo em um beco sem saída, mas a porta aberta do trailer da maquiagem foi como a luz no fim do túnel e eu pulei os três degraus, batendo a porta atrás de mim quando entrei. Cheryl, que estava sentada na cadeira de maquiagem, olhou para trás com os olhos arregalados.
— Que susto! — ela gritou, levando a mão ao peito. — O que diabos você está fazendo?
— Shh, eu não estou aqui! — avisei, olhando ao redor em busca de um esconderijo.
O trailer era pequeno e não tinha muitas opções, mas embaixo da mesa de maquiagem tinha um espaço onde eu conseguiria me enfiar e ser escondida pela cadeira de Cheryl.
— Abre espaço, abre espaço, abre espaço... — pedi, girando a cadeira dela de modo que eu pudesse passar.
— O que diabos está acontecendo, ? — exigiu, não entendendo nada.
— Espera... — resmunguei, abaixando a cabeça para não bater na mesa.
Puxei as pernas contra o peito, me apertei desconfortavelmente no espaço mínimo e minha cabeça ficou em um ângulo terrível, mas era o que dava para fazer. Estendi o braço e puxei a cadeira de Cheryl, girando para que suas pernas ficassem na minha frente e me ocultassem.
— Agora pode me explicar? — ela perguntou, olhando para baixo.
— Vai para a porta e vigia se o está vindo.
Mas assim que eu pedi, alguém bateu na porta e a abriu em seguida. Só vi as botas pesadas de couro que faziam parte do figurino de e a barra do sobretudo preto que também era a marca do seu personagem.
— Por acaso a passou por aqui?
Fiquei feliz ao notar que ele parecia tão ofegante quanto eu pela nossa pequena perseguição.
— Não... Por quê? — Cheryl respondeu, para o meu alívio.
— Ela está com algo que é meu e tive o vislumbre de ver ela correndo para cá.
Mordi o lábio, tentando não fazer barulho nenhum quando entrou no trailer.
— Acho que ela passou direto. — Cheryl continuou. — Estou esperando a Peggy para fazer minha maquiagem.
— Hummm... — soltou, se aproximando perigosamente da mesa de maquiagem. — E por que eu estou sentindo o cheiro dela no ar?
— Temos o mesmo perfume. — ela foi rápida, e eu nunca a amei tanto.
— Não têm, não. — ele riu diabolicamente, batendo a bota com força no chão.
O susto me fez dar um pulo e esse pulo me fez bater a cabeça com tudo na penteadeira. Fechei os olhos com força, reprimindo o gemido de dor embora já fosse tarde demais.
— OK, , você tem dez segundos para sair daí com dignidade. — avisou, delicadamente empurrando a cadeira de Cheryl para o lado e me encurralando com as pernas enormes na frente do espaço onde eu estava.
— Desiste, ! — fui firme, me encolhendo ainda mais. — São meus.
— Você roubou! — grunhiu. — Eu não vou desistir tão facilmente.
— Deus do céu, por que estão brigando? — Cheryl perguntou de novo.
— Eu ganhei ingressos para a final da copa de rugby e roubou! — explicou, mentindo.
— Não roubei. — me defendi. — Thomas ofereceu os ingressos e eu peguei primeiro.
— Ele ofereceu para mim! — insistiu.
— Ele ofereceu para quem estava no lugar, disse: “Os ingressos estão aí, pode ficar”. — relembrei, apertando meu roupão contra o peito.
— E ele estava falando para mim!
— Thomas não citou nomes. — retruquei, não dando o braço a torcer.
— Pelo amor de Deus, vocês parecem crianças! — Cheryl suspirou, indignada. — E quantos ingressos ele deu?
— Dois! — e eu respondemos na mesma hora.
— E por que não vão juntos? — ela perguntou.
Por um momento, nós dois ficamos calados e ponderamos a ideia que eu tinha certeza que também não tinha passado pela mente dele. Eu tinha pensado em levar ou o meu pai, pois era sempre com eles que eu assistia aos jogos.
— Eu não tinha planos concretos para o segundo ingresso, pensei em convidar o Colton, mas me parece sensato irmos juntos. — falou, por fim. — O que você acha?
Fiz uma pausa dramática para não ceder de cara, então suspirei, me rendendo.
— Pode ser. — concordei, satisfeita.
— Será que eu tenho que fazer tudo por aqui? — Cheryl reclamou.
— Agora eu preciso de ajudar para sair daqui antes que as minhas costas travem. — gemi, estendendo a mão para algum deles.
— Você roubou meus ingressos, não espere que eu te ajude. — falou calmamente.
, você é um cavalheiro, tem que me ajudar! — apelei, mexendo os dedos à espera de uma mão amiga. — Você é a melhor pessoa na nossa amizade, não se deixe ser levado pelo que eu fiz.
Ele riu.
— Por favor! — implorei outra vez.
A mão dele segurou a minha e depois de um contorcionismo, consegui rastejar para fora do espaço apertado. me puxou para cima sem muito esforço e eu fiquei cara a cara com ele.
— Meu ingresso. — pediu, fechando a mão ao redor do meu pulso. — Agora.
— Confia tão pouco em mim assim? — me fiz de ofendida.
— Depois de ter sido roubado tão descaradamente, sim. — disse, estendendo a outra mão.
— Tá bom, tá bom... — resmunguei, tirando um dos ingressos de dentro do bolso interno do meu roupão.
— Por nada de te deixar ir comigo. — sorriu, me soltando.
— Eu que estou te deixando ir comigo. — rebati, apontando o dedo para ele.
— Já acabaram com essa implicância de quinta série? — Cheryl questionou, parecendo entediada. — , a mandou mensagem convidando para o karaokê na sua casa, quem mais vai?
Olhei para ela, confusa. Não estava sabendo de karaokê algum, ainda mais na minha casa.
— E eu não fui convidado? — franziu o cenho. — Eu estou magoado.
— Eu mesma não fui convidada! — imediatamente peguei meu celular no bolso para tirar satisfação.
Disquei o número de e não demorou muito para ela atender.
Isso, mais oito burpees, vamos lá, você consegue! gritou para alguém, provavelmente algum cliente. — O que foi? Estou com um aluno.
— Você tá convidando as pessoas para um karaokê na minha casa? — perguntei, olhando para Cheryl e que pareciam estar se divertindo.
Ah, isso. — ela parecia estar sorrindo. — Convidei. Não é muita gente, só a Cheryl, a Jenna e o idiota do Colton se convidou.
— E por que eu não fui informada de que isso seria na minha casa?
Porque você não atendeu o celular quando liguei. — disse, indiferente. — Você ia descobrir eventualmente quando nos visse lá.
— Você é uma grande inconveniente, sabia? — reclamei, olhando feio para Cheryl e .
Ele, por sua vez, tirou o celular da minha mão.
, o meu convite se perdeu ou o quê? — perguntou, pausando um segundo enquanto ouvia a resposta dela. — Ótimo então, estarei lá. Obrigado pelo convite!
Lancei um olhar indignado para ele quando me entregou o celular.
— Ela desligou. — disse, sorrindo para mim. — Também fui convidado.
A porta do trailer abriu novamente e dessa vez Peggy parou na entrada, olhou para cada um de nós e semicerrou os olhos, não parecendo feliz com tanta gente invadindo seu espaço.
— Só quero a Cheryl aqui, estamos atrasadas para a cena dela! — Peggy reclamou, batendo as mãos. — Saíam já, a Maggie está procurando os dois para reclamar sobre a correria que estavam fazendo.
— Sermão da abelha rainha, eu realmente não queria ser vocês... — Cheryl riu, dando tchauzinho. — Vejo vocês mais tarde.
Olhei para .
— É tudo culpa sua. — resmunguei, saindo na frente.
— Você me roubou primeiro. — ele se defendeu, vindo atrás de mim. — Suas cenas já acabaram?
— Não, ainda tenho mais uma com o Ryan. — disse, lembrando que precisava correr para o figurino imediatamente. — E você?
— Já, mas tenho prova de figurino. — colocou as mãos nos bolsos, me olhando de soslaio. — Também tá indo para lá?
— Sim! Apesar de eu amar essas botas, a Claire prefere coturnos ou botas de salto. Preciso trocar antes de voltar para a cena. — fiz um biquinho, levantando a barra do roupão para admirar as botas de pantufa que eu estava usando. — Me sinto uma velha quando me comparo com o que ela gosta de usar.
— São clássicas, não tem problema nenhum nas suas pantufas. — ele tentou me fazer sentir melhor. — Ficam bem em você.
— Obrigada! — abri um sorriso feliz, apertando de leve o braço dele e aproveitando para entrelaçar nossos braços. — Então, você estava brincando ou realmente vai nos dar o ar da sua graça na décima quinta disputa de karaokê da ?
— Por que eu estaria brincando com uma coisa tão séria? — semicerrou os olhos azuis.
— Porque você fugiu das outras quatorze disputas. — relembrei, o que o fez rir.
— Eu não diria que fugi. — me corrigiu.
— Ah, é? — arqueei uma sobrancelha. — E por que convenientemente você tinha uma desculpa para cada convite?
pressionou os lábios um no outro, parando um momento para arrumar a desculpa perfeita.
— Pura coincidência. — afirmou, me fazendo revirar os olhos.
— Sonso. — reclamei, beliscando de leve o braço dele.
— Ei! — ele reclamou de volta, beliscando minha cintura.
— Ai! — gritei, me esquivando em um pulo.
jogou a cabeça para trás, rindo com deleite.
— Meu Deus, eu descobri seu calcanhar de Aquiles! — seu sorriso era triunfante.
— Não, não descobriu! — menti, me afastando mais para longe.
— Então vem cá, chega mais perto. — estreitou os olhos, ameaçador.
— Fica longe de mim. — envolvi os meus braços ao redor do meu corpo, formando um escudo, mas ele se aproximou mesmo assim.
... — havia um alerta na minha voz.
... — e havia uma provocação na dele.
— Aí estão vocês!
Ambos viramos para olhar o fim do corredor de trailers e Maggie, com seu um metro e meio, vinha a passos largos e furiosos na nossa direção.
— Salva pela Maggie. — sussurrou para mim.
— Nunca fiquei tão feliz por um puxão de orelha. — sussurrei de volta, estendendo os braços para Maggie. — Pode me levar, Margareth Stweart, eu me rendo.
Ela bufou, nos olhando com cara de poucos amigos.
— Vamos, quero conversar com os dois agora.
E eu segui feliz, aceitando meu destino.

...

— Eu não acredito que essa gata odeia todo mundo, menos eles. — reclamou, olhando para minha gata, Miranda, que estava confortavelmente aconchegada no colo de Colton, recebendo carinho de há mais de cinco minutos, o que era um recorde.
— Eles são gostosos. — Jenna comentou, jogando um amendoim na boca. — Se eu fosse ela, também ia amar estar no colo de qualquer um deles.
Eu ri, mas não contrariei, porque também iria amar. No de pelo menos. Colton era problema da , embora ela se negasse a admitir, então eu passava longe dele. , por outro lado, tinha estado na minha cabeça cada vez com mais frequência. Era uma coisa enlouquecedora e tinha me feito acordar ontem no meio da noite com o coração acelerado, o corpo coberto de suor e imagens bem vivas de um sonho que envolvia muito mais que um beijo e muito mais nudez.
— Me conta de novo por que você não está fazendo isso agora mesmo? — Cheryl me perguntou.
— Sentando no colo deles? — me fingi de tonta, apontando para o banco onde eu estava. — Jenna, temos espaço suficiente aqui.
— Sonsa! — revirou os olhos. — Ela diz que não quer estragar a amizade.
— Foda-se a amizade! — Jenna bufou. — Tenho certeza que vale a pena perder a amizade para sentar naquele homem.
E com isso minha mente viajou novamente para o sonho de ontem. Peguei o shot de tequila e engoli até a última gota, afastando aquela imagem da minha cabeça e me concentrando no gosto amargo da bebida.
— Imaginou, ? — Cheryl me provocou, sorrindo com malícia.
— Cala a boca. — resmunguei.
— Sobre o que vocês estão cochichando? — Colton perguntou, vindo até nós com Miranda no colo.
— Sobre sexo e amizade. — respondeu.
— Meu tópico favorito. — Colton ergueu o canto da boca em um sorrisinho cafajeste.
— Vocês acham que amigos podem transar e continuar sendo amigos? — Cheryl insistiu, olhando diretamente para .
— Eu acho, inclusive, aprovo. — Colton disse, olhando diretamente para a . — Fortalece os laços.
— É melhor tirar seus olhos de cima de mim, Colton. — rangeu os dentes, olhando feio para ele. — Antes que eu os arranque com uma faca cega.
— Tá como medo da tentação? — ele não perdeu a oportunidade.
— Alguém me diz por que somos amigos dele? — suspirou, olhando sofrida para cada um de nós.
— Porque ele é ótimo. — eu ri, soprando um beijo para Colton. — Apesar dos pesares.
— Tá, tá... Mas voltando ao assunto: sexo e amizade. , você tá quieto. O que você acha? — Jenna desconversou, voltando ao tópico.
Minha atenção foi totalmente voltada para , que também saiu do sofá e veio até o balcão de mármore branco que separava a sala de estar da área gourmet da sacada.
— Não sei. — apoiou os cotovelos na bancada, ficando muito perto de mim. — Acho que depende.
— Por favor, explane. — Jenna fez um floreio com a mão, indicando para ele prosseguir.
— Acho que se existir maturidade, consideração e intimidade entre os dois, pode funcionar. — ele contou, olhando para a minha amiga. — Intimidade porque sexo, para mim, é sobre intimidade. Consideração porque se está rolando sexo casual entre eles, é importante que ambos sejam honestos sobre os sentimentos, sobre estarem saindo com outras pessoas e como estão se sentindo sobre o que está acontecendo. Maturidade porque, bom, é importante que os dois saibam lidar bem com aquilo.
Para mim, cada palavra que saía da boca dele parecia um convite mesmo que não fosse o caso e minha mente traiçoeira me dava imagens bem, bem claras do quão facilmente nos encaixávamos no que ele tinha acabado de falar. Menos na maturidade, pois se eu tivesse isso, não estaria tendo crises como uma adolescente em vez de simplesmente admitir o que eu queria.
— Uau! — Jenna soltou, os olhos vidrados nele. — Você parece ter pensado no assunto.
Mordi a língua, inclinando o rosto na direção de bem a tempo de ver um sorriso quase imperceptível em seus lábios. Notando meu olhar, ele me encarou de volta, o que nos deixou muito próximos e me deixou um pouco desconcertada. Ou talvez isso fosse apenas o efeito do olhar que ele me dirigiu. Tinha algo diferente ali, algo intenso que eu não conseguia decifrar, mas que fez meu estômago revirar mesmo assim.
— Já pensei sobre. — admitiu, ainda olhando para mim. — Apesar de nunca ter sido esse tipo de cara.
— O tipo de cara que transa? — Cheryl riu. — Porque eu acho que você não deve ter problema para isso.
deu uma risada rouca e deliciosa que vibrou em mim pela proximidade.
— Nunca cogitei sexo casual com alguma amiga. — explicou, levando a garrafa de cerveja até os lábios.
— Sério? — ficou surpresa. — Eu faço isso o tempo todo.
— O que você acha sobre o assunto, ? Tá tão quieta. — Colton lançou a bola para mim.
— Eu acho que é uma ideia interessante quando rola atração e é conveniente. — girei o copinho vazio de shot entre os dedos, mantendo meu olhar em Colton. — Como o falou, acho que a intimidade com um amigo deixa o sexo mais gostoso do que com alguém novo.
— Eu concordo. — Colton sorriu, apontando o copo de whisky para mim. — É por isso que ainda acho que eu nos daríamos bem demais.
— Deus do céu! — gargalhei, jogando a cabeça para trás.
o ignorou, agarrando a garrafa de tequila no centro da bancada.
— OK, chega de conversa, vamos para o que interessa! — decretou, enchendo os copinhos de tequila que estavam espalhados. — O início da décima quinta competição de karaokê da . Peguem suas doses e vamos para a batalha.
— Uh, agora a coisa tá ficando boa! — Jenna gritou, correndo para a TV e os microfones posicionados no rack. — Eu começo, como sempre.
A conversa sobre sexo entre amigos acabou ali, mas meus pensamentos impuros estavam cada vez mais agitados após a conversa e especialmente após o que tinha falado. No entanto, empurrei esses pensamentos para longe e foquei na competição. Jenna foi a primeira eliminada da noite por voto popular após todos ficarem com dor de ouvido com sua performance de WAP, da Cardi B. Colton foi eliminado após cantar I want it that way, dos Backstreet Boys e se embolar em uma parte da letra. Nós éramos um grupo exigente e não tolerávamos qualquer erro.
— OK, agora eu quero ouvir o ! — pulei de cima da mesa de centro, meu próprio palco, quando Cheryl liberou o microfone. — Eu sei que você disse que não ia cantar hoje, mas ninguém pode passar pela noite do karaokê ileso, . Todo mundo já cantou!
— Eu não canto! — ele balançou a cabeça, cruzando os braços na frente do peito largo.
— Por favor! — fiz um biquinho, estendendo um microfone para ele. — Só essa vez.
— Não. — voltou a negar, incisivo.
— Eu canto com você. — sugeri, abrindo os braços bem animada.
— E eu escolho a música! — Jenna sugeriu, já bastante alterada pelas doses de tequila que tomou como consolação.
— Ainda é não. — sorriu, parecendo estar se divertindo muito a nossa custa.
— Só uma vez e eu juro que nunca mais te peço! — juntei as mãos na frente do peito, suplicando.
— E eu juro que não mostro para ninguém aquela sua foto. — Cheryl se meteu, soando maldosa e determinada. — Você sabe de qual foto eu estou falando.
semicerrou os olhos, mais atento agora.
— Você não ousaria. — ele murmurou.
— Você quer testar? — Cheryl balançou o celular.
— De qual foto estamos falando? — Colton olhou de um para outro, curioso.
— Eu quero saber. — Jenna mordeu o lábio, empolgada.
— De foto nenhuma! — cortou.
— É aquela foto? — perguntei para Cheryl, arqueando uma sobrancelha.
— A mesma. — confirmou, empolgada.
— Você viu? — me olhou inconformado.
Na verdade, não. Eu nem ao menos sabia qual foto era e procuraria saber assim que tivesse a oportunidade, mas agora eu precisava encorajá-lo a cantar comigo e sabia que isso o motivaria.
— Eu vi. — afirmei, entregando o microfone para ele. — E agora você vai cantar, a menos que queira que todo mundo veja.
fulminou Cheryl com um olhar de raiva e levantou do sofá, aceitando o microfone.
— Tá, mas você vai cantar comigo. — ele disse, pegando o microfone que estava com Cheryl e me entregando
— O prazer é todo meu. — sorri, jogando o cabelo para trás do ombro.
— Eu tenho a música perfeita! — Jenna soltou uma risada tão maléfica que me fez temer pela escolha.
— Nada da Cardi B! — alertei, apontando o indicador na direção dela. — Não tenho voz, nem fôlego para isso.
Jenna resmungou alguma coisa que não deu para entender e se ocupou em mexer no notebook.
— Você vai se arrepender por isso. — me avisou, soando ameaçador.
— Você não pode cantar tão mal assim. — fiz uma careta, achando muito difícil que ele fosse pior que Jenna. — Não pior que a Jenna.
Ele riu.
— Talvez pior que a Jenna. — confidenciou, olhando para a tela onde a letra iria passar. — Mas agora é tarde demais para voltar atrás.
— Toma tequila, vai te encorajar! — Cheryl aconselhou, estendendo a garrafa.
— Eu estou fugindo de tequila. — negou, preferindo beber a própria cerveja. — Aprendi que a tequila me encoraja a fazer coisas que eu normalmente não faria.
— Tipo o quê? — perguntei, despretensiosa, mas prevendo a resposta.
— Tipo beijar minhas colegas de trabalho. — abaixou o suficiente para sussurrar no meu ouvido.
Minha pele formigou e a sensação da sua boca roçando bem de leve no meu ouvido permaneceu até depois que ele se afastou.
— Ugh, esse é o tipo de coisa que a tequila faz. — mordisquei o canto da boca, ignorando os arrepios que subiram pelo meu corpo com a respiração dele no meu pescoço.
— Pois é, por isso é melhor ficar longe. — umedeceu os lábios, atraindo meu olhar para a sua boca. — É perigoso.
Sem filtro algum e por impulso, a resposta coçou na ponta da minha língua e um sorriso matreiro fincou nos meus lábios.
— Ou não. — murmurei, voltando a encarar seus olhos, desviando para sua boca rapidamente de novo. — Tequila combina com sua boca, .
Algo imediatamente mudou em sua postura, assim como em seu olhar. Os olhos azuis se encheram do que parecia compreensão e piscou, como se estivesse assimilando o que eu tinha falado. Uma parte de mim entrou em festa por essa reação e eu tinha que admitir que a sensação de deixá-lo atordoado era boa demais.
— Prontinho, e . Mandem ver! — Jenna soltou um gritinho animado.
Incrédula, ouvi o começo da música e imediatamente reconheci. Virei o olhar para Jenna, mas ela, Cheryl e nos olhavam com um sorriso sádico de satisfação por terem nos colocado para cantar fuck up the friendship. A letra da música ficou vermelha, indicando minha parte de cantar. Porém, como dar o gostinho delas de me deixarem encurralada não estava nos meus planos, fiz o que eu tinha certeza que elas não esperavam.
This weekend I saw you, through eyes that are new, you got me falling for you and I kinda want to... — cantei, girando o corpo na direção de , bem perto dele. — Tell me what you mean, is it all on me?
Dancei acompanhando a música, performando como eu tinha feito em todas as outras que cantei. sorriu, acompanhando com o olhar todos os movimentos e de vez em quando olhando para a televisão para ver quando a letra ficasse roxa, indicando que o refrão os dois cantavam.
Let’s fuck up the friendship, come get in my head, baby, cut the tension, I’m hung by a thread. Maybe it’s something, but let’s not pretend... começou a cantar comigo, me puxando pela mão para mais perto dele. — Or Maybe is nothing and this is the end.
Eu conhecia a música, mas ele precisava acompanhar pela televisão então mesmo que estivéssemos fazendo uma ceninha, seu olhar alternava entre eu e a TV. Não foi necessário mais que isso para que eu fosse afetada pela música e pela proximidade, além de toda tequila que eu também tinha tomado. Não estava bêbada, mas em um estado leve e imprudente que era bem pior que estar alcoolizada. cantava bem, bem melhor do que achei que fosse cantar depois dele ter se declarado pior que a Jenna, mas sua voz era rouca e deliciosa até mesmo quando ele se perdia do ritmo da música.
Subi de novo no meu palco na mesinha de centro e riu, parando na minha frente, no chão. Dessa forma eu ficava um pouquinho mais alta que ele, então coloquei a mão livre em seu ombro, curvando meu corpo sobre o dele, gerando gritos empolgados das nossas amigas idiotas. segurou a minha cintura, erguendo o queixo para nivelar com meu rosto e juntos cantamos a última parte da música. Assim que a letra da música parou de passar na tela, me puxou, deitando meu corpo em seu braço e cobrindo seu tronco por cima do meu em um gesto teatral que fez Jenna gritar em aprovação, seguida por mais gritos encorajadores de Cheryl e .
Eu parei de prestar atenção no que elas falavam assim que fui invadida pelo perfume amadeirado e característico de . Entreabri os lábios, buscando mais ar e tentando não me perder no azul daqueles olhos. Eu sempre tinha adorado a manchinha marrom no seu olho esquerdo, que parecia ainda maior quando vista de perto. Seu rosto estava tão perto do meu, tão tentadoramente perto que se um de nós se inclinasse mais um pouco, nossas bocas se encostariam com a maior facilidade. Eu queria muito fazer isso. Ignorar as meninas e ignorar Colton, focar simplesmente no quão convidativo era estar assim tão perto de . Mas felizmente – ou nem tanto –, ele me colocou novamente no chão.
— Você não foi tão ruim assim, . — clareei a garganta, abrindo um sorriso que eu esperava que não parecesse afetado. — Podia chegar ao quarto lugar.
— Levando em consideração que só quem permanece na disputa é você, a Cheryl e a , não é muita consolação o quarto lugar. — ele fez uma careta, o que me fez rir.
— Tá muito exigente para quem entrou agora na competição. — Colton gritou, ouvindo nossa conversa.
— Eu não disse nada! — se defendeu, voltando sua atenção para o amigo.
— Podemos voltar com a programação normal agora que conseguimos tirar uma casquinha do . — Jenna agarrou o microfone da mão dele, entregando para . — Vamos lá, baby.
A competição se estendeu por mais um tempo, resultando na vitória de — pela oitava vez — após uma performance impecável de íris, do Goo Goo Dolls. Era perto de duas da manhã quando Jenna e Cheryl foram embora, muito mais alcoolizadas do que sóbrias, e ficaram , Colton e para me ajudar a arrumar a bagunça.
— Eu preciso de carona. — avisou, enfiando a última caixa de pizza no saco de lixo. — Vim de Uber.
— A gente te leva. — Colton se prontificou. — veio comigo.
— Já vão? — fiz um biquinho triste.
— Eu tenho aluno às cinco da manhã, baby. — fez uma cara sofrida. — Isso me dá duas horas para dormir, então sim, estamos indo.
— Vamos tomar café juntas amanhã? Minha mãe vai estar na cidade.
— Com certeza! Valerie na cidade é sinônimo de girl’s day! — se empolgou.
Minha mãe era realmente maravilhosa e amava a como se fosse a própria filha. Nós três juntas provocávamos o terror e meu pai evitava vir visitar ao mesmo tempo que a minha mãe, pois sempre era arrastado por nós três.
— Nunca conheci sua mãe, . — Colton fez uma careta. — Quero conhecer.
— Eu fico tímida apresentando rapazes para minha mãe, Colt. — brinquei, lançando um olhar amedrontado para ele.
— Não importa, vamos fazer um jantar na casa do amanhã e vocês vão. — Colton sorriu, dando uma tapinha no ombro do amigo.
— Eu tenho gravação até às sete da noite amanhã, Colton. — arqueou uma sobrancelha. — Por que o convite é para a minha casa?
— Porque a minha está em reforma. — ele deu de ombros. — Não se preocupa, eu arrumo tudo e você só tem que chegar antes das oito e meia.
— Fechado então. — aceitei, sabendo que minha mãe iria adorar conhecer os dois.
— Ótimo! — Colton olhou para . — Você também está convidada, baby.
— Já tenho planos! — ela abriu um sorriso cruel. — Um encontro.
— Como é? — Colton perdeu a postura. — Com quem?
— Não é da sua conta. — virou para mim e abriu os braços. — Te vejo amanhã.
— Até amanhã. — fui até ela e a puxei para um abraço, aproveitando a proximidade para sussurrar em seu ouvido. — Encontro com quem?
— Ainda não sei, mas terei. — ela murmurou, dando um beijo na minha bochecha.
Sufoquei uma risada, me sentindo mal pelo coitado do Colton, que murchou completamente após a notícia.
— Até amanhã, Colt. — soltei um beijo para ele.
— Até mais, . — ele acenou, indo atrás de que já estava correndo até a sala. — Ei, com quem você vai sair?
Os dois saíram em meio a uma discussão, deixando e eu sozinhos ao redor da ilha da cozinha. Ele lambeu o lábio inferior e contornou a bancada, parando na minha frente.
— A pode matar o Colton se os deixarmos sozinhos por muito tempo. — olhou para a saída da cozinha, onde ainda podíamos ouvir os gritos abafados da discussão dos dois.
— É melhor você ir atrás então. — inclinei a cabeça para o lado, deixando meu cabelo cair para um ombro só.
— Tá me expulsando? — arqueou uma sobrancelha.
— Que tipo de anfitriã eu seria se expulsasse meus convidados? — brinquei, raspando os dentes no meu lábio inferior. — Você que falou para não os deixarmos sozinhos.
— Só porque eu não acho que nós devíamos ficar sozinhos. — ele disse, e a confissão fez uma onda de ansiedade vibrar pelo meu corpo.
— E por quê? — pisquei lentamente.
deu um passo para frente, me encurralando entre ele e a ilha da cozinha. Seu peito largo projetado na minha frente quase me fez prender o ar por medo de que respirar fizesse meu corpo encostar no dele e isso me fizesse perder a compostura que me restava.
— Porque, , você fez um comentário inoportuno sobre a minha boca e isso me levou a acreditar que você quer me beijar de novo... — sua mão encostou no meu queixo, o erguendo calmamente na direção do seu rosto. — Tanto quanto eu quero.
Eu não estava preparada para o que eu senti quando seu polegar roçou levemente na minha boca, contornando o lábio inferior com tanta reverência que eu o senti formigar em expectativa. Os seus olhos tinham adquirido um tom mais escuro, quase cinza, com a luz baixa da cozinha. Meu corpo se tornou geleia contra o balcão.
— E eu sei que você me pediu para esquecer, mas eu não acredito que você queira isso. — continuou, passando a roçar o polegar na minha bochecha agora. — Você acredita?
— Não. — minha voz saiu falha e rouca. — Porque eu só penso naquele beijo desde quando aconteceu.
— Um beijo nunca despertou tanto desejo em mim, . — sua mão escorregou para o meu pescoço, passando para a minha nuca. — Então imagine as minhas últimas semanas tendo que fingir que não fui afetado, tentando esquecer como você pediu.
O ar ficou preso nos meus pulmões quando seus dedos enroscaram no meu cabelo.
— E eu vou te beijar novamente agora se você não tiver objeção alguma. — acrescentou, buscando meu olhar como permissão.
Um sorriso inebriado foi minha resposta antes que eu mesma ficasse na ponta dos pés e o puxasse contra mim. Se o primeiro beijo tinha sido difícil de esquecer, esse definitivamente seria impossível. Em um movimento ágil, me puxou contra ele, encaixando cada parte dos nossos corpos como um quebra-cabeça. Seus dedos apertaram as mechas do meu cabelo, minha boca abriu para a dele como se se conhecessem a vida toda.
Diferente do outro, eu estava sóbria o bastante para sentir cada choque que seus lábios provocavam em mim, cada sensação sufocante e eletrizante. Minha boca se movia calma e lenta contra a dele, nenhum de nós com pressa para acabar. Minhas mãos exploravam cada canto do tronco dele, inquietas demais para não aproveitar a oportunidade de desenhar traços invisíveis em cada pedaço do corpo dele.
Mordisquei seu lábio inferior, o tomando em meus lábios, arfando quando as mãos de desceram até minha cintura, apertando ainda mais meu corpo ao dele. Suspirei contra sua boca, sufocando um gemido ao sentir um latejar característico entre as minhas pernas. Distribuindo beijos languidos pelo meu rosto, desceu os lábios até meu pescoço, saboreando minha pele como se estivesse provando o doce favorito. Nesse momento eu senti que podia simplesmente me perder no furacão de coisas que eu estava sentindo.
, vamos! — Colton gritou.
Em resposta, soltou um grunhido que vibrou pelo meu pescoço e me fez rir, apertando os dedos em seus ombros largos. Porém, deixando um último beijo em meu pescoço, afastou o rosto do meu pescoço e eu permaneci com os olhos fechados por mais alguns segundos enquanto me acostumava com a ausência da sua boca ali.
— Eu odeio o Colton. — declarei, voltando a encará-lo.
soltou um riso baixinho, me puxando para um selinho demorado.
— Eu também. — ele murmurou contra minha boca.
! — gritou dessa vez. — Eu vou matar seu amigo se não formos embora nos próximos dez segundos.
— Você sabe que a ameaça é real. — suspirei, odiando a agora.
soltou um xingamento pouco cortês para os dois e se afastou de mim, recuando pelo menos três passos como se precisasse da segurança que a distância impunha entre nós.
— Nos vemos amanhã então, . — ele sorriu, passando a mão nos cabelos desgrenhados.
— Até amanhã, . — sorri, tocando meus lábios com as pontas dos dedos.
Ele me deu as costas, seguindo até a sala. Sua postura estava tensa, os músculos contraídos e eu tentei não reparar demais no volume que eu tinha notado no jeans. Minha cabeça teve um milhão de pensamentos impuros caso e Colton não estivessem aqui para interromper. Mordisquei o lábio, segurando um sorriso.
! — o chamei antes que ele saísse.
Ele virou, os lábios tão inchados e avermelhados quanto os meus.
— Eu não vou te pedir para esquecer dessa vez. — falei, deixando o sorriso tomar conta dos meus lábios.
— Não funcionaria mesmo que você pedisse. — retrucou, sorrindo de volta. — Não dessa vez.
Seu olhar era intenso e brilhante, chamas azuis que me atraíam para ele.
— Boa noite, . — me despedi.
— Boa noite, . — respondeu, virando e seguindo para a sala.

Capítulo 4

O jantar com a minha mãe deu completamente errado, o que deixou Colton chateado por uma semana. Meu pai teve a brilhante ideia de ele mesmo arrumar a calha da casa deles em Manchester, o que resultou em sua queda da escada e a bacia fraturada, deixando minha mãe presa em casa para cuidar dele. Na chamada de vídeo que fez para me contar, minha mãe o xingou de coisas inomináveis enquanto meu pai bufava ao fundo, resmungando e se defendendo. Apesar da situação, eu só consegui rir.
A semana passou tão rápida que foi até bom minha mãe não ter vindo, já que eu mal teria tempo para ela mesmo que seu hobby favorito fosse mexer no meu apartamento enquanto estava sozinha e arrumar tudo que já estava arrumado. Apesar de ter tido alguns dias livres nas gravações, dois desses dias foram dedicados a reuniões com minha equipe de relações públicas. E hoje estava sendo um dos dias mais exaustivos da semana. Após horas de gravação, tínhamos ensaio para as cenas de luta que filmaríamos no domingo.
, você não está lembrando do chute! — reclamou pela milésima vez.
Lancei um olhar em completa agonia para minha amiga, já sentindo a exaustão tomar conta de cada pedacinho de mim. , além de personal, era instrutora de defesa pessoal, faixa-preta em karatê, instrutora de muay thai e krav maga. Ela tinha sido convidada por Colton para ser nossa coreógrafa logo na primeira temporada, que coincidentemente também foi quando a paixão dele por ela começou.
— Desculpa, desculpa... — suspirei, me largando no tatame. — Não já deu por hoje?
— Eu concordo! — Gwen gritou, olhando esperançosa para . — Por favor!
— Não mesmo. — ela negou, rindo de nós duas. — Levantem e comecem de novo, do começo. , você tá quase pegando, só precisa lembrar do chute. Vocês dois, cheguem mais!
Os figurantes que estariam na cena se aproximaram com puro sofrimento estampado no rosto, mas isso provavelmente se devia aos chutes que Gwen e eu erramos e acertamos em áreas bastante sensíveis deles.
— Eu prometo que não vou te chutar errado. — tentei abrir um sorriso confiante para Paul, mas ele não pareceu muito crente.
— Comecem! — gritou.
E fomos nós de novo, um borrão de mãos, chutes, desvios e quedas – especialmente dos figurantes, já que nossas personagens usavam magia para lutar.
— O chute, o chute, o chute... — berrou, nos acompanhando de perto.
Ergui meu joelho bem a tempo e fingi golpeá-lo no peito. Paul caiu para trás nas almofadas e eu terminei com o joelho em cima do peito dele, minhas mãos em sua cabeça quando minha personagem o deixaria inconsciente.
— Consegui! — meus olhos brilharam de felicidade e eu dei um pulinho, esquecendo que meu joelho ainda estava em cima de Paul. Ele soltou um grunhido de dor e eu rolei para o lado, preocupada. — Ai meu Deus, me perdoa.
Ele tossiu e deu um risinho dolorido, alisando o peito largo.
— Eu estou bem. — Paul disse, mas eu não acreditei muito. — Só preciso de um segundo.
Uma risada veio da porta do estúdio e eu a reconheci de imediato. Olhando para lá, vi ao lado de Colton, com um sorriso divertido nos lábios e os braços cruzados bem expostos e ainda maiores em sua regata preta. Essa imagem já tinha me trazido diversos pensamentos pecaminosos antes, mas agora parecia me afetar de uma forma totalmente nova depois de ter me agarrado nesses braços na última sessão de beijos que tivemos no meu camarim enquanto fugíamos de Maggie ontem.
— Eu acho que eu não quero treinar com ela, . — falou, se aproximando do centro da sala onde os colchões e tatames se estendiam de canto a canto.
— É uma pena para você, porque nós planejamos uma coreografia incrível. — piscou para ele.
— Tá com medo, ? — impliquei, jogando a trança bagunçada para trás do ombro.
— Por você, estou. — ele umedeceu os lábios. — O Theodore acaba com a Claire em dois segundos.
— Como é?! — agora eu tinha ficado ultrajada. — Ele precisava dela para conseguir roubar o medalhão de âmbar justamente porque ela tinha o poder para isso.
— Porque só alguém com um coração puro poderia tirar o medalhão, . Isso não quer dizer nada. — explicou, presunçoso. — Theodore matou uma vila inteira só com um estalar de dedos.
— Isso não é algo para se orgulhar. — reclamei, precisando defender minha personagem. — A Claire é muito forte, só tem medo de não conseguir controlar bem os poderes quando mostra.
— E o Theodore quer ajudar com isso. — me lembrou.
— Mas ela não confia nele. — apontei como se fosse óbvio. — Ele a sequestrou!
— Não diria que sequestrou, diria que ele a salvou do bando de lobos e a levou para o palácio dele para treiná-la. — defendeu, apontando o dedo em riste para mim.
— Um palácio no meio do nada onde ela não pode sair até ele deixar!
— Já chega vocês dois! — bufou, empurrando para longe. — Fica na sua até chegar sua hora. Colton, o que você quer aqui?
Colton pareceu desconcertado com a pergunta.
— Eu sou um dos produtores da série, tenho plena permissão para ficar aqui. — retrucou, contrariado.
E como não podia refutar isso, ergueu o queixo e voltou sua atenção para nós. Tive a impressão de ver Colton abrir um pequeno sorriso de satisfação.
— Anda, do começo! — exigiu.
Repassamos essa primeira parte por mais meia-hora antes de se darem por satisfeitos e nos liberarem. Gwen e os figurantes que fariam os guardas foram embora felizes, satisfeitos por terminar logo, mas e eu estávamos apenas começando. Depois de uma pausa breve, demonstrou a coreografia com a ajuda de Seth, um dos treinadores que também fazia as nossas lutas. Maggie, a diretora, tinha chegado para observar também.
— É uma luta que fala muito mais sobre agilidade do que força. — Seth falou, puxando o braço de em câmera lenta, girando para trás das costas dela e a puxando contra o peito dele.
Colton, que estava assistindo, pareceu não gostar da proximidade dos dois, o que me fez sufocar um riso.
— Claire vai usar da força do poder dela para se livrar. — falou, colocando a mão livre no braço de Seth, que recuou como se tivesse sentido dor.
— Mas o Theodore também vai usar os próprios poderes. — Maggie falou dessa vez, apontando para e Seth. — E derrubar Claire com as sombras que ele conjura, imobilizando-a no chão. Mas a Claire é forte e assim como ela faz para nocautear o guarda, o Theodore vai precisar se aproximar dela para deixá-la inconsciente daquela forma. Nós vamos testar como fazer essa última parte até encontrarmos a melhor forma. Entendido?
— Sim! — confirmou.
— Entendido. — confirmei.
E retomamos o ensaio. e Seth continuaram ao nosso lado, repassando os movimentos até pegarmos mais o jeito. Deu menos trabalho do que o outro ensaio, mas tinha quedas e muitos movimentos que dariam completamente errado se não fossem feitos em sincronia com os de . Repetimos algumas vezes, sempre arrumando alguma coisa aqui ou ali, mas conseguimos muito mais rápido do que a anterior.
Caí no chão em cima de um dos colchonetes confortáveis, os braços acima da cabeça, o corpo tenso, como se eu estivesse sendo segurada pelas sombras de Theodore. se aproximou a passos lentos e se ajoelhou, colocando uma perna entre as minhas e o outro joelho quase encostado no meu. Segurei o ar quando ele abaixou o rosto perto do meu e segurou meu rosto entre as mãos. Seus olhos claros tinham um brilho de diversão, provavelmente por notar meu corpo reagindo a essa proximidade. As outras formas que tínhamos tentado para esse momento não tinham tido tanta proximidade.
— Você está gostando disso, não está? — murmurei.
— De estar em cima de você? — perguntou calmamente. — Eu estou. Embora preferisse muito menos público e muito menos roupa.
Algo se agitou no meu estômago com a declaração, mas o grito de Maggie foi bastante bem-vindo, porque minha mente estava viajando para os mais impuros cenários.
— Ótimo, muito bom! — Maggie bateu palmas, empolgada. — Gostei dessa última forma para apagar a Claire, ficou muito mais intenso.
— Então terminamos? — perguntei, tentando soar o mais neutra possível.
— Terminamos! — Seth declarou. — Não acho que precisam repetir de novo por hoje.
— Graças a Deus! — gemi, feliz demais.
riu e levantou, estendendo a mão para mim. Aceitei a ajuda para levantar, mas meu corpo protestou veementemente, cada músculo dolorido e implorando por descanso. As lutas podiam não ser reais, mas depois de horas de ensaio, meu corpo doía como se fossem.
— Será que ainda existe delivery às... — pausei para olhar o relógio no meu pulso. — Meia-noite e meia?
— Depende do que você quer. — falou.
— Muito carboidrato. — suspirei, imaginando uma montanha de macarrão ou pizza.
— Não sei nos restaurantes, mas na minha casa tem. — falou, parando ao meu lado.
— Está me convidando para jantar? — arqueei uma sobrancelha, inclinando a cabeça para encará-lo.
— Estou. — respondeu num tom que parecia muito um desafio.
— Ótimo. — sorri, pegando minha garrafinha de água no chão. — Vou tomar banho e te encontro no estacionamento.
— Obrigada pelo convite. — ironizou, olhando feio para .
— Sinta-se convidada, . — riu, a abraçando pelos ombros. — Não foi minha intenção ser mal-educado.
— Não, obrigada. Estou com tanta cólica que só quero chegar em casa. — disse, vindo me abraçar. Ainda aproveitou para murmurar: — Espero que tenha trazido um par de calcinha e sutiã combinando.
Eu quase ri e a empurrei comigo para fora da sala. Eu poderia estar nervosa quanto ao que quer que pudesse acontecer essa noite, mas a verdade é que eu não estava nem um pouco. sempre foi uma das pessoas com quem eu mais me senti à vontade e a beleza dele poderia ser intimidadora, mas não para mim. Éramos amigos demais para que eu me sentisse nervosa com o que podia acontecer e acho que essa era a beleza da amizade com benefícios, embora não tivéssemos nos rotulado assim ainda, apesar de ser bem claro que estávamos seguindo esse caminho.
Voltei para o camarim e tomei um banho quente que aliviou pelo menos um terço das minhas dores, mas que aumentou meu cansaço. Como não contava em ir para um jantar a sós com ele, a única roupa disponível era uma calça jeans e um suéter creme, que apesar de ser muito bonito e confortável, não tinha nada de encontro — o que não importava, já que isso não era realmente um encontro. Arrumei minhas coisas rapidamente e corri para o estacionamento. Tinha vindo de carona com hoje já que meu carro estava em manutenção após eu ter emprestado ele para Jenna e ela ter batido ele em uma árvore ao tentar desastrosamente dar a ré.
estava me esperando no carro, escorado na porta do motorista e mexendo distraidamente no celular. Ele parecia ter usado o tempo para tomar banho também e seu perfume amadeirado e completamente inebriante me pegou de jeito ao me aproximar. Talvez agora eu estivesse um pouquinho ansiosa pelo que aconteceria essa noite. estava usando uma camisa de manga longa casual e jeans escuros, mas ainda sim parecia estrelar uma capa de revista.
— Então, o que teremos para o jantar? — perguntei, me anunciando.
ergueu o olhar e deslizou o celular para o bolso da calça.
— O que você quiser. — decretou, contornando o carro comigo e abrindo a porta do passageiro para mim.
— Que cavalheiro. — sorri, esperando ele fechar a porta antes de colocar o cinto de segurança.
voltou para o lado do motorista e rapidamente ligou o carro, saindo com facilidade da vaga já que esse era o único carro nesse lado do estacionamento.
— E se eu quiser panquecas? — arqueei as sobrancelhas.
— Panquecas à noite? — questionou, meio em dúvida.
— Nunca é uma hora errada para panquecas. — expliquei, achando graça em sua expressão.
— Você sabe que é espanhola, não sabe? Não americana.
— Eu sei, mas ainda prefiro o meu tradicional café da manhã americano. Apesar de ter nascido na Espanha, morei por sete anos nos Estados Unidos antes de voltar para a Espanha e depois vir para a Inglaterra. Segundo minha mãe, eu tenho o paladar de uma criança de seis anos. — admiti, o que era bem verdade. — Então condiz perfeitamente com o tempo que eu passei na América.
jogou a cabeça para trás com a risada.
— Bom, se você quiser panquecas, posso fazer panquecas. — ele suspirou, me olhando de soslaio. — Mas vou ficar extremamente ofendido se você não provar uma das minhas especialidades.
— Que seria...?
— Já que você quer carboidrato, fettuccine ao molho Alfredo. — falou, me olhando com expectativa. — Parece bom?
— Parece muito bom. — concordei, me rendendo.
Mantivemos a conversa descontraída durante o percurso até a casa dele e rimos a maior parte do caminho, o que me fez esquecer a leve ansiedade que me acometeu minutos antes. Quando o carro parou na garagem dele, eu só notei que tínhamos chegado porque abriu a porta para sair. Fui atrás dele até a entrada e mesmo que eu já tivesse vindo aqui algumas vezes antes, hoje parecia muito diferente.
Fomos recepcionados por uma coisa gigante e peluda que podia muito bem ser um pequeno urso, mas era só o cachorro mais fofo do mundo. Kal soltou um latido animado e pulou em cima de mim antes que eu pudesse raciocinar. Caímos no hall de entrada, ele em cima de mim, me lambendo e me mantendo presa ao chão por suas patas estarem no meu peito.
— Acho que nunca fui tão bem recepcionada na minha vida. — ri, afagando o pelo macio do cachorro. — Oi, Kal, como vai?
— Eu preferia minha visita inteira, camarada. — riu, tirando Kal de cima de mim, mas com muita dificuldade.
— Eu já te disse, no primeiro vacilo que você der, o Kal é meu. — dei uma piscadinha para , que abriu um sorriso descrente.
— Vai sonhando, . — debochou, fazendo carinho na cabeça do cachorro. — Você não me troca por nem uma mulher bonita, né?
Kal soltou um latido contente, como se confirmasse.
— Tá vendo?! — pareceu satisfeito.
— Eu posso ser muito charmosa quando quero, sabia? — estalei a língua no céu da boca. — Me dá mais alguns dias com ele que o Kal não vai sequer lembrar de que já foi seu. Tenho uma forma muito boa de conquistar cachorros.
— E seus donos também? — perguntou, me olhando por cima do ombro enquanto seguia em direção à cozinha.
— Não sei. — mordisquei o canto da boca, tentando não sorrir demais. — Tenho?!
deixou escapar um riso anasalado, balançando a cabeça lentamente. Não deixei de reparar que ele não respondeu e por algum motivo isso me deixou muito satisfeita.
— Então, como vamos fazer isso? — perguntei, me escorando na ilha da cozinha.
— Não é muito difícil. — disse, indo até a geladeira. — Fica pronto rapidinho.
— Quer ajuda? — me ofereci só por educação.
— Suas habilidades culinárias continuam as mesmas desde a última vez que você tentou cozinhar? — olhou por cima da porta da geladeira, zombeteiro.
Fechei a cara e coloquei as mãos na cintura, indignada. Sim, minha lasanha tinha sido um desastre, mas eu não precisava que lembrassem disso.
— Foi uma vez, ! — reclamei.
— E eu estou só perguntando se você melhorou depois dessa vez. — riu, colocando na bancada tudo que iria precisar.
Não, eu não tinha melhorado. Eu não era uma cozinheira muito boa e a única coisa que eu conseguia fazer sem acompanhar um tutorial muito detalhado no Youtube eram cookies com gotas de chocolate.
— Eu retiro minha oferta. — falei, decidida.
— Eu estou brincando. — fechou a geladeira com o pé, colocando na mesa uma garrafa de vinho. — Você pode colocar o macarrão para esquentar.
Fiquei feliz por ter algo o que fazer só para não me sentir muito inútil. Achei a panela em um armário e o macarrão em outro. Depois de colocar a água para ferver, coloquei uma quantidade considerável que fosse dar para nós dois. No meio tempo, também abri o vinho e servi duas taças, então me escorei perto do fogão para observar mexer o molho.
— Não parece difícil.
— Porque não é. — respondeu, ralando noz moscada por cima da mistura que estava fervendo.
— E ainda sim você não confiou em mim para fazer. — arqueei uma sobrancelha, o que o fez rir.
— Vai te fazer sentir melhor se você vier mexer? — ele se afastou um pouco para o lado, estendendo a espátula para mim.
— Vai sim, obrigada! — ri, tomando a frente do fogão para mexer o molho que, pela consistência, não precisaria de muito tempo para ficar pronto. — Acho bom você ficar por perto só para se certificar de que não vou estragar tudo.
riu com a minha birra, mas pegou a própria taça de vinho e parou atrás de mim, olhando para o molho por cima do meu ombro. Meu corpo formigou quando recuei um pouco e minhas costas bateram contra o peito dele. Sua respiração estava batendo diretamente no meu pescoço, o que dificultava demais a tarefa de manter a atenção no molho.
— Quando eu disse perto, não quis dizer tão perto. — resmunguei, lançando um olhar recriminador em sua direção.
— Estou te desconcentrando?! — apesar do tom quase inocente, não tinha nada inocente naquele olhar.
— Está me distraindo com esse seu olhar inquisidor no molho.
— Me desculpe. — havia um grande tom de ironia em sua voz. — Prefere que eu fique olhando para você?
— Se quiser piorar, sim.
— Te distraio tanto assim, ? — implicou, fazendo questão de roçar a boca no meu cabelo, perto demais do meu ouvido.
Só isso foi capaz de provocar arrepios pelos meus braços.
— Até parece que você não sabe o efeito que tem, . — revirei os olhos, tentando não sorrir.
— Às vezes é divertido fingir que não sei. — retrucou, se aproximando mais um pouco, de forma que seu corpo pressionou o meu contra a bancada. — Isso te incomoda?
Minha pele pareceu esquentar alguns graus com a pequena proximidade e o molho foi esquecido pela minha mente.
— Muito. — respondi, desligando o molho, decidindo que já tinha cozinhado o suficiente.
No momento seguinte, me virou de frente para ele e manteve sua mão em meu quadril, me encurralando contra a bancada.
— Mentirosa. — murmurou, encaixando a outra mão atrás do meu pescoço.
Mas como não podia refutar isso, eu o beijei para encerrar a história. Sua mão fechou ao redor do meu cabelo, puxando com uma leve força, inclinando minha cabeça para trás. Eu tinha me acostumado a beijá-lo nos últimos dias. Não era sempre, mas conseguíamos alguns momentos sozinhos no set que me rendiam beijos de tirar o fôlego e sonhos muito desconcertantes à noite.
A boca dele já era familiar para mim, a forma como sua língua procurava a minha, como suas mãos se encaixavam em todo o meu corpo, explorando com calma e vontade. Eu sabia que iríamos nos encaixar igualmente bem no sexo, o que me rendia uma agitação quase dolorosa no meio das pernas. me ergueu na bancada, ao lado do cooktop. Uma taça caiu, mas nenhum de nós olhou para saber qual havia sido. Entrelacei as pernas em sua cintura, jogando o pescoço para trás, dando espaço para sua boca, que deixou a minha para contemplar a pele quente um pouco mais abaixo.
Ofeguei, cravando as unhas em seus ombros, repuxando o tecido da camisa entre os dedos e pensando no quanto eu queria tirar aquela peça. Sua respiração estava pesada, meus olhos estavam fechados, me deleitando com a suavidade da sua língua e dos seus lábios no meu pescoço. Porém, um ronco alto e longo me fez gelar. também parou e me olhou, um sorriso cruzando os lábios rosados quando a percepção o atingiu. Levei alguns segundos para também assimilar que o ronco tinha vindo da minha barriga. Ele caiu na risada no exato momento que eu também comecei a rir. O momento foi completamente perdido pelo som desesperado da minha barriga implorando por comida depois de quase onze horas sem comer nada.
— Eu acho bom nós alimentarmos a tênia que você tem aí dentro. — falou, ainda rindo. — Meu Deus, esse som foi de alguma coisa viva em você, . Isso não pareceu muito humano.
— É uma boa ideia. — concordei, respirando fundo para tentar parar de rir. — A também acredita que existe alguma coisa viva habitando meu estômago, mas se tiver, estamos coexistindo em harmonia por enquanto.
— Então não podemos deixar isso com raiva. — ele olhou desconfiado para a minha barriga. — Vamos lá.
terminou de preparar o macarrão e eu coloquei os pratos na mesa – depois de limpar a taça quebrada, que por acaso tinha sido a minha. O molho estava uma delícia e o monstro na minha barriga tinha me pedido para repetir duas vezes. iria comer meu rabo no treino de amanhã se soubesse o tanto que eu comi. Quando terminamos de comer e limpar, já era quase duas da manhã, meus olhos estavam pesando tanto que ao me sentar no sofá com , eu só queria dormir.
— Isso vai ser uma amizade colorida? — perguntei, do nada, decidida a encontrar alguma nominação para o que estávamos tendo.
crispou os lábios, parecendo pensar no termo.
— Não sei se eu gosto muito dessa definição. — ele apoiou o antebraço no sofá, ficando de frente para mim. — É tão coisa de jovem ter amizade colorida.
Eu ri, apoiando a cabeça nas costas do sofá, o rosto virado para ele.
— E você ainda reclama quando eu te chamo de velho. — debochei.
— Isso é completamente diferente! — se defendeu, apontando o dedo em riste para mim.
— OK, , como você quiser. — utilizei do bom e velho sarcasmo para implicar.
— Vamos só dizer que temos uma amizade que beneficia ambos e abrange uma área que a amizade convencional não. — ele sugeriu, ponderando.
— Ou seja, amizade com benefícios.
— Posso me acostumar com o termo se você preferir usar isso. — se rendeu, mas não sem uma careta descontente.
— Prefiro. — decretei, satisfeita.
— Então somos amigos com benefícios. — concordou, sibilando a nominação.
Eu só ri.
— E o que está incluso no pacote? — questionei.
— Tudo. — disse, sem pestanejar. — Inclusive sinceridade e diálogo. Se estivermos incomodados com algo, vamos falar.
— É justo. — assenti. — Isso vai ser exclusivo?
— Eu estou tão ocupado com as gravações que não existe sequer a ideia de outra pessoa. — ele admitiu.
— Eu também. — fiz uma careta, afundando mais um pouco o rosto na cadeira do sofá. — Mas vamos conversar com o outro se por acaso não for mais exclusivo, né?
— Eu concordo. — ele anuiu.
— Isso não vai estragar nossa amizade, não é? — fiz a pergunta que mais temia. — Porque isso me parece uma ideia péssima.
Ele suspirou, erguendo a mão até meu rosto. Seu polegar esfregou lentamente meu maxilar, roçando meus lábios.
— Eu acho que podemos transformar uma péssima ideia em uma ótima ideia. — respondeu, ainda traçando o contorno do meu rosto. — Porque você sabe que isso não vai desaparecer de uma hora para outra agora que entramos nessa.
Fiquei momentaneamente alheia ao que ele tinha falado, então minha mente lentamente processou, esquecendo por um tempo o carinho dele no meu rosto.
— E como faremos isso? — questionei.
levou mais do que alguns segundos para responder, mas por fim deu de ombros.
— Ignorando o quanto isso pode ser uma má ideia.
Mesmo com essa resposta horrível, eu só consegui rir. Na verdade, acho que não conseguiria voltar atrás nem se eu quisesse, o que definitivamente não era o caso. Nosso relacionamento era ótimo, a química era inegável e simplesmente fazia sentido. Nenhum de nós tinha tempo para um namoro sério e nem ao menos para conhecer alguém.
— Ótimo. — sorri preguiçosa e estendi a mão para ele. — Vamos selar com um aperto de mão. Ou prefere um pacto de sangue? Só para ficar marcado.
riu, segurou minha mão e me puxou contra ele. O calor do seu corpo emanou para o meu e me senti extremamente confortável ali, contra seu peito.
— Pacto de sangue me parece meio drástico. — negou rapidamente. — Um aperto de mão me parece suficiente por agora.
— E o que quer dizer “por agora”? — fiquei realmente curiosa.
Um sorriso malicioso despontou daqueles lábios muito convidativos.
— Quer dizer que quando você estiver bem acordada e muito menos cansada. Nós vamos selar esse acordo de uma forma muito mais simbólica. — murmurou, roçando os lábios na minha bochecha. — O que você acha?
Meu coração acelerou no mesmo instante com a mera ideia do que ele estava falando.
— Acho perfeito.
Se antes eu achava que isso podia não dar certo, depois disso só conseguia pensar que isso tinha chance de dar muito, muito certo. Só que o problema é que uma partezinha da minha cabeça me dizia que tinha iguais chances de dar extremamente errado.
Como sempre, escolhi ouvir a voz que me dizia o quão certo isso podia ser.

Capítulo 5

Jasmine: “Vamos jogar paintball hoje” (09:00 AM)
Jasmine: “Não é um convite, é uma intimação” (09:00 AM)
Jasmine: “Esteja pronta às duas” (09:01 AM)

As três mensagens de foram as primeiras coisas que vi quando meus olhos de quem acabou de acordar desembaçaram o suficiente para conseguir ler algo. Eu tinha esquecido de botar o celular no silencioso antes de dormir e o bip irritante me acordou em um domingo de folga onde eu só queria dormir até mais tarde. Me recusei a responder agora e afundei o rosto no travesseiro, esperando voltar a dormir.
O silêncio não durou muito e meu celular começou a tocar dessa vez. Choraminguei, me amaldiçoando mais uma vez por não ter colocado no silencioso. Tateei o colchão para achar onde eu tinha largado o aparelho e quando o encontrei, atendi sem olhar para a tela.
— Quem liga para alguém no domingo de madrugada? — atendi assim, pouco me importando sobre quem era.
Eu não era conhecida pelo meu bom humor ao acordar e precisava de no mínimo um café bem forte para que a alma voltasse ao meu corpo e eu me tornasse pelo menos civilizada. No entanto, a pessoa do outro lado da linha soltou uma risada grave e divertida que denunciou completamente quem era. era o responsável por essa ligação.
Bom dia para você também, Hay. — me cumprimentou alegremente. — Presumo que ainda não tomou seu café. E para a sua informação, são nove da manhã, não madrugada.
— Não tomei. — resmunguei, minha voz saindo estranha por meu rosto estar afundado no travesseiro. — E você sabe que aos domingos eu não acordo antes das dez.
O que eu tenho para falar não podia esperar. — o tom de voz dele me deixou levemente curiosa. — Vai te acordar melhor que cafeína.
Fiquei atenta, esperando por algo muito, muito bom.
— O que você tem para mim, ? — perguntei, duvidando que fosse algo bombástico assim. — É domingo, nada acontece no domingo de manhã.
E não aconteceu hoje, aconteceu ontem à noite, mas só descobri hoje. — respondeu, mas ainda não dando informações concretas.
— E o que é tão bom assim? — bocejei, fechando os olhos mais uma vez.
Meu quarto estava inundado em uma escuridão deliciosa devido às cortinas blackout que eu tinha instalado nas janelas grandes só para quando eu podia dormir até tarde.
É bom você ir para o meio da cama ou vai cair. — avisou, me deixando decididamente curiosa e irritada pelo suspense.
— Eu estou no meio da minha cama muito grande, sem riscos de queda.
E o que você está usando para dormir nessa cama muito grande?
O tom de malícia e diversão na sua voz me vez revirar os olhos, mas um sorriso cresceu nos meus lábios mesmo assim.
— Eu vou deixar isso para a sua imaginação tentar adivinhar. — me rendi, abraçando meu travesseiro com mais força.
Isso é cruel, Crawford. — ele suspirou como se estivesse sentindo dor. — Minha imaginação é muito fértil para esse tipo de coisa.
Se ele realmente soubesse como eu estava dormindo, provavelmente iria rir. Para uma mulher de vinte e oito anos, eu ainda adorava pijamas temáticos e fofinhos. O de hoje, por exemplo, era um pijama enorme e folgado do Homem de Ferro com direito a uma touca que cobria meus olhos e formava o capacete. Eu nem sabia como tinha conseguido arranjar isso, mas era uma das melhores coisas que eu tinha.
— Então você podia vir descobrir como eu durmo qualquer dia desses. — o convite foi feito antes que minha mente pudesse processar as palavras que saíram da minha boca, mas não me importei mesmo assim.
Fazia três dias desde que eu fui jantar na casa dele e desde que dormimos no sofá dele após pegar no sono assistindo filme. Tomamos um café da manhã também feito por com direito a beijos e bacon, o que por si só já era bom o bastante, mas que ficou ainda melhor com as panquecas que acompanharam, as quais ele fez só para mim. Para manter seu corpo, ele tomava um café da manhã saudável e com macronutrientes muito bem calculados. Ele tinha compromisso logo cedo, então só conseguimos comer antes que ele tivesse que correr. Eu saí escondida, morrendo de medo de ser flagrada por algum paparazzi à espreita e acabar nas páginas dos milhares de sites de fofocas pelo mundo. Mas depois da promessa que ele fez àquela noite, definitivamente tínhamos cruzado a linha da vergonha.
É um convite que eu vou aceitar. — quase pude ver o sorriso no seu rosto.
Um frio se instalou no pé da minha barriga só de imaginar o que estava implícito nisso.
— Você está me distraindo da questão principal dessa ligação. — reclamei, saindo desse assunto antes que eu antecipasse o convite para agora. — Desembucha.
OK, OK... — ele fez uma pausa dramática. — Pronta?
— Sim! — praticamente grunhi.
Ele riu novamente.
Tão apressada... — cantarolou, parecendo estar se divertindo muito.
! — o adverti, soando autoritária e brava.
Jasmine beijou o Colton ontem. — ele falou. — Ela o beijou.
O tempo parou por um momento enquanto eu assimilava o que ele tinha dito. Palavra por palavra foi sendo repassada na minha mente até que a frase pareceu fazer sentido o suficiente para que meu cérebro sonolento processasse a dimensão dessa informação. Eu pulei na cama, jogando os pés para o chão com força. Miranda, que eu esqueci que estava enroscada no lençol aos meus pés, se assustou e disparou para o chão, soltando um miado inconformado de irritação. Eu não podia enxergá-la no escuro, mas pelo sibilo viperino que ela soltou, eu não podia esperar por carinho hoje.
beijou o Colton? — repeti, precisando da confirmação que eu tinha escutado certo. — Ela beijou o Colton? ELA beijou?
Enfiei meus pés nas pantufas de vaquinha na beira da cama e corri até a porta, esperando não tropeçar em Miranda no caminho ou então minha gata iria me assassinar às nove da manhã de um domingo. A luz do meu apartamento quase me cegou, mas eu estava sendo movida por a notícia mais absurda que eu já tinha ouvido na vida.
Ela o beijou. confirmou, rindo. — Fui correr com o Colton hoje de manhã e ele estava sorrindo tanto que eu achei estranho. Levei um tempo até fazer ele confessar que ontem à noite eles se encontraram no pub sem querer e como Colton adora implicar com ela, não resistiu à chance de ir fazer exatamente isso. Acabou que Jasmine resolveu o calar com um beijo.
Cheguei até a minha máquina de café, enfiei uma cápsula do meu café mais forte nela, coloquei uma xícara embaixo e apertei os botões necessários para ela começar a trabalhar. Me encostei no balcão ainda perplexa.
— É por isso que ela me intimou a ir jogar paintball hoje. — juntei as peças, me segurando para não rir. — Meu Deus, eu estou em choque! Não achei que ela faria isso nem com toda bebida do mundo.
Ela te intimou a ir jogar paintball só por isso? riu, tão descrente quanto eu. — Ela deve estar se roendo com a culpa.
— Eu tenho certeza de que está. — mordi o lábio, incrédula demais. — Você sabe como isso é inacreditável? é uma bêbada sensata, eu tenho certeza de que ela nunca beijaria o Colton só para ele se calar. Seria muito mais fácil ela dar as costas e o ignorar como sempre.
Eu adorava uma história de inimigos para amor, mas nunca acreditei que esse fosse o caso de e Colton. Ele estava apaixonado, isso era fato, mas nunca demonstrou o mínimo interesse. Minha melhor amiga tinha se fechado para o amor após ter seu coração partido pelo término com sua ex-namorada, quando Edwina foi trabalhar como bióloga marinha em algum lugar que eu não lembrava no momento. O comportamento de era bastante atípico e eu estava muito disposta a descobrir o que estava acontecendo.
— Chama o Colton para o paintball hoje. — falei, formando um plano na minha cabeça. — Eu preciso testar como ela reage a ele hoje.
Isso é muito, muito bom. — ele riu mais ainda. — Vou convidar ele, me passa para onde vocês vão.
— Eu te aviso quando souber. — garanti, olhando com expectativa para a minha xícara que estava enchendo.
Melhor do que café para acordar, hein?
— Definitivamente. — dessa vez eu precisei concordar. — Obrigada por ser fofoqueiro, .
Eu não sou fofoqueiro. — se defendeu, mas eu revirei os olhos.
— Me parece que é. — retruquei, agarrando a xícara com a mão livre e indo direto para o meu sofá. — Você me acordou para falar isso.
Achei que você fosse gostar da informação.
— E eu amei! Mas ainda se chama fofoca.
Ele resmungou algo que eu não consegui decifrar.
Até mais tarde, Hayley Crawford. — bufou.
— Até mais tarde, fofoqueiro.
E desliguei antes que ele rebatesse novamente.

🎬


havia escolhido o pior campo de paintball possível e eu já temia pelos roxos que apareceriam por meu corpo amanhã. Esse não tinha regras, apenas dois grupos divididos, com armas nas mãos e sede por sangue. Não se morria ao ser atingido, se sua munição acabasse antes de alguma equipe capturar a bandeira do outro time era bom se esconder e rezar para não ser encontrado. A última vez que viemos aqui foi um massacre e eu saí tão dolorida que mal consegui voltar para casa, embora eu mesma tivesse descarregado minha arma com prazer também.
— Me diz de novo, por que você escolheu esse? — questionei, puxando o zíper da roupa de proteção.
— Porque o estande de tiro não tinha vaga para hoje. — explicou, soltando um suspiro triste. — E os outros são pacíficos demais.
— E por que você está com uma necessidade tão grande de atirar hoje? — tentei não parecer ansiosa demais.
Eu não tinha tocado no assunto do beijo, esperando que ela me contasse, só que ela não contou, como eu previa. Mas mandei o endereço para assim que avisou onde estaríamos indo e estava esperando paciente para ver como ela reagiria. Não tinha sinal algum de Colton ou , mas eu sabia que eles viriam porque avisou quando saíram.
— Não sei. — mentiu descaradamente. — Eu planejava te chamar para almoçar no restaurante do Cage já que ele nos intimou, mas deu vontade de fazer isso. Acho que podemos ir jantar lá.
Cage, um amigo dela e chef de um dos melhores restaurantes de Londres, era simplesmente um anjo da cozinha e só de pensar que estava perdendo um almoço no Píer 78, eu lamentei muito que tivesse resolvido beijar o Colton ontem.
— Claro, se eu conseguir chegar em casa sem morrer, a gente vai. — coloquei a minha arma no ombro, uma soldada pronta para a guerra. — Vamos?
— Vamos lá. — ela abriu um sorriso tão brilhante que seus olhos se iluminaram.
— Sádica. — acusei, recebendo um empurrão em resposta.
Quando nos reunimos com o resto das pessoas igualmente sádicas que resolveram participar desse jogo sem lei, meu olhar foi rapidamente atraído pela figura grande e musculosa que vinha com um sorriso malicioso nos lábios, segurando uma arma igual à minha. Ao seu lado, Colton vinha com o capacete pendurado na mão e um sorriso animado.
— Ah, não. — resmungou, vendo a mesma coisa que eu.
— O que eles estão fazendo aqui? — como a atriz ganhadora do Emmy que eu era, fiz minha melhor cara de surpresa.
Ela não respondeu, mas suas narinas inflaram e seu olhar ficou gélido quando Colton e vieram em nossa direção. Os dois estavam com colete azul por cima da roupa, indicando que estavam na equipe rival. Isso não seria nada bom para Colton.
— Coincidência ou destino? — perguntou, olhando de para mim.
Eu e você, era o que eu queria responder.
Karma. — foi o que respondeu.
— Por que tanto mau humor, baby? — Colton perguntou, arqueando uma sobrancelha.
— Vai melhorar logo, logo. — ela abriu um sorriso que faria uma pessoa ajuizada correr.
Colton, que já era acostumado com esses sorrisos, apenas sorriu ainda mais em resposta.
— Aposto que vou desempenhar um papel importante nisso. — ele se gabou.
Enquanto nossos amigos brigavam, parou ao meu lado, esbarrando o ombro no meu. Ele me olhou dos pés a cabeça, registrando tudo que seus olhos permitiam. Mordisquei o interior da bochecha, sabendo que ele tinha gostado do que estava vendo.
— Você tá sexy com essa roupa. — ele abaixou o rosto até o meu para falar isso, o que fez sua respiração bater direto no ponto atrás do meu ouvido, me fazendo arrepiar. — Só para deixar registrado.
e eu éramos tão obcecadas por paintball que mandamos fazer um uniforme só para isso alguns anos atrás. Era uma versão mais confortável do traje da Viúva Negra com direito a um colete acolchoado, luvas e botas de combate. Era sexy e eu me sentia muito poderosa. O tecido já estava todo colorido e manchado depois de anos de partidas de paintball, mas o uniforme continuava lindo.
— Não espere que eu vá pegar leve com você só por conta do elogio. — respondi, virando o rosto para ele.
estava tão próximo que seu peito pressionou minhas costas quando ele riu.
— Eu estou torcendo para que você não pegue leve. — disse, malícia despontando do seu olhar. — Mas também não espere que eu vá.
— Eu não gosto que peguem leve comigo, . — um sorriso matreiro se formou nos meus lábios.
— Isso é algo que eu deveria me lembrar? — dessa vez ele fez questão de roçar os lábios no meu ouvido.
Mordi a língua, me esforçando para lembrar que estávamos em um campo rodeado de pessoas e que eu não devia provocá-lo aqui. No entanto, enquanto o instrutor falava mais à frente como ia funcionar a partida, eu aproveitei o momento de distração. Recuei com força contra , pressionando minha bunda contra seu corpo. Sua mão disparou até meu quadril para nos estabilizar quando ele cambaleou para trás pelo impacto súbito. Olhei por cima do ombro, encontrando seus olhos semicerrados e com um brilho de diversão. inspirou profundamente quando me ajeitei um pouco mais contra ele e seu aperto no meu quadril ficou mais firme.
... — meu nome saiu como uma advertência.
— Deveria. — respondi.
deslizou a mão do meu quadril até minha coxa e, em resposta, meu corpo tensionou imediatamente. Seu peito vibrou contra minhas costas, denunciando seu riso. Seus dedos escorregaram um pouco mais até o interior da minha coxa e apertaram de leve antes de dar um beliscão que enviou uma corrente de energia direto para as terminações nervosas mais próximas. O ar ficou preso nos meus pulmões por um instante e não me atrevi a olhar para o sorriso convencido do homem que tinha me provocado isso. No entanto, meu rosto esquentou tanto que meu pescoço pinicou com o calor que de repente tomou conta dele.
— Anotado. — murmurou, enrolando o dedo em uma mecha do meu cabelo que tinha se soltado da trança que eu tinha feito.
— Vocês dois! — gritou.
Eu nunca fiquei tão feliz por ouvir o grito autoritário da minha melhor amiga. Me afastei rapidamente de e corri até , que me olhou com curiosidade.
— Você está vermelha. — pontuou, muito desconfiada. — O que foi?
— Nada. — cortei, abaixando meu capacete só para ter uma barreira entre meu rosto corado e o olhar muito atento de . — Vamos?
Ela não se convenceu, mas nossa equipe se reuniu para traçar uma estratégia e o foco dela se voltou para a competição sanguinária que teria pela frente. O plano era basicamente defender a bandeira que estava posicionada em um dos pontos do terreno. Eu e ficamos no ataque e ela gostou muito disso, preparada para atacar quantas pessoas fosse necessário. Quando todos se posicionaram, o instrutor fez soar o aviso que liberava a batalha.
Foi um completo caos.
Havia trincheiras, obstáculos e pequenas cabanas onde se esconder, mas eu estava alimentada pelo momento que e eu tivemos há pouco e só queria descarregar minha arma na cara convencida dele. Atiramos muito, levamos muitos tiros em resposta. Os integrantes se espalharam pelo terreno para lutar até o fim. Os sons de tiros, gritos e xingamentos podiam ser ouvidos em todos os metros quadrados da arena. Uma bola de tinta esmagou o pulso que eu segurava a arma e a dor estava me fazendo carregá-la praticamente arrastada e ainda mais atenta a tudo ao meu redor. e eu escorregamos para dentro de uma trincheira quando a parte onde estávamos ficou vazia demais e passos pesados soaram na nossa direção.
— Eu vi você, Green. — Colton cantarolou. — Tá com medo? Eu me pergunto se esse medo seria porque eu sou muito bom em paintball ou pelo que eu te fiz sentir ontem à noite.
Imediatamente olhei para , mas por seu rosto estar coberto pelo capacete, não pude ver a expressão mortífera que devia estar em sua cara agora. O corpo dela ficou duro feito pedra e com um movimento controlado e lento, estava pronta para lutar por sua honra.
— Beijo?! — perguntei cuidadosamente.
— Não finja que não sabe, . — ela bufou, apontando a arma para mim. — Enquanto você e o estavam nas preliminares agora há pouco, Colton abriu a boca sobre quem os convidou para vir jogar.
Colton maldito!
— Espero que você tenha carona para voltar para casa. — ela mirou na minha direção. — Sua traidora.
Tentei desviar, mas foi tarde demais. Só consegui virar antes de receber dois tiros que foram direto para as minhas costas. Minha tentativa de fuga me fez cair de cara no chão ao derrapar na areia e por um momento eu deixei a dor tomar conta do meu corpo, me deixando estatelada na terra seca. Se esse fosse um jogo normal, eu estaria morta e poderia me arrastar com um resto de dignidade para fora do campo, mas não era e ou eu continuava a lutar, ou comia poeira. Não ia deixar isso assim.
— Você me atingiu pelas costas, Green! — gritei, me forçando a levantar. — Quem faz isso?
— O Judas da nossa relação é você! — ela rebateu friamente, voltando sua atenção para Colton. — Você me paga, Colton Williams.
saiu atirando contra Colton, que não foi rápido o bastante para chegar a uma barricada sem levar pelo menos cinco tiros. A disputa era entre os dois agora e eu me arrastei para longe da área de fogo, correndo para tentar pegar a bandeira da outra equipe e ignorando a dor da traição da minha melhor amiga. Literalmente dor. Se não bastasse meu pulso sendo um peso morto, os tiros tinham me feito cair torta o suficiente para danificar minha coluna também.
Fui consumida pelo ódio enquanto corria, me escondia e atirava, nem um pouco preocupada em ser gentil agora. Deslizei para trás de uma árvore para desviar de outro tiro, mas a bala atingiu o meu ombro mesmo assim. Mordi o lábio para não xingar e apontei minha arma às cegas para disparar na pessoa mais próxima que encontrei.
— Me dá cobertura! — uma loira da minha equipe pediu, disparando para a bandeira que estava perto demais.
A maioria das pessoas da equipe azul tinha ficado sem munição ou estava em combate mais à frente. Nossa equipe tinha sido muito inteligente ao enviar pessoas para a morte só para acabar com a munição dos guardas da bandeira, o que nos deu uma vantagem enorme agora. Saltei, pronta para sair daqui vitoriosa. Uma arma apontou para mim, mas eu me escondi e dei um tiro certeiro na coxa do homem, assustadoramente perto da virilha. Ele grunhiu, se escondendo em outra árvore.
— Esse foi um golpe baixo, .
Reconheci a voz de e voltei a sorrir, me sentindo determinada agora.
— Mas foi você que falou que não queria que eu pegasse leve. — relembrei, espiando cuidadosamente por trás da árvore.
Ele estava agachado mais à frente, a arma apontada para cá. Voltei a colar as costas no tronco, não deixando nada meu para ser atingido.
— Não estava contando que você tentaria atirar no meu pênis. — ele bufou.
Mordi o lábio para não rir. Procurei a loira da minha equipe com o olhar e foi bem na hora que um cara da equipe azul saiu sorrateiramente atrás dela. Me antecipei, ignorando a dor no pulso e disparando contra as costas dele para salvar a esperança da minha equipe. Ele gritou, rolando no chão para se esconder, mas eu corri atrás, pulando ferozmente um barril que servia de barricada, pronta para morrer antes de deixar me vencer. Porém foi também quando dei oportunidade para ser atingida. Um graveto estalou sob suas botas quando ele pulou para levantar.
Apertei o gatilho da arma na mesma hora, atirando às cegas, me sentindo a própria Jane em Sr. e Sra. Smith, mas nada saiu. O barulho que eu ouvi não foi da minha arma.
Pow.
Sua bola de tinta acertou meu pescoço onde a gola do macacão não cobria. Se a tinta seria difícil de tirar, o roxo ali seria impossível de ser escondido por maquiagem. A dor me deixou momentaneamente cega, mas mesmo assim continuei a pular. Outro gatilho estalou e a dor me atingiu nas costas dessa vez. Choraminguei, pronta para me jogar no chão atrás da trincheira mais próxima, só que um braço impossivelmente forte me puxou pela cintura antes que eu pudesse fazer isso.
Eu estava furiosa quando meus olhos focaram em . Ele praticamente me jogou contra a árvore mais próxima, pressionou minhas costas contra ela mantendo um braço sobre meu peito para me prender. Fechei os olhos com a dor que irradiou pelo meu corpo, contendo a vontade de atingir meu joelho onde o tiro quase atingiu.
— Isso está fora das regras! — minha voz saiu mortalmente calma, mas trêmula demais para soar confiante.
— Você está sem munição e estava indo direto para a toca dos leões. — explicou, apontando com o queixo para a trincheira. — Tem dois atiradores ali.
Encostei a cabeça no tronco, me sentindo dolorida e derrotada agora.
— Minhas costas estão acabadas, . — pontinhos de dor percorriam minha coluna inteira. — E você me jogando aqui não ajudou.
Ele levantou o próprio capacete, revelando um sorriso torto que praticamente dizia “sinto muito”. Seu rosto estava vermelho pelo esforço e suado por conta do capacete, mas ele parecia ter saído diretamente de um filme de ação, muito bagunçado, mas um bagunçado que ainda era sexy.
— Sinto muito. — o pedido de desculpa foi sincero. — Eu posso te fazer uma massagem quando a gente sair daqui. — não tinha malícia na sua voz, só uma leve preocupação.
Ele já tinha feito massagem em mim antes durante os intervalos de gravação e essa era uma proposta que eu não negaria. Para alguém com mãos tão grandes, era bom demais em usá-las e suas massagens já tinham me feito cair no sono antes.
— Você vai direto para a minha casa. — avisei, o fazendo rir.
Um grito de triunfo soou muito perto de onde estávamos e a luz no fim do túnel veio quando avistei a loira do meu time em cima da colina, balançando a bandeira.
— Ganhamos! Eu ganhei! — tirei meu capacete, o largando no chão, sorrindo tanto que a dor do meu corpo foi esquecida pelo lapso de felicidade da vitória. — Muito bem, loira!
Ela riu, acenando para mim e dando pulinhos animados.
— Mandou bem, .
Voltei minha atenção para , que ainda estava colado contra mim. Não percebi antes, mas seu joelho estava entre os meus, o seu braço continuava me prendendo no lugar com o peso do próprio corpo dele. De repente, me senti muito consciente do corpo dele tão perto do meu e de como seu peso parcialmente me esmagando era confortável.
— Gale vai te matar pelo estrago que você fez no meu pescoço, espero que você esteja preparado para isso. — apontei para a mancha de tinta amarela no meu pescoço.
piscou, olhando para o ponto que latejava bem menos agora. Soltando o braço que ainda me prendia, tocou meu pescoço muito suavemente, testando o local só para ver se eu reclamaria.
— Não pretendia te atingir. — disse, mas captou meu olhar e revirou os olhos. — Não aí, pelo menos. — consertou.
— Sinceridade, gostamos de sinceridade. — brinquei, erguendo o canto da boca em um meio sorriso.
Os dedos dele se afastaram da minha pele e estavam limpos, indicando que a tinta tinha secado. A última vez que levei um tiro de paintball na pele precisei esfregar até praticamente esfolar para conseguir tirar. E, sem que eu estivesse pronta para isso, colocou uma mão ao lado da minha cabeça e abaixou o rosto até meu pescoço, beijando o ponto onde ele tinha atingido. Estremeci, apertando as costas com mais força contra o tronco.
Foda-se que eu estava dolorida, foda-se que minhas costas protestaram ferozmente com a força com a qual me apertei contra a árvore. Fiquei momentaneamente tonta com o beijo muito inesperado. Ele beijou uma vez, depois outra, depois outra, até que a pele pareceu pegar fogo. Lentamente ergueu o rosto, o deixando muito perto do meu. Meus lábios entreabertos atraíram sua atenção, onde ele segurou o olhar por um momento, parecendo considerar se seria apropriado me beijar ou não.
— Prometo fazer uma reparação de danos muito boa quando sairmos daqui. — decidiu, se afastando de mim. — Vamos lá.
Os gritos de comemoração que tinham sido ocultados pela minha mente nos últimos minutos voltaram a ficar barulhentos e convidativos. Apesar da dor, me juntei à minha equipe para comemorar a vitória onde haviam se reunido. Até estava sorrindo orgulhosa no meio da multidão. Meu olhar buscou Colton e quando encontrei uma pessoa com uma mancha amarela no meio da testa, foi quando também o encontrei. Ele estava segurando uma bolsa de gelo contra o ferimento e um homem com uma luzinha avaliava seus olhos, procurando por uma concussão.
— Não fui eu, só para constar. — falou, parando ao meu lado. — Gostaria de ter sido eu, mas não foi. Ele que foi burro o suficiente para tirar o capacete para gritar comigo.
— Você o beijou, . — ignorei sua explicação. — Por que querer matá-lo por algo que você fez?
O olhar da minha amiga focou na mancha amarela na testa do sósia de Michael B. Jordan e por um momento ela pareceu não saber o que responder também. Nada e ninguém deixava sem respostas. Isso já foi resposta o suficiente para mim sobre o porquê de ela tê-lo beijado. gostava de Colton, ela admitindo ou não.
— Por me fazer querer beijá-lo. — respondeu, virando a cara. — Vamos.
🎬


As marcas do paintball não tinham ficado terrivelmente roxas ainda, mas eu podia vê-las se formando. Passei meia-hora inteira afundada na minha banheira quentinha com muitos sais de banhos que me ajudaram — além dos analgésicos — a aliviar a tensão que ainda maltratava meus músculos. Só saí do banho porque a água começou a esfriar, mas eu poderia facilmente morrer ali se não fosse por isso. Então, enrolada em um roupão, eu agora estava esperando força de vontade para vestir um pijama e procurar o que comer.
Os planos de massagem tinham ido por água abaixo quando precisou levar Colton para casa após o jogo. O médico do clube garantiu que ele estava bem e só tinha tido uma concussão leve, mas que precisava descansar por hoje. Minhas costas estavam terrivelmente doloridas pelas quedas de mal jeito e os tiros que levei, então me deitei de bruços na cama enquanto assistia um episódio de Friends que eu já devia ter assistido milhares de vezes antes.
— Não pareça tão satisfeita. — resmunguei, fazendo careta para minha gata.
Miranda estava aninhada na almofada mais alta da cama, parecendo a rainha que ela era. Seus olhos bicolores pareciam muito divertidos e seu rabo balançando calmamente de um lado para o outro era sinal que ela estava feliz. Como se me dissesse “eu acho bem feito por você ter me assustado hoje de manhã”, ela soltou um miado estridente e longo de satisfação.
O barulho da campainha tocando quase me fez chorar. Quem, pelo amor de Deus, estaria vindo aqui? Me forcei a levantar e rumei até a porta, pouco me importando de estar só de roupão e com o cabelo ainda molhado. Abri a porta e congelei na mesma hora, muito surpresa ao encontrar parado ali. Seu cabelo estava úmido, seu perfume amadeirado exalando e um pacote de comida na sua mão. Ele tinha trocado as roupas do paintball e seus braços pareciam deliciosos espremidos nas mangas compridas da camisa.
— Deixei Colton em casa, passei na minha e como sua última mensagem me deixou preocupado de que você pudesse morrer afogada se dormisse na banheira, vim checar. — um sorriso fofo tomou conta do seu rosto. — Trouxe comida só para servir de oferenda caso você estivesse dormindo e eu despertasse a sua fúria por te acordar.
— E eu quase morri mesmo, mas a água me expulsou. — fiz um bico, me afastando para ele entrar. — O que vamos comer? Boa estratégia trazer comida como bandeira branca, aliás.
— Comida chinesa do Chi Fu. — ergueu os pacotes, fazendo o cheiro do yakisoba exalar.
Chi Fu era meu restaurante de comida chinesa favorito no mundo inteiro. Eles não faziam entrega e era tão cheio que eu não fazia ideia de como tinha conseguido isso.
— Eu te pediria em casamento agora mesmo se eu não estivesse tão dolorida para me ajoelhar e propor. — gemi, agarrando uma das embalagens e disparando para a cozinha com ela.
riu, vindo rapidamente atrás de mim.
— E trouxe petit gâteau de sobremesa também. — acrescentou, causando a minha morte.
— Eu vou aparecer com a aliança na terça-feira, pode esperar a proposta. — decidi, tirando duas taças do armário.
— Eu mereço um pedido muito elaborado, espero que você faça um desses. — ele sentou na mesa, colocando as caixas de comida na ilha da cozinha.
— Vai ser. — garanti, o olhando por cima do ombro. — Não vou estragar a surpresa, mas pode esperar por fogos de artificio, uma aeronave escrevendo o pedido no céu e eu pulando de paraquedas bem diante de você.
— Que tipo de pedido é esse? — ele franziu o cenho. — Exagerado demais, eu passo.
— Você não pode rejeitar meu pedido, vai ser na frente de todo mundo! — rebati, equilibrando as duas taças em uma mão, o vinho na outra. — É um grande gesto romântico.
— E é assim que você gostaria de ser pedida em casamento? — ele pareceu realmente curioso.
— Nunca parei para pensar nisso, para ser sincera. — admiti, me sentando ao lado dele na ilha. — Não tive relacionamentos sérios o bastante para pensar sobre casamento.
— Nem com o Elliot? — me empurrou a caixinha com yakisoba junto com um hashi.
Fiz uma careta pela menção ao meu ex-namorado, mas estaria mentindo se dissesse que não pensei em casamento com ele logo quando começamos. Éramos novos, eu era sonhadora e Elliot parecia um sonho nos primeiros meses, então sim, já me fantasiei casando e tendo seus filhos.
— Não pensei no pedido em si, mas sempre imaginei algo lindo em um lugar que fosse especial para nós dois. Poderia ter um pôr do sol, algumas flores também... — ri, tentando pescar a comida com o hashi. Eu era péssima comendo com isso. — Mas isso foi há tempo demais. Agora eu só espero que meu futuro marido me surpreenda.
— Surpreender do tipo aeronave desenhando o pedido no céu, alguém descendo de paraquedas e fogos de artifício? — ele arqueou uma sobrancelha, comendo um pedaço de lombo de porco agridoce.
— Não! Eu preferia morrer do que ter que passar por um pedido de casamento assim. — neguei rapidamente. — Meus grandes gestos favoritos estão nos pequenos detalhes.
— Tipo aparecer na sua casa para se certificar de que você está viva e de quebra ainda trazer a melhor comida chinesa de Londres? — ele sorriu enviesado.
— Você veio me pedir em casamento, não veio? — abri a boca em um “O” chocado, levando a mão ao peito. — O anel está dentro do petit gâteau!
jogou a cabeça para trás com a risada gostosa que soltou, precisando segurar no mármore da bancada para não cair para trás. Por ser tão contagiante, seu riso me fez rir junto. Ele ficava ainda mais bonito quando ria.
— Você bem que queria, . — ele me deu uma piscadinha, puxando minha caixa de yakisoba. — Você bem que queria.
Comemos até as caixas ficarem vazias e até que a segunda garrafa de vinho fosse aberta depois que ele derrubou o resto da primeira em si mesmo sem querer. Crispei os lábios para a mancha que ele não parecia estar ligando, mas que estava me dando nos nervos na camisa branca dele.
— OK, tira essa camisa! — ordenei, estendendo a mão para ele. — Eu vou colocar para lavar. Vai manchar se você deixar assim até chegar em casa.
deu de ombros, puxando o tecido para verificar o estrago.
— Não é nada demais. — voltou a me olhar. — Mas se você quer mesmo me ver sem camisa, eu tiro.
Revirei os olhos para o comentário, mas quando ele realmente tirou a camisa, eu fiquei completamente distraída pelos seus músculos grandes que poderiam facilmente me esmagar contra minha cama. Uma trilha rala de pelos descia pelo cós da calça, me fazendo imaginar se ele era tão grande lá quanto era no resto do corpo. Eu já tinha o visto assim durante as gravações ou até na sala de figurinos, mas, na época, era só meu amigo e estávamos cercados de gente. Eu tinha admirado a visão como qualquer outra pessoa faria, mas aqui era completamente diferente. Estávamos sozinhos, eu ainda estava só de roupão e não éramos apenas só amigos agora.
— Gosta do que vê? — provocou, me trazendo de volta para o presente.
Umedeci os lábios, agarrando a camisa e rumando rapidamente para a lavanderia que ficava perto da cozinha.
— Você não precisa que eu te diga que sim. — gritei em resposta.
Coloquei a camisa na máquina de lavar junto com sabão em pó e o amaciante, liguei e deixei que uma das melhores aquisições da minha vida fizesse seu trabalho. Voltando para a cozinha, me sentei diante da minha taça novamente, observando jogar as caixas vazias no lixo.
— Muito dolorida? — ele perguntou, voltando para perto de mim.
— Parece que um trator passou por cima de mim. Acho que a maior parte das dores são consequência das quedas. — minha expressão sofrida o fez rir.
— Bom, ainda bem que você me tem na sua vida. — parou atrás de mim, colocando as mãos grandes nos meus ombros. — Posso?
— Deve. — concordei imediatamente.
Soltei um suspiro no momento que as mãos dele fizeram pressão nos meus ombros com uma suavidade que parecia irreal demais para alguém com mãos tão grandes. Mas ele amassou devagar, com cuidado, aplicando a pressão certa. Meus olhos se fecharam imediatamente quando seus dedos apertaram um ponto em particular na minha nuca.
— Bom? — perguntou.
Assenti, ocupada demais para responder algo com palavras. Não precisei olhar para saber que ele estava sorrindo. Seus dedos continuaram a fazer coisas fantásticas no meu corpo, especialmente nos ombros doloridos. Eu nem sabia como tinha ficado com os ombros tão doloridos.
?
— Humm?!
— Eu posso abaixar um pouco o seu roupão? Para as costas.
Eu estava usando apenas uma calcinha por baixo do roupão. Não sei como não percebi — e ele não apontou — que eu tinha passado esse tempo todo usando só isso. Era um roupão bem composto que ia até os joelhos e que estava muito bem amarrado, mas ainda era um roupão. Pensar nas mãos dele no meu corpo quase nu foi suficiente para me causar todos os tipos de expectativas.
— Pode. — consenti.
puxou o banco ao lado do meu para poder ficar na minha altura e lentamente afastou meu cabelo para frente, deixando seus dedos roçarem na minha pele. Afrouxei um pouco o laço do roupão, o suficiente para ele poder puxar a parte de trás enquanto usei os braços para segurar a parte da frente. Ele estava tão perto que eu podia sentir sua respiração controlada bater no meu pescoço. abaixou cuidadosamente as mangas do roupão, as pontas dos seus dedos descendo junto pelos meus braços até que a parte de trás estivesse totalmente exposta e amontoada bem na altura do meu cóccix.
Por um minuto, eu esqueci de respirar, enrolando os dedos dos pés por pura ansiedade quando a boca dele se aproximou do meu ouvido. Com a proximidade, seu peito nu tocou as minhas costas e eu estremeci, não resistindo ao impulso de me inclinar para trás. Ele beijou o canto do meu queixo, roçando os lábios na pele do me pescoço quase superficialmente. Ele não estava fazendo nada demais, mas meu corpo parecia estar sendo eletrificado com cada pequena coisa.
— Relaxa. — pediu, segurando os meus ombros. — É só uma massagem, . Estou adorando sentir você assim, mas eu não vou fazer absolutamente nada agora e não até que você queira. Eu não vim aqui para isso.
— Eu estou relaxada demais. — sussurrei, girando meu rosto na direção do dele. — Muito.
— Ótimo. — ele beijou o canto da minha boca.
continuou com o seu trabalho, dessa vez descendo dos ombros para as costas. Ele parecia saber exatamente o que estava fazendo, evitando os lugares sensíveis demais e apertando exatamente onde eu queria. Precisei morder o lábio para evitar um gemido quando ele aplicou pressão em algum lugar entre as minhas omoplatas. O calor das mãos dele diretamente no meu corpo parecia prestes a me consumir de tão incrível. Eu sentia seus calos escorregando por cada centímetro da minha coluna e parecia tão bom que o latejar entre as minhas pernas começou a ficar mais dolorido a cada segundo.
Mas quando ele massageou um ponto especialmente dolorido na base da minha coluna, o gemido que eu estava segurando escapou sem que eu conseguisse filtrar. pareceu desconcertado com isso, pois suas mãos pararam por um momento e eu senti sua respiração acelerar. Era bom que eu não fosse a única sentindo o que eu estava sentindo. Meu corpo inteiro estava formigando e cheio de uma dor bem diferente agora.
— Você é bom demais nisso. — ronronei, deixando minha cabeça cair contra o ombro dele.
— Eu estou vendo. — murmurou, encostando a boca no meu queixo. — Você parece prestes a virar geleia nos meus braços.
— Eu estou. — prendi o lábio inferior entre os dentes por ele ter acertado outro ponto. — Eu poderia facilmente deixar você me esmagar com essas mãos absurdamente grandes.
A risada rouca dele ecoou no meu corpo inteiro. Para testar, deslizou as mãos um pouco mais para frente, entrando na zona que ainda estava coberta pela toalha, um pouco abaixo das costelas. Meu coração disparou no peito, a minha respiração ficou ainda mais desenfreada. O peito forte dele pressionou as minhas costas quando ele levantou, ficando muito mais perto de mim. Me inclinei contra ele, me deixando ser envolvida por seus braços fortes e o calor que emanava. A essa altura eu estava ofegante, quente e cruzando as pernas para tentar aliviar a doce agonia entre elas. Estava me sentindo na cena que Patrick Swayze e Demi Moore destroem o vaso que ela estava tentando fazer na cena memorável de Ghost – Do Outro Lado da Vida. Nesse caso, eu era o vaso e estava me desmanchando nas mãos de .
? — minha voz não parecia minha voz.
— Hum? — ele respondeu, beijando a minha nuca.
— Me beija. — pedi, soando tão desesperada quanto realmente estava.
Ele girou minha cadeira até que eu estivesse de frente para ele. Os olhos azuis estavam escurecidos de desejo, olhos que acompanharam lentamente a pequena abertura no meu roupão, deixando à mostra a lateral do meu seio esquerdo. Meus mamilos enrijeceram contra o tecido, denunciando o quanto eu também estava perdida.
Fiquei de pé na mesma hora que ia abaixar para me beijar. Suas mãos me agarraram com força, repuxando o roupão entre seus dedos, fazendo a peça subir. Coloquei uma mão em seu tórax largo e quente, me apoiando contra ele e explorando seu peito forte. suspirou contra minha boca, sua língua encontrando a minha em um beijo que fez minha boceta implorar por atenção. Ele me encostou contra a porta da geladeira e eu gemi pelo inox frio contra minhas costas. O som pareceu agradá-lo, pois projetou o quadril para frente, encaixando uma perna entre as minhas e pressionando bem onde eu queria. Arfei, sem fôlego algum, mas simplesmente incapaz de interromper o beijo.
Minhas unhas arranharam seu abdômen e ele soltou algo indistinguível, mas que parecia muito com um “porra”. Eu ri, prendendo seu lábio inferior entre os dentes.
— Qual é a graça, ? — ele exigiu saber, abandonando minha boca só para dar atenção ao meu pescoço.
— Nenhuma. — gemi, o puxando pelos passadores da calça para mais perto de mim, o que nem era mais possível devido ao fato de já estarmos tão próximos quanto era humanamente possível.
me levantou no colo, me segurando pela bunda. Sua ereção pressionou bem onde eu estava latejando e eu gemi sem pudor, agradecendo pela fricção que isso causou.
— Por Deus, mais disso. — implorei, me segurando com força em seus ombros.
Mordi seu pescoço quando impulsou o quadril contra mim novamente, causando outra onda deliciosa de alívio pelo meu corpo. Puxei seu cabelo entre os dedos, recebendo um gemido de aprovação em resposta. Movi meu quadril contra o dele, praticamente rebolando em seu colo.
— Vamos para o quarto. — consegui falar, envolvendo com mais força as pernas ao seu redor.
me segurou sem esforço algum, pronto para atravessar o apartamento comigo em seu colo, mas o barulho da porta de entrada fechando o fez congelar assim que pisamos no vão que separava a cozinha da sala de estar.
— Cuidado, ela deve estar dormindo!
Eu levei alguns segundos para raciocinar, olhando por cima do ombro dele para o hall de entrada, tentando me certificar de que aquilo era real e que tinha realmente três pessoas completamente em choque olhando para mim.
Isabel Martínez!
Fechei os olhos com força, esperando que fosse um pesadelo. Esperando muito que tivesse me deixado cair e bater a cabeça na quina da mesa. Esperando muito que eu estivesse delirando sobre as três pessoas que estavam paradas ali. Mas quando abri os olhos, eles ainda estavam lá.
Mamá, abuela, abuelo.
Minha mãe, minha avó e meu avô. Os três olhando em choque para sem camisa e eu praticamente pelada com o roupão quase aberto e com a boca ainda em seu ombro de tão em choque que eu estava.
Puta merda.




Continua...



Nota da autora: Demorei um pouquinho? Demorei! Fiz valer à pena? Espero que sim. Eu amei esse capítulo e quase me empolguei demais nesse final rs. Me deu calor enquanto escrevia, Jesuuus. O que será que os avós e a mãe da PP vão pensar dessa situação, hein? Vamos descobrir nos próximos capítulos dessa novela. Deixem aí nos comentários o que vocês acharam! Beijoss.



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Nota da beta: Olha, sinceramente...
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