Última atualização: 07/09/2021

Prólogo

Toda mulher nasce com um instinto — o de autopreservação —, quando a situação iria acabar mal. Ignorar ele era o mesmo de dirigir um carro sem freios em uma descida. Burrice! No entanto, ali estava eu, nos braços do capitão do time de natação do Colégio D'antelli, uma clássica homenagem ao Dante Alighieri.
Embora todas as minhas células me dissessem para me afastar, eu me inclinava em direção aos lábios dele...



Capítulo 1

Os gritos proviam dos revoltosos estudantes sentados na arquibancada, diante à figura impassível de mister Hopkings em seu palanque. Aquela balbúrdia devia-se o ato irresponsável do time masculino de natação, eles haviam invadido a propriedade Trevisan, destruindo-a com uma festa regada a álcool e jovens iludidas, que sonhavam em conquistar os astros do Colégio D’antelli. O resultado daquela noite foram virgens defloradas, uma propriedade destruída e muita dor de cabeça para os inúmeros clubes daquele lugar.
Observava tudo no mais profundo silêncio, enquanto sentia a raiva percorrer minhas veias como lava fervente; meus olhos permaneciam fixos na figura do “ilustre” diretor.
Reunidos ali, estavam os representantes dos times esportivos do colégio — desde os garotos do time de lacrosse aos reclusos membros do time de xadrez. Todos, sem exceção, fuzilavam o time masculino de natação. Por causa dos imbecis, o orçamento dos times foi reduzido a quase zero.
Direto e sem qualquer piedade, mister Hopkings, o nosso “adorável” diretor, assumiu a responsabilidade pelo ato de vandalismo dos astros do colégio. A comoção por parte dos capitães dos clubes foi o suficiente para levar o diretor a ser mais gentil, aplicando uma punição sobre os times de natação — contive-me para não perder o controle. Teria uma conversa franca e sincera com o diretor. Não admitiria tal injustiça com as minhas garotas!
O almejado nacional estava ainda mais distante, porém, estava ao alcance das minhas mãos para fazê-lo pagar! Oh, sim! Não deixaria o dono dos olhos escapar ileso de destruir o objetivo da minha equipe! Minhas garotas não seriam prejudicadas por causa dos imbecis do time masculino, eles experimentariam em suas peles as consequências de se meter com uma .
Suportava a presença irritante de por pura convivência, dois poderiam jogar o mesmo jogo! Ele não era muito esperto só pelo fato de me provocar, suas armações de certo modo eram previsíveis, não menos irritantes, mas conseguia suportá-lo devido ao fato de que logo me formaria e não o teria em meu campo de visão. No entanto, o que eles haviam aprontado tinha ultrapassado todos os limites! Era baixo de mais até mesmo para .
“A escolha para quem iria às nacionais era clara e tão certa como o nascer do sol: mister Hopkings escolheria os bastardos responsáveis pelo ato de vandalismo.”
Estavam sentados naquela arquibancada apenas os times de natação e alguns garotos do time de futebol, o resto dos times foram liberados, desse modo, as regras de como funcionaria a partir de agora era proclamada com bastante ênfase e diligência: um ônibus para transportar ambas equipes, as competições, amistosos e campeonatos estavam agendados para o mesmo período... as farpas eram trocadas em palavrões e ofensas em um tom que o diretor não pudesse ouvir.
Prossegui com o meu silêncio, abordaria aquele impassível diretor no momento certo! Sabia exatamente onde pressioná-lo para atender minhas exigências. Haviam segredos demais naquela cidade e todos sabiam que um segredo não permanecia encoberto por muito tempo.
— No que está pensando, love? — A voz que eu mais odiava soou atrás de mim, o hálito quente chocou-se contra o meu pescoço, o odor enjoativo e o tom de voz entregavam o responsável pela origem dos meus problemas.
— Na forma mais lenta de aniquilar a trupe de imbecis. — Virei-me para , o sorriso mordaz e zombeteiro permeava seus lábios, seus braços encontravam-se cruzados diante seu torso bem definido, fruto dos anos na natação.
— Você pode ter o que quiser apenas sorrindo, love. — se inclinou em minha direção com seu charme natural, que me causava repulsa, aquele brilho de desafio me fazia cerrar os pulsos de modo a não desferir socos contra aquela face exultante.
— Não preciso disso! Ao contrário de você, sou inteligente o suficiente em evitar escândalos. — Revirei os olhos diante à falsa demonstração de “ferimento” que minhas palavras lhe causaram.
— Não fala nesse tom frio comigo, baby, você sabe que me ama. — Ele esbarrou em meus ombros ao passar por mim, seguindo em direção ao seu fã-clube pessoal.
— Claro, amo o quanto seu amigão encolhe na água. — Pisquei para ele, antes de seguir para fora das arquibancadas, ouvindo as gargalhadas do nosso público, enquanto descia as escadas.
Precisava alcançar mister Hopkings antes que ele entrasse em seu amado escritório.
— Me ame menos, ! — gritou do alto das arquibancadas com uma postura relaxada, seus olhos me diziam que ele retribuiria o que havia feito.
— Impossível! — Virei brevemente minha cabeça sobre meus ombros. — Não se pode diminuir uma emoção inexistente. — Dirigi-lhe os dois dedos do meio, antes de seguir em direção à sala do diretor.
Ao longe, ainda conseguia ouvir o som das gargalhadas.
Meu par de All Star ecoava no piso de cerâmica, enquanto praticamente corria pelos corredores, alto demais, irritantemente chamativos. Alunos inteligentes demais desviavam do meu caminho, enquanto os acéfalos atrapalhavam minha trajetória até a bendita sala. E, é claro, havia o grupo dos detestáveis, meu karma pessoal: os populares.
Não era que eu não me encaixava nessa categoria, apenas não tinha interesse e esforço para ficar apenas na superfície da realidade, seus interesses rasos e futilidade me causava enojo! Eu não tinha tempo a perder, haviam duas coisas importantes em minha vida: faculdade e o time de natação. Não havia tempo para comparecer às festas, casos de uma noite ou qualquer outra coisa que ocupasse meu precioso tempo.
Ao passar por Stacy, Astrid e Ana Beth, ouvi-as soltar comentários audíveis em depreciação. Sorri para elas de modo angelical, antes de agradecer-lhes com ironia e sarcasmo presentes em cada sílaba proferida por meus lábios.
— Obrigada pelos elogios, é uma pena que eu não tenha tempo, boa aula, vadias! — Mandei um beijo no ar, enquanto piscava um olho com um sorriso angelical, contrastando com o tom de voz usado. — Afastei-me, revirando os olhos.
Minha irmã mais velha conhecia a família de Astrid, a rainha das vacas do colégio. Astrid era a típica líder de torcida com alguma DST, no entanto, com um abismo pelo meu odioso rival: . Sua atração por ele e ódio por minha figura demonstrava a sua falta de neurônios.
No colégio D’antelli, os nadadores eram os favoritos e não os comumente jogadores de futebol. A população feminina se derretia pela pele descoberta dos garotos da natação, as competições era uma zona de piranhas.
Ao atingir, enfim, a porta do diretor, constatei que ele não estava. A porta estava trancada e a secretaria estava vazia. Afastei-me, seguindo em direção ao terraço do prédio, tomando as escadarias do lado leste. Precisava respirar antes de encarar a senhorita Oliver.
A professora de química era muito fácil de se dobrar, caía facilmente no papo furado do time masculino de natação, os imbecis, dos quais pareciam estarem todos na minha grade de horários, não havia uma aula em que pelo menos um membro dessa odiosa equipe não estivesse presente.
Ao chegar no último degrau, abri as portas de ferro, encontrando Becky e Roman dividindo um baseado apoiados na caixa d’água do colégio, relaxados e desalinhados. Becky estava apoiada nas pernas de Roman, enquanto encarava o céu.
— Vocês dois deveriam parar de serem tão óbvios. — Recriminei-os por estarem tão amostra.
— E você deveria aprender a se soltar mais, senhora Certinha. — Becky soltou a frase, antes de tragar mais de seu baseado.
— Ela tem as notas perfeitas, comanda o time feminino de natação, se candidatou à Ivy League... ela não vai se soltar, baby. — Roman riu, imaginando alguma versão mais tendenciosa minha.
— Cala boca Roman. — Revirei os olhos, dirigindo-me à mureta apoiando meu tronco, enquanto absorvia a brisa fresca, bem longe do odor pungente de maconha.
— Dia ruim? — Becky questionou alto o suficiente para que eu pudesse ouvi-la.
— Semanas ruins, você quis dizer, Becky. — Roman calou-se em seguida, após eu o fuzilar com um olhar desagradável.
— Terei longos meses pela frente, Becky. — Dei de ombros, olhando em seguida para o meu relógio, tinha ainda mais cinco minutos antes de me diretor à aula da senhorita Oliver.
— Soube que ele destruiu uma propriedade e o colégio assumiu a responsabilidade. — Roman comentou casualmente.
— Você estava lá, bastardo! — Becky ralhou com seu namorado, enquanto desferia tapas em seu braço, o que não afetou muito a figura de Roman.
— Por causa daquele imbecil e sua falta de neurônios, o time feminino tem poucas chances de conseguir o auxílio do colégio para chegar ao nacional. — Fuzilei Roman com raiva, por causa daquela festa idiota, minhas garotas teriam de suportar os imbecis do time masculino.
— Ainda bem que não me chamo ! — Roman riu, descrente. — Ele está tão ferrado!
Pode apostar nisso!



Capítulo 2

— Saia da água, Valentine! — Minha ordem soou mais dura que o planejado.
A frustração pelas medidas impostas por mister Hopkings e a falta de bom senso pela trupe de imbecis que ocuparam a minha manhã tornaram meu humor intragável, fazendo meu sangue ferver e descontar de modo involuntário a raiva naquelas que não possuíam culpa alguma.
Jane Valentine estava com a respiração acelerada, demonstrando seu cansaço e fadiga; algo que evidenciava que ela não estava bem. Meu olhar deslocou-se entre o cronômetro e as anotações em minhas mãos, antes de lhe dar uma explicação.
— A torção de seu músculo está te atrasando. Cinco décimos. — Expliquei minha ordem repentina.
— Desculpa, . — Jane içou-se para fora da piscina, encarando a água com desgosto, evitando, assim, o meu olhar.
— Não precisa se desculpar, não é culpada pelo meu mau humor. — Direcionei-a um olhar afetuoso, antes de seguir caminhando pela borda da piscina.
— Não se cobre tanto, . — Ouvi Jane comentar.
Embora seu tom demonstrasse solidariedade, havia também uma decepção tácita consigo mesma, devido ao fato de não estar em boa forma como almejava.
Dei-lhe um aceno, antes de prosseguir avaliando o desempenho de Sam e Betsy. Ambas utilizavam do nado borboleta como o estilo principal, embora fossem exímias nadadoras em nado de costas; os movimentos delas eram fluídos, as braçadas eram precisas e cortavam a água sem muito esforço. O subir e descer do corpo, impulsionando-as, eram certeiros, tornando o tempo delas ótimo, no entanto, para chegar ao nacional, estava fora do ideal.
Iria montar uma rotina de treinos em solo antes de seguir para os da água; a respiração e condicionamento haviam decaídos por conta dos feriados prolongados dos quais havíamos retornado há duas semanas, mas parecia que fazia poucos dias de acordo com os resultados nos treinos. O inverno logo se aproximaria e então haveria as festas de fim de ano...
O desastre para qualquer equipe!
Anotei algumas considerações sobre quais exercícios aeróbicos e outros de fortalecimento da musculatura; tudo de acordo com os pontos principais que deveriam ser melhorados de cada nadadora. Precisava manter as garotas numa rotina, caso contrário, o nacional seria apenas um conto de fadas inatingível!
A equipe feminina do colégio D’antelli havia evoluído muito! Estávamos entre as melhores equipes do condado, éramos respeitadas. Já havíamos competido com outros colégios em amistosos e alguns campeonatos, porém, não tínhamos conseguido chegar ao nacional.
Nas eliminatórias antes das semifinais, enfrentávamos o Colégio Boulevard, a equipe feminina e masculina de natação possuía uma equipe nível Olimpíadas, por estarmos no mesmo estado, éramos obrigados a competir e o melhor representava o estado no nacional, como consequência da falta de investimento no time feminino e a desvalorização, acabávamos perdendo a vaga para a equipe do Boulevard.
Estava tão focada em minhas anotações, quando, de repente, senti meus pés serem tirados do chão e em segundos estava na água. Minha prancheta com todo o trabalho do mês estava no fundo da piscina. Mergulhei, recolhendo-os após submergir, meus olhos fuzilavam — minha pedra no sapato, a variável desastrosa que causou o problema central da minha equipe poder competir.
O maior boçal sobre a face da Terra!
Coloquei a prancheta e os papéis encharcados sobre ao piso, antes de me içar para fora da piscina, o meu alvo estava a poucos metros de mim, atrás dele havia todo o time masculino, todos, sem exceções, já estavam preparados para entrar na água.
— Isso foi pelo o que falou mais cedo, love. — meneou a cabeça com um sorriso odioso em seus lábios.
— O mundo não dá voltas, , ele capota! — Pronunciei cada palavra pausadamente, antes de ver Verônica despejar corante na água.
— Estarei aguardando pacientemente. — Ele se pronunciou, antes de me dar as costas e seguir com os garotos até o outro lado, iniciando, assim, o treino deles.
— O que vai fazer a respeito, ? — Jass questionou ao meu lado, segurando as minhas coisas.
— Garotas, todas para o chuveiro! — Senhorita Moretz, nossa treinadora, surgiu, expulsando-nos para o vestiário.
— Farei pagar caro! — Cuspi as palavras, antes de seguir para o vestiário.
!
!
!
As garotas surgiram atrás de mim no vestiário, a impaciência e inquietação eram expressadas no tom de suas vozes; todas cruzavam os braços em frente ao tronco, os olhos delas me observavam com curiosidade.
— Verônica colocou corante na água, mas não vamos fazer só isso! — Sorri de forma angelical, enquanto isso, um plano surgia em minha mente.
— Não é só isso! — Jass sorriu empolgada ao perceber o brilho em meu olhar.
— Vão para o chuveiro e chequem o shampoo e produtos de higiene antes de usá-los; não queremos repetir o desastre azul. — Ordenei, seguindo para o meu armário, vendo que minhas roupas haviam sumido. — Eu vou matar o ! — Esbravejei ao encarar meu armário.
? — Sam me questionou, confusa.
— Os imbecis pegaram as nossas roupas! — Violet guinchou furiosa ao abrir seu armário.
— Vou assassinar aqueles babacas! — Felícia exclamou, fechando a porta do armário num estrondo.
— Algumas de vocês têm uma tesoura? — Questionei, pegando a chave do vestiário masculino debaixo do banco, o local em que escondia a chave.
— Eu tenho duas! — Denise estendeu-as em minha direção.
— Ótimo! Agora vamos dar a volta por fora e dar um jeito nas roupas deles. — Sorri, abrindo a porta de emergência, que dava para o lado externo do ginásio de natação.
Demos a volta pelo lado externo, até chegarmos à porta de emergência do vestiário masculino. Betsy e Sam me ajudaram a pegar as roupas dos garotos e então as levamos para o vestiário feminino, tomamos um banho e reorganizamos as peças, transformando-as em roupas completamente diferentes do que eram: calças foram transformadas em saias e shorts; camisas em vestidos; camisetas rasgadas para um estilo detonado...
Donatella e Jasmine eram fãs de moda, então não foi um desafio tão grande vestir o time e utilizá-los como modelos para suas novas criações.
Saímos do vestiário com as cuecas dos imbecis em nossas mãos e a cada mural ou quadro de aviso avistado, uma a uma ia sendo fixada. Kendra lançou para todos os alunos do colégio a dúvida de quem pertencia cada uma delas.
havia declarado guerra. Se era o que ele queria, assim seria!

Como esperado, as mensagens haviam se espalhado feito fogo em pólvora. O mistério das cuecas pregadas nos quadros de avisos por todo colégio estava divertindo os alunos. Era realmente engraçado ver suas reações diante o que havíamos feito.
A equipe masculina de natação havia misteriosamente sumido. As aulas prosseguiam sem que qualquer um dos imbecis marcassem presença, em muito tempo pude desfrutar de um pouco de paz.
Enquanto anotava as informações proferidas pela senhorita Zimmer, senti meu celular vibrar em minha mesa; discretamente o desliguei e o joguei em minha bolsa — não perderia qualquer milésimo de tempo com distrações extras, além de fazer aprender a nunca mais se meter comigo!
Minha mão movia-se de acordo com as palavras ditas pela professora de matemática, suas explicações sempre eram úteis e aplicáveis em mais de um contexto. Senhorita Zimmer possuía o talento de transformar uma equação complicada em algo fácil, simples de se resolver; muitas de suas dicas usava nas disciplinas de física e química.
Com o objetivo de atingir as melhores faculdades, mantinha minhas notas impecáveis; era necessário abdicar de noites divertidas ao lado das garotas para madrugadas enfurnada em pilhas de anotações. Nessas noites, separava meu tempo para duas coisas: a equipe de natação e a faculdade. Estudava todos os pontos que podia evoluir, quais necessitavam de maior atenção... era um processo realmente exaustivo, no entanto, valia cada segundo gasto! As ideias e soluções sempre rendiam uma evolução na equipe e no meu desempenho acadêmico.
Após a professora encerrar a aula com alguns exercícios para o dia seguinte, ela me chamou até a sua mesa.
— Eu sei que está focada em passar nos exames das principais faculdades, . — Ela iniciou, sentando-se confortavelmente em sua cadeira.
— De fato. — Concordei, ajeitando meu rabo de cavalo. Senti-o frouxo, então apenas separei o cabelo em dois antes de firmar.
— Você precisa relaxar mais, querida. Está desperdiçando uma fase realmente importante. — Senhorita Zimmer se inclinou para frente com o cenho franzido.
— Queira me desculpar, senhorita Zimmer, eu realmente entendo seu ponto de vista. De verdade! No entanto, é o que eu quero! A faculdade sempre foi meu sonho, a natação é divertida, tenho ótimas amigas por causa disso, mas meu futuro vem primeiro! — Tratei de ser o mais objetiva possível, mas buscando expressar-me de modo educado.
Eu adorava aquela professora!
— Realmente me intriga que exista jovens como você, querida. — Senhorita Zimmer se levantou com um olhar agradável em sua face.
— Não dizem que somos o futuro da nação? — Brinquei meio descontraída, arrancando um sorriso tímido de minha professora.
— De fato, querida!



Capítulo 3

Mal havia deixado a escadaria frontal do prédio central do colégio, quando senti uma mão envolver meu antebraço. Inconscientemente, girei meu corpo, avistando a figura que ousou me tocar sem permissão. Meus músculos, anteriormente relaxados, tensionaram, preparados para qual fosse o cenário que surgisse! Porém, ao analisar as vestes que usava, a gargalhada escapou em alto e bom som.
Meu abdômen contraía, tamanha era o ridículo que a figura em minha frente representava: trajava uma saia que mal chegava na metade de suas coxas, a camisa estava aberta e apertava os músculos de seus braços, nos pés estavam seus tênis e meias pretas. Completando o show de horrores, a pele em um forte tom alaranjado.
— Será que essa colegial precisa de uma repaginação no guarda-roupa? — Falei entre risos, divertindo-me às custas de .
— Você passou dos limites, ! — cuspiu as palavras num tom controlado, tentando não transparecer sua raiva.
— Claro, assim como você e seus seguidores roubando nossas roupas! — Revirei os olhos, porém, ainda rindo dele.
— Tem como parar de rir por um minuto e levar isso a sério? — exclamou, claramente sem paciência.
— Com você vestido dessa forma?! Impossível! — Sequei o canto dos olhos, ainda rindo.
Discretamente peguei meu celular e então tirei uma foto dele.
— O que pensa que está fazendo? — Ele deu um passo, avançando em minha direção de modo ofensivo.
— Recordação desse momento único! — Guardei rapidamente meu celular em minha bolsa.
— Eu tenho sido cavalheiro até agora, . — passou a mão pelo seu cabelo, tentando se acalmar, enquanto respirava fundo.
— Seu exemplo de conduta seria honrado na era vitoriana... — rolei os olhos, dando-lhe as costas e seguindo em direção ao meu carro.
— Onde pensa que está indo? — Ele se apressou em me acompanhar.
— Não que seja da sua conta, mas estou indo para casa; algo que deveria ter feito, não acha? — Apoiei-me na porta do meu carro, pronunciando cada palavra com certa irritação.
— Onde estão minhas roupas? — colocou seus braços ao lado do meu corpo, tentando causar qualquer reação em mim.
De modo displicente, ergui meu joelho, atingindo o meio de suas pernas, exatamente em suas partes íntimas.
— Não pense que só por ser a merda de um babaca, figurinha favorita do nosso “amável” diretor, possui o direito de ousar me intimidar. — Agachei-me em sua frente, segurando o maxilar dele e o olhando em seus olhos, cada palavra dita era exprimida com repulsa. — Lembre-se bem de hoje: você no chão com essas roupas ridículas e eu o deixando com o ego ferido.
— Você não sabe com quem está lidando, Cavaliere. — Ouvi a voz furiosa de soar em minhas costas.
— Você que não sabe com quem foi se meter, ! — Dei-lhe um aceno, antes de entrar em meu carro e deixar o estacionamento.
Pelo retrovisor pude vê-lo encarar as lanternas de meu carro, seu olhar era indecifrável, porém, seus punhos cerrados me diziam o suficiente.
Gargalhando, deixei o colégio para trás, enquanto dirigia pelas ruas da pacata cidade de Fygrets. As ruas pelas quais seguia ladeavam os penhascos, nos quais as águas do pacífico se chocavam.

Estacionei o carro em frente à humilde fazenda em que vivia, meus pais distribuíam leite diretamente para os habitantes locais. Meus três irmãos mais velhos trabalhavam dia e noite ao lado de meus pais, e minha irmã mais velha foi esperta o suficiente para se mudar para a capital. Não era uma vida cheia de luxo, porém, era agradável, tinha uma família maravilhosa — claro que como toda família haviam as diferenças, mas elas eram superadas pelo amor sentido um pelos outros. O vínculo falava mais alto e isso bastava!
Desci do carro, trancando-o após recolher meu material, avistei Garret e Héctor no meio do campo de centeio. Acenei para eles antes de seguir para a frente da casa. Subi os degraus da varanda antes de abrir a porta.
— Estou em casa! — Gritei, anunciando minha chegada.
— Estou na cozinha! — Mamãe gritou, indicando o local em que estava.
Dirigi-me até lá, brincando com Duque e Trex, nossos cachorros, pelo caminho. Ao adentrar a porta da cozinha, fui atingida pelo aroma delicioso da refeição que minha mãe preparava.
— Como foi a aula, querida? — Minha mãe perguntou, olhando sobre seu ombro.
— Nada fora do comum. — Dei de ombros, apoiando-me num dos armários.
— Seus dias nunca são comuns, querida. A prova disso é exatamente essa roupa estranha que está vestindo. — Ela comentou com um olhar divertido.
pregou uma peça na minha equipe, mas, no fim, ele acabou sofrendo as consequências. — Sorri, dando de ombros referente ao que havia dito.
— Vocês dois ainda vão acabar se matando...
— Ou casando. — Meu pai acabou surgindo no recinto, completando a frase de minha mãe.
Dei-lhes um olhar de completo choque com o absurdo proferido por eles. As expressões leves nas faces de ambos só confirmavam sobre a crença deles sobre o que haviam dito.
Eles realmente pensavam isso sobre essa relação de ódio entre e eu.
— Claro! Tudo o que eu quero é acabar ao lado de um boçal! — Revirei os olhos, indignada.
— Diante tamanha intensidade do que sente pelo pobre garoto, é impossível não pensar a respeito. — Meu pai falou calmamente, fazendo com que minha mãe risse discretamente.
— Como você pode desejar que sua filha fique ao lado de um garoto que roubou as roupas dela? — Olhei-o completamente surpresa.
— E você me apareceu vestida assim, tenho certeza que ensinou a ele bons modos! Eu sei que criei bem a minha menina! — Ele beijou o topo de meus cabelos.
— Você sabe que seu pai está certo! — Minha mãe arqueou uma sobrancelha ao ser questionada pelo meu olhar.
— Vocês são impossíveis! — Acabei rindo, antes de seguir em direção às escadas, que me levariam ao segundo andar.
— Também te amamos! — Ouvi o grito de meu pai soar pela casa, enquanto subia as escadas.
Dirigi-me até o meu quarto e ali me despi, antes de seguir até o banheiro. O dia havia sido longo, precisava me livrar dos vestígios do dia, recuperar minhas energias e então, por fim, dormir.
Não se provoca um sem estar preparado para as consequências!



Capítulo 4

Quando estava dentro da água, era o momento em que meus pensamentos se reduziam a zero. Meu corpo absorvia a sensação da leveza de cada movimento e fluidez utilizada.
Tão natural como respirar, era nadar para mim.
Sem esforço, movimentava-me no lago acima do oceano, o qual ficava dentro das terras da minha família. Apreciava o início da manhã com um mergulho; com o inverno se aproximando e o fim da colheita, logo se tornaria impossível nadar ali. Com uma última volta, subi para a margem, deitando-me contra a relva ainda molhada com o orvalho da madrugada.
O céu já estava em um tom puro de azul e nenhuma nuvem podia ser avistada. Respirei fundo, absorvendo os odores e fragrâncias do oceano, e daquele recanto silencioso que era o pequeno bosque que separava as terras de arado do precipício rochoso sobre o qual o lago era formado.
Levantei-me, após passar alguns minutos de olhos fechados sem pensar em nada, enrolei-me no roupão previamente preparado e segui para o celeiro.
Devido alguns acidentes com os animais, dos quais meus irmãos e meu pai acabavam sujos, minha mãe obrigou meu pai e avô a construírem um banheiro — ou no celeiro ou em uma pequena cabana — para que pudessem se limpar sem precisar atravessar o bosque para chegar ao lago. O fato era que se tornou útil para mim, devido à minha rotina diária de toda manhã nadar no lago.
Após o banho, coloquei roupas mais quentes e segui para casa, a qual estava movimentada mediante o fato de que todos acordavam cedo. Passei pela cozinha, roubando um bolinho das mãos do meu irmão, antes de subir correndo as escadas em direção ao meu quarto; meus pais e meus outros dois irmãos mais velhos apenas riram da cena.

A manhã havia decorrido de modo assustadoramente calmo, as figuras ilustres da trupe de imbecis não haviam dado o ar da graça e isso me deixou completamente desconfiada. Evitei a piscina, procurando iniciar a rotina em solo que havia refeito na noite passada.
Embora soubesse que a equipe masculina levaria de dois a cinco dias para retornarem, nada os impedia de executarem alguma vingança contra as minhas garotas. Era uma armação atrás da outra, que ficar em alerta era o melhor a se fazer. E embora a pele dos garotos demorasse a perder o tom alaranjado, duvidava que o diretor permitisse que toda a equipe perdesse mais de cinco dias de aulas, devido aos feriados de fim de ano em três semanas.
Sendo assim, levei as garotas no período da tarde para se alongarem e correrem entorno de toda a área do colégio.

🏆💙🏆

Não foi até a metade do terceiro dia sem que e sua trupe de imbecis retornassem ao colégio, que, enfim, o capitão da equipe masculina iniciasse, assim, a sua armação.
Estava presa numa reunião com outros capitães dos clubes daquela instituição, quando fui chamada pelo “adorável” diretor. Como filho de uma das pessoas mais poderosa daquela cidade, iniciou sua jogada com algumas punições do diretor para a equipe feminina, porém, até aquele instante estava tudo bem. Era algo esperado solicitar apoio de sua mãe, era o que sabia fazer de melhor! Filho único e o orgulho da cidade, não sabia o que era realmente valioso, muito menos conhecia o que era mérito próprio.
Não foi até o horário da saída no dia seguinte, que seu verdadeiro plano tomou forma; sua jogada começou com apenas algo comum... seu verdadeiro proposito estava em me humilhar.
Ao ligar o carro, o interior foi preenchido por uma explosão de cores — os imbecis haviam sabotado meu carro! Saí do automóvel para, então, escorregar, caindo contra o chão de concreto. Parecia que o colégio inteiro assistia o que foi armado contra mim.
Levantei-me com cautela, notando o grupo das minhas garotas se aproximarem correndo, dei-lhes um aceno para não virem em minha direção.
Faria pagar por aquele ato!
O meu reflexo era um desastre completo. Soltei o meu cabelo, arrumando-o, e com um doce sorriso, virei-me para o público.
— Vocês não são muito inteligentes, seguindo fielmente as ações de . — Balancei a cabeça num aceno decepcionado, enquanto minha voz soava incrivelmente doce. — Quanto ao responsável disso... — apontei para o carro e minhas roupas. — Eu o farei pagar, mas quanto às fotografias e aos vídeos desse ocorrido... — adotei uma postura relaxada, enquanto permanecia com uma expressão doce. — Vocês sabem que as coisas não acabam bem para aqueles que ficam no meu caminho. — Dei-lhes uma piscadela, enquanto mandava beijinhos, antes de caminhar na outra direção, discando o número de Becky.
Enquanto passava por eles, um caminho era aberto, minha “guerra” com o capitão da equipe masculina de natação era algo que todos tinham conhecimento. Nossas armações consistiam em atos desastrosos e um problema gigante, caso nossos pais se envolvessem. Era um acordo tácito, não colocávamos nossos velhos nisso e prosseguiríamos com o próximo movimento.
Sorria por todos pelos quais passava, enquanto indicava para não tirarem fotos. Meus olhos caçavam Becky e Roman, eles eram uma dupla dinâmica. Encontrei-os logo atrás do prédio de química, ambas figuras possuíam um cigarro em seus lábios.
Assim que me aproximei, Roman se engasgou com a fumaça de seu cigarro, enquanto Becky deixou o seu cair.
, sim, ele teve a audácia de realizar isso. — Respondi as indagações presentes nos olhares de meus amigos. — Quando eu te ligar, atenda!
— O que você vai fazer estando assim? — Becky me questionou após o choque.
— Ela vai ensinar boas maneiras ao . — Roman gargalhou, jogando-me as suas chaves.
Ele parecia burro, mas o problema dele era ser um desgraçado espertalhão.
— Mande um “olá” por mim. — Ele gargalhou ao me ver dar as costas a eles.
! — Becky gritou meu nome, alcançando-me.
— Eu não vou fazer nada... — respondi o olhar preocupado presente na face de minha amiga.
— Ainda. — Roman murmurou, antes de tragar seu cigarro.
Becky e eu o olhamos com repreensão, ele deu de ombros, antes de voltar para seu cigarro com um riso em seus lábios. O olhar de Becky voltou-se para mim, enquanto uma linha de tensão se formava em seus lábios. Ela estava preocupada, embora não fosse necessário.
— Vocês estão indo cada vez mais longe com isso, . — Becky murmurou, cansada, seu braço estendeu até minha face, limpando-a com cuidado.
— Segunda lei de Newton. — Afastei-a com cuidado e um sorriso tranquilo, antes de correr em direção à moto de Roman estacionada a poucos quilômetros dali.
Não se provoca um sem estar preparado para as consequências!



Capítulo 5

Estacionei em frente à residência de Yvan, o carro de estava em frente à garagem da casa. Retirei o capacete, enquanto sacava a chave reserva de , a qual ficava logo acima da roda traseira de seu automóvel.
Entrei no carro, após colocar a moto de Roman dentro do mesmo; o som alto que saía daquela residência garantia que minha ação passasse despercebido. Liguei-o, saindo dali sem chamar atenção.
Não foi até o instante em que meu celular começou a tocar, que reparei o outro aparelho vibrando... a tela exibia milhares de mensagens da vítima da vez de . Sorri ao ler as mensagens, após estacionar em um mercado, de modo que conseguisse verificar o que continha nele. Porém, antes disso, mandei uma mensagem para todos os contatos dele com o endereço de Yvan como se estivesse os convidando para uma festa.
conhecia aquele colégio inteiro, até o instante em que se desse conta do desaparecimento de seu carro, teria que lidar com a multidão no quintal de Yvan.
Fiz um backup geral, enviando-o para um e-mail que pouco utilizava, apagando-o logo após o envio.
Retornei ao colégio, estacionando no local em que havia deixado Roman e Becky. Joguei as chaves da moto para Roman, assim que desci do carro com um sorriso brincalhão. Ele começou a rir, desacreditado, enquanto Becky se apoiava contra o prédio às suas costas.
Como? — Ele ria, enquanto balbuciava. — Você acabou de sair daqui.
é óbvio demais, não há nada que eu não saiba sobre aquele babaca. — Respondi-o, enquanto empurrava a porta de emergência do prédio de química.
O alarme não disparou, porque o diretor ainda estava na instituição, conhecia os horários de mister Hopkings.
— Não faça nada que vá se arrepender depois, . — Becky me alertou, antes que eu entrasse no prédio.
— Ele pediu por isso. — Respondi-a e então segui para as escadas.
Subi os dois lances de escada, antes de entrar na sala em que eram guardadas as substâncias químicas para os experimentos na aula. Abri um sorriso ao constatar que a porta estava destrancada, de fato, a senhora Rouver era uma senhora de idade e andava esquecendo as coisas com frequência.
Olhei atentamente os tubos, selecionando dois líquidos que, juntos, causariam uma explosão — as aulas de química sempre eram úteis em casos assim. Segui ao depósito no subsolo, repondo os tubos que tirei da sala, fechando a porta do prédio em seguida.
— O que você pretende fazer? — Becky analisou o que eu segurava.
— Pensei que já haviam partido. — Desconversei, guardando os recipientes em minha bolsa, antes de entrar no carro outra vez.
— Obrigado por não bater a moto desta vez. — Roman gritou, assim que saí dali.

Procurei a área longe das câmeras e ali estacionei o carro de , após dirigir por meia hora; aquele lugar era um ponto deserto e perfeito para explodir um automóvel. Misturei os líquidos, colocando o tubo dentro do carro e comecei a correr.
Com aquela aparência não seria reconhecida, a cidade inteira conhecia minha imagem de garota perfeita e apenas os alunos e professores do Colégio D'antelli sabiam sobre a rixa que e eu tínhamos. A gargalhada que saia dos meus lábios atrapalhava meus passos e embora a explosão a abafasse, forcei-me a ir o mais rápido que podia, deixando o carro em chamas para trás.
Atingi a área traseira do colégio, seguindo para o complexo de esportes, passei a pista de atletismo antes de atingir o lado externo do vestiário feminino. Por ser a capitã, carregava as chaves comigo.
Destranquei a porta; todo o trajeto até ali evitei a área de câmeras, saberia que foi eu e isto bastava. Caso minha imagem fosse pega pelas câmeras, a mamãezinha dele se envolveria e isso geraria uma dor de cabeça!
Retirei minha roupa, após trancar ambas as portas, e deixei a muda de roupa de emergência debaixo dos meus olhos. A água lavava aquele arco-íris que me atingiu no instante em que liguei meu carro.
Após lavada, passei no armário de Verônica, pegando o corante usado por ela e seguindo para o vestiário masculino. Deixei a sacola com minhas roupas sujas no banco, enquanto seguia para a área de banho, colocando o corante no shampoo dos rapazes e nas loções que já eram azuis; Verônica havia utilizado um corante diferente, o qual estava na minha sacola.
Após feito isso, deixei o celular de dentro do armário dele como se ele tivesse esquecido ali.
Após tudo isso, liguei para meu irmão mais velho, passando pelas câmeras frontais da instituição. Elas seriam a testemunha de que fui tomar um banho após o espetáculo daquele dia. A ligação confirmaria minha carona para casa, deixando a hipótese de ter pegado o carro de algo improvável.
Meu irmão atendeu no terceiro toque e após uma longa explicação, ele aceitou me buscar.
Enquanto ele não chegava acenei para mister Hopkings, quando o mesmo passou por mim em seu caminho para casa. Ele olhou para a sujeira ao redor do meu carro com desagrado e murmurou o nome de com desgosto, enquanto massageava as têmporas.
Não muito depois disso, meu irmão surgiu com o caminhão de entregas, ele engatou meu carro na traseira assim que me observou. Com um aceno, indicou o banco do carona e se dirigiu até o carro do diretor. Liguei o rádio para ignorar a conversa do lado de fora. Héctor era um homem de poucas palavras, porém, exprimia com maestria seus pensamentos, desse modo, recostei-me no banco, enquanto aguardava o retorno do meu irmão.
— Vocês dois deveriam escolher suas ações, . — Héctor se pronunciou, assim que adentrou o automóvel.
que começa, eu só o lembro de seu lugar. — Respondi-o com cuidado.
Héctor era pacífico, embora me repreendesse com seriedade, porém, era Garret quem eu evitava provocar... ele era conhecido por seu temperamento explosivo.
— Não entendo como papai é tão calmo a seu respeito, logo serei eu o de cabelos brancos, caso essa birra entre e você prossiga. — Héctor deu-me uma piscadela, enquanto bagunçava os meus cabelos.
— Sou a filha mais responsável, todos sabem disso. — Dei-lhe uma cotovelada de brincadeira, enquanto começava a cantar em seguida, a banda favorita de meu irmão soava no rádio.
— Você não tem jeito mesmo! — Ele riu, acompanhando-me em seguida.

🏆💙🏆

Roman e Becky me esperavam do lado externo do colégio, estranhei tal ação. Naquele instante, eles estariam no terraço relaxando antes do primeiro horário.
A face de Becky demonstrava certa preocupação.
Aproximei-me, após desejar “bom dia” ao Garret — meu irmão havia se voluntariado a me levar para o colégio, antes de realizar as obrigações do dia.
— Recomendaria evitar os corredores principais... — Roman comentou com um sorriso zombeteiro nos lábios.
— Quão ruim está a situação? — Provoquei-o, enquanto seguia com eles pelo portão.
— A mãe de Yvan ficou furiosa com nosso querido capitão, então ambos, Yvan e , estão te caçando logo cedo. — Becky suspirou cansada ao notar que tanto Roman, quanto eu, não estávamos levando a situação a sério.
— Relaxa, Bexy, faz a jogada dele e a só devolve o movimento. — Roman beijou a testa de Becky de modo a distraí-la.
Ele me deu uma piscadela, enquanto apontava sutilmente à minha esquerda.
— Para todos os efeitos, vocês não estão envolvidos. — Mandei um beijo para Becky, antes de seguir para o lado apontado por Roman.
— Terei rugas cedo demais por sua causa, ! — Becky apontou para mim com “seriedade”.
— Eu também te amo, Bexy. — Utilizei um tom jocoso ao pronunciar o apelido de Roman para minha amiga. Supostamente era romântico, porém, soava incrivelmente engraçado para meus ouvidos.
Ao me afastar deles, senti meu pulso sendo segurado. Como Roman havia previamente me avisado, levava-me pelos corredores com a face inexpressiva.
— Bons modos nunca foram o seu forte. — Comentei ao soltar meu braço.
— A sutileza lhe cai bem. — Yvan surgiu do alto das escadarias da entrada do prédio secundário.
— Vamos lá, garotos, eu não tenho o dia todo. — Abri um sorriso doce ao notar a área em que estávamos, ambos me posicionaram de modo a estar sobre o foco das três câmeras.
— Sabemos que você é a responsável por trás dos atos de ontem. — Yvan elevou sua voz, estufando seu peitoral de modo presunçoso.
— Agora seu subordinado fala por você? — Arqueei uma sobrancelha ao olhar para , enquanto apontava para Yvan. — Olha, eu não faço ideia do que está me culpando, mas chega a ser uma implicância sem sentido. — Dei umas palmadinhas no ombro esquerdo de Yvan ao passar por ele.
— Onde está meu telefone? — me questionou após alguns minutos.
— É claro que ela o destruiu... — Yvan foi interrompido por algo.
Virei-me, encontrando a mão de sobre um dos ombros de Yvan. me olhava com uma mensagem clara de aviso.
O sorriso que despontou em meus lábios era verdadeiro — estava me divertindo com a situação.
— É uma cidade pequena, . — Comentei com casualidade, não deixando nada ser revelado. — E sabe o problema de cidades como a nossa? — Continuei a me afastar, parando próxima à porta que me levaria às escadarias próxima da sala em que estava ocorrendo o meu primeiro horário de aula. — Segredos. — Dei-lhe uma piscadela, antes de passar pela porta, ouvindo às minhas costas um xingamento proferido num tom baixo.
O problema daquela cidade era possuir segredos demais, o problema de era estar em mais de um deles... E sabia que eu conhecia todos eles!



Capítulo 6

O silêncio e a inatividade de me deixou com os nervos à flor da pele. Esperava uma reação quase instantânea, um ataque de fúria, uma armação mais agressiva... mas não havia nada! Os garotos, enfim, haviam dado uma trégua às minhas garotas, o ar quase amigável entre as equipes era quase um milagre!
Outras equipes haviam cessado os treinos e atividades esportivas; tudo em prol dos feriados que se aproximavam, enquanto meu treinamento seguia cada vez mais rígido. A rotina consistia em exercícios de resistência fora da água, havia pedido orientações aos técnicos da equipe masculina de atletismo e a técnica da equipe feminina de vôlei.
O ar frio do outono estava mudando para o tom característico do inverno. Portanto, buscava soluções que não afetariam a saúde das minhas atletas, dedicava-me noites, a fim de garantir o bem estar de todas; eu as conhecia, não eram apenas um meio para um fim... cada uma das integrantes do time era importante para mim. Ao avaliá-las, buscava orientá-las para atingirem o melhor delas mesmas, rigidez era utilizada como meio para garantir a ordem, porque minhas garotas poderiam ultrapassar alguns limites por metas absurdas.
? — Verônica surgiu no meu campo de visão, estava sentada na sala da nossa técnica, meus olhos anteriormente analisavam os dados coletados do último mês. — As atividades já acabaram, logo será o horário de fechar o colégio.
— Eu perdi a noção do tempo. — Pisquei os olhos, esticando-me, alongando os músculos adormecidos.
— Bem que imaginamos! — Diana surgiu na porta com um sorriso compreensivo. — Você está se cobrando demais.
— E por se preocupar tanto com a equipe... — Verônica iniciou a frase com um tom brincalhão.
— Hoje jantaremos no restaurante de família da Jass. — Diana completou com uma piscadela.
— Não aceitaremos um “não”! — Verônica reforçou com firmeza, enquanto me alcançava meu casaco.
— O que eu não faço por vocês?! — Abri um sorriso, enquanto alcançava minha bolsa.
— Você é nossa capitã, mas ainda é uma colegial! — Diana retirou as chaves das minhas mãos, trancando ela mesma o escritório da nossa técnica.
— Você precisa se divertir mais, . — Verônica me deu uma piscadela sugestiva, enquanto sorria maldosamente.
— Vejo que nossa estimada capitã foi vencida! — Betsy comemorou no meio do estacionamento.
— Não a provoque ainda! — Jane a repreendeu, tentando segurar o riso.
— Vencida?! ? — Meu irmão mais velho surgiu pela entrada do colégio com um sorriso zombeteiro nos lábios.
Sam e Jass foram as mais expressivas em demonstrar o interesse no meu irmão.
— Não enche, Garret! — Olhei-o com falsa indignação.
— Olha só que irmãzinha petulante eu tenho! — Ele riu, andando em minha direção com um olhar de quem estava tramando algo.
— Não ouse! — Afastei-me, jogando minha bolsa para uma das garotas, enquanto analisava meu irmão.
— Eu não farei nada! — Ele sorriu, oferecendo-me sua expressão mais angelical. — Eu prometo! — Ele fez um “X” sobre seu peito esquerdo como um juramento.
— Garry, não... — ri, enquanto testava meus pés, preparando-me para correr.
— Não o quê? — Ele sorriu de lado, antes de começar a me perseguir.
Meu irmão mais velho me forçou a correr entre os carros das garotas que ainda estavam estacionados; ele passava desavergonhadamente dentro deles para me alcançar — eu sabia que ele me venceria! Ele fez parte da equipe de futebol desde o primário, ele era um atleta por natureza e sua resistência era muito mais alta que a minha por auxiliar diariamente na fazenda da nossa família.
Em dado momento, enquanto fugia dele, Garret me agarrou, lançando-me sobre seus ombros, deixando-me de ponta-cabeça, enquanto corria comigo; era impossível não rir, a cena por si mesma era hilária.
— Tinham de ser os . — A voz profundamente irritada do diretor surgiu de repente, colocando o estacionamento num estado de silêncio.
Garret me colocou no chão, porém, com um ar provocativo. Aproximou-se do diretor, abraçando e o tirando do chão facilmente. Virei a face, buscando abafar o riso diante à careta que tomou a face do diretor, que era um misto entre pura indignação, irritação e surpresa.
— Você precisava se alimentar direito, mister Hopkings, desse jeito, como poderá perseguir os pobres coitados dos estudantes? — Garret utilizou um tom de repreensão, enquanto sinalizava para as garotas entrarem nos carros.
— Vejo que continua o mesmo de sempre... — mister Hopkings se limitou a ajustar as roupas, espanando uma poeira invisível de seus trajes. — O que está fazendo aqui após as aulas?
— Vim buscar minha adorável irmã, já que o carro dela fora danificado por um certo aluno de sua instituição. — Meu irmão utilizou seu tom sério, enquanto mantinha a face numa expressão relaxada. — Mantenha-o na linha, o senhor me conhece... acidentes acontecem o tempo todo! — O sarcasmo permeado pelo tom brincalhão atingiu de modo certeiro o alvo, Garret era conhecido por suas armações ao longo dos anos em que estudou no colégio D'antelli.
Meu irmão me levou ao carro de Jane, ele abriu a porta, sinalizando para que eu entrasse. Ele abaixou, dando um beijo em minha fronte.
— Eu falo com nossos pais para que você possa passar a noite fora. — Ele piscou um olho para Jane, antes de fechar a porta.
— Eu sou perfeitamente capaz de fazer isso! — Respondi-o com “irritação”.
— Não posso mais cuidar da minha irmãzinha? — Ele se apoiou na janela aberta do carro.
— Você sabe que se não parar com isso logo...
Ele me interrompeu.
— Nem ouse terminar, sua pestinha! Eu conheço bem a irmã que eu possuo. — Ele riu, enquanto se afastava, o olhar de carinho me deixou com ambas bochechas vermelhas. — Não faço nada do que eu faria! — Garret falou alto com um sorriso torto.
— Eu tenho mais neurônios que você e Hector juntos! — Gritei, assim que Jane passou por ele com o carro.
— Também te amo, peste! — Ele gritou, balançando a cabeça negativamente, enquanto ria.

As garotas foram inteligentes o suficiente para se manterem quietas até o instante em que adentramos o restaurante da família de Jass...
— Vocês não conseguem disfarçar o claro interesse naquele acéfalo! — Comentei, sentando-me no canto próximo à janela.
— Seus irmãos não são ruins de se admirar, . — Valentine comentou descaradamente, enquanto se sentava em minha frente.
— Vocês não convivem diariamente com eles, essa ilusão ia ruir rapidinho. — Respondi-a, rindo da expressão de Jass.
— Você menospreza a sua própria genética, capitã! — Sam comentou em um tom de ofensa.
— Seus irmãos não nada mau, ! — Jass deu algumas risadinhas.
— Ao invés de estarem falando deles, por que não me respondem quando surgiu esse súbito interesse naqueles dois? — Questionei-as, utilizando o tom de capitã usado nos treinos.
— Estamos fora daquele colégio, , relaxa um pouco, okay?! — Betsy jogou a bolinha de guardanapo que ela fez.
— Isso, viemos até aqui para que você possa relaxar! — Jass prontamente concordou.
— E o que as madames desejam? — O pai de Base surgiu, surpreendendo-nos.
— O que você tiver de melhor! — Verônica prontamente respondeu descaradamente.
— Verônica! — Jass a olhou abismada.
— Não tem problema! Está tudo bem, princesa. — Ele piscou para a filha, enquanto anotava os pedidos feito em meio ao caos, quando todas resolveram falar o que queriam. — E você, o que vai querer, querida? — O pai de Jass indagou-me após anotar tudo.
— Eu não tenho algo em mente. — Respondi distraidamente.
! — Minhas garotas me repreenderam em uníssono.
Hey! — Olhei para elas sem entender.
— Posso surpreendê-la com uma das nossas especiarias? — Ele me perguntou com um sorriso amigável.
— Confio na sua escolha. — Ofereci-lhe um sorriso educado.
— Sintam-se à vontade para pedirem o que quiser. — Ele nos ofereceu um sorriso alegre, antes de se afastar.
— Acho que nossa capitã está travada no quesito de diversão... — Diana utilizou um tom provocativo.
— De fato! Que saudades da velha ... — Sam lamentou dramaticamente.
— Ela era tão divertida. — Betsy até suspirou, encarando-me com “decepção”.
— Cuidado com o que desejam! — Utilizei um tom calmo, solicitando um suco ao garçom que estava passando por nossa mesa.
A noite, a partir dali, foi uma confusão. Como estávamos num canto reservado do estabelecimento, isso as deixou empolgadas, o que levou a uma corrente crescente de imprudência... De fato, foi divertido, porém, devíamos ter incomodado aqueles que desejavam uma noite tranquila.



Capítulo 7

Acabei dormindo na casa de Jass, o que me levou a chegar mais tarde do que o costume, porém, a tempo das aulas! Mister Hopkings não cruzou meu caminho, e toda sua trupe me evitaram e a sensação de que estava deixando escapar algo me perturbava. Minha atenção às aulas foi inferior ao normal, inúmeras suposições tomavam minha mente; com minha mente fervilhando, resolvi apaziguar meus pensamentos da única maneira viável: nadando.
Dei às garotas uma folga do treino, com a condição de que elas praticassem alguma atividade produtiva no lugar; o que eu duvidada que tal fato ocorreria! Tomei um banho para relaxar os músculos, assim que as aulas se encerraram, mandei uma mensagem aos meus irmãos que surgissem mais tarde por ali, pois treinaria sozinha naquela tarde.
Após devidamente alongada, segui para a área das piscinas, a qual se encontrava no mais reconfortante silêncio. Posicionei-me na plataforma utilizada para saltar para a piscina, toquei-a com as mãos, arrumando corretamente minha postura e pés, de modo que eu pudesse me lançar com o melhor impulso; respirei fundo, absorvendo o odor de cloro de piscina e algo único daquele ambiente, fechei os olhos e quando os abri, vislumbrei o campeonato que ocorreria na metade de janeiro.
Em minha mente, não estava mais no Colégio D'antelli, na arena utilizada para o treino das equipes de natação; encontrava-me no ginásio da cidade vizinha utilizado para competições escolares e universitárias, além do uso para a população.
Ouvindo uma corneta imaginária, lancei-me em direção à água, meu corpo absorveu o impacto com a água, enquanto buscava tomar impulso antes de começar a dar braçadas, então entre braçadas, tomava fôlego, atingindo a água da maneira que já estava familiarizada...

Meus músculos estavam cansados após nadar por horas, havia me levado até o limite, praticando os diferentes estilos: peito, costas, livre e o borboleta. O fato era que poderia competir em qualquer um deles, no entanto, como um capricho, competia apenas pelo nado borboleta.
Lancei-me novamente na água, mergulhando em direção ao fundo da piscina, passando por baixo das divisórias das raias, contendo a respiração pelo maior tempo que conseguia. Caso sentisse a necessidade de ar, subia à superfície e retornava ao fundo.
Pratiquei isso por algum tempo, quando me cansei disso, relaxei meu corpo e boiei pela piscina, de olhos fechados, sentido a temperatura da água e suas leves ondulações.
O silêncio me acalmava, silenciando qualquer pensamento inútil...
Porém, inesperadamente, algo bruscamente fez sua entrada naquele recanto de paz; meu corpo foi repentinamente tirado da água e uma voz que não ouvia há algum tempo irrompeu pelo ginásio.
— Vamos, ! Você não pode ter se afogado! — O tom de preocupação me surpreendeu.
— Obviamente que não! — Afastei-o abruptamente, sentando-me, meus olhos encontraram o alívio nos orbes de . — O que o levou a concluir tal estupidez? — Indaguei-o extremamente zangada por ser interrompida.
— Você estava há minutos sem se mexer. — não ofereceu maiores explicações, seus olhos percorreram minha face numa análise silenciosa.
! — Respirei fundo, massageando minhas têmporas, controlando meu temperamento. — Por que estava me observando durante esse tempo? — Questionei-o num tom mais calmo, porém, ainda agressivo.
— Apenas verificando. — se levantou sem oferecer mais detalhes.
— Desde quando se importa com minha condição?! — Questionei-o confusa, enquanto me levantava também.
— E desde quando o que eu falo tem algum valor? — me respondeu com um sorriso sarcástico em seus lábios.
— Não possui! — Fui categórica em confirmar, assegurando tal fato. — O problema é que está agindo de modo atípico, se está armando algo, que seja direto. — Aproximei-me dele, enquanto exprimia meus pensamentos.
— Você não está preparada para tal coisa, love. — abriu um sorriso como tivesse contado um segredo que ele apenas poderia entender. — Você não é tão esperta como pensa ser! — Ele piscou um olho para mim em seu modo conquistador barato.
— Do que você tem tanta confiança?! — Empurrei-o contra a parede ao lado das portas duplas que dariam o lado externo do ginásio. — Você é muito presunçoso, egocêntrico e insuportavelmente irritante, e muito idiota em provocar aquela que está em pose de seus maiores segredos. — Abri um sorriso provocativo, enquanto uma de minhas mãos segurava seu maxilar, meus olhos estavam fixos no olhar furioso de . — O gato comeu a sua língua? — Provoquei-o após alguns minutos de silêncio.
Antes que eu pudesse reagir, eu senti a frieza da parede contra minhas costas úmidas. segurava minhas duas mãos acima da minha cabeça apenas com uma de suas mãos, uma de suas pernas estava me segurando no lugar, de modo que eu não pudesse lhe dar uma joelhada — o que eu faria, caso conseguisse!
— Eu estou sendo paciente e piedoso, love; você sabe que passou dos limites com sua última jogada. — Um tom que eu nunca ouvi utilizar permeou sua voz, de modo firme, causando-me arrepios. — Vamos prosseguir nossa disputa ridícula, enquanto você mantém essa boquinha atrevida fechada a respeito de assuntos que não lhe diz respeito! — A respiração quente de tocou a base de meu ouvido, após ele sussurrar suas palavras em um tom baixo, porém, sério.
— Nunca ouvi tanta besteira em minha vida! — Cuspi as palavras furiosa, movia-me tentando me soltar das garras de . — Você consegue se superar! É um poeta calado!
— Como eu disse... — ele levou seu indicador e polegar aos meus lábios, o que eu respondi a tentar mordê-los. — Mantenha essa boca atrevida em silêncio, eu não lhe darei outra chance! — me soltou, afastando-se com um sorriso de diversão em seus lábios.
Antes de desaparecer, ele deixou seu olhar recair por minha figura como um trunfo. Fechei meus punhos, enquanto a inspiração e expirava várias vezes, de modo a não cometer nenhum crime.
Eu acabaria com !



Capítulo 8

Hector me esperava no estacionamento com a caminhonete de entrega, adentrei-a em silêncio.
Em minha mente, os momentos ocorridos na área da piscina se repetiam num loop perturbador, enquanto a irritação tornava meu humor intragável naquele momento.
Meu irmão foi perspicaz em se manter em silêncio, no lugar de me questionar, ele apenas aumentou o rádio. Era por ações como essas que preferia a companhia de Hector a Garret; amava-os demais, porém, Garret era persistente demais... Ele não me deixaria em paz até que obtivesse as respostas que desejava.
Deixei minha mochila no quarto, enquanto pegava minha roupa de banho seguindo para o lago. As roupas permaneceram no celeiro, enquanto prossegui meu caminho pelo bosque; assim que atingi a área do lago, pude respirar mais calma, eu me sentia em paz ali.
Sentei-me próxima à margem que era limitada por uma faixa de grama separando o penhasco do lago; os ventos ali estavam mais frios devido ao oceano abaixo. Aquela imensidão azul engolia aos poucos os raios do pôr-do-sol.
Estava mais calma do que anteriormente, porém, os eventos de horas atrás ainda me perturbavam. Estava frustrada por não ter paralisado diante o último olhar de . Ele escondia algo muito maior do que havia descoberto.
Deitei-me sobre a grama, elevando meu olhar para o céu, o qual possuía tons de púrpura, um laranja suave e faixas de um vermelho meio rosado.
— O que eu ainda não percebi? — Questionei-me em voz alta, o som das ondas contra as rochas abaixo foi a única resposta que obtive.
Fechei meus olhos, inspirando e expirando repetidas vezes, esvaziando minha mente de pensamentos inúteis.
— Espero que não esteja planejando entrar no lago.
Uma voz grave e levemente provocativa me fez abrir os olhos; a figura alta e robusta de meu pai estava a poucos passos de distância, seus olhos possuíam um olhar misto entre a preocupação paternal e uma curiosidade.
— Hoje não. — Respondi-o, sentando-me.
Ele se aproximou e se sentou ao meu lado.
— O que está lhe perturbando, querida? — Meu pai me questionou num tom calmo, enquanto me abraçava de lado.
— Nada do qual lhe deva se preocupar. — Pousei minha cabeça em seu ombro, enquanto suspirava cansada.
— É meu dever como pai se preocupar! — Ele se virou para mim com uma mão sobre seu coração, enquanto dizia as palavras num tom dramático, arrancando-me uma risada. — Aí está o sorriso que eu amo, você anda muito séria, querida.
— Desculpe por preocupá-lo; estou com minha mente focada nas competições que ocorrerão no próximo mês... — deitei-me sobre sua perna, esticando minhas pernas sobre a grama. — E toda a questão sobre o clube de natação e o orçamento reduzido por conta daqueles bastardos. — Resmunguei em um tom baixo.
parece ser a fonte de seu estresse. — Meu pai me lançou um olhar questionador.
— Ele é mais como uma dor de cabeça da qual que não consigo me livrar. — Respondi-o, buscando tranquilizá-lo.
— Vocês dois são como faces opostas de uma mesma moeda. — Meu pai riu, levantando-se em seguida. — Venha, vamos retornar antes que sua mãe mande Garret atrás de nós. — Ele me estendeu a mão.
— Não queremos uma furiosa por nos atrasar para o jantar. — Abracei a cintura de meu pai, enquanto gargalhávamos de volta para a casa.
— Irritá-la é uma péssima ideia! — Ele reafirmou, enquanto atravessávamos o curto bosque que separava o lago do celeiro. — Não é algo racional fazer isso tendo-a como a responsável por sua comida!
— Terei isso em mente. — Concordei.

Adentramos a casa entre risadas. Meu pai era fácil de se conversar, ele me arrancava risos facilmente. Quando precisava ser rígido assim, ele era; um homem que eu respeitava sem comparação.
Admirava a relação de meus pais, minha mãe era uma mulher amável, mas essa não era sua única face! Ela era dona de uma personalidade forte, com um temperamento difícil, o qual todos os filhos haviam herdado — salvo minha irmã alguns anos mais nova que Hector. Meu pai era completamente apaixonado por minha mãe, cada olhar, gesto, palavra era permeado pelo amor... Ele era aquele que cedia quando discutiam, seu lado bem-humorado dobrava minha mãe.
— Mamãe estava prestes a me mandar atrás de vocês. — Garret surgiu das escadas com um olhar de diversão.
— Se está tão disposto após o trabalho que tivemos, ficará responsável pela louça do jantar. — Meu pai bagunçou o cabelo de Garret ao passar por ele.
Embora meu irmão fosse um homem adulto, era como se ele o enxergasse como uma criança.
Hey! Por que estou sendo punido? — Ele resmungou, enquanto seguia pela mesma direção que meu pai havia tomado.
Observei-os, rindo silenciosamente; nada como a vida cotidiana em meu lar para me fazer relaxar.
— Olha só quem ficou de bom humor... — Hector surgiu o meu lado, colocando seu braço sobre meus ombros, os cabelos úmidos e o odor de loção pós-barba indicavam que ele havia acabado de sair do banho.
— A mamãe vai nos punir se não nos sentarmos logo! — Desconversei, enquanto seguia em direção à sala de jantar.
— Se estiver a incomodando muito, Garret irá em seu auxílio. — Hector zombou, tomando o lugar à minha frente.
— Por que eu deveria ir, se você quem sugeriu tal ideia? — Garret rebateu, servindo-se.
— Como se eu precisasse de auxílio! — Fuzilei meus irmãos com o olhar, enquanto colocava a comida em meu prato.
— Sobre o que vocês estão discutindo? — Mamãe nos olhou com diversão, sentando-se ao lado de nosso pai.
— Algo sobre proteger nossa filha caçula. — Meu pai comentou com diversão, servindo minha mãe, antes de ele colocar comida para si mesmo.
— Protegê-la? Do que exatamente? — Minha mãe ofereceu um sorriso amável ao meu pai, antes de nos olhar com curiosidade.
— Nada, não dê ouvidos às bobagens que eles estão dizendo. — Ao notar que Hector se preparava para comentar uma gracinha, chutei-o por baixo da mesa, vendo seu cenho franzir.
— Está tudo bem com você, irmãozinho? — Garret zombou de Hector, sabendo o que eu havia lhe feito.
Pisei em seu pé ao lembrá-lo de ficar quieto.
— Comportem-se. — Meu pai nos repreendeu, antes de retornar a comer sua refeição.
— Crianças... — mamãe riu, antes de voltar para o seu próprio prato.

Logo após o jantar Garret, Hector e eu ficamos responsáveis pela limpeza. O que era para ter terminado de modo rápido, acabou se estendendo. Garret e Hector iniciaram suas provocações para cima de mim, o que gerou uma confusão naquela cozinha.
Ao repousar minha cabeça sobre o travesseiro, suspirei feliz, minha família era a melhor coisa que eu possuía; adormeci com um sorriso tranquilo nos lábios, embarcando num sono sem sonhos.



Capítulo 9

Minha respiração estava descompassada, enquanto me apoiava contra os joelhos. Naquela manhã de natal, havia escapado dos preparativos furtivamente. Hector e Garret me fariam pagar por ter os deixado, eu não conseguia ficar parada; as piscinas estavam fora de questão e o lago era algo completamente inviável...
Meus músculos ardiam, após os quilômetros percorridos. À minha frente, o extenso oceano de casas se estendia até o limiar entre a faixa de areia da costa do litoral. Era uma bela cidade, apesar de possuir pessoas desagradáveis.
Encontrava-me na colina do outro lado da cidade. Ali do topo, eu podia ver a fazenda dos meus pais. Meu celular havia ficado em casa, usava meu iPod para ouvir músicas. A brisa invernal refrescava meu corpo aquecido.
O colégio havia entrado em recesso devido aos feriados, com tempo de sobra, escapando dos meus irmãos mais velhos, levava as garotas do time para corridas ao ar livre e as fazia praticar algum exercício; com exceção à Valentine, minhas meninas estavam tendo uma dose extra de práticas, devido as condições físicas delas.
Ao longo daquelas semanas pré-preparatórias, fazia tudo o que estava ao meu alcance para desenvolver a performance delas. Na semana seguinte, as levaria ao local em que ocorreria as preparatórias antes dos torneios. Seria uma semana de classificações “esportivas” que não possuíam peso na classificação, só então viria os torneios municipais e regionais; o estadual ocorreria entre o fim de fevereiro e a metade de março viria o nacional, entre eles havia os torneios das cidades, nos quais ocorriam a temporada de “acidentes”.
— Entre as pessoas que esperava encontrar neste dia, , você seria a última em minha lista. — O tom arrogante, com um toque de presunção e excentricidade. “despejou” suas palavras, enquanto caminhava parando à minha frente.
Suas vestimentas eram finas e elegantes, denunciando sua fuga seja lá o lugar em que esteve anteriormente.
— Como se eu pretendesse o encontrar além do tempo em que tenho de suportar sua presença. — Rolei os olhos, levantando-me e espanando as folhas que haviam aderido minha roupa.
— Já disseram que suas palavras ácidas são um charme a parte? — riu com o que parecia... alívio?! Sua postura relaxada me deixava em alerta.
— Sim, ouço elogios como esse de sua boca em todas as vezes que nos reencontramos. — Comentei desinteressada, começando a me alongar. Com o corpo mais frio, teria de alongar para retomar à corrida. — Bela roupa, pinguim, atrás de uma princesa perdida? — Provoquei-o, encaixando os fones em minhas orelhas, mantendo a música desligada.
— E a boquinha atrevida de minha ataca outra vez! — me respondeu com sarcasmo, seus pés o moveram em minha direção, enquanto eu me afastava.
— O princeso não acha que vou deixar o incidente da piscina em branco? — Minha fala o parou, havia uma diversão em seus olhos, ao mesmo tempo que surgia um sorriso travesso em seus lábios.
— Faça o seu pior, , e eu te mostrarei como a realeza joga! — retrucou com o mesmo tom.
— Aproveite o feriado enquanto pode, majestade. — A ironia ácida escapava de meus lábios, enquanto voltava pelo caminho que havia tomado até ali.
— Eu mal posso esperar pelo seu movimento... e é “vossa majestade”, , dessa vez deixarei passar! — Ele gritou e como resposta, ergui minhas mãos, mostrando-lhe os dedos do meio.
Apertei o play de uma playlist aleatória e ignorei fosse lá seus últimos palavrões.



Capítulo 10

Não possuía o mínimo controle para encarar meus pais, mudando a rota e possuindo algum tempo antes das obrigações que não poderia escapar. Tomei a direção da casa de Roman, Becky estaria na casa de seu namorado e o arrastaria para jantar em sua casa naquele feriado.
Abri o portão destrancado, subindo os poucos degraus da entrada, antes de empurrar a porta; ouvindo o baque surdo no chão de madeira, encarei as figuras seminuas de meus amigos. Gargalhando, passei por eles, seguindo em direção à cozinha, na qual me servi com alguns copos de água.
Ao retornar à sala, eles haviam recolocado suas vestes.
— Malditamente imprevisível como sempre. — Becky fuzilou-me com seus olhos cinzas.
— Um charme, eu sei! — Pisquei um olho, pegando o controle da TV, colocando em um programa qualquer. — Vocês não trancam a porta, a culpa não é minha! — Dei de ombros, pegando o pacote de salgadinho.
— Você não deveria estar auxiliando sua mãe? — Roman dirigiu seu humor intragável em um tom ácido.
— E vocês não deveriam estar preocupados com outra coisa, além de fornicar? — Rebati, levando o salgadinho aos meus lábios sem me importar. — Não desejo ser titia tããoo cedo.
— Eu não sei onde estava com a cabeça, quando resolvi ser sua amiga! — Becky se levantou, roubando o pacote das minhas mãos.
Hey! Eu ainda não terminei de comer! — Puxei-o das mãos dela, o que gerou um “cabo-de-guerra” com a embalagem do salgadinho.
Estávamos tão focadas em ficar nisso, que nos assustamos com o telefone da casa de Roman. Uma chuva de batatas chips cobriu o chão, enquanto o namorado da minha melhor amiga me encarava nenhum pouco amigável.
— Atenda a droga do telefone, ! — Roman resmungou, massageando as têmporas.
— E por que eu deveria fazer isso? — Questionei-o, cruzando os braços.
— Porque te conhecendo bem, você escapou sem qualquer meio de comunicação e um dos seus irmãos está na linha! — Roman me respondeu “pacientemente”.
Acabei rindo de sua insatisfação e me movi pela sala, atendi-o ouvindo o tom grave de Garret proferindo palavrões, antes de se acalmar.
— Deixe-me adivinhar: você queimou os acompanhamentos outra vez. — Comentei com humor.
Mamãe vai te servir como prato principal se não voltar para casa. — Pelo tom de voz de Garret, dava para notar o quanto ele estava se segurando para não vir me buscar ele mesmo.
Se Garret havia perdido o controle, eu imaginava como estaria Hector... teria que dormir com um olho aberto!
— Chego em meia hora. — Desliguei a chamada antes que ele pudesse despejar mais uma onda de maldições. — Vocês não querem jantar lá em casa? — Retornei à sala, notando que Becky havia recolhido a sujeira.
— Três s extremamente imprevisíveis num mesmo lugar... não me parece prudente estar no meio disso. — A diversão brilhava nos olhos de Roman.
— Vou me lembrar disso quando eu pegar sua moto emprestada! — Apontei para ele, enquanto passava pelo casal. — Tenham um feliz natal!
— Nós também te amamos, ! — Becky riu, despedindo-se.
Fechei a porta, torcendo para que Hector não estivesse por perto. Eu teria que lidar com três s irritados, sendo um deles o responsável pela refeição de todos.
— Que meu pai esteja de bom humor! — Implorei a ninguém em especifico antes de correr, literalmente, contra o tempo.



Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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