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Última atualização em: 31/10/2021
Music Video: Black Swan - BTS

A primeira morte

alter ego
locução substantivo
1. um segundo eu; substituto perfeito.
"A sócia era seu perfeito alter ego"
2. grande amigo, pessoa em quem se pode confiar tanto quanto em si mesmo.
"Castor era o alter ego de Pólux"



O coração já não acelera mais
Quando escuta a música começar
Estou tentando levantar
Mas parece que o tempo parou
Essa seria a minha primeira morte
Aquela que eu sempre temi
Black Swan — BTS


— Nem sempre quando estamos em dúvida, significa que, de fato, deve haver desistência.
deu um pulo no lugar, completamente assustada. Poucos segundos antes de abaixar a cabeça para tirar a sapatilha, certificou-se de que estava sozinha.
Havia sucumbido às dores em seus pés cheios de calos pelo trabalho infinitamente dobrado nas últimas semanas, visando o teste para interpretar Odette e Odile em “O Lago dos Cisnes”. O ato dramático seria performado pela Companhia de Ballet Nacional da Coreia do Sul no Teatro Bolshoi dali a poucos meses e só Sang sabia exatamente como queria e ansiava por conseguir aquele privilégio de fazer os dois cisnes do drama. Interpretar Odette e Odile seria como se consagrar versátil e uma bailarina completa.
E isso, para o profissional de ballet, era se mostrar completo e quanto mais completo, mais perto da perfeição você estará.
Ergueu o rosto na direção de onde vinha a voz grossa e baixa, encontrando um homem alto e vestido totalmente de branco. Os fios do cabelo dele eram loiros e ela tinha a certeza de que aquela cor não era sua natural, mas de qualquer forma lhe caíam muito bem. O contraste era harmônico com o tom de pele não muito pálido dele. E não se lembrou de onde o conhecia, muito menos de tê-lo visto pelos corredores da companhia em seus três anos de casa.
Ela muito menos soube encontrar em sua memória como ele poderia saber o contexto a qual ela estava sentada naquele chão exausta, depois de muitos movimentos praticados, porque pela forma como se dirigiu a ela, o homem sabia muito bem sobre o que estava falando e como o fazer. Agora ele tinha sua total atenção, que o encarava de baixo.
— Me desculpe… — disse, sua voz saiu baixa. — Eu não… Eu não sei quem é você. — Franziu o cenho, olhando para os lados a fim de encontrar mais alguém. A dúvida de por onde e como ele havia entrado ali a rodeava como um carrossel que não para.
Ele sorriu, tirando as mãos dos bolsos da calça social branca e estendeu uma delas para que ela pegasse. De uma forma que não saberia explicar, estava se sentindo segura mesmo na companhia daquele estranho que nunca havia visto tampouco em seus sonhos.
Isso! Talvez ela estivesse sonhando, enquanto caía mais uma vez no sono na sala de ensaios. ficaria furioso se a encontrasse ali novamente, caída no chão frio e babando no próprio braço depois de se esgotar por tanto ensaiar — não era tão recente que ele tentava convencer de que ela já era muito capaz e que mesmo sendo midiaticamente exigido, no ballet se tratava de sentir o próprio corpo, pois a perfeição não era nada além de uma utopia.
Pegou a mão oferecida pelo homem e sentiu uma corrente quente por seu corpo ao tocar na pele macia daquela palma, em uma temperatura natural do ambiente. O seu olhar permaneceu fixo no dele enquanto se levantava e quando esteve em pé apenas poucos centímetros os distanciava.
— Me chamo — ele disse e ela pôde sentir o hálito quente dele bater em seu rosto. Estavam realmente muito próximos e agora ela já se questionava como aquilo poderia ser um sonho.
— Eu nunca te vi aqui. — A voz dela saiu falhada, estava hipnotizada demais por aqueles olhos mais altos que o seu e não se importaria depois caso tivesse torcicolo por ter que arcar a cabeça para olhá-lo.
— É porque nunca quis me ver, Sang .
Ela gostou de como o seu nome soou saindo pelos lábios dele e com aquela voz calma, grossa e inesquecível. Mas a hipnose durou pouco, logo vieram as dúvidas. O que ele queria dizer com isso? Como ela nunca quis o ver, se ao menos sabia de sua existência? E como ele sabia o nome dela?
Havia saído do último ano escolar em pouco mais de um ano, nunca mais tinha encontrado com nenhuma das meninas que costumavam pregar peças nela, como se aquele bullying fosse levá-las a algum lugar. Mas, mesmo assim, passou por sua cabeça que aquele momento fosse algum tipo de brincadeira de Choi ou Hyuna, o que lhe seria muito curioso; esperava que de alguma forma aquele tempo que se passou tivesse trazido alguma maturidade às duas.
— Ok, eu não vou cair nessa. — Soltou a mão dele imediatamente, se afastando.
— Não compreendo, Sang . — voltou as mãos para dentro dos bolsos.
— Você com certeza é algum amigo de Choi ou Hyuna, elas te mandaram aqui, não foi? — o acusou, dando mais um passo para trás, sentindo aquele aperto em seu estômago ao se lembrar do bullying que sofreu por todos os anos, desde o ensino básico, por ser diferente de todas as outras de sua turma.
Seu foco em ser bailarina a custou e muito desde criança.
— Ah, entendi… — Ele riu anasalado. — Bom, se estiver falando daquelas duas inconvenientes, pelo que lembramos, elas se mudaram para o Ocidente, não é? Eu sei o mesmo que você. — Deu de ombros.
Mais uma vez ela se sentiu confusa e agora começava a se assustar. Como ele sabia daquilo? Quem e o que era ?
E a elegância que ele tinha para proferir cada sílaba? Isso estava a deixando mais e mais, estranhamente, confortável.
— Como assim “lembramos”? — Começou a se sentir ofegante.
— Tudo o que você sente, pensa, se lembra, faz, eu também sinto, penso, me lembro e faço. — Ele deu um passo à frente. — Eu sou você, Sang .
O seu estômago pareceu revirar e tudo começou a girar. Que tipo de droga tinha em sua água? Porque aquilo com certeza era alguma distorção do seu cérebro sob efeito de algum entorpecente. Estava sozinha naquela sala, em um sábado à noite, como sempre fazia para ensaiar mais, com um desconhecido lhe dizendo aquelas coisas e mesmo que estivesse confusa e cética quanto aquilo, não conseguia se esquivar, sair correndo e chamar por ajuda. Se fosse algum abusador ou assassino, ela já poderia se considerar uma vítima fatal, pois não tinha nenhum indício de conseguir se defender.
Curiosamente, não queria.
Vendo que ela ficou em silêncio e sabendo estar imersa naquele mar dos próprios pensamentos confusos, sorriu de lado, se ajustando à forma necessária para que ela compreendesse sua presença ali.
— Me diz, Sang , quem é a pessoa que você mais pode confiar? — questionou.
— M-minha melhor amiga — gaguejou, um tanto incerta.
— Não, resposta errada — disse parecendo algo óbvio, caminhando para a direção da barra de ferro no espelho.
notou que o reflexo dele aparecia, portanto não tinha como aquele homem ser uma alucinação. Mas também real não poderia ser. Definitivamente não.
— Eu sou a pessoa que você pode confiar. — Se encarou no espelho, lançando, pelo reflexo dele no vidro, um olhar direto à . — Porque eu sou você.
Ela deu alguns passos à frente, parando pouco mais próxima dele e sentindo aquela necessidade de tocá-lo novamente. Os ombros largos embaixo daquele blazer branco eram convidativos demais e ela não conseguia mirar o olhar para outro ângulo.
— Eu estou ficando louca… — sussurrou.
— Não estamos. Essa é a sua realidade, é o que você precisa no momento, fechada nesta sala e exausta por tanto fazer e ainda não acreditar que chegou ao pontal do qual tanto anseia. — se virou, apoiando as costas na barra e cruzando os braços na altura de seu peito.
— Então me dê uma explicação mais clara e óbvia! Porque isso está sendo real demais para se acreditar em qualquer outra coisa — pediu parecendo mais desesperada, dando dois passos para frente e parando novamente a centímetros dele.
suspirou.
— Nem todos compreendem logo de antemão o que um alter ego é e de onde vem. Quando falamos sobre isso é a arrogância que logo surge à mente. — Passou a mão direita pela lateral do braço dela, segurando em sua mão por fim. — Inconscientemente você continua cética sobre a própria capacidade disciplinar, Sang .
Ela se manteve atenta em suas palavras, novamente sendo hipnotizada por aquele olhar. Seu corpo correspondia ao toque leve dele em sua pele, sendo suficiente para que sentisse os pelos arrepiados. Não sentia que era perigoso, mas sentia que aquilo poderia levar ao perigo — sendo completamente contraditório.
— Você sabe que ninguém nessa companhia tem a capacidade de fazer uma Odette com tanta delicadeza e, repito, ninguém nessa companhia teria a disciplina rigorosa para frequentar todos os ensaios e reproduzir todos os passos. — Entrelaçou os dedos nos dela, colando os corpos e inclinando o rosto para frente, apenas para continuar em seu ouvido: — É o seu nome que vai estar lá — sussurrou.
Não precisavam de muitas palavras, pois estavam em sintonia.
Quando as mãos ágeis de giraram o corpo de , ela respirou fundo, assumindo a postura que colocava em prática quando se concentrava para dançar. Os pés dela entenderam o que deveriam fazer e ficaram nas pontas dos dedos automaticamente, fazendo com que o rosto de se encaixasse perfeitamente na curvatura de seu pescoço com o ombro, do lado direito.
Conseguiu ficar ereta, encarando o horizonte da sala. A respiração dele ricocheteando em seu pescoço e reforçando a ideia descabida de que aquilo não era uma invenção da sua cabeça, tornando tudo mais real. Ela estava sentindo cada toque e o ouvia com clareza, não tinha como ser mentira.
— Sinta o próprio corpo, Sang . Sinta sua própria extensão sendo comandada por você e se sinta entregue a si.
Conforme suas palavras saíam, guiou as mãos pelas laterais da cintura de , parando na altura do quadril e a segurando firmemente, arrancando um arfar dela. E ela fechou os olhos, seguindo o que ele lhe disse. Elevou os braços acima de sua cabeça com muita delicadeza, fechando-os em um arco, os pés começaram a se mover em círculos nas pontas dos dedos e a guiava sem nenhum problema. Abrindo os olhos rapidamente, notou que agora ele estava descalço assim como ela.
As mãos firmes dele em sua cintura serviram como um combustível para que continuasse. Desceu os braços para a altura dos ombros, deixando equivalentes e retos, sentindo uma mão dele subir de sua cintura para deslizar por seu braço, pousando a palma em cima da sua que estava virada para baixo e simetricamente reta. O outro braço de foi para o alto novamente, conforme diminuíram a velocidade dos giros. Lentamente pararam no centro da sala e o braço firme de rodeou a cintura dela, virando o corpo em meio ângulo, para que a deitasse em noventa graus, apoiada nas pernas cruzadas. novamente fez o arco com os braços acima de sua cabeça, ficando naquela posição, sendo segurada por .
Ele a encarava imersa naquele momento, sentindo a região que ele tocava no corpo dela arder em chamas. nunca havia se sentido daquele jeito, tão firme sobre si e consciente do que queria.
— Qualquer outra pessoa teria caído no chão ao fazer esse meio ângulo, Sang . Mas você não. Você sabe se manter em qualquer movimento. — A voz dele estava bem próxima de seu ouvido e ambos ainda sustentavam a forma como pararam. — Não duvide da sua disciplina. Essa execução feita com tanta perfeição não veio de mim.
A mão que estava livre passeou pela cintura dela, chegando até a parte interna da coxa, coberta por uma saia curta e de tecido fino. Os dedos dele eram pontuais nos toques deixados por aquela extensão e novamente arfou. A última vez que havia sido tocada com aquela pontualidade fazia mais tempo do que se lembrava e não ser mais virgem lhe permitia ter certa noção de como gostaria de ser tocada por outra pessoa.
— Você não conhece o próprio corpo, o próprio limite e não compreende ser possível cuidar de si, enquanto é fiel ao que deseja. — ergueu a perna dela para a altura de seu tronco e mantendo o outro braço em sua cintura a ergueu no ar, causando aquela sensação de surpresa nela. — O que você deseja, Sang ? — perguntou, a voltando ao chão, deixando-a em sua frente e virada para si.
Sang estava mole, não conseguia calcular direito o que havia acontecido. Entretanto, ela já estava sentindo saudade do toque dele.
— Eu quero ser tocada, .
— Não, você quer ser a melhor e para ser a melhor, precisa se conhecer — a corrigiu, levando as mãos ao seu rosto.
abriu bem os olhos, encarando-o tão próximo, dividida entre olhar para cima ou para os lábios dele. Era muito convidativo, até mais do que aquelas vestes que o deixavam extremamente atraente. Ela não saberia explicar para si posteriormente como é que havia caído naquela hipnose perante um estranho que insistia em dizer que eram a mesma pessoa.
— Me ajude então… — pediu, tocando os ombros dele.
— Não peça isso para todos que aparecerem — respondeu como se aquilo fosse um alerta e ela concordou, mesmo sem entender.
O modo como ele correspondeu ao pedido dela passou despercebido por , que não podia afirmar mais estar ali 100% presente. Ela não acreditou que aconteceria, mas aconteceu, e ter os lábios dele nos seus foi como dar a uma criança o último doce existente no mundo. Começou por um beijo lento e próximo ao afrodisíaco, para chegar, por fim, a um ritmo mais acalorado e de necessidade. Queriam se explorar por todos os ângulos.
As mãos de foram rápidas tirando aquele blazer, revelando uma camisa regata, quase sem mangas, que deixavam os braços dele expostos. Ela queria apertar cada um deles, beijar, morder, e os queria apertando seu corpo. A camiseta logo teve o mesmo destino do blazer, indo para o chão, deixando o tronco de à mostra para que ela pudesse admirar como se fosse sua presa. Desceu os beijos pela mandíbula dele, passando pelo pescoço e alcançando o abdômen desenhado perfeitamente por músculos. Também queria deixar beijos, mordidas e apertões ali. Seu desejo era deixá-lo todo marcado.
Quando suas mãos chegaram à barra da calça dele, foi surpreendida pelos braços fortes que a puxaram para cima, a dando impulso para que rodeasse o tronco dele com as pernas. Novamente se beijaram e durante esse momento, ele a levou para a parte do espelho, a apoiando na barra.
Não teve preliminar, estava ansiosa e, consequentemente, também estava. Ele puxou a saia dela, junto com o short que estava por baixo, com muita pressa. Afastou a calcinha de sua entrada e ali logo colocou dois dedos, a fazendo sentir como estava úmida e pronta para quando ele fosse lhe penetrar.
Um grunhido por aqueles lábios, que já estavam vermelhos de tanto ela morder, a trouxe novamente para a superfície, encarando-o firmemente.
Os movimentos de vai e vem com os dedos pararam e ela o ajudou a abrir a calça.
Sang foi solta e virada para frente, ficando de costas para e com seu tronco apoiado na barra, estando empinada para ele. Sentiu um aperto forte em sua cintura antes da sensação prazerosa de quando ele finalmente a penetrou. Ela abaixou o rosto, encarando o chão quando conseguia manter os olhos abertos enquanto ele se movimentava — devagar, rápido, intenso, forte.
Ela sentia suas pernas moles, o suor escorrendo e gemia o nome dele. Pedia por mais, pedia por muito mais. E ele respondia como se fosse feito para isso, para viver as ordens dela.
Sentindo que iria chegar ao seu ápice, que depois de muitos anos teria um orgasmo, se sentindo bem e ao mesmo tempo libertina, ergueu o rosto. Não se assustou, mas achou curioso, estava tão imersa, que mesmo vendo pelo reflexo ele vestido e em uma espécie de caracterização de cisne branco, Sang não acreditou que aquilo fosse uma mentira.
Não era irreal, porém naquele momento ela estava caindo em sua primeira morte.


A composição

Não era Natal e em sua frente tinha apenas um simples papel que fora preso ali naquele painel por algum funcionário de pouco caso, mas para era como se tivesse milhares de pisca-piscas brilhando em volta do seu nome. O motivo de sua euforia vinha logo em cima, no título daquele comunicado que relacionava todos os bailarinos aos seus respectivos papéis em "O Lago dos Cines", o tão respeitado ballet dramático russo, que fora composto por quatro atos. E ela havia ganho a chance de interpretar a princesa Odette e Odile, o que caracteriza o grande desafio da performance deste drama. Ainda como adendo, o Ballet Nacional da Coreia do Sul iria performar no Teatro Bolshoi, mesmo local a qual o ato fora apresentado pela primeira vez em 1877.
Sang não estava cabendo em si.
Aish! Eu não peguei nenhum ato!
Como um despertador para seu devaneio, ouviu Leah reclamar logo ao seu lado. A olhou tentando recuperar o interesse no mundo exterior e voltou a segurar mais firme na alça de sua mala em seu ombro. Limitou o sorriso para não causar desconforto na única pessoa a qual ainda podia chamar de amiga.
— Não fica assim, Leah — suspirou, vendo a outra derrubar os ombros derrotada. — Eu tenho certeza de que houve algum engano, Sohoo logo aparece para consertar isso!
— Você é muito boba, . — Respirou fundo, voltando sua postura. — Sohoo me odeia desde que me encontrou com transando na sala dele. — Sorriu marota com a lembrança. — Mas enfim, não é sobre mim, é você! — Apontou para , vendo a amiga enrubescer no mesmo instante. — Eu vou morrer de trabalhar para comprar um ingresso e passagem aérea pra te ver de Odile e Odette no Bolshoi! Ah, se vou...
sorriu fraco, ainda desacreditada e muito envergonhada, deixando passar o comentário mentiroso da amiga. Ela tinha dinheiro o suficiente para ir e voltar quantas vezes quisesse e para onde quer que desejasse.
O abraço que recebeu de Leah foi suficiente para lhe confirmar naquele momento que nada era um sonho e todo o seu esforço havia valido totalmente a pena. Qualquer um daria de tudo para estar em seu lugar, muitos trabalharam pra isso e ela havia conseguido, dentre tantos outros nomes. O que lhe restava era se preparar para o início dos ensaios, teriam pouco tempo, mas ela gostava de metas e principalmente delas alcançadas.
Conhecia parte dos próprios limites e o processo de preparação para assumir o papel dos dois cisnes foi feito em cima de muita disciplina. Mesmo que fosse uma bem rígida e extremista, o papel ali no quadro não relatava as horas que ela gastou usando a sala de ensaio, fosse fim de semana ou não, horário útil ou não, de descanso, de dormir, de tudo, sem pausas.
— Eu não seria muita coisa sem você, seria? — questionou a amiga, rindo fraco. Emitir aquele riso ou o sorriso mínimo era sempre sua atitude de timidez.
— Seria sim, você já era a bailarina mais promissora desse país antes mesmo de me conhecer! — Leah rebateu, arrumando seu cabelo. — O Ballet Nacional da Coreia do Sul faz coisas boas, afinal, seria um erro impagável não ter Sang dentre esses nomes aí... Bom, você entendeu.
Olhando rapidamente para o lado, conseguiu entender o que a amiga à sua frente estava dizendo, ou melhor, sobre quem. Apenas piscou para Leah e se concentrou nos próprios pés quando curvou o corpo levemente para frente.
Seonsaengnim¹ — disse baixo, erguendo o rosto em seguida para encarar o professor em sua frente.
— Meus parabéns pela conquista, Sang — ele a respondeu simples, recebendo outro curvar de tronco da mesma. Então virou rapidamente para trocar um breve olhar com Leah. — Falei com Sohoo, ela irá te colocar na lista para o segundo ato, seu Pes de Quatre é irrecusável.
Nenhuma das duas respondeu ao professor, ele foi breve em suas palavras e o que fazia ali. Quando voltou a caminhar para outra direção, deixando o vislumbre de suas costas para Leah, as duas se encararam.
— Obviamente que ele iria falar do Pes de Quatre com uma entoação diferente. — deu uma breve gargalhada. — não esconde mais esse desejo por você, Leah.
— Ele é um idiota, para ser bem honesta, . — A amiga apenas revirou os olhos. — Até em casa ele já foi e eu mal posso ter certeza se o sobrenome dele é mesmo o qual diz ser — diminuiu o volume da voz.
— Realmente, ele é um homem muito discreto e reservado. Mas ainda assim basta qualquer um olhar a forma como ele te encara que vai pegar rapidinho que ali naquela cabeça roda todo tipo de pensamento libertino. — Como se parecesse algo óbvio, resolveu dizer, enquanto começavam a andar lado a lado em direção ao salão para o ensaio daquele dia.
— E o que você sabe sobre pensamentos libertinos, hein, Sang ? — Leah fingiu intimidar a amiga. — Porque até o ponto da história que eu sei, você nunca chegou a qualquer página a mais da classificação etária livre.
Sang parou para pensar por um momento em um acontecimento pouco recente que tivera ao estar sozinha. Compartilhava tudo com Leah, mas sobre sua intimidade, a qual vinha mudando desde que decidiu tentar o papel, ela não podia compartilhar. Como Bae Leah acreditaria que a amiga teve mais de uma experiência sexual, além da qual havia contado?
Às vezes nem ela mesma acreditava nas coisas que estavam acontecendo em sua vida desde que decidiu brigar por aquele ato.
Então optou por passar por isso de outra forma.
— E precisa saber com detalhes sobre esse tipo de coisa para comentar? — Deu de ombros, parando na porta da sala. — A questão é, Leah, ele te olha parecendo que você é a única pessoa neste mundo. Talvez seja apenas medo de encarar esses estigmas todos que envolvem um possível relacionamento entre vocês. Além de ainda estarmos numa sociedade conservadora. Me surpreende que Sohoo não os tenha denunciado ou algo do tipo.
— Mas ele-
— Você está sempre me dizendo que é isso, aquilo… Mas você já parou para pensar? Você é filha de um bilionário, quase dez anos mais nova que . Enquanto ele é seu professor e futuramente irá ser diretor da companhia, não acho que… — parou sua observação ao ver que ele se aproximava novamente, desta vez acompanhado do sempre falante .
, o falante, o simpático, o companheiro, o bailarino mais prestigiado daquela companhia nacional. Ele era simplesmente o sonho de consumo de qualquer uma das bailarinas que estavam naquele lugar, porque além de todas as suas qualidades profissionais e de personalidade, ele tinha aquela beleza de tirar o fôlego. por muito pouco consegue se controlar e não tem síncopes ao vê-lo, sendo o único homem real a qual ela sempre tivera aquele desejo de compartilhar tais atos libertinosos os quais estavam em pauta na conversa com a melhor amiga.
Ele a deixava sem palavras, mas ela tinha convicção total de que nunca teria qualquer chance. Era como nos filmes americanos em que o jogador de futebol popular somente se interessa pela líder de torcida. Neste caso, era o jogador e ela algo bem distante de uma líder de torcida. Porém, quem sabe se continuasse alimentando essa ideia, o filme seguisse o padrão de roteiro e acabasse como sempre: o popular jogador apaixonado pela moça nerd e fora do que era padronizado entre as mulheres.
Por sorte, ela pensou, não estavam em uma ficção e não precisaria lidar com o drama de uma rivalidade feminina por um homem. Mesmo que este fosse , ela não o faria.
— Para você parar de falar assim… — Leah sorriu ladina, olhando para trás rapidamente. — Sabia! — exclamou baixo e riu. — Quero só ver, você e o reizinho do ballet nacional contracenando como o casal apaixonado Odette e Siegfried.
respirou fundo, entrando na sala e deixando sua amiga rindo sozinha.
Tinha esse outro detalhe: seria o príncipe de sua Odette.

🦢


Não demorou para que todos estivessem organizados na enorme sala, parados lado a lado e caracterizados para aquele dia de ensaio, que seria o primeiro para “O Lago dos Cisnes”. ainda não cabia em si e sentia aquele frio na barriga percorrer por todo seu corpo; entretanto, o frio se misturava ao sentimento de cobrança consigo, ela havia conseguido o papel mais difícil, seria a protagonista e atuaria como os dois lados da história do drama: o do bem e do mal.
Podia sentir os olhares em sua direção, ouvia os burburinhos e captou a comoção de uma forma negativa. Deixou suas coisas no armário e juntou-se aos demais bailarinos dali, mas queria enfiar a cabeça dentro de um buraco cavado com a própria vergonha e selado com o medo. Estava extremamente feliz, mas em questão de minutos sua felicidade foi perturbada pelas milhares de preocupações que rondavam sua capacidade de dar vida e personalidade para duas personagens marcantes. Olhar naquela sala e visualizar cada rosto feminino a daria a chance de se questionar mesmo capaz.
Mas não o fez, preferiu encarar os próprios pés.
— Bom dia, alunos. — A voz de ecoou na sala e ela se viu obrigada a erguer o rosto. Sentia as próprias bochechas arderem como se estivesse dentro de um forno.
— Bom dia, seonsaengnim!
Responderam em uníssono, curvando-se levemente e educadamente, como a tradicional forma de demonstrar respeito ao homem mais velho e acima deles. Estavam no centro da sala, enfileirados em três linhas pela quantia de dançarinos, e logo a frente deles, com seu sorriso sempre cordial e sua postura estritamente profissional — para o desejo e anseio de Leah, que tanto o admirava sem preceitos.
Com a chegada e cumprimento dele, não pôde mais ser ouvido nenhum burburinho e não sentiu mais os olhares em cima de si. O frio no corpo, porém, permaneceu, intensificando quando se postou ao seu lado direito, por ser o último vago daquela primeira fileira. De canto de olho ela o olhou, sentindo o frio na espinha ser algo pulsante, como se fosse um aviso de alerta por estarem tão próximos e seu ombro coberto pela manga comprida do collant preto que usava sentia aquela sensação quente de dois corpos próximos, mesmo que não colados.
Sang sentiu não só o frio na espinha pela proximidade, mas algo em seus pensamentos acabou por descer até seu ventre, confundindo sua cabeça.
Por mais que já tivesse experimentado algo mais carnal quando teve um breve relacionamento com um americano que conheceu logo no início de companhia, ainda não tinha total conhecimento sobre o próprio corpo, a própria libido. Ela estava sim se descobrindo a partir do momento que decidiu se aplicar para o papel do ato, seus últimos sonhos poderiam soar um tanto perturbadores, inclusive um que tivera quando acabou dormindo na sala de ensaios em um de seus treinos no sábado próximo ao teste final — do qual não tinha conhecimento, ou teria a repreendido por se forçar demais. A questão era: ainda estava sendo tudo muito novo; ela teria de conciliar uma doce Odette com uma perigosa Odile, como se fosse mudar de água para o vinho, de fofura para sensualidade.
Era uma tarefa de dualidade banhada em um drama intenso, totalmente profundo.
— Primeiramente gostaria de expressar as minhas mais sinceras congratulações a todos que se empenharam para aplicação do teste para o ato — logo iniciou, olhando um a um. — Vocês todos foram incríveis e não me restam dúvidas de que iremos apresentar um bom trabalho no Bolshoi.
Todos bateram palmas no breve intervalo do professor, aproveitando a empolgação com aquele detalhe sobre o local de apresentação e assobiando. Algumas bailarinas se abraçaram, alguns bailarinos se emocionaram. A escolha para que o ballet nacional apresentasse aquele clássico do ballet dramático foi surpreendente, o convite feito ainda não havia passado pelo ceticismo de muitos, mas já era extremamente gratificante. A responsabilidade contava como um grande marco para a companhia e seus bailarinos.
E se entregasse um bom trabalho no grande e histórico teatro russo, a promoção para diretoria seria sua recompensa. Ele estava empenhado e tinha sua turma em sintonia com isso.
— Também quero deixar os parabéns à Sang . — Ouviu o seu nome e o coração disparou com toda a atenção que passou a receber pela fala dele. — Odette e Odile estarão em boas mãos.
Novamente a sala foi inundada por aplausos, porém sem tanta euforia. Ela sabia como era querida pontualmente apenas por um ou dois dali, mas ainda assim estar ciente de tal fato não foi suficiente para a deixar indiferente, sentiu-se sim abalada e tocada com aquilo. Não evitou mover a cabeça para os lados, murmurando um “obrigada” como forma de educação, sendo que no fundo estava memorizando mais uma vez quem a olhava com escárnio e quem realmente a aplaudia, além do gesto robótico e educado.
Para sua surpresa, sorria ao seu lado, olhando-a com o característico olhar tão marcante que tinha. Sorriu um pouco menos fechado para ela e logo sentiu a espinha novamente pulsando ainda mais, lembrando-se que ele faria seu par romântico. Na história de Tchaikovsky, Odette e Siegfried se apaixonaram intensamente.
— Então, podemos iniciar nossos ensaios? — abriu mais o sorriso, cessando os aplausos e momento de comoção, trazendo de volta a atenção para si. Mesmo à contragosto, virou o rosto para frente. — Hoje gostaria de começar pela adaptação dos nossos personagens. — Colocou as mãos nos bolsos de sua calça de moletom, mas a mão erguida de Sarang o fez pausar sua linha de raciocínio. Assentiu para que ela perguntasse ou dissesse o que queria.
terá alguma substituta para caso perca a postura, quebre algum membro ou passe mal de ansiedade? — Seu sorriso tentava conotar humor, mas não era possível ver nada além de uma extrema arrogância e soberba.
Leah, que estava na outra ponta da fileira, riu fraco, colocando as mãos na cintura. Recebeu o olhar cortante de , que já sabia a capacidade dela de não segurar a própria língua dentro da boca, pedindo por meio daquele contato que não dissesse nada ou sequer desse algum palco para que Sarang tivesse a atenção que pedia. Apesar da idade média naquela turma ser 25 anos, ainda era comum muitas atitudes competitivas com a mentalidade de uma criança sem princípios básicos.
— Sim, Sarang. Teremos uma substituta. Isso será escolhido nos próximos dias, porque dependerá da performance de vocês — o professor explicou pacientemente como sempre, sob o olhar incisivo e duro de Leah.
queria que ela parasse de o encarar daquela forma, era terrível e poderiam ser notados pelos alunos; somente Sohoo saber sobre eles naquela companhia já era extremamente preocupante, se adicionasse mais nomes a esta lista ficaria quase impossível de sobreviverem na enxurrada de críticas submersas no conservadorismo comum.
Sarang manteve o sorriso, sentindo-se vitoriosa por notar a instabilidade que gerou em . As duas trocaram um breve olhar, apesar de ser completamente explícito que a protagonista tinha virado o rosto em noventa graus para encarar a outra diretamente enquanto retornava suas explicações sobre como iriam seguir os ensaios dali por diante — uma vez que nem toda aquela turma estaria encenando o drama, no máximo quinze bailarinos já se fazia suficiente e ali tinha vinte.
— Eu não me preocuparia com ela, se fosse você.
Sang levou um susto ao ouvir a voz baixa de em seu ouvido, no mesmo instante que voltava seu rosto para frente. Virou para ele, olhando-o enrubescida.
— Desculpe? — perguntou confusa.
— Você está aqui há bastante tempo para saber que Sarang tem o cérebro no lugar errado do corpo — ele continuou, o mesmo tom de voz baixo, apenas para ela ouvir. E podia sentir o frescor do hálito dele, inebriando-a.
— Lugar errado? — Foi a única coisa a qual ela conseguiu pensar rapidamente para responder.
— Sim, nos pés. Apesar da soberba e de ser extremamente arrogante, ela é uma boa bailarina.
— Ah… — sua resposta saiu mais como um murmúrio ao alento e riu fraco, virando-se para frente, prestando atenção no que era dito.
— Então como vocês sabem — parecia muito empolgado com a história que estava contando sobre o drama —, a primeira versão de O Lago dos Cisnes não foi o sucesso que ela representa hoje, somente a partir da segunda montagem da peça que se tornou essa referência clássica. Mas o que faremos irá beirar o original de Tchaikovsky.
— Com sua licença… — ergueu a mão, falando mais alto, e recebeu o olhar de baixo vindo de . Ela estava atenta nele como nunca antes. Quando recebeu a permissão para falar, continuou: — A verdadeira história do drama é completamente obscura, seonsaengnim. Foge dos contos de fadas.
— Sim, , Odette e Odile não possuem um final tão feliz como é comum se ver. Entretanto, apesar das versões já apresentadas em filmes, desenhos ou até peças serem incríveis, iremos tratar a original. O bom amador do ballet clássico irá reconhecer isso.
Um burburinho cresceu, novamente deixando atônita e preocupada, além de atenta.
— Mas no original, o drama cru, Odette se mata por descobrir que Odile ocupa o seu lugar — Leah disse, cruzando os braços. — Iremos encenar isso? Digo, terá de encenar o suicídio?
— Sim. — A resposta curta de cessou os comentários que eram feitos e ele mirou diretamente a direção da escolhida para protagonizar, dizendo: — Você vê algum problema nisso, Sang ? Sente-se inapta para protagonizar o drama?
Em uma visão panorâmica, encontraria todos os olhares em si, com a expectativa de sua resposta, incluindo sua colega nem tão adorável, Sarang. Ela não queria vacilar, permitindo-se comparar a outra com uma cobra peçonhenta, rastejando em volta dela pronta para lhe dar um bote. Analisou a si, sentindo-se pressionada a fazer seu melhor, mas também em demonstrar para quem a observava que não era uma escolha errada, que poderia sim fazer a tão obscura e problemática Odile, assim como a doce e injustiçada Odette, transformada em cisne para não viver um amor.
Mesmo que não compreendesse ainda como era a grandiosidade de um amor, de uma relação afetuosa e de ser correspondida, ela poderia trabalhar nos dois personagens com o que tinha. E ela tinha vontade, desejo, anseios… Tinha, acima de tudo, a necessidade de superar, protagonizando o que caracteriza o maior desafio de uma bailarina.
A dualidade de um Yin e Yang, basicamente,
— Não, seonsaengnim, eu não vejo nenhum problema. — Se manteve firme na própria postura, mesmo notando a movimentação inquieta de Sarang. — É o meu trabalho e eu me preparei para isso.
O sorriso de não era grande, mas demonstrava a satisfação de sua escolha.
— É claro que não existe melhor ou maior, o que nos difere são características. — Acenou levemente, olhando para ela e mantendo o sorriso casto. — Espero que compreenda as suas. Que sua Odette e Odile sejam bem-vindas.
Trocou um breve olhar com a amiga do outro lado e sorriu em resposta ao largo sorriso dela, sabia que se estivesse ao seu lado, Leah diria coisas motivacionais e, muito embora tenha se controlado, provavelmente teria discutido com Sarang em sua defesa.
— Bem, então coloquem-se em seus lugares, vamos começar aquecendo — ditou e se virou para a direção da porta, em que ficava a aparelhagem de som. — ! ! — Os chamou, virando-se rapidamente durante seu caminho.
— Sim? — responderam juntos, trocando olhares rápidos.
— Venham aqui, por gentileza.
olhou curiosa para , como se esperasse que ele a dissesse alguma coisa que pudesse lhe preparar para a aproximação do professor. Ela deveria se acostumar com a rotina que passaria a ter, se tornando mais comum a aproximação com o bailarino que ela tinha aquela certa admiração e o professor do qual tinha vergonha, por saber um pouco demais do que deveria — vide a amizade com Leah.
Caminhou com até o mais velho, abraçada ao próprio corpo e sentindo os passos serem dados com tanto cuidado por sua parte, como se estivesse extremamente com medo de pisar em falso e torcer os próprios pés. Ela queria se manter blindada aos comentários e energias negativas que recebia, mas a sua vida não se via livre da ansiedade há tempos. Qualquer comentário, olhar ou até o mínimo suspiro ao seu lado a fazia entrar em uma zona de desconforto, como uma bomba prestes a implodir.
E a vida, crescendo no desejo de ser uma bailarina, nunca cooperou para que tudo ficasse bem. buscava a perfeição em tudo, já que sua única professora durante a infância e adolescência a convenceu rigorosamente que para ser uma excelente e completa bailarina, precisava ser perfeita. Sem excesso de peso, sem muita maquiagem, mas também com o suficiente para a deixar deslumbrante, sem roupas extravagantes e sim um estilo elegante que a fizesse marcante, o cabelo sempre comprido para poder fazer o coque assimétrico e com todos os fios no lugar ou teria de usar gel em exagero e isso não deixaria uma aparência agradável — não era seu cabelo preso que deveria brilhar em cima de um palco e frente à audiência do espetáculo, mas sim seu corpo em movimento e sua postura incorrigível por ser perfeita.
— Você pensa demais, Sang .
Estavam a um passo do professor e ela ouviu a voz de soar grossa e rouca em seu ouvido. Virou-se para ele um pouco surpresa, mas ele não a olhava e nem ao menos parecia ter movido os lábios, já que mantinha aquela mesma feição de quando começaram o curtíssimo caminho até .
— Oi? — perguntou por reflexo a ele, que apenas a olhou confuso. — Disse alguma coisa?
— Não. — franziu o cenho e neste mesmo instante eles estavam parados onde o professor tinha chamado.
Sentiu um arrepio correr seu braço e abraçou mais ainda a própria cintura, lembrando-se novamente dos sonhos que estava tendo nos últimos tempos. Adicionou um lembrete mental de que precisava relaxar um pouco, já que havia ganho o papel e não precisaria mais se esforçar tanto para aquela conquista, o esforço agora seria outro. E todo o trabalho que havia colocado em sua daquela realização esteve a deixando muito sobrecarregada, estava quase certa de que o cansaço vinha sendo seu maior inimigo, a fazendo cair em alucinações ou até mesmo ouvir coisas.
Como aconteceu naquele momento, achando que estava puxando papo com ela, fazendo um comentário em tom preocupado, protetivo.
— Eu vejo que vocês dois estão em bastante sintonia! — encarou os dois bailarinos parados em frente a ele, sorrindo casto, como sempre. — Isso é muito importante, entendem?
— Sim, senhor — foi o primeiro a responder.
Obviamente que, pela timidez e a falta de confiança, apenas acenou positivamente.
— Siegfried e Odette se apaixonam profundamente, seria como um Romeu e Julieta, porém com uma base mais trágica e… Sombria. — Ele leu algo no papel que tinha em mãos e entregou uma cópia para cada. — Nosso Lago dos Cisnes será diferente dos que já foram produzidos. É de extrema importância que façamos um bom trabalho em cima daquele palco, Bolshoi não é para qualquer um.
começou a ler brevemente a introdução que tinha em suas mãos. As palavras “amor”, “ódio” e "morte" estando grafadas, sendo impossível de não ler ou bater o olho e se assustar. Nunca imaginou que o professor seria capaz de trabalhar com eles um drama tão marcantemente triste, profundo e intenso. Se lembrou de peças que já havia visto e que foram de tom agradável, nada de um conteúdo tão sensível quanto ao que havia preparado para eles apresentarem dali poucos meses no famoso e respeitado Teatro Bolshoi na Rússia.
O frio na espinha que sentia ao estar do lado de , inalando o perfume inebriante dele, agora a acometia pelo medo. Era o receio de não ser perfeita novamente a consumindo, como se ali de seu lado estivesse a professora russa que lhe ensinou ballet por anos dizendo todas as suas imperfeições que deveriam ser corrigidas — infelizmente Andrea Putnikov tinha falecido logo no primeiro ano de na companhia; apesar da característica tortuosa de seu método de ensino, se hoje ela estava no Ballet Nacional da Coreia do Sul, devia muito à Andrea.
Talvez fosse quase impossível de acreditar, mas Sang nem sempre teve tamanho equilíbrio sobre os pés e isso ela evoluiu com o tempo e a rigorosidade da professora.
— Odile é como uma sombra na vida de Odette, causando dor pelo seu ódio de não ser ela a escolhida por Siegfried. Enquanto nessa busca dela de ser o que não é, ele se perde pelo feitiço que Rothbart o lança. — A explicação de traz em seu tom toda a expectativa dramática imposta por ele na construção dos atos. — Quero que leiam e ensaiem juntos, preciso desse príncipe em perfeita sintonia com a rainha dos cisnes e completamente enfeitiçado pela filha do mago.
Ele os deixou com os papéis em mãos, voltando para o centro da sala e começando a organizar a turma para aquele primeiro dia, em que organizaria toda a dinâmica de ensaio, afinal eram quatro atos a serem feitos em cima de um palco extremamente importante.
olhou do papel para , ela demorando a erguer o rosto em sua direção após sentir estar sendo observada.
— Eu posso vir aos sábados, se quiser — a disse de forma amena.
— Mas sábado o prédio está fechado.
— Você tem uma chave, Sang . Já te vi inúmeras vezes aqui, até porque eu também tenho a minha. — Sorriu ladino, caminhando para a direção oposta.
A ansiedade a atingiu, acompanhando os passos de para a direção dos armários, talvez intencionado a guardar o papel em suas coisas. Ela podia sentir a respiração rápida e ofegante, só de imaginar que poderia ter a visto nos ensaios e, um dia específico, de duas semanas antes, quando ela acordou deitada no chão frio e completamente bagunçada, causou um estado perturbador em sua cabeça.
O que tanto já havia a visto fazer aos sábados?

🦢


Ao contrário do que pensou Sang , o primeiro dia de ensaio para a apresentação não foi tão longo e muito menos cansativo, totalmente o oposto, a proposta foi de algo mais intimista, o que ficou claro que seria a base usada por para unir todos os atos do drama. Quando ouviu a voz firme dele dizendo que estavam dispensados, porém, ela deixou o corpo cair no chão da sala, batendo as costas quase nuas pelo decote do collant, contra o piso frio. Ficou ali olhando para o teto branco, com os diversos pontos de luzes espalhados, tentando respirar normalmente enquanto ouvia os passos apressados em direção à saída.
A sensação em seu corpo era do mais puro êxtase. Mesmo que tenha sido uma manhã de passos simples e introduções do que deveriam passar cada um individualmente nos respectivos personagens feitos, ela estava um pouco deslumbrada em como foi o objeto de maior holofote durante aquelas horas, sendo observada e o nome mais repetido dentre todos, incluindo o de . Isso, em dias normais, dificilmente aconteceria, já que era a bailarina reclusa, sempre afastada, apenas observando e desejando que não fosse notada.
Estava se sentindo estupenda e ainda não cabia dentro de si. Talvez sua ficha nunca cairia; como iria acreditar que ela, justamente ela, ganharia o papel de Odette e Odile? Se fosse apenas o da primeira seria mais fácil de acreditar, já que não necessitava de tamanha ousadia para reproduzir os movimentos.
— De modo algum a senhorita vai ficar aqui, sorrateiramente… Te conheço, Sang , está só se fazendo de morta para poder ser esquecida nesta sala.
A voz soprana de Leah ecoou em seus ouvidos e ela abriu os olhos, se deparando com o rosto da amiga acima do seu, ela estava curvada em sua direção e fazia sombra por tapar a luz. Não evitou revirar os olhos, fechando-os novamente.
— Não estou me fingindo de morta, Leah — respondeu em murmuro.
— Está sim, todo mundo sabe que você subornou Sohoo para ter uma chave deste prédio e fica aí, todo final de ensaio, tramando o jeitinho de ficar aqui para ensaiar mais e mais — Leah insistiu.
Novamente abriu os olhos, deixando apenas um fechado.
— Equivocada como sempre. Estou apenas contemplando meu espaço, meu momento — se justificou, com o tom de voz aumentando um pouco.
— Você tem cinco segundos para se levantar e ir em direção àquele armário. — A amiga era insistente. — Vamos, , embora! Casa, cama, banho, relaxar… A palavra descanso precisa entrar na sua rotina.
— É o que eu estou fazendo agora, Bae Leah! — Os olhos se fecharam mais uma vez.
— Descanso e casa, duas palavras que se completam! Vamos, levante!
bufou, abrindo os olhos ao sentir a amiga pegar em seus braços.
— Já te disse hoje como você consegue ser bem insuportável quando quer? — Aproveitou o auxílio de Leah para se levantar, demorando um tempo a se acostumar com a leve tontura que lhe atingiu.
— Insuportavelmente adorável e preocupada com você. Um dia serei agradecida por isso.
À contragosto, deixou que a outra virasse seu corpo pelos ombros, sendo empurrada e então obrigada a caminhar para a direção do armário na entrada da sala. Ao abrir sua cabine, pegou a mochila a trazendo mais para frente e se abaixou para tirar as sapatilhas e calçar os sapatos que tirou de dentro do compartimento, enquanto Leah dispersou em conversa com outra pessoa que ela mal teve interesse em ver quem era.
— O que é isso?
Olhou para a direção da voz grossa e encarou com surpresa, acompanhando a movimentação dele com o olhar. Quando ele se abaixou por completo, ficando na altura dela por seus joelhos tensionados, passou a olhá-la diretamente nos olhos.
— São pés? — respondeu por reflexo, notando que ele estava encarando aquela parte de seu corpo.
— Eu sei que são pés… — Ele a olhou rindo anasalado. — Não que eu tenha visto pés de bailarinas e bailarinos serem bonitos, mas o seu… — A encarou mais incisivamente. Umedeceu os lábios para continuar suas reticências, puxando para uma pergunta: — Sang , quanto tempo você gastou treinando aos finais de semana? — Seu tom era firme e acompanhava o vinco no cenho.
A boca dela se abriu em um perfeito “O”, sem resposta, pensando que parecia uma situação em que ela tivesse sido pega na curva, depois de fazer algo completamente errado. Sua ação reflexiva foi recolher os pés e contorcer os dedos, enquanto buscava algo a ser dito como desculpas, até porque não existe um mundo em que você justifique para um dançarino de ballet profissional que seus pés calejados são apenas calejados e com uma aparência medonha porque a natureza quis assim.
Aquilo estava denunciando como ela tinha passado de todos os limites conhecidos ao se forçar ensaiar vinte e quatro horas por sete dias da semana; inclusive, se Sang pudesse, teria criado mais horas no dia para que ensaiasse, a fim de encontrar a perfeição que sempre esteve buscando.
— Não sei do que está falando — respondeu com pressa, saindo de seu devaneio para assumir as bochechas enrubescidas e o desejo de sair dali o mais rápido possível.
— Sabe sim! — ele respondeu, acompanhando-a se movimentar apressadamente para colocar os sapatos nos pés descalços.
— Não. Eu não sei. O prédio é fechado aos finais de semana, ninguém vem aqui. — Ainda não conseguia o encarar novamente, terminando de colocar o último calçado.
— Sang … — tocou o braço dela, na altura do cotovelo, fazendo-a o olhar. — Não seja desajuizada e se cuide. Você já fez o que precisava e conseguiu o papel. Agora precisa ter sabedoria-
, você nunca conversou comigo uma palavra sequer. E eu realmente não sei do que está falando — ela o cortou, se surpreendendo ao dizer sem nenhuma hesitação ou trepidação em sua voz. — É apenas o pé de uma bailarina, não deveria estar surpreso, já que você mesmo troca seus sapatos longe de todos.
Ela puxou o próprio braço, se apoiando para levantar rapidamente, ignorando a tontura mais uma vez. Se virou para o armário e puxou o sobretudo preto que usaria por cima da roupa de ballet, completando-se com o cachecol e a touca; pegou a mochila de dali de dentro, ainda no mesmo movimento rápido e com todo o seu corpo desejando sair o quanto antes possível. Dentre todos os fatores que a guiavam nesse desespero, o principal era a surpreendente situação de estar conversando com .
Se sentia patética por isso.
— Você precisa se cuidar, Sang . Não é porque não somos próximos que eu não vou deixar de me preocupar em ver isso… — Ele parou ao lado dela, apoiado no armário fechado com o lado esquerdo de seu corpo e com o outro braço, moveu-se para segurar a alça de sua mochila transversal.
— Não se preocupe, não vou colocar Odette e Odile em risco. Eu sei o que estou fazendo. — Bateu a porta do armário e suspirou. — De qualquer forma, obrigada pela preocupação.

Não esperou pela fala completa, apenas se curvou rapidamente e seguiu em direção à saída, se tivesse muita sorte, conseguiria sair do prédio sem que Leah aparecesse em seu caminho para lhe torturar com algum papo sobre ou a ditando que deveria mudar algo. Entretanto, se tinha uma coisa que Leah estava certa sobre, então era que ela precisava de um descanso e faria isso, chegaria em casa o mais rápido possível e depois de se alimentar, passaria algumas horas da tarde dormindo.
Ia esperar pelo elevador, mas ouviu a voz dela, então decidiu que iria pelas escadas. Contudo, Bae Leah era insistente.
Não à toa ela fora a única a não desistir do seu jeito introvertido.
— Sang ! — Ouviu seu nome e parou no lugar, ainda sem descer um degrau sequer, pressionando os olhos. — Não acredito que você iria embora sem me dizer tchau.
Se virou para Leah, deixando o sorriso automático sair. Não é que a amiga fosse chata ou inconveniente, mas ela ainda não sabia conviver com tanta atenção da outra, mesmo que já passasse um pouco mais de três anos que se conheciam e conviviam todos os dias úteis da semana. Em certo ponto, toda a comoção de Leah era compreensível, seus pais viviam ocupados demais para que ela pudesse gastar aquela energia em família, então isso transpassava para a amiga.
— Eu vou te oferecer uma carona e você vai aceitar. — Quando se aproximou, Leah passou o braço direito pelo ombro de , iniciando com ela a descida.
— Já disse que não precisa se preocupar comigo, Leah. Eu vou bem andando — respondeu manhosa, isso era outro detalhe que ela vivia negando: as caronas de Leah. Por incrível que pudesse soar, a outra, mesmo em todos os anos corridos, não sabia onde ficava o flat em que Sang morava ali mesmo em Seocho, bairro do grande Centro de Artes de Seul.
— E se arriscar nesse frio? Arriscar escorregar no chão liso pela neve derretida? — Riu anasalado. — Não, a senhorita vai me dar o prazer de levar para casa a bailarina protagonista do grande espetáculo que irá estrear no Bolshoi em poucos meses!
— Leah… — Sang suspirou, estava cansada.
, por favor?
As duas pararam no hall entre um lance de escada e outro, olhando-se por poucos segundos, até se dar por vencida. Ela tinha de ser coerente e confessar que Bae Leah conseguia ser extremamente incisiva em seus pedidos, méritos dela ter aguentado tanto tempo.
— Tudo bem — por fim, disse, retornando a andar.
Demorou um pouco para que Leah saísse do lugar, estando petrificada com a resposta. Achou que iria ser obrigada a encher mais o saco da outra para poder finalmente a dar uma carona, depois de muito tempo de insistência.
— Eu não estava preparada para esse aceite. — Riu, andando apressada para alcançar no final do lance de escada.
— Nem eu. — A resposta veio curta e baixa.
Optou por ficar em silêncio e agradeceu mentalmente que a amiga fez o mesmo, andando lado a lado.
Porém, como de costume, não demorou muito e Leah andava ao seu lado totalmente falante. Tagarelava coisas aleatórias sobre o dia, o movimento das pessoas naquele caminho feito até o estacionamento, incluindo suas ideias novas para o cabelo naquele mês, principalmente pela chegada do inverno. Algo teria que combinar melhor com os casacos comprados da Chanel que ela adorava.
Mas nada disso foi tão absorvido por e não porque ela estava desinteressada na vida da amiga e sim pelo cansaço que seu corpo começou a receber, como se fosse possível que o tanto de comentários recebido até então durante aquela manhã ao meio-dia, fossem capazes de a deixar mesmo cansada e a influenciar a desejar mais do que nunca um banho quente e a cama fofa, além do carinho de Huwei, seu gato persa.
Quando chegaram no carro de Leah, ela abraçou mais o próprio corpo, lembrando-se de sua mãe e seu pai, que naquela hora deveriam estar tentando aproveitar ao máximo algum bar dentro do resort que haviam escolhido para passar as férias de verão do hemisfério sul do ocidente, mais precisamente: Brasil. Ela com certeza sentia falta deles, mas se perguntava como teria sido caso ainda morasse com os dois e tivesse que ter atenção às outras preocupações, tomando seu foco dos ensaios extras que fez para concluir seu objetivo. Mas afastou o pensamento assim que entrou no veículo, suspirando de forma longa. Pelo menos a essa altura ela contemplava o silêncio que queria e ansiava por ter durante o tempo da curta caminhada com Leah até o estacionamento.
Sentou-se no banco ajustando o cinto de segurança, enquanto a amiga fazia o mesmo do lado do motorista, e pousou a mochila em seu colo, sem tirar a alça de seu ombro, também tombando a cabeça para a janela, deitando-a ali. No rádio que foi ligado assim que o carro teve o mesmo início, tocava uma música tranquila, de melodia lírica, e ela pôde jurar estar ouvindo alguma sinfonia de Beethoven; mas embora estivesse interessada a falar sobre o compositor alemão, queria continuar com aquele ambiente quieto. Seu pensamento nunca havia estado tão calmo nos últimos tempos e, por mais bizarro que pudesse soar, o cansaço estava lhe caindo como uma luva para influenciar sua calmaria.
Contudo, como nem sempre as coisas são conforme é desejado, quando o carro começou a se movimentar para fora da vaga estacionada, sentiu seu coração saltitar ao ver parado na área das motos. Leah guiava a direção do veículo para fora dali, rumo à saída para a avenida, o que fez com que passassem do lado dele e a uma velocidade extremamente lenta — ou a sensação de lentidão tenha sido apenas salientada por sua vontade de ir embora logo e de fugir de qualquer pensamento ansioso causado por simplesmente olhar aquele homem.
Achava que conseguia controlar e que aquele tipo de sentimento não fosse mais tão real a ponto de viver a perturbando quando o via, afinal dividiam cinco manhãs inteiras por semana, no período útil. Ele só era o homem mais bonito que ela viu em toda sua vida, mas só isso, ninguém com que ela pudesse sonhar alto ou desejar mais do que aquela preocupação demonstrada por conta da consequência que sua irresponsabilidade poderia causar negativamente no espetáculo.
Suspirou, notando o peito inflado diminuir drasticamente, o que trouxe para ela a atenção de Leah mais uma vez e sem ser algo novo.
— Eu vou precisar que você me diga seu endereço, bonitinha. — Ela riu com o próprio comentário, o seu tom agora era menos necessário e mais ameno, como se entrar naquele carro tivesse sido algum tipo de portal do qual levara as duas para uma dimensão de tranquilidade. Um universo dos múltiplos existentes em que Bae Leah era a introvertida.
— Vou colocar no GPS — a respondeu, curvando-se para o painel do carro e iniciando a digitação na tela do computador de bordo.
me chamou para jantar hoje — Leah iniciou o assunto, ainda com o tom ameno. Pelo assunto, deduziu que aquela calmaria da amiga só poderia ter aquilo como significado.
Ergueu o rosto na direção dela, ainda com o corpo curvado e o dedo indicador a poucos milímetros de tocar o LCD da tela.
— E? — incentivou que continuasse.
— Eu aceitei. E depois do jantar iremos ao cinema.
O sorriso simples e ladino de Leah, enquanto concentrada no caminho sendo feito, trouxe para um aquecimento em seu coração. Sabia como era importante para a amiga que houvesse aquele interesse sólido por parte do outro, já que ela estava imergida em tanto sentimento por, pelo menos, dois anos. Se lembrava de quando a ouviu lhe contar como a primeira vez, na sala privada dele, tinha acontecido e de forma totalmente cabal. As seguintes envolviam mais detalhes explícitos, dos quais ela sabia que Leah só lhe contava por ter extrema confiança em si e não ser alguém que fosse a julgar por ter atitudes tão promíscuas.
Não era de sua alçada, como iria se intrometer no que o outro fazia pela própria vida? Pelo que ela sabia contar, e levava consigo como um mantra ou fosse lá como chamar o lembrete, tinha apenas dois pés para andar e isso já era suficiente. Como seria capaz de andar com o dos outros para os outros?
— Espero que tudo dê certo — disse, voltando o corpo para o encosto do banco, com o GPS ajustado. — Já sabe que roupa irá usar? — optou por puxar o assunto, cancelando o desejo por se manter quieta, era sua amiga ao seu lado, feliz por uma conquista ansiada.
— Sim! — O sorriso ladino se tornou frontalmente reto. — Mas não acho que preciso me preocupar com isso, assim, um encontro com ! — completou, alargando aquele formato em seus lábios.
Se estivesse de noite e a rua escura, com faróis queimados, não teria pelo que se preocupar, o sorriso de Leah iluminaria tudo, também pelos dentes brancos, mas a radiante energia que carregava era a principal aposta.
— Fico feliz que ele tenha tomado a iniciativa.
— Eu também, ! — Deu um tapinha no volante, animada. — Só me pediu para irmos em um lugar mais afastado de Seocho, para não corrermos perigo de sermos encontrados.
— Já parou para pensar como vai ser quando ele assumir a diretoria da companhia? — Ela não queria ser chata ou uma estraga prazeres, mas era um questionamento a ser feito que Leah não poderia tardar. Assim que o cargo fosse ocupado, precisaria se restringir mais.
Pelo canto do olho ela notou a hesitação de Leah, que mordia o lábio inferior, tensionando os dedos fechados no volante e pressionados fortemente.
Seu estômago revirou, repreendendo-se por não ter segurado o comentário.
— Me desculpa, Leah… Agora não é o momento de pensar nisso.
— Eu já pensei, . — A resposta foi devolvida, cortando . Aproveitando estar parada em um semáforo com o vermelho em ordem, Leah virou todo o rosto para a amiga. — E eu largaria a companhia. Se ele quiser…
O olhar trocado foi intenso. Sang sentiu aquele comum frio na espinha, não passando mesmo que a amiga voltasse a encarar atentamente o caminho sendo feito quando o sinal foi verde para continuarem. Parecia mesmo absurdo que uma bailarina tivesse a coragem de abandonar o ballet por um homem.
Para ela que havia crescido com somente uma ideia de futuro em sua mente, ver a amiga disposta a deixar o que fazia para poder estar ao lado de um homem, independente de amor, ela considerava loucura. Porque ao contrário presente no senso comum, para o amor era uma fórmula completamente humana, cheio de imperfeições e imprevisões; em um momento estaria ali, mas no outro poderia virar apenas o caminho passado.

🦢


Não foi difícil convencer Leah a não subir, apenas saiu do carro um tanto objetiva despedindo-se cordialmente e bateu a porta. Talvez a própria amiga tenha se convencido de que não era momento para querer conhecer o pequeno flat em que a outra morava, reconhecendo o tanto de tempo que levou para a carona acontecer, sendo meio lógico que o convite para subir demoraria também. E isso, de certo modo, fez sentir-se bem e respeitada, apesar do modo um pouco demais para tudo da amiga, sempre tinha essas confirmações de que a outra sabia enxergar os limites impostos ao espaço pessoal.
Cumprimentou o senhor que ficava na portaria do prédio, sorrindo minimamente para a feição simpática e sempre cordial do homem, e agradeceu por ele segurar o elevador para ela. Seu apartamento ficava no último andar e o prédio tinha doze andares, com cada um tendo cinco pequenos apartamentos, de tamanho suficiente para no máximo um casal e animal de estimação, talvez.
Durante o tempo que esteve dentro do pequeno metro quadrado que subia, tentou soltar o controle dos próprios pensamentos, ainda vivendo sob o cansaço para que ficasse desligada das preocupações e pensamentos corrosivos com o excesso de preocupação quanto ao futuro. Sua neura, a forma dolorida como sempre se deixava viver essa ansiedade, fazia com que não se aproveitasse, não observasse os próprios detalhes sobre si. Ela mal conseguia lembrar a última vez que permitiu-se comer um chocolate sem culpa, sem achar que poucas gramas seriam capazes de trazer todos os quilos dos quais evitava a todo custo para não perder o que já tinha.
Sang achava que o ballet era absolutamente tudo para sua vida e levava isso como um pensamento completamente religioso. Como se fosse um mandamento a ser seguido sem o livre arbítrio.
Saiu do elevador quando as portas se abriram e caminhou pelo corredor comprido até chegar na última porta, a que ficava no meio entre as duas paredes laterais que compunham o caminho. Tirou a chave de dentro do bolso externo de sua mochila puxando-a pelo chaveiro que há muitos anos era o responsável por ela não perder aquele objeto de metal, já que era impossível não localizar a boneca com roupas em neon imitando uma bailarina. Havia sido um presente de sua avó, que tanto a apoiava e desejava que ela fosse apenas feliz, independente do que escolhesse para o próprio caminho, sendo doloroso ou não — senhora Sang acreditava fielmente que o apoio e respeito devem sempre caminhar lado a lado, não importando o teor da decisão do outro quanto à própria vida, desde que não ferisse a essência alheia.
Como sentia falta de sua avó, tão companheira e sempre com as falas certas na ponta da língua e dona de uma sabedoria sem igual. Ao mesmo tempo que ela tinha ciência sobre o que proferia, existia a humildade em reconhecer que o conhecimento ainda era pouco, pois, segundo suas próprias palavras, isso é algo do qual o ser humano adquire de forma constante.
Seria para ela a primeira pessoa que gostaria de contar sobre a conquista recente, mas infelizmente sua avó faleceu antes mesmo dela entrar para a companhia.
Apertou bem o chaveiro entre seus dedos enquanto removia o próprio tênis ali na porta mesmo, em cima do tapete de boas-vindas que tinha para quando entrasse alguém — o que era raro e apenas uma decoração simbólica, já que além dela, somente Huwei entrava ali. Vivia bem sozinha, de qualquer forma, acostumada com a própria companhia e a forma como não se fazia necessário dar satisfações para ninguém, mesmo que fosse pai ou mãe. Gostava da liberdade que tinha.
Depois de deixar os calçados no canto certo e reservado para isso, pois não entrava em sua casa com eles, por chegar direto da rua e mais por questão de cuidado com higiene, entrou e calçou os chinelos, indo direto para o quarto. Ao adentrar o cômodo, ela pegou o controle em cima da mesinha na lateral da porta e apertou o botão que abria as persianas de forma automática. Observou a cama arrumada e seguiu em direção para o closet, que tinha um pequeno hall separando a entrada do banheiro. Jogou a mochila no chão próximo ao puff no centro do closet e seguiu para o banheiro, iria tomar um banho
Optou por encher a banheira e enquanto isso, voltou para a bolsa no closet, a fim de pegar o aparelho celular. Discou o nome na agenda telefônica e ligou para sua mãe e seu pai, torcendo para que ele atendessem sua ligação. No terceiro toque isso aconteceu.
— Oi — foi a primeira a dizer, sentando-se no puff e completamente neutra.
— Ah, oi, meu amor! — sua mãe respondeu do outro lado, com a câmera em zoom em sua face. O barulho de fundo era alto e ela reconheceu que pelo jeito era a noite e não estava errada: eles estavam em algum bar. — Hoo, é a nossa filha! — ela chamou o pai, cutucando-o.
— Oi, filha! — Hoo disse muito animado, com seu sorriso de dentes perfeitos bem aberto.
— Estão no Brasil ainda? — apoiou o cotovelo esquerdo na altura do joelho, colocando a mão na lateral do rosto para se apoiar ali, enquanto com a direita mantinha o celular na altura certa para lhe filmar.
— Sim! Chegamos ontem no Rio e vamos ficar por aqui até o próximo final de semana.
— Depois partimos para o Chile, decidimos fazer uma pequena turnê pela América do Sul antes de irmos lá pra cima — Hoo completou o que Nabi dizia. Os dois se olharam cúmplices e suspirou por isso, sorrindo de lado completamente apaixonada pelos pais.
No fundo, extremamente no fundo, ela tinha o sonhador pensamento em um dia ser com alguém como eles eram um com o outro. Já haviam trabalhado muito, conquistado muitas coisas e o dinheiro que rendia na conta bancária, hoje eles gastavam com a viagem no mundo afora. Além de auxiliar a única filha com moradia e uma mesada, claro, para que ela continuasse vivendo seu sonho.
Hoo e Nabi se conheceram ainda jovem demais e cresceram juntos, amadureceram e construíram algo sólido demais para que qualquer mínima coisa pudesse os afetar. Fizeram muito um para o outro, para que a filha também tivesse algo. Portanto, sim, ela se sentia feliz com eles vivendo o que queriam e onde queriam. Também era grata por ter pais autênticos e tão companheiros, mesmo que sempre estivessem longe.
— Que legal! — Sorriu em resposta, acompanhando a alegria deles.
Sua mãe a olhou um pouco cética, mirando mais o celular para si.
… Você tem dormido direito, filha? Se alimentado? — questionou com o cenho franzido.
— Sim, mamãe… É que… — Suspirou não contendo em aumentar mais o sorriso.
— É que… — seu pai incentivou.
— Eu consegui o papel. Vou fazer Odette e Odile no Bolshoi! — por fim contou, animada e sem conter a emoção.
— Poxa, filha! Isso é incrível? — Hoo se animou.
— Quando é mesmo a apresentação? — Nabi se interessou e virou-se para o marido. — Precisamos nos organizar para ir à Rússia ver nossa filha no Bolshoi!
— Será daqui a três meses.
— Nossa, , que rápido! Tão já? — O pai estava surpreso, mas ainda assim sorria orgulhoso. apenas assentiu para sua pergunta.
— Estamos muito felizes e orgulhosos de você, meu amor. — Nabi estava emocionada e passou o dedo na lateral do olho. — Mas por favor, se cuide!
— Estou me cuidando, fique tranquila. — sorriu genuína, tentando a tranquilizar.
Eu quero ver você saudável naquele palco. Não temos dúvidas que irá ser incrível e que conseguirá entregar um bom trabalho. Mas continuo me preocupando com você, filha, então se cuide, por favor!
— Pode deixar, mãe! — continuou sorrindo. Ao notar o volume da música de fundo se aumentando, decidiu que deveria desligar e ir tomar o banho. — Acho que é melhor eu ir, acabei de chegar, vou tomar um banho quente e descansar um pouco agora a tarde.
Tudo bem, filha. Qualquer coisa nos ligue!
Amamos você, meu amor! — Hoo voltou a cabeça para frente de sua tela, dizendo.
— Também amo vocês. Bom tour! — sorriu por fim, acenando e desligando a chamada.
Deixou o celular no lado vazio do puff e passou as mãos no rosto, esfregando as pálpebras para tentar espantar a preguiça. Conversar com Hoo e Nabi tinha esse efeito calmante nela, a deixando mais tranquila, com menos saudade e confiante de que estava no caminho certo. Afinal, eram seus pais, seu maior porto seguro, e os ver tão animados com suas conquistas, recebendo todo o apoio de sempre, a deixava incrivelmente serena.
Levantou do lugar em que estava e caminhou na direção do espelho ao lado da saída do closet que a levava para o hall; a primeira peça a sair de seu corpo foi a saia que era apenas um pedaço de pano com o comprimento exato para rodar sua cintura e ser amarrado, em seguida tirou o collant, ficando apenas com a meia calça e calcinha. Se abaixou, curvando-se, para tirar a meia de suas pernas e aproveitou para tirar junto a outra peça de baixo. Logo, estava completamente nua em frente ao próprio reflexo, se olhando por inteira. E levou pouco tempo para que as mãos começassem a passear pela extensão nua.
O cansaço que havia levado dela as mil manobras psicológicas de a abater, acabou por perder um pouco de espaço e ela franziu o cenho para si. Tocou-se na cintura, fechando as mãos para se medir, firme e insatisfeita, subindo os dedos para os seios e apertando-os. Não conseguia sentir-se serena de fato consigo, parecia que ainda precisava de mais, da perfeição que soava longe, tão distante, que aquele caminho por sua mão tateando se não era suficiente para encontrar. Estava nessa brincadeira de esconde-esconde com o resultado tão desejado há anos, e ainda não tinha tido a oportunidade de encontrá-lo em nenhuma rodada.
Já estava nessa por algumas delas, inclusive.
Suspirou erguendo o rosto lentamente para se encarar, olhando-se com indiferença. Não conseguia se sentir bem e aprovar o que seus olhos miravam. As vozes de Choi e Hyuna ainda estavam muito vivas em sua memória, como se estivessem ali do seu lado, lhe dizendo as mesmas palavras de sempre, que geraram em um mantra para oresto de sua vida.
“Sua cintura não tem o tamanho certo para o collant ficar lindo e delineado”
“Nenhum bailarino vai querer contracenar em algum papel com alguém tão bizarro como você”
“Por que ainda sonha com a companhia? Seul tem bailarinas melhores”
"Papéis como o de Odile nunca serão para você. No máximo uma árvore em algum ballet infantil, já que é gorda o suficiente para ter o tamanho de um tronco”
“Sem dizer a falta de sensualidade que essa sonsa tem, Choi”
E ela podia ouvir tudo nitidamente. Cada uma das sentenças, cada uma das sílabas, o tom exato do timbre delas, além de poder sentir como se estivessem ali do seu lado, porque sua pele parecia estar sendo batida pelo hálito delas a cada palavra proferida com violência e ódio. Não importava o quanto tivesse ouvido em terapia que deveria superar aquilo e, claro, tivesse tido um respaldo para tal, sempre carregaria a situação como uma ferida, às vezes aberta e em outras escancarada. Como no seu atual momento.
Como ela faria para ser sensual o suficiente para Odile?
Pensou como poderia se recriar, mas não conseguia pensar em nada além da categoria sexual e permaneceu na mesma posição, de frente para o próprio reflexo, sendo cética consigo. Como sempre. Fechou os olhos e contou até dez, sentindo as próprias mãos serem guiadas em sua pele fria, deslizando com algo pesado por cima delas e, aproveitando aquela sensação que estava gostosa, relaxante, manteve as pálpebras fechadas.
— Você deveria sentir o próprio corpo, Sang . Não se distancie dele.
Ouviu a voz grossa em seu ouvido, tão próximo, com os lábios colados e causando aquele calor na região, assim como o formigamento em seu ventre, ao reconhecer o timbre. Era ele, . Mais uma vez ela o veria e tamanha era a saudade que tinha desde a primeira e única vez que o tinha visto, em um de seus ensaios aos sábados. Foi tão marcante, mas ao mesmo tempo único, que ela não comentava nem com a própria sombra sobre o homem misterioso que dizia ser ela, mas que tinha o toque real em seu corpo.
O estranho era que ela queria abrir os olhos, mas não conseguia, não tinha forças. Não era as mãos dele passeando por seu corpo que levariam a culpa, ela nem ao menos sabia o que pensar, quem dirá fazer.
Era a mesma sensação da primeira vez, mas ainda tinha o toque da novidade. As mãos grandes e com dedos esguios desciam pelos seus braços, entrelaçando-se nas dela e a levando para cima, alcançando os seios rijos para apertar com voracidade. O que logo arrancou um arfar de , fazendo-a morder o lábio inferior com certa força, ansiosa pelo rumo contínuo daquilo. E ele continuou, mas com as mãos solo, indo para cintura e a apertando firme ali, seguindo lentamente para o quadril ao mesmo tempo que os lábios tocavam a nuca exposta dela.
Outro toque que a tirou uma reação explícita de prazer.
As mãos dele estavam entrando para o meio de suas coxas e ela foi abrindo as pernas devagar, aproveitando cada segundo daquele toque. Conseguia sentir a respiração começar a ficar descontrolada, mas em contrapartida era como se fosse um ser tão diferenciado, que ela não se incomodava por isso e não parecia que seu coração batia aceleradamente, era como se tudo estivesse tão calmo por dentro como estava por fora.
Os dedos dele foram ágeis dedilhando a parte interna da coxa dela e deixou-a paralisada, apenas à espera da conclusão daquilo. Entretanto, quando as ponta dos dígitos estavam em cima do ponto exato a ser tocado, o barulho de água transbordando a fez abrir os olhos, sentindo o calor da mão de sumir.
Olhando-se pelo espelho, Sang não encontrou nenhum corpo presente ali além do próprio, nua na frente do espelho. E o barulho que estava ouvindo era o da banheira transbordando, então, ainda ofegante com algo que ela não sabia explicar mais uma vez, caminhou para o banheiro, procurando com o olhar para ver se encontrava a figura alta e larga do homem que não saía mais de sua cabeça.
Mas Sang estava sozinha e não havia resquícios de que alguém havia estado ali com ela.

🦢


Sang ainda estava sonolenta às quatro da tarde quando ajustou a mochila transversal no ombro e saiu do táxi que havia pedido de seu apartamento até o centro de artes, o prédio em que ficava a divisão das companhias de artes de Seul, incluindo a de Ballet. Não achou que seria necessário usar sua chave clandestina para entrar no bloco que usava, mas acabou precisando. Talvez fosse o clima extremamente frio que levou todos os funcionários da companhia a irem para casa e fechar mais cedo, afinal os ensaios eram apenas na parte da manhã e à tarde os intrometidos como ela não precisavam tanto de auxílio.
Optou por ir de escada, rumo ao último andar, sendo o ambiente que mais gostava de usar para ensaiar. Era um andar inteiro sem repartições, sendo a entrada pela escada o único ângulo sem estar espelhado. Além de mais calmo e intimista. Ela gostava do ambiente e como podia aproveitar cada segundo no silêncio cortado pelo barulho dos próprios movimentos, dos próprios pés tocando o chão e ao rodopiar no ar. Conseguia conectar-se intensamente não só consigo, mas com a própria dança também.
Tanto que os sete lances de escada nunca conseguiram ser capazes de a impedir, até então. Ela subia tranquilamente, ansiosa, animada, empolgada, sempre parecendo a primeira vez.
Quando alcançou o terceiro piso, notou que uma das salas de almoxarifado do andar estava com a porta entreaberta. Ao invés de ir para o último lance de escada que a levaria para seu destino, cortou para dentro do corredor, caminhando a passos cautelosos e silenciosos para a direção. Teve sim um lapso de razão, parando antes do fio de luz que cortava o chão por conta do vão, sem emitir som nenhum para ouvir algo. E o que ouviu a deixou ofegante.
Era a voz de e Leah se misturando.
… — Leah gemia entrecortada com sua respiração ofegante.
Colocando a cabeça um pouco para frente, viu a amiga pressionada contra a parede e suas pernas trançadas na cintura do professor. Ele investia contra ela e Leah segurava firme nos fios de cabelo compridos dele, gemendo e chamando por seu nome. ficou parada, olhando, com os olhos arregalados. O que a fez sair do lugar foi o som alto que saiu do último andar, a fazendo pular de susto. Os dois também se assustaram, claro, e quando pararam para olhar para a porta, ela saiu correndo, com medo de ser vista.
Subiu o último lance de escada e parou no topo, ofegante. Curvou o corpo para frente, se pondo nos joelhos e deixando a bolsa cair no chão, mal notando a presença de ali.
— Sang ? — Ele se aproximou, curvando-se levemente. — ? Está tudo bem?
abaixou-se para tocar o ombro dela com cuidado e receoso, os bons modos só não o impediram daquele toque porque realmente estava preocupado com ela irrompendo o lugar daquela forma. Porém, assim que seus dedos tocaram o braço coberto pela manga grossa do sobretudo, se esquivou, voltando o corpo ereto.
— O que aconteceu? Você está muito pálida.
Seus olhos tentaram se acostumar com a visão de usando uma roupa diferente do collant e meias calças próprias para ballet, mas o maior motivo de seu vacilo foi o fato dele estar ali e se ver sem resposta para sua pergunta. Ele a encarava realmente preocupado e curiosa para saber o que estava acontecendo, enquanto ela sabia que estava extremamente pálida e que muito provavelmente sua chegada fora mesmo assustadora para alguém que estava ali quieto e aproveitando o próprio momento.
Mas ela, depois do oxigênio atingir o cérebro, pensou bem.
— Eu estava subindo e me assustei com o som muito alto daqui, acabei aumentando a velocidade e… Bem… são muitos lances de escada, sim? — justificou.
Ele ergueu apenas uma sobrancelha e ela torceu para que tivesse aceito sua desculpa. Se aliviou da tensão ao vê-lo coçar a nuca, um pouco sem jeito.
— Ah, eu acabei apertando o botão errado do som e o volume alcançou o máximo. Não sou bom com a aparelhagem de som daqui.
Ela assentiu olhando para o local em que os eletrônicos ficavam.
— Eu acabei de chegar aqui, acho que mais um pouco você chegava antes e eu teria que usar a sala de baixo — continuou. Porém, vendo como ela torceu os lábios, um tanto quanto sutil, sugeriu: — Se não for muito invasivo e você estiver disposta, podemos ler o papel de agora. Como fazem no teatro, sabe?
— Passar os personagens?
— Sim! Acho que isso pode ser importante para nós.
engoliu a seco, ainda estava com a imagem da cena anterior em mente, a perturbado. O ato de de intencionar em tocar seu ombro por conta da preocupação, deixou sua mente vagando em como seria sentir aquilo, se seria como o outro que ela havia sentido um pouco antes. Era uma perturbação caótica, fazendo com que ela chegasse a se arrepender de ter saído de casa depois do banho e não ter ficado na cama, como seu corpo pedia.
A aclamação pela perfeição iria causar situações adversas até quando?
Como iria conseguir se concentrar com na leitura do que estava no papel, tendo a cena de Leah e transando logo no andar de baixo tão viva em sua cabeça?
— Eu acho que vou embora, foi um erro ter vindo até aqui.
Não esperou por nenhuma resposta, sendo a feição confusa de a última visão que teve antes de apanhar a alça da bolsa e fazer o caminho de voltar para baixo.
Iria para casa, o seu descanso seria o responsável para proteger que a composição de sua Odette e Odile não saísse do controle.


Primeiro Ato: primeira cena

Há quem diz que a prática faz a perfeição, mas isso pode não se aplicar em todos os âmbitos, porque em contrapartida tem quem não acredite que tudo pode ser gerado pela prática e sim por dom. Sang acreditava que a perfeição se dava pelo trabalho e treino; no seu caso, sendo muitos ensaios e o foco para alcançar a perfeição tão exigida no ballet clássico. Todos os movimentos feitos e planejados passavam por uma extrema exigência de disciplina. Se lembrava que durante seu tempo na infância, quando iniciou as primeiras aulas ainda criança, com seus cinco anos, aprendia diariamente que nada seria alcançado sem a persistência de se autodisciplinar, tão cedo aprendendo um princípio de que nada se obtém fácil e que as falhas não podem ser facilmente aceitas. O que a fez não desistir nas épocas difíceis, quando fora extremamente provada por pessoas que não possuíam nenhuma intenção, além de maldade.
Usar a forma que fora tratada por muito tempo na época escolar como objeto para propulsão de sua própria carreira e futuro foi uma das ferramentas que julgou ideal. Aumentar sua disciplina, a força de vontade e alimentar o lado em sua cabeça que insistia para não se abater com o que não lhe cabia, foi como um trampolim em que pulava continuamente. se sentia constantemente em um destes brinquedos colocados nas festas infantis para entreter crianças: estar no ar era como se ela estivesse acertando, em sua máxima, enquanto o momento que voltava para baixo cabia em suas frustrações; sempre indo e voltando, não se cansando e muito menos desistindo. Mesmo que tivesse uma pessoa com as quais dividia o emprego de bailarina da companhia.
Era cansativo, contudo, ela se recusava a desistir de fazer o que amava. Tampouco iria desistir de Odette e Odile porque não estava conseguindo se concentrar em um simples rodopio durante uma rotina de ensaios para entrar no clima dos personagens dramáticos que queria tanto, e ele fora excepcionalmente direto sobre isso, que fossem marcantes. Não conseguia compreender o quão profundo e intenso o professor queria que fosse, estava encontrando seu máximo para estampar em seu rosto e movimentos corporais toda a profundidade que ele pediu. O exercício simples de iniciar como Odette e terminar com a amargura de Odile estava tomando mais tempo do que deveria, ela já se encontrava em um ponto de questionamento sobre a própria capacidade. Não deveria ser tão complicado assim encenar em um movimento o qual acabaria com segurando firme sua cintura com as duas mãos e o rosto tão próximos, podendo sentir a ponta dos narizes roçando-se um ao outro, estando por trás de seu corpo.
Era um trabalho como todos os outros que já havia apresentado — mas nas outras vezes não se tratava de um drama, não era Tchaikovsky e muito menos estaria tão perto e em uma coreografia mais íntima com . E em outros termos: não tinha passado pela cena de ver seu professor e sua melhor amiga transando há uma semana.
Mas por que ela não conseguia encarar se ele não teve nada a ver com a situação libertina dos dois e estava completamente alheio em seu próprio problema com fazer a aparelhagem de som funcionar para seu ensaio pessoal? Sang não sabia e isso estava a deixando tão mais frustrada.
— Já temos decidido a substituta de Sang ? — A voz estridente, em uma fala arrastada por seu modo nojento de falar, fez com que os olhares direcionados a Sarang com desprezo, embora ninguém tivesse coragem suficiente para debater com ela, se não fosse por Leah. — O que foi? Disse algo demais?
— Não, Sarang… Imagina… Você nunca fala demais. — Leah a encarou, do outro lado da sala, com as mãos na cintura, tentando se conter para não revirar os olhos, pois se o fizesse seria capaz de que saíssem rolando até os pés da outra.
— Sempre muito educada, Bae Leah. Pelo menos você mantém uma linearidade, poderia ensinar para sua amiga, quem sabe ela não começa a manter-se linear nos rodopios. — A resposta de Sarang veio no mesmo tom sarcástico, irritando Leah em uma vírgula a mais.
estava girando outra vez e, ao finalizarem passo, ela não conseguiu se manter firme em cima dos próprios calcanhares e acabou escorregando diretamente para o chão, caindo sentada. Nem mesmo as mãos firmes e grandes dele conseguiram segurá-la. O que pareceu para , com toda certeza, tratar-se de uma exaustão. Mas como ele diria para a pessoa que menos tinha contato sobre estar nítido para seus olhos que ela estava exausta e nem mesmo todo dom do mundo poderia a manter distante de um colapso físico e, muito provavelmente, mental também por muito tempo? Essa era a informação que não sabia.
Todos olharam diretamente para os dois, o silêncio na sala foi absoluto quando pausou a melodia dramática que tocava de forma repentina. O passo havia sido finalizado, mas, pela sequência, haveria outros depois daquele com a mesma sinfonia que tocava no aparelho de som em um volume razoável. Não era comum ele fazer essa interrupção tão escancarada, demonstrando em suas expressões corporais sua insatisfação com o que estava sendo apresentado; era de conhecimento geral como ele queria que tudo saísse extremamente perfeito e, caso isso fosse uma utopia dentro de uma falsa realidade, então criaria do zero somente para ter seu ego alimentado e sua meta alcançada. Sang não o culpava por isso, inclusive, ela o compreendia: se tratava de suas pessoas com em busca de realizações profissionais.
O que tinha de errado em ser exigente?
No momento era algo que não saberia responder, pois a pergunta se voltava contra si: o que tinha de errado com ela?
— Perfeição — iniciou, enquanto parado ao lado da caixa de som. Os dois principais dançarinos ainda se mantinham no mesmo lugar e posições, assim como todo o restante em volta. — Pode parecer um maltrato exigir a perfeição porque a julgam inexistente, mas não para o ballet, uma dança tão milimetricamente calculada.
Sua breve pausa deu espaço para que oferecesse a mão para , puxando-a com cordialidade para cima, sob seu olhar preocupado. Ele gostaria de perguntá-la como estava se sentindo e pedir para que os deixassem fazer uma pausa com tempo suficiente para que ela tivesse como tomar um fôlego. Se ofereceria para ser o responsável a ajudar Sang , fosse lá para qual lugar ela decidisse ir, desde que conseguisse expressar para a outra como era importante que se cuidasse.
Nem mesmo a forma como ela reagiu no dia que comentou sobre seus pés, denunciando os treinos excessivos para conseguir o lugar de Odette e Odile, seriam capazes de parar a forma "intrometida" de . Por um lado, ele estava sendo movido pela importância em ter um bom convívio — ou talvez estivesse confundindo isso com a vontade de ser mais íntimo de Sang .
— Por que aprendemos ballet desde crianças? — deu alguns passos à frente, com as mãos dentro dos bolsos de sua calça social. Sua pergunta retórica deixou todos um tanto desconfortáveis. — Porque cada milímetro do seu corpo precisa saber exatamente o que seu cérebro está comandando. Não se trata apenas de sentir a melodia e fazer, não é somente sobre dom… É como você o molda em si.
Já em pé, Sang sentia o suor escorrer por sua testa e não era o corpo de tão próximo ao seu que a causava tal calor, mas sim seu coração disparado e a raiva que crescia em seu ser. Nunca tinha se sentido tão falha. Ela nunca tinha falhado tanto. E tampouco havia desfrutado de tamanho sentimento negativo com o qual que começava a subir por seu ser junto da decepção que já lhe consumia. Estavam todos olhando para sua direção ou para a de e não por um bom motivo, porque havia sobressaído em um passo difícil ou reinventado a exatidão do mais simples. A olhavam porque estava há horas tentando fazer algo básico e não conseguia concluir sem cair estatelada no chão como uma amadora, como alguém sem equilíbrio e destreza, bem longe de um perfil profissional ideal para uma bailarina. Como alguém sem disciplina.
Leu e releu inúmeras vezes o que havia detalhado no maldito papel entregue há uma semana, tanto que as palavras estavam fixadas em sua memória como um tatuagem feita numa noite de bebedeira em Vegas — felizmente sem a parte do casamento na capela com Elvis fazendo a oficialização; seria trágico selar-se assim com , por mais tentador que pudesse ser pela beleza que ele exalava. E mesmo tendo todas as palavras gravadas e com capacidade de recitá-las até de trás para frente, Sang não estava absorvendo alguma coisa que não compreendia. Era esse o ponto que a levava para dentro de tantos questionamentos. E a deixava mais frustrada notar que estava se enchendo por sentimentos negativos, fugindo de seus princípios. Entretanto, se fazia mais importante o resultado de seu trabalho do que qualquer outro tópico que tentasse se sobressair.
Sabia que questionar a si poderia ser mais comum que o senso geral poderia revelar, isso não deveria a assustar, durante seu crescimento foi ensinada que as pessoas mudam e não permanecem as mesmas para o resto de suas vidas, logo, se fazendo normais os questionamentos. Então não era algo a se preocupar naquele momento, precisava focar. Precisava parar de pensar em Leah e juntos e em todos os sentimentos e sensações que passaram por sua mente e corpo naquele dia.
A começar pelo desejo — o qual ela, de longe, não sabia exatamente pelo que fora gerado dentro de todo o contexto, mas o sentia.
Ergueu o rosto para encarar o professor no meio do espaço que era formado por um círculo não intencional, a posição espalhada de todos os alunos dava a vazão perfeita para que ficasse em frente a eles como se estivesse em um palco moldado para sua própria apresentação. Notou que estavam olhando somente para ele enquanto, por aquela pausa de breve segundos, ele a olhava se ajustar no lugar. Parecia que estavam extremamente distantes, mas em segundos tão próximos.
— Me dê sua mão. — A voz grossa dele a fez hesitar, olhando de seu rosto para a mão que lhe foi estendida. — Sang ?
— Ele não vai te morder, vamos lá.
Virou o rosto para trás, vendo parado e franziu o cenho, tentando ignorar o que ele disse — até porque não parecia ter sido ele a dizer, não soava como sua voz, era um tom mais baixo e ríspido.
Engoliu a seco, tentando umedecer os lábios com o mínimo de saliva produzida.
Olhando para Leah, como uma figura parada distante e atrás das costas largas de , ela lhe entregou a mão.
— Feche seus olhos.
Ela obedeceu.
— Com licença — ele a pediu e apenas assentiu, sugando o ar.
A outra mão de foi diretamente para a cintura dela, tocando-a lentamente e de forma gentil, seu primeiro reflexo ao toque foi de respirar fundo, sentindo um solavanco dado pelo próprio corpo de forma intuitiva. Ele estava muito perto.
— Quero que se concentre somente no ambiente em que está, aqui e agora. — Sentiu o rosto dele bem próximo ao seu ouvido direito e o hálito quente batendo contra sua orelha denunciava o quão perto estava, além da voz baixa para que somente ela ouvisse. — Esqueça que tem outras pessoas à sua volta e sinta apenas o próprio corpo.
O aceno positivo com a cabeça foi a única coisa que conseguiu fazer em resposta. Pôde sentir algo ser colocado entre suas pernas, servindo para causar espaço entre uma e outra, e ela já imaginou ser a longa e esguia de , tendo a confirmação ao sentir-se ser puxada mais para perto pela cintura. Se tornou mais palpável o tronco comprido do seu professor contra o seu — e ela podia notar em cada toque e movimento que ele o fazia de forma profissional, educada e respeitosa, entretanto, tinha algo em seu ser, como uma cócega, lhe guiando por outro caminho enquanto mantinha os olhos fechados e o seguia. Não negaria que estar ali como um fantoche para as mãos dele estava a agradando de uma forma desconhecida. No escuro de suas pálpebras fechadas, ela visualizava apenas as costas de , como na imagem quando o pegou com sua amiga em um momento íntimo.
Um tanto perturbador a sensação que tinha com essa lembrança, como se estivesse sendo consumida por isso e fosse extremamente confortante alimentar o que ela não sabia ser exatamente passando por sua cabeça.
E não foi somente o tronco dele que se tornou palpável, a aproximação entre os dois corpos deixava-a sentir perfeitamente o encaixe calculado de seus quadris.
Sang prendeu a respiração quando sentiu o primeiro movimento do corpo de . A mão em sua cintura continuava pousada ali de forma cordial e mesmo que estivesse usando um collant, o tecido era fino o suficiente para que pudesse ter mais do que a sensação do toque dos dedos compridos dele por cima daquela camada; com a outra mão que segurava a dele, ela deixou escapar um reflexo inconsciente de como se sentia com o toque e seus dedos movimentaram-se de forma trêmula, até fechar sua palma no enlaço das duas, entrelaçando os dígitos com uma intensidade diferente a qual mantinha na cintura da bailarina. Ele a movimentou lentamente para o seu lado direito e, no terceiro segundo, reconheceu o passo de uma valsa.
— Não é só de perfeição que se faz o ballet. — A voz dele outra vez foi sussurrada em seu ouvido. — Se entregue, Sang .
Mesmo sentindo-se um pouco mais leve e começando a compreender o que aquele exercício deveria lhe trazer como mudança, ainda se recusava a deixar transparecer para os outros suas fraquezas, somente estar errando algo simples já a corroía de fora para dentro e em partes de seu corpo que não sabia existir, logo, pensar em ser exposta por completo a causava pânico. Mas, de olhos fechados, lidando somente com o seus sentidos para além do tato, ela notou que deixou a camada da autoproteção aberta para que percebesse. O ar que estava preso em seus pulmões saiu em um longo suspiro e o aperto em sua cintura foi o movimento reflexo dele para que confirmasse ter sido pega dentro da própria inconsistência.
Os movimentos de deixaram de ser simples e passaram a demonstrar maior interesse na velocidade. O segundo passo foi pouca coisa mais rápido que o primeiro e suficientemente veloz para trepidar o coração de , ela não estava preparada e tampouco tinha entrado fundo nas indicações do professor, estando ocupada demais para prestar atenção. A mão dele se tornou mais forte em sua cintura, acompanhando a valsa com as duas posicionadas nessa parte do corpo de sua bailarina, enquanto as dela foram automaticamente espalmadas no peito dele por cima da camiseta de manga e gola longa — uma coisa que reparou em como o deixou extremamente elegante, divagando por todo o composto com a calça social e o cinto afivelado, ambos da mesma cor. Talvez, somente uma suposição, estivesse tomando um lugar em sua mente, o qual se fazia perigoso demais. E estava confortável sendo guiada daquela forma, lenta e profunda, conseguindo entender o sentir o aqui e agora que lhe foi dito.
Tentou imaginar a situação sendo dividida com , mas o rosto dele não veio no escuro que tinha e, na terceira tentativa, ainda sendo guiada lentamente por , visualizou traços diferentes, que ela jurava nunca ter visto antes, mas que lhe pareceu confortante. Foi como um gás para que suas mãos subissem diretamente aos ombros largos de , apertando seus dedos ali enquanto o seu corpo tomava uma velocidade a mais na valsa. Não tinha mais nada de lento e muito menos inseguranças; a inconsistência de seus pensamentos havia sumido enquanto se concentrava na feição nítida dentro do apagão em sua vista e se acabasse ali, naquele instante, não conseguiria se despedir ou abrir os olhos. Gostaria de ficar o encarando por quanto tempo pudesse, talvez por toda sua vida o carregaria consigo.
A sequência de rodopios lhe abriu a porta para as sensações mais íntimas.
Se tornou palpável para si, encontrando tão fundo o que era sentir-se. E ela não se largaria nem por um milímetro.
As mãos nos ombros de estavam apertadas e quando pararam de volta no lugar, levando tempo sem movimento algum, ela se despediu da figura que visualizava e abriu os olhos lentamente. Estava ofegante, mas encarava as orbes serenas do homem em sua frente. A sensação que lhe consumiu foi a de satisfação e não se importou por estar ali, diante dele com toda a sua camada esvaída, estava presa demais nos olhos de e nas próprias sentenças confusas, que só conseguia sentir a raiva de antes a deixar profunda, como se tivesse tornado-a maior do que já era.
Tão maior quanto o significado de superioridade.
Queria ficar ali, apertando suas mãos no que era palpável e lhe remexia por dentro, mas não pôde.
— A substituta de Sang será Leah. — se afastou, como se nada tivesse acontecido e sua bailarina principal não estivesse petrificada no lugar.
Ela processaria a informação sobre sua substituta ser Leah assim que conseguisse mover os calcanhares para outro lugar, de preferência sua casa, seu banheiro e depois sua cama. Estava perturbada demais para não pensar que estavam certos sobre a necessidade de um descanso.

🦢


“A substituta de Sang será Leah”.
Talvez existisse algo que pudesse detalhar como se sentia ao refletir a decisão de sem ser a ilustração de um sentimento negativo, todavia, ela não sabia onde poderia encontrar em si esse algo que não estivesse nem um pouco próximo da raiva que mais cedo tentou a consumir. Deveria se sentir feliz por sua amiga, não deveria? Inclusive, seria incrível se pudesse ficar animada com a ideia de não ser Sarang a pessoa lhe substituir caso fosse preciso — o que ela esperava e daria de tudo para não acontecer. Mas Leah? Sempre ela, como se não pudesse viver seus últimos anos sem ser abaixo da sombra dela.
Pelo menos era assim que estava se sentindo.
— É legal te ver se dando bem com . — Somente seu olhar se moveu, saindo das suas pernas para enxergar a avenida à sua frente. Estavam no carro e Leah, depois de ter aceitado outra vez a carona insistente.
— Não tem outra saída — respondeu simples, com sua voz baixa.
— Até tem, mas se eu disser vai invalidar seus anos de trabalho duro para estar onde está. — Leah riu nasalado, apertando o volante. A falta de resposta de a fez virar o rosto, aproveitando o momento que tinha parado em um semáforo com o sinal vermelho. — Vai ter uma festa hoje.
— Você está me convidando ou só dizendo que vai sair outra vez? — A resposta de ainda com a mesma posição.
— Nenhuma das opções. — O sinal abriu e Leah retornou a atenção ao volante, mas continuou o assunto. — Vou jantar com . Em casa.
Sang conteve seu pulmão de puxar o ar de forma pesada e então virou o rosto para o lado direito, observando as pessoas que passavam pela calçada, mais lentas que o movimento do carro de Leah. Não era exatamente o assunto que ela queria tratar naquele momento e sendo bem honesta, não queria tratar de assunto nenhum, ter aceitado a carona da Leah outra vez começou a soar como uma decisão equivocada.
— Devo dizer que é alguma novidade? — disse, mantendo o tom impassível e tentando não transparecer estar se esforçando ao máximo.
— Ah, eu sei que não consigo me manter distante.
— Isso tem um nome e se chama dependência emocional — murmurou.
— O quê? — Outro semáforo, outra vez que Leah pôde virar o rosto para encará-la.
Foi a primeira vez que virou para encarar a amiga, sem sorrir ou emitir qualquer expressão facial.
— Nada, eu divaguei. Deve ser o cansaço mesmo — justificou, finalmente se permitindo suspirar e voltando a olhar para fora, sentindo-se aliviada por estarem entrando na rua de sua casa.
— Vou fazer um almoço muito bom para você e que vai te dar energia o suficiente para encarar sua cama.
O coração de acelerou e ela respirou fundo, com seu corpo começando a tremer, como se tivesse ouvido alguma ameaça vindo da outra. Assim que o carro parou, tirou o cinto e puxou a alça de sua bolsa que estava no chão aos seus pés, se apressando para sair.
— Que isso? Parece que vai fugir — Leah disse um pouco assustada, olhando-a com a feição assustada.
— Leah, eu agradeço pela sua preocupação e, de verdade, irei descansar. Talvez seja mesmo necessário que eu escute o que vocês todos dizem. — Se esforçou para emitir um sorriso, por mínimo que fosse. — Vou subir, comer e dormir. Está bom assim?
Leah pareceu pensar um pouco, deixando a amiga um tanto ansiosa, até finalmente umedecer os lábios e assentir satisfeita.
— Irei ficar aqui embaixo de plantão para o caso de você inventar de fugir com essa bolsa aí atravessada no corpo. — Apontou o dedo.
— Pode ir pra casa, não irei sair e vou tirar o final de semana para descansar. — ergueu a mão direita com sua palma aberta. — Palavra de escoteiro.
— Você nem sabe o que é isso! — Leah riu. — Mas tudo bem, só é aceitável sair para uma única coisa.
— Aish, Leah… Eu já tenho tudo o que preciso, nem mesmo ao mercado irei.
— Estou falando da festa. — As duas se encararam por alguns segundos. — vai. — fez uma careta, revirando os olhos e abrindo a porta para sair. — É sério, Sang . Tentar não vai te morder.
— Leah… — Já com metade do corpo para fora, respirou fundo, virando-se como pôde para olhar nos olhos da amiga. — Uma coisa de cada vez, eu vou descansar, certo?
— Ok, na próxima eu te convenço a ir em Itaewon.
— Próxima vida? — A resposta de foi em tom sarcástico e ela não esperou para sair do carro de vez.
— Muito engraçadinha!
Ignorou a fala de Leah, ajeitando a alça de sua bolsa no ombro e iniciando seus passos para entrar no prédio.
Talvez dormir pudesse apagar de sua cabeça aquela perturbação do momento: a confusão de sensações e sentimentos com a manhã de ensaios; não era somente o fato de Leah ter sido escolhida por para substituí-la, mas todo o composto dos últimos dias, porque de repente ela se viu enciumada não pela amiga, mas por seu professor preferir ela.
O que Leah tinha e ela não?

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Ela corria. Seus pés se moviam como se o corpo tivesse uma força e velocidade sobre humana, enquanto o volume do assobio só aumentava, como se ele estivesse cada vez mais perto e o caminho não acabava, parecia ser um beco sem fim e, quanto mais ela adentrava, mais escuro ficava. Sua voz parecia ser a única coisa que não acompanhava, porque estava gritando, chamando por socorro — tinha certeza absoluta disso —, mas ainda assim não era ouvida, ninguém aparecia. Nem mesmo as luzes eram acesas nos prédios que fechavam aquele beco em um extenso corredor, a trazendo mais desespero. Estava sozinha em um momento que precisava de todos aqueles que a rodeavam, para, pelo menos, testemunharem o que iria lhe acontecer. Alguém tinha que saber onde encontrar seu corpo.
A sensação de irrelevância a apunhalava tão forte quanto o cansaço pela corrida incessante; era como uma verdade absoluta que estava lhe preenchendo, martelando a informação de que não era importante que lhe encontrassem, porque ela não importava. Quem iria querer saber de seu desaparecimento senão por seus pais? Até poderia ser que nem mesmo os dois estivessem preocupados, eles mal paravam em um lugar, embora tenham sido bons pais, estavam vivendo a própria relação e vida por aí, não tinha mais espaço para ela. E se não tinha espaço entre eles, se não era relevante para aqueles que a colocaram no mundo, então iria ser para quem?
Se algo acontecesse, Leah estaria ali para cumprir com seu papel de substituta. tinha um bom plano B e não existia ninguém que pudesse sentir sua ausência como um vácuo. não era seu amigo, Sarang se pudesse seria a primeira a cooperar para seu sumiço e sua lista acabava nisso.
Era sozinha não só naquele momento, mas em toda a sua vida.
Sua existência era solitária. Poderia dizer que nem mesmo ela se preocupava consigo própria.
Soava patética em todas as posições de análise.
Portanto, ninguém iria a ouvir, nem ela estava se ouvindo. Aceitar seu destino pareceu a decisão mais coerente e, como se fosse um aceite do universo como resposta, o beco chegou ao fim. Era uma parede infinita de tijolos vermelhos, bem-posicionados, iluminada por uma luz que ela não fazia noção de qual lugar vinha, estava tão fora dali, que isso se tornou um mero detalhe como em um furo nos best-sellers do The New York Times. Seu pensamento e a organização de suas ideias sobre o que estava acontecendo naquele instante, desde o início de sua caçada por aquela sombra desconhecida, estava em uma lentidão e Sang se viu presa no dilema de quem iria a salvar, não da figura estranha, dela mesma.
O rosto que figurava a esguia sombra que a seguia era o dela mesmo.
Se manteve apoiada com as costas nos tijolos alinhados, suando todo seu corpo pelos incontáveis poros existentes, sentindo-se como se estivesse embaixo de um dos chuveiros luxuosos que via na internet, enquanto suas pernas tremiam e seu coração trepidava a cada passo que aquele ser usando seu rosto se aproximava. Então o frio em seu peito não era mais de ansiedade e conforme sentia as suas batidas cardíacas cessando, parecia que seu corpo se acalmava, como se estivesse sendo sugada para uma utopia, mas bem diferente do que o termo tem como significado. Em sua versão utópica era a ausência de sentimentos que tomava o lugar da felicidade como uma realidade e objetivo. E ela só conseguia pensar em como isso parecia com um cenário de luto, como se estivesse morta.
Seria a sua segunda morte na mesma cena. Sendo, outra vez, somente ela com ela. Se não fosse por seu impulso causado pelo medo, de puxar toda a força sobre humana que tinha em seu corpo, para gritar. Sang queria se ouvir, ela precisava se ouvir, não podia se entregar daquela forma para o desconhecido, embora isso fosse significar que tal desconhecido era ela mesma — e talvez estivesse correto dizer isso, como teria certeza de que podia confiar em si, enquanto estava se caçando daquela forma?
Esteve certa em buscar toda a força que tinha para gritar. No exato momento que a outra figura iria lhe engolir, a claridade do beco sumiu e tudo ficou preto até se ver sentada em sua cama com o lençol bagunçado e fora do colchão, enquanto o interfone tocava.
Ofegante, demorou um certo tempo a se situar tanto no ambiente quanto ao que tinha lhe ocorrido. A brisa que entrava pela janela de seu quarto, deixada meio aberta propositalmente, foi capaz de fazê-la se sentir mais calma, porém ainda um tanto confusa e eriçada pelo pesadelo real que teve com a própria morte. Sentia seu corpo estranhamente tão leve que ela poderia dizer que era como se tivesse sonhado com um jardim encantado de fadas e princesas, embora sua cabeça estivesse absorta na escuridão das paredes daquele caminho percorrido para tentar se salvar de si mesma. Um misto completo de confusão, principalmente com a própria identidade; inconscientemente ela já sabia que iria passar muito tempo revivendo as cenas que se formaram em sua mente durante o cochilo daquela tarde.
O som estridente do interfone a fez sentir uma pontada na cabeça, então, notando que estava noite, tinha escurecido e a única luz que dava pouca iluminação para o ambiente era a da lua, entrando pela vão da persiana. Engoliu o bolo seco em sua garganta e arrastou-se para fora da cama; seu corpo sentia uma outra presença, como se o que fora vivido no sonho não estivesse fazendo parte de um passado recente e sim daquele instante, e estava arrepiada, também sentindo-se um pouco tonta. Parecia estar fora de si, entregue totalmente a um cansaço o qual ela nunca tinha provado — até porque Sang não tinha se permitido descansar ainda e isso já vinha de uma longa data.
Acendeu a luz de cada cômodo pelo qual passou até chegar à cozinha — e não eram muitos, além de seu quarto e corredor, passou pela sala —, começando a sentir o coração trepidar ligeiramente e de forma leviana por ainda estar com a mesma sensação de ter alguém lhe observando, alguma pessoa naquele mesmo ambiente. Ao se aproximar do interfone, agora um pouco mais alto devido à sua aproximação, tomou em sua mão, apertando-o firme, na mesma intensidade que sua cabeça começava a latejar.
— Sim? — disse, limpando a garganta em seguida; outro bolo seco havia se formado. O telefone em sua orelha estava tremendo, assim como suas mãos.
— Senhorita Sang, está tudo bem? — A voz do porteiro do outro lado a deu mais um tranco para acordar. — Relataram uma gritaria de seu apartamento.
Sang respirou fundo, talvez não estivesse sendo audível seu grito no pesadelo porque estava o soltando para o mundo real.
— Sim, está tudo bem… Era minha televisão que estava muito alta, desculpe.
— Sem problemas. Ficamos mais aliviados... Tenha uma excelente noite, senhorita Sang. — Não o respondeu, apenas voltou o aparelho de volta ao suporte, respirando fundo.
Infelizmente ela não tinha como negar que estava perturbada pelo objeto principal de seu sonho: solidão. Então era isso o que significava estar sozinha? Em um momento importante nem mesmo ela poderia se salvar?
Sua mente estava infestada de um lado perturbado, como uma mente perigosa. E em contrapartida tinha o outro lado tentado a descobrir se Leah tinha razão nas coisas em que lhe aconselhava, afinal, a amiga tinha um belíssimo ponto de holofote por onde passava e, como um grande bônus, o tão cobiçado professor ia contra inúmeros princípios — incluindo os da própria cultura de criação — para estar com ela.
— Você venceu, Leah… — bufou irritada, olhando para o relógio em cima da geladeira.
Ainda dava tempo de se arrumar e encarar uma festa.


Continua...



Nota da autora: Olá! Espero que tenham gostado. Foi minha primeira cena de “medo”, então se não estiver tão boa, me perdoem. Estou trabalhando para evoluir nessa categoria. Em breve vem a segunda parte deste capítulo: Primeiro Ato: segunda cena.
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