Última atualização: 20/11/2018

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Zoel’a havia se preparado para aquilo durante toda sua vida. Conseguir uma vaga no PIIP (Programa de Intercâmbio Interplanetário), o maior e melhor programa da Prodintelligence, era o sonho de praticamente todos os jovens do planeta Vecratania. Mas por ano apenas dez felizardos eram escolhidos para para participar do programa e assim passar os próximos dois anos no planeta de sua escolha – desde que estivesse entre os aliados/amigos, claro.
O processo de seleção era bastante difícil. Já de início era obrigatório que o candidato tivesse frequentado a Academia de Ensino Cultural, Científico e Tecnológico Vecrataniana (AECTVe) e, claro, estivesse entre os dez melhores de sua turma. Caso contrário seu formulário de inscrição não passava da recepção.
Após ter todas as notas avaliadas era necessário comprovar domínio básico da Marca Gedthyst, tanto mental quanto físico. O primeiro teste, mental, aplicava uma prova de linguagem. Uma língua morta e praticamente desconhecida era escolhida e apresentada aos candidatos através de artigos e vídeos. O vecrataniano candidato tinha dez minutos para ativar a Marca Gedthyst e absorver a nova língua para, em seguida, responder um teste de conhecimentos básicos e intermediários no idioma em questão.
Depois de receber a nota da prova de idioma, os vecratanianos que tivessem obtido um mínimo de 85% de aproveitamento eram convocados para realizar a segunda prova da Marca Gedthyst, a prova física, onde precisariam alterar suas formas corporais de acordo com cinco espécies diferentes escolhidas aleatoriamente pelos avaliadores. Qualquer um que tivesse mais do que dois erros na aparência era automaticamente desclassificado.
Por fim, após aprovação em todos os testes, os candidatos eram levados para uma espécie de “estágio” por três meses, onde suas habilidades sociais e adaptativas eram testadas na prática, para que assim os avaliadores tivessem certeza que apenas os melhores participariam do programa.
Todo o processo de seleção do PIIP durava aproximadamente seis meses. Um semestre inteiro de puro foco, tensão e ansiedade constantes. Era assim que Zoel’a havia vivido nos últimos meses. Ela precisava passar naquele processo a todo custo, era sua única chance de conhecer a Terra e ela não podia simplesmente perdê-la. Precisava conhecer o planeta que havia inspirado sua série preferida, Heróis da Terra.
Zoel’a havia crescido consumindo absolutamente tudo do universo de Heróis da Terra, desde a série original até as histórias em quadrinhos e filmes. Era a série de sua vida, a que ela mais amava. Já sabia que tudo havia sido inspirado em vários eventos que realmente haviam acontecido no planeta Terra e, além disso, todos os cenários da série realmente existiam. E sim, aquele era o motivo principal para que ela quisesse tanto uma vaga no PIIP. Zoel’a queria conhecer cada um dos locais de sua série preferida.
Ela acreditava que havia ido bem no processo seletivo, honestamente. Agora tudo o que faltava era a mensagem de aprovação – ou reprovação, mas Zoel’a estava tentando se manter positiva – e sua vida iria mudar para sempre. De verdade já que, se ela não passasse agora, nunca mais poderia tentar novamente. Além da idade máxima – 25 anos – para concorrer à vaga, todo mundo tinha apenas uma chance. Uma vez reprovado o teste nunca mais poderia ser refeito.
Eh’u, seu melhor amigo, havia feito o processo seletivo no ano anterior, um ano antes de atingir a idade máxima – que Zoel’a havia recentemente completado –, e agora estava vivendo em Asgard. Sempre que eles trocavam mensagens pelo Crux System, Eh’u lhe contava sobre como a experiência de morar em outro planeta estava sendo maravilhosa. Era aquilo que Zoel’a queria. Ela precisava ir para a Terra.
A ligação para informar sobre o resultado seria naquela tarde. Zoel’a já havia lido artigos científicos o suficiente para saber que não era possível morrer apenas por estar ansiosa, mas honestamente era o que parecia. Só de imaginar que tinha a chance de ir para o planeta que havia inspirado seu Herói preferido ela praticamente saía dando pulinhos pela casa. Imagina só, estar na mesma cidade que o Homem-Aranha havia crescido? Parecia incrível demais para ser verdade.
— Fica calma. — a projeção de Eh’u criada pelo Crux System dava risada.
Os asgardianos eram muito parecidos com os terráqueos que apareciam em Heróis da Terra, apesar de usarem roupas bem diferentes, e Zoel’a ainda não havia se acostumado a ver o melhor amigo como se fosse mais um simples habitante de Asgard – mesmo que ele estivesse assim há quase um ano. O que ainda estava gravado na mente de Zoel’a eram os olhos gigantes e azulados de Eh’u, sua pele lilás com escamas arroxeadas (que os protegiam da forte lua roxa) e, claro, a Marca Gedthyst prateada em sua testa.
— Fácil pra você falar sobre ficar calmo. Você já passou.
— Zoel’a, você sempre foi melhor que eu em tudo. Se eu passei é óbvio que você também vai passar.
Os dois ainda conversavam quando uma nova chamada apareceu no Crux System de Zoel’a, identificada como um número da Comissão Avaliadora do PIIP. Ela deu um grito que provavelmente poderia ser ouvido de Titã, mas tudo bem, ela poderia ser meio louca de vez em quando. Mal se despediu de Eh’u, encerrando rapidamente a ligação com o amigo e atendendo a nova chamada.
A imagem de um vecrataniano alto se projetou no centro da sala de Zoel’a, os olhos brilhantes e escuros parecendo brilhar em sua direção. Um sorriso simpático emoldurava o rosto escamoso do avaliador que em alguns minutos lhe daria a melhor ou pior notícia de sua vida.
— Boa tarde, Zoel’a Ashhand. Eu sou o avaliador Uqea Oatrunner e estou entrando em contato para lhe passar o resultado final de sua aplicação para o PIIP. Como você está se sentindo hoje?
— Ansiosa. — ela deu uma risadinha nervosa. Eh’u havia contado que eles sempre começavam de maneira neutra e simpática e ofereciam todo o surpote para os aprovados que precisariam passar próxima semana na sede do PIIP fazendo os últimos preparativos para o intercâmbio. Ou, caso fosse reprovado, o vecrataniano recebia completo apoio emocional. — Entrar para o PIIP é meu sonho.
— Também foi o meu. Eu fui para Xandar. Você gostaria de ir para onde?
— Terra. — Zoel’a não hesitou um único segundo antes de responder, vendo o sorriso de Uqea crescer.
— Não é um dos destinos mais comuns, além de ser bem recente no programa, mas entendo o charme. Aposto que você é fã de Heróis da Terra. Acertei? — os dois riram enquanto Zoel’a confirmava com um rápido aceno. — Bom, então espero que você esteja de malas prontas porque… Parabéns, Zoel’a! Você foi aprovada!
Ela cobriu a boca com as mãos. Zoel’a havia conseguido. Após tanto esforço, estudo, sofrimento, ela finalmente faria parte do PIIP. Ela iria conhecer o planeta Terra.
Ouviu atentamente as orientações de Uqea passou. Precisava se preparar pois na manhã seguinte um sidreicar iria buscá-la para levá-la ao prédio do PIIP, onde ela passaria por mais alguns treinamentos específicos, os últimos preparativos para a viagem que aconteceria em uma semana. Uqea a parabenizou novamente antes de desconectar a chamada.
Zoel’a se jogou no sofá, o maxilar doendo de tanto que sorria. Ela iria para a Terra. Precisava contar para seus pais. E Eh’u. E se arrumar. Zoel’a iria para a Terra e aquele era, com certeza, o melhor dia de sua vida.

***

O prédio do PIIP era enorme. Ela havia visitado algumas partes durante seu tempo na AECTVe e também durante as provas da seleção, mas o tamanho do local nunca deixaria de lhe surpreender. Quando o sidreicar a deixou na entrada, Zoe’la sentiu o coração bater cada vez mais rápido. Ali estava ela, prestes a realizar seu maior sonho.
— Bom dia, Zoel’a! — ela reconheceu o sorriso de Uqea, que a recebeu na entrada da sede e lhe deu um forte aperto de mãos. — Seja muito bem vinda!
— Obrigada! Acho que nem preciso dizer o quanto estou feliz em estar aqui. — ela riu enquanto via Uqea começar a caminhar, o acompanhando de perto.
Conversaram os assuntos mais básicos sobre suas próprias vidas e sobre a instalação. Pelo que Uqea havia explicado, eles estavam indo em direção a uma sala individual onde as orientações específicas a respeito do PIIP seriam passadas – os participantes do projeto eram divididos pelos planetas escolhidos e, claro, Zoel’a era a única que havia escolhido a Terra. Raramente alguém pedia para ir para Terra. Ela ficaria em um pequeno alojamento do prédio pelos próximos dias, onde preparações mais específicas seriam realizadas. Básico do programa.
Eles chegaram em uma sala pequena, com uma tela em uma das paredes, a iluminação baixa. Havia uma mesa no centro com duas cadeiras, uma de frente para outra. Uqea apontou para uma delas, indicando que Zoel’a se sentasse. Depois pediu para que ela aguardasse alguns minutos e saiu da sala, a deixando sozinha.
Ela respirou fundo, olhando o local e não vendo um grão de pó sequer. Tudo ali parecia arrumado demais, perfeito demais.
— Bom dia, Zoel’a Ashhand. — uma vecrataniana usando vestes longas e segurando uma enorme pasta abriu a porta, logo a fechando e se dirigindo até a mesa, estendendo a mão para Zoel’a. — Me chamo Auhhilfy Horsetalon, sou vice-diretora da Prodintelligence e líder do PIIP. Estou muito feliz em recebê-la hoje.
Zoel’a praticamente pulou da cadeira, abrindo um enorme sorriso e apertando a mão de Auhhilfy, dizendo que o prazer era todo dela. Logo as duas estavam novamente sentadas. Auhhilfy abriu a enorme pasta, passando o olhar rapidamente pelas páginas e então voltando a encarar Zoel’a com uma expressão amável.
— Zoel’a, hoje eu vou te passar algumas informações que serão de extrema importância para esse programa de intercâmbio. Você já conheceu alguém que participou ou ainda participa do PIIP?
— Sim, meu amigo, Eh’u Grizzlywisk. — ela observou enquanto a vice-diretora tirava seu OdePro do bolso e pesquisava pelo nome do amigo. — Ele… Foi para Asgard ano passado.
— Oh, sim, o Eh’u. Ele tem apresentado resultados bastante satisfatórios. — Auhhilfy sorriu, desligando o OdePro e voltando a encarar Zoel’a. — Ele diz se está gostando?
— Com certeza! Nós nos falamos toda semana e ele sempre parece estar cada vez mais animado com o programa.
— Maravilhoso. Mas precisamos dar créditos para Asgard, é um excelente local e Svala, a guerreira responsável por Eh’u, é uma ótima professora.
— Guerreira? — Zoel’a estranhou. Em todos os meses em Asgard, Eh’u nunca havia comentado que estava vivendo com uma guerreira. Era no mínimo inesperado.
— Sim, vou chegar nesse ponto. É melhor começar a te introduzir a tudo o que vai acontecer nessa semana. Você escolheu… Terra, certo? — Zoel’a apenas balançou a cabeça, confirmando.
A tela da parede acendeu e logo dezenas de imagens começaram a passar enquanto Auhhilfy explicava cada detalhe do programa. Nas próximas semanas Zoel’a teria diversas palestras a respeito dos costumes e história básica terráqueos. Depois ela iria fazer alguns testes físicos para começar a acostumar seu organismo em relação a atmosfera da Terra. Por fim ela escolheria sua nova aparência e seu novo nome – Zoel’a não era exatamente um nome comum na Terra.
— Alguma pergunta? — Auhhilfy disse após longuíssimos minutos de explicação.
— Sim. Hã… O que você tinha falado, a respeito de Eh’u estar vivendo com uma guerreira? — aquilo ainda não havia deixado a mente de Zoel’a.
Era estranho porque Vecratania estava entre os planetas mais pacíficos da galáxia. Ninguém ali era capaz de matar um inseto sequer. Não conseguia imaginar o amigo vivendo com alguém especializado em combates. Era… Errado, de certa forma.
— Todos os participantes do PIIP são pareados com guerreiros, Zoel’a. — a vice-diretora suspirou. Os olhos de Zoel’a pareceram ainda maiores que o normal, claramente preocupada.
— Então eu também…
— Sim, claro. É uma medida de segurança. — a voz de Auhhilfy estava séria, assim como sua expressão. — Você está indo para um outro planeta. Claro, temos medidas para que toda sua estadia seja o mais segura possível, mas procuramos evitar… Incidentes. O seu guerreiro responsável saberá que você é de Vecratania e irá te ensinar diversas técnicas de combate.
Zoel’a sentiu a respiração falhar. Ela teria que aprender técnicas de combate. Aquilo era errado, muito errado. E se ela acabasse machucando alguém? Ela não saberia como poderia viver com a ideia de que havia ferido um terráqueo. Combate era comum em Heróis da Terra mas isso não significava que Zoel’a queria fazer parte de algo assim.
— Eu sei que parece assustador, Zoel’a. Acredite, todos reagem exatamente da mesma maneira nessa parte. — a vice-diretora sorriu como se aquilo não tivesse importância. — Nós não estamos tentando formar um exército, longe disso. Mas alguns planetas podem ser perigosos, por isso tomamos essa medida e pedimos para que você, por favor, seja compreensiva.
Zoel’a acenou positivamente, ainda tentando absorver aquela informação. A simples ideia de aprender técnicas de combate era assustadora, mas… Eh’u estava aprendendo técnicas há meses e parecia não ter mudado nada. Não havia se tornado violento, certamente. Talvez apenas saber uma coisa ou outra não teria problema nenhum. Não mudaria quem Zoel’a era.
Mais algumas orientações e as duas estavam novamente em pé e apertando as mãos de novo, despedindo-se com um “até logo”. Zoel’a encontrou novamente Uqea, que a levou até seu pequeno quarto. Ela se acomodou na cama, olhando pela janela, vendo a luz vermelha do sol aos poucos começar a se tornar roxa, dando lugar a lua. Ela suspirou, pela primeira vez sentindo-se preocupada com o que o PIIP realmente significava.

***

A semana que se seguiu foi muito mais atarefada do que Zoel’a havia imaginado. Ela assistiu mais palestras e vídeos sobre cultura terráquea do que achava possível existir. Também experimentou diversos tipos de alimentos típicos, todos sem nenhum tipo de carne já que, aparentemente, ela fazia muito mal para o sistema de qualquer vecrataniano. Ela até que gostou dos alimentos. Aprendeu a falar dezenas de línguas, utilizando a Marca Gedthyst mais do que havia utilizando sua vida inteira. Fez diversos testes físicos envolvendo oxigênio, água, sal, coisas que haviam em abundância pela Terra.
Apenas no último dia, antes de sua partida, Zoel’a finalmente iria escolher sua nova aparência. Ela estava sendo aguardada em uma salinha por cinco vecratanianos, os mesmos que haviam feito todos os testes físicos e de resistência durante aquela semana. Uma tela não muito grande brilhava ao fundo, exibindo quatro modelos de corpos terráqueos.
— Bem vinda novamente, Zoel’a! — Klieph, o que havia sido responsável pelos testes de resistência em máquinas humanas, cumprimentou Zoel’a com o mesmo sorriso que parecia estar grudado em seu rosto de tão constante. — Pronta para se tornar uma terráquea quase oficialmente?
— Ansiosa. — ela sorriu, o acompanhando até próximo a tela.
— Te entendo muito bem. — ele sorriu e voltou o rosto para a tela, encarado os quatro modelos de corpos. — Nós fizemos essas quatro opções de corpos terráqueos para você. É o resultado de um longo estudo e várias combinações. Nenhum deles já está sendo usado. Os dois primeiros são femininos e os dois últimos são masculinos.
Um a um os modelos foram ampliados, rodados, deixando que analisasse cada um deles. Eram bem parecidos com o que ela geralmente via em Heróis da Terra. Analisou bem suas opções, sabendo que teria que viver com aquele corpo por dois anos. Por fim acabou escolhendo o segundo porque achava o cabelo bonito.
Após sua escolha, em questão de minutos uma máquina projetou o modelo em sua frente, deixando-o em tamanho real. Ela andou até o que seria seu novo corpo, vendo melhor cada detalhe da pele, olhos, cabelos… Ela seria uma terráquea bonita. Respirou fundo, vendo o leve brilho avermelhado que a Marca Gedthyst exibia ao ser ativada.
Sentiu-se diminuir um pouco, ficando alguns centímetros mais baixa. Sua pele formigou de leve. Suas orelha e olhos diminuíram e o nariz aumentou um pouco. Ela olhou para as próprias mãos, não vendo mais o tom lilás de sua pele. Virou-se, olhando em um espelho, vendo que a Marca Gedthyst não mais era visível. Ela havia se tornado uma perfeita terráquea.
— Esplendido! — Klieph sorriu e se aproximou dela, lhe estendendo uma pilha de roupas terráqueas que ela vestiu rapidamente. E então o vecrataniano lhe entregou um pequeno colar, onde uma pedra de allochrosite balançava.
Zoel’a levantou suas sobrancelhas – agora ela possuía sobrancelhas, isso ainda era meio estranho. Sabia que allochrosite era uma pedra bastante rara, não entendia exatamente porque estavam lhe dando um colar, mas mesmo assim o passou pelo pescoço.
— A allochrosite irá te ajudar a manter a aparência sem precisar forçar a Marca Gedthyst. — ele explicou enquanto Zoel’a observava a pedra do novo colar descer até próximo aos seus novos seios. — Assim você não vai se sentir cansada ou com dores de cabeça.
— E se acontecer alguma coisa que me obrigue a trocar minha aparência?
— A pedra não força sua aparência, apenas a mantém. Você ainda pode trocar à vontade e a allochrosite irá manter sua nova fisionomia.
Ela balançou a cabeça, confirmando que havia entendido. Klieph então lhe estendeu uma mala com mais algumas roupas terráqueas e a levou até uma mesa, onde mais um dos vecratanianos a aguardava com um sorriso – desse ela não lembrava o nome, o que a deixava com um pouco de vergonha. Um papel branco lhe foi estendido, onde diversos nomes constavam.
— Por último, antes de liberar sua partida, separamos alguns nomes novos para que você escolha.
Rapidamente os olhos de Zoel’a percorreram a lista, procurando por algum nome que não parecesse muito difícil de pronunciar, um em particular lhe chamando a atenção. Com um sorriso devolveu o papel, falando o que seria seu nome por dois anos.
— Eu quero me chamar .
— Ah eu amo esse nome! — Klieph sorriu com a escolha. — , sua partida está autorizada. Uqea está te esperando do lado de fora. Faça uma boa viagem e te vejo em dois anos!
Ela sorriu antes de sair da sala, encontrando Uqea e se dirigindo à cápsula que teleporte que finalmente levaria para Terra.



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A viagem era absurdamente rápida e deixou levemente enjoada. Tudo o que ela viu nos trinta segundos de viagem foram luzes e cores se misturando, indo e vindo, fazendo com que sua cabeça doesse. Mas logo a cápsula estava novamente aberta e ela soube que não estava mais no sede da PIIP ou mesmo em Vecratania.
O primeiro indício foi a luz branca que invadiu a cápsula assim que a porta foi aberta, vindo de uma janela gigante. O sol que brilhava na Terra não era vermelho como o de Vecratania. O segundo indício foi o homem de tapa olho que lhe encarava com uma expressão de poucos amigos.
Sentindo-se intimidada, forçou um sorriso de deixou a cápsula, parando do lado de fora, de frente para o homem. Ela não sabia o que fazer. Não sabia se falava algo ou mesmo em qual língua. Não tinha certeza para onde havia sido levada.
— Imagino que você seja a garota de Vecratania. — as palavras soaram em inglês. A primeira língua que ela havia aprendido.
— Sim. Me chamo , é um prazer. — ela sorriu e deu um passo para frente, estendendo a mão.
— Nick Fury. — ele retribuiu o aperto com força, levando a fazer uma careta. — Sou o diretor da SHIELD, agência responsável por garantir sua segurança enquanto estiver na Terra.
Ela levantou as sobrancelhas. SHIELD. Nick Fury. Exatamente iguais a Heróis da Terra. Quanta coincidência.
— Oh. Então… Você vai ser meu… Tutor? — ela não poderia perguntar se ele seria seu guerreiro, parecia rude. Não estava entre “coisas que terráqueos acham rude” mas ela tinha a sensação de que não seria uma boa ideia o fazer naquele momento.
— Não, claro que não. — ele então fez um gesto com a mão e começou a caminhar. Balançar apenas os dedos da mão para trás e para frente ao mesmo tempo: chamar uma pessoa. Rapidamente ela começou a segui-lo. — Eu tenho muitos problemas para lidar. Não, você ficará com Steve Rogers.
— Steve Rogers. — ela repetiu baixo e franziu as sobrancelhas. Era exatamente o mesmo nome da identidade real do Capitão América em Heróis da Terra. Ia ser fácil decorar.
— Ele é um de meus melhores agentes, junto com Natasha Romanoff. É provável que ela também te ajude em seu treinamento.
Natasha Romanoff. A identidade da Viúva Negra. O número de coincidências estava alto demais para serem apenas isso. sentiu uma sensação engraçada em seu estômago que fez seu coração bater mais rápido. Tudo ali parecia demais com Heróis da Terra.
— Isso é… Verdade? Steve Rogers? Natasha Romanoff? Nick Fury? — parou de andar, vendo Nick demorar cinco passos para imitá-la. — Você… Isso é algum tipo de pegadinha?
— Pegadinha? — Fury repetiu, achando aquela afirmação ofensiva. — Por que você acharia que isso– Ah. — então o homem revirou o olho e bufou. — Ela falou que isso podia acontecer. Vocês têm um tal de Heróis da Terra, né?
— Sim! E você… Tudo isso é… Real?
— Não sei, não assisto esse programa. — ele balançou os ombros e ela forçou-se a não corrigi-lo. Era uma franquia de filmes, HQs e séries. Não apenas um “programa”. — Mas pelo que Auhhilfy disse, é baseado em nossos heróis, então acredito que possui um fundo de verdade.
balançou a cabeça e viu Fury voltar a caminhar, seguindo o homem em silêncio. Ela ainda tentava processar a informação de que Heróis da Terra era de fato baseado na realidade. Ok, provavelmente não era tudo exatamente igual, mas ela tinha certeza que muitas coisas ali eram semelhantes ao universo de filmes, séries e HQs que ela tanto amava. O que poderia ser preocupante.
No último filme da franquia os Vingadores haviam se juntado pela primeira vez para defender a cidade de Nova Iorque contra um ataque Chitauri. Se metade do que havia sido mostrado era realmente verdade… Ela começava a repensar sua decisão de ir para Terra – mesmo sabendo que era tarde demais.
Um arrepio subiu a espinha de quando eles chegaram a uma enorme sala, por onde dezenas de pessoas uniformizadas passavam de um lado para o outro, ignorando completamente a existência da garota. Ela abriu levemente a boca, pensando se deveria falar algo para alguém, um simples “oi” que fosse, mas acabou optando por deixar para lá.
Ao fundo da sala, um homem loiro e uma mulher ruiva conversavam e davam risadas. Fury continuou caminhando, se aproximando mais dos dois. Assim que chegaram mais perto ela finalmente conseguiu vê-los melhor. O homem era alto, grande, maior do que os terráqueos que ela havia visto até agora. Seus olhos eram claros e o sorriso em seu rosto era divertido. Era a primeira vez em toda sua vida que via olhos claros pessoalmente. Tons claros não existiam em Vecratania. Ao seu lado estava um mulher ruiva e pequena, cabelos médio, maiores que os de , olhos não tão claros quanto os do homem mas também sem serem escuros, o sorriso parecendo um pouco mais irônico do que o do homem.
— Romanoff. Rogers. Essa é , a vecrataniana.
deu um passo para a frente e estendeu a mão, recebendo dois rápidos apertos. Ela sorriu completamente sem graça. Se antes havia se sentido intimidada por causa de Fury, o que sentia agora sequer poderia ser descrito. Era como se aqueles três emanassem poder e não era acostumada com esse tipo de ambiente.
— Você parece bastante… Humana. — Steve franziu as sobrancelhas na direção da garota. Natasha também lhe lançou um olhar curioso.
— Ah, isso? É uma habilidade que todo vecrataniano tem. Nós podemos modificar nossa aparência. — ela sorriu, vendo Steve sorrir com compreensão e um brilho interessado passar no olhar de Natasha.
— Se não ofender… Como é sua aparência real?
Ela levou a mão ao colar, respirando fundo e aprontando-se para voltar a sua forma vecrataniana, mas sentiu a mão de Fury toca seu braço. piscou e encarou o diretor, que possuía a expressão ainda mais séria que o normal.
não está autorizada a revelar sua verdadeira forma. — então ele fez um sinal para que os três o seguissem até um corredor vazio, onde parou. — Ela não ser da Terra é uma informação nível 7, nem todos os agentes daqui sabem disso e eu gostaria de manter dessa forma.
O olho de Fury encontrou os de , como se estivesse lhe ameaçando. Ela concordou e engoliu em seco, abaixando a cabeça em seguida e encarando os próprios pés. Será que em algum momento ela pararia de se sentir tão assustada? Não era exatamente o que ela desejava quando participou do processo seletivo do PIIP.
— Rogers, como já havíamos conversado, você será o responsável por treinar e mantê-la segura. Já foi realocado para o apartamento de dois quartos?
— Sim, já completei a mudança. — a postura do homem era ereta, certa. Era como se ele estivesse pronto para servir. — O quarto dela também está mobiliado.
— Perfeito. Quero que amanhã mesmo comece o treino de . Natasha, conto com você para ajudá-la. — a ruiva balançou a cabeça, concordando. — Apresentem a instalação para ela, contem um pouco mais sobre nossos costumes, se conheçam melhor.
E então Fury simplesmente se retirou, deixando os três parados no meio do corredor. levantou as sobrancelhas, surpresa, e virou-se para os dois que haviam sobrado, vendo que ambos a encaravam. Ela sentiu o rosto esquentar completamente, mas manteve o olhar firme. Ela tinha que começar a agir com mais confiança.
— Perdão, eu esqueci o nome do seu planeta. — foi Steve quem quebrou o silêncio.
— Vecratania. — ela sorriu, feliz por fazer parte de uma conversa.
— Vecratania. Tentarei não esquecer. — ele sorriu. — Você possui mais alguma habilidade além da mudança de aparência?
— Eu… Consigo aprender qualquer língua de qualquer parte da galáxia apenas de ouvir ou ler uma vez.
— Você seria uma espiã perfeita. — Natasha também sorriu, parecendo analisar . — Em que ponto estão suas técnicas de combate?
Desta vez desviou o olhar. Ela não queria falar para eles que era completamente iniciante e que seu maior combate havia sido em alguns sonhos que tinha quando consumia muitas coisas sobre Heróis da Terra.
— Eu não… Hum… Não tenho muita experiência.
— Alguma briga na escola? Com um namorado idiota? Nada? — apenas uma sobrancelha da ruiva se ergueu.
— Hum… Não. — ela mordeu o lábio, baixou a cabeça e respirou fundo. Então limpou a garganta e encarou-os novamente. — Nós somos pacíficos. Nenhum vecrataniano jamais lutou.
Steve e Natasha se encararam parecendo preocupados. sabia que eles deveriam estar pensando que ela daria muito, muito trabalho.

***

O apartamento de Steve era maior do que havia imaginado. E bastante organizado também. Ela tomou alguns minutos para analisar o que seria sua nova casa por algum tempo. Não parecia haver nada demais, tudo sendo bastante simples.
— Não é muito, mas juro que é confortável. — o homem pareceu meio sem graça, provavelmente interpretando erroneamente o olhar que ela lançava para cada parte do local.
— Eu achei incrível! — ela abriu um enorme sorriso, ainda se sentindo meio desnorteada.
Steve sorriu, parecendo feliz por ver uma reação positiva dela. Então a guiou até onde seria seu quarto por um longo tempo. Era um espaço bastante simples, com uma cama de solteiro, uma mesa com um celular – que era basicamente um OdePro, pelo que ela havia entendido – e um guarda-roupa de duas portas, onde ela poderia organizar a pequena mala que havia recebido do PIIP antes de sua partida.
Ela pensou que precisaria comprar um pouco mais de roupas, provavelmente. Não tinha certeza com qual frequência os terráqueos trocavam as peças e também não se sentia muito confortável em perguntar para Steve – era algo básico que deveria ter sido ensinado – então imaginou que… Uma para cada dia da semana? Talvez fosse o bastante? Pelas suas contas a mala possuía quatro peças. Então, é, ela teria que fazer uma pequena compra.
Sua alegria era que PIIP dava uma bolsa para todos os participantes do projeto. Não sabia ao certo de quanto seria em dólares, mas sabia que a ajudaria a sustentar por toda sua estadia e era o que importava. guardou as únicas peça de roupas empilhadas e foi até a pequena mesa, pegando o celular. Imaginou que fosse para ela, o que era realmente legal da parte da SHIELD.
Não precisou de muito para aprender a mexer, não era tão diferente assim de um OdePro, apenas um pouco menos avançado. Começou a pesquisar coisas sobre moda (ela não queria se vestir de um jeito estranho), exercícios físicos (se ela ia começar a treinar teria que fazer algo assim, certo?), alimentação… Quando deu por si horas já haviam se passado apenas ali, no celular. Era assim que era ser humano?
? — uma batida leve em sua porta e a voz de Steve a despertaram.
Ela se levantou em um pulo, correndo até a porta e a abrindo, dando um enorme sorriso para Steve. Ele pareceu lhe lançar um olhar estranho, curioso, mas também acabou sorrindo. Ela sentiu-se levemente preocupada, pensando que talvez os terráqueos não fossem tão animados assim. Mais uma coisa com a qual se preocupar.
— Você está com fome? Eu ‘tô querendo pedir comida…
— Sim! — na verdade ela não estava com muita fome, mas achou que aquela seria uma ótima oportunidade para sair de seu quarto, largar o celular, conhecer melhor Steve.
Os dois foram juntos para a sala. Steve se sentou no sofá e pegou o próprio celular, deixando o dedo deslizar sobre a tela. franziu as sobrancelhas, sem saber muito bem o que fazer. E então o homem a encarou com um sorriso e fez um sinal para que ela se sentasse ao seu lado. Rapidamente ela atravessou a sala e se sentou ao lado de Steve, longe o bastante para ser confortável para ambos mas perto o bastante para que ela visse o que ele fazia no celular.
— Você come qualquer coisa? — ele franziu as sobrancelhas.
— Eu não posso comer carne. Aparentemente as carnes de vocês fazem mal para qualquer vecrataniano.
— Ok. — ele riu e clicou em uma aba “vegetariano”.
Eles demoraram mais ou menos vinte minutos para escolher o que iriam comer porque Steve tinha que explicar basicamente todos os pratos para e no fim acabaram escolhendo algo que ela não fazia ideia do que era. Não tinha muito problema, honestamente. Ela comeria qualquer coisa que lhe oferecessem – com exceção de carne, claro. A última coisa que ela precisava era passar mal.
A comida demorou quase uma hora para chegar, o que achou um absurdo. O sistema de entregas da Terra definitivamente não era algo a se invejar. Steve pagou pelos dois potinhos – as comidas vinham em potes, era tão fofo! – e chamou para se dirigir a mesa, pegando talheres e estendendo para ela.
— Então… — ela disse após engolir a primeira porção de algo com muito legumes e que era incrivelmente gostoso. E não sabia como continuar. Ela queria puxar assunto, não comer em silêncio, mas era tão difícil.
— Sei que não faz nem vinte e quatro horas que você está na Terra, mas… Como está se sentindo? — para sua sorte Steve era melhor com conversas do que ela.
— Com exceção da ideia de que vou ter que aprender a lutar e essas coisas… Muito bem. Era meu sonho vir para cá. Sério.
— Você poderia ter escolhido qualquer planeta? — ela balançou a cabeça, confirmando a pergunta dele. Não era qualquer planeta, mas era a maioria, então tudo bem. — Por que escolheu a Terra?
— Então! — ela sabia que estava de novo animada, mas ninguém poderia culpá-la. — Eu sou muito fã de uma franquia de filmes e séries e HQs chamada Heróis da Terra e sempre quis vir para saber como é o planeta que inspirou a melhor franquia de todas. Eu só não tinha ideia de era tão real, mas tudo bem, estou aceitando aos poucos.
— Real?
— Tipo, tem um cara chamado Steve Rogers que é o Capitão América. — as duas sobrancelhas de Steve se ergueram em surpresa, fazendo com que risse.
— Ele se parece comigo?
— Fisicamente, não. — ela percebeu que já havia terminado sua comida entre intervalos de fala. Uma pena, era realmente gostoso. — Mas pelo que vi até agora a personalidade de vocês é bem parecida.
— Sério? — Steve se levantou, pegando o próprio pote e pedindo licença para , jogando ambos no lixo e rapidamente lavando os talheres. — E isso é bom?
— É ótimo! Sério, o Capitão América é meu… Terceiro herói preferido!
— Terceiro? — ele se virou para ela, parecendo levemente ofendido mas segurando uma risada. — Quem são o primeiro e o segundo?
— Fácil. — ela balançou os ombros, sorrindo. — Homem-Aranha e Homem de Ferro.
— Hum. — ele se sentou novamente, o olhar parecendo transbordar curiosidade. — Não conheço nenhum Homem-Aranha, mas conheço o Tony. Se ele for parecido com o daqui ele é–
— Incrível?
— –difícil. — Steve riu da careta que fez. — Mas uma boa pessoa. No fundo.
— Você não gosta muito dele? — ela franziu as sobrancelhas, não sabendo ao certo se deveria perguntar algo assim.
— É mais complicado que isso. — ele riu e soltou um suspiro. — Aliás… O que você havia falado a respeito de nunca ter lutado na vida… É verdade?
suspirou. Era a maior verdade de todas. Não conhecia nenhum vecrataniano que tivesse sequer dado um tapa em alguém. Desde pequenos todos eram ensinados a ser o mais pacífico possível, e eles eram bons nisso. Vecratania era sempre neutra no que se dizia respeito de conflitos. As poucas discussões que aconteceram foram resolvidas com diálogo. Era um povo tranquilo demais.
A simples ideia de combate a assustava porque ela havia crescido acreditando que era errado. Era bárbaro tentar resolver seus problemas com agressão física. não entendia porque quem participava do PIIP recebia treinamento de combate. Não fazia sentido.
Quer dizer, fazia.
Mas ao mesmo tempo não fazia.
— Sim. — ela demorou um pouco para responder, mas ficou grata que Steve tivesse esperando em silêncio, sem tentar forçá-la. Era era realmente tão educado quanto o Steve de Heróis da Terra. — Nós não… Em todos os meus vinte e cinco anos nunca vi nenhum conflito acontecer em Vecratania. Meus pais também não. Nem os pais deles.
— Soa como um paraíso.
— De certo ponto de vista… É. Eu gosto de lá. — ela deu uma risadinha sem graça, recebendo um olhar de compaixão do homem. então sorriu. — Mas seja lá o que o PIIP pretende com isso, eu prometo que vou me esforçar para aprender todas as técnicas de combate.
Era a mais pura verdade. ainda não gostava nada da ideia de lutar, mas tinha certeza que não a mandariam aprender aquilo sem um motivo. E não importava muito o que fosse, ela ia dar seu máximo para aprender tudo que fosse possível. Se tinha uma coisa da qual qualquer vecrataniano podia se orgulhar era de sua capacidade de aprender praticamente qualquer coisa muito rápido.
— Espero que você mantenha essa animação amanhã. — Steve se levantou, dando a deixa para que o imitasse. — Descanse bastante, você vai precisar estar muito animada, afinal… Eu e Natasha seremos seus treinadores.



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acordou por volta das oito da manhã com uma sensação muito ruim no estômago. Ela nunca havia sentido aquilo antes, mas sabia exatamente do que se tratava; estava nos livros e vídeos que assistira para se preparar para a vida na Terra. Aquilo era o que os terráqueos chamavam de frio na barriga. E não era para menos. Ela começaria seu treinamento naquele dia.
Quando se levantou e saiu do quarto, viu que Steve já estava de pé, tomando café da manhã com a parte inferior das costas apoiada contra a pia. Ele vestia uma calça e blusa da mesma cor, parecendo um daqueles conjuntos de esporte que ela havia encontrado quando pesquisou “roupas para treino”. Ele sorriu assim que ela apareceu com os cabelos curtos espetados para todo lado, bocejando.
— Bom dia. Acordou cedo. — ele comentou e apontou para a mesa, onde alguns alimentos estavam espalhados.
sorriu enquanto se sentava. Não era uma daquelas mesas absurdamente fartas que ela havia visto nos vídeos mas tinha pelo menos carboidrato, frutas e sucos. Steve provavelmente havia se esforçado para preparar aquele café – ou pelo menos para ir comprar as coisas – e ela não poderia estar mais agradecida.
— Eu acho que dormi muito. Existe fuso horário se o planeta é outro? — ela perguntou e os dois riram um pouco, mas ainda era uma questão pertinente. — E você? Também caiu da cama?
— Eu não preciso dormir muito. — ele balançou os ombros. concordou, lembrando que o soro que havia sido injetado em Steve (em Heróis da Terra, no caso) havia-o feito superior a qualquer terráqueo comum em muitos quesitos. Sono talvez fosse um deles. — Geralmente acordo uma seis da manhã e vou correr um pouco. Hoje aproveitei para comprar essas coisas.
— Você corre e ainda treina? — ela esperou ele concordar para soltar um baixo “uau”, decidindo que era melhor começar a se servir. Se dependesse de , ela ficaria o resto do dia sentada jogando conversa fora.
— Eu sou um herói. Preciso no mínimo ter resistência.
concordou balançando a cabeça, a boca cheia. Fazia sentido. E não que os vecratanianos não praticassem atividades físicas, claro que praticavam. Mas eles eram muito mais focados em desenvolvimento científico e tecnológico. Eram raros os vecratanianos que, por exemplo, seguiam o ramo esportivo – apesar de asteirohoop vir se tornando um esporte bastante popular na última década.
Ela observou enquanto Steve lavava o copo que havia usado para beber o suco de alguma fruta que ainda não havia aprendido a identificar, mas era tudo uma questão de tempo. Ele então se sentou na cadeira ao lado dela, alcançando uma fruta – ela também não sabia qual – e dando uma grande mordida.
— Você dormiu bem? Está se sentindo bem?
— Você é sempre assim? — ela riu do tom preocupado dele. — Preocupado, cuidando das pessoas…
— Desde que eu me lembro. — Steve sorriu, não parecendo nada sem graça. — E, enquanto você estiver na Terra, serei responsável por você, então é apenas natural que eu me preocupe.
— Falando assim você parece meus pais.
— Eu tenho idade para ser seu avô.
— Os anos como Capicolé não contam. — ela balançou os ombros, vendo-o estreitar os olhos. Ok, aquele apelido havia aparecido várias vezes no universo de Heróis da Terra, não era possível que ele nunca tivesse ouvido. — Quer dizer, se você tinha 26 quando caiu no mar e te encontraram em 2011… Nós estamos em 2014… Tecnicamente você tem 28 anos, só quatro a mais que eu. Não tem como ser meu avô.
— Eu nasci em 1918. — ele riu e balançou a cabeça como se não acreditasse em todas as contas que ela havia feito. Ela também riu porque ele não a corrigiu em nenhum momento, ou seja, todas as informações que tinha sobre a vida dele por causa de Heróis da Terra estavam certas. Até agora, pelo menos. — Eu tenho 95 anos.
— Bom, então você está muito bem para alguém da sua idade. Não parece ter mais que 28.
— ‘Tá, você já parece acordada o bastante. Vai se arrumar para irmos pra SHIELD. — ele fez um gesto que havia aprendido se tratar de “expulsar” alguém, apesar de parecer que a intenção de Steve não era nada rude.
Claro que entre as roupas que o PIIP havia lhe concedido estava uma para treinos, ela havia checado na noite anterior. Não parecia em nada com a de Steve mas sabia que as coisas na Terra tratavam de gênero, então não se impressionou. Parecia com as coisas que Natasha usava, provavelmente.
Após se arrumar copiando as modelos que via no celular – não perfeitamente porque elas sempre usavam rabo de cavalo e o cabelo de era curto demais para prender – a garota encontrou Steve a esperando na porta da sala, girando uma chave no indicador.
Juntos seguiram para a garagem, onde eles encontraram a moto de Steve, que os levaria para o QG da SHIELD. suspirou. Não existia nada parecido com motos em Vecratania, mas tudo bem, não parecia muito difícil de lidar, e não era ela quem iria dirigir, então sem preocupações. Com exceção do fato de que em pouquíssimo tempo ela começaria o tal do treinamento.

***

A sala de treinamento que Steve havia levado não era muito grande, mas ela sabia ser apenas uma das muitas salas de treino que a SHIELD possuía. A que estavam possuía o chão coberto por tatame, alguns pesos espalhados e dois sacos de areia. Tudo ali parecia profissional demais, um ótimo local para aprender a lutar. Mesmo.
Em um canto, com um dos sacos de areia, Natasha treinava socos e chutes, fazendo-o balançar para frente e para trás. A mulher não parecia estar aplicando muita força, mas a maneira como o objeto balançava dizia o contrário. respirou fundo, pensando que provavelmente não possuía tanta força assim.
Natasha parou apenas quando e Steve já estavam acomodados dentro da sala, os pés descalços sobre o tatame. Ela sorriu enquanto se aproximava deles, os olhos transmitindo seriedade. perguntou-se como ela conseguia parecer tão relaxada e, ao mesmo tempo, tão séria.
— Bem vinda, . Animada? — Natasha cumprimentou a garota com um leve aceno, fazendo o mesmo com Steve.
Não, era a resposta que queria dar. Mas havia prometido a si mesma – e de certa forma a Steve e a Auhhilfy – que se esforçaria para aprender a lutar, então era o que ela faria. Por isso sorriu e balançou a cabeça positivamente, confirmando a pergunta de Natasha.
— Ótimo. — a ruiva respondeu. A maneira como ela encarava deixava óbvio que Natasha sabia que a garota estava mentindo, mas havia decidido relevar. — Steve?
Então os dois começaram a lhe passar algumas instruções e explicações sobre como iriam funcionar os treinamentos. Ela iria receber dois tipos de treinamento de segunda a sábado, lutas e armas – o que a deixava menos confortável ainda, já que armas tinham uma intenção de matar muito maior.
Durante a manhã ela treinaria os mais diversos tipos de lutas e artes marciais, e durante a tarde aprenderia a usar desde armas brancas até armas de fogo. E, em um nível mais avançado, seria capaz de usar as armas enquanto lutava. Algo para o qual ela definitivamente não estava ansiosa.
Sempre que possível ela treinaria tanto com Natasha quanto com Steve, mas eles já haviam deixado avisado que muitas vezes Natasha não poderia comparecer, afinal ela era uma das melhores espiãs da SHIELD. Steve fazia mais… trabalhos especiais, por assim dizer.
Dadas as explicações, os dois pediram para que se afastasse um pouco e assim eles pudessem demonstrar alguns movimentos simples que ela iria aprender naquele dia. Foi o que ela fez, ficando a uma distância que considerava segura. E então os dois começaram a lutar em uma coreografia extremamente complicada.
não sabia de onde raios eles haviam tirado a ideia de que aqueles eram movimentos “simples”. Eles faziam tudo tão rápido que ela mal conseguia acompanhar. Natasha dava um soco, Steve abaixava. Natasha chutava, Steve segurava a perna dela. Ela girava no ar para o chutar com a outra perna, ele bloqueava. Eles tinham uma sintonia perfeita e ela sabia que nunca seria capaz de alcançar nem metade dos movimentos “básicos” que eles demonstravam.
— E então? — Steve perguntou assim que eles pararam e Natasha pegou uma garrafa d’água dando um gole tão curto que perguntou-se se aquilo realmente poderia ter matado sua sede. Se é que ela realmente estava com sede.
— Isso não parece simples. Tipo, nada simples. — os dois riram da careta assustada que ela fazia.
— Calma, nós vamos chegar nisso aos poucos. Vamos começar ensinando socos, chutes, bloqueios… Depois que você aprender cada parte separadamente, fazer tudo junto vai ser realmente fácil.
duvidava, mas mesmo assim caminhou até o centro do tatame, onde os dois ainda estavam. Agora que estava perto do bastante de ambos pode perceber que eles não haviam suado. Ela suspirou, pensando que aquele treino seria ainda pior do que estava esperando.
Natasha então começou a lhe ensinar a “maneira certa de dar um soco”, a colocando em uma posição favorável e explicando como ela deveria manter as pernas, ombros, cotovelos e até mesmo a melhor maneira de fechar o punho. Após fazer repetir a pose e socar o ar pelo menos vinte vezes, elogiando como ela aprendia rápido, Steve posicionou-se em sua frente e ergueu as duas mãos, as palmas voltadas para a direção de .
— Pode bater. — ele disse com um sorriso e balançando a cabeça, deixando claro que deveria socar as palmas da mão do homem.
— Não. — a resposta foi tão automática que ela mesma não teria percebido que havia negado se Natasha e Steve não tivessem começado a rir e pedido para que ela, por favor, lhe desse um soco. — E se eu te machucar?
— Dificilmente você vai conseguir me machucar, . Sem ofensa.
— Mas e se–
. — ele a cortou e suspirou, o sorriso morrendo em seu rosto. — Eu sei que é complicado aceitar que você precisa bater em alguém, mas você precisa estar preparada para qualquer situação.
Ela balançou a cabeça, concordando. havia aceitado treinar, ela sabia o que viria, não poderia deixar que sua mente interferisse dessa maneira. Era uma escolha, e ela iria cumprir com o treino. Respirando fundo uma vez, se posicionou da maneira que Natasha havia lhe ensinado e deferiu um soco na palma da mão de Steve, arrancando um sorriso do homem. Hum. Não era tão ruim assim. Ela poderia lidar com aquilo.

***

Durante a manhã inteira havia treinado com Natasha e Steve, e enquanto os dois pareciam perfeitamente bem ela se sentia completamente esgotada. Dar chutes e socos estava muito longe de ser simples como filmes faziam parecer – não que realmente parecesse simples mas era ainda mais complicado. Mesmo que os dois fizessem parecer completamente natural.
Após almoçarem, eles a levaram para uma nova sala, bem maior que a primeira, onde as mais diversas armas estavam expostas e os mais diferentes tipos de alvos estavam espalhados. Ela franziu a sobrancelha, sentindo novamente o frio na barriga. Uma coisa era dar socos e chutes, ela conseguia medir o quanto aquilo poderia machucar uma pessoa. Mas armas? Dificilmente alguém pegaria uma arma sem a intenção de ferir gravemente ou matar.
apenas observou enquanto Natasha ia até o arsenal e pegava um pistola – obviamente não tinha ideia de modelos – e voltava para perto da garota. A ruiva começou a explicar cada parte da arma, como recarregá-la, onde estava a trava de segurança, coisas que sequer sabia que existiam. E então, em um rápido gesto, Natasha travou a pistola e a recarregou, estendo-a para .
Ela respirou fundo, olhando o objeto por um tempo consideravelmente longo. Ela poderia fazer aquilo, sabia que era capaz. Então aceitou a arma, sentindo as pontas do dedos mais geladas que o que comum. Natasha se posicionou ao lado dela, novamente lhe ensinando a postura correta ao segurar uma arma – inicialmente ela seguraria com as duas mãos apenas por questão de segurança – e também para evitar o recuo.
Deram algumas dicas da melhor maneira de mirar, Steve pediu para que ela se posicionasse virada para um dos maiores alvos do local, um enorme círculo amarelo com um não-tão-grande círculo vermelho no centro. Que, obviamente era o foco dela. Ela teria que atirar.
destravou a arma e a segurou exatamente da maneira como Natasha havia lhe ensinado. Prendeu a respiração e apertou o gatilho. Suas mãos foram para trás com a força do recuo, e ela percebeu que se não tivesse segurado da maneira certa provavelmente teria se machucado. O barulho havia sido absurdamente alto, doendo um pouco seus ouvidos. E agora havia uma marca próxima ao círculo vermelho. Um buraco.
Foi então que soube que aquilo não iria dar certo,
Deu dois passos para trás e estendeu a pistola para Steve que a segurou com uma careta confusa. Ela não iria conseguir fazer aquilo. A marca na parede, o barulho alto, o recuo. Tudo o que ela conseguia pensar era que aquele alvo poderia ser uma pessoa. E não queria uma dia se sentir obrigada a atirar em alguém, então não precisava saber utilizar uma arma.
— Desculpa. — ela olhou Steve nos olhos, esperando que ele conseguisse entender que ela realmente se sentia culpada.
deu as costas e deixou a sala, caminhando sem rumo por um corredor que ela não conhecia muito bem. Ao final encontrou mais uma porta, abrindo e vendo mais uma sala de treinamento, semelhante a primeira, com chão de tatame e mais pesos espalhados para todo lado. Ela foi até a parede, onde apoiou as costas e respirou fundo, em seguida escorregando e se sentando no chão.
Mexeu no próprio pulso, um pequeno dispositivo implantado em sua pele abrindo o Crux System. Ela respirou fundo, tocando os botões necessários para que uma ligação fosse iniciada. Em questão de segundos a imagem de Eh’u estava sendo projetada no centro da sala.
— Zoel'a, eu estava prestes a te– Uau. — ele riu, finalmente abaixando a cabeça e reparando na garota que ainda estava sentada no chão. — Então essa é a nova você?
— Essa é a Zoel'a terráquea. — ela deu um sorriso fraco, vendo o amigo franzir as sobrancelhas – asgardianos também tinham sobrancelhas.
— A nova você parece estar bem chateada. O que aconteceu? — a imagem de Eh’u também se sentou, ficando de frente para .
— Eu comecei o treinamento. — ela suspirou, levantando a cabeça e lançando um olhar feio para Eh’u. — Você poderia ter me contado sobre essa parte, né?
— Não, e você sabe disso. — ele entortou a boca. Não havia nenhuma regra específica sobre não contar para outros vecratanianos a respeito do treinamento de batalha, mas entendia o que o amigo queria dizer. Parecia… Errado, deixar que outros soubessem. — Você odiou o treinamento?
— Você tem que usar armas? — ela esperou que ele confirmasse para poder continuar. — Como você consegue, Eh’u? Isso é tão errado.
— Eu sei. — a expressão do rapaz também parecia chateada. Ele entendia a amiga, ela sabia disso. — No começo eu odiava. Lutar, usar armas… A primeira vez que me deram uma espada eu quase chorei. — os dois riram um pouco. sentia um pouco de vontade de chorar. — Mas, acredite ou não, é uma questão de costume.
— Atirar e machucar pessoas é uma questão de costume, Eh’u? — ela abriu a boca chocada.
— Não por isso. — ele tratou de corrigir apressado. — Mas… Eu sei que nós sempre fomos ensinados a respeito da violência… Só que o resto do mundo não entende muito bem essa parte. E gostemos ou não, esse treinamento é essencial enquanto estivermos em uma planeta que possa ser hostil.
balançou a cabeça, confirmando. Ela entendia, mas não queria dizer que isso tornava tudo mais fácil. Era como se ela estivesse tendo que ignorar tudo o que havia aprendido sua vida inteira e tornar-se algo diferente.
— Como você conseguiu? Quer dizer… Você conseguiu?
— Claro que consegui! Eu sou o melhor guerreiro que Svala já treinou, palavras dela. — ele encheu o peito de orgulho e conseguiu arrancar uma risada leve de . — Não tem uma fórmula mágica para conseguir, infelizmente. Você só precisa entender que isso é necessário e, assim como você sempre se esforçou para aprender tudo que Vecratania tinha para oferecer, fazer o mesmo com o que o seu guerreiro da Terra tem para ensinar. Daqui a pouco você vai perceber o quanto isso é simples, e lutar vai praticamente parecer natural.
Ela sorriu, concordando. Não era tão simples como Eh’u fazia parecer, ela sabia disso, mas ao menos seria um começo. Quem sabe ela também acabasse, no futuro, se tornando a melhor guerreira – ou agente, ela não sabia bem como chamar na Terra – que Steve já havia treinado? despediu-se do amigo, agradecendo a força e desligando seu Crux System, permitindo-se respirar esperançosa.
Dois minutos depois a porta se abriu, revelando Steve. Ele permaneceu encostado contra o batente, encarando – que ainda estava sentada no chão com preocupação. Ela fez um sinal para que ele se aproximasse e logo ele estava agachado ao lado dela.
— Desculpa, eu fiquei assustada. — ela confessou dando uma risadinha sem graça, vendo que a expressão de Steve permanecia séria. — Mas já estou pronta para voltar.
— Não precisa, . Eu entendo que você possua limitações, nós podemos ir aos poucos e–
— Para, Steve! — ela falou alto, o cortando e começando a rir. — Eu já disse que quando você age assim fica parecendo meus pais, isso me incomoda. — e então ele também riu, parecendo um pouco aliviado. Ela manteve um sorriso fraco no rosto, feliz por vê-lo mais à vontade. — Eu sei que tem algumas coisas complicadas, mas eu disse que iria me esforçar para aprender tudo, e vou. É uma promessa. De para Steve Rogers.
— Tem certeza?
— Total. Vamos, aquelas armas não vão atirar sozinhas. — ela se levantou, vendo Steve fazer o mesmo e murmurar algo sobre o perigo de armas que atiram sozinhas.

***

Nos meses que se seguiram treinou incessantemente. A maioria das vezes era apenas ela e Steve, Natasha sendo uma presença mais rara do que ela havia imaginado. Vez ou outra algum outro agente da SHIELD aparecia e acabava participando do processo.
se assustou quando percebeu que Eh’u havia falado a verdade e que, de fato, ela havia se acostumado com aquilo. Já no primeiro mês percebeu o que ele queria dizer com “parecer natural”. Os movimentos de ataque e defesa praticamente aconteciam automaticamente em seu corpo, sem que ela precisasse pensar muito sobre isso. A essa altura ela tinha dúvidas de que alguém diria que ela vinha de um dos planetas mais pacíficos da galáxia.
, isso foi… Incrível. — Steve elogiou após ela completar uma das simulações apenas com cinco minutos de diferença de Natasha – provavelmente era muito para qualquer agente experiente, mas considerando que o treinamento dela acontecia há apenas um mês, diria que ela estava muito bem, obrigada.
— Obrigada. — ela riu, colocando as mãos sobre o joelho e tentando normalizar a própria respiração. — Isso está ficando cada vez mais fácil.
— Conto com isso. Você está evoluindo incrivelmente rápido. — Steve lhe estendeu uma garrafa de água, que ela aceitou sem pensar duas vezes, bebendo quase metade em apenas um gole. — E nem fica mais cheia de neuras.
— Isso é porque eu percebi que sou incrível.
— Você ‘tá andando muito com a Nat. — ele revirou os olhos e riu, sinalizando para que eles saíssem da sala, começando a caminhar juntos pelos corredores. — O que vamos assistir hoje?
— Hum… — ela passou pela própria mente a lista de “coisas que precisamos saber para viver no século XXI na Terra”. Em uma semana de convívio eles haviam percebido que sua maior coisa em comum era o fato de que ambos precisavam aprender mais sobre cultura popular contemporânea e terráquea. — A gente ainda não começou aquela… Friends. Deveríamos começar Friends.
— Você também reparou que você ‘tá ficando viciada em séries?
— Ei, quem inventou de “ficar em dia com referências” foi você! — ela deu um soco no braço dele, sem sequer fazer cócegas. — O que, prefere ir ao cinema? Teatro? Museu? Steve, vamos naquela exposição em sua homenagem!
— Esquece tudo o que eu falei. — ele riu e passou o braço pelos ombros dela, a guiando para fora do quartel general da SHIELD e em direção à sua moto.

***

Em seu terceiro mês de treinamento – o que era muito tempo, já que ela treinava de segunda à sábado –, Fury apareceu na sala. Ela estava no meio de uma pista de obstáculos com Natasha e Steve quando o diretor entrou, pedindo para que a simulação fosse interrompida por alguns curtos minutos; ele precisava passar uma rápida e importante informação para os três.
O trio aproximou-se de Fury, Natasha e Steve com expressões tranquilas e sentindo-se levemente preocupada. Ela sabia que estava cada vez melhor naquela coisa de bater, chutar, atirar, correr, mas também tinha uma parte insegura que dizia que na verdade ela estava péssima e Fury estava ali apenas para falar que ela era uma vergonha para Terra e para Vecratania e deveria voltar para seu planeta imediatamente.
, estive em contato com Auhhilfy hoje pela manhã para repassar os relatórios semanais que Rogers e Romanoff fazem sobre você e as minhas próprias impressões a respeito do seu desenvolvimento desde que chegou na Terra. — engoliu em seco, a expressão de Fury completamente ilegível. Sabia que tanto Steve quanto Natasha precisavam fazer relatórios a respeito do desenvolvimento dela, e era mais do que esperado que o PIIP estivesse mantendo contato para saber como ela estava se saindo. O que a deixava temerosa era o fato de algo havia mudado em três meses a ponto do próprio Fury conversar com . — Como você tem se desenvolvido de maneira… Sobrehumana, eu sugeri a Auhhilfy que nós déssemos um passo além com você e passássemos a te treinar como uma agente oficial da SHIELD para que, no futuro, você possa acompanhar Rogers e Romanoff em algumas missões.
A boca de abriu e fechou algumas vezes, sem saber ao certo como responder àquilo. Quer dizer, havia uma parte de si que sentia nada além de orgulho, afinal em três meses ela havia se desenvolvido bem o bastante para que fosse considerada para o “cargo” de agente oficial da SHIELD. Ao mesmo tempo havia toda uma tensão por saber que as lutas saíram de meras simulações para vida real em algum momento. Os alvos de suas armas deixariam de ser desenhos na parede para se tornarem pessoas.
— E a– O que– O que Auhhilfy disse? — ela não queria ter gaguejado mas estava se sentindo realmente nervosa, não tinha como controlar.
— Ela está completamente de acordo. É um procedimento bastante comum quando se apresenta resultados tão bons quanto os seus. Mas, claro, apenas se você também aceitar.
balançou a cabeça, confirmando. Claro que ela aceitaria. Ao mesmo tempo em que aquilo a assustava, também a deixava animada. Ela poderia ser mais parte ainda das vidas de Natasha e Steve – o mais próximo de amigos que ela possuía naquele planeta – e se sentia meio dentro de Heróis da Terra – mas claro que isso era apenas sua parte fã falando. Mas, mais do que isso, ela queria honrar a confiança que Fury e Auhhilfy estavam depositando nela.
— Vai ser uma honra fazer parte dos agentes, Diretor. — ela sorriu, vendo Steve e Natasha soltarem uma risadinha ao lado dela, cutucando os dois com um pouco de raiva.
— Perfeito. Romanoff, Rogers, conto com vocês para treinarem com ainda mais vigor. Não apenas lutas e armas, mas como se portar em uma missão. Lembrem que vocês são responsáveis por ela e qualquer falha que ela possa cometer será automaticamente uma falha de vocês. Principalmente você, Rogers.
E então Fury simplesmente saiu da sala. ficou alguns segundos estática, olhando para o nada, até começar a rir descontroladamente, logo sendo acompanhada por Steve e Natasha. Os três permaneceram alguns bons minutos rindo e falando coisas sem muito nexo, apenas imaginando como seria quando tivessem uma missão em conjunto. Mas aquilo ainda demoraria um bom tempo.

***

Dois meses, para ser exato. Cinco meses totais desde a chegada de na Terra. Apenas dois meses desde o treinamento específico de agente e a Estrela da Lemúria mudou absolutamente tudo. Pela primeira vez desde que havia deixado Vecratania, Steve estava sendo chamado para sair em missão junto com Natasha. E, como se apenas esse fato não fosse preocupante o bastante, havia sido chamada para se juntar a ele.



loS

respirou fundo, reprimindo o arrepio que percorreu seu corpo quando Rumlow começou a explicar aquela missão. Tudo havia acontecido muito rápido. Claro que ela sabia que aquilo aconteceria mais cedo ou mais tarde, mas quando Fury disse que ela poderia sair em missões futuras com Steve e Natasha ela realmente não havia imaginado que o futuro chegaria tão rápido.
Para todos os presentes ela era uma nova agente da SHIELD que já havia completado algumas missões, além de ser alguém em quem o Capitão América e a Viúva Negra podiam confiar. Mas aquela era a primeira vez que ela estava “em campo” e isso era um pouco assustador sim. Mesmo que ela se sentisse confiante quanto a suas habilidades de luta.
Havia feito a ligação mais rápida de todas para Eh’u e recebido mais um pouco de conversa estimulante a caminho do jato que os levaria até o local da Estrela da Lemúria, obrigando-se a relaxar e acreditar que tudo daria certo. Ela havia treinado o bastante para não temer confrontos frente a frente e tudo o que precisava fazer era seguir as orientações de Steve e Natasha. Nada de ser inventiva.
— Quantos piratas? — Steve perguntou após a explicação básica de Rumlow a respeito da Estrela da Lemúria, uma plataforma de lançamento que havia sido atacada pelos ditos piratas e que estava pedindo como resgate 1,5 milhão de dólares, já que era um veículos da própria SHIELD.
Algo que havia incomodado um pouco Steve.
— Vinte e cinco. Mercenários liderados por este cara: Georges Batroc. — Rumlow abriu uma foto do homem em questão, um ex-Diretor Geral da Divisão de Ação da DGSE. — Esse cara tem uma reputação por executar vítimas.
engoliu em seco, sentindo o coração acelerar um pouco mais. Também sentiu raiva ao perceber a facilidade com a qual o estômago humano gelava, porque novamente o dela parecia estar congelando. Ela sentiu a mão de Steve em suas costas, como se estivesse lhe apoiando. Cinco meses em treinamento e convivendo juntos e ele já era capaz de notar quando ela estava tensa.
— Reféns? — o Capitão perguntou, ainda apoiando .
— Principalmente técnicos. Um oficial, Jasper Sitwell. Está na cozinha.
— O que o Sitwell fazia na plataforma? — a mão de Steve deixou as costas de e ele começou a arrumar a luva, pronto para entrar em ação. respirou fundo, sabendo que a hora havia chegado e não tinha mais volta. — Vamos tomar a plataforma e achar o Batroc. Nat, desligue os motores e espere por instruções. Rumlow, vá para a popa, ache os reféns e os retire. , vá junto com Nat e siga os comandos dela.
A ruiva deu um cutucão brincalhão em , lhe dando um sorriso calmo e confiante. STRIKE se posicionou, prontos para obedecer às ordens do Capitão América. A porta do jato em que estavam começou a se abrir, revelando o céu escuro e o tempo chuvoso, que fez suspirar. Claro que sua primeira missão não seria sob um céu estrelado.
— Fizeram algo divertido sábado à noite? — Natasha perguntou enquanto os três se aproximavam mais da porta, e ela e começavam a arrumar alguns equipamentos.
havia ganhado a própria arma, o que era estranho. Quer dizer, claro que a essa altura ela sempre acertava os círculos vermelhos no centro de todos os alvos, mas ainda era uma arma. E armas tinham a função de matar, o que ainda não era uma ideia com a qual havia se acostumado. Mas ela iria tentar não focar nisso enquanto arrumava o coldre e o comunicador em seu ouvido.
— Bom, todos os caras do meu quarteto de barbeiro morreram, então não. — Steve arrumou o comunicador no próprio ouvido e abriu um sorriso para . — Nós passamos a noite inteira nos atualizando de séries, como sempre.
— É incrível como ficar setenta anos congelado e ser de outro planeta pode te deixar por fora de todas as novidades. — balançou a cabeça, concordando, fazendo com que os três rissem.
“Chegando a zona de salto, Capitão”, uma voz soou no comunicador, não conseguiu reconhecer exatamente de quem.
— Se você chamasse a Kristen da Estatística para sair, ela provavelmente diria sim. — Natasha sorriu, fazendo com que repetisse o gesto.
Fazia três meses que Romanoff havia entrado em uma missão pessoal para arranjar uma namorada para Steve porque, segundo ela, o Capitão precisava “aproveitar mais das coisas boas que a vida tinha para oferecer”. Desnecessário dizer que até o momento não havia dado certo.
— Por isso não convido. — Steve respondeu com a voz calma enquanto colocava seu capacete, já na ponta da porta aberta.
— Tímido demais ou com medo demais? — a provocação de Natasha obrigou a segurar uma risada alta. Aquele não era o melhor momento para isso.
— Ocupado demais. — Steve olhou diretamente para , dando um pequeno sorriso e uma piscadela antes de pular do jato. Sem paraquedas, obviamente, porque ele era idiota – ou exibido, dependendo do ponto de vista – assim.
, você tem que parar de deixar o Steve te usar como desculpa para tudo. — Natasha estendeu um paraquedas para a garota e logo as duas começavam a vestí-lo. — Achei que você ia me ajudar a encontrar uma namorada para ele.
— Eu quero ajudar! — ela riu, apertando o colete da exata maneira que Natasha havia lhe ensinado tantas vezes. — Mas até parece que você não o conhece melhor que eu.
— Às vezes… — Natasha balançou os ombros, o sorriso morrendo em seu rosto e a expressão ficando absurdamente séria e profissional. — Nós vamos pular agora, e quando chegar lá embaixo… Não vai ser nada parecido com os treinos ou com os vídeos ou com as simulações que você já fez. Você vai ter que lutar contra pessoas que querem te matar, e às vezes sua única chance de sair viva é matar primeiro. Tem certeza que você está pronta para isso, ?
sabia que não estava, e tinha a impressão de que Natasha também sabia. Mas também sabia que nunca estaria realmente pronta para aquilo, então se quisesse realmente fazer parte da SHIELD, se realmente quisesse se tornar uma agente, esse medo teria que ser perdido em algum momento. E tinha um melhor que aquele?
Como resposta apenas acenou a cabeça, o olhar decidido. Um sorriso rápido passou pelos lábios de que Natasha e juntas as duas foram para a borda do avião. Romanoff passou mais algumas instruções e logo as duas estavam saltando, Rumlow logo atrás delas. observou a plataforma, onde aos poucos pequenos corpos caídos começavam a se formar, mostrando que Steve já estava com meio caminho andado daquela missão. Ok, havia decidido: Rogers era apenas exibido.
Quando eles estavam prestes a pousar, um dos piratas postou-se atrás de Steve, a arma apontada para o Capitão. levou a mão ao coldre, pronta para a sacar a arma, mas um barulho ao seu lado e o pirata caindo revelaram que Rumlow havia sido mais rápido. Ela engoliu em seco, vendo o corpo sem vida cair ao lado de Rogers enquanto ela, Natasha e Rumlow pousavam, o último até mesmo fazendo uma piadinha com o Capitão.
Era aquilo, aquilo era ser uma agente. Era horrível mas ela iria conseguir lidar. Ela tinha que conseguir.
— E aquela vizinha de vocês? — Natasha perguntou logo após ela e se livrarem dos paraquedas e começarem a caminhar ao lado de Steve pela plataforma, como se a conversa anterior a respeito da namorada nunca houvesse sido interrompida. — Ela parece legal.
— E não é barulhenta, o que eu considero um ponto positivo. — as duas mulheres trocaram uma risadinha, fazendo com que Steve revirasse os olhos para elas.
— Cuidem dos motores e então achem-me uma namorada. — ele disse enquanto se afastava.
Natasha tocou o cotovelo de , um leve sinal para que ela parasse de caminhar, e apontou para uma outra parte do local. Elas se separariam de Steve de novo.
— Nós somos multitarefas. — riu enquanto Natasha pulava uma pequena grade protetora, logo seguindo a ruiva e perdendo Steve de vista.
Elas começaram a se embrenhar pelo interior da Estrela da Lemúria da maneira mais silenciosa que conseguiam – e Natasha era claramente superior a nesse quesito –, procurando evitar toda e qualquer luta desnecessária. Romanoff ia na frente, fazendo pequenos gestos para orientar , ao que a vecrataniana obedecia absolutamente todos.
O primeiro pirata que encontraram estava ao telefone, provavelmente recebendo ordens de algum superior – ou até mesmo do próprio Batroc, não sabia ao certo. Natasha fez um gesto para que ela se escondesse, aproximando-se do homem em silêncio. Assim que ele desligou o telefone e se virou, encontrou com o enorme sorriso de Natasha.
— Olá, marinheiro. — ela falou de um jeito levemente sensual antes de chutá-lo na perna.
A perda do equilíbrio do homem foi o espaço que Natasha precisou para enrolar no pescoço dele o fio de seu cabo de sustentação, o prendendo em uma das barras e usando o próprio homem como impulso para ir para trás. Romanoff sacou duas pistolas e soltou mais seu fio, começando a descer por uma emaranhado de grades. ouviu-a disparar alguns tiros, sabendo que cada um deles havia completamente certeiro.
— Pode descer. — a voz da ruiva soou baixa no comunicador.
seguiu pelo mesmo caminho de Natasha, vendo a trilha de corpos caídos e respirando fundo. Estava tudo bem. Aquilo começaria a ser normal em sua vida, era hora de aceitar. As duas continuaram seguindo pela confusão que eram as salas de maquinários, finalmente chegando na sala de motores. A primeira coisa que viram foi um guarda andando de um lado para o outro.
— Natasha, , qual o status de vocês? — a voz sussurrada de Steve soou no comunicador, quase assustando a vecrataniana. A ruiva respirou fundo, levantando-se e correndo, fazendo um sinal para que a acompanhasse. — Status, Natasha!
— Espera! — Natasha falou alto antes de literalmente pular no guarda, usando a picada da viúva para descarregar uma corrente elétrica diretamente no pescoço do guarda, o derrubando.
Mais dois piratas se aproximaram, um pela esquerda e o outro pela direita. Natasha não perdeu tempo, indo direto para o da direita. respirou fundo, indo em direção ao da esquerda. O pirata a atacou, tentando lhe acertar um soco, ao que ela desviou com facilidade, já aproveitando para contra-atacar com um soco na região das costelas do homem. O pequeno recuo de dor que ele deu foi a abertura necessária para que segurasse seu braço – que ainda estava erguido na posição do soco – e se virasse, o puxando por cima do próprio ombro e o jogando com força no chão.
— Sala de motores segura. — ela ouviu Natasha falar contra o comunicador enquanto pegava o que parecia ser um pé que cabra em uma parte cheia de ferramentas e ia até o pirata que havia acabado de derrubar mas já parecia estar se recuperando, acertando-o com força no rosto. Romanoff sorriu e estendeu a mão para , as duas dando um high-five.
Elas seguiram por mais algumas salas, o tamanho daquela plataforma não deixando de impressionar . Finalmente entraram em uma sala cheia de computadores, Natasha logo indo para um deles e começando a digitar rapidamente. franziu as sobrancelhas, sem compreender muito bem. Pelo plano de Steve elas deveriam estar desligando os motores e esperando novas ordens. O que elas estavam fazendo no que parecia ser uma sala de controle e por que Natasha estava mexendo em um computador?
— Nat, o que você está fazendo? — ela olhou ao redor, preocupada em ser seguida por mais algum pirata.
— Preciso que você vigie a porta para mim, . — a ruiva sequer olhou para a garota, os olhos completamente presos na tela a sua frente.
— Mas Steve disse–
— Que você deveria ficar comigo e seguir minhas ordens. Vigie a porta.
Ela acenou, concordando e indo até a porta. Algo estava errado e sabia que Steve não ficaria nada feliz quando descobrisse que elas não estavam seguindo com o plano que ele havia arquitetado.
— Natasha, Batroc está se movendo. — novamente a voz de Steve contra o comunicador. — Leve a e encontre Rumlow para proteger os reféns. Natasha?
encarou a Romanoff, que parecia ignorar completamente o Capitão. Ela respirou fundo, olhando novamente para a porta. Sabia que não adiantaria nada tentar tirar alguma informação de Natasha, e também sabia que aquilo tinha grandes chances de não terminar nada bem. E então a porta simplesmente explodiu. mal teve tempo de sair do caminho, vendo a porta ir ao chão junto com Steve e Batroc.
— Que estranho. — Natasha disse com tranquilidade, sorrindo para Steve.
O homem encarou a ruiva com uma expressão nervosa. Seus olhos então encontraram os de , não ficando mais calmo mas parecendo compreender. Ele não poderia culpá-la, o próprio Steve havia ordenado que ela seguisse as ordens de Natasha. definitivamente não estava naquela sala de controle por vontade própria.
— O que está fazendo? — ele se levantou, indo em direção a Romanoff.
— Copiando a memória do HD. É um hábito de se ter.
— Rumlow precisa da sua ajuda, o que você ‘tá fazendo aqui? — os olhos dele prenderam-se nas telas que Natasha utilizava, compreendendo. — Salvando informações para SHIELD.
— Tudo que eu conseguir. — ela mal precisava olhar para a tela enquanto digitava, o que precisava admitir ser bastante impressionante.
— Nossa missão é resgatar reféns. — diferente de , Steve não parecia nada impressionado com Natasha. Talvez já tivesse se acostumado.
— Não. Essa é a sua missão. — ela sorriu, tirando um pen-drive do computador. — E se saiu muito bem.
Natasha começou a se afastar, mas Steve segurou o braço dela com força, a mantendo no lugar. moveu-se para frente, se aproximando dos dois. Uma briga entre eles era a última coisa que qualquer um ali precisava.
— Você acabou de comprometer toda essa operação. — os olhos dele desviaram de Natasha para . — E você poderia ter comprometido .
— Acho que você ‘tá exagerando. Até porque a sabe se virar.
Um barulho no fundo da sala fez com que os três se virassem juntos a tempo de ver Batroc se levantar e ativar uma granada, jogando na direção dos três e saindo correndo da sala. sentiu-se se puxada para trás e logo o escudo do Capitão estava lhe cobrindo, rebatendo a granada que por muito pouco não a acertou. O braço de Steve se fechou com força ao redor de sua cintura, a segurando com firmeza e a puxando para cima, correndo em direção a uma janela de vidro. alcançou o coldre e pegou sua pistola, atirando no vidro e o partindo no momento exato para que ela, Steve e Natasha pulassem do outro lado, caindo na sala ao lado a tempo de se proteger da granada que explodia, espalhando pedaços de vidro e computador para todo lado.
Os três se sentaram contra a parede, respirando a fumaça que havia subido no local, os rostos sujos com fuligem. lançou um rápido olhar por cima da janela, vendo que a sala em que estavam estava completamente coberta de fogo, destruída.
— Ok, isso foi minha culpa. — a respiração de Natasha estava errática.
— Foi mesmo. — Steve sequer olhou para a ruiva, virando-se para . — Você está bem? — ele esperou que ela fizesse um aceno positivo antes de se levantar e estender a mão para ajudá-la a imitá-lo. — Agora você vem comigo.
Antes de sair da sala, lançou um olhar preocupado para Natasha, vendo a ruiva dar um sorriso livre de humor e logo fazer uma careta que misturava cansaço com preocupação. não tinha a menor ideia do que estava acontecendo ali ou porque a SHIELD era capaz de comprometer a própria missão dessa maneira.

***

Quando eles se reuniram novamente no jato para poder voltar para o QG da SHIELD, se sentia completamente esgotada. Ela sabia que não havia feito muita coisa naquela missão, mas apenas o fato de estar em campo já era o bastante para drená-la de uma maneira completamente diferente.
Apesar de terem conseguido remover todos os reféns com segurança, não tinha certeza de que a missão havia sido um sucesso. Steve ainda estava com cara de poucos amigos, mal olhando na direção de Natasha. A ruiva também não parecia nada feliz mas, diferente do homem, sua expressão era algo próximo a exaustão. E estava apenas sentada no chão da nave, observando pessoas indo e voltando, ainda falando sobre a missão.
, você confia em mim? — ela levou um susto quando Natasha se sentou ao seu lado, a voz baixa o bastante para que apenas as duas ouvissem.
ficou em silêncio, encarando a ruiva. Era uma pergunta no mínimo complicada após o que havia acabado de acontecer. Mas, durante cinco meses, as duas haviam treinado juntas, rido, feito piadas… Talvez ela estivesse cometendo um erro, mas sentia que podia confiar em Romanoff. Por isso simplesmente balançou a cabeça confirmando.
— Amanhã, quando vocês chegarem na SHIELD, Steve vai direto para o escritório de Fury, reclamar sobre ter me mandado em uma missão diferente sem ter contado para ele.
— Por que Fury fez isso?
— Eu sei de muita coisa, , mas não tudo. — os olhos de Natasha pararam rapidamente em Steve, que estava de costas para elas conversando com Rumlow. — Eu sequer sei o que tem nesse pen drive. Mas amanhã, quando Steve for conversar com Fury, eu preciso de você me encontre na sala de controle da SHIELD.
— Aconteceu algo? — franziu as sobrancelhas, preocupada.
— Ainda não, mas… Você chegou na Terra em um momento complicado, e está prestes a piorar. — a voz baixa de Natasha fez um arrepio correr a espinha de . — Talvez eu precise lidar com alguns outros assuntos e não consiga mais estar tão presente, e não posso simplesmente deixar você e Steve sozinhos. Especialmente você.
— Nat, isso… — engoliu em seco, o estômago revirando. — Eu mal me tornei uma agente.
— Eu sei. Por isso preciso que você vá até a sala de controle. Amanhã nós vamos realmente usar a capacidade da sua Marca Gedthyst.



vagh

passou praticamente a noite inteira em claro, cochilando por alguns minutos vez ou outra. Seu corpo não estava exatamente cansado, os longos dias de treino já haviam treinado-a bem o bastante para que exercícios físicos não fossem mais um fardo tão grande. Sua mente, em comparação…
Ela sentia que tudo o que havia acontecido significava algo muito maior do que parecia. Não era apenas a questão de que Natasha havia sido enviada em uma missão diferente de Steve durante a missão do homem. A pequena conversa com Romanoff na volta para o quartel general da SHIELD havia deixado preocupada em duas questões: algo ruim estava prestes a acontecer e ela precisaria usar sua Marca Gedthyst.
Ela nem sabia se era realmente autorizada a usá-la a seu bel prazer e não entendia exatamente para o que Natasha precisaria que a ativasse – ou o quanto a ruiva sabia a respeito da marca. Sua vida inteira e Eh’u foram ensinados que a marca servia principalmente como um meio de “aprendizado rápido” e, como bônus, os permitia mudar a aparência sempre que desejado. Mesmo assim eles não eram incentivados a usá-la com frequência, principalmente como um atalho para aprendizado.
Os vecratanianos, além de serem conhecidos por sua pacificidade, também eram conhecidos por serem uma raça com incríveis avanços científicos e tecnológicos. Seus pais haviam auxiliado no desenvolvimento do Crux System, por exemplo. E mesmo que tivesse uma ligação maior com tecnologia – o ramo que ambos pais seguiam desde que ela se lembrava –, ela pretendia seguir o ramo científico quando voltasse para Vecratania. E não conseguia enxergar como um desses dois se encaixavam com Natasha e o que quer que estivesse por vir.
conseguiu ouvir quando a porta da casa foi aberta e fechada por volta das cinco da madrugada, provavelmente informando que Steve havia saído para sua corrida, e que também ele não havia dormido muito bem. Ela se mexeu na cama, decidindo que era hora de parar de fingir que conseguiria dormir e se levantou rapidamente, colocando uma das roupas que usava para treinar – claro que ela havia comprado mais algumas após sua chegada – e saindo de casa correndo.
Quando chegou na portaria do prédio viu que Steve já estava na esquina. Acelerou o passo, sabendo que se não o fizesse logo acabaria perdendo o homem de vista, e precisava aproveitar que ele ainda não havia de fato começado a correr. O alcançou quando ele já havia virado a esquina, chamando seu nome um pouco alto, fazendo com que o homem parasse e se virasse.
? — ele franziu as sobrancelhas enquanto a garota se aproximava dele. — Por que você já está acordada? E o que está fazendo aqui?
— Eu não dormi. — ela balançou os ombros.
A rua estava consideravelmente vazia, o céu ainda escuro. Mesmo assim os dois se afastaram um pouco, aproximando-se da parede para facilitar a passagem das poucas pessoas que já estavam de pé aquela hora. mexeu nos fios curtos do próprio cabelo, ajeitando-os melhor, tentando não se sentir intimidada sob o olhar curioso de Steve.
— Isso é por causa da missão?
— Em partes. — ela balançou os ombros. Natasha não havia exatamente pedido para que mantivesse o treino futuro em segredo, mas não se sentia confortável contando aquilo para Steve, pelo menos não por enquanto. Ela precisava, primeiro, entender o que realmente estava acontecendo. — Acho que tem muita acontecendo em pouco tempo, nem vecratanianos conseguem processar tudo. E olha que nossa capacidade de processamento é bastante superior à de vocês.
Os dois riram praticamente sem humor nenhum. Steve suspirou, os olhos azuis dele se prendendo aos de . Ela havia realmente se afeiçoado muito ao homem, era verdade. Ele estava fazer um excelente trabalho como mentor dela e a simples ideia de esconder algo dele provocava um forte incômodo em . Parecia uma gigantesca quebra de confiança.
— Me desculpa por ontem. — ele finalmente falou, as sobrancelhas se juntando em uma expressão de tristeza. — Se eu soubesse que Natasha estava em um missão paralela nunca teria te deixado com ela, muito menos pedido para que você seguisse suas ordens.
— Como isso é sua culpa?
— Eu deveria ter imaginado. Isso é típico do Fury, ele sempre está escondendo alguma coisa. — engoliu em seco, forçando-se a não desviar o olhar de Steve. — Liderar uma missão com pessoas em outra missão é no mínimo perigoso. Os reféns poderiam ter morrido. Você poderia ter se ferido.
— Mas eu estou bem. — ela sorriu, tocando o braço dele com delicadeza. — E os reféns foram salvos. Você foi um excelente líder, Steve. Nada além do esperado, claro.
— Mesmo assim eu ainda fico pensando em tudo o que poderia ter dado errado por causa de um segredo. E se eu não tivesse descoberto rápido o bastante? E se algum refém não tivesse sobrevivido? — ele passou a mão pelos próprios cabelo em um gesto nervoso. — Quando aceitei trabalhar para SHIELD eu já sabia que não seria apenas flores, mas eu nunca imaginei que–
— Steve! — ela o interrompeu. Ele poderia ir longe com aquele discurso, ela tinha certeza disso. E sabia que, se ele continuasse, ela acabaria revelando o pouco que Natasha havia lhe contado. E Steve não precisava de mais um peso em suas costas. — Nós conseguimos, saímos dessa. E vamos sair das próximas. Eu te prometo.
— Você promete? — ele riu como se não acreditasse, fazendo-a revirar os olhos. — Esse otimismo é comum em Vecratania?
— Nós nos esforçamos. — ela balançou os ombros novamente. — Eu sei que mal cheguei aqui mas eu juro que–
— Eu confio em você, . — dessa vez foi ele quem interrompeu. — Você é minha colega de quarto e minha… — ele parou, como se estivesse incerto de suas próximas palavras.
— Missão? — ela sugeriu. Era verdade, afinal SHIELD havia deixado ela como responsabilidade de Steve.
— Amiga. — ele riu quando os olhos dela brilharam emocionados. Ele a considerava uma amiga! Ela não poderia estar mais feliz do que aquele momento.
praticamente pulou nos braços de Steve, sentindo a respiração dele mexer os curtos fios de seu cabelo enquanto ele ria. Não era a primeira vez que eles se abraçavam, claro, mas era a primeira vez que Steve colocava em palavras que considerava como uma amiga. Era um abraço especial em uma ocasião especial.
— Ok, agora que tal nós corrermos um pouco? — ele perguntou ao se separarem, o sorriso bobo no rosto dela fazendo também sorrir.
— ‘Tá, vamos ver se você consegue me alcançar. — ela saiu correndo e rindo, fazendo-o balançar a cabeça e logo a seguir.

***

Assim como Natasha havia previsto, ao chegarem na SHIELD a primeira coisa que Steve fez foi pedir licença a e ir direto para a sala de Fury. Ao perder Rogers de vista, pegou o próprio celular e digitou uma rápida mensagem para Romanoff, avisando que já estava no prédio da SHIELD e tudo o que precisava era saber onde exatamente era a sala de controle na qual Natasha queria que elas se encontrassem.
Após receber as coordenadas, seguiu pelos inúmeros corredores e andares do enorme prédio, sendo ignorada por todos os agentes que passavam por ela. Ninguém ali era realmente amigável e até que entendia o motivo. Todas aquelas pessoas estavam em constante vigia, apenas esperando que mais alguma coisa desse muito errada no planeta Terra e eles precisassem agir como urgência para salvar toda a população. Era complicado viver em um mundo que não era completamente pacífico.
A sala em que Romanoff a aguardava era muito parecida com a sala de controle que todo o drama de “Natasha e sua missão diferente de Steve” havia acontecido na Estrela da Lemúria. Vários computadores e telas enormes brilhavam suas telas, mostrando diversas coisas que não fazia ideia do que se tratava.
— Steve está conversando com Fury? — Natasha fez um sinal para que fechasse a porta após entrar.
— Sim. O que ‘tá acontecendo, Nat?
— Senta. — a ruiva apontou para uma cadeira ao seu lado, esperando que estivesse acomodada para poder continuar. — Antes de te explicar, eu preciso que você me diga que confia em mim, .
— Nat, eu já disse que con–
— Não, não apenas isso. Eu preciso que você confie cegamente em mim, . — a ruiva suspirou e passou a mão pelo próprio cabelo.
— Você ‘tá me preocupando. — franziu as sobrancelhas e engoliu seco.
Confiança cega era algo muito forte que qualquer pessoa poderia pedir. Aquela conversa estava cada vez mais estranha, mas apenas de olhar para Natasha ela poderia dizer que a ruiva estava sendo sincera. O que quer que estivesse acontecendo, era realmente sério.
— Eu confio em você, Nat. Cegamente.
— Ótimo. — o sorriso de Natasha não chegou em seus olhos. — Eu tenho minhas razões para acreditar que a SHIELD está comprometida. — a boca de se abriu em choque, pronta para comentar, mas Natasha fez um gesto para que ela ficasse em silêncio. — Antes de entrar nessa sala eu desliguei todas as câmeras e escutas, então por hora estamos seguras… Mas eu não sei por quanto tempo. Eu preciso agir, e não vou conseguir se continuar aqui na SHIELD.
— Você vai embora?
— Eu vou fazer a minha parte para consertar essa bagunça antes que seja tarde demais. — Natasha se virou de frente para uma das telas, começando a acessar alguns arquivos. — E, enquanto isso, eu preciso que você faça sua parte daqui.
piscou algumas vezes. Aquela conversa não estava fazendo muito sentido em sua cabeça. Ela não entendia como a SHIELD estava comprometida, o que Natasha iria fazer e qual era a sua parte nessa história toda. Ela realmente não tinha muita experiência com essa coisa de agente e espionagem.
— Minha parte?
— Você precisa estar preparada para tudo o que está por vir. — viu enquanto todos os arquivos eram excluídos. — Eu sei que Steve confia em você e preciso que você o ajude quando as coisas ficarem realmente feias por aqui.
— Eu não sei se sou a melhor pessoa para o serviço.
— Você é. — o sorriso de Natasha lhe iluminou o rosto. — Primeiro porque você tem a Marca Gedthyst. E segundo porque suas maiores ligações na Terra somos eu e Steve, então acredito que você vá ser leal a nós.
— Isso é óbvio.
— Eu espero que sim. — e então Natasha se levantou, pedindo para que ocupasse seu lugar. Em seguida apontou para a tela do computador. — Quero que você recupere todos os arquivos eu acabei de deletar.
piscou algumas vezes, olhando de Natasha para a tela. Ela nem sabia o que a ruiva havia apagado! E honestamente seu maior contato com tecnologia terráqueo havia sido seu celular. Ela ainda não havia mexido em nenhum computador. Mas a expressão de Romanoff estava rígida, séria, aguardando a atitude de . Por isso ela começou a mexer mesmo sem realmente fazer ideia do que deveria fazer.
Precisou de poucos minutos para entender que aquele sistema não era tão diferente assim do Crux System. Na verdade era praticamente igual a versão mais antiga do sistema que seus pais haviam ajudado a programar. Não seria tão difícil assim. Digitou alguns comandos praticamente iguais aos que eram comuns no Crux System, apenas traduzindo algumas coisas para o inglês, e em pouco tempo estava conseguindo recuperar todos os arquivos de Natasha havia excluído. Não era tão difícil assim.
Ta-dá. — ela se virou para Natasha, vendo a ruiva abrir um enorme sorriso. — Qual foi o ponto disso?
— Saber em que pé você está com nossa tecnologia. Você já tinha falado que Vecratania possui foco em desenvolvimento tecnológico e científico, eu precisava saber como é isso comparado ao que temos na Terra. — Natasha puxou uma cadeira e se sentou ao lado de , respirando fundo. — Mas eu preciso que você vá além. E vou te ensinar tudo que for necessário… Mas você vai precisar ativar a sua Marca Gedthyst.
— Nat…
— Eu sei, . Mas você precisa aprender tudo o mais rápido possível. Nós não temos tempo e eu sei como sua marca funciona. — a ruiva a empurrou levemente, voltando a mexer no computador. — A partir de agora eu preciso que você a ative.
balançou a cabeça, concordando. Havia prometido que iria confiar em Natasha cegamente, então era o que faria. Concentrou-se, ativando a marca prateada em sua testa. Uma luz avermelhada foi emitida, transformando a parte prateada em vermelho, assim como fazendo com que os olhos de ficassem completamente vermelhos. Natasha piscou algumas vezes, impressionada. Era… Bela, a maneira como a Marca Gedthyst funcionava.
— Estou pronta. — abriu um sorriso, a luz vermelha desenhando estranhas sombras em seu rosto.
Por várias horas Natasha ensinou a absolutamente tudo o que sabia sobre programação e hack. Eram muito detalhes pequenos e extremamente importantes que sabia que nunca lembraria se não estivesse com sua Marca Gedthyst ativada. Cada pequeno dígito novo era completamente armazenado na mente de , impossível de ser esquecido. E Natasha não apenas ensinava truques de hack, mas também explicava a a melhor maneira de usar cada uma durante uma missão, para o que eram ideais, coisas do tipo. Uma tarde inteira para que aprendesse a melhor maneira de se tornar praticamente uma hacker na Terra.
— Pode desativar. — Natasha apontou para a testa de , que apenas riu enquanto fazia com que o brilho avermelhado se tornasse cada vez mais fraco até desaparecer completamente, fazendo com que a marca sumisse. — O desenho da marca é realmente bonito.
— Eu também acho. Só fica visível quando estamos em nossa forma natural.
— Claro. — Natasha suspirou. — Conseguiu absorver tudo?
balançou a cabeça e abriu um programa no computador, repetindo muitos dos códigos que havia observado Natasha usar. Agora tudo já estava completamente gravado em sua mente e ali ficaria para sempre. nunca havia ouvido uma história a respeito de um vecrataniano que já houvesse perdido alguma informação retida pela Marca Gedthyst.
— Nós vamos precisar nos encontrar novamente, . — Natasha se levantou, começando a caminhar para fora da sala. — Você vai precisar aprender a mentir, blefar, atuar. Ser espiã não é apenas saber bater e hackear alguns computadores. Se você não souber a melhor maneira de agir em determinadas situações, seu disfarce inteiro vai por água abaixo. E mais uma coisa: — ela pararam em frente ao elevador, esperando que abrisse as portas. — Não confie em mais ninguém. Nem aqui, nem em Vecratania. E em hipótese alguma deixe que Auhhilfy descubra o que está acontecendo aqui.
Antes que pudesse responder, as portas se abriram e Natasha praticamente a empurrou para o interior do elevador, apertando um botão para que ele se fechasse e começasse a se mover, separando-as.



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Durante as duas semanas que se seguiram encontrou-se “escondida” com Natasha. Não era exatamente escondido porque, para todos, elas estavam apenas saindo como amigas. A verdade, claro, era que Natasha estava treinando para ser uma espiã quase tão boa quanto a própria ruiva. Era um processo complicado porque precisava mentir constantemente, inventar histórias, fingir ser uma pessoa completamente diferente. E claro que Natasha a fazia praticar, a colocando nas situações mais complicadas possíveis.
precisou convencer uma mulher de que ela era a nova encarnação de Buda. Fazer com que um segurança acreditasse que ela e Natasha eram o casal de Rainhas de Yescoca – e teve de convencer o homem de que esse país realmente existia. E, no fim, Natasha a colocou em uma sala de treinamento hiper realista, onde ela precisou usar suas novas habilidades de mentir para fazer com que simulação terminasse antes que ela morresse – segundo Natasha, se não o houvesse feito a tempo, ela teria realmente morrido. não sabia se era mesmo verdade mas definitivamente não pagaria para ver.
Por isso, quando o fim de semana chegou – um semestre na Terra e ela já havia aprendido a apreciar os últimos dias da semana –, tudo o que queria era ficar deitada no sofá assistindo televisão. O cansaço mental conseguia ser ainda mais duro que o cansaço físico. A este ponto ela já havia fingido tantas vezes ser uma pessoa completamente diferente que nem se lembrava mais quantas personalidades havia assumido. Honestamente, não fosse pela Marca Gedthyst ela teria desistido no primeiro.
O lado positivo da história era que se sentia mais confiante nessa história toda de agir como espiã. Não diria com todas as letras que já havia se tornado uma, principalmente uma tão boa quanto Natasha – nem sabia se isso era possível – mas certamente já se sentia segura o bastante para fazer algumas missões disfarçada. Até mesmo tinha aprendido algumas reações rápidas para situações em específico.
? — a voz de Steve a fez desviar a atenção da tela da TV. Ela encarou o loiro, piscando algumas vezes. — O que você ‘tá fazendo?
— Assistindo… Say yes to the dress. — ela franziu as sobrancelhas. Nem havia percebido que o programa havia começado. — Por quê? Quer assistir? A noiva de hoje–
— Não. — ele riu sem humor. — Eu ‘to querendo sair um pouco, espairecer. Quer ir comigo?
Ela não estava exatamente animada para passear por aí – novamente, era cansativo treinar com Natasha – mas também ela quase nunca saía de casa não fosse o trajeto até a SHIELD. E Steve não parecia muito bem desde que haviam voltado da SHIELD após a missão. Ela não sabia exatamente o que Fury havia mostrado para ele mas tinha certeza que não deveria ser bom se havia sido o bastante para consumir o humor do homem daquela maneira.
Por isso acabou concordando, correndo para o quarto e trocando de roupa – já entendia que usar pijama para sair não era socialmente aceitável –, colocando uma roupa simples que Natasha havia comprado para ela. Depois encontrou com Steve, que ainda a esperava na sala com seu capacete – um roxo novíssimo que ela havia comprado, com alguns desenhos em prata porque lhe lembrava Vecratania. Em questão de minutos os dois estavam pilotando pela cidade, chegando rapidamente a um museu.
Quando desceram da moto, Steve colocou um boné azul, abaixando um pouco a cabeça e escondendo um pouco o rosto na sombra que a aba fazia. Então passou o braço direito pelos ombros de , deixando que ela passasse o braço esquerdo pela cintura dele. Abraçados, entraram no Smithsonian. Aquele, em específico, parecia um museu dedicado à guerra. E não precisou de muito para que logo visse a sessão dedicada especialmente ao Capitão América.
— Steve, ‘tá tudo bem? — ela praticamente sussurrou enquanto eles caminhavam até um local onde vários vídeos eram exibidos.
— Sim, eu só… preciso garantir que não vou esquecer o que importa.
“Um símbolo para a nação”, uma voz falava enquanto eles andavam com cuidado para não baterem nas pessoas, especialmente para que o rosto de Steve permanecesse coberto. “Um herói para o mundo. A história do Capitão América trata-se de honra, coragem e sacrifício.”
engoliu seco, perguntando-se o quanto da parte do sacrifício ainda doía em Steve. Ela firmou ainda mais o aperto, sabendo que se fosse qualquer outra pessoa ela estaria machucando, mas Steve provavelmente não havia sentido dor. Sentiu-o puxá-la para um pouco mais perto, quase nada, ainda mantendo-se em silêncio, movendo-se para outro setor do museu.
“Impedido de se alistar devido à saúde frágil, Steven Rogers foi escolhido para um programa único, nos anais dos conflitos bélicos dos Estados Unidos. Um programa que o transformaria no primeiro supersoldado do mundo.”
— Uau, você era realmente pequeno. — ela sussurrou, arrancando uma risada dele.
— Imagina o sucesso que eu fazia com as garotas. — o tom de ironia era claro na voz dele, mas não entendia muito bem o porquê.
— Você teria feito sucesso em Vecratania. A gente tende a gostar de tudo que não é roxo e escamoso. — ela balançou os ombros, conseguindo um olhar curioso de Steve.
— Você é roxa e escamosa? — ele também sussurrava. Claro, ninguém ainda visto sua forma original, era compreensível que ficassem curiosos.
— Sim, as escamas nos protegem da radiação da nossa lua roxa. Eu tenho escamas na bochecha, no ombro… nesse momento sua mão está sobre minhas escamas.
— Era pra eu sentir nojo e te soltar? — ele riu, permanecendo com a mão sobre os ombros dela. — Porque não funcionou.
— Você é mesmo um amor, né? — Steve balançou os ombros, dando um sorriso meio sem graça e eles voltaram a caminhar.
Passaram por uma sessão com alguns vídeos do época da guerra, do Capitão América com sua tropa. Também havia explicações sobre o Comando Selvagem, além de uma enorme foto de todos os integrantes. As roupas de todos também estavam expostas, e não sabia ao certo se era a que Steve realmente havia usado nos anos 40 ou apenas uma cópia qualquer.
“Melhores amigos desde a infância, Bucky Barnes e Steven Rogers eram inseparáveis na escola e no campo de batalha”, o mesmo narrador dizia enquanto eles se aproximavam de mais um painel. “Barnes foi o único do Comando Selvagem a perder a vida a serviço de seu país”.
encarou Steve. Ela se sentia incapaz de processar a quantidade de dor que tomava os olhos azuis do homem. Era como se ele quisesse chorar, mas a dor era forte o bastante para impedir as lágrimas de caírem. O coração de pareceu menor, apertado. Ela nunca havia perdido ninguém de maneira trágica, não fazia ideia de como ele estava sentindo e odiava o fato de que não conseguia efetivamente ajudar o amigo.
— Steve… — ela começou mas não sabia ao certo como terminar. Tudo parecia errado. — Eu sinto muito.
— Eu também. — ele balançou a cabeça, ficando em silêncio.
Ela leu novamente o nome. Bucky. Se lembrava de menções a ele em Heróis da Terra, sempre como o braço direito de Steve Rogers. Ele era real, e Steve de fato havia perdido o melhor amigo. não sabia nem por onde começar a falar o quanto aquilo parecia horrível. Não conseguia sequer imaginar um mundo em que vivenciasse a morte precoce de Eh’u.
— Tem outro lugar que quero ir. Se você quiser me acompanhar… — Rogers falou de repente, a voz firme. sabia que ele estava apenas tentando esconder a dor que sentia.
— Claro. — ela deu um sorriso fraco, dando as costas para a imagem de Bucky Barnes e seguindo Steve para fora do Smithsonian.

***

engoliu em seco quando entraram no quarto de Peggy. Aquele deveria ser um momento íntimo para Steve. Ela não sabia ao certo porque o homem havia decidido levá-la junto para aquela visita, mas aquilo havia sido o bastante para que sentisse uma enorme mistura de emoções.
— Deve ter orgulho de você mesma, Peggy. — Steve havia puxado uma cadeira para perto da cama de Carter, sentando-se. Convidou a se juntar, mas a vecrataniana preferiu ficar apoiada na parede, observando ao longe. Não queria parecer ainda mais intrusa do que já se sentia.
— Eu vivi uma boa vida. — a senhora respondeu. Mesmo com a idade tão avançada para um humano comum, a voz de Peggy ainda parecia forte. — Meu único arrependimento é você não ter vivido a sua. — Steve balançou a cabeça em silêncio. sentiu vontade de sair correndo mas sabia que apenas pioraria as coisas. — O que foi?
— Desde que eu lembro, sempre quis fazer o certo. — o homem não olhava para nenhum ponto em específico. — Eu acho que não sei mais o que é certo. — franziu as sobrancelhas, abrindo e fechando a boca. Ela queria discordar. Pelo tempo que havia passado com Steve ela tinha certeza que o homem sabia muito bem diferenciar certo de errado. — E eu pensei que poderia voltar, seguir ordens, servir. Mas já não é a mesma coisa. — Rogers deu um sorriso que não alcançou seus olhos.
— Você foi sempre tão dramático. — Peggy riu, também arrancando uma risada de . Steve se virou rapidamente para a garota, levantando as sobrancelhas e dando um sorriso sem graça. — Olha, você salvou o mundo. Nós preferíamos estragá-lo.
— Mas não você. Saber que você ajudou a fundar a SHIELD foi um dos motivos pelo qual fiquei.
— O mundo mudou e não podemos voltar atrás. — Peggy segurou a mão de Steve. A pequena quebra de tensão já havia acabado e novamente sentia como se fosse nada mais que uma intrusa ali. Provavelmente era o que ela era na vida de Steve. — Só podemos fazer nosso melhor. E, às vezes, o melhor que podemos fazer é começar novamente…
Uma sequência de tosse cortou a frase de Peggy. desgrudou da parede, pronta para ajudar no que quer que fosse necessário, mas logo Steve já estava enchendo um copo com água e o entendendo para a senhora. observou enquanto ele estendia o copo para Peggy e, aos poucos, o rosto dela começava a ser iluminar como se tivesse acabado de descobrir algo completamente novo.
— Steve. — a voz dela soou um pouco mais fraco, mas o brilho permanecia em seu olhar.
— Sim?
— Você está vivo! Você voltou! — a voz de Peggy tremeu quando ela começou a chorar, a emoção a consumindo.
— Sim, Peggy. — Steve deu o sorriso mais triste que já havia presenciado.
E aquilo quebrou seu coração.
Ela não deveria estar ali, não deveria estar se metendo tanto na vida de Steve. não tinha esse direito. E ela sequer conseguia começar a entender tudo o que o homem havia sofrido. vinha de um planeta próspero, belo, sem guerras, com avanços tecnológicos e científicos superiores à Terra. Ela nunca havia perdido ninguém próximo a ela, seu melhor amigo mantinha contato constante, havia conseguido participar do PIIP… A vida de Zoel'a era fácil, tranquila. Ela nunca havia imaginado o quanto seria complicado se tornar .
— Faz tanto tempo. Tanto tempo… — as lágrimas agora escorriam pelo rosto de Peggy.
— Eu não poderia deixar minha melhor garota. — e a dor nos olhos de Steve era exatamente a mesma de quando ele havia visto a imagem de Bucky. Uma dor tão, tão forte que ele sequer conseguia chorar. E mesmo assim ele conseguia se forçar a sorrir. — Não quando ela me deve uma dança.
Depois daquilo não demorou muito para a enfermeira que cuidava de Peggy pedisse para que eles saíssem e ela pudesse descansar. e Steve fizeram o caminho todo até a moto no mais completo silêncio. A voz da locução do Smithsonian ainda ecoava em sua mente. “A história do Capitão América trata-se de honra, coragem e sacrifício.” Mas Steve ainda continuava sacrificando e aquilo era realmente muito injusto. Ele era alguém que merecia ser feliz, ser realmente feliz.
Quando desceram da moto, os dois ficaram um bom tempo parados, apenas olhando para o nada, as pessoas caminhando ao seu redor, a vida ainda acontecendo. fechou os olhos, tentando organizar seus pensamentos, e então suspirou.
— Me desculpa. — ela disse baixo, abrindo os olhos e vendo que Steve a encarava com curiosidade. Mas a dor ainda estava ali, clara.
— Pelo quê? — ele perguntou balançando um pouco a cabeça, sem entender.
— Não sei. — ela realmente não sabia porque havia pedido desculpas. Apenas… Precisava falar algo e “sinto muito” parecia errado. — Não sei. — ela repetiu antes de se inclinar na direção de Steve e o abraçar, seus braços se fechando ao redor da cintura dele. Não demorou muito para que os braços dele se fechassem ao redor dela, praticamente cobrindo seu corpo. Havia escolhido um corpo humano relativamente pequeno. — Desculpa ter me metido na sua vida, eu não queria te atrapalhar.
— Você não está me atrapalhando, . Muito pelo contrário. Você está sendo minha amiga no momento em que eu mais preciso.

***

— Nós vamos sair de novo? — foi a primeira coisa que perguntou ao acordar no dia seguinte, vendo que Steve estava novamente arrumado.
— Eu disse a um conhecido que iria… Em uma reunião. — Steve balançou os ombros fazendo pouco caso.
Ela sorriu e concordou, porque ela nunca perderia uma oportunidade de sair de casa, muito menos com Steve. Especialmente depois daquela frase linda em que ela estava sendo a amiga que ele precisava. queria continuar próxima assim.
A essa altura já havia se acostumado a andar de moto e estava tentando convencer Steve a deixá-la pilotar – não era uma tarefa fácil porque o homem tinha muito medo que ela caísse e arranhasse a moto, mas ela tinha esperança de que um dia conseguiria convencê-lo. Afinal uma hora ou outra ela teria que aprender a dirigir carros e motos – a vida era muito mais fácil dirigindo apenas sidreicar.
O local de destino parecia uma escola, mas claramente não era. Na verdade, conforme entravam mais, era meio óbvio que não era uma escola. Ou talvez fosse. revirou os olhos sem fazer a menor ideia do que exatamente era aquele maldito lugar em que estavam. Em uma grande pátio algumas pessoas estavam reunidas, apenas um homem na frente, encostado em púlpito. Uma mulher contava uma história a respeito de uma prisão. não precisou de muito para entender do que se tratava.
— Algumas coisas você deixou ali. Outras, você trouxe de volta. — o homem no púlpito começou a falar. Steve parou na entrada do local, apoiando-se contra uma coluna. parou ao lado dele, franzindo as sobrancelhas. Um local de apoio para veteranos de guerra. — É nosso trabalho descobrir como iremos continuar. Se será em uma grande mala ou em um bolso de calça? Isso depende de vocês.
Poucos minutos depois o grupo estava se despedindo. perguntou-se porque haviam chegado tão tarde, se Steve havia se confundido nos horários. E então percebeu que ele nunca se confundiria e que a culpa de chegarem tarde provavelmente tinha relação com uma dúvida do homem. Ele deveria ter se perguntado por longos minutos se iria no encontro ou não.
— Olha só quem é. O maratonista. — o homem do púlpito aproximou-se deles após se despedir dos outros. não entendeu a piada mas riu. Sabia que tinha algo a ver com o pequeno exibicionismo que Steve possuía.
— Ouvi os últimos minutos, foi bem intenso. — dessa vez Steve se apoiou contra uma parede enquanto o homem começava a arrumar alguns panfletos na mesa. — Essa é minha amiga, .
— Prazer. — ela rapidamente deu um passo para frente, estendendo a mão para cumprimentar o homem.
— Sam. — ele sorriu para ela, apertando a mão dela e logo voltando a encarar Steve. — Bom, quase todos temos os mesmos problemas. Culpa, arrependimento.
— Você perdeu alguém? — Steve perguntou e sentiu vontade de brigar com ele. Parecia uma pergunta invasiva e sem tato nenhum. Mas talvez falar sobre perdas fosse comum para soldados?
— Meu companheiro, Riley. — Sam balançou a cabeça, confirmando. — Estávamos em uma missão noturna. Missão padrão de resgate. Já tínhamos feito aquilo várias vezes antes. Até que uma granada no chão explodiu nele. Não pude fazer nada. Parecia que eu estava lá só para olhar.
— Lamento. — Steve e falaram exatamente ao mesmo tempo. Se a situação fosse outra, teria rido. Mas naquele momento era simplesmente impossível.
— Depois disso, — Sam continuou. — foi difícil achar um motivo para estar lá.
— Está feliz agora, que está de volta ao mundo? — Steve perguntou, desviando rapidamente o olhar.
— Ninguém mais me dá ordens. — Sam brincou abrindo um grande sorriso. — Então, claro. Está pensando em desistir?
O estômago de gelou. Se fosse aquilo, se Steve estivesse pensando em desistir… não, ela não conseguia imaginar. Natasha havia dito que algo estava para acontecer e sabia que, quando acontecesse, ela precisaria da ajuda de Steve mais do que de qualquer outra pessoa – talvez mais do que da própria Natasha.
— Não. — a resposta de Steve quase a fez gritar de alegria. — Não sei. — e o complemento a fez segurar a respiração. — Para ser honesto, não sei o que eu faria se desistisse.
— Que tal UFC? — o tempo de na Terra havia sido o bastante para que ela já soubesse o que era aquilo, então mesmo com sua nova preocupação ela riu. — Foi a primeira ideia que me veio à cabeça. Sério, você pode fazer o que quiser. O que te faz feliz?
Steve encarou e sorriu. Era um sorriso sincero, então ela sorriu de volta.
— Não sei. — ele respondeu, ainda olha para ela. — Mas estou descobrindo.

***

Quando eles voltaram para casa já passava – e muito – da hora do jantar. Passaram o dia inteiro passeando pelas ruas da cidade. conseguiu convencer Steve a deixá-la a pilotar a moto até a esquina. Não era exatamente fácil, mas também não era tão difícil. Era quase como um brinquedo que ela teve durante a infância, apenas mais pesado e mais complicado de equilibrar. Mas com um pouco de prática talvez ela ficasse quase tão boa quanto Steve. Se ativasse sua Marca ficaria ainda melhor, mas não precisava apelar.
Adentraram o prédio rindo e conversando sobre o dia, o almoço, tudo. Porém, quando Steve colocou a chave na fechadura, um barulho de música vindo do interior do apartamento os fez parar. tinha certeza que eles não tinham deixado o rádio ligado – eles sequer haviam ligado-o naquele dia. Nem a televisão, certamente. Então Steve se afastou, correndo para a janela do corredor, que dava para uma saída de emergência.
— Espera aqui, eu vou entrar pela janela. — ele sussurrou, já abrindo a janela e se preparando para sair.
— Eu vou com você. — sussurrou de volta, vendo-o revirar os olhos.
— Pode ser perig–
— Nem começa. — ela o cortou, sentindo-se brava. — Eu não aprendi a lutar quase contra minha vontade pra ficar te assistindo, Steve. Ou vamos os dois, ou ninguém vai.
Steve revirou os olhos mas logo concordou. Os dois saíram pela janela do corredor e, com um pouco de dificuldade, o seguiu dando uma pequena volta pelo prédio, precisando se equilibrar com cuidado para não cair vários andares. Não demorou muito para que encontrassem a janela perfeita, finalmente entrado no apartamento no mais completo silêncio.
Os dois seguiram pelo corredor, a música parecendo realmente alta no interior. No meio do caminho, Steve aproveitou para pegar o escudo do Capitão América, causando uma leve sensação de alívio no peito de . Aquele escudo lhe passava um bom sentimento. Com cautela, Steve foi aproximando-se da sala, escondendo o corpo ao se encostar na parede. E então ele simplesmente relaxou.
Franzindo as sobrancelhas, ultrapassou Steve, finalmente encontrando o invasor. Nick Fury estava na poltrona, praticamente deitado. E seu rosto estava machucado, sangue já secando no canto de sua boca. A mão esquerda segurava sua costela, parecendo tentar conter algo… Um osso quebrado, talvez? Então respirou fundo e engoliu em seco. Tinha a sensação de que o momento complicado ao qual Natasha havia se referido estava de fato ficando ainda pior.



Continua...




Nota da autora: (27/11/2018)
Eu estou em um momento de muita alegria porque apresentei meu TCC e é isto, serei mais uma desempregada com diploma em pouco tempo
Além disso to com uma fic nova no site, 'to tão feliz que to escrevendo duas longs ao mesmo tempo
Eu sinto que essa fic tá um flop mas eu amo tanto escrever ahahaha
Enfim, logo menos eu volto <3



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