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Última atualização: 21/01/2021

1. Bela, recatada e do lar

Você sempre pensa que tem a vida perfeita quando teoricamente seus sonhos se realizam, um sentimento de conquista se mantém em seu coração. Mas quando esta vida perfeita se mostra uma rotina diária, será que nossos pensamentos continuam os mesmos? Era assim que eu estava me sentindo. Eu tinha a vida que sonhei na adolescência, claro que tudo aconteceu meio rápido e precoce naquela época. Se tivesse ouvido minha mãe, não teria engravidado aos 17 anos, não teria me casado com meu primeiro e único namorado. Ao contrário disso, teria entrado para a universidade de Princeton e cursado jornalismo, então aos 21 anos já seria estagiária de uma grande revista ou jornal. Apesar dos meus gostos para a culinária me voltarem para a gastronomia, ela sonhava muito com meu futuro.

Jovens inconsequentes. Foi assim que ela nos chamou, ao receber a notícia. Mas eu era sim uma inconsequente romântica que vivia lendo livros do século XIX e sonhando me casar com a versão moderna no Mr. Darcy. Apesar de Carl estar bem longe disso, quando o conheci era o típico popular que jogava basquete e precisava de ajuda nas aulas de literatura e redação. Poderia dizer que fui a garota nerd que conquistou o menino mais cobiçado da escola? Acho que sim. Sophie sempre dizia que eu nasci para viver uma… Como é mesmo que ela fala? Fanfic! Acho que é isso mesmo. Ela aprendeu a ler essas histórias com uma de suas alunas das aulas de ballet clássico.

No início não foi fácil, ter que amadurecer e criar um filho ao mesmo tempo. Carl se dividiu em dois para dar conta do seu curso de direito e sustentar a casa. Aos poucos com a ajuda dos amigos, principalmente Sophie e Will, nos erguemos e construímos uma família sólida. Agora, após dezesseis anos de casados, passei parte deles pensando que tinha o casamento perfeito e a família feliz. Eu, ele, nosso filho mais velho Joseph e nossa princesinha Molly. Até que Carl mudou de empresa e começou a ficar um pouco distante, o novo escritório de advocacia lhe exigia mais horas de trabalho e menos tempo com a família. O que me preocupava pelas crianças.

Ding dong… O soar a campainha me despertou de mais um devaneio. Parei de mexer a tigela com a massa das panquecas e limpei minha mão no pano de prato. Lembrei-me que Sophie passaria aqui para tomar café da manhã comigo, por isso dobrei a receita da panqueca. Ri de leve ao imaginar que minha amiga esfomeada já estivesse impaciente com minha demora, ao passar pela sala recolhi alguns brinquedos que Molly espalhou mais cedo. Joguei tudo no armário embaixo da escada e segui para a porta. Assim que abri, o olhar de alívio de minha amiga apareceu, assim como sua entrada em rompante.

— Me desculpe, mas só te dou bom dia após usar seu banheiro. — disse ela entrando casa adentro em direção ao lavabo.
— Não disse nada. — segurei o riso dela a acompanhando com meu olhar.

Fechei a porta e voltei para a cozinha. Minha amiga já estava familiarizada com minha casa, era da família e particularmente seu bom gosto por decoração tinha me ajudado a escolher toda a mobília. Parei em frente a bancada da pia e olhei para a janela. Dava vista para a cozinha da casa ao lado, ainda era estranho pensar que em anos ninguém tinha se mudado para lá. Nenhum parente do senhor Omar tinha reclamado a propriedade para si, nem mesmo o governo ou os bancos.

— Tendo mais um dos seus devaneios? — disse Sophie ao entrar na cozinha.
— Não, só estou pensando sobre a casa ao lado. — me voltei para ela e a olhei.
— Se eu fosse algum parente já tinha vendido isso. — ela riu colocando sua bolsa em cima da cadeira — Mas também, quem moraria nessa casa caindo aos pedaços?
— Com uma boa reforma… Tudo é possível.
— Só se rolar uma reforma like a Irmãos a Obra. — retrucou ela ao dar um suspiro longo — Já até me imagino vindo aqui todos os dias pra admirar a bela vista que teremos.
— Que vista? — perguntei me virando novamente e pegando a tigela de massa.
— Dos irmãos Scott, gente é cada pensamento que aquele Jonathan me causa, que eu sinto vontade de reformar a minha casa toda. — ela riu.

Ouvi o barulho da cadeira se arrastando, certamente ela se sentaria. Eu ri junto, minha amiga realmente não tinha jeito, e seus comentários eram os melhores sempre.

— Sophie, você é casada?! — tentei repreendê-la.
— Mas não sou cega. — ela soltou uma gargalhada — Eu amo o Will, ele é maravilhoso, mas isso não me deixou cega, ainda existem homens mais bonitos que ele no mundo.
— Acho que você agiria assim até se tivesse casada com o Tony Stark. — argumentei mencionando seu personagem favorito.
— Com um Tony Stark do lado querida, eu faria estrago.

Não me contive em soltar uma gargalhada sendo seguida por outra dela. Ficamos rindo por um tempo até que a entrada de Joseph na cozinha nos interrompeu.

— Tia Sophie. — disse ele surpreso ao vê-la.
— Oi querido, bom dia. — ela sorriu para ele e acompanhou seus movimentos com os olhos.
— Bom dia mãe. — ele veio até mim e me abraçou por trás me dando um beijo na bochecha.
— Bom dia querido. — sorri de leve.
— Ai que fofo, não sabia que filhos adolescentes eram carinhosos com a mãe, que inveja agora. — comentou Sophie ao observar as demonstrações de carinho dele.
— Se quiser um, tenha com o seu marido. — devolvi o comentário segurando o riso — Você e o Will já completaram quantos anos juntos? Cinco? Onde estão as crianças?
— Não sou boa parideira como você. — brincou ela.
— Tia Sophie não gosta de crianças. — brincou Joseph — Se lembra do último aniversário da Molly?

Nós soltamos algumas risadas. Aquele evento tinha sido o caos na visão dela.

— Ah por favor, me deem um desconto, aquela crianças não tinham noção de empatia, eu não queria molhar meu cabelo e saí toda encharcada.
— Tia Sophie, o aniversário foi em um clube, o que mais tinha lá era piscina. — Joe riu mais um pouco.
— A verdade é que Sophie tem medo de ser mãe. — afirmei indo até o fogão e acendendo a chama principal.
— Não tenho medo, só não sinto que nasci para essa vida, não ainda. — ela riu — Ser dona de casa já é tão chato, imagina com filhos, você é que tem esse perfil.

Mantive minha atenção na frigideira esquentando, rindo baixo de seus argumentos. Joguei uma concha da massa da tigela. Estava na hora das minhas famosas e irresistíveis panquecas. Joseph arrastou uma cadeira e se sentou ao lado dela, então pegou uma maçã na bandeja de frutas e mordeu.

— Tia Sophie, o que faz aqui tão cedo? — perguntou ele.
— Que pergunta menino, sabe que todo sábado eu tomo café da manhã com sua mãe, é nossa tradição. — respondeu ela.
— E o tio Will?
— Está no futebol com os amigos. — ela começou a bater as unhas na mesa, era uma de suas manias mais recorrentes — Sábado é nosso vale day, cada um fazendo o que quer com os amigos sem cobrança, sem hora pra voltar pra casa.
— Que estranho, mamãe e papai não fazem isso. — retrucou Joe.
— E o trabalho do seu pai deixa?! — se eu bem conhecia minha amiga, ele estava fazendo alguma careta estranha.

As risadas de Joe foram ouvidas com sucesso por mim. Tentei manter ao máximo minha atenção no preparo do café, enquanto ouvia a conversa dos dois.

— E você menino, já arrumou uma namorada?
— Ainda não, mas sou o popular da escola. — se gabou ele.

Não por que era meu filho, mas essa mistura de Carl comigo havia sido muito bem feita. Meu filho me lembrava seu pai mais jovem, bonito e cheio de charme com as garotas. Mas seu sorriso era totalmente igual o meu, singelo e meigo na medida certa. Olhar para ele e Molly era o que me deixava ainda satisfeita por ter seguido com a gravidez quando jovem e me casado com Carl. Admito que tinha me privado de alguns outros desejos, mas como sempre tive o sonho de ter uma linda família e ser a “mãe do ano”, já estava satisfeita.

— Só por favor, se lembre da camisinha quando for visitar o quarto da sua namorada. — o conselho de Sophie me trouxe a realidade — Não me vá engravidar uma pobre jovem com sonhos antes do tempo.
— Nossa Sophie. — olhei para ela meio desconfortável por seu comentário — Soou como se minha gravidez tivesse sido o fim do mundo para mim. Olha que filho bonito eu fiz.
— Poderia ter esperado e feito depois. — retrucou ela.
— Você também mamãe?! — meu olhar ficou mais suave.
— Só digo isso porque sofri muito naquela universidade sem você. — ela voltou seu olhar para Joseph — Sabe, namoradas tem amigas, que quer aproveitar uma festa de calouros acompanhada da amiga.
— Eu já entendi tia. — meu filho se levantou rapidamente — Não engravide a namorada, papai já teve essa conversa comigo.
— Já?! — eu o olhei surpresa.
— Pelo menos pra isso ele presta. — comentou Sophie.
— Sophie?! — a repreendi.
— O que? — ela me olhou com inocência.

Tinha que admitir que minha amiga não gostava muito do meu marido, nem ela e nem a minha mãe. Mas eu amava Carl. Tive alguns anos de amor platônico por ele no ensino fundamental e pude me declarar no ensino médio. Joseph segui para a sala, certamente iria esperar pelo café em seu quarto, onde passava a maior parte do tempo jogando League of Legends. Meu filho tinha uma obsessão por games e um sonho maluco de ser jogador profissional no futuro. Algo que Carl jamais permitiria, com certeza.

— E onde está minha pequena joaninha? — perguntou Sophie me olhando atentamente colocar as panquecas prontas no prato.
— Molly está na casa de uma amiguinha, teve uma festa do pijama de aniversário. — expliquei indo abrir o armário para pegar o pote de geléia de morango — Vai voltar amanhã de manhã.
— Noite das garotas hoje? — perguntei.
— Não, noite do casal. — a olhei com uma pitada de malícia — Nosso aniversário de casamento é hoje e planejei um jantar romântico.
— O que? Já? — ela fez outra careta.
— Como assim já, não é todo dia que se comemora 16 anos de casados amiga. — pisquei de leve — Comprei aquela lingerie de renda que você me indicou, vou usá-la.
— Não diga. — a insatisfação era transparente no rosto dela, mas não a culpava por isso — Bem, boa sorte.
— Não me olhei assim, Carl me prometeu que não iria trabalhar muito hoje.
— Já é um absurdo ele trabalhar no sábado. — ela cruzou os braços.
— Você sabe que a InH Associados é uma empresa muito famosa por ter os melhores advogados, meu marido tem que mostrar serviço. Não é fácil nos sustentar. — argumentei.
— Ok. Não está mais aqui quem criticou.

Terminei de colocar as coisas na mesa e após lavar as mãos novamente, me sentei na cadeira de frente para ela.

— Itadakimassu. — disse ela empolgada.
— O que é isso? — fiz uma cara estranha.
— Obrigado pela comida em japonês, estou aprendendo com uma aluna novata. — respondeu ela dando a primeira garfada.
— Olha, daqui a pouco você vira poliglota. — brinquei rindo dos seus gestos engraçados — Já que não passaremos esta noite juntas, o que pretende fazer?
— Não sei, acho que vou dar uma voltinha no shopping e pegar um cinema, estou pensando em chamar a mais nova solteira da turma. — ela colocou outro pedaço e mastigou, saboreando a seu modo — Você sempre se supera com essa panquecas, amiga não sei o que coloca nessa receita, mas fica divino, aliás tudo que você cozinha fica uma delícia, deveria ser dona de restaurante.
— Agradeço a preferência. — ri das caras e bocas que faziam enquanto mastigava — Mas… Acha mesmo que a Annia vai animar sair com você? Ela acabou de ficar viúva.
— Por isso mesmo, ela precisa de um pouco de diversão e distração. — argumentou ela — Annia sofreu muito com a doença do George.
— Bom, pelo menos na sua companhia ela vai rir muito.
— Eu sou a alegria do divertida mente. — brincou ela.

Eu me levantei e coloquei três panquecas em outro prato, joguei um pouco de mel por cima e a geléia de morango, então me levantei da cadeira. Deixei minha amiga por um momento e levei o prato até o quarto de Joseph. Como esperado ele já estava com os olhos vidrados naquele computador, fones no ouvido e muita concentração. Me aproximei com cautela e coloquei o prato ao lado onde ele pudesse ver, então acariciando de leve seus cabelos, me afastei dele. Assim que voltei para a cozinha, Sophie já estava embarcando em mais uma rodada de panquecas, me juntei a ela naquela delícia doce de café da manhã.

— Já que esta é a noite do casal, nos vemos na segunda então? — perguntou ela ao pararmos em frente à porta.
— O que está planejando para segunda? — perguntei curiosa.
— Não estou planejando, mas a gente não tinha combinado que você iria naquela entrevista? — explicou ela com um olhar indignado pela minha falta de memória.

Sophie havia mesmo mencionado sobre a mãe de uma de suas alunas do estúdio de dança, que era editora chefe do NT Post. Minha amiga se sentia um pouco incomodada com minha pacata vida de dona de casa, ela desejava mais para mim. Desejava me ver em uma redação escrevendo meus textos impactantes, como a época do ensino médio.

— Ah, a entrevista. — realmente tinha me esquecido.
— Não acredito nisso, é uma oportunidade única, Genevieve ficou encantada com suas redações do ensino médio, imagina você redatora de um jornal famoso. — seu olho brilhou de leve.
— Olhe para mim Sophie, eu não fiz faculdade de jornalismo como minha mãe queria. — deixei minha voz soar séria, mas com sutileza, a chamando para a realidade — Minha vida fanfic não é tão generosa assim.
— Quem disse que um diploma supera um talento nato, eu já te disse que ela ficou apaixonada com suas redações, quando você escrever algo para a coluna feminina do jornal, tenho certeza que fará sucesso, a velha professora Donson sempre te elogiava e dizia que você tinha o dom da escrita. — seus argumentos não paravam.
— Além do mais, eu ainda não conversei sobre isso com Carl. — retruquei.
— E quem disse que aquele macho não alpha manda na sua vida? — ela colocou a mão na cintura, elevando seus olhar empoderado — Apenas comunique a ele que você vai começar a trabalhar fora, você não deve pedir permissão, passou todos esses anos cuidando dessa casa e da sua família, está mais do que na hora de pensar em você, na sua carreia profissional.
— Eu não vou pedir permissão, vou pedir a opinião dele sobre o assunto. — ponderei — Carl é meu marido, preciso saber o que ele acha sobre isso.
— Nós duas sabemos que toda vez que cogitou a falar sobre isso com ele, aquele babaca disse que você já tinha sua rotina cheia. Cheia do que? Das roupas sujas dele?

Não me contive em soltar um riso rápido por suas palavras.

— Eu vou ser sincera com você amiga, oportunidades assim é uma em um milhão, não é todo dia que eu tenho uma aluna filha de uma editora chefe. — seu olhar repreensivo de mãe apareceu.
— Tudo bem mamãe, vou pensar com carinho nessa entrevista. — abri um sorriso singelo para ele e logo recebi um abraço encorajador.
— Segunda às quatro da tarde ok? Passo aqui para te buscar! — ela piscou de leve e pegou na maçaneta da porta — E por favor, nada de se vestir como uma dona de casa desajustada, coloque algo mais formal e estiloso.
— Pode deixar missa simpatia. — brinquei rindo — Vou colocar um preto básico para não errar a mão. 
— Te amo amiga. — ela lançou um beijo no ar e abriu a porta — E boa sorte no seu jantar.
— Também te amo, obrigada. — eu ri de leve esperando que ela saísse.

Acompanhei com o olhar seus passos em direção ao seu carro. Dei um passo para frente, saindo na varanda e olhei de relance para a velha e abandonada casa da esquerda, logo o outono chegaria e novamente as folhas entupiram a calha da varanda. Ainda me lembrava do transtorno que nos causou no ano passado. Soltei um suspiro fraco e voltei para dentro. Assim que fechei a porta, me espreguicei de leve pedindo a Deus ajuda para faxinar aquele lugar. A pior parte de ser dona de casa era aquilo, o dia da faxina. Eu amava cozinhar com todas as minhas forças, mas quando o assunto era lavar a privada do banheiro, lágrimas escorriam com facilidade.

Ao final da tarde, reservei um tempo para me aprontar. Mas antes tinha que me livrar do adolescente do quarto ao lado. Bati de leve na porta do seu quarto e entrei, como sempre sua atenção estava no computador, seus dedos se movendo com rapidez no teclado e sua perna direita se mexendo involuntariamente. Parecia ansioso para terminar a partida ou nervoso por estar perdendo. Mas pelo menos desta vez estava sem os fones de ouvido.

— Joseph?! — o chamei da porta.
— Oi mãe. — ele manteve seu olhar na tela.
— Já terminou seu jogo? — perguntei dando alguns passos até ele.
— Não estou jogando.
— E porque essa bateção de perna aí?
— Entrei em um concurso para fazer parte de uma equipe muito forte, estou esperando sair o resultado.
— Hum… 
— Você quer alguma coisa? — ele afastou um pouco a cadeira e se voltou para mim.
— Sim… Quero saber como posso subornar meu filho a passar a noite fora?

Apesar de ser um adolescente popular e cheio de amigos, Joseph tinha vários traços de minha personalidade quieta e caseira. Surreal que ele não gostasse de sair muito e pouco aparecia nas festas clandestinas dos alunos da sua escola. Mas certamente era por este ar misterioso que ele passava para todos que o tornava ainda mais cobiçado pelas meninas da sua idade.

— O que a senhora está planejando para hoje? — ele fez uma careta de curiosidade.
— Você sabe muito bem que hoje é o aniversário de casamento dos seus pais, deveria ajudar né?! — coloquei a mão na cintura o olhando com seriedade.
— Então é por isso que se livrou da Molly? — ele segurou o riso, suavizando a face fingindo certa indignação — Que vergonha mãe.
— Seu abusado, eu não me livrei da sua irmã. Que ao contrário de você tem uma vida social muito intensa e movimentada. — retruquei caminhando até ele.
— O meu charme está em ser reservado e misterioso. — ele piscou para mim e sorriu.
— Estou pedindo com sinceridade filho, por favor! — fiz uma cara de cachorro abandonado para ele.
— Ok mãe, eu saio se você convencer o papai que eu não vou cursar o que ele quer. — meu filho era bom em negociações — Não me vejo de terno o dia todo trabalhando em um escritório de advogados, menos ainda sendo sugado pelo meu chefe. 
— Eu te entendo querido, quando minha mãe me disse que eu faria jornalismo, fiquei na defensiva também. — concordei em partes com ela.
— Aí depois ficou grávida de mim.
— Sim, mas isso não vem ao caso agora. — respirei fundo — O máximo que posso fazer por você é convencer seu pai a te deixar ir naquele campeonato que falou, é o máximo.
— Jura? — ele esticou o dedo mindinho.
— Juradinho! — cruzei meu dedo com o dele selando o acordo.
— Eu te amo mãe. — Joseph se levantou da cadeira e me abraçou.

Devolvi o abraço com carinho e amor. Meu ficou era uma fofura, meu coração sempre se aquecia um pouco com seu jeito carinhoso comigo.

— Também te amo querido, e te quero fora daqui em 30 minutos, deixa telefone e endereço da casa que você vai ficar.
— Vou pra casa da vovó. — disse ele indo até a cama e pegando sua mochila.
— Ai Joseph, por favor, eu te libero uma noite para poder se divertir como um adolescente comum e você me caça a casa dos seus avós? — o olhei indignado.
— Lá tem computador e internet.
— É por isso que não tem uma namorada seu gamer. — retruquei.
— Não estou interessado em namorar agora mãe. — ele veio até mim e beijou minha bochecha — E quando eu tiver uma, será a primeira a saber, só ficarei com uma garota que conquistar a senhora primeiro.
— Muito fofo da sua parte, mas ela tem que conquistar você primeiro, não serei eu a beijar a garota no seu lugar. — brinquei.
— É que, eu vejo como a vovó trata o papai, sei que ela não gosta dele. — explicou ele.
— Querido, não baseie sua vida amorosa na minha com seu pai. — sorri de leve para ele — Agora vai… E só me volte aqui domingo de tarde.
— Sim senhora. — ele jogou a mochila nas costas e saiu rindo de mim.

Eu segui para meu quarto, iniciaria meu momento spa in house. Enchi a banheira de água bem quente e joguei alguns óleos essenciais de rosas, logo todo o banheiro ficou perfumado. Respirei fundo e me perdi por uns segundos naquele aroma maravilhoso. Entrei dentro da banheira, me encolhendo um pouco pela temperatura da água, então me sentei e relaxei meu corpo. A quanto tempo não fazia isso?! Aproveitar da banheira, tirar algumas horas do meu dia para cuidar de mim. Sophie tem razão quando me critica. Eu deveria cuidar mais de mim e esquecer um pouco os afazeres domésticos, os deveres escolares das crianças, os ternos de marca do Carl.

— Não acredito que estou tendo esses pensamentos. — sussurrei após um longo suspiro.

Terminei o banho e cheguei no quarto novamente. Parei diante do espelho, olhando meu reflexo. Até que não estava nada mal, para uma dona de casa que não frequentava salão de beleza ou academia, como Freya ou a Sophie. Ri de leve e peguei a escova, começando a pentear meus cabelos, assim que terminei deixei novamente em cima da penteadeira e caminhei até o guarda-roupas. Vesti a lingerie de renda vermelha que comprei e por cima o vestido tubinho listrado que ganhei de Carl no último aniversário. Bem, ele não havia comprado diretamente, mas tinha deixado um vale compras da Zara juntamente com uma rosa e um bilhete pedindo desculpas. Não podia cobrar muito, já que Carl tinha uma viagem importante marcada justo para aquele dia.

— Agora sim. — disse ao terminar de me arrumar.

Desci para a cozinha após espirrar perfume em mim, então coloquei a travessa de vidro de lasanha no forno. Encostei na bancada da pia e fiquei esperando até que ficasse pronto, meu olhar se voltou para a janela da casa ao lado. Novamente vendo tudo escuro e vazio. As horas foram passando… 
Passando… 
Até que adormeci sentada na cadeira, com a lasanha na minha frente à espera do Carl.

- x - 

Você é muito boazinha . — questionou Sophie ao telefone — Se fosse o Will fazendo isso comigo, teria dormido de calça jeans uma semana só pra ele aprender.
— O Carl teve uma emergência Sophie, ele me explicou quando chegou em casa. — mantive minha voz suave — E não acho que calça jeans sirva para mim, eu e Carl estamos sem… Já tem um tempo que não temos nada.
Isso me deixa ainda mais em choque, vocês estão mesmo casados? — questionou ela incrédula.
— Um relacionamento é muito mais que sexo, além do mais, não vou falar sobre minha intimidade de casal com você, amiga. — suspirei fraco — Preciso desligar, tenho que deixar o almoço pronto para as crianças antes de sair.
Mas a entrevista é às quatro?
— Eu vou fazer uma surpresa para o Carl hoje, vou até o escritório para almoçar com ele.
Olha só, a dona de casa quebrando a rotina de almoçar com as crianças. — brincou ela soltando uma gargalhada ao telefone.
— Foi você mesmo que me aconselhou a quebrar a rotina e fazer coisas novas para avivar meus dias. — retruquei.
Estou orgulhosa por isso.
— Sua boba.
Então te encontro no central Park para irmos juntas a entrevista.
— Sim mamãe. — brinquei.

Desliguei o celular e deixei em cima da mesa de canto da sala, então voltei para a cozinha. Não era como Sophie tinha dito, eu ainda estava chateada com Carl, e tivemos uma briga estranha na madrugada de sábado. O que acarretou um grande silêncio entre nós dois no domingo, me levando a almoçar na casa dos meus pais com as crianças. Não queria continuar ignorando meu marido, fingindo não me importar com a presença dele, eu precisava resolver as coisas com ele e assim fazermos as pazes. E nada como um almoço no nosso restaurante favorito para isso, já que ele viajaria na quarta pela manhã, não iria prolongar nosso afastamento.

Terminando minha obra prima em forma de refeição, troquei de roupa colocando um terninho básico preto, já que depois eu iria na tal entrevista, peguei minha bolsa bege que cabia o mundo dentro e saí de casa. Chamei um uber que sairia mais barato e segui para a empresa de Carl. O motorista até que foi bem simpático e comunicativo, ao introduzir o assunto sobre o jogo do Chicago Bulls na semana passada, ele parecia ser um grande fã daquele time de basquete. Ao descer do carro, avistei um rosto conhecido, era Mike o “rival” do meu marido na empresa. Um excelente advogado cuja ambição na carreira era se especializar em acordos de nível extraconjugal.

— Mike, bom dia. — disse ao me aproximar dele e o abraçar de leve em cumprimento.
que surpresa você aqui. — ele retribuiu o abraço e sorriu de volta — A quanto tempo não te vejo.
— Verdade, eu sou meio caseira sabe. — dei a minha desculpa de sempre.
— Entendo, então é por isso que não apareceu na festa do sábado. — comentou ele de forma natural.
— Festa do sábado, como assim? — eu não estava entendendo.
— Ai, que constrangedor agora. — sussurrou ele — Eu achei que soubesse, quando vimos o Carl sozinho lá, achamos que você não tinha ido por causa das crianças.
— Hum… — me senti meio envergonhada e realmente constrangida.
— Me desculpe. — ele também estava sem graça com aquilo.
— A culpa não é sua. — respirei fundo tentando me manter firme — Mas como está a nova promoção? Carl me disse que você agora é diretor do departamento de família, depois que o senhor Hilt se aposentou.
— Ah sim, eu gosto de trabalhar mais com assuntos conjugais e matrimoniais. — explicou ele — Se um dia você quiser se divorciar, me chame. — terminou brincando.

Porém num tom de seriedade.

— Agradeço a oferta, vou me lembrar disso. — ri um pouco.
— Você vai entrar?
— Claro, vim fazer uma surpresa para o Carl e almoçar com ele.

Agora mais do que nunca ele teria que me dar muitas explicações, sobre ter mentido para mim e não contado sobre a tal festa. Entrei no edifício na companhia de Mike e no elevador apertei para o 5º andar, onde a sala de Carl ficava. Ao sair me despedi de Mike e caminhei pelo corredor até chegar no hall de espera, sua secretária Rose se mantinha concentrada em alguns papéis.

— Rose, o Carl está na sala? — perguntei já me movendo até a porta dele.
— Sim senhora, mas ele está em reunião. — ela se levantou apressadamente para me impedir de entrar — Me deite te anunciar antes.
— Não precisa, eu sou a esposa dele, não preciso ser anunciada.

Talvez eu tivesse deixado ela me anunciar, certo de que eu não iria vivenciar o pior momento da minha vida. Mas como Sophie sempre dizia, mulheres fortes encaram a verdade de frente, mesmo sendo dolorosa na maioria das vezes. Foi o girar da maçaneta e abrir a porta que meu corpo paralisou. Por alguns segundos senti que não tinha nem mesmo mais um coração em meu corpo, pois o mesmo já tinha sido despedaçado. Ver Carl se fundindo a uma mulher em sua mesa de trabalho, fez meu estômago embrulhar e ao mesmo tempo minha mente parar de funcionar. Meu marido tinha uma amante e ela era sua colega de trabalho. 

O pior, foi olhar nos olhos dele e não ver nenhum traço de arrependimento ou remorso, mas sim um olhar de alívio. Um olhar de: agora me livrei da minha esposa chata. E foi esse olhar que fez a primeira lágrima cair dos meus olhos.

Eu não posso morder minha língua para sempre
Enquanto você tenta fazer isso parecer legal
Você pode se esconder atrás da suas histórias
Mas não me faça de idiota
Seu amor é só uma mentira.
- Your Love Is a Lie / Simple Plan



2. Resetar

Mesmo com a mente paralisada pelo cenário em que eu me encontrava, meu corpo se moveu involuntariamente saindo daquele lugar. Corri até as escadas, não queria esperar o elevador, ao passar pelo saguão do edifício, fui trombando nas pessoas que estavam por lá. As lágrimas continuaram rolando pelo meu rosto, eu não sabia onde ir, o que fazer, somente queria sair dali. Minhas pernas continuaram movendo meu corpo sem direção certa, parei de correr e comecei a caminhar, meu coração acelerado, meu rosto molhado. Aos poucos fui despertando do transe em que me encontrava, e logo minha audição se abriu para o toque do celular. Olhei para a tela, várias chamadas perdidas e uma de Sophie em execução.

— Sim. — disse ao atender.
Amiga, onde você está? Estou te ligando às tempos, vai se atrasar para a entrevista, já estou aqui no Central Park te esperando. — sua voz estava afobada do outro lado da linha.
— Eu não vou.
Mas por que?
— Ele me trai. — respondi direta, com as lágrimas rolando em minha face.
Quem te trai?
— Carl.
Onde você está?
— Não sei. — disse olhando em minha volta.
Ok, trate de se mover até o estúdio de dança. — sua voz tinha traços de ordem — Estou indo para lá.

Encerrei a ligação e fiquei olhando para tela. Pensei se realmente deveria ir. Talvez desabafar e chorar em seu ombro. Respirei fundo e dei meia volta, não sabia mesmo onde estava, mas sabia como chegar no estúdio onde ela dava aulas. Ficava em uma área nobre de Upper East Side, em Manhattan. Segui o longo trajeto a pé até chegar, Sophie já me aguardava na recepção. Assim que vi minha amiga, desabei a chorar de novo. Ela me abraçou com carinho tentando me consolar, mas continuou em silêncio. Assim que nos afastamos uma da outra, ela segurou em minha mão e guiou até a sua sala de dança. Caminhamos até a janela e nos sentamos nas cadeiras que ela deixava de apoio, então Sophie me fez contar tudo que eu vi. Foi difícil dizer, era como se eu visse a cena novamente na minha frente. Fez meu estômago embrulhar mais uma vez.

— Que babaca. — xingou ela ainda mais revoltada.
— É isso, me desculpa amiga, mas não tenho condições mentais para nada hoje. — me encolhi na cadeira, limpando mais uma lágrima.
— Não, não, isso é um fato, não vou te obrigar a ir na entrevista. — assegurou ela.
— Eu não quero voltar para casa, não hoje. — sussurrei.

Poderia estar agindo como uma adolescente novamente, fugindo dos problemas, mas eu não tinha forças para enfrentá-los, não naquele momento. Sophie sorriu para mim e me olhou com compaixão.

— Vamos fazer o seguinte, eu ligo para a Genevieve e remarco a entrevista, então ligo para o Joe e peço a ele que durma na casa dos seus pais com a Molly, e você fica lá em casa essa noite. Tenho certeza que o Will não vai se opor. — seu olhar sereno passava-me muita segurança.

Eu tinha uma boa amiga, isso não podia negar.

— Agradeço pelo amparo Sophie. — sussurrei com os olhos lacrimejando novamente.
— Amigos são para isso. — ela piscou de leve e se levantou da cadeira — Vou fazer as ligações, enquanto isso, tente recuperar as forças um pouco.

Sophie se afastou já digitando no celular. Eu voltei meu olhar para a janela, olhando os carros passando na rua, me desliguei por um momento lembrando do passado. Do dia em que por sorteio tive que fazer um trabalho de literatura com Carl dando início a nossa história. Naquela época Sophie vivia dizendo que minha vida parecia filme teen do Disney Channel, o que rendia muitas risadas nossas. Mas depois do The End daqueles filmes, a vida real continuava, e toda a sua carga de pressão e sobrevivência também. 

— Pronto amiga. — disse Sophie ao voltar — Quer ir agora?
— Não. — sussurrei.
— Tudo bem. Quer ficar sozinha?
— Não. 

Ela assentiu e se sentou na cadeira em minha frente. Permaneceu em silêncio me observando. Deve ter sido entediante para ela. Minha amiga é do tipo de pessoa cheia de energia e totalmente hiperativa e agora estava ali, quietinha comigo. E ficamos por um longo tempo assim, até que ela me puxou pela mão e me levou para sua casa. Quando chegamos no seu apartamento no Brooklyn, Will estava na cozinha fazendo alguma coisa.

— Boa noite girls. — disse ele ao entrar na sala, deu um leve sorriso e caminhou até Sophie, lhe dando um selinho rápido — Pedi pizza caso estejam com fome.
— Pizza? — Sophie o olhou.
— Quatro queijos, como você gosta. — ele piscou de leve para ela.
— Esse é meu marido. — ela abriu um largo sorriso de satisfação.
— Eu não estou com fome. — disse em tom baixíssimo.
— Vem amiga, vou preparar o quarto de hóspedes para você. — disse ela.

Assenti com a face e a segui até o segundo quarto do apartamento. Os pais do Will não eram ricos, mas tinham presenteados eles com aquele apartamento. Se localizava na parte um pouco mais nobre e segura do Brooklyn, bem próximo a Manhattan. Sophie abriu a porta do quarto e me deixou entrar, me deixou alguns minutos sozinha e logo retornou com uma roupa de cama nas mãos. Trocando os lençóis que estavam na cama pelos limpos que trouxe, e deixando uma toalha nos pés da cama.

— Caso queira tomar um banho. — disse ela.
— Obrigada Sophie. 

Eu recebi outro abraço apertado dela, que me fez segurar as lágrimas. Me afastei e me sentei na cama, encostando na cabeceira e mantendo meu olhar na janela. Senti a movimentação dela para sair do quarto, assim como a aproximação de Will.

— Como ela está? — perguntou ele.
— Ela me parece um pouco apática, mas sei que por dentro ela está em pedaços. — respondeu minha amiga.
— Eu conheço o Carl desde o jardim de infância, nunca imaginei que ele seria tão babaca assim. — comentou ele — Como pode fazer isso com a , depois de todos esses anos que ela se dedicou a ele.
— Nem me fale, babaca só é pouco, aquele filho da… — ela prendeu sua indignação. 

Mas sabia que Sophie estava mais do que furiosa com isso. E ela nem tinha sido a vítima.

— Vamos deixá-la descansar. — a voz dela soou mais calma e pacífica — Amanhã será um novo dia em que ela terá que enfrentar.

Sim. Eu teria que enfrentar o amanhã. Mas não queria que ele chegasse ainda. Eu me considerava uma mulher forte por ter passado por tantas coisas ao longo desses 16 anos e nunca ter surtado ou pensado em largar minha família. Então é assim que o amor termina para um casal? Com uma traição? Fiquei uma boa parte da noite olhando a janela pensando sobre isso. Será que o Carl me amou de verdade algum dia? Ou eu fui a única a ter esse sentimento? Na manhã seguinte, acordei com o cheiro do café invadindo o quarto. Me levantei e percebi que ainda estava com a roupa de ontem, nem mesmo um banho eu consegui tomar. Quando cheguei na cozinha, Sophie estava terminando de colocar as coisas na mesa.

— Bom dia flor do dia. — ela sorriu graciosamente para mim — Conseguiu dormir?
— Acho que sim. — mantive meu tom baixo e encostei na parede — O Will já foi para o trabalho?
— Sim, ele tinha que chegar cedo no hospital hoje. — respondeu ela, ao passar o dedo indicador na pasta de amendoim e por na boca.
— Ele está fazendo plantão ainda?
— Não, o diretor está cortando as horas extras e agora que ele está a um passo que conseguir ser o cardiocirurgião chefe. — explicou — Só falta o dr. Stevens se aposentar.
— Vai demorar. — brinquei.
— Espero que não, mas enquanto isso, ele tem que se mostrar um aprendiz aplicado, não dá pra ficar só contando com o QI alto dele. — ela riu — E então?
— Então, o que?
— Carl me ligou agora de manhã, perguntando se você passou a noite aqui.
— E o que disse?
— Disse que sim.
— Poderia ter mentido dessa vez. — deu alguns passos até a cadeira e me sentei.
— Sua mãe também ligou, as crianças dormiram lá e já foram para a escola. — ela mordeu o lábio inferior.
— Você contou a ela. — presumi.
— Por alto, disse que você teve uma briga com ele. — ela se sentou na cadeira de frente para mim — Mas ela vai querer saber de tudo.
— Não posso fugir para sempre.
— Quer companhia?
— Não, eu vou sozinha, preciso encarar isso sozinha amiga.
— Se precisar de um advogado, tenho uma lista.
— Se eu precisar, já sei quem recorrer.
— Tudo bem.

Mike. Era o único nome que vinha em minha mente. Talvez suas palavras na tarde de ontem fossem uma premonição de que eu descobriria mais cedo ou mais tarde a traição de Carl. Após o café da manhã na casa de Sophie, peguei um uber e fui para casa dos meus pais. Papai se encontrava na garagem mexendo no seu velho carro, ele dizia que era um clássico, mas vivia dando defeitos. Já minha mãe, estava no quintal dos fundos regando sua horta de temperos. Me mantive em silêncio até que ele percebeu minha presença e parou o que estava fazendo. Eu e minha mãe não tínhamos um bom relacionamento desde o dia em que anunciei minha gravidez, e as coisas só foram ladeira abaixo após meu casamento. Estava com medo da reação dela.

— Aquele patife. — disse meu pai em fúria assim que terminei de contar a mesma história a eles — Você deve exigir o divórcio, e expulsá-lo daquela casa.
— Expulsar? A casa é dele querido, nossa filha que será jogada na rua. — a voz ríspida da minha mãe estava ativada — Tanto que eu falei sobre aquele playboyzinho de merda, tanto que eu avisei que ele não prestava, que você merecia algo melhor. Está aí o castigo por não ouvir sua mãe, deixou a faculdade para ficar com ele e agora foi trocada por uma mulher graduada.
— Nossa filha já está sofrendo Agnes. — meu pai tentou intervir.
— Está satisfeita agora por ter levado adiante a gravidez? — perguntou ela com mais agressividade.
— Agnes já chega. — a voz do meu pai ainda se mantinha baixa.
— Está satisfeita por ter interrompido todo um projeto de vida para ser uma esposa traída agora?
— JÁ CHEGA AGNES! — meu pai gritou se levantando do sofá — Nossa filha já está o suficiente abalada com tudo isso, não piore as coisas.
— Eu estou bem pai. — me levantei do sofá e forcei um sorriso — Eu só vim para explicar o que está acontecendo. 
— Você vai mesmo ficar bem? — meu pai me abraçou novamente — Sabe que pode voltar para nossa casa com os meninos, quartos aqui é que não falta.
— Eu tenho minha casa, e não vou sair dela. — voltei meu olhar para minha mãe — Já estou indo.

Se minha mãe tinha algum desgosto com minha escolhas, ela se orgulhava com a vida perfeita que Margareth construiu. Minha irmã mais velha cursou economia e em pouco tempo já tinha sido promovida a diretora financeira na transportadora em que trabalhava. Se casou ao completar 27 anos com o Mark, sobrinho do dono da empresa, três anos depois ficou grávida do Jacob. Essa era a vida que minha mãe sonhava para mim, uma grande realização profissional, antes do casamento. De certa forma ela não estava errada, só queria o meu bem. Não podia culpá-la.

Voltei para casa no final da tarde, após dar algumas voltas no Central Park com Molly. Tinha pegado ela mais cedo na escola, com a desculpa de termos dentista. A diretora Joyce é legal e nos liberou. Molly não entendeu nada, mas se divertiu horrores depois que nos empanturramos de algodão doce.

— Mamãe, está tudo bem? — perguntou ela ao entrarmos em casa — Você está doente?
— Por que pergunta isso?
— Nos filmes, quando as mães estão doentes, elas fazem isso. — explicou ela — Passam o dia com os filhos, de forma aleatória.
— Se eu estivesse doente, deveria ter levado Joseph conosco não acha? — retruquei.
— Verdade. — ela fez uma cara pensativa.
. — a voz de Carl veio da direção da cozinha.

Virei meu rosto e ele estava na porta nos olhando. Senti nojo ao ver aquele olhar de: nada aconteceu.

— Molly, vai tomar um banho e fazer sua lição de casa, preciso conversar com o papai. — pedi a ela dando um sorriso no final.
— Tudo bem. — ela sorriu de volta e saiu saltitando até a escada.

Mantive o sorriso no rosto até ela desaparecer no meu campo de visão. Então voltei a ficar séria e olhei para o cinismo em pessoa. 

— Vamos para a cozinha. — disse caminhando em sua direção.

Passei por ele segurando minha raiva e frustração, e me coloquei ao lado da geladeira, o olhando fixamente.

— Eu não vou encobrir o que você viu. — ele iniciou.
— Agradeço por não se dar o trabalho de mentir novamente. — tentei ao máximo manter minha voz firme.
— Então serei mais direto ainda...
— Se está falando do divórcio, não vou me opor, eu também quero. — disse o interrompendo — E tudo relacionado a isso você poderá tratar diretamente com meu advogado.
— Que advogado.
— O Mike, soube que ele é o melhor do país quando se trata desses assuntos. — eu vi uma forte explosão de raiva nos olhos dele.

Será que aquilo poderia ser considerado uma pequena vingança?

— O Mike?! — ele deu uma risada rápida — Veremos então.
— Se não tem mais nada para falar…
— Não quer saber o motivo?
— E um homem tem que ter motivo para ser um babaca e trair a esposa? — retruquei voltando meu olhar para a janela, deixando minha visão na casa ao lado — Lhe falta caráter, essa é a explicação.
— Não, o que me falta é uma mulher de verdade. — ele jogou essas palavras em mim com certo prazer no olhar — E isso você nunca foi para mim.
— O que?! — voltei meu olhar para ele. 

Suas palavras caíram como uma tipo de açoite em mim, algo que me feriu com profundidade. Segurei as lágrimas que ao longo do dia se mantiveram presentes querendo sair dos meus olhos. 

— Eu só me casei com você por causa da gravidez, por meus pais terem me pressionado, mas agora me sinto aliviado por me livrar disso. — a sinceridade era nítida em sua voz — Me arrependo do dia em que te convidei para ir ao cinema.
— Se arrepende dos nossos filhos também?! — prendi o quanto pude meus sentimentos feridos, para não desmoronar diante dele.
— Se não fosse com você teria sido com qualquer outra mulher. — as palavras soavam com tanta serenidade dele.
— Eu não o forcei a ficar tanto tempo casado comigo, se não gostava de mim. — retruquei.
— Conveniência talvez. — ele colocou as mãos no bolso da calça, parecia escolher as próximas palavras — Mas parando para pensar, depois de um tempo convivendo com você, até mesmo ao te ver cozinhando eu me sentia entediado.
— Vai embora daqui.
— O que?! Agora quer agir como uma mulher durona?
— Sai daqui Carl. 
— E porque eu deveria, esta casa é minha.
— Vai descobrir que não será mais. — eu apontei para a porta — Agora vai embora daqui.

De magoada, eu estava me sentindo raivosa. Assim que ouvi o som da porta batendo, desabei no chão da cozinha junto com as lágrimas. Meu coração se apertou ainda mais assim que suas palavras voltaram em minha mente: “o que me falta é uma mulher de verdade”. Então ele nunca me viu assim? Por isso ele sempre me evitava? Orgulho, autoestima, eu já não sabia mais o que em mim estava ferido. Mas eu tinha dentro de mim que iria ferir Carl onde ele mais se assegurava, no trabalho e Mike me ajudaria.

— Mãe?! — Joseph se aproximou de mim e agachando, me abraçou de maneira confortável e com segurança — Ele nunca te mereceu mãe.
— Você ouviu?
— Tudo. — sussurrou ele — Eu estou com você.
— Obrigada querido. — eu me aninhei nos braços do meu filho.

Aquele gesto dele me mostrava que eu sou uma boa mãe e o tinha criado muito bem. Meu filho é atencioso, carinhoso e respeitador. Estava certa que no futuro, ele jamais agiria assim com sua esposa.

— Mamãe?! — Molly apareceu na porta toda encolhida — O que faz no chão com o Joe?
— Querida. — eu me afastei um pouco dele limpando a lágrima — Não fazemos nada.
— Vem aqui Molly, a mamãe precisa de um abraço coletivo. — disse Joe.
— Tudo bem. — ela correu até nós e pulou em meu colo, então me deu um beijo na bochecha e me abraçou — Te amo mamãe.
— Também te amo minha princesa. — sorri de leve.
— Onde está o papai para o abraço coletivo?
— O papai não vai mais morar aqui. — respondeu Joseph.
— Por que mamãe? O papai fez algo errado?
— Sim. — respondi.

Molly já tinha 10 anos. Idade suficiente para entender o que estava acontecendo.

— Seu pai me traiu com outra mulher. — expliquei sem rodeios — Por isso vamos nos divorciar.
— Assim como os pais da Kim?!
— Sim. — assenti — Mas quero que se lembre que ele continua sendo pai de vocês, ele errou foi comigo.
— Para mim ele errou com todos nós. — Joseph se levantou.
— Não diga isso filho. — eu me levantei junto — Ex marido não significa ex pai.

Joseph ficou me olhando ainda revoltado, mas ele sabia que eu estava certa. Assegurei a ele que independente de tudo, ficaria com a guarda deles, eu sabia que Carl não seria tão responsável assim para ficar com nossos filhos e nem deixaria mesmo se fosse o caso. Respirei fundo e sorri para eles, não queria que meus filhos me vissem mais triste, principalmente Joseph. 

— Quem quer pizza para o jantar? — sugeri.
— Mamãe sugerindo pizza? — Molly se assustou.
— Acho que estamos entrando em um novo tempo. — brincou Joseph.
— Ei. — eu cutuquei ele de leve — Só não irei cozinhar hoje, porque estou cansada e com vontade de comer pizza.

Minha explicação não era nada convincente, mas eles entendiam o motivo. Nossa noite foi divertida em meio a uma maratona de desenhos da Pixar, a começar por Ratatouille, o meu favorito. Pouco antes da meia noite, pausei Divertida Mente e peguei Molly no colo, ela estava mais pesada do que o normal. Ou era eu que estava ficando sem coluna? 

— Deixa que eu levo ela. — disse Joseph ao despertar.
— Está tudo bem. — assegurei.
— Não está. — ele se levantou e pegou Molly — Vai descansar mãe.
— O que eu fiz para merecer você como filho?! — senti meus olhos brilharem.
— Você é a melhor mãe do mundo. — ele beijou minha bochecha e subiu primeiro com a irmã. 

Suspirei fraco e voltei meus olhos para a televisão. Não estava com sono e se fosse para o quarto, minha mente seria tomada pelos maus pensamentos. Me sentei novamente no sofá, enrolei na manta que tinha levado e apertei o play. Nem sei dizer se meu sonho chegou no final de Toy Story 4 ou no início de Valente, mas acabei adormecendo ali mesmo na sala. Logo pela manhã me levantei com o sol brilhando na cara e Joseph na cozinha preparando o café da manhã. Meu filho cozinha?

— Desde quando sabe mexer no fogão sem colocar fogo na casa? — brinquei ao entrar na cozinha e ver Molly sentada saboreando uma panqueca improvisada pelo irmão.
— Não é tão gostosa quanto a sua mamãe, mas o Joe sabe cozinhar. — Molly riu ao tentar elogiar ele.
— Agradeço a sinceridade Joaninha. — ele sorriu e piscou para ela — E esta é a sua mãe. — ele esticou o prato para mim mostrando e o colocou sobre a mesa.
— Obrigada. — me sentei e ao sentir o aroma convidativo, deu a primeira garfada sendo surpreendida pelos dotes culinários do meu filho — Onde aprendeu a cozinha seu gamer misterioso?
— Com você. — respondeu tranquilamente ao se sentar também.
— Comigo? — por essa não esperava.
— Sim, te observando. — explicou — Mas como nunca sai da cozinha, eu não consegui realizar nada ainda, queria fazer uma surpresa.
— Hum… Que orgulho. — sorri para ele.

Foi bom tomar café da manhã com meus filhos. O ônibus da escola veio pegá-los pontualmente. Aproveitei a deixa para tomar um banho, trocar de roupa e fazer uma visita ao meu advogado. Ao chegar em frente ao edifício da InH senti um mal estar, o que me levou a pegar o cartão do Mike de dentro da bolsa e ligar para ele pedindo para me encontrar na rua.

. — disse ele ao se aproximar de mim.
— Tem algum lugar aqui perto que podemos conversar? — perguntei — Não quero entrar ali.
— Eu te entendo. — ele virou a face para rua — Tem um café ali na esquina, podemos ir lá.
— Tudo bem então, se não se importa, eu quero que uma amiga participe da nossa conversa, posso ligar para ela?
— Claro, fique à vontade.

Me afastei um pouco dele e fiz minha ligação para a Sophie, ainda não tinha dado notícias para ela. Assim que disse onde estava, ela soltou um grito de dizendo que chegava em minutos, me deixando meio assustada com sua reação. Segui com Mike até a cafeteria e nos sentamos perto da vidraça, assim seria fácil para Sophie nos encontrar.

— Então… — ele me olhou tranquilamente.
— Você sabia sobre o caso do Carl com a Solar?
— Infelizmente sim, todos no escritório suspeitavam. — ele pigarreou um pouco — Eu lamento.
— Não lamente, só seja meu advogado e me diga quanto vai cobrar. — disse diretamente.
— Serei sim seu advogado, mas não irei cobrar nada, tenha isso como um apoio meu e do senhor Dominos, nós temos muito respeito por você.
— Obrigada.
— Ah, finalmente cheguei. — disse Sophie ao se aproximar e sentar na cadeira ao meu lado — Eu disse que estava aqui perto.
— Sophie, este é Mike do escritório da InH.
— Ah Mike, eu me lembro de você no aniversário da empresa que eu fui. — comentou ela.
— Também me lembro de você.
— Então, o que perdi da conversa?!
— Meu divórcio não terá custos para mim. 
— Sem honorário?! — ela olhou para Mike impressionada.
— Um presente de amigo.
— Hum.. — ela voltou seu olhar sugestivo para mim.
— Então Mike, como será, o que devo fazer?
— Bem, se ambos estiverem de acordo já é o começo, posso forçar alguns argumentos e conseguir que fique com a guarda total e a casa. — adiantou ele — Se quiser posso fazer mais.
— Não, a casa está bem para mim, de qualquer forma nos casamos com comunhão de bens. — assegurei.
— Isso é bom, vou trabalhar em cima disso e garantir que consiga a casa, ele terá que pagar a pensão para seus filhos e para você, já que está desempregada.
— Não, para mim não, não quero mais nada que venha dele, posso me sustentar sozinha. — garanti.
— Que orgulho amiga. — Sophie sorriu.

Eu ainda não sabia como conseguiria isso, mas iria sobreviver a essa tempestade de cabeça erguida. 

— Quero apenas que ele deposite a pensão das crianças na conta que fizemos para a universidade. — pedi — E que essa conta fique em meu nome, eu não confio no Carl.
— Por mim, você arrancava até as calças dele. — comentou Sophie.
— Fique tranquila Sophie, se tem algo que a gente leva da vida é colher o que se planta. — disse a ela.
— Disso você tem razão. — concordou Mike.

Ficamos mais algum tempo conversando e Mike me disse que daria entrada no pedido de divórcio ainda essa semana, levaria alguns dias para chegarmos diante do promotor. Como era em comum acordo, não chegaria no juiz. Assinei os papéis do pedido e deixei o resto em suas mãos.

— Uau. — disse Sophie ao nos afastarmos dele — Que advogado, sabe se ele é solteiro?
— Porque a pergunta Sophie, você é casada.
— Não para mim, mas para você amiga. — ela me olhou com malícia — Imagina a reação do Carl.
— Ah Sophie, por favor, não começa. — revirei os olhos e segui na frente.
— Não começa o que? Aquele babaca disse que você não é uma mulher, isso é porque ele não é um homem de verdade. — comentou ela — Você precisa de alguém másculo que nem o Mike.
— Aff… O que eu menos quero agora é me envolver com um homem, consigo muito bem viver sozinha, já estava vivendo e não sabia. — continuei a caminhar na frente.
— Espera amiga. — ela apertou o passo para me alcançar — O que eu disse é sério.
— Eu também.

Nós rimos um pouco. 
Nos dias seguintes mantive uma rotina em casa, teria que esperar Genevieve voltar de sua viagem de férias para Toscana, para finalmente ter minha entrevista e quem sabe conseguir um emprego. Enquanto isso, fiz um acordo com Finn, dono da Liberdad Café, a cafeteria mais procurada do bairro, ele tinha se apaixonado por minhas panquecas e mesmo não dando a receita para ele, consegui uma vaga de meio período em sua cozinha no turno da manhã. Receberia 50 dólares por hora trabalhada que ajudariam a pagar as contas por enquanto. 

— Que estranho… — sussurrei ao acordar ouvindo um constante barulho — Essa rua já foi mais silenciosa pela manhã. 

Bem, aquela rua só não era silenciosa na época das férias com as crianças de todos em casa, fora isso era tranquilidade total. Porém, naquela manhã algo estava totalmente diferente, o que me levou a levantar da cama e perceber que já se passava das 9 e as crianças já tinham ido para aula.

— Oh não, dormi demais. — sussurrei. 

Minha vida noturna tinha ficado diferente ao passar as madrugadas vendo filmes da Netflix, estava tão vidrada nisso que daqui a pouco eu zero o catálogo. Mas desta vez, passei a noite anterior vendo Joseph jogar, ele parecia estar participando de um campeonato regional e vibrei muito quando ele disse que seu time tinha vencido. Mesmo não entendendo nada daquele jogo maluco, mas era o sonho do meu filho e eu apoiaria. Que se dane a opinião do Carl. Me espreguicei de leve e troquei de roupa, peguei o celular e vi duas mensagens de Sophie dizendo que passaria na minha casa antes de ir para o estúdio de dança. Então desci as escadas para entender o que acontecia, já que o som vinha da casa ao lado.

Dei alguns passos até a janela, estava curiosa para descobrir o que acontecia na casa ao lado com todo aquele barulho, afinal nossa vizinhança era sempre silenciosa e pacata naquela época do ano, sem grandes novidades além da minha vida privada que havia se tornado o assunto de interesse do momento. Ainda me perguntava se aquelas senhoras realmente tinham o que fazer em suas casas para me ligarem todos os dias. Logo vi um caminhão de mudanças, parado na casa ao lado, já havia me esquecido que aquele lugar esteve tanto tempo vazio e abandonado. Era de se admirar que as paredes ainda se sustentam de pé. O senhor Omar faleceu há mais de dez anos e desde então a casa esteve vazia sem propósito e sem vida. Até agora pelo que está parecendo.

Voltei meu olhar para as mesmas senhoras casadas que não tinham nada para fazer em suas casas, estavam todas espalhadas pela varanda da senhora Philips. Aquele era o ponto de encontro da fofoca em nossa rua. Todos com seus olhares fixos em algo ou alguém. Observei o olhar atento de Freya, ela havia se casado pela sexta vez recentemente e também estava ali, por um breve momento percebi que estava salivando de forma discreta. O que elevou ainda mais minha curiosidade para saber o foco da atenção dela. Me movi para a porta, destranquei e girei a maçaneta devagar, não queria que achassem que eu estava com a mesma intenção que elas. Não me importava com a pessoa que tinha se mudado, mas queria entender tamanha fascinação nos olhares daquelas mulheres, fascinação essa que não tinham pelos seus maridos.

Saí para a varanda da entrada e peguei o regador que sempre deixava no canto ao lado da porta. Era a minha deixa para mostrar que estava somente fazendo meus afazeres domésticos. Dei alguns passos até a lateral esquerda, olhando discretamente para os homens de descarregava o caminhão de mudanças. Então era certo de que tinham comprado a velha casa do senhor Omar. Derrubei um pouco da água do regador no primeiro vaso do beiral, toquei de leve em uma das pétalas do girassol, me causando certa distração repentina.

— Cuidado com essas caixas, por favor. — uma voz masculina e levemente grossa soou ao lado.

O que me fez olhar de forma involuntária e imediata. Então aquele era o foco de atenção das senhoras do outro lado da rua. Um jovem rapaz que aparentava seus 25 anos, comandando todos os outros homens que transitavam ali. Ele mantinha uns papéis em suas mãos, como também sua atenção longe das fãs que o secavam. O all star branco e surrado nos pés se combinava com o jeans rasgando na região da coxa, que pareciam ser grossas. Subi um pouco mais o olhar e me atentei para seu rosto jovem e levemente charmoso. Ou melhor, atraente, certamente nas palavras de minha amiga Sophie, se ela estivesse aqui agora. Era mesmo um jovem bastante bonito e que atraía com facilidade a atenção de qualquer mulher. Me pergunto, se ele foi quem comprou aquela casa. O que faria ele em uma rua tão parada como aquela?

Era curioso aquilo. O observei mais um pouco pegando algumas caixas também e levando para dentro da casa. Repetindo aquilo por mais algumas vezes até que ele parou repentinamente e me olhou. A princípio senti a necessidade de desviar o olhar e continuar o que estava fazendo, mas meus olhos se mantiveram totalmente fixados nele, por um breve momento meu olhar desceu até sua t-shirt branca visivelmente molhada de suor. Um nó se formou em minha mente assim que meu entendimento me fez perceber as linhas definidas do seu abdômen. Selo Chris Marvel qualidade? Acho que é assim que Sophie sempre se referia a homens com o corpo bem definido. E realmente acho que era esse o motivo das senhoras estarem tão atentas aos movimentos daquele novo vizinho.

— Oi. — disse ele ao se aproximar da minha varanda.
— Ah… — eu desviei meu olhar para o girassol, tentando entender como pude encará-lo daquela forma — Bom dia, senhor.
— Por favor, não cheguei nem aos trinta. — ele riu de leve, me fazendo olhá-lo novamente — Me desculpe pelo barulho, acho que estou incomodando a todos hoje.
— Não, mudanças são assim sempre. — disse ponderadamente.

Já tinha me mudado duas vezes e sabia a dor de cabeça que causava.

— Nos próximos dias será assim também, se eu te incomodar, por favor me avise.
— Claro. Agradeço por se preocupar. — eu me afastei do beiral voltando para a porta.

Já sentia a intensidade dos olhares do outro lado da rua.

— Ah propósito, posso saber o nome da minha nova vizinha?

Nova? Se ele soubesse minha idade não diria isso.

. — respondi.
— Prazer , meu nome é . — ele abriu um singelo sorriso que me cativou um pouco.

E agora eu sabia o nome do novo dono da casa ao lado. Eu sorri de volta e entrei novamente para dentro. Me aproximei de leve da janela e observei, ele havia permanecido parado, continuava olhando para minha casa com um sorriso no rosto.

Não ligo se é veneno, tomo tranquilamente
Nenhuma tentação pode ser mais doce ou forte que você. 
- Last Romeo / Infinite



3. O jovem vizinho

— Amiga… O que é aquilo?! — disse Sophie ao entrar, assim que abri a porta — Por um minuto eu até esqueci que viria na sua casa e quase me alistei para o clube da varanda.

Eu soltei uma risada rápida e fechei a porta.

— Deixa de ser boba amiga.
— De onde saiu aquele pedaço de mal caminho? Que tentação. — perguntou ela.
— Bem, parece que ele é o novo dono da velha casa do senhor Omar. — respondi tranquilamente indo para a cozinha — A barulheira começou logo pela manhã.
— Nossa, esses dez anos com a casa abandonada compensaram agora. — brincou ela vindo atrás de mim — Só faltou os irmãos Scott pra completar a obra, aí sim eu montaria minha barraca.
— Já tomou café? — perguntei me virando para ela, ignorando seus comentários.
— Sim. — ela se colocou em minha frente e olhou para janela.

Era a primeira vez que minha amiga fazia isso. Era a primeira vez que eu olharia e a casa não estaria mais vazia. Segui seu olhar e vi dois homens colocando algumas caixas na cozinha da casa. Logo entrou no lugar e trocou algumas palavras com os homens. De forma involuntária seu olhar se voltou para a janela também, e mais uma vez trocamos olhares fixos e imóveis.

— Ele tá olhando. — comentou Sophie, ao me cutucar na cintura — E que olhar.
— Disfarça Sophie. — olhei para minha amiga — E pare de encarar ele. 

Me afastei do lugar de onde estava para sair do campo de visão dele, arrastando a Sophie junto.

— Você está maluca?! — a olhei.
— Não, só queria ver mais de perto. — ela fez bico — Quando eu digo que você vive uma fanfic… Agora vai ter uma paisagem bem ao lado, que inveja.
— Deixa o Will ouvir isso. — balancei a cabeça negativamente.
— Eu amo o meu marido ok, sou fiel, mas não cega, quando vejo um homem bonito eu tenho que admitir, e ele sempre concorda comigo. — se defendeu — Ainda diz que tenho bom gosto.
— Sei. — cruzei os braços.
— É sério, e esse seu vizinho novo… O selo Chris Marvel de qualidade é pouco para ele, aquilo é o Universo Marvel inteiro.
— Que exagero Sophie. — tentei segurar o riso.
— Eu não exagero quando o assunto é homem bonito. — garantiu ela — Ou vai me dizer que o babaca do Carl é mais bonito que ele.
— Não, com toda a certeza o é mais bonito e mais atraente que meu ex marido. — assegurei, ponderando um pouco minha sinceridade — E nem falo isso por ter sido traída.

Essa palavra sempre me causava sensações ruins. Traição. Eu ainda me sentia abalada, mesmo mantendo a cabeça erguida e o sorriso forçado nos lábios para não preocupar as crianças.

— Então a bela recatada já descobriu o nome do pecado que mora ao lado. — ela colocou a mão na cintura fingindo indignação.
— Não começa Sophie. — segurei o riso — Eu estava regando o girassol da varanda quando ele se apresentou.
— E você não fez nada pra isso acontecer?!
— Claro que não, você sabe como sou tímida, no colegial foi o Carl que se aproximou de mim. — expliquei.
— Isso é verdade, maldita hora. — ela suspirou — Mas olha… Você é mesmo uma sortuda.
— Não sou nada, sou apenas a vizinha do lado.
— Ai vizinha do lado. — soou um tom de brincadeira e sarcasmo.

Nós rimos daquilo. 
Infelizmente, ela não pode ficar mais tempo de conversa comigo, pois tinha aberto mais uma turma de iniciantes do ballet moderno. Levei minha amiga até a porta que passou mais alguns minutos observando o vizinho, antes de entrar no seu carro. Fiquei rindo dela por um tempo até me lembrar que já deveria estar na cafeteria. Ah não, olhei o relógio na parede e vi que já tinha passado a hora do café. Peguei o celular e liguei para o Finn, que parecia nervoso ao atender.

Você me fez perder alguns clientes hoje senhora Godric. — disse ele num tom irônico.
— É Miller, Finn, agora sou apenas Miller. — o corrigi — Continuo sendo a mesma de sempre, só que agora sem o casamento.
Ok, , e o que faço agora? Sem a mestre cuca da panqueca?
— Me espere amanhã de manhã, e dê mais valor ao meu dom de fazer boas panquecas. — joguei a indireta.

Eu não tinha planejado aquilo, mas estava me rendendo muito bem. 

Eu serei mais grato a você, e para mostrar isso posso aumentar mais 10 dólares por hora, o que acha? — perguntou ele.
— Acho que por enquanto está bom. — disse abrindo um largo sorriso.

Precisava de dinheiro. 

Então te espero amanhã. 
— Até amanhã Finn. — encerrei a ligação e coloquei o celular no bolso da calça.

Sophie tinha me dito que eu deveria montar um portfólio para mim juntamente com meu currículo. Eu não tinha muitas qualificações com certificados, mas ao longo dos anos participei de muitos eventos e concursos e ganhei alguns prêmios, acho que isso poderia contar. Na geladeira tinha sobras do almoço do dia anterior, então assim que as crianças chegarem da escola, eu esquentaria sem problemas. Então, fui até o quarto de Joseph e liguei seu computador, ele tinha me dado a senha e mostrado como montar um bom portfólio infográfico pelo site canva. Eu era meio aérea com essas coisas de tecnologia, e design gráfico, mas tinha alguns programas relacionado a jornalismo e publicidade que me interessavam e eu tinha meu filho para me dar uma mãozinha.

Fiquei concentrada por um tempo no que estava fazendo, pesquisando e vendo tutoriais no youtube, até notar que o barulho da mudança tinha parado. Será que tinham terminado a mudança? Ou foi uma pausa para o almoço? Bem, por mais que a curiosidade vibrasse dentro de mim, eu não tinha nada a ver com a vida do vizinho e tinha outros assuntos para preocupar. Como por exemplo, as contas que estavam chegando e eu não tinha tanto dinheiro para pagar. Não iria pegar da pensão das crianças, era para o futuro deles e não pediria mais nada ao Carl, menos ainda aos meus pais. Joseph tinha se oferecido para vender o computador de gamer dele, porém eu jamais deixaria meu filho se sacrificar assim. Eu tinha algumas coisas que não usava mais, roupas guardadas no fundo do armário, e objetos escondidos no porão de casa. Poderia vendê-los por um bom preço. 

— Mãe. — disse Joseph ao aparecer na porta do seu quarto.
— Já chegou. — eu me virei para ele e sorri — Como foi na escola hoje?
— Normal como todos os dias. — ele deixou a mochila no chão perto da cabeceira da cama e se aproximou — Está montando seu portfólio?
— Sim, vi alguns tutoriais para me ajudar a diagramar as páginas, estou me sentindo na pré-história de tão perdida. — voltei meu olhar para a tela do computador — A quanto tempo eu não mexo nessa máquina, preciso me atualizar mais.
— Mãe, você dominou os aplicativos do celular tão rápido, logo vai se apaixonar pelo canvas. — garantiu ele — E o que está colocando aí?
— Hum… — movi a barra lateral mexendo as páginas para mostrar — Eu montei essa capa aqui, e depois coloquei meu currículo para assim ir adicionando as minhas redações, só preciso que me ajude a encontrar imagens bonitas e de qualidade para colocar de ilustração. — fui explicando a ele meu progresso — Sophie disse que é bom ter imagens.
— Pinterest. — disse ele
— E o que seria?
— É uma rede social de compartilhar imagens e fotos, as pessoas postam de tudo um pouco. — explicou ele pegando o mouse e indo na aba de favoritos — Acho que dá pra encontrar imagens boas lá, mas você pode fazer as suas, das receitas que já fez. O que acha?
— Tenho que decidir quais redações colocar primeiro, preciso terminar até terça que vem que é quando a Genevieve volta. — soltei um suspiro fraco. 

Não me lembrava onde tinha colocado minhas redações da escola, talvez estivessem na casa dos meus pais. 

— Hoje é sexta ainda, vai dar tempo. — disse ele se afastando — Eu tenho treino agora a tarde, acho que vou chegar á noite.
— Treino de que? — perguntei confusa.
— Eu entrei para o time de basquete lembra? Pra evitar o sedentarismo, tenho que praticar esportes. — explicou.
— Ah, verdade. E a Molly? Ainda não apareceu aqui. — estranhei sua ausência.
— O papai apareceu e levou ela para almoçar. — respondeu ele num tom amargurado — Ele me convidou também, mas não quis.
— Carl deveria ter me ligado perguntando se podia, só porque não nos divorciamos oficialmente ele não pode agir assim, Molly é minha responsabilidade agora, a guarda de vocês vai ser minha. — eu me levantei da cadeira — Vou ligar para ele.

Ele assentiu e se sentou na cadeira em meu lugar. Saí do seu quarto já tirando o meu celular do bolso e entrei no meu quarto, fechando a porta. Digitei seu número e esperei que atendesse.

?! — disse ao me atender.
— Joseph me disse que pegou a Molly na escola, deveria ter me ligado. — disse direta e precisa.
— Molly também é minha filha, um pai não pode almoçar com seus filhos? — havia um ar de cinismo em sua voz.
— Você nunca foi de almoçar com seus filhos. — retruquei dando alguns passos até a janela lateral do meu quarto, que dava vista para casa ao lado.
— Mas agora sou, vai se acostumando. — continuou ele.
— Não vou me acostumar, em breve assinaremos oficialmente e você terá que agir conforme a lei. — retruquei com segurança.

Ele disse mais algumas coisas que não me atentei. Minha atenção estava mesmo do lado de fora, assim que toquei a cortina e observei o que acontecia. Aparentemente o caminhão de mudanças já tinha ido embora, assim como os homens de descarregaram a mudança. Então, somente estava naquela casa, o que explicava o silêncio todo, me perdi um pouco pensando se ele moraria ali sozinho. Pelo que me lembrava da única vez que entrei naquela casa, ela era grande e espaçosa, mesmo parecendo pequena por fora. E o quintal era pouco maior que o meu. Por um breve momento, vi um vulto passar pelo quarto que dava vista para o meu, então me escondi no canto, sentindo meu coração pulsar mais forte. Eu não queria passar uma impressão errada de estar vigiando ele, mas tinha minha parcela de curiosidade.

?! Você está me ouvindo? — a voz de Carl me despertou.
— Sim Carl, te vejo na segunda-feira para assinarmos os papéis. — disse sem dar espaço para conversas e encerrei a ligação.

Soltei um suspiro fraco e voltei meu olhar para a porta. Joseph estava encostado me olhando como se desconfiasse de algo.

— O que foi? — perguntei.
— O que fazia espiando a janela? — perguntou ele.
— Estava me espionando? — coloquei a mão na cintura — Joseph?!
— Não, eu vim dizer que ia esquentar o almoço. — explicou ele — Mas estou curioso, você já conheceu o novo vizinho?
— Pare de interrogar sua mãe e vá para a cozinha. — disse me movendo até ele — Vamos almoçar.
— Foi só uma pergunta, quando saí para a escola tinha um caminhão parado aí na frente, agora não tem mais. — explicou ele indo em direção as escadas — Não viu nada?
— É, compraram a casa ao lado e já digo que vamos ouvir barulhos de reforma, então vai se acostumando com a nova realidade. — o segui, agindo naturalmente como se não soubesse de muita coisa.

Bem, eu não sabia mesmo, mas…

— O que falou com o papai? — perguntou ele.
— Não é você o espião? Pensei que tivesse ouvido. — brinquei.
— Não tudo. — ele riu junto — Ele disse onde estava com a Molly?
— Não, mas a partir de segunda, ele terá que me dar toda satisfação que eu quiser. — garanti.
— Vocês vão assinar os papéis definitivos na segunda? — ele terminou de descer as escadas e me olhou.
— Sim, a partir de segunda você terá pais divorciados. — confirmei — E se Deus quiser, na terça você terá uma mãe quase jornalista.

Sorri de leve e ele sorriu de volta.

— Estou torcendo por isso. — ele seguiu na frente e entrou na cozinha.

Eu caminhei até o sofá e ajeitei a manta de crochê que jogava por cima, afofei as almofadas e juntei os livros que tinha deixado em cima da mesa de centro, colocando-os na estante. Era sempre assim, toda vez que arrumava a casa, deixava algo para trás e só percebia duas horas depois. Passei meus dedos pelos livros e me lembrei que tinha tempos que não colocava minha leitura em dia, ler ajudava a refinar minhas habilidades de escrita, e tinha visto alguns livros usados em uma livraria/sebo perto do estúdio da Sophie. Segui para a cozinha e Joseph já se encontrava usando meu avental de poá rosa, improvisando algumas coisas no fogão.

— Hum… Estou começando a acreditar que você está tramando algo. — comentei me aproximando dele e olhando para a panela — Primeiro aparece fazendo o café e agora improvisa o almoço. Tem alguma garota na jogada?
— Mãe?! — ele me olhou estranhando minha insinuação.
— Pelo que conheço dos homens, que não é muito, quando aprendem algo novo é para impressionar alguém. — cruzei os braços e o olhei — Então, quem é?
— Quero impressionar a minha própria mãe. — respondeu — Mostrar que posso ajudar e que não está sozinha. Satisfeita?
— Joseph. — sussurrei.
— Sou o homem da casa agora, não posso te deixar carregar o peso sozinha. — seus olhos marejaram um pouco.
— Querido. — eu o abracei de leve — Estou feliz por se preocupar comigo, mas eu sou a mãe aqui, então se quer me ajudar, continue sendo o bom filho que é e levando a Molly para a escola.
— Quero fazer mais que isso mãe. — ele me olhou sério.
— Joseph, você ainda é uma criança, de 16 anos, mas uma criança, deve crescer a seu tempo. — pisquei de leve para ele — E quanto a cozinhar, estou feliz por se interessar.
— Bem… Tem outro motivo.  —ele desviou o olhar para a panela.
— Qual? 
— Quando eu fizer 18, estou pensando em morar sozinho e me mudar para Seoul, lá é o ponto central das melhores equipes de LoL. — explicou ele.
— Você quer morar do outro lado do mundo? — agora estava surpresa.
— Você me disse para seguir meus sonhos. — vi um brilho incomum em meus olhos.
— Se é assim, posso te ensinar a fazer mais que panquecas e risoto de frango. — sorri para ele.
— Te amo mãe. — ele me dei um beijo da testa e voltou sua atenção para o fogão.

Mantive meu sorriso na face. Eu tinha um filho incrível. Me afastei dele e me sentei na cadeira, fiquei observando ele se movimentar enquanto terminava de preparar seu almoço improvisado. Tirei o celular do bolso e desbloqueei a tela, tinha algumas notificações de postagens da Sophie no instagram. Minha amiga era uma professora de dança muito famosa nas redes sociais, e estava se especializando em coreografia para enfim realizar seu sonhos de trabalhar como coreógrafa grandes artistas. Eu tinha o exemplo dela que provava que um casamento não parava sua vida, mas é claro que o fato dela não ter filhos ajudava muito. Ainda que juntos, tanto ela como o Will tinham sua liberdade de ir e vir sem preocupar. 

— Bom apetite. — disse Joseph me despertando de meus pensamentos, ao colocar a panela em cima da mesa e acomodar os pratos também — Me diga se eu passei no teste.
— Hum… — me servi do risoto dele.

Como no caso da panqueca, o cheiro estava convidativo. Deu a primeira garfada e saboreei a comida. Meu filho tinha talento também.

— Super aprovado. — sorri para ele — Ficou muito gostoso.
— Também achei. — concordou ele ao provar — Eu já ia me esquecendo, meu amigo Simon me convidou para passar as férias de verão no chalé da família dele. Posso ir?
— Onde é esse chalé?
— Acho que em uma cidade do estado de Oregon. — respondeu ele.
— E você vai sobreviver sem internet? Jogos?
— Lá tem sinal. 
— Se você quiser ir, tem minha autorização. — assegurei — E não se preocupe com seu pai, com ele me entendo eu.
— Você é a melhor mãe do mundo. — ele sorriu.

Depois do almoço Joseph retornou para a escola, para suas aulas extras. Eu fiquei encarregada de lavar as vasilhas sujas, me coloquei diante da pia munida do meu avental de poá e iniciei. Fiquei um tempo em silêncio até começar a cantarolar a trilha sonora do desenho Tarzan, algo que começou aleatoriamente. Elevei meu olhar para a janela por um momento e senti meu corpo congelar. Lá estava o vizinho no centro da cozinha com uma xícara em sua mão, me olhando. Será que ele estava me observando a muito tempo? Eu voltei meu olhar para as vasilhas e terminei rapidamente, então me afastei, com o coração acelerado.

Ao final da tarde, Carl levou Molly para casa. Não trocamos nenhuma palavra, ele ficou na porta, assim que nossa filha despediu, eu fechei em sua cara. Molly parecia feliz por ter passado o dia com ele, algo que me deixou ainda mais intrigada. Pedi para que ela fosse para o quarto tomar banho, enquanto isso eu ligaria para algum serviço delivery, nada de ir para o fogão cozinhar. Joseph também não demorou para chegar, fizemos nossa refeição meio em silêncio. Eu não queria perguntar o que tinha acontecido no almoço de Molly, por mais que estivesse muito curiosa.

— Mamãe. — disse Molly assim que a coloquei na cama.

Mesmo já crescida e com 10 anos, ela ainda tinha um leve costume de me pedir o beijo de boa noite.

— Sim?! — a olhei.
— Não vai me perguntar sobre hoje? — indagou ela.
— Você quer contar?
— Acho que sim, papai disse para te contar.
— Porque o papai falou isso? — perguntou Joe aparecendo na porta do quarto.
— Pra mamãe saber que ele não fez nada de errado. — explicou ela.
— Hoje de tarde foi um momento seu com seu pai, não precisa me contar. — disse com um tom gentil e carinhoso — Você gostou de ter passado a tarde com ele?
— Sim, eu acho.
— Isso é o que importa. — sorri para ela e beijei sua testa.

Então me afastei de sua cama.

— Boa noite querida. — desliguei a luz do quarto.
— Boa noite mamãe. — ela sorriu de leve.
— O que papai quer? — perguntou Joseph.
— Eu não sei meu filho, mas vamos viver nossa vida.

Eu beijei de leve seu rosto e segui para meu quarto, antes de entrar pedi para que não ficasse a noite toda jogando. Assim que entrei e fechei a porta, coloquei o pijama e me deitei. Foi estranho inicialmente dormir sozinha, mas depois de semanas já estava me acostumando. Carl nunca foi um marido presente desde o nascimento da Molly, então já estava mais do que acostumada a ficar sozinha. Na manhã seguinte, acordei um pouco mais cedo do que gostaria, ouvindo o barulho vindo da casa ao lado. Será que as reformas começariam em pleno sábado? Ele podia ter deixado para mais tarde. Cobri a cabeça e virei para o canto, apertei os olhos tentando voltar a dormi. Rolei mais um pouco na cama até me levantar, já que não conseguiria pegar no sono, então iria iniciar meu dia indo mais cedo a cafeteria. Até ter um emprego fixo, eu tinha o acordo de fazer as panquecas todos os dias. Mais horas trabalhadas, mais dinheiro no bolso, e consequentemente mais contas pagas.

Assim que cheguei, cumprimentei Finn e fui direto para a cozinha. Carmen já estava com seu avental a minha espera, ela era a outra cozinheira que trabalhava lá fazendo os outros pratos do cardápio. Afinal, minha função era única e exclusiva de fazer as famosas panquecas especiais. Coloquei meu avental caseiro que sempre levava comigo e lavei as mãos, os ingredientes já previamente separados por Carmen me aguardavam. Minha mania de cantarolar enquanto cozinhava já tinha caído nas graças de Carmen, que geralmente me acompanhava quando sabia a música. A Liberdad Café abria pontualmente às 8 da manhã, e meu expediente ali se estendia até as 11.

. — disse Finn ao entrar na cozinha.
— Sim?! — eu voltei meu olhar para ele, já estava terminando mais uma remessa de pedido — Algum problema?
— Tem um cliente que insiste em te agradecer pela panqueca. — disse ele.
— Sério? Mas… Acho que não é necessário.

Ele me olhou meio na dúvida também. Eu limpei a mão no pano de prato e me aproximei dele. Finn apontou para o jovem rapaz sentado próximo a caixa registradora. E mais uma vez fui pega pela surpresa assim que meu cérebro se deu conta que o jovem era o novo vizinho. O que ele fazia ali? Bem, é um pouco óbvio pois sua casa estava caindo aos pedaços então nem mesmo uma cozinha ele tinha. E será que sabia cozinhar? Meu coração palpitou de leve, e estranhei sentir um frio na barriga. Engoli seco e caminhando em lentidão, me aproximei dele.

— Bom dia. — disse em cumprimento.
. — ele me olhou normalmente, sem nenhuma surpresa em me ver.

Espera… Ele lembrava o meu nome. Uau.

— Me disseram que gostou da minha panqueca. — comentei, mantendo minha face suave, sem muitas reações.
— Sim, ela é mesmo muito especial. — ele sorriu de forma fofa e gentil — A melhor que já provei até hoje.
— Fico feliz por isso.
— Muito obrigado pelo café da manhã. — sua voz soou como se eu tivesse preparado somente para ele.
— Disponha, eu preciso ir. — me afastei um pouco para voltar.
— Espera. — disse ele.
— Sim? — eu o olhei.
— É que, antes de vir tomar o café eu subi no telhado e… Observei que a sua calha está cheia de folhas. — ele parecia escolher as palavras como se precisasse encontrar um motivo forte para falar.
— Ah… Eu imagino que sim. — soltei um suspiro — Eu ando com os meus dias tão ocupados que não contratei ninguém para…

Ocupados, significa sem dinheiro.  Aquele era um dos poucos deveres do Carl, e como já não existia mais ele naquela casa.

— Posso limpar para você. — se ofereceu sem cerimônias.
— Eu não tenho como retribuir. — disse abertamente.
— Das próximas vezes, basta colocar mais geléia para mim. — disse se referindo às panquecas.

Próximas vezes? Será que ele frequentaria regularmente a cafeteria?

— Serão ainda mais especiais. — não me contive em sorrir, por gratidão.

O olhar dele me constrangia um pouco. Ao mesmo tempo que era intenso, passava um ar de mistério e segurança. Eu voltei para a cozinha e continuei meus afazeres. Às 11 em ponto, encerrei tudo e recebi o valor das minhas horas trabalhadas. Ao chegar em casa guardei o dinheiro na caixa de sapatos no fundo do guarda-roupas. Ali era meu cofre escondido, onde deixava até minhas contas para lembrar da responsabilidade de ser um adulto com filhos. Após o almoço, me dispus a brincar com Molly no quintal dos fundos, montamos um mini estúdio de desenho, onde eu era a modelo e ela a artista. A cada desenho que ela me mostrava, gerava ainda mais gargalhadas, as quais atiçaram a atenção do vizinho que estava em nosso telhado limpando a calha. 

Era estranho ver outro homem fazendo isso, mas um estranho bom. Por mais que eu tentava não olhar, me pegava o observando discretamente de tempos em tempos. Assim que ele desceu, olhei para o relógio em meu pulso, já batia cinco da tarde, tínhamos passado muito tempo em nossa brincadeira.

— Terminei. — disse ele ao se aproximar de mim.
— Muito obrigada, de novo. — sorri de leve e desviei o olhar para minha filha — Molly querida, vamos juntar tudo e guardar, já está ficando tarde.
— Sim mamãe. — ela começou a juntar os papéis.
— Eu queria… 
— Sim?!
— Como eu te disse antes, comecei a minha reforma hoje, e a cerca…
— Você quer trocar?
— Sim, está mofada do outro lado. — explicou ele.
— Bem, sem problema, me diga quanto vai ficar que eu ajudo com a metade do dinheiro. — me disponibilizei por cordialidade.

E claro que eu não teria esse dinheiro. Talvez se pedisse um empréstimo, que certamente sairia o dobro no final pelos juros, mas.

— Não precisa me ajudar com dinheiro. — disse ele.
— Não?
— Tenha como uma bonificação pelo barulho que farei todos os dias. — ele sorriu meio sem graça.
— Tudo bem então.

Eu poderia respirar aliviada? Sim e tentei ser discreta nisso. Desviei meu olhar dele para Molly que carregava quase tudo para dentro.

— Eu preciso entrar. — disse me afastando dele.
— Claro. — ele deu alguns passos até a abertura que tinha feito da cerca — Boa noite.
— Boa noite.

Segurei meu coração o quanto pude. Como podia um homem ser tão charmoso com tão pouca idade? Confesso que sempre tive uma queda por homens mais velhos. Carl era alguns meses, mas era mais velho que eu. Mas tinha algo especial. Bem, olhando assim, meu filho Joseph também conseguia aquela façanha. Ele passou pela abertura e eu entrei em minha casa. Quando cheguei lá dentro, tanto Molly quanto Joe estava de braços cruzados me olhando desconfiados.

— Seja lá o que estiverem pensando, parem agora. — os repreendi antes de qualquer comentário.
— Não estamos pensando nada. — Molly tombou a cabeça dando um sorriso sapeca.
— Molly! — a olhei.
— Então pediu ao nosso vizinho para limpar a calha? Você tem um filho sabia? — Joseph parecia chateado.
— O meu filho tem medo de altura sabia? — retruquei meio sarcástica.
— Todo medo pode ser perdido. — disse emburrado.
— Da próxima vez, você limpa então. — ri de leve — Que tal pizza de novo? 
— Eu pensei na sessão pipoca e maratona Harry Potter. — sugeriu Molly.
— Fechado. — disse indo até eles — Vou tomar um banho primeiro e você também mocinha.
— Eu faço a pipoca. — se ofereceu Joe.

No domingo, a cafeteria não abria, afinal todos merecem um dia de descanso. Acordei pela manhã esperando ouvir o barulho da reforma ao lado, mas para minha surpresa estava silencioso demais. Troquei de roupa e desci para a cozinha, preparar o café. Aos poucos comecei a ouvir vozes vindo do quintal. Molly ainda estava dormindo, pois tinha passado por seu quarto e a vi esparramada na cama. Será que Joseph tinha chamado algum amigo para o café? Caminhei até a porta e vi ele conversando com . Senti um aperto no coração, seguido de curiosidade. Sobre o que estariam conversando? Me perdi no tempo ao observá-los. Em um piscar de olhos, ele se distanciaram e Joe seguindo em direção a porta, eu me afastei e fui abrir a geladeira. Assim que ele entrou, mantive minha atenção na geladeira, fingindo pensar no que fazer.

— Mãe, bom dia. — disse ele.
— Bom dia querido.

Me mantive em silêncio retirando os ingredientes de dentro da geladeira. O olhei discretamente, ele parecia segurar o riso. 

— Sem panquecas hoje?!
— Hoje teremos ovos mexidos com bacon, para variar. — anunciei.
— Que bom que eu não convidei o vizinho para o café então. — comentou ele.

No susto causado por suas palavras, quase deixei a caixa de leite cair.

— Por que você o convidaria? — o olhei.
— Em agradecimento pela calha. — explicou ele com um olhar analisador.
— Ah… — tentei me fazer a indiferente e voltei minha atenção para o fogão.

Eu não podia demorar muito no preparo do café. Naquele domingo nossa parada para o almoço seria na casa de Sophie. E sempre que eu almoçava lá, tinha que chegar antes e ajudar minha amiga no preparo. Ela era um desastre no fogão. 

— Bom dia mamãe, bom dia Joe. — disse Molly ao entrar na cozinha.
— Bom dia pequena. — respondeu Joseph.
— Bom dia querida. 
— Mamãe, decidi participar do concurso de talentos da escola. — disse ela num tom mais do que empolgado.
— Vivaaaa. — sorri de leve para ela — E qual talento vai mostrar?
— Estou pensando em mostrar meu estilo arrasador de dança. — respondeu.
— Mas faz tempo que você não faz ballet com a tia Sophie. — comentou Joe.
— Tia Sophie disse que iria me ajudar com a coreografia, vou misturar ballet e hip-hop.
— Olha só, ela dança, eu danço. — brinquei.
— Isso mesmo mamãe, eu vi o filme e fiquei fascinada pra fazer igual.
— Vai ter que começar a ensaiar logo então. — aconselhei ela.
— Vou a partir de amanhã, com mais duas amigas. — ela se sentou na cadeira — Posso ensaiar na casa delas após a aula?
— Isso vai interferir nas lições de casa? — perguntei.
— Vou fazer todas eu prometo. — ela levantou a mão direito em juramento.
— Ok, está liberada então, mas na volta seu irmão te busca. — olhei para ele — Você faria isso?
— Para ajudar a miss joaninha? Claro que sim. — ele sorriu e brincou — Eu já falei que deveriam mandar essa menina para o Disney Channel e ganhar dinheiro com ela. Ninguém me ouve.
— Quem sabe. — eu ri.
— Te garanto que eu serei a próxima Hannah Montana. — disse ela animada.
— Uau, nossa estrelinha tem potencial. — a incentivei.

Mesmo com seu amor por desenhar, Molly insistia no sonho de ser uma dançarina atriz. Eu não sabia o que fazer para ajudar e se esse sonho era mesmo real ou passageiro. Mas se precisasse, eu realmente iria apoiá-la até o final, e ajudar a não se perder nesse mundo obscuro que é das celebridades. Após o café, seguimos para a casa da Sophie. Molly e Joseph continuaram a trocar figurinhas no carro sobre eu ter filhos talentosos. 

— Ai amiga já estava ficando maluca sem saber o que fazer para o almoço. — disse Sophie assim que eu apareci na cozinha.

Will tinha aberto a porta para nós.

— Estou vendo seu nível de desespero, tirou tudo da geladeira. — comentei. 

Apontei para a bancada de preparo e parecia que o supermercado tinha descarregado toda aquela comida.

— Não fala assim. — ela fez bico — Eu não sou boa com isso.
— Isso que dá ter um marido rico e médico, se acostuma a comer em restaurantes. — brinquei com ela.
— Ele se casou comigo, sabendo que eu não sei cozinhar, casou porque quis. — retrucou ela.
— Casei porque te amo sua ingrata. — disse Will da porta com cara fechada — Não me importa se sabe cozinhar ou não, eu sempre cozinho para você.
— Will. — seus olhos encheram de brilho e ela seguiu até ele — Eu te amo.
— Agora você me ama. — ele sorriu de canto e a beijou.
— Vocês dois. — ri deles.

Para mim, formavam o melhor casal do nosso círculo de amigos, ambos eram um misto de amor e ódio desde os tempos do colégio. Fanfic que fala?! Ri um pouco mais ao pensar isso.

— Que tal algo simples de rápido? — sugeri.
— Como o que? — perguntou ela.
— Tabule, rosbife e purê de batata. — disse — E como sei que não tem trigo aqui, eu trouxe de casa.
— Por isso que eu amo quando vem almoçar aqui. — ela sorriu.
— Cretina. — disse a ela, eu olhei para Will — Considere hoje seu dia de folga e vai para sala, Joseph com certeza está com a mão coçando para jogar FIFA com você.
— Estou mesmo. — gritou meu filho da sala.
— Viu. — reforcei.

Will bateu em continência e saiu da cozinha.

— Sempre me divirto com vocês dois quando venho aqui. — continuei rindo e retirei o pacote de trigo da bolsa.
— Que bom que te proporcionamos isso. — ela riu junto.
— Vamos então senhora Tenebrae, coloque seu avental lave as mãos e vamos fazer este almoço.
— Sim chefe Miller. — assentiu ela — Hum… Me tira uma curiosidade.
— Diga. — me coloquei em frente a bancada escolhendo o que deixaria lá e o que ela guardaria na geladeira.
— Freya por um acaso quando a vi no supermercado hoje de manhã, comentou sobre ter visto o vizinho limpando sua calha. — iniciou ela — Você esqueceu de me contar algo?

Suspirei alto.

— Então Sophie, não que eu tenha esquecido, só não consegui te ligar. — expliquei — E como viria aqui hoje… Mas que fofoqueira a Freya.
— Querida, pelo que reparei ela tem secado esse vizinho e tanto.
— Nem parece que acabou de se casar. — fui passando os sacos de verduras para que guardasse.
— Querida, Freya está no sexto casamento, já estou esperando pela festa do divórcio que ela sempre dá. — comentou ao abrir a geladeira.
— Credo, não acredito que está falando assim, não tem graça em ver um casamento terminado. — a repreendi.
— Eu sei que não, mas no caso dela, todos foram por conveniência né.
— Errada você não está.
— Tá, mas voltamos ao assunto importante, por que motivo ele fez isso?
— Então, ontem de manhã ele foi na Liberdad Café, e comeu a panqueca especial.
— Sério?
— Sim… E para te deixar mais surpresa, ele pediu para que me chamasse pois queria agradecer pessoalmente pelo café da manhã. 
— Chocada.
— Foi aí que ele falou que tinha visto a minha calha suja, quando subiu no telhado dele, e se ofereceu pra limpar.
— E você aceitou de imediato. — supôs ela.
— Não, eu disse que não tinha como pagar ele.
— E ele disse que poderia te beijar em troca? — ela deu um sorriso malicioso.
— Para de ler fanfics Sophie.
— Não custa sonhar… Já quero shippar vocês dois, me deixa. — ela fez bico.
— Para de delírios amiga, eu ainda sou casada pela lei.
— Daremos um jeito nisso amanhã.
— E mesmo se não fosse, eu não quero nada de relacionamentos agora, percebi que preciso cuidar de mim mesma, da minha sanidade mental, em meio essa reviravolta que sofri.
— Ok. — ela fez um olhar de tristeza — Mas não vai nem rolar um agradecimento a ele?
— Ele disse que em troca eu poderia colocar mais geléia na panqueca dele.
— O que significa que ele vai continuar indo a cafeteria.
— O que deduzi também.
— Estou chocada, a mão da fanfic até treme. — brincou ela — Será que posso escrever uma com essa história?
— Nem começa com suas invenções. — ri dela ao abrir o pacote de trigo — Vamos nos concentrar nesse almoço.
— A gente trabalha com as mãos e com a boca também, tenho fofocas para contar.

Minha amiga não tinha jeito mesmo. Como eu havia dito, não foi algo demorado e no final, Sophie aprendeu mais uma receita que ela não faria sozinha, com certeza. Chegando em casa já de noite, disse as crianças para irem dormir e me tranquei em meu quarto, senti meu corpo tão cansado que só deu tempo de tomar uma ducha e cair na cama. Na manhã seguinte, já acordei com o barulho do vizinho e sua reforma. Saí cedo de casa e cumpri meu horário na cafeteria. Marquei um almoço com Sophie, ela iria me acompanhar na assinatura oficial do divórcio. 

Aquele dia seria lembrado como divisor de águas em minha vida. 

"Vivendo somente pela razão,
Está ideia amadureceu você?" 
- The Boys / Girl’s Generation



4. NT Post

Acordei na terça feira ansiosa, empolgada e ao mesmo tempo estranha. 

Em breve eu completaria as primeiras 24hrs divorciada. Uma nova realidade nascia para mim e eu teria que me adaptar ainda mais a isso, não só por meus filhos, mas por mim mesma. Eu tentava me mostrar durona e firme diante deles, mas meu travesseiro sabia as lágrimas que eram derramadas nele à noite. Eu superaria? Sim, aos poucos sim. Mas não seria fácil. Amar uma pessoa por tanto tempo e terminar como terminou, curar meu coração seria o passo mais importante a ser dado por mim. E me esforçar para isso, para quando eu me lembrar disso, não sentir mais dor, não sentir nada, apenas agradecer a Deus por ter superado e seguido em frente.

Após sair da cafeteria, passei em casa rápido para tomar uma ducha e me aprontar para a entrevista. Joseph tinha finalizado meu portfólio na noite anterior e salvo em pdf. Já que agora é tudo digital, eu salvei o arquivo no celular para enviar a Genevieve durante a entrevista. Coloquei terninho azul marinho desta vez, prendi o cabelo com uma gominha de Molly que encontrei rodando por meu quarto e peguei a bolsa preta, joguei o celular e a carteira dentro. 

— Hum. — parei em frente ao espelho e fiquei me olhando, mesmo que a maquiagem escondendo minhas olheiras causadas pelas lágrimas, meu olhar abatido era visível — Preciso melhorar isso, ando tão desanimada.

Sorri para meu reflexo tentando melhorar a situação e ajeitando a bolsa no ombro, saí do quarto em direção a porta da sala. Sophie me esperava na rua dentro do carro. Claro que a atenção da minha amiga não estava em mim, tanto que nem reparou na minha roupa. Antes de entrar no carro, olhei involuntariamente para a casa do vizinho, ainda não me acostumei a chamá-lo pelo nome: . Ele estava em cima do telhado, dando algumas marteladas, só então que observei que era reforma de um homem só. Todos os dias ele era o único a trabalhar ali, o que me levou a imaginar que o barulho seguiria por um longo tempo. 

Entrei no carro e seguimos para um restaurante recomendado por Sophie, a entrevista tinha sido marcada em plena hora do almoço. Genevieve já nos aguardava e nos recebeu com muita educação.

— Que bom que veio também Sophie. — disse ela com um sorriso singelo no rosto — Quero agradecer pela indicação, e dizer que recebi seu portfólio e já dei uma olhada, estou ainda mais impressionada com sua habilidade de escrita.
— Se eu fosse comparar com The Sims, diria que a já chegou no nível 10 de escrita. — elogiou minha amiga sem medo.
— E eu tenho que concordar. — Genevieve me olhou — Passei o olho no seu artigo sobre as combinações na culinária, e fiquei impressionada.
— Agradeço o reconhecimento, apesar de ainda me manter preocupada com a falta de certificação. — disse meio tímida.
— Ah, nem sempre um diploma diz alguma coisa, tenho vários funcionários autodidata em meu jornal. — garantiu Genevieve — E já vejo que você fará sucesso na caderno da mulher.
— Eu não iria falar somente sobre culinária? — perguntei.
— Inicialmente sim, mas você tem potencial para mais. — explicou ela — Mas aos poucos vou te orientando melhor, o caderno da mulher compõem artigos e colunas sobre vários assuntos, podemos fazer um teste inicial com você a frente da coluna culinária, e quanto se sentir mais segura poderá escrever sobre outras coisas.

Em suas palavras parecia fácil. Mas céus, era muita responsabilidade. Eu daria conta? Assenti com um sorriso.

— Estou ansiosa para ler o jornal agora. — disse Sophie.
— E você pode escolher trabalhar home office, se não quiser ir para a redação. — completou Genevieve.
— Eu prefiro sim ir para a redação, gosto de separar as coisas, acho que se ficasse em casa, não me concentraria. — expliquei.

Um dos motivos: o vizinho.

— Começo quando? — essa era a pergunta.
— Deveria perguntar quanto vai ganhar. — reclamou Sophie.

Genevieve riu.

— Bem, respondendo sua pergunta você começa amanhã, pode escolher trabalhar na parte da manhã ou da tarde, Sophie me disse que queria um trabalho de meio período, e como o caderno da mulher sai toda quarta e sábado, terá tempo para deixar tudo preparado. — ela olhou para minha amiga — E respondendo a sua pergunta, apesar de meio período, o trabalho é dobrado, os dois primeiros meses vai receber o mesmo que um estagiário por estar em período de experiência, depois receberá como um profissional.

Ela retirou o papel da bolsa e escreveu nele os valores. O que deixou Sophie impressionada. 

— O NT Post é o terceiro jornal mais vendido do país, por isso, costuma ser muito generoso com seus funcionários, principalmente os que se destaca. — disse ele como uma motivação.
— Eu já estou grata pelo emprego, asseguro que vou me dedicar bastante.
— É o que nós esperamos. — ela sorriu para mim — Não se preocupe, terá uma equipe muito qualificada e competente trabalhando com você.
— Agradeço.

Continuamos a entrevista em meio ao almoço, bem foi mais um bate papo com ela contando alguns casos que aconteceu na redação. Chegando ao dia seguinte. Meu coração acelerou de ansiedade ao entrar no prédio da redação. Senti minhas pernas mais bambas que no primeiro dia do ensino médio. Uma jovem ruiva com cara de colegial estava parada na recepção com uma plaquinha escrita meu nome. Me aproximei dela ainda receosa. 

— Oi. — disse num tom baixo.
— Você é a ?
— Sim.
— Prazer, eu sou a Beth, assistente da sua equipe. — ela esticou a mão em cumprimento.
— Minha equipe tem uma assistente. — apertei sua mão e sorri de leve.
— Este é seu crachá, nós ficamos no sétimo andar, vem comigo, vou te mostrar tudo. — ela parecia mais empolgada do que eu.
— Vamos lá. — disse pegando meu crachá.

Ela me foi uma boa guia turística naquele primeiro dia. Ao chegarmos ao sétimo andar, uau, me deparei com o fluxo intenso de um escritório de redação. Pessoas de um lado para outro, estações de trabalho cheia de papéis e copos de café do Starbucks, post its pregados nos vidros de divisória e monitores de computador, quadros de avisos cheios de recados. E eu entraria naquele universo a partir de hoje. 

— Vem , nossa estação de trabalho fica ao lado da janela, temos uma vista privilegiada. — disse ela indo na frente.
— Isso é bom. — a segui observando tudo ao meu redor.

Estava um pouco nervosa pela nova rotina? Sim. Intimidada por ter pessoas mais experientes que eu ali? Com certeza. Mas não deixaria isso me travar nenhum pouco, daria o meu melhor e trabalharia muito para mostrar minha capacidade. Ainda mais, seria uma boa profissional para orgulhar meus filhos.

— Essas são as colunistas da nossa equipe, Sunny de moda, Lizzy de saúde e Hill assuntos do cotidiano. — apresentou Beth apontando para cada uma delas — Girls, essa é , nossa colunista de culinária.
— Boa tarde. — disse.
— Olá. — Sunny desviou seu olhar rapidamente para mim e sorriu de forma meiga.

A garota parecia tímida, com seus traços asiáticos e óculos de nerd. Notei que seu cabelo estava preso por uma caneta, ela usava uma blusa de moletom escrito EXO. Acho que já tinha ouvido Sophie falar de um grupo de mesmo nome, minha amiga e suas histórias de aprendizado com suas alunas. 

— Uau, você não é tão velha quanto eu imaginei. — Lizzy jogou seus cabelos loiros para trás e me olhou de cima em baixo — Mas precisa ser menos informal se quer trabalhar aqui, mais casual eu diria.

Sim. Informal. Só agora que eu tinha reparado que ninguém ali estava vestindo roupas formais. Todos pareciam confortáveis com seus jeans rasgados, calças largas, regatas, t-shirts, e vestidos florais. Lizzy mesmo vestia uma jardineira de jeans na cor preta, com uma blusa amarela por baixo, com um all star nos pés. 

— Não liga para ela . — Hill sorriu também e pegou uma caixa que estava sobre a mesa dela — Lizzy adora implicar com os novatos.

Hill tinha traços latinos interessantes, e um sotaque de quem tem o espanhol como língua materna. Admirei brevemente seu vestido floral azul claro com um cintinho preto e a sapatilha bege. 

— A redação tem muitas pessoas jovens não é? — comentei.
— Fala como se fosse uma senhora de 45 anos. — Beth me olhou curiosa — Você tem essa idade? Se tiver, usa produtos Ivone né?

As meninas soltaram uma risada com isso, e eu fiz o mesmo.

— Não, não tenho 45 anos, tenho 33. — respondi.
— Pode ficar feliz mana, você não é a mais velha. — Lizzy piscou de leve — Nós temos o Osvald do caderno de esportes, ele tem quanto mesmo? 54?
— 42. — corrigiu Sunny.
— Legal, não vou me sentir a tia do andar. — brinquei.
— Nós não somos tão novas assim também. — declarou Hill — Eu tenho 29.
— Eu tenho 25. — disse Sunny.
— Eu tenho 27. — comentou Lizzy — Entrei atrasada na faculdade de nutrição e aqui estou trabalhando só de meio período por isso.
— Estuda de manhã?
— Sim, na NY University, é pública e barata.
— Uau. — estava impressionada.

De certa forma, meio motivada.

— Eu é que sou a mais nova, tenho 21. — disse Beth.
— Por isso é a assistente. — brincou Lizzy.
— Não é por isso. — Beth bufou.
— Será um prazer trabalhar com vocês. — sorri de leve.

Me sentei na mesa ao lado de Hill, de frente para Lizzy. Beth não tinha uma mesa própria, pois estava sempre se movendo de um lado para o outro entre as mesas da nossa estação. Foi divertido e acelerado aquela tarde, pegar o ritmo do trabalho, decorar as senhas do servidor, preencher a papelada do Rh, ler as últimas edições do caderno da mulher. Muita coisa para o primeiro dia. Ao final do expediente, encontrei Sophie na recepção me esperando. Segundo ela, só valeria esse recomeço se eu saísse para comemorar meu primeiro dia de emprego. Não tive como recusar, já que ela chamou as meninas da minha equipe também. Nossa parada seria no pub de uma amigo colorido de Sunny, que parecia mais um friendzone.

— Uau, que mulher em sã consciência se casa antes dos 30 hoje em dia? — perguntou Lizzy fazendo uma careta.
— A já contou a história dela? — perguntou Sophie.
— Não. — as meninas me olharam.
— Casada aos 17. 
— O que? — disseram em coral.
— Eu estava grávida gente. — expliquei — Se não fosse isso, teria ido para a faculdade.
— Uau, corajosa. — Hill me olhou — Eu interrompi uma por ter medo de não dar conta, meu ex fugiu na hora dizendo que não era dele.
— Babaca. — xingou Beth — Caras assim são todos idiotas.
— Concordo. — disse Sophie.
— Mas depois fiquei grávida de outro namorado. — continuou Hill e riu de leve — Estou enrolando ele a sete anos para aceitar o pedido de casamento.
— E você? Qual a história? — perguntou Sophie.
— Eu estou repetindo a mesma matéria pela segunda vez por culpa do professor. — disse Lizzy — Não aguento mais frequentar as aulas dele. 

Ela já não estava muito sóbria, tinha pedido o drink mais forte. Eu continuei em minha zona de conforto, pedi um coquetel de morango, alguém tinha que ficar sóbria ali. 

— Está falando do Baker? — perguntou Sunny.
— Ele mesmo.
— Aquele seu professor é um gato. — confessou Beth.
— Que destroça o coração das alunas. — declarou Lizzy — Quero me livrar dele.
— Agora tá explicado, ela não presta atenção na aula porque fica secando o professor. — comentou Sophie entendendo tudo.
— É a matéria mais complexa e difícil, ele deveria ser feio, assim eu passaria. — Lizzy se debruçou sobre a mesa.
— Você deveria se focar mais. — alertei ela.
— Falou a dona de casa que se paralisa quando vê o vizinho da janela. — brincou minha amiga.
— Sophie, não é assim.
— Uuuullllll, que vizinho, compartilha com a gente. — disse Beth.
— Você que tem cara de tímida. — Hill me olhou desconfiada.
— Não aconteceu nada, é só um vizinho novo, deve ter o que, a idade da Sunny. — expliquei meio atrapalhada.
— Você gosta de homens mais jovens? — Sunny me olhou curiosa.
— Talvez, não… Eu não sei, acabei de me divorciar do meu primeiro namorado, não tenho resposta para isso. — voltei meu olhar para a taça com o coquetel.
— Complexo. — comentou Lizzy.
— Meu primeiro namorado já se casou com outra pessoa a muito tempo. — Sunny riu ao mexer no celular — Ás vezes imagino como seria se eu tivesse me casado com ele depois que voltou do exército.
— Você ficou com medo? — perguntei.
— Não exatamente, só não estava pronta pra abrir mão do meu sonho de vir para NY, e ficar em Seoul como uma mulher casada. — respondeu ela — Me sinto realizada por trabalhar na Post, graças ao jornal já viajei para tantos lugares cobrindo tantos eventos de moda.
— Por falar em viagem, você bem que podia ter me levado no último NY Fashion Week. — Lizzy fez bico — Sabe que amo um evento de moda.
— Porque não fez moda então? — perguntou Sophie.
— Eu também amo nutrição e não sei desenhar tão bem quanto a Sunny.  — explicou ela.

Nós rimos.

— Bem, ninguém me perguntou mais, eu sou a caloura de publicidade. — disse Beth — Eu fazia fisioterapia em Princeton por pressão dos meus pais, tranquei o curso, fugi de casa, comecei o curso de design gráfico em uma escola técnica até que mudei para o Brooklyn e consegui uma vaga na NY University.
— Também mora no Brooklyn? — Sophie a olhou animada.
— Sim.
— Você também foi bem corajosa. — a elogiei.
— Todas nós somos. — Beth sorriu.

- x - 

Os dois meses de experiência passou tão rápido, que quase não consegui acompanhar o andamento da reforma do vizinho. Mas pelo que notei ao avaliar da janela do meu quarto, não tinha evoluído muito. Sábado pela manhã, levantei cedo e ao som das batidas da casa ao lado, no meio do preparo do café das crianças, recebi uma mensagem de Sophie.

Menina, não vai acreditar no que descobri.

Hum… 

Me indicaram uma fanfic restrita para ler, 
fui toda inocente, sem saber o que restrita significava, 
menina, quando chegou na parte mais quente 
do relacionamento dos protagonistas, a autora detalhou tudo, 
mais tudo mesmo, eu fiquei assim, 
estou lendo 50 tons de cinza e não sei. 

#chocada

Vai ficar mais ainda quando te contar 
que descobri que a autora tem 13 anos. 
13 anos.

Onde está os pais dessa garota? 

Vai saber, isso se eles sabem o que é fanfic. 
Mas menina escreve bem demais,
fiquei impactada.
quer o link para ler?

Não.
obrigada.
Sophie, estou indo ao Liberdad agora
pare de ler fanfics e vai trabalhar

hoje é sábado, eu não trabalho.

então vai dormir.

Bloqueei a tela do celular e guardei na bolsa rindo dela. Corri para a cafeteria. Ao chegar, me deparei com uma fila na porta, certamente esperando por minhas panquecas especiais. Voltei quase na hora do almoço, extremamente atrasada, por sorte Joseph já tinha preparado um espaguete vegetariano de dar água na boca. Em suas palavras, uma receita aprendida do youtube, isso sim me impressionou.

 — Cante uma canção, quando estiver com um problemão, basta começar cante uma canção… — comecei a cantarolar enquanto eu lavava as vasilhas do almoço.

Joseph tinha saído para jogar na casa de um amigo. Molly estava no seu quarto treinando a coreografia para o concurso. Eu tinha achado meio complexa para uma garota de 10 anos, mas Sophie assegurou que nossa miss joaninha precisava de um desafio para se destacar. Em um segundo de distração com pensamentos aleatórios sobre como seria meu primeiro dia de promoção, sendo agora responsável geral pelo caderno mulher, me assustei ao ouvir o barulho de algo se quebrando vindo do quintal. O que será que tinha caído dessa vez? Lavei as mãos e corri para ver o que é. Quando abri a porta. estava no chão trocando socos com outro homem.

— Nossa. — disse assustada com a cena.

Minha presença atraiu a atenção deles que pararam no mesmo momento. Dei alguns passos para frente e voltei o olhar para a cerca que estava parcialmente destruída. Então o barulho veio daí. 

— Me desculpe . — disse ele se levantando e olhando para o homem ao lado.
— Ah… — o homem pareceu entender o recado e se levantou — Me desculpe.
— Tudo bem, eu tenho uma caixa de primeiros socorro. —  falei quase pausadamente, absorvendo a situação — Me esperem aqui.

Eu não deveria ter tido exatamente essa reação, mas foi no impulso. Entrei em casa e fui até o banheiro do meu quarto, peguei a caixa no armário embaixo da pia. Olhei meu reflexo no espelho, no automático minha mão foi até o cabelo ajeitando um pouco e só depois eu percebi o que estava fazendo. Respirei fundo e voltei para o quintal.

— Aqui está. — disse me aproximando deles. 

estava encostado na mesa que tinha no canto perto do projeto do que seria a nossa churrasqueira, já o outro homem sentou na cadeira ao lado e ficou me observando.

— Não precisava se preocupar, estamos bem. — disse , com um corte visível em sua boca.
— Estou vendo, você e seu… Amigo?
— Este é meu primo, Cedric. — apresentou ele.
— Prazer. — disse ao olhar para ele com o olho roxo e dois cortes pequenos na testa. 
— Prazer. — o homem evitou me encarar muito e desviou o olhar.

Eu abri a caixa e comecei a limpar os machucados deles. Primeiro de Cedric que parecia bem pior, e depois do , que mantinha fixamente sua atenção em mim. E isso me deixou meio tímida e um pouco retraída, aquele olhar intenso em mim. 

— Prontinho. — disse ao fechar a caixa.
— Cedric, poderia nos deixar… — ele olhou para o primo.
— Ah, eu vou olhar o ponto hidráulico do lavabo. — Cedric se levantou mais que depressa e seguiu até a cerca quebrada.

o observou até que ele desaparecesse do nosso campo de visão, então voltou seu olhar para mim. Senti um arrepio estranho no corpo.

— Então… Obrigado e me desculpe, novamente. — disse ele com sua voz firme e grossa.
— Eu poderia dizer que estou acostumada com isso, mas… Foi a primeira vez. — eu ri de leve, sendo acompanhada por ele.
— Eu prometo consertar a cerca até o final da próxima semana. — garantiu ele — Ainda estou tendo problemas com o encanamento.
— Fique tranquilo, você já ia trocar ela mesmo. — sorri de leve. 
— Ainda assim, te causei um leve transtorno. — ele coçou a cabeça dando um sorriso fofo de criança que fez coisa errada. 
— Eu preciso entrar agora. — dei um passo para trás.
— Ah sim… Eu também tenho que terminar o encanamento da minha cozinha. — concordou ele.
— Você está mesmo fazendo essa reforma sozinho? — perguntei curiosa.
— Sim. 

Era impressionante como ele se mantinha com o olhar fixo em mim, as minhas expressões e movimentos. Seu olhar profundo e intenso. Um olhar que quase hipnotizava e me fazia esquecer o que tinha ao redor. 

— Se você quer algo bem feito, faça você mesmo. — brincou ele.
— É um pensamento válido. O seu primo veio te ajudar?
— Só por alguns dias, para terminar de vez o telhado e a hidráulica. — respondeu ele.
— Desejo uma boa jornada em sua reforma. — desviei meu olhar dele, já estava me sentindo meio constrangida com seu olhar.
— Obrigado.
— Até. — me afastei dele e entrei na cozinha.

Assim que fechei a porta, não me contive em olhar pela cortina na frente do vidro, se ele também tinha saído. Mas não, continuou por um tempo ali olhando para a porta. Meu coração acelerou novamente. Já tinha quanto tempo com a sua chegada? Três meses e alguns dias? Não estava contando direito. Voltei minha atenção para a cozinha que não tinha terminado de arrumar. Peguei o pano de prato e fui guardando as vasilhas. As horas foram passando comigo ouvindo o andamento da reforma, enquanto folheava algumas revistas de moda que Sunny, a colunista de moda, me emprestou para meus estudos da atualidade.

— Alô. — disse ao atender a ligação de Joseph.
Mãe.
— Aconteceu algo?
Não, eu só liguei pra dizer que vou dormir aqui hoje, tem problema? — informou, perguntando.
— Algum campeonato surpresa? — deduzi.
Vamos traçar nossa estratégia para a competição estadual. — explicou ele — E treinar um pouco.
— Levou seu notebook?
Sim, você ia usá-lo?
— Eu uso o seu computador, sem problema. — voltei meu olhar para as revistas em cima da mesa de centro — Se alimente bem, ok, nada de ficar jogando e esquecer que seu corpo não é uma máquina.
Tudo bem mãe. — ele riu do outro lado.
— Até amanhã.
Boa noite!

Desliguei o celular e corri até o quarto, peguei minha agenda nova de anotações e voltei para sala. Eu já tinha grifado muitas coisas com o marcador, sob a autorização de Sunny. Realmente não conseguia estudar sem aquele marcador de texto, o que me lembrava que meus cadernos do colégio eram cheios de anotações, frases grifadas e post it de cores variadas. 

— Mamãe. — Molly desceu as escadas correndo.
— Ei mocinha, devagar. — disse mantendo a atenção na revista que via, pregando um post it com uma anotação.
— Não desci tão rápido. — ela se aproximou e sentou ao me lado — O que está fazendo?
— Estudando. — respondi, ao anotar o nome de uma marca relevante na minha agenda — E você?
— Eu terminei meu ensaio por hoje, desci para comer algo. — respondeu me observando — Está mesmo muito aplicada no emprego novo.
— Quando for adulta vai ver que boletos pagos é a motivação para ser aplicada no emprego. — ri de leve.
— Acho que não quero ser adulta.
— Não tem como parar a idade joaninha, até em Nárnia as pessoas envelhecem.
— Na terra do Nunca não.
— Tinker Bell está de folga. — brinquei a fazendo rir — Já fez o dever de casa? Soube que tem uma redação para fazer. — indaguei — Qual o assunto?
— Redação sobre uma princesa disney indicada pela professora.
— E quem pegou?
— No sorteio eu peguei a Jane do Tarzan. — ela fez um bico — Eu queria a Mulan ou a Tiana, mas quem pegou não quis trocar comigo.
— Hum…. Mas a Jane é legal, ela deixou sua vida na Inglaterra para viver na selva com o Tarzan, não é uma história de amor legal?
— Não quero uma história de amor legal. Prefiro uma princesa que finge ser homem e entra para o exército para proteger sua família e seu país, de quebra ela ainda ganhou um dragão de estimação e um grilo que dá sorte. — argumentou ela — Ou uma princesa que se aventura no lado mais escuro do rio ao lado de um príncipe sapo mané e um jacaré que toca instrumento, e termina tendo seu próprio negócio sem depender do príncipe para ser rica e famosa.
— Minha joaninha empoderada, tenho certeza que você vai encontrar algo legal na Jane. — olhei para ela e sorri de leve — Tem biscoitos no armário, suco de laranja na geladeira e cereais em cima da mesa. Não coma muito, pois ainda tem o jantar.
— O que vai ser hoje? Sanduíche?
— Talvez role um miojo. 
— Também é legal. — ela sorriu e se levantou.
— E depois de comer, lição de casa.
— Ok.
— E vou querer ver sua redação antes de mostrar a professora.
— Me esqueci que tenho uma mãe ninja em redação. — ela fez um joia para mim e saiu saltitando para a cozinha.

Ri um pouco e voltei minha atenção para a revista. 
Minutos depois observei Molly passar pela sala com um pacote de salgadinho na mão. Balancei a cabeça negativamente e voltei a me concentrar no trabalho. Não receberia pelas horas extras feitas em casa, mas sentia que aquilo era um investimento em mim mesma que me me renderia algo bom no futuro. Investia no meu conhecimento, sobre diversos assuntos que poderia compor o caderno da Mulher, estava até com a ideia de abrir uma coluna de indicações de fanfics, pois segundo Sophie, era a sensação literária do momento. E o pior é que estava certa, já tinha pesquisado o assunto e encontrado muitos sites dedicados a esse tipo de escrita. Vivendo e aprendendo, pesquisando e descobrindo.

No meio de uma silenciosa leitura, ouvi algo como batidas na porta. Foi difícil identificar de onde vinha, mas percebi que as batidas eram do vizinho na porta de saída da cozinha. Abri para ele e me deparei com um embrulho razoavelmente grande nas suas mãos.

. — me mantive natural e serena — O que faz aqui?
— Eu… 
— Você?!
— Ainda me sinto mal pela cena que presenciou mais cedo. — explicou ele.
— E o que é isso que está segurando?
— Um pedido mais formal de desculpas. — respondeu.
— Um pedido de desculpas? Você já se desculpou.
— Por favor, aceite. — aquele seu olhar de garoto abandonado me despertava e me lembrava que ele era mais jovem do que eu.
— Tudo bem. — peguei o embrulho e abri mais a porta para que ele entrasse — Vem, me ajude a descobrir o que é.
— Claro. — ele sorriu e entrou.

Fechei a porta da cozinha e comecei a rasgar o jornal que embrulhava seu pedido de desculpas. Ao terminar, descobri que era um quadro muito bonito e diferente.

— Arte de rua. — explicou ele — Foi feito por um amigo.
— Sério? Achei incrível o quadro. — não tinha palavras, complicado descrever uma peça de arte — Agradeço.
— Eu que agradeço por ter aceitado. — ele sorriu se aproximando um pouco de mim, com o olhar de sempre, fixo e intenso.

Fiquei meio estática sem saber como reagir, até que o barulho da porta da sala se abrindo me chamou a atenção.

— Hum?! — me virei estranhando.
— Parece que alguém entrou. — comentou ele.
— É o Joseph, meu filho, deve ter acontecido alguma coisa. — eu o olhei — Você pode esperar aqui?
— É melhor eu ir pra casa, seu filho pode estranhar minha presença aqui. 
— Verdade. — concordei. 

Ele se afastou indo para a porta. Enquanto isso eu deixei o quadro em cima da mesa da cozinha e segui para sala. Minha surpresa veio quando vi Carl perto da estante de livros remexendo as gavetas do móvel ao lado. Minha mente fundiu por alguns segundo, até que reagi a cena.

— O que faz aqui? — disse em um tom mais alto e firme.

Já tinha dois meses que nos divorciamos e não tinha o visto desde do dia em que assinamos os documentos definitivos do divórcio.

— Ah, . — ele parou e me olhou — Eu só vim pegar umas pastas que esqueci aqui.
— E você fala assim com tanta naturalidade?
— E como quer que eu fale? — seu olhar cínico estava ali.
— Você não mora mais aqui, nem deveria usar essa chave, deveria ter entregado ao Joseph. — retruquei não dando importância a sua arrogância — Não somos mais casados Carl e essa casa não é mais sua, é minha, se precisa de algo ligue primeiro, não saia invadindo.
— Ah, por favor , não tenho tempo para suas reclamações. — ele voltou a remexer na gaveta.
— Minha reclamações? Só estou dizendo que se eu quiser, posso ligar para a polícia e dar queixa de invasão de propriedade. — o confrontei sem medo.
— Vai mesmo ter coragem que fazer isso com o pai do seus filhos?
— Agora você se lembra disso. — bufei de leve — Sim, eu teria coragem.
— Você é ridícula. — ele debochou de mim — Quer provar o que fazendo isso? Foi porque eu disse que não é uma mulher suficiente para mim? Quer se vingar?

Aquela sua frase ainda estava entalada na minha garganta e eu queria fazê-lo engolir isso.

— Querida. — uma voz soou da porta da cozinha — Por que está demorando?

Querida? Eu me virei para trás e paralisei, ao ver descalço e sem camisa, encostado na porta e dando um sorriso malicioso que não se encontra nem nas fanfics de Sophie. 

"Someone call the doctor." 
- Overdose / EXO



5. Fake Love

— Quem é ele? — perguntou Carl ficando sério, com um olhar inexpressivo e estático.

Minha mente ainda estava tão fundida que não sabia o que responder. Paralisada estava.

— Prazer Carl. — entrou na sala e caminhou até meu ex, esticando a mão em cumprimento — Sou o , namorado da .

Namorado?! Olhei para o vizinho mais ainda sem reação. Namorado?! Carl me olhou com se estivesse se corroendo de raiva por dentro. Ele olhou para a mão de e ignorou seu gesto.

— Eu preciso ir, quando achar minhas pastas, me avise, mandarei alguém buscar. — disse num tom ordenando.
— Faltou as duas palavras mágicas Carl. — mantive séria, porém com suavidade no rosto, como se aquela situação fosse natural — Por favor.

Eu permaneci parada. se moveu até a porta e abriu para que ele saísse, então fechou e olhou para mim. Em seu olhar, tinha um misto de satisfação pelo que tinha feito e culpa também.

— Me desculpe, não sei o que deu em mim. — disse ele abaixando seu tom — Fiquei um pouco agitado com a situação.

Visivelmente envergonhado.

— Eu nem sei o que dizer. — sussurrei perplexa, ainda com o foco do meu olhar em seu abdômen de forma discreta.

Namorado.

— Não me contive em ouvir o que ele te falou. — ele deu alguns passos até mim — Não deveria ter me intrometido, mas...
— Está tudo bem, as palavras de Carl não importam para mim. — assegurei o interrompendo.
— Para mim ele está errado.
— Hum?! — subi meu olhar para seu rosto.
— Você me parece ser uma mulher incrível. — aquele olhar intenso retorou.

Isso sim, acelerou ainda mais meu coração. Recuei um pouco receosa, do que poderia acontecer a seguir. 

— Eu acho que você deveria ir para casa. — sugeri, desviando o olhar para o chão, levei a mão em meu pescoço meio nervosa pela aproximação dele.
— Tem razão, acho que já causei muita confusão por hoje. — ele deu um sorriso bobo e envergonhado, quem me fez sorrir no automático.
— Sim. 

Ele se virou e voltou pela cozinha. Em segundos ouvi o barulho da porta se fechando. Corri até lá e tranquei a porta de imediato. Coloquei a mão no peito e tentei acalmar-me, respirando mais suave. Aquilo foi estranho e muito perigoso para minha saúde mental. Subi as escadas e abri a porta do quarto de Molly, ela estava debruçada em cima dos cadernos dormindo. Acho que nossa maratona H²O Meninas Sereias ficaria para depois. A peguei no colo e coloquei na cama, cobri com a manta e dei um beijo de boa noite em sua testa. Chegando no meu quarto, fui para o banheiro e me afundei naquela banheira, precisava relaxar e limpar meus pensamentos. Quanto mais eu desviava minha mente dele, mais pensava em e no que tinha feito. Será que Carl acreditou? Bem, ver um homem totalmente à vontade na casa de sua ex esposa a chamando que querida.

— Querida… — sussurrei e mergulhei novamente na banheira — O que ele fez?

Bem no meio do meu relaxamento, ouvi o barulho do lado de fora, estava começando a chover naquela noite. Terminei meu banho e voltei para o quarto enrolada na toalha, parei em frente o armário e fiquei olhando minhas calcinhas, qual usaria aquela noite. Algo fútil para se dar atenção devido a minha condição atual. Mas queria encontrar qualquer coisa para desviar minha atenção de . Assim que coloquei o pijama de bolinha que Molly me deu de presente no ano passado, me aproximei da janela lentamente para ver como estava o tempo, a chuva do lado de fora parecia forte. 

Voltei meu olhar no automático para a janela da casa ao lado. Meu coração acelerou quando vi saindo do banheiro somente com a toalha enrolada na cintura e com outra nas mãos secando o cabelo. Ele voltou o olhar para a janela dele, que estava aberta, me fazendo dar um pulo para trás me afastando. Meu coração acelerou na hora. Saí do quarto, temendo que ele tivesse me visto, segui para sala e liguei a televisão. Vai que alguns episódios de Grey’s Anatomy me distraiam, apesar dos médicos bonitos não ajudarem muito.

Adormeci no sofá em pleno décimo episódio da sexta temporada. Acordei de madrugada sentindo minhas costas doloridas, a tela da tv estava congelada com a mensagem da Netflix. Me levantei e arrumei o sofá, desliguei a televisão e logo senti um fundo na minha barriga. Caminhei até a cozinha e preparei um sanduíche para mim. Sentei na cadeira e comecei a mastigar, a cada mordida um pensamento diferente, mas todos relacionados ao que possivelmente aconteceria no dia de hoje. Quando terminei, fiquei um tempo olhando pro nada, quando dei por mim, já marcava cinco da manhã no meu celular. Voltei para meu quarto e aproveitei o resto de horas de sono que ainda tinha. Não demorou muito para voltar a dormir, porém fui acordada pela pequena joaninha, que se esparramou ao meu lado e se aninhou a mim.

— Bom dia joaninha. — sussurrei mantendo meus olhos fechados — Caiu da cama?
— Bom dia mamãe. — ela riu e se aninhou ainda mãe.
— Vamos dormir mais um pouquinho? — perguntei.
— Vamos. — assentiu ela.

Sim. Nós dormimos um pouco mais. E quando acordei, me senti renovada fisicamente. No relógio já batia dez da manhã e curiosamente Joseph estava na porta do meu quarto observando nós duas. 

— O que aconteceu aqui? — perguntou ele.
— Sua irmã caiu da cama. — brinquei um pouco me espreguiçando — Já tomou café?
— Sim, na casa do meu amigo.
— E como foi com seu time? Fez muitas estratégias? — perguntei erguendo meu corpo e me sentando na cama.
— Traçamos uma estratégia só, espero funcionar. — disse ele se aproximando da cama.

Joseph estava com um olhar diferente. Mais analítico do que de costume, e isso me preocupava.

— Aconteceu alguma coisa filho?! — perguntei preocupada.
— Meu pai me ligou ontem à noite. — respondeu ele — Disse que esteve aqui.

Meu corpo gelou na mesma hora. Será que Carl disse o que não deveria.

— Ele veio aqui pegar umas pastas que tinha esquecido, sem ligar e ainda entrou usando a chave dele. — expliquei — O que mais ele disse?
— Mais nada, só me pediu para achar as pastas dele. — respondeu.

Soltei um suspiro aliviado.

— Mãe.
— Sim?!
— Posso te pedir uma coisa?
— Claro, o que?
— Troque todas as fechaduras da casa. — pediu.

Sorri de leve e assenti. 
Joseph tinha razão, eu deveria trocar as fechaduras, assim Carl não teria mais acesso livre a esta casa. Faria isso na segunda pela manhã, antes de ir para o Liberdad Café. Deixei Molly ainda adormecida na minha cama e me levantei, troquei o pijama e coloquei uma vestido de tecido leve e fresco, para aproveitar a manhã de sol da primavera. Passei pelo quarto de Joe, e o mesmo já estava com os fones no ouvido e iniciando alguma partida. Seu amor pelos games me deixava um pouco preocupada, aquilo poderia virar um vício na vida dele. E não era tão bom assim para ele passar horas na frente do computador jogando. Ele precisava sair com os amigos, se divertir de outra forma que fosse mais atlética e menos tecnológica.

— Ahhhh. — bocejei um pouco enquanto descia as escadas — Não acredito que ainda estou com sono.

Chegando na sala, avistei meu celular no sofá em meio às almofadas. Nele, algumas mensagens de Sophie, me convidando para um sorvete após o almoço. Só tinha dois momentos que ela me convidava para tomar um sorvete no domingo a tarde: ou Will tinha lhe feito alguma surpresa e ela precisava compartilhar, ou alguma fofoca tinha explodido no nosso grupo de amizades e ela precisava me contar. Neste caso, eu temia que o assunto pudesse ser a noite anterior aqui na minha casa. Deixei o celular no sofá e fui para a cozinha, já estava tarde para o café, porém não era hora do almoço, faria um brunch caprichado, assim Molly comeria também ao acordar, e Joseph caso sentisse fome.

Abri a geladeira e pensei por um tempo no que faria. Era mesmo uma mania minha cantarolar enquanto cozinhava, e já tinha se tornado um indicativo para as crianças que eu estava aprontando algo na cozinha. Continuei concentrada no que estava fazendo até que meu olhar se levantou e parou na janela como um ímã. Lá estava do outro lado na sua cozinha, encostado na bancada em construção com uma xícara nas mão olhando para mim. A quanto tempo será que ele estava ali me observando me locomover em minha cozinha? Tentei desviar meu olhar, mas somente fiquei ali encarando aquele seu olhar intenso para mim.

— Mãe?! O que está fazendo?— perguntou Joseph atraindo minha atenção.
— Oi?! — olhei para meu filho e respirei fundo — Não estava jogando?
— Era só um treino, estou com fome e senti o cheiro vindo daqui. — ele deu um sorriso fofo — O que fez?
— Preparei um brunch digno dos livros de Jane Austen. — disse apontando para mesa — Viu se a Molly já acordou?
— Não. — a atenção de Joseph estava na janela.

Algo que me deixava apreensiva.

— Tem suco na geladeira?! — perguntou ele vindo em minha direção.
— Está em cima da mesa Joseph. — o parei e dei um passo para a porta — Sente aí e vá comer, vou chamar sua irmã.

Olhei de relance para a janela e vi que ele não estava mais lá na sua cozinha. Era maluco em pensar que há meses atrás, quando eu olhava para a janela, via somente uma casa vazia e escura. Agora, sempre que olho, ele está lá do outro lado me observando. Subi as escada e cheguei no meu quarto, acordei Molly com dificuldade.

— Vamos joaninha, vamos comer. — disse puxando as cobertas.
— Mamãe, não posso tomar café aqui?
— Na minha cama? Você está muito manhosa hoje, para uma mocinha de 10 anos. — coloquei a mão na cintura a olhando.
— Não estou animada hoje.
— Por que?
— Tive um pesadelo.
— E como foi esse pesadelo? — me sentei na cama e a olhei com carinho.
— Eu sonhei que caía na hora da minha apresentação e a Judy ria de mim. — respondeu ela, seu olhar estava triste.

Ela já tinha me contado sobre essa Judy que sempre tirada tempo para implicar com ela. Considerada a garota mais popular da sua escola, se sentia a dona de tudo. Acho que era um dos motivos do porque Molly tinha tanta vontade de ser famosa.

— Pois saiba que você fará uma apresentação maravilhosa e vai ganhar esse concurso. — pisquei de leve para ela — Por que você tem muito talento, além da melhor coreógrafa da cidade.
— Tem razão. — ela sorriu — Não posso decepcionar a tia Sophie. — ela me abraçou forte — Te amo mamãe.
— Também te amo joaninha. — retribui o abraço.

Descemos para a cozinha e nos fartamos do brunch junto de Joseph. Deixei a cozinha para ele arrumar depois e fiquei na sala acompanhando os ensaio de Molly. Quanto mais eu observava ela, mas ideias surgiam na minha cabeça de temas que poderia escrever para o caderno da mulher. Peguei minha agenda na estante de livros e fui anotando tudo para não esquecer. Horas depois, recebi uma ligação de Sophie, brigando comigo por estar atrasada para nosso sorvete no parque. Disse que estava indo e perguntei aos meus filhos se gostariam de dar uma volta. Joseph recusou dizendo que ficaria em casa dormindo, por tinham passado a noite em claro. Já Molly foi correndo para o quarto trocar de roupa. 

Não demorou muito até que chegamos no ponto de encontro. Sophie abraçou Molly assim que nos aproximamos dela.

— Joaninha! — foi um abraço apertado e carinhoso — Como está indo os ensaios?
— Estou treinando todos os dias. — assegurou minha filha — Já decorei todos os passos.
— Que bom, se quiser ir no estúdio ensaiar, posso te arranjar um cantinho bem tranquilo. — disse ela.
— Eu posso mãe? — ela me olhou.
— Se você almoçar na escola e o Joseph te levar.
— Tenho certeza que ele vai. — ela sorriu.
— Podemos tomar nosso sorvete? — Sophie me lançou um olhar atravessado.
— Vamos Sophie. — encolhi seco, parecia ser mesmo sério o que ela queria conversar.

Nos aproximamos de um vendedor com seu carrinho de sorvete e compramos para nós. Enquanto Molly caminhava na nossa frente observando a paisagem do Central Park, Sophie me olhava séria e pensativa.

— O que está acontecendo Sophie? — perguntei a ela.
— Carl ligou para o Will ontem há noite, pedindo para se encontrar com ele. — iniciou ela.
— E?
— Ele perguntou ao meu marido desde quando você está namorando. — o tom sério em sua voz, me deu medo — Tem algo que você esqueceu de me contar? 
— Não me olhe assim amiga.
— Como quer que eu te olhe? Imagina o Will me perguntando se eu sei de alguma coisa. — seu olhar indignado para mim, foi de cortar o coração.

Mas eu era inocente naquela história.

— Então, vou te contar por partes. — garanti a ela.
— Isso me alivia, estou me contorcendo de curiosidade. — ela me olhou — Desde quando você tem intimidades com o vizinho novo? 
— Não tenho intimidades. — a repreendi.
— Ele já limpou a sua calha. — ela sorriu com malícia, e senti o duplo sentido nas suas palavras.
— Vou ignorar o que disse. — voltei o olhar para frente, observando minha filha — Sábado de manhã eu peguei o vizinho brigando com o primo dele…
— E esse primo também é bonito? Tem selo Chris Marvel? — ela me interrompeu.
— Sophie?
— O que? Eu só queria saber se a beleza é de família.
— Posso continuar? — a olhei.
— Claro. — ela me lançou um olhar de desculpas.
— Então, nessa briga eles destruíram a cerca, e à noite o foi na minha casa me dar um quadro em forma de um pedido de desculpas. — continuei.
— Ele te deu um quadro. — Sophie segurou em meu braço me parando — Não brinca.
— Antes fosse, mas ele me deu, coloquei no meu quarto, depois te mostro. — disse a ela — Não deixei as crianças verem ainda, preciso mostrar a elas.
— E o que rolou depois? Ele te beijou?
— Não Sophie, você é louca?
— Não, você que não nota a tensão no ar, vai que o vizinho está atraído por você. — supôs ela empolgada.
— Sophie, isso aqui é vida real e não sua fanfics. — a chamei a realidade — É tão vida real que naquele mesmo momento o Carl entrou na minha casa sem permissão, depois de dois meses sem vê-lo.
— Eu disse pra você trocar a fechadura.
— Joseph também me pediu isso, e farei amanhã. — assegurei a ela — Mas continuando, nós discutimos de novo, e de repente o vizinho apareceu descalço e sem camisa, como se fizesse parte da casa, me chamando de querida.
— Querida?! — Sophie levou a mão no coração e respirou fundo, parecia imaginar a cena — Querida…
— Sim, querida, e se apresentou ao Carl como meu…
— Namorado. — completou ela — O nome disso é fanfic amiga.
— O nome disso é confusão Sophie. — a corrigi — Você não é uma adolescente e tem passado muito tempo com suas alunas, nós vivemos a realidade amiga.
— Sua estraga prazeres, me deixa sonhar tá, sabia que eu entrei em um grupo de leitoras que uma aluna minha me indicou, e achei uma leitora de 37 anos. — ela mostrou a língua para mim e jogou o cabelo para trás.

Seu gesto me fez rir um pouco.

— Ok, não está mais aqui quem recriminou. — respirei fundo — Mas a questão é que aconteceu isso e não sei como reagir.
— Como assim não sabe?
— Não sei. O que acha que eu deveria fazer?
— Não é óbvio? — ela me olhou desacreditada.
— E o que é óbvio?
— Amiga você está com a caixa de bombons na mão, come o chocolate. — disse ela.
— Que ditado é esse?
— O certo seria a faca e o queijo, mas eu não gosto de queijo. — ela terminou de tomar seu sorvete — Mas o fato é que, se eu fosse você aproveitava a deixa e mantinha o boato rolando.
— Continuar sustentando o namoro falso? — finalmente entendi o que ela queria dizer — Não posso fazer isso, o que meus filhos diriam?
— Eles não precisam saber que é falso, e eu sei guardar segredo. — insistiu.

Olhei para o resto do meu sorvete quase derretido e o revirei na boca, limpando com guardanapo depois. 

— Não é um bom exemplo para se dar aos filhos, e você sabe que Joseph é esperto demais para cair nessa. — retruquei — Ele já me pegou olhando a janela da cozinha.
— A janela do pecado? — Sophie me olhou admirada.
— Não é a janela do pecado, pare com essas insinuações Sophie. — voltei meu olhar para Molly.

Minha filha tinha encontrado uma amiguinha conhecida e já estava brincando com ela.

— Olha só quem está por aqui. — disse Lauren ao se aproximar de nós — E pelo visto estamos no domingo do sorvete.

O olhar dela para nossas mãos, me deu um frio na barriga. Lauren pertencia ao nosso círculo de amigos. Eu não tinha muita intimidade com ela, quanto tinha com Sophie e com a Annia, mas a considerava uma boa amiga. 

— Tem a ver com o boato de que você está namorando? — perguntou ela.
— Boato? Como você sabe? — perguntei.
— Então é verdade? — ela ficou boquiaberta.

Senti um frio na barriga e meu corpo gelou. Eu contava a verdade ou sustentava a mentira?

— Sim, é verdade, ela está namorando. — disse Sophie com convicção — Algum problema nisso? é uma mulher livre, e pelo que sei o traidor foi o Carl.
— Ah não, eu não tenho nada contra, só estou surpresa. — Lauren se defendeu — Imaginei que você não fosse se envolver por agora. E você é tão tímida e reservada.
— Pois é, eu também não. — olhei discretamente para Sophie e voltei o olhar para ela — Como soube disso?
— O Will perguntou para o James se era verdade, e o James me perguntou se eu sabia de algo. — explicou ela.
— Will? Meu Will? — perguntou Sophie.
— É o único que eu conheço. — respondeu Lauren.
— Eu mato ele. — sussurrou minha amiga.
— A culpa não é do Will. — disse a ela — Mas sim do Carl.
— Ah, por falar no Carl, apesar da palhaçada que ele fez, conseguiram terminar de forma amigável? — perguntou Lauren  —Tem um tempo que quero te ligar pra conversar e saber como está, mas tenho me estressado tanto com o trabalho do meu marido.
— Foi tudo bem na medida do possível, graças ao Mike. — respondi.
— James me contou que o Carl ficou a ponto de explodir por isso. — comentou Lauren rindo.
— Essa era a intenção. — admiti rindo com ela.
— E você o que faz aqui no parque a essa hora? — perguntou Sophie.
— James viajou com o partido, eu contei na semana passada que ele vai se candidatar a vereador, influência do avô e do pai dele. — respondeu ela — E me senti meio abandonada, então arrastei a Nina para vir ao parque, assim sairíamos daquela cobertura sufocante.
— Ser mulher de político não é fácil né. — comentou Sophie.
— Pelo menos a minha enteada gosta de mim, já é o começo. — Lauren riu de leve — Pensei que não conseguiria essa façanha.
— E como é ser madrasta? — perguntei curiosa.
— Ai amiga, às vezes é complicado, porque quando a Nina não quer obedecer, ela joga na minha cara que não sou a mãe dela, e faz isso sem dó. — respondeu dando um suspiro fraco — Dá vontade de jogar no colégio interno.
— Não faça isso, quando tiver os seus, vai adquirir mais paciência. — defendi a criança indiretamente.
— James disse que não quer ter filhos agora. — ela olhou para Sophie — Você tem sorte por não querer ter filhos e seu marido também não, ambos de acordo é bem melhor.
— Pois é. — Sophie deu um sorriso que parecia ser forçado, me deixando intrigada.

Sempre que algumas de nós tocava no assunto dela e Will não querer ter filhos, ela sempre se faz de desentendida e mudava rapidamente de assunto.

— Vocês sabem de alguma notícia sobre a nossa reunião anual? — perguntou Lauren — Nós adiamos pelo que aconteceu com o George.
— É, a Annia não tinha estrutura para festa naquela época. — concordei.
— Mas depois ninguém falou mais nada, aí teve seu divórcio. — continuou Lauren.
— Acho que esse ano é a vez da Freya organizar a festa. — observou Sophie — Sortuda, bem agora que ela se casou com o dono daquela concessionária.
— Verdade, sabia que está rolando uma aposta pra ver quanto tempo de casado ela fica? — comentou Lauren.
— E ninguém me chama? — Sophie a olhou indignada.
— Vocês duas me envergonham. — as repreendi — Como podem torcer para um casamento terminar.
— Desculpa amiga, mas nós sabemos bem o currículo dela. — Lauren se defendeu.
— Vocês são duas fofoqueiras malvadas isso sim. — balancei a cabeça negativamente — Vou ligar para Freya depois, ou melhor, nem preciso, ela não sai da minha rua. 
 — Ah sim, a fofoca do vizinho novo chegou lá em Manhattan amiga. — comentou Lauren — É verdade que no dia da mudança dele formou uma comitiva de mulheres na varanda da senhora Philips?
— Você anda bem informada. — a olhei admirada.
— Freya me mandou umas fotos. — explicou. 
— Não me admiro com isso. — confessei.
— Gente, que homem, selo de qualidade Chris Marvel. — disse Lauren.
— Aquilo é o Universo Marvel inteiro miga. — corrigiu Sophie.

Nós rimos.

— É ele. — disse Sophie.
— O que? — Lauren a olhou.
— O namorado da , é o vizinho novo. — revelou Sophie — Eu acho que o Carl não deve saber que ele é seu vizinho né?
— Não sabe. — disse com o coração gelado por causa dela.
— Sério? Você e aquele Marvel? — Lauren ficou ainda mais boquiaberta — Quando a Freya souber.
— Eu poderia até dizer pra não contar a ela, mas… Sei como você é. — a olhei.
— Se você quiser eu mantenho segredo, mas miga, não vejo problemas nisso, se é porque ele é alguns anos mais novo. — Lauren reagiu muito tranquila a esse fato — Tem vários casais por aí super felizes.
— Eu também concordo.  —Sophie sorriu para mim.
— Sua conta está zerada comigo Sophie, fica quieta. — a olhei sério.
— Mas, se está mesmo namorando, devia levar ele na reunião nossa, assim poderemos conhecer ele. — sugeriu Lauren.
— Boa ideia, eu não tinha pensado nisso. 
— Sophie?! — suspirei aflita, ela não tinha noção do que estava fazendo.
— Bem, está escurecendo. — disse Lauren ao olhar no relógio caro em seu pulso — Tenho que voltar para casa, mas vamos confirmar com a Freya sobre a nossa reunião de amigos.
— Vamos sim. — concordou Sophie — Joga lá no nosso grupo, ele anda meio parado.

Lauren nos abraçou se despedindo e pegou Nina para irem embora. Eu fiquei olhando Sophie, séria e a ponto de esganar ela.

— O que foi amiga? — ela me olhou com tranquilidade.
— Eu quero te matar Sophie, você é louca?
— Por que? — seu olhar inocente me dava mais revolta.
— Como pode confirmar que estou namorando e ainda dizer que é com o ? — a chamei a razão — Você não tinha esse direito. É minha vida Sophie.
— Desculpa amiga, eu só fui no embalo. — ela parou para refletir — Te deixei em uma situação ruim né.
— Ah, entendeu. — soou com ironia.
— E agora, o que faremos?
— Ela não vai guardar segredo, conhecemos a Lauren. — desabei no chão sentindo minha mente cansada de tanto problema e confusão na minha vida.
— Você vai contar a verdade?
— Não sei.
— Que verdade mamãe? — perguntou Molly ao se aproximar de nós.
— Nenhuma querida. — a puxei para perto de mim e a abracei — Vamos para casa?
— Vamos, estou cansada. — concordou.
— Percebi, correu muito. — eu me levantei — Te vejo depois Sophie.
— Me liga assim que decidir o que vai fazer? Sabe que terá meu apoio independente de tudo. — assegurou ela.
— Eu sei, agradeço. — segurei na mão de Molly e segui para o portão de saída.

Voltamos para casa de táxi. Quando chegamos sentimos um cheiro gostoso vindo da cozinha. Será que Joseph tinha cozinhado ou pedido algo delivery? Seguimos até lá e tinha duas caixas de pizza em cima da mesa, Joseph perto da pia batendo uma mistura.

— Uau, o que é isso? — perguntei.
— Suco de morango com leite condensado. — respondeu ele — Aprendi na casa do meu amigo.
— Hum… Interessante. — disse ao observar a cor bonita que tinha se formado no copo do liquidificador.
— O vizinho veio aqui enquanto estava fora. — comentou ele.
— O que ele queria? — perguntei.
— Falar com a senhora. — respondeu.

Meu cérebro parou por um momento, me lembrando da loucura dele ter dito ser meu namorado.

— Sobre? — indaguei.
— A cerca. — Joseph voltou seu olhar para mim — Ele também me perguntou se eu tinha gostado do quadro que ele te deu.

Que vizinho linguarudo. Será que ele achou que eu tinha jogado o presente dele fora?

— É estranho uma pessoa dar um quadro como presente de desculpas, não acha? — meu filho continuou me analisando com o olhar.
— Também achei, mas não quis fazer desfeita. — concordei — Ele pareceu envergonhado por ter derrubado a cerca.
— Ela já estava caindo aos pedaços. — Joseph deu de ombros.
— Foi o que falei, mas né, deve ser da criação dele.
— Família estranha. — meu filho riu.
— Mamãe, vou tomar banho antes. — disse Molly.
— Vai querida. — me sentei na cadeira e fiquei observando Joseph.

Comemos a pizza e ficamos um pouco na sala vendo tv, nós três. Eu estava gostando dessa nova realidade com meus filhos. Quando era casada com Carl, eles sempre ficavam em seus quartos e eu sentada na cadeira da cozinha esperando meu ex chegar. Agora todas as noites temos maratona de alguma coisa para ver na Netflix e desta vez seria de Jogos Vorazes, o preferido de Molly. Eu sentia que era muito violento para ela, mas minha filha já tinha lido o livro pego emprestado na biblioteca da escola dela, então entrei na onda de ser voluntária e me encantei pela história. Mas não chegava aos pés de Orgulho e Preconceito, ou Razão e Sensibilidade. Ok, eu sempre fui uma mulher muito romântica por causa desses meus romances vitorianos, mas poxa, eu gostava de O Senhor dos Anéis também. Posso ter me tornado uma dona de casa bem jovem, mas não deixei de acompanhar os lançamentos de livros e filmes, e a mudança no gosto cultural do país.

Pouco mais de uma semana se passou e não acreditava que ainda não tinha tomado providências quanto as fechaduras. 

Na quarta pela manhã, liguei para Finn avisando que me atrasaria. Liguei para o chaveiro, que de forma rápida trocou todas as fechaduras, antes de sair entreguei uma cópia para Joseph e fiquei com a outra. Chegando na cafeteria, a fila já estava grande, a maioria das pessoas queriam comprar a panqueca para levar, já que eu tinha demorado um pouco. Iniciei a minha rotina diária de dois empregos de meio período, mas com salários suficiente para pagar minhas contas. Quase no final da tarde, uma mensagem no grupo de amigos do whatsapp apareceu na tela. Era um banner enviado por Freya com as informações da nossa reunião de amigos. Todos mandaram emojis concordando com a data e o horário. Assim que eu mandei meu emoji, uma mensagem no privado de Sophie chegou.

Miga já se decidiu?
Vai levar o vizinho?

Ainda não.

Você viu a data? Mês que vem.

Sim. 
curiosa pra saber o motivo

Parece que o marido dela está viajando e 
todo mundo tem compromisso até o final do mês

Pelo menos não saiu na data 
do concurso da Molly

é mês que vem também?

Sim.

Bloqueei a tela do celular e voltei minha atenção para a redação que estava escrevendo. Eu não conseguia digitar direto, meus pensamentos sempre fluem mais com uma caneta em minhas mãos, por isso sempre andava com um bloco de notas na bolsa além da agenda. Quando olhei para o relógio do computador e me dei conta que todos já tinham ido, até as meninas da minha equipe, me liguei que era hora de ir para casa. Me levantei da cadeira sentindo a coluna reclamar por ter ficado horas sentada direto, até minha bunda doía. Acho que minha vida estava bastante sedentária. 

Quando cheguei em casa, Molly estava na sala assistindo Barbie Dreamhouse Adventures, na Netflix. Dei um beijo em sua testa ao passar por ela e deixei a bolsa na poltrona do lado do sofá. Cruzei com Joseph saindo da cozinha com um pacote de salgadinho na mão, ele estava se preparando para uma madrugada de jogos, mas levou o meu alerta que tinha prova no dia seguinte. Abri a geladeira e peguei a garrafa de água, despejei um pouco no copo e tomei. Meu olhar foi no automático para a janela, para minha surpresa a cozinha da casa ao lado estava vazia e com as luzes apagadas. Será que ele tinha saído ou estava dormindo? 

Permaneci com minha atenção lá por um tempo. Em um piscar de olhos as luzes se acenderam e ele apareceu bastante despojado sem camisa. Bem, estava em sua casa então, eu é que era a vizinha espiã no momento. Ele abriu a geladeira e tirou uma lata de Coca, abriu e tomou de uma vez. Será que seu organismo estava acostumado com isso? Como ele conseguia ter um corpo tão bem definido tomando refrigerante daquela forma? Ele fechou a geladeira e virou seu olhar para a janela, também no automático. Seu olhar assustado em me ver, agora na posição contrária, durou pouco, dando espaço para o intenso e curioso olhar de sempre.

Uma breve reflexão começou a surgir em minha mente. Eu tinha um problema para resolver. Tinha boatos circulando a uma semana, sobre eu estar namorando o vizinho novo. E todas as vizinhas agora me olhavam feio. Eu tinha duas saídas: a primeira desmentir tudo e contar a verdade, a segunda, continuar sustentando as palavras que ele mesmo proferiu. Engoli seco, juntei minha coragem e saí da minha casa. Passei pelo quintal, atravessei a cerca quebrada e caminhei lentamente até sua porta. Nem mesmo precisei bater, a porta se abriu para mim assim que me coloquei diante dela.

— Boa noite. — disse ele com suavidade, mantendo sua firmeza.
— Boa noite. — sussurrei.
— Algum problema?
— Muitos. — confessei. 

Ele abriu um pouco mais a porta para que eu entrasse. Assim que não intencionalmente nos colocamos de frente um para o outro no centro da sua cozinha, me pronunciei.

— O que você disse ao meu ex marido tem me causado alguns problemas. — disse a ele, observando seu olhar tranquilo, e o sorriso discreto no canto do rosto.
— Percebi que meu fã clube tem ignorado você. — disse ele se mostrado atento ao que acontecia, manteve seu olhar fixo em mim — Sinto muito.
— Pois é, mas eu não.
— O que posso fazer para ajudar? Se quiser, eu digo a todos pessoalmente que menti. — se ofereceu — Que foi um impulso louco meu.
— Este seria o certo a se fazer. — concordei.
— Seria? — ele sorriu de canto, como se lê-se minha mente naquela hora.
— Eu sei que não deveria fazer isso, tenho que dar bom exemplo aos meus filhos e mentir não é legal, mas…
— Mas?
— Se for desconfortável para você eu vou entender, sou uma mulher mais velha, tenho dois filhos e…
— Você quer continuar fingindo que somos namorados. — concluiu ele sem muito esforço.

E eu rodeando com as palavras.

— Sim. — admiti — Mas eu não tenho dinheiro e nem sei o que posso fazer para te compensar por isso.
—Tudo bem, eu aceito.
— O que? — aquilo me paralisou — Você aceita?
— Sim.
— Tem certeza?

Ele deu dois passos para mais perto de mim, o que me intimidou um pouco.

— Você cozinha muito bem não é? — perguntou ele.
— Modéstia a parte sim. Por que?
— Eu não tenho me alimentado muito bem, nesses últimos meses, então tem algo que possa fazer por mim em troca. — ele deu outro passo se aproximando mais.
— E o que seria? — o olhei inocente.
— Quero que cozinhe para mim, todas as noites. — disse ele — Temos um acordo?
— Sim. — eu me afastei dele e estendi a mão — Temos um acordo.

Ele apertou a minha mão e sorriu de forma fofa e meiga. Seu olhar ficou mais suave e brilhava um pouco, o que me intrigou. Eu estava perdida agora, como contaria sobre isso aos meus filhos?

Você me fez arriscar meu coração numa oportunidade única.
Agora, todos estão olhando para nós com pipoca na boca. 
- Lotto / EXO



6. Boatos Confirmados

Queria poder dizer que fechar aquele acordo com resolveria parte da equação, mas claro que não seria assim tão fácil. O boatos do nosso namoro deveriam ser finalmente confirmados, principalmente para minha família, e nem queria imaginar os pensamentos que minha mãe tinha sobre o assunto. A filha mal divorciada namorando um cara mais jovem que ela. Pelo menos eu tinha uma parte boa nos acontecimentos pós divórcio, trabalhava em uma redação de jornal, como ela sempre sonhou.

Quinta pela manhã pouco antes de sair, recebi uma mensagem de Finn, dizendo que um vazamento de gás estranho causou um incêndio inesperado na cafeteria. Era só o que faltava, estava indo tudo tão bem? E bem que eu avisei que tinha um barulho estranho toda vez que mexia naquele fogão dele. Me vesti rapidamente e segui até o local, precisava ver com meus olhos o estrago causado. Finn estava parado na calçada desolado, seu planos de comprar o imóvel ao lado para ampliar a cafeteria ficariam para depois agora. Me aproximei dele e toquei em seu ombro.

— Finn. — disse num tom baixo o despertando dos seus pensamentos.
— Ah, , não precisava ter vindo. — disse ele voltando seu olhar para mim.
— Fiquei preocupada, alguém se machucou? — perguntei.
— Não, felizmente não, mas foi um susto muito grande.
— Vai dar muito prejuízo? — voltei meu olhar para a fita de isolamento em volta da fachada principal e lateral.

A Liberdad Café ficava na esquina da rua, na melhor localização comercial do Brooklyn.

— Vamos ficar muito tempo fechados né, mas você não vai acreditar, um cliente se ofereceu para me ajudar na reforma. — disse ele com o olhar esperançoso — Ele é arquiteto, me deu até o cartão dele. 

Finn retirou o cartão do bolso e me mostrou. Senti as pupilas dos meus olhos dilatarem na hora que li o nome: Lewis. Será que era o ? Meu vizinho?

— Quem é? Eu o conheço? — perguntei me fazendo a inocente.
— Aquele cliente que te agradeceu pelo café. — respondeu com tranquilidade — Que loucura né, ele veio cedo para o café e pegou o incêndio no início, foi ele que ligou para os bombeiros.
— Ah…

Por essa eu não esperava. Mas bem que percebi que não tinha barulhos quando acordei. O que me fez desligar o alarme e virar para o canto, me esquecendo da minha responsabilidade com o café. 

— Que bom que conseguiu alguém para te orientar nessa hora tão caótica. — disse em incentivo — Ele deu alguma previsão assim da reforma?
— Ainda não, vamos nos encontrar amanhã para falar sobre isso, avaliar os estragos e ver se tem algo a ser recuperado. — explicou ele.
— Bem que eu te falei que tinha algo errado. — o lembrei.
— Verdade, mas eu estava tão concentrado na compra do imóvel do lado, que não queria gastar dinheiro. — ele cruzou os braços e olhou para a cafeteria — Como minha mãe sempre diz, a males que vem para o bem, o arquiteto cliente disse que com um bom projeto, posso expandir minha Liberdad sem precisar comprar o imóvel ao lado.
— Bom, ele é o profissional, deve saber o que está dizendo. — disse olhando a loja também — E quanto aos clientes?
— Já postei no instagram e no site da cafeteria sobre o ocorrido e prometi uma grande inauguração depois da reforma. — assegurou ele com empolgação na voz, fazendo gestos grandiosos com as mãos — Já estou imaginando essa fachada sensacional atraindo pessoas de todos os lugares de NY.
— E a grana que estava juntando vai cobrir todos os gastos? — perguntei preocupada com seu devaneio.

Finn era um grande sonhador quando o assunto era sua cafeteria. Um solteirão que trabalhava duro para criar sozinho sua filha Jenie, agora com 16 anos. Quando o conheci por acaso em um supermercado, ele estava parado na sessão de fraldas com cara de perdido, e sua filha chorando no carrinho de bebê. Eu também estava passando pela mesma situação que ele, mas já tinha alguma noção naquela época. Foi assim que nos tornamos amigos. Eu sempre dava algumas dicas de culinária para sua cafeteria e o ajudava com conselhos sobre tentar criar filhos. 

— Provavelmente terei que fazer um empréstimo, torcendo para aprovarem. — disse ele com certa preocupação.
— Ainda tem alguma hipoteca ativa? 
— Do apartamento, ainda não terminei de pagar. — respondeu, sua voz ficou baixa de repente e ele tossiu — Não vou tocar na poupança, é para a faculdade da Jenie, se eu não conseguir pegar o empréstimo, não saberei o que fazer. 

Seu olhar ficou triste. Era difícil sonhar com a realidade batendo à nossa porta. Se colocar na ponta do lápis, a situação financeira de Finn poderia ser pior que a minha. Mas ele continuava acordando todas as manhã e sorrindo, com a esperança do Liberdad se tornar uma Starbucks. 

— Mas, se não rolar, posso pedir pra alguém da minha família. — ele voltou a sorrir como sempre. 
— Saiba que sempre terá meu apoio. — sorri junto.
— Você é uma grande amiga que Deus colocou em meu caminho para que eu não desmoronasse. — ele me olhou com gratidão.
— Assim me deixa envergonhada. — brinquei e o abracei — Se precisar de algo, estarei aqui.
— Pode deixar. 
— Até se quiser que eu tenha uma conversa feminina de novo com a Jenie. — disse segurando o riso — Puberdade é algo sério.
— Nem me fale, perdi o nome daquele remédio para cólica que me deu, mês passado eu quase surtei ao vê-la chorando de dor. — confessou ele — Me envia pelo whatsapp, por favor.
— Claro, envio sim, por que não me ligou Finn? — o olhei com compaixão.

Cólica era a pior parte de ser mulher. Só perdia para meus momentos de histeria quando tinha TPM.

— Na hora nem lembrei, corri na farmácia e comprei a primeira coisa que achei. — respondeu ele.

Eu ri dele. Era mesmo um pai muito atencioso e dedicado. Finn nunca tinha me contado a fundo sobre a mãe de Jenie. Mas já tinha desabafado em seus momentos de solidão, que ela havia engravidado dele no primeiro ano da faculdade e desaparecido, então reaparecido dois anos depois e deixado a filha com ele e nunca mais voltado. É triste pensar que Jenie não via a mãe há quatorze anos. Mais ainda ver que meu amigo mantinha seu amor pela mulher que o deixou, mesmo depois de tudo.

— Vai ficar aqui mais algum tempo? — perguntei ao olhar as horas no relógio.
— Sim, preciso pegar uns documentos com os bombeiros e levar na delegacia. — explicou ele — Tenho que dar esclarecimento que o incêndio não foi criminoso, mas acidental.
— Ahhh.
— Pelo menos nesse tempo, você vai poder se concentrar nos seus textos. — comentou ele e confessou — Estou acompanhando o caderno mulher, pela primeira vez na vida passei a comprar o NT Post. 
— Você comprava o concorrente?
— Pra ser sincero eu tenho preguiça de ler jornal. — ele riu — Mas as colunas que escreve são muito interessante, me lembrei de quando me ensinou a fazer aquele bolo de cenoura com calda de chocolate, saiu a receita dele no jornal da semana passada.
— Sim, é a minha receita mais simples e básica. — concordei.
— É uma das que mais vende no Liberdad, só perde para suas panquecas. — ele me olhou desconfiado — Você vai postar essa receita?
— Minhas panquecas é segredo de família, só o Joseph sabe como se faz. — disse orgulhosa — E você precisa ver ele cozinhando. 
— Imagino, com uma mãe como você. — elogiou ele indiretamente.
— Vou indo então, aproveitar e passar no estúdio de uma amiga antes de ir para a redação. — disse.
— Bom trabalho então, vou te mantendo informada.
— Por favor.

Me despedi dele e segui de táxi até o estúdio de Sophie. Fiquei surpresa ao me deparar com alguns trabalhadores de construção civil entrando e saindo do prédio. Não me lembrava de minha amiga ter comentado sobre alguma reforma no lugar. Retirei o celular do bolso e mandei uma mensagem para Sophie. Não demorou muito para que ela aparecesse descendo as escadarias ao meu encontro. 

— Amiga, acabei de ver no noticiário da cafeteria, está tudo bem? — perguntou ela com olhar preocupado.
— Sim, está tudo bem. — a tranquilizei — Aconteceu antes de eu sair de casa, Finn me ligou avisando, felizmente ninguém saiu ferido.
— Isso é bom, vamos aproveitar então e comer um brunch, eu não tomei café hoje. — pediu ela — Estamos uma correria por causa da reforma.
— E que reforma é essa que estão fazendo? — perguntei a seguindo em direção a cafeteria que tinha perto de lá.
— Nas salas vazias do último andar, era depósitos, mas como o estúdio está ficando mais famoso, mais alunos, mais salas, mais dinheiro. — explicou ela.

Nós sentamos em uma mesa do lado de fora, estava um dia fresco e ensolarado.

— Mas me tira a curiosidade, como vai ficar o Liberdad agora?
— Bom, o Finn tem umas economias guardadas, mas não sei se será suficiente para a reforma. — respondi.
— Justo agora que ele queria ampliar a Liberdad.
— Sim, mas o arquiteto disse que tem como ampliar sem precisar comprar o imóvel do lado.  — expliquei.
— E como ele conseguiu um profissional tão rápido? — ela se impressionou.
— É um cliente do café.
— Tá explicado.
— Isso é o de menos, vai cair pra trás se eu te contar quem é o tal cliente.
— Me surpreende. — seu olhar curioso não tinha limites.
, o vizinho.
— Não.
— Sim, e com direito a cartão de visitas.

Nós fomos atendidas por uma funcionária, que anotou o pedido rapidamente e se retirou.

— Estou chocada com essa novidade. — ela ficou boquiaberta — Pelo menos descobrimos que ele tem uma profissão normal. 
— Sim. — espera, demorou dois segundos para eu assimilar suas palavras — Como assim normal?
— Ué, um homem misterioso e intenso, que reforma a casa sozinho, ou ele é um psicopata ou um assassino de aluguel. — explicou ela.
— Sophie, você realmente precisa parar de ler essas histórias escritas por adolescentes de 13 anos. — a aconselhei.
— Ei, olha o preconceito, não é só adolescente que escreve fanfic. — ela me olhou atravessado — E eu vi um filme que o cara era assim e era assassino de aluguel.
— Vamos mudar de assunto. — voltei meu olhar para os carros passando.
— Não vamos não, Freya me ligou hoje cedo querendo a confirmação dos boatos. — disse ela — Nossa amiga é presidente do clube da varanda amiga, ela estava ignorando totalmente os fatos.
— Talvez porque é a verdade.
— Você não fez o acordo com ele?
— Fiz, mas não significa que…
— Significa sim, vocês estão no início de uma relação.
— Sophie.

Ela se calou esperando a funcionário colocar o nosso pedido na mesa se se retirar, então me olhou de forma instigante.

— Vai por mim amiga, quando você aparecer naquela reunião ao lado dele, não vai ter ninguém que duvide. — garantiu ela.
— Já estou planejando terminar antes, assim é melhor. — eu a olhei — Não acha?
— Por favor , não me dá pra trás.
— Me sinto insegura com relação a isso. — e estava mesmo.
— Eu sei que você não precisa de um macho pra mostrar que está linda e maravilhosa depois do divórcio, e está mesmo. — reforçou ela em suas palavras motivadoras — Mas se você desmentir esse leve e acidental namoro agora ou dizer que terminaram, Carl vai ter mais um motivo para dizer que você fez isso para provocar ciúmes nele. Porque ainda o ama.
— Eu jamais faria isso, nem em sonhos eu quero o Carl de volta, depois de tudo que ele me disse. 

Era só o que faltava mesmo.

— Nós duas sabemos o quão egocêntrico seu ex marido é, o homem tóxico. — ela cruzou os braços — Nunca gostei dele, e você sabe.
— Sim, eu sei. — suspirei forte — Ok, o acordo está feito, vou deixar passar umas semanas, as pessoas esquecerem e converso com o sobre o rompimento amigável.
— Hum.
— E se me perguntarem, eu digo que preciso de tempo, que eu saí de um divórcio e me precipitei ao aventurar em uma nova relação.
— Você não acha que está criando uma explicação detalhada de mais?
— E como deveria ser?
— Eu terminei porque quis. — respondeu — Seu problema é que dá muita explicação para quem não precisa.
— Tudo bem. — aceitei o conselho.

Nós terminamos de comer e Sophie insistiu em pagar a conta.

— Meu problema nem é a reunião, mas enfrentar a minha mãe. — comentei ao levantarmos para ir embora.
— Ela já sabe?
— Nessa altura do campeonato sim, todo mundo já sabe. — disse — Mas até agora não recebi nenhuma ligação dela.
— Sua mãe silenciosa é pior do que gritando. — confessou ela.
— Sim, e por falar nisso, tenho que ligar para a Marg e lembrá-la que sábado é aniversário do papai e teremos jantar em família. — comentei.
— E você vai levar o ?
— Não sei, não sei qual vai ser pior, levá-lo ou não levá-lo. — era uma incógnita.

Me despedi de Sophie e segui para a redação. 
Era a algumas quadras do estúdio, então caminhei até lá, pois fazia tempos que não andava pela cidade. Confesso que minha vida de casada eu ficava mais em casa e raramente saía, depois que divorciei minha rotina corrida me exigia pegar mais táxi, ao invés de transporte público. Mas olhando os prédios a cada passo que dava pelas ruas de Manhattan, me toquei que nas oportunidades, era legal ir de um trabalho para o outro caminhando. Apesar da cafeteria no Brooklyn ser aparentemente longe da redação em Manhattan. Eu poderia começar a usar a Estação Central e gastar menos com transporte. Era uma estratégia a se pensar.

— Bom dia Hill. — disse assim que saí do elevador e a vi passando. 
?! — ela me olhou de forma estranha e conferiu a hora no relógio de pulso dela — O que faz aqui a essa hora?
— Houve um incêndio da cafeteria e estou de férias por tempo indeterminado. — respondi com tranquilidade.
— Mas tá tudo bem lá?
— Sim ninguém saiu ferido. — assegurei.
— Onde teve incêndio? — perguntou Sunny ao se aproximar.
— Na cafeteria que ela trabalha de manhã.
— Sério? Ahhh… Acho que vi, o Doug estava comentando no grupo. — disse ela — Perda total né?
— Mais ou menos. — confirmei.
— Vou aproveitar a deixa para terminar meu artigo sobre primeiro emprego. — disse a ela indo em direção a minha mesa — Estou muito travada com isso.
— Ah, antes que eu me esqueça. — Hill me chamou a atenção — A Genevieve quer uma reunião com a nossa equipe no final da tarde.
— Ela disse o motivo? — perguntei curiosa.
— Não, mas espero que seja algo bom. — respondeu ela.
— Eu espero que seja um aumento. — comentou Sunny — Ouvi dizer que o NT Post estava vendendo o dobro nos dias que sai o caderno da mulher.
— Parece que o matriarcado está chegando por aqui. — brincou Hill.
— Quem disse que as mulheres não gostam de se manter informadas? — completou Sunny.
— Será que mais mulheres estão se interessando pelo Jornal? Por causa do nosso trabalho? — perguntei admirada.
— Se for, Genevieve pode voltar com a proposta do jornal inteiramente voltado para o público feminino.
— Seria demais, e nós as pioneiras da redação. — Sunny se empolgou.
— Ela tem uma proposta assim? — fiquei impressionada.
— Sim, ouvi dizer que ela apresentou e foi negada pela diretoria três vezes. — Hill bufou.
— Queria o que, é cem por cento composta por homens. — Sunny riu de leve — Patriarcado elitista.
— O mundo está bem mudado e querendo ou não, o mercado consumidor é dominado pelas mulheres. — comentei — Vamos fazê-las olhar para o nosso jornal e dominar isso também.
— Falou bonito. — Hill se animou.
— Deixa eu voltar para o meu artigo e contribuir para isso. — me afastei dela com um sorriso animado no rosto.

Sentei na cadeira e liguei o computador. Digitei a senha e abri o arquivo salvo, já nem mesmo me lembrava o que tinha escrito no dia anterior. Li as cinco páginas e meia escritas, meu planejamento de escrever um artigo que seria publicado em três partes tinha que dar certo. E só tinha um jeito para me concentrar, uma playlist estimulante de boyband dos anos 90 no spotify. Sim, eu amava trabalhar com música e tinha playlist para tudo, até lavar o banheiro, que era o que mais detestava. De fone no ouvida e cheia de motivação, voltei as minhas pesquisas e continuei a digitar meu artigo.

No final da tarde, antes de sair da redação, liguei para Margareth. Ela tinha me mandado uma mensagem pedindo que eu ligasse para ela quando tivesse livre. Já esperava por essa menssagem.

— Margareth? — disse.
, que bom que ligou. — disse ela ao atender, a voz estava normal.
— Aconteceu alguma coisa?
— Alguma coisa tem que acontecer para sua irmã te mandar uma mensagem?
— Não sei, me diz você. — eu ri.

Margareth morava em Upper East Side, o bairro da elite. Era de se esperar pelo seu cargo na transportadora e pelo marido que tinha. Sua vida era corrida também e era raro quando me ligava. Eu parecia ser mais irmã de Sophie do que dela, chato ter que admitir, mas não tinha tanta intimidade com minha irmã mais velha. Talvez pelos acontecimentos em minha vida, ela estava na metade do seu curso da faculdade quando eu engravidei. Nossos momentos de irmãs na infância foram esquecidos quando conheci Sophie no primeiro dia do ensino médio e viramos amigas.

— Tem planos para hoje à noite? — perguntou.
— Mais ou menos. — sibilei um pouco  —Por que?

Não podia abrir o jogo e dizer: “Ah tenho sim, vou cozinhar para meu vizinho.”

— Queria tomar um drink com minha irmã naquele bar que fomos com a Sophie da última vez. — respondeu ela.

Sophie era a líder de torcida popular que fazia amizade com todo mundo. Nem acreditava que ela tinha feito amizade com a nerd da sala, com tanta simplicidade. Bem, claro que inicialmente ela queria sentar do meu lado porque eu conseguia resolver os cálculos de matemática. E era de se esperar que depois de conhecer minha família, ela se desse bem com a Mag também.

— Acho que posso ir, mas não posso demorar. — aceitei o convite disfarçado.
— Ah, eu me contento em ter sua atenção por alguns minutos. — brincou ela — Sei que minha irmã caçula anda bem ocupada.

Senti uma ironia misturada a “eu sei o que anda fazendo”, em sua voz.

— Te encontro lá em quinze minutos. — disse desligando a tela do computador.
— Ok. — concordou.

Estranha a ligação e mais estranha o convite. Joguei o celular dentro da bolsa e me levantei para ir embora. Me despedi das meninas e sai da redação. Fui de metrô até a estação próxima ao Coyote Ugly, nosso bar favorito, pelo menos o de Sophie e Margareth. Quando cheguei, ela já me esperava no lado de dentro sentada em uma banqueta.

— Marg. — disse ao me aproximar a abraçá-la — Boa noite.
— Boa noite mana. — ela retribuiu o abraço — A quanto tempo não te vejo? E moramos na mesma cidade. 

Visivelmente ela já tinha tomado algumas doses de alguma coisa.

— Está tudo bem? — analisei sua face — Seu olhar está caído.
— Problemas no trabalho, que está sendo difícil não levar para casa. — explicou ela — Se eu soubesse que seria tão complicado trabalhar com o marido, não teria aceitado aquele encontro com o Mark quando ele me chamou para sair.
— O que aconteceu?! — perguntei preocupada com seu estado.
— Ah, ele que sempre critica meu trabalho, acha que pode me ensinar o que estudei na faculdade, eu fui a melhor de economia em Princeton, a melhor. — ela pegou o copo com mais uma dose e jogou na boca — E quando chegamos em casa age como se nada tivesse acontecido querendo fazer sexo comigo. 

Ele estava mesmo brava com ele. Meio sem noção da minha parte, mas respirei aliviada por isso, afinal, mostrava que minha ida ali não era por causa do meu namoro falso. Isso me fez me sentir culpada, mas ainda assim aliviada.

— Vida de casal é assim, pelo menos o seu marido ainda quer fazer sexo com você. — deixei meu pensamento escapar, com um tom de frustração — Poderia ser pior.
— Ai , me desculpa, não devia te encher com isso. — disse ela — Te fiz lembrar do babaca egocêntrico.
— Fica tranquila Marg, está tudo bem agora. — sorri de leve — A quanto tempo está aqui?
— Umas duas horas. — respondeu se debruçando no balcão.
— Você está bebendo há duas horas? — perguntei chocada.
— Não. — ela ergueu a cabeça e me olhou — Eu fiquei tomando refrigerante, mas comecei a pensar na reunião de hoje e parti pro álcool.
— Sei que é complicado não misturar casa e trabalho, deve estar sendo difícil pra você. — acariciei seus cabelos — Mas força mana, vocês tem um filho de cinco anos, precisam encontrar uma solução para isso.
— A solução é eu pedir demissão e trabalhar na concorrente. — disse ela convicta.
— Causar mais brigas? Ou pretende virar espiã industrial? — lancei meu olhar sério para ela.
— A ideia é boa.
— Margareth?!
— Ai , eu só sei que estou cansada disso tudo. — ela suspirou — E não consigo achar uma saída.

Como eu disse no início, uma vida perfeita não é assim tão perfeita. Margareth estava me mostrando isso com seu dilema profissional x pessoal.

— O pai do Mark te considera muito. — falei para sua reflexão.
— Se o filho dele me deixasse trabalhar em paz, ajudaria. — ela olhou para a bolsa e abriu, olhou a tela do celular que tocava e virou para mim.

Era uma chamada do Mark.

— E além disso, vive querendo saber onde estou. — reclamou jogando o celular na bolsa novamente  — Não vou atender.
— Se você não atender ele vai ligar para a mamãe, e depois para mim. — retruquei.
— Não ligo, ela não sabe onde estou, e você nada de atender ele. — ela me olhou com ar de ameaça — Ele merece ficar surtado por um tempo pra ver o que está me fazendo.
— Você que sabe.

O casamento é seu. Pensei comigo.

— Já que estou aqui, tenho que te lembrar no jantar de família no sábado, é aniversário de casamento deles. — avisei a ela.
— Ah, tem isso também. — ela levou a mão na testa como se tivesse esquecido — Justo agora.
— Não se faz 37 anos de casado todos os dias. — argumentei.
— Temos que ir, se não seremos deserdadas. — disse ela.
— Concordo plenamente.
— Vai levar seu namorado? — perguntou com a voz já estranha.

Tava demorando para esse assunto surgir.

— Não sei. — mordi o lábio inferior.

Estava mesmo ainda na dúvida.

— Nossa mãe já te ligou perguntando sobre isso? — ela me olhou.
— Não.
— Ai. — Marg fez uma careta de “você está ferrada”.
— É.
— Acho melhor não levá-lo, não agora. — aconselhou ela.
— Vou levar sua opinião em consideração. — sorri de leve.
— Ele é bonito?
— Quem?
— Como assim quem? Seu namorado é claro. — soou com rispidez desta vez.
— Calma, sim, ele é.
— Mais que o Carl?
— Segundo a Sophie, ele é o Universo Marvel inteiro.
— Uau, pra ela desconsiderar o selo de qualidade Chris Marvel. — Marg começou a me aplaudir — Mana, eu ainda não vi mas tá de parabéns. 
— Para com isso. — eu abaixei as mãos dela — Que vergonha.
— É verdade que ele é mais novo que você?
— Quem disse isso? — agora estava estreito os boatos.
— Freya. — respondeu — Eu estava no shopping na terça e trombei com ela, ela me contou que rolou esse boato do namoro a partir do Carl e você conformou pra Lauren no domingo. — seu olhar ficou confuso — Domingo do sorvete com a Sophie? Foi por causa disso?
— Ela falou que foi domingo do sorvete? — me segurei para não entrar em pânico.
— A Lauren disse a ela.
— E ela saiu falando pra todo mundo?

Marg assentiu com a cabeça. Meu corpo gelou.

— E você contou a mamãe?! — perguntei.
— Ela me ligou perguntando se é verdade. — respondeu indo pedir mais uma dose, porém eu a interrompi.
— Não vai beber mais nada hoje. — disse.
— Hum… — ela suspirou — Eu não sabia se era mesmo verdade, só o que Freya me contou, então eu confirmei.
— Sabe quem contou a ela?
— Sua vizinha, a senhora Philips. — ela riu — Velha fofoqueira.
— Concordo, pelo menos não sou do clube da varanda, se não estava mais ferrada ainda.
— Ah sim, ela contou do clube da varanda, seu namorado é famoso ein. — brincou.
— Não tem graça. — eu abri minha bolsa e peguei o celular para ver as horas e guardei novamente — Eu te amo Marg, mas agora preciso ir.
— Vai encontrar o namorado?! — ela deu um sorriso malicioso — Como ele é na cama?
— Ai Margareth eu não vou te falar essas coisas. 

Porque elas nem existem. Pensei. E mesmo que existissem, não falaria sobre isso nem com a pervertida da Sophie.

— Agora vamos, vou te colocar em um táxi rumo a sua casa. — disse a segurando pelo braço — Fox, pendura na conta que ela paga amanhã.
— Anotado Miller. — disse o nosso Barman favorito.
— Eu vim de carro. — disse ela.
— Acha mesmo que vou bancar a doida de te deixar dirigir?
— Se você tivesse carteira, poderia me levar. — reclamou ela.
— Amanhã você volta para pagar e leva seu carro. — resolvi o problema.

Ela fechou a cara inconformada, mas assentiu. Assim que a coloquei dentro do táxi e instrui a motorista a levá-la em segurança, peguei outro táxi e fui para casa. Quando cheguei, Joseph estava na sala vendo televisão e Molly ao seu lado desmaiada. Passei por ele só passando a mão na sua cabeça de leve e segui para a cozinha. Tinha um pacote de sanduíche em cima da mesa me esperando. O serviço delivery estava lucrando comigo. Voltei meu olhar para a janela e vi a cozinha do vizinho, quer dizer, , apagada. No meu primeiro dia de acordo eu falho. 

Não, não faria isso. 

Deixei minha bolsa em cima da mesa e saí para o quintal. Passei pela abertura na cerca e fui até a porta. Antes de bater percebi que a mesma estava somente encostada, girei a maçaneta e abri, veio um frio na barriga. Dei um passo para dentro e liguei a luz, eu não tinha observado sua reforma na noite anterior e certamente ele tinha feito mais alguma coisa hoje. Mas sua cozinha estava linda e muito convidativa para cozinhar, em estilo industrial e muito bem decorada, me fez ficar curiosa para ver o restante da casa. Observei que ao lado da janela tinha uma parede toda preta com escritas em lettering, parecia a parede dos recados e tinha um para mim.

— Obrigado pelo jantar. — sussurrei ao ler, fiquei envergonhada na hora — Além de bonito é irônico, eu nem fiz o jantar.

Suspirei fraco.

— E agora o que faço? — me segurei para não surtar.

Meu coração se apertou, eu não podia deixar assim. Abri sua geladeira para ver se tinha algo que pudesse preparar bem rápido. Me deparei com a mesma totalmente abastecida.

— Alguém visitou o supermercado. — brinquei.

Analisei o que poderia fazer e coloquei a mão na massa. Fiquei intrigada por ele não ter aparecido durante todo o tempo que eu estava fazendo barulho em sua cozinha. Será que tinha saído para comer fora? Ou tinha um sono tão pesado que não acordou? Ao final, peguei um giz que estava no saquinho dependurado em um prego e conhecei a escrever embaixo do seu recado.

“Me desculpe pelo jantar… 
Mas garanti seu café da manhã, basta levar ao forno.”

Deixei as instruções de forno e tempo. Torcia para que minha torta de maçã tradicional pudesse amolecer seu coração. Antes de voltar para casa, limpei tudo e deixei sua cozinha exatamente como estava, sem rastros da minha passagem. Chegando em casa, peguei minha bolsa, o pacote e uma caixinha de suco e fui direto para o quarto. Joseph já tinha levado Molly para cama e já estava dormindo também. Fiz meu lanche, tomei uma ducha rápida e caí na cama. o dia tinha sido puxado e cheio de emoções.

Com os dias passando depressa, logo a temida noite de sábado chegou. Deixei meus filhos se arrumando por um tempo e corri na casa do vizinho. . Tinha que me acostumar a chamá-lo pelo nome. Assim que entrei na sua cozinha, ele estava vindo da sala também, desta vez estava em casa.

— Boa noite. — o cumprimentei.
— Boa noite. — ele sorriu de canto. 
— Eu vou ter que furar com você hoje. — o olhei apreensiva.
— Por que?
— Tenho um jantar na casa dos meus pais e…
— Quer que eu vá?!
— NÃO! — minha voz saiu alterada — Não... É que ainda não falei sobre você com meus filhos, ficaria estranho ser assim tão de repente.
— Tudo bem. — ele parecia tranquilo com isso.

Claro, era só uma farsa.

— Prometo te compensar com um café da manhã. — garanti.
— Gosto da sua panqueca. — disse ele.
— Panquecas para o café com muita geléia. — assegurei.
— Bom jantar para você.
— Obrigada.

Sorri de leve e saí rapidamente.
Assim que entrei em casa, ouvi as vozes dos meus filhos na sala. Segui para lá e me deparei com Joseph fazendo cócegas em Molly em cima do sofá.

— Mamãe, me salve. — disse ela entre risos, toda vermelha e quase sem fôlego.
— Joseph, cuidado para não matar sua irmã. — chamei sua atenção de leve e o mesmo parou.
— Era essa a intenção, matá-la de tanto rir. — ele sorriu com maldade e piscou para mim.
— Seu malvado. — Molly o empurrou de leve e arrumou seu cabelo bagunçado.
— Vocês estão prontos? — perguntei.
— O táxi já chegou. — disse Joseph ao olhar pela janela.
— Você chamou? — eu o olhei admirada.
— Sim. — disse ele colocando seu psp portátil no bolso da calça.
— Você sabe que sua avó odeia seus games. — disse ao me aproximar dele — Seja discreto.
— Vou ser. — ele sorriu novamente.

Por mais que eu tivesse preocupações com a vida de Joseph e seu amor por games, eu confiava em meu filho. Contando que não atrapalhasse seus estudos e não lhe causasse nenhuma doença, física o mental, ele tinha minha aprovação e apoio. Ao chegarmos na casa dos meus pais, fomos recebidos por Margareth na porta. Ela já tinha chegado com sua família e estava ajudando nossa mãe na cozinha. Pai conversava com Mark na sala, e assim que me viu veio ao meu encontro me abraçar.

— Ah filha. — um abraço acolhedor e carinhoso que só ele sabia me dar — Que saudade.
— Nos vimos a pouco tempo pai. — disse retribuindo o abraço — Mas também fiquei com saudades.
— E vocês?! — ele voltou seu olhar de ternura para meus filhos e deu um abraço em Joseph e depois em Molly — Vocês eu vejo mais do que sua mãe.
— Já temos um quarto aqui vovô. — brincou Molly — Jacob.

Ela correu em direção ao primo que brincava sentado no tapete da escada. 

— Boa noite Mark. — cumprimentei meu cunhado.
— Boa noite . — ele me olhou de relance e voltou sua atenção para o celular em sua mão.

Eu não tinha muita afinidade com ele. Talvez pelo seu olhar meio superior para mim. Seus assuntos sobre a empresa e quanto sua família era próspera nos negócios sempre me davam sono

— Mamãe está terminando o jantar? — perguntei a Marg.
— Sim, venha, me ajude a colocar os pratos na mesa.

Assenti um pouco insegura. Agora eu estava no território da minha mãe e não sabia quando ela jogaria tudo que estava guardando na minha cara. Chegando na cozinha, ela me viu e permaneceu em silêncio. Já estava acostumada com a forma que me tratava, então não levava em consideração. Ajudei Margareth a colocar os pratos e copos na mesa, e quando nossa mãe terminou, acomodamos as panelas em cima da mesa de jantar.

— O jantar está servido. — disse aos demais que estavam na sala.

Nos sentamos a mesa. Meu pai na cabeceira e minha mãe na outra, de um lado Marg e sua família, do outro eu e minha família. Fiz questão de me sentar ao lado do meu pai e bem longe dos olhares de repreensão da minha mãe. Começamos a nos servir e depois da oração de agradecimento a Deus pela comida, saboreamos do assado com batatas e salada de vinagrete que ela tinha preparado.

— Está tudo bem mãe? — perguntei quebrando o silêncio.
— E porque não estaria? — ela me olhou.
— Não falou comigo desde a hora que eu cheguei. — retruquei.
— Não acho que tenha necessidade de falar com você, se eu quiser saber algo da sua vida, tenho vizinhos que me contam. — a rispidez em sua voz era nítida.

Já vai começar. Pensei comigo mesmo.

— Mãe, não diga assim, tem seus motivos para não ter falado antes. — Marg tentou me defender.
— Agnes, não é o momento e nem o lugar certo para falarmos nesse assunto. — disse meu pai — As crianças estão à mesa.
— Por isso mesmo, a família está toda reunida, é o melhor momento para falar sobre o namoro repentino da sua filha. Porque todos souberam antes de nós, os pais dela.
— Mãe, por favor. — pedi.

Meus filhos não eram obrigados a participar daquilo.

— Eu ia contar a todos vocês. — ponderei a minha voz.
— E quando você ia nos contar? Quando se casasse de novo? Ou quando engravidasse dele, como da última vez?
— Para mãe. — eu me levantei bruscamente da cadeira — Eu não vou ficar aqui te ouvindo insinuar coisas na frente dos meus filhos.
 — Ah, e você teve a coragem de contar para seus filhos primeiro pelo menos? Ou eles ficaram sabendo através dos colegas na escola? — continuou ela.
— A nossa mãe já nos contou, fomos os primeiros a sabe vovó. — disse Joseph num tom sério e firme, e olhou para Molly.

Eu contei? Quando? Pensei comigo.

— Sim, mamãe nos contou e pediu nossa opinião. — confirmou minha joaninha — E nós apoiamos ela.

Meu coração se aqueceu. Meus filhos me defendendo. Envolvidos em uma mentira, que mãe horrível eu sou.

— Vamos acalmar os ânimos. — disse meu pai em seu tom pacífico de ser, tocando em minha mão para que eu me sentasse novamente — É uma noite especial, estamos completando 37 anos de casamento, nossa família é linda e nossas filhas estão aqui felizes com suas famílias.
— Bem, acho que está faltando alguém do lado da . — a ironia na voz da minha mãe era o que mais me matava.
— Agnes, vamos comer em paz. — meu pai subiu um pouco seu tom de voz.

Ele era mesmo um homem pacífico e só o tinha visto nervoso uma vez, para nunca mais. Como dizia meu avô: “os calmos são os piores quando chegam ao extremo da raiva.” Me mantive em silêncio o resto do jantar, ouvindo Margareth e Mark contando as novidades da nova filial da empresa em Chicago. O que me confortava eram os olhares de compreensão e carinho do meu pai para mim. Mas minha preocupação não era com minha mãe e o que pensava sobre minhas escolhas na vida. Eu estava preocupada com meus filhos, que continuaram se comportando com naturalidade até voltarmos para casa.

— Eu acho que precisamos conversar antes de irem para seus quartos. — disse a eles assim que chegamos em casa.
— Tem certeza que quer falar sobre isso hoje? — perguntou Joseph, ele já sabia do que se tratava.
— Sim, é algo sério, e vocês são minha família, devo uma explicação a vocês. — reforcei.

Eles se sentaram no sofá e eu na mesa de centro, ficando de frente para eles. Não sabia como começar nem exatamente o que falar, mas deveria dizer algo.

— O que a vovó disse hoje no jantar… — iniciei, procurando as palavras mais suaves.
— É com o novo vizinho? — perguntou Molly.
— Como? — a olhei assustada por sua desenvoltura.
— Está namorando com o vizinho da reforma ao lado? — disse ela novamente — Ele parece ser legal.
— Sim, é o . — voltei meu olhar para Joseph que me analisava em silêncio — Eu planejava contar para vocês antes de irmos para casa da vovó, mas… Me desculpe por fazê-los mentir.
— Tudo bem mamãe. — Molly se levantou e me abraçou — Você tem nosso apoio.
— Obrigada joaninha. — sorri para ela e beijei sua bochecha.
— Boa noite. 
— Boa noite.
— Boa noite Joe bobão. — ela riu do irmão e correu para a escada.
— Feche bem a porta do quarto, você pode acordar com as minhas cócegas. — alertou ele rindo dela.

Assim que Molly desapareceu no nosso campo de visão, olhei sério para ele.

— Não sei o que está pensando, mas sei que é sério. — disse diretamente — Está bravo comigo?
— Não. — disse ele, mantendo a suavidade em sua face.
— Você já sabia? — perguntei.
— Quando o papai me ligou pelas pastas, ele falou sobre isso também. — confessou — Não é real.
— O que?
— Seu namoro com o vizinho, não é real. — o olhar fixo do meu filho para mim, era o sinal de que ele queria a verdade.
— Não, não é real. — admiti para ele — Mas você tem que guardar segredo, só a Sophie que sabe sobre isso.
— Mãe… — seu olhar ficou preocupado — Não está fazendo isso para fazer ciúmes no papai, não é? 
— Claro que não. — suavizei meu olhar para ele — Joseph, eu jamais faria isso.
— Então, por que?
— O dia que seu pai esteve aqui, nós brigamos e aconteceu um mal entendido entre ele e , que tinha vindo aqui para me dar o quadro de pedido de desculpas, então seu pai saiu espalhando para todos sobre eu estar namorando. — contei não tão fiel a história, mas sem mentir ou omitir a verdade — Eu poderia ter negado tudo, mas…
— Meu pai poderia levar vantagem sobre isso. — concluiu ele.

Meu filho era tão maduro e compreensivo. Nem parecia que só tinha 16 anos e pensamentos sobre como vencer a próxima partida de LoL. 

— Mas não se preocupe, não vai durar por muito tempo, estamos esperando todo esse boato passar. — assegurei.
— Não me importo que namore outra pessoa, só não quero que se machuque mãe. — ele me olhou com ternura.
— Filho! — eu o abracei apertado — É o melhor filho do mundo. Não se preocupe, sua mãe não vai se machucar.

Ele se levantou.

— Você fez algum acordo com ele? — perguntou curioso.
— Por que a pergunta? — me assustei com a pergunta.
— Você fez. — afirmou ele, sorrindo de canto — Isso explica estar cozinhando para ele toda noite.
— Como sabe sobre isso? — perguntei.
— Tem duas janelas no meu quarto. — brincou ele — Eu vi.

Era louco e ao mesmo tempo incrível, mas tinha que admitir que meu filho era muito esperto.

Eu vou me levantar para enfrentar
Todas as grandezas, fatalmente
Quando estou com você
Eu fico mais forte.
- Divine / Girls’ Generation



7. Kiss

Era estranho acordar cedo na segunda-feira e não ter o Liberdad para ir. Já estava mais do que acostumada com a rotina de dois empregos e muita diversão ao longo do dia, apesar da correria. Viver aquela nova realidade de vida pós divórcio estava a cada dia se tornando mais empolgante. Principalmente quando a noite chegava e eu tinha vários assuntos para compartilhar com meus filhos em meio nossas maratonas de filmes da Netflix ou Amazon. 

Naquela manhã, acordei com o doce som da reforma ao lado. O barulho dos instrumentos que usava, não me incomodava mais, pelo contrário, me ajudavam a acordar pontualmente às seis da manhã. E isso me lembrou que eu tinha um café da manhã pendente. Troquei de roupa correndo e desci as escadas quase tropeçando, quando entrei na cozinha, meu corpo gelou ao deparar com sentado na mesa tomando café da manhã com meus filhos.

Oi? Pensei comigo. O que aconteceu aqui?

— Bom dia mamãe. — disse Molly ao me ver paralisada da porta.
— Bom dia querida. — sussurrei não acreditando na cena.
— Vamos joaninha, não podemos atrasar, tenho prova hoje. — disse Joseph ao se levantar da cadeira.
— Até mais vizinho. — disse Molly segurando o riso.
— Boa aula joaninha.
— Bom dia mãe. — disse Joseph ao se aproximar de mim e me dar um beijo na bochecha — Ele já sabe que eu sei.

Assenti com o olhar e dei um abraço em Molly antes dela seguir o irmão.

— Bom dia. — disse a que continuou comendo tranquilamente.
— Bom dia. — ele deu mais uma garfada — Ainda me deve panquecas.
— Você está comendo. — disse ao me aproximar da mesa — E com muita geléia.
— Foi o seu filho que fez, não você. — retrucou ele sorrindo de canto.
— Posso compensar depois? — perguntei.
— Não vou estar em casa amanhã, considere o jantar cancelado. — disse ele tranquilamente — Nem hoje há noite.

Eu tive uma leve vontade de perguntar onde ele iria, mas não era da minha conta.

— Você está aqui e tem barulhos do outro lado da cerca, seu primo ainda está aqui? — perguntei me sentando na cadeira em sua frente.
— Sim, mas fique tranquila, ele já tomou café.
— Não é por isso. — eu ri — Como veio parar sentado na minha cozinha?
— Seu filho me convidou para o café. — respondeu parando e me olhando.
— Joseph te convidou?!
— Sim, ele disse que sabia de tudo e me convidou para o café. — contou com um sorriso espontâneo — Ele queria fazer algumas perguntas sobre aquela noite.
— E o que você disse?
— Contei minha versão e assumi a culpa, afinal foi minha mesmo. — ele manteve seu olhar fixo em mim — Fiz errado?
— Não, não fez, eu não gosto de mentir para meus filhos. — assegurei.
— Joseph é um bom filho, gostei dele. — ele deu um sorriso disfarçado — Obrigado pelo café, mas tenho uma obra para terminar.
— Você conseguiu chegar na metade? — perguntei — A casa é grande.
— Mais ou menos. — ele se levantou da cadeira — Mas acho que consigo terminar a tempo.
— Tempo de que? — fiquei curiosa.
— De você terminar comigo. — seu olhar ficou um pouco caído — Bom dia.

Ele se afastou da mesa e saiu para o quintal. Permaneci por um tempo pensativa em suas palavras finais. Será que ele só ficaria na casa ao lado até o final da obra? Terminei de tomar o café da manhã e arrumei a cozinha, a cada vez que eu passava na frente da janela, não me continha em olhar para fora. Foram raros os momentos que vi ele dando instruções ao seu primo. Eu tinha que chegar antes do almoço na redação, então deixei a comida congelada no congelador e um recado para Joseph na geladeira. Corri para o quarto e me aprontei para o trabalho, peguei minha bolsa jogando tudo que precisava dentro e saí em direção a mais um dia de luta.

— Bom dia meninas. — disse ao chegar na minha mesa na redação e ir sentando.
— Olha só quem chegou pontualmente. — comentou Lizzy.
— Genevieve disse que nos queria aqui antes do almoço. — retruquei — Onde está a Beth, não a vi no caminho para cá.
— Ela ligou falando que foi hospitalizada. — respondeu Sunny.
— O que aconteceu com ela? — olhei preocupada.

Beth não era de se machucar, e mesmo gripada ia para o trabalho.

— Ela disse que era alguma coisa envolvendo a apêndice dela. — explicou Sunny — A Hill foi até lá ver como ela está e pegar seu atestado para entregar no Rh.
— Espero que ela se recupere rápido. — disse voltando minha atenção para o computador e o ligando — Genevieve já chegou?
— Ainda não.
— Não sei porque ela pede pra gente chegar cedo, se ela mesma não chega. — reclamou Lizzy se debruçando na sua mesa — Que dor, que ressaca.
— Eu disse que não era uma boa você ir naquela festa dos calouros. — Sunny riu.
— O que aconteceu com ela? — perguntei segurando o riso.

A situação de Lizzy me fazia querer rir, mas com respeito.

— A última festa dos calouros que fui, foi a minha há dois anos atrás, eu sempre estou aqui nessa redação me matando para ter dinheiro. — reclamou novamente Lizzy.
— Deveria gastar com sabedoria. — Sunny riu sem dó da amiga.
— Sei o que é ter o orçamento apertado, tenho dois filhos e não é fácil. — assegurei a ela.
— Você deveria ser estudada pela nasa então. — Lizzi me olhou.
— Eu tenho dois empregos, ou melhor, tinha. — argumentei.
— E como está a cafeteria? Alguma novidade? — perguntou Sunny.
— Bom, pelo que meu amigo disse, ele está tentando encontrar recursos financeiros para começar a obra, já que o projeto já está pronto. — respondi.

O que me levava a pensar. Em que hora do dia trabalhava? Já que ele sempre estava envolvido com a reforma da casa. Olhei para o lado e vi Genevieve saindo do elevador acompanhada de Hill. Ela se aproximou de nós e nos convidou para ir a sua sala. Parecia importante.

— Para as mais antigas na redação, vocês sabem que aqui temos que lutar contra o sistema patriarcal que acha que mulher não lê um jornal. — disse ela ao se sentar na sua cadeira de executiva — Mais uma vez meu projeto foi negado, porém vamos continuar mostrando para eles que os números só aumentam no dias em que nosso caderno vai às bancas.
— Babacas. — sussurrou Lizzy.
— Tem mais algo que possamos fazer? — perguntou Hill, seu olhar decepcionado igualava o da nossa chefe.
— Não Hill, só continuar trabalhando como sempre. — ela respirou fundo — Vocês poderiam me deixa a sós com a ?
— Sim. — concordaram elas.
— Ah, Hill, como está a Beth? — perguntou Genevieve antes delas saírem.
— Ocorreu tudo bem, e ela vai se recuperar rápido, deve ganhar alta em poucos dias, já levei os papéis do hospital no Rh. — respondeu ela prontamente.
— Agradeço, podem ir.

Assim que as garotas saíram. De frustração, o olhar de Genevieve se transformou em preocupação.

— Sente-se , o assunto é sério. — disse ela estendendo a mão para a cadeira em sua frente.
— Ok. — assenti me sentando — Qual o problema?
— Desde que entrei para a redação, algumas pessoas da diretoria não foram comigo, por causa do meu temperamento ou da minha personalidade, talvez. — começou ela num tom baixo, com um toque de recordação na voz — Quando finalmente me tornei editora chefe, as coisas pareceram ficar mais fáceis para mim, até que lançamos uma pequena coluna na última página falando sobre assunto femininos, era somente aos domingos… Aos poucos foi se tornando o caderno mulher do qual nos orgulhamos muito, mas nem tudo dura para sempre.
— Do que está falando? — perguntei apreensiva por suas palavras.
— Tenho protelado essa conversa com você e as meninas, mas a diretoria decidiu me afastar do jornal por um tempo. — ela foi direta — Segundo eles, uma mente mais jovem e cheia de energia é o que nosso jornal precisa.
— E como vai ficar? Você? A gente? — eu não sabia o que pensar, era tudo o que faltava acontecer comigo, ficar sem o meu segundo emprego.
— Vocês vão continuar sem problema algum, o caderno mulher é um sucesso e eles não podem negar os números das vendas. — assegurou ela — Por isso estamos tendo essa conversa, quero te pedir um favor.
— Sim, claro, se estiver ao meu alcance. — a olhei.
— Por favor, faça de tudo para manter a qualidade do trabalho de vocês, comigo longe, tenho certeza que eles farão de tudo para sabotar nossa equipe. — não era somente um favor, mas conseguia sentir a preocupação dela quanto ao seu projeto de anos.
— Farei sim, tudo o que puder para isso. — disse com firmeza e segurança — Mas e você?
— Vou apresentar minha carta de demissão, não vou conseguir continuar aqui sem poder fazer nada. — ela suspirou fraco — É difícil imaginar que depois de anos me dedicando a este jornal, termine assim, mas tudo bem já estou acostumada, tudo tem seu início e seu fim. Sairei em grande estilo, com o NT Post sendo um sucesso.
— Desejo sucesso para você no futuro. — disse a ela dando um sorriso singelo.
— Pois eu que desejo a você, sua redações e textos são maravilhosos e tenho certeza que já está chamando muita atenção por aí. — ela piscou de leve e sorriu também.

Assim que saí da sua sala, os olhares curiosos das minhas colegas de trabalho vieram em minha direção. Com a permissão de Genevieve, contei a elas o que estava acontecendo e o que poderia vir a seguir. Não seria fácil para nós com a saída da nossa chefe, e certamente a diretoria iria fazer de tudo para nos aniquilar ali. Porém, tínhamos uma a outra para nos apoiar e seguir em frente fazendo um bom trabalho. Depois de duas horas olhando a tela do computador, comecei a sentir uma dor de cabeça horrível, tomei um comprimido, mas não resolveu muito. Me despedi das meninas e fui para casa, sabia que não conseguiria trabalhar lá daquela forma.

Voltei de táxi, por não me senti segura ao andar de ônibus ou metrô. Assim que paguei o taxista e desci do carro, dei dois passos até a escada de três degraus da minha varanda. Senti um mal estar repentino que fez meu corpo bambear, logo fui amparada por alguém que me segurou firme, me apoiando a ele.

— Você está bem? — a voz de estava baixa, mas preocupada.
— Estou. — levantei meu olhar para ele.

Só então notei que seu rosto estava bem próximo ao meu. Conseguia sentir sua respiração. Voltei rapidamente meu olhar para a rua abaixando minha face, vi as vizinhas do clube da varanda nos observando. Claro que toda a rua sabia sobre nós, Freya não tinha economizado na língua para confirmar os boatos. 

— Acho melhor eu entrar. — sussurrei ficando incomodada com aqueles olhares atravessados para mim.
— Eu te ajudo. — disse me mantendo apoiada nele.

Assenti sem recusa, pois estava mesmo me sentindo estranha. 

— Mãe? — disse Joseph ao terminar de descer as escadas e me ver entrando — O que aconteceu?
— Ela não está bem. — disse me conduzindo até o sofá.
— Um mal estar querido. — disse com a voz mais baixa. 
— Obrigado. — disse Joseph para nosso vizinho.
— Se precisarem, minha casa é ao lado. — sorriu gentilmente e se voltou para porta.
— Obrigada. — disse a ele, antes de sair.

Seu olhar intenso veio em minha direção, seguido de um sorriso disfarçado. Mas notei que ele tinha ficado preocupado comigo. 

— Mãe, o que aconteceu? — perguntou Joseph ao se sentar ao meu lado — Quer que te leve ao hospital?
— Não, eu só preciso descansar, acho que minha mente ainda não processou tudo que está acontecendo comigo. — brinquei — Mas vou melhorar.
— Tem certeza? — seu olhar preocupado estava ali.
— Tenho. — me levantei do sofá — Só preciso dormir.

Dei um beijo de leve em sua testa e segui para meu quarto. Foi somente um banho quente e o pijama no corpo, meu corpo se rendeu ao aconchego da cama, de fazendo dormir durante todo o dia. O dia, a noite e só me dei conta de quem era eu, quando meu celular me acordou com uma ligação de Sophie às oito da manhã do dia seguinte. E ela parecia insistir bastante em falar comigo.

— Sophie? O que houve?
Ah, , finalmente. — disse ela num tom afobado — Estou te ligando desde ontem.
— E?
E o que aconteceu? Eu liguei para a redação me disseram que tinha saído mais cedo, liguei para sua casa e Joseph disse que tinha se fechado no quarto, liguei para o celular e nada de me atender. 

Não atender Sophie era pior que não atender a minha mãe. E em momentos raros, Sophie parecia mais ser minha mãe.

— O que você quer Sophie? — perguntei.

Senti que meu corpo e minha mente ainda processavam que eu tinha acordado.

Está tudo bem com você? — perguntou ela.
— Sim, estou bem, minha cabeça começou a doer ontem de repente, senti mal estar quando cheguei em casa, acho que foi somente um cansaço repentino, tenho andado muito preocupada e com muito trabalho a fazer. — me espreguicei da cama, erguendo meu corpo — Mas estou bem, fique tranquila.
Que bom. — ela pausou por um tempo — Você ainda está na cama?
— Sim.
Hum.
— Por que?
Nada, café da manhã no sábado? — sugeriu ela — Para colocar as fofocas em dia.
— Sim senhora. — eu ri — Acho que hoje vou trabalhar de casa, ainda estou sentindo minha cabeça pesada.
Não vai se forçar muito. — aconselhou ela.
— Não vou, agora vai trabalhar amiga. — ri dela e encerrei a ligação.

Me espreguicei novamente, bocejando um pouco, então me levantei. Troquei de roupa, colocando um jeans rasgado e uma regata, que encontrei no fundo da gaveta, retirei um sobretudo de crochê bege do cabide e o vesti também. Desci as escadas e encontrei Molly ensaiando no meio da sala. Com a correria da minha vida, cheia de notícias ruins e preocupações em como pagar todas as contas, tinha me esquecido que o concurso de talentos se aproximava. 

— Bom dia joaninha. — disse ao sorrir para ela.
— Bom dia mamãe. — ela sorriu mantendo a concentração na sua coreografia. 
— Por que a mocinha não está na aula? — perguntei, colocando a mão na cintura.
— Um cano estourou e a escola inteira ficou encharcada. — explicou ela — Tivemos que voltar para casa.
— Uau, que loucura. 
— Mas a diretora garantiu que não vai atrapalhar o concurso. — garantiu ela.
— Que será?
— Mãe, você se esqueceu? — ela parou e me olhou chateada.
— Não querida, eu anotei na minha agenda, só quero confirmar. — tentei contornar a situação.
— É na sexta agora. — seu olhar encheu de água.
— Ah querida. — eu a abracei forte — Eu não me esqueci joaninha, estarei lá na sexta. 
— O papai também vai? — ela me olhou esperançosa.
— Eu não posso confirmar por ele, mas vou ligar o lembrando. Ok?
— Ok! — ela sorriu com alegria.

Eu me afastei dela e a deixei ensaiando, então me voltei para a cozinha. Tinha um bilhete de Joseph na geladeira, me dizendo que eu ainda devia um café ao vizinho. Eu ri automaticamente e abri a geladeira, retirei a jarra de suco e despejei um pouco no copo, então voltei para a sala. Tomei um gole pequeno e cheguei perto da janela. Notei que estava trabalhando na fachada da casa, trocando o assoalho de madeira da varanda. Abri a porta e saí para fora, olhei de relance para o clube da varanda do outro lado, tinha poucas integrantes naquele dia.

Os olhares delas vieram para mim por um momento, e depois voltaram para ele. Eu dei alguns passos até ficar na ponta da minha varanda, e olhei para trabalhando. Ele permanecia bastante concentrado no que fazia, até seu primo Cedric me ver e comentar minha presença. parou no mesmo momento e olhou em minha direção. Um sorriso espontâneo, com traços de alívio em me ver se formou em seu rosto. Ele deixou a ferramenta que estava em sua mão no chão e seguiu em minha direção. Senti meu coração acelerar um pouco, talvez por não saber o que ele estava planejando fazer com seus movimentos inesperados.

— Está melhor hoje? — ele subiu até o terceiro degrau se colocando em minha frente, era visível sua altura mais elevada em relação a minha.
— Sim, acordei bem melhor. — assegurei — Só estava cansada.
— Hum… — ele lançou um sorriso malicioso e pegou o copo de suco da minha mão — Obrigado.

Antes que eu pudesse reivindicar, ele tomou todo o líquido em poucos goles, me deixando embasbacada. Tombei a cabeça sem notar olhando ele agir com a maior naturalidade.

— Foi você que fez? — perguntou ele me devolvendo o copo. 
— Foi meu filho. — respondi ainda sem saber como reagir.
— Ele herdou seu talento para gastronomia. — ele sorriu novamente e voltou seu olhar para o outro lado da rua.

Me controlei para não fazer o mesmo, e as senhoras acharem que eu estava provocando elas. 

— Acho melhor eu voltar ao trabalho. — disse ele se afastando de mim.

Assenti observando ele voltar a sua varanda. Tombei mais a cabeça e fiquei um tempo observando ele trabalhar novamente. Para um arquiteto, ele tinha muita habilidade com trabalho braçal, a considerar pela cozinha que foi o primeiro cômodo da casa a ficar pronto. Imagino o motivo: nosso acordo! Será que em algum momento de sua jovem vida ele foi algum tipo de empreiteiro? Isso me faz lembrar os comentário da Sophie sobre os Irmãos a Obra. Soltei uma risada baixa e voltei para dentro de casa, Molly não estava mais na sala, certamente em seu quarto fazendo as atividades extras da escola. 

Soltei um suspiro forte e segui em direção a cozinha. Retirei o celular do bolso e mandei uma mensagem para dizendo que faria o almoço dele e se seu primo. Ainda me perguntava como ele tinha conseguido meu número. Será que tinha sido com o Finn? Voltei minha atenção para a geladeira e cocei a cabeça me perguntando o que faria. Saiu um rápido macarrão a carbonara. Separei um pouco em uma vasilha e levei para eles, deixando no microondas. Ao voltar para casa segui para meu quarto novamente, não estava com fome e tinha que correr atrás do prejuízo, se trabalharia em casa aquele dia, tinha que produzir algo. 

— Hum!!! — me espreguicei de leve após terminar de escrever mais uma página do meu artigo de três partes e olhei para a porta.

Joseph estava parado me olhando, com um sorriso no rosto.

— Olá querido, que sorriso é esse?
— Seu filho é o melhor aluno da escola. — ele sorriu com orgulho e piscou, entrando no quarto.
— Olha só, e como consegue essa proeza se vive jogando de madrugada? — perguntei, colocando o notebook na mesa de canto e o olhando se aproximar — Tem alguma namorada nerd que faz os trabalhos para você?
— Eu não preciso explorar uma garota para ser o melhor. — ele riu e se jogou na cama me olhando — Estava trabalhando?
— Sim, tinha que terminar a primeira parte daquele artigo que te falei. — disse a ele.
— E como ficou?
— Não exatamente como eu queria, por que tenho algumas restrições, tem coisas que não devo falar. — respondi ponderadamente — Viva o patriarcado.

Não impedi que saísse com ironia e deboche aquela última frase.

— Como a tia Sophie sempre diz, fique famosa que logo poderá falar o que realmente quer. — comentou ele.
— Verdade, e por falar em Sophie, o que não tem nada a ver com o que vou dizer agora. — e não tinha mesmo — Este final de semana vocês ficarão com seu pai. 
— Sério? De novo? — ele fez uma careta estranha.
— Sim. — o olhei de forma compreensiva — Foi o acordo que fizemos, finais de semana com ele.

Eu já tinha me ausentado de saber sobre o que acontecia com eles enquanto ficavam com o pai. Carl os pegava no sábado pela manhã e os entregava domingo á tarde. Para quem olha é pouco tempo, mas sei que é significativo pois não podia deixar meus filhos se afastarem do pai. Por mais escroto que Carl tenha sido comigo, ele ainda era o pais de Molly e Joseph. E para minha surpresa tinha demonstrando muito interesse em passar os finais de semana com os filhos. 

— Tudo bem. — seu olhar era de frustração, mas entendia e aceitava.
— Cuide bem da sua irmã, ok?
— Sempre. — ele sorriu e se aninhou em mim — Dela e de você. 
— Olha aqui garoto, o filho aqui é você. — ri dele — Mas fico feliz que queira cuidar da sua mãe, isso me motiva bastante.

Dei um beijo em sua testa e acariciei seus cabelos. Ficamos alguns minutos ali até que Molly olhou da porta e fez bico.

— Vem joaninha, cabe você aqui também. — disse Joseph rindo dela.
— Achei que iria me excluir. — ela correu e deu um pulo em cima da cama.

Consequentemente fez um barulho.

— Só deixem minha cama inteira. — brinquei, os fazendo rir.
— Mamãe, podemos almoçar aqui? — perguntou Molly.
— Por que quer almoçar no meu quarto? — perguntei.
— Quero ficar perto de você.
— Hum…

Molly também não se sentia à vontade com o fato de ficar com Carl aos finais de semana. Apesar dela amar muito ele. Uma realidade nova para ela, e precisava de espaço para absorver tudo e se acostumar a ter duas casas, dois quartos e pais divorciados. Logo à noite, minha mente me fez deixar meus filhos, com nossa maratona da série Perdidos no Espaço em meu quarto. Eu só conseguia pensar no acordo, até que parei em frente sua porta e me lembrei que ele não estaria em casa e não iria precisar. Soltei um suspiro de: como fui esquecer disso? Até que a porta se abriu e ele apareceu.

. — sussurrei.
— Oi. — seu olhar não estava surpreso ao me ver.
— O que faz em casa? — perguntei.
— O que faz na minha casa? — devolveu a pergunta.
— Eu me esqueci por um momento que não precisava fazer seu jantar hoje. — expliquei — Mas você disse que não estaria em casa.
— Sim. Já estou de saída.
— Hum… Bom passeio. — eu dei alguns passos para trás e voltei a passar pela cerca, ainda quebrada voltando para minha casa.

Que vergonha. Tudo que eu sentia naquele momento. 
Peguei a garrafa de água na geladeira e despejei um pouco no copo e tomei. Por que eu fui esquecer, ele tinha mencionado ontem sobre isso. Logo o barulho da campainha soou e eu fiquei intrigada. Quem seria àquela hora da noite? Sophie não poderia ser, pois ele jantaria com seus sogros hoje. Carl já estava avisado que só poderia ir após aviso prévio. Meus pais era pouco provável. Poderia ser Marg com mais um de seus problemas conjugais. Fui para sala e gritei da escada que atenderia. Por certo naquela altura, Molly já tinha desmaiado na minha cama e Joseph estaria com fone no ouvido jogando mais um pouco. Meu filho gamer tinha tempo para ser o aluno popular e nerd da sala, isso me chocava. 

— Boa noite, de novo. — disse assim que abri a porta.

Me peguei paralisada pela surpresa, que nem minha voz saiu no momento.

— Me desculpe, se te assustei.
— Não… É que, só não esperava ser você.
— Imaginei. — ele sorriu meio sem graça.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não, só vim te convidar para sair. — respondeu ele com tranquilidade no olhar.
— Me convidar? — olhei discretamente para aquela roupa que estava em meu corpo desde de manhã, fechei o casaco de crochê meio envergonhada — Assim, tão de repente?
— Quando eu disse que sairia, bem, não disse tudo. — ele manteve aquele olhar de sempre em mim.
— Eu… — olhei novamente para minha roupa.
— Você está linda, ou melhor você é linda, se é isso que te preocupa, suas roupas estão perfeitas. — disse com firmeza e segurança.

Sim. Minhas roupas me preocupavam.

— Então? — ele estendeu a mão para mim — É só uma volta no quarteirão.
— O que está planejando senhor vizinho arquiteto? — perguntei desconfiada.
— Não posso convidar minha namorada para um passeio noturno? — argumentou ele.

Minha namorada! Aquela expressão ainda paralisava minha mente de uma forma inexplicável. Será que ele queria que as pessoas nos vissem juntos? Mordi meu lábio inferior pensando se deveria ou não aceitar. E logo a voz de Sophie invadiu a minha mente. Eu sabia que se deixasse passar isso, minha amiga me internaria por que me chamaria de louca.

— Tudo bem. — assenti, com certa timidez, ao pegar em sua mão.
— Sua mão está fria. — comentou ele — Não precisa ficar nervosa, só vamos caminhar um pouco.

E eu tinha certeza que em cada passo, meu coração iria acelerar ainda mais. Como prometido, me guiou pelo quarteirão, mantendo sua mão segurando a minha e em silêncio olhando para o céu. Mesmo com a rua estreita e as árvores nas calçadas, o céu estrelado ainda podia ser visto por nós. Foi um momento bom, eu nunca tinha feito aquilo, andar pela rua à noite somente olhando para as estrelas, sentindo a brisa do luar. Até que minha barriga demonstrou estar viva e fez um barulho. Isso me lembrou que eu não tinha almoçado, somente comigo umas barras de cereal que encontrei na bolsa, enquanto escrevia meu artigo.

— Você está com fome. — afirmou ele segurando o riso.
— Desculpa. — sussurrei.

Mais vergonha. Seria possível abrir um buraco e me jogar nele?

— Conheço um lugar bem legal. — disse ele — Posso te levar lá?
— É muito longe?
— Não, podemos ir caminhando. — assegurou ele.
 —Tudo bem então. — assenti.

O lugar era uma barraquinha de comida de rua. O vendedor era um senhor bastante sorridente e brincalhão, seu bom humor parecia atrair muitas pessoas para a esquina onde seu carrinho ficava. 

— Olha só quem está aqui… Nosso arquiteto prodígio, e com uma garota bonita. — disse o senhor com um largo sorriso — Onde encontraste essa chica?

Garota? Este senhor precisa de óculos. Pensei comigo.

— Esta chica es mi novia. — respondeu causando animação no senhor.

Eu percebi que ele tinha dito algo em espanhol, uma matérias que eu sempre fugia na escola.

— O que disse a ele? — perguntei.
— Disse que é minha namorada. — respondeu — Estou errado?

Não. Né?! Fiquei sem resposta, e ele riu de mim, voltando seu olhar para o senhor.

— Este é o senhor Juan Ramillo. — me apresentou — E esta é .
— Ah, mui prazer. — o homem sorriu mais — Me chame de Juan por favor, o Senhor está no céu.
— Tudo bem.
— O que vão querer hoje? — perguntou Juan.
— Hum… — me olhou — Você já comeu burrito?
— Uma vez, no ensino médio. — respondi sem graça por isso.

As comidas mexicanas são tão gostosas e de todas eu só sabia fazer nachos e guacamole. Vergonhoso para alguém que um dia quis fazer gastronomia. 

— Então não tem muito tempo. — disse Juan.

Eu soltei uma gargalhada espontânea. Inocente aquele homem. 

— Juan, dois burritos tradicionais por favor. — disse , enquanto eu controlava meu riso.
— Solta dois burritos no capricho. — Juan começou a preparar todo animado e concentrado no que fazia.
— Me desculpe. — sussurrei para ele.
— Tudo bem. — sorriu e manteve sua atenção em mim.

Eu me esforcei ao máximo para continuar olhando Juan preparar nosso pedido. Assim que nos entregou, pagou ele e nos despedimos. 

— Não deveria ficar envergonhada. — comentou ele após a primeira mordida.
— Fala sobre o que?
— Quando alguém te elogia, não deveria ficar envergonhada. — ele parou e me olhou.
— É complicado para mim. — disse desviando meu olhar dele.
— Só porque sou mais novo que você? — perguntou.
— Aquele senhor achou que eu tivesse sua idade, ou menos. — disse voltando meu olhar para ele.
— E o que tem?! — ele manteve seu olhar em mim, sério porém sereno também.
— Tenho 33 anos e dois filhos. — argumentei.
— É o que a torna ainda mais interessante. — uma certa intensidade veio em seu olhar.

Me encolhi um pouco e voltei a caminhar, mantendo a atenção no burrito. segurou em minha mão me fazendo voltar a atenção para ele.

— Estou sendo sincero quando digo isso. — disse ele com mais entonação na voz — A cada dia que a vejo, me sinto ainda mais atraído para conhecer a mulher incrível que mora na casa ao lado.

Fiquei sem reação. Sem ar talvez. Com o coração acelerado e um frio na barriga. Ele se aproximou ainda mais de mim, de forma lenta e intensa. Não sabia o que poderia acontecer, nem como eu reagiria se algo acontecesse. Por um piscar de olhos, meu celular começou a tocar, quebrando o momento e fazendo-o se afastar de mim. Tirei o celular do bolso respirando fundo e olhei o visor, era uma ligação de Carl. O que ele fazia me ligando aquela hora?

— Alô, Carl. — ponderei o volume da minha voz.
. Me desculpe ligar essa hora, só queria confirmar que dia é a apresentação da Molly. Ela me deixou um bilhete na minha carteira e só vi agora. — disse ele.
Carl. — ouvi uma voz feminina ao fundo de onde ele estava.

Respirei fundo.

— Sexta feira às 16 horas, esteja lá, sua filha conta com sua presença. — respondi rapidamente — Mais alguma coisa?
Era somente isso. — disse ele.

Encerrei a ligação e guardei o celular no bolso. Olhei para que saboreava seu burrito, não perdi tempo e fiz o mesmo. Comemos enquanto caminhávamos pela rua. 

— Posso te fazer uma pergunta? — disse.
— Sim.
— Conhece o Juan a muito tempo?
— Mais ou menos. — respondeu ele — Foi um dos meus primeiros clientes em New York. 
— Sério? — me deixou surpresa — Você reformou a casa dele?
— Não, eu construí o restaurante dele em Manhattan. — ele riu baixo — Foi difícil chegar no projeto certo para o que ele queria.
— Se ele tem um restaurante, porque fica ali na esquina com um carrinho? — fiquei curiosa pela história.
— Por que foi ali que ele ganhou a vida, juntou dinheiro montou seu restaurante, mandou os filhos para a universidade, naquela esquina ele fez amigos no lugar de clientes. — explicou com um ar emotivo — É bem mais que só uma esquina para ele, é uma parte da história da sua vida.
— Bonito isso. — disse ao sorrir — Agora que sei o caminho, irei sempre lá.
— Ele vai gostar disso, Juan é bom em fazer amizades com chicas bonitas. — brincou ele num tom de sinceridade.
— Vou levar como um elogio. — eu ri um pouco — Obrigada pela noite.
— Eu que agradeço por ter aceitado. — ele manteve seu olhar para frente, mas pude ver um brilho nele, assim como um sorriso de conquista disfarçado em seu rosto.

Voltamos para casa e nos despedimos na varanda. Eu notei que a luz da sala da senhora Philips estava ligada. Será que ela nos viu sair e estava esperando pelo nosso retorno? Era demais saber que meus vizinhos faziam da minha vida uma interatividade para eles. 

Na manhã de quinta-feira recebemos uma notícia chata, o concurso havia sido adiado para a próxima semana. Segundo a diretora, o auditório tinha sido muito comprometido pelo vazamento do cano. Molly sabia se ficava triste ou feliz por ter mais uma semana de ensaios. Assim que soube, mandei uma mensagem a Carl avisando o ocorrido e a nova data. Sábado pela manhã, pontualmente meu ex marido estava na frente de casa com seu carro esperando nossos filhos. Dei um beijo na testa de Joseph e um abraço apertado na minha joaninha. Foi de relance, mas consegui ver que no banco ao lado de Carl, estava Solar. Meu coração se apertava mais ao ver isso.

Virei meu olhar para o lado e vi Cedric terminando de lixar o assoalho de madeira. A fachada estava ficando muito bonita. tinha pintado de branco com detalhes e estruturas em metal. Seu gosto por decoração industrial era visível em tudo naquela reforma. Desde a cozinha até a fachada da casa.

— Ele tem talento mesmo para isso. — sussurrei ao olhar para o regador e me lembrar que meu girassol precisava de água.

Não demorou muito até que Sophie chegou para o café da manhã. Claro que ela ficou umas meia hora observando Cedric com seu trabalho no assoalho. Eu abri a porta e a peguei no flagra.

— Que isso , não precisa me recriminar. — reclamou ela assim que entrou — Eu é que deveria te bater, por não me contar que o Universo Marvel, tinha um primo selo Chris Marvel. 

Seu olhar indignado parecia ser relevante, mas não era.

— Por favor, Sophie. — eu ri dela — Já me basta o clube da varanda.

Segui rindo para a cozinha.

— Venha, antes que eu te deixe com fome. — assegurei.
 —Você é má. — ela continuou emburrada e se sentou na cadeira — Não conta as novidades para mim.
— Eu disse que ele estava trabalhando na reforma com um parente. — retruquei não entendendo a queixa dela.
— Mas não disse o grau da categoria desse parente. — replicou ela.
— Vou ligar para seu marido. — fiz de séria.
— O Will não vai te atender. — ela deu de ombros.
— Estou falando do Tony Stark. — brinquei rindo dela.
— Ah querida, liga agora, por favor. — ela riu junto.

Eu voltei meu olhar para a janela espontânea e vi encostado na bancada da ilha, com uma xícara na mão me olhando. Não me contive em parar no tempo e esquecer de minha amiga.

— O que foi ? Ele está aí? — perguntou a curiosidade em forma de amiga.
— Sim. — assenti me forçando a olhar para ela — Mas não importa.
— Como assim não importa? — ela olhou para mim — Senta aqui e me conta o que rolou no passeio noturno.
— Não foi nada de mais. — disse me sentando.
— Tá, se não fosse, seus olhos não tinham brilhado quando mencionou. — seu sorriso malicioso estava ali — Por favor, vai me dizer que não rolou nada.
— Não.
— Como você é lenta. — ela bufou um pouco — Desse jeito acaba com a minha fanfic.
— Entra pro clube da varanda. — a olhei séria e indignada agora.
— Amiga, a vida te da uma chance dessa, e você desperdiça?
— Eu passei muito tempo em um relacionamento que não me fez bem, Sophie, preciso de espaço e de um tempo só para mim. — expliquei a ela.

Ela ficou em silêncio sem argumento.

— Ok… Eu esperava mais. — ela cruzou os braços e olhou frustrada para o prato de panquecas.
— Esperava mais o que? — perguntei.
— Eu esperava… — ela levantou o olhar e parou — Vizinho.

Eu virei para trás e vi na porta da cozinha. Tinha deixado ela aberta, pois iria varrer o quintal após o café.

— Bom dia. — disse a ele.
— Bom dia. — ele sorriu e manteve o olhar em mim, aparentemente ignorando a presença de Sophie.
— Bom dia. — disse Sophie, mostrando sua presença ali.
— Precisa de alguma coisa?
— Preciso falar com você sobre hoje à noite. — disse ele.
— Ah, pode falar, a Sophie é a única além do Joseph que sabe a verdade. — disse a ele.
— O Joseph sabe da verdade? — perguntou Sophie.
— Sim. — me virei para ela — Contei a ele depois do jantar nos meus pais.
— Ah sim, o barraco da sua mãe, deve ter sido constrangedor. — comentou ela.
— Não precisa lembrar Sophie. — disse a fazendo ligar o desconfiômetro.
— Ah, claro. — ela deu um sorriso disfarçado de desculpas.
— O que quer falar?! — voltei meu olhar para ele.
— Não estarei em casa este final de semana. — disse ele — Vou viajar até quarta.
— Hum… Tudo bem.
— Olha, eu sei que não é da minha conta, mas… — Sophie começou a dizer.
— Se não é da sua conta Sophie… — eu a olhei.

Minha amiga tinha a mente mais fértil e maliciosa que eu conhecia. Estava com medo do que ela fosse dizer.

— Bem, você já falou com ele sobre nossa reunião de amigos? — perguntou ela.
— Não, eu ainda… — pausei por um tempo.

Estava com vergonha de pedir a ele para ir comigo. Mas ao mesmo tempo, sabia que seria estranho ir sozinha.

— Eu vou com você. — disse ele sem preocupações — Só me diz quando é.
— Tudo bem. — assenti.
— Esse é o ponto, vocês dois não parecem estar namorando. — questionou ela — Falta romance em vocês, tá certo que tem um ar de mistério aí que deixa tudo mais intrigante, mas falta algo.
— Do que você está falando Sophie? — mantive meu olhar nela.
— Imagina comigo... Lá vai ter casais, que se beijam o tempo todo. E vocês vão agir assim, como agora? — perguntou ela.
— Sophie, só porque estamos namorando não significa que temos que fazer o que todos fazem. — argumentei.
— Se esse é o problema... — se afastou da porta e veio até mim.

Senti sua mão se apoiar em minha cintura, me virando para ele e aproximando nossos corpos com precisão. Então logo seus lábios se aproximaram dos meus lentamente, iniciando um beijo doce e intenso ao mesmo tempo. Se eu fiquei desnorteada? Sim. Não esperava aquela reação dele e nem do meu corpo em acompanhar seus movimentos, sem nenhum esforço para relutar. Ele beija bem? Oh, nem me fale. Tanto que me fez esquecer que não estávamos sozinhos. se afastou um pouco, porém mantendo sua face próxima a minha. Respirei fundo, para que minha sanidade mental não fosse afetada.

— Agora você pode dizer que nos viu se beijando. — disse ele, se afastando de mim e olhando para minha amiga — Esse namoro é real, até quando ela quiser. 

Oi? Foi isso mesmo que eu ouvi? Real? Até quando eu quiser? se retirou deixando tanto eu como minha amiga sem palavras para descrever ou ações para reagir aquilo.

No momento em que vi seus olhos (é você)
Você capturou meu coração (é você)
Sem arrependimentos eu escolhi só você (é você). 
- It's You / Super Junior



8. Noite das garotas

— Uau… Isso foi… Ver ao vivo é melhor que ler na fanfic. — comentou Sophie boquiaberta.

Eu me sentei na cadeira e a olhei.

— O que ele quis dizer com real, até quando eu quiser? — perguntei em meio a confusão que tinha se instalado em minha mente.
— Eu não sei você, mas minha fanfic está salva. — Sophie voltou seu olhar da porta para mim — , tem como você chamar ele aqui e repetirem com mais intensidade? É que eu ainda não absorvi o que aconteceu, foi tão rápido.
— Vou fingir que não ouvi isso Sophie. — me encolhi envergonhada pelo comentário dela.
— O que é 50 Tons perto do , imagina aquele homem a portas fechadas…
— Sophie?! — me levantei bruscamente da cadeira — Imagina se meus filhos estivessem em casa, e você de brincadeira com a situação.
— Ai , você leva tudo tão a sério, por isso é assim. — Sophie cruzou os braços emburrada — Pare de ser tão recatada e se solte para vida, tem um homem maravilhoso interessado em você.

Soltei um suspiro e me sentei novamente.

— A pergunta que não quer calar… Ele beija melhor que o Carl? — seu olhar curioso tinha voltado.
— Sophie?! Pare com essas perguntas?

Voltei o olhar para o café e continuei a me alimentar. Externamente mantive meu olhar de indignada com os comentários maliciosos dela. Mas internamente, meu coração continuava acelerado e o corpo trêmulo. havia despertado algo em mim que nem mesmo Carl conseguira em nosso primeiro beijo no colegial. Meu corpo inteiro tinha reagido a favor do vizinho, em sua condução intensa ao beijo. Era loucura achar que um homem como ele realmente quisesse algo sério com uma divorciada mãe de dois filhos. 

Não que minha mente fosse condicionada ao preconceito. Mas poxa, vivíamos em um mundo assim. Em que as pessoas te olham atravessado no supermercado por ser mãe solteira, ou por ter se casado grávida, ou por outras situações mais tensas. Eu não queria mais sofrer sentimentalmente, não queria me minhas decisões causasse algo negativo na vida dos meus filhos. Eu só queria ter paz e ser feliz, ter minha independência e não dever explicações a ninguém.

— Seu café como sempre estava maravilhoso. — comentou Sophie ao terminar seu quarto pedaço de bolo.
— Milagre não querer panquecas hoje. — comentei.
— Preciso variar amiga. — ela piscou de leve — E nossa escapada noturna está de pé?
— Oi? Como assim escapada noturna? — eu realmente não sabia do que ela falava.
— Nossa escapada noturna de todo mês amiga, não acredito que esqueceu, sua irmã é quem precisa das amigas agora, Annia me mandou mensagem dizendo que nos encontra no Coyote Ugly às oito. — relembrou ela — Não fizemos mês passado por sua causa.

Eu realmente não me lembrava disso.

— Tudo bem Sophie, eu me esqueci, é normal. — me levantei da mesa recolhendo os pratos — Não se preocupe, irei após fazer o jantar do .
— Verdade, o famigerado jantar. — Sophie deu um sorriso malicioso — Queria ser uma mosca para ver isso.
— Fofoqueira. — comentei.
— O termo correto é fanfiqueira. — ela piscou e soltou uma gargalhada.

Segui para a pia e lavei as vasilhas. Ela se aproximou de mim somente para espiar a janela. Cedric passou pela cozinha algumas vezes, mas nada do vizinho. Sophie passou mais um tempo ali me contando alguns casos de sua nova classe de aprendizes de bailarinas. Pouco antes do almoço ela foi para casa da sogra para comemorar o aniversário de casamento dos sogros. Aproveitei a oportunidade para dar minha faxina geral na casa. Não tinha fome, então segui em frente para meus afazeres domésticos de sábado pela manhã. Comecei pelos banheiros que tanto detestava limpar, passando pelos quartos até chegar ao jardim.

Por um breve momento olhei para cerca que se mantinha quebrada. Soltei uma risada espontânea e voltei a varrer o quintal. As folhas do outono persistem em manter o lugar sujo e escorregadio. Juntei tudo em um saco de lixo preto e peguei para levar a lixeira.

— Deixa que eu levo. — disse ao segurar em minha mão de repente.
?! — eu não conseguia encará-lo devido ao beijo, mas mostrei-me surpresa com sua aparição — O que está fazendo?
— Estou levando seu lixo para fora. — explicou ele pegando os sacos de lixo — Acho que namorados fazem isso.

Respirei fundo não me deixando levar por sua declaração, e manter a sanidade. Será que ele também se ofereceria para lavar os banheiro? Segurei o riso não contendo este pensamento.

— Obrigada então. — assenti sem discussões.
— Antes de partir, Sophie bateu em minha casa e me disse sobre o sábado das garotas, então... Não precisa fazer meu jantar aos sábados. — disse ele se locomovendo para o corredor de passagem que dava para a entrada de carro na frente da minha casa.
— Ok. — tentei forçar a voz, mas me peguei sem reação.

Ele sabia sobre o sábado das garotas e não se importava que eu não cozinhasse para ele neste dia. Era complicado não comparar esse relacionamento estranho que tínhamos com minha vida de casada. Carl nunca via com bons olhos meus momentos reunidas com minhas amigas. Talvez pelo seu medo de ser pego em suas traições a mais tempo, ou medo de eu traí-lo com outra pessoa. Um ou outro, não importava mais e sempre que essas comparações vinham, lutava para não deixá-las permanecer em minha mente e não afetar minha nova vida.

Voltei para dentro e guardei as vasilhas do café que permaneceram no escorredor. Depois, fui até o quarto e tomei uma ducha rápida para tirar o suor do corpo, tinha mesmo trabalhado bem naquele dia. Coloquei uma roupa mais fresca, pela brisa que entrava na janela do quarto. Liguei o notebook, deitei na cama e iniciei minha maratona de Friends. As horas se passaram até que a mensagem de Marg chegou ao meu celular, me fazendo pausar o episódio. Era uma foto sua já no Coyote Ugly. Voltei meu olhar para o relógio e já marcava sete e meia da noite. 

Dei um pulo da cama e corri para o guarda-roupa. Olhei o que poderia vestir naquela noite fresca, e peguei outro vestido estampado com listras diagonais para vestir. Me maquiei da forma mais básica possível e joguei a carteira dentro da bolsa. Com o celular na mão, cheio de mensagens de Sophie e as outras. Tranquei toda a casa e sai. Parei por um instante na varanda da frente, olhei para o celular pensando comigo se chamaria o Uber, ou iria de ônibus.

. — a voz de me chamando ecoou.

Voltei meu olhar para frente e lá estava ele montado em sua moto com o capacete do passageiro em sua mão.

— Sophie me ligou, eu levo você. — essas foram suas únicas palavras seguido daquele olhar tentador.

Meu coração não resistiu e acelerou involuntário. Assenti com a face, jurando Sophie de morte mentalmente. Coloquei o capacete e montei na garupa da moto. Nunca tinha andado em uma antes, o medo era certo.

— Segure firme. — disse ele, pegando em minhas mãos que se agarraram em sua jaqueta, e me fazendo envolver meus braços em seu corpo — Assim é bem melhor.

Melhor pra quem? Pra mim ou pra ele? Ou para o fanclub chamado Sophie? Certamente se ela me ver assim, vai cair em cima de mim.

— É a sua primeira vez? Em uma moto?
— Sim. — afirmei.
— Me acompanhe então, se eu tombar a moto para a direita, vem junto comigo, se você for para o lado oposto, vai desequilibrar e vamos cair. — explicou ele — Tudo bem?
— Sim. — assenti.

Ele soltou uma risada baixa e ligou a moto. Seguimos em direção ao pub. Assim que chegamos, avistei minhas amigas na porta do lugar a minha espera. Um frio na barriga passou por mim ao ver o olhar de surpresa de Freya. Desci da moto, achando que tudo seguiria normal, até que desceu atrás e retirou o capacete como se fosse aqueles modelos de catálogo em uma sessão de fotos quase sensuais. Tombei a cabeça de leve sentindo meu coração acelerar novamente. 

— Isso fica comigo. — disse ele pegando o capacete da minha mão — E isso vai com você.

Ele me puxou pela cintura e me beijou ali. Ali. Ele me beijou ali. Na frente mais minhas amigas, da forma mais intensa possível que nem as fics da Sophie conseguiria descrever. Meu corpo voltou a agir da mesma forma de antes somente acompanhando sua investida. Quando ele finalizou, seu se mostrou sereno e um sorriso de canto formou no rosto. Eu tinha que agir com naturalidade, mas era um surto interno para mim. 

— Real até quando você quiser. — sussurrou ele ao segurar em minha mão entrelaçando nossos dedos. 

Assenti com um sorriso suave meu trêmula e respirei fundo. Caminhamos até ela, com Sophie mais empolgada do que tudo.

— Que bom que chegaram, achei que a nos daria o bolo de novo. — comentou Lauren.
— Agora ela tem motivos para isso. — disse Freya num tom malicioso, comendo meu vizinho com os olhos.

E aquilo me chocou de uma forma.

— Está entregue Sophie. — disse com seu tom habitual firme e seguro — Tome conta dela por mim.

Mais chocante foi a forma que ele ignorou a presença de todas as outras ali.

— Te vejo amanhã. — ele sorriu de leve e me roubou um selinho rápido.

Apenas tive reação para sorri concordando e o observei se afastar.

— Depois você vai alimentar minha fanfic me contando tudo. — sussurrou Sophie em meu ouvido ao me pegar pelo braço — Vamos entrar agora garotas, pois a noite é longa.
— Que saudade eu estava da nossa noite das garotas. — disse Annia ao sorrir.

Era bom ver que nossa desafortunada amiga esteja se erguendo novamente após a morte do marido. E mais ainda por ver Margareth finalmente se divertindo com a gente. Nos últimos tempos minhas irmã tem mudado bastante seu jeito de agir. Sendo menos a filha perfeita e mais ela mesma.

— O que vamos beber primeiro? — perguntou Freya se sentando em uma das cadeiras.

Tivemos que pegar mais duas de outra mesa para completarem 6.

— Eu voto naquele drinque todo trabalhado que é a especialidade da casa. — sugeriu Lauren — Quero esquecer minha enteada e encher a cara.
— Se for para começar prefiro algo leve, ainda estou largando o luto. — protestou Annia — Black Pearl é legal.
— A bebida mais forte, isso é leve Annia? — Sophie riu dela.
— Vamos de Blood Red — disse Marg, não ligo para chegar em casa hoje, vou dormir na casa da .
— O que aconteceu com você e o Mark? — perguntei preocupada.
— Quem é Mark? — ela me olhou despreocupada — Eu quero mesmo é saber se seu namorado não tem um irmão, ou primo, não me importo com homens mais novo.
— Margareth você está se ouvindo? — e olhei estranho.
— Era só brincadeira, sua chata. — ela fez careta e levantou a mão chamando o garçom.
sempre foi tímida quando o assunto é vida pessoal. — comentou Freya — Mas olhando aquele beijo… Já imagino o potencial do garoto.

Todas soltaram uma gargalhada maldosa e maliciosa. Meu olhar atravessado foi em direção a Sophie. Se ela não tivesse aberto a boca para , naquela manhã, ele não teria feito aquilo. Minha amiga apenas sorriu de leve com o olhar brilhando para mim.

— O namoro da é como uma fanfic para mim. — afirmou Sophie.

Aqui jaz uma amiga. Pensei comigo.

— Ok gente, sabemos que a e o Universo Marvel do namorado dela são o assunto do ano, mas temos que pedir nossas bebidas. — Margareth chamou nossa atenção para o garçom que se aproximou da nossa mesa.
— Vocês sabem que eu não bebo nada que tenha álcool. — alertei a todas.
— Achei que seu namorado tivesse te ensinado o lado bom da vida. — comentou Freya.

Respirei fundo pela inveja que escorria em seu olhar.

— Aprendi com o divórcio que homem nenhum vale a mudança dos meus princípios ou meus gostos. — retruquei com segurança — E concorda com isso.

Essa ela merecia ouvir. Mantive meu olhar sereno e a confiança no rosto. O olhar de aprovação de Sophie veio de imediato para mim.

— Vamos mudar de assunto gente. — Marg virou seu olhar para o garçom — O que você nos sugere sem álcool?
— Temos um drink chamado Corcel, é feito a base de sidra sem teor alcoólico, é muito apreciado por todos. — respondeu ele.
 —Então, é esse mesmo, um Corcel e 5 Blood Red. — pediu Marg.
— Traz 10 Blood Red porque eu quero duas doses. — acrescentou Lauren.
— Isso aí. — concordou Annia rindo com a amiga.

Assim que o garçom se afastou para pegar nossos pedidos, a conversa retornou porém com outro assunto. Até que o garçom nos serviu como o pedido. Marg foi a primeira a atacar o copo e tomar o líquido de uma só vez.

— Freya, está tudo preparado para nosso encontro dos amigos? — perguntou Annia curiosa.
— Claro que está. — confirmou ela — Buffet, músicos, espaço, tudo o que temos direito. 
— Mal posso esperar para mergulhar naquela piscina enorme. — comentou Lauren — Morar em apartamento é tedioso, a única coisa que compensa é a vista para o Central Park.
— Não reclame tanto Lauren, não é tão ruim ser esposa de um político. — Freya soltou uma gargalhada e tomou seu primeiro gole do drink.
— Você se casou com um viúvo rico, não tem o direito de falar nada. — ela bufou um pouco — Não sabe o que eu passo com aquela pentelha. 
— Crianças, não sei como consegue com dois filhos. — comentou Annia ao pegar seu copo.
— Eu consigo porque os filhos são meus, eu os eduquei, já Lauren está em uma posição delicada, a figura de uma madrasta nunca foi tão boa assim na sociedade. — expliquei sabiamente.
— Alguém aqui me entende. — disse Lauren ao tomar seu drink — Por isso hoje eu vou encher a cara sem dó como a Marg, e , também quero um lugar na sua casa para dormir. 
— Se elas vão, eu também vou. — protestou Freya.
— Vamos todas então. — Sophie levantou a taça para o brinde.

Todas juntamos as taças no alto. Eu já estava vendo tudo no final daquela noite. 

— E você Marg, qual a reclamação da vez? — perguntou Annia.
— O machismo velado do meu marido. — contou minha irmã.

Não fora poucas vezes que ela reclamou disso comigo.

— Mark me mata de raiva a cada hora que acha que sabe mais do que eu no meu trabalho. — continuou a reclamar tomando mais um pouco do drink.
— Você foi louca de ter se casado com o filho do chefe. — comentou Freya.
— Nisso eu concordo. — disse Sophie.
— A filha perfeita não podia decepcionar a mãe. — senti o amargo em sua voz — Mas estou cansada disso, você tem sorte . É livre para fazer o que quiser.
— Você acha? — soltei um riso.
— A mãe de vocês não existe. — Sophie nos olhos com estranheza.
— Vamos falar de coisa boa, gente. — pediu Lauren ao roubar o drink de Annia e tomar — De casamentos tediosos a única que se livrou foi . A Annia não conta, pois o George era um amor de marido. 
— Ah, não vem jogar meu Will nesse saco de tomate podre não. — Sophie se fez de ofendida.
— Seu casamento está em outro nível Sophie, nem te consideramos. — disse Lauren.

Nós rimos e continuamos em mais conversas e drinks. Horas depois, chamamos dois Uber para irmos embora. Como anunciado, todas para minha casa. Seis mulheres, cinco bêbadas, dois banheiros e muitas gargalhadas pelos cômodos. Confesso que estava sentindo falta desses nossos momentos juntas. Mesmo com os comentários desnecessários de Freya sobre o vizinho. O resto da madrugada foi longa.

Logo pela manhã, acordei ouvindo barulhos no andar de baixo. Abri os olhos, Sophie e Annia já tinham levantado. Olhei no quarto das crianças, Lauren e Freya também não estavam lá. Elas não eram de acordar tão cedo e com ressaca ainda. Saí do quarto e desci as escadas, estava tudo silencioso, apenas o som de alguém fazendo o café da manhã. 

Quando cheguei na porta, paralisei de imediato vendo minhas amigas sentadas na cadeira, debruçadas sobre a mesa observando preparar o café da manhã.

Sim… , vestido com o meu avental amarelo de bolinhas brancas, de pé em frente ao fogão preparando panquecas.

, o vizinho da casa ao lado.

Logo seu olhar veio de encontro a mim. E um sorriso apareceu em seu rosto, um sorriso de: Real até quando você quiser.

Eu posso estar um pouco apressado
Quem sabe? Nós podemos. 
- Hello / SHINee



9. Real ou não?

Eu ainda não sabia como reagir a cena. Estática eu estava, estática fiquei. Assim que ele terminou de preparar o café e ajeitou tudo em cima da mesa, ele seguiu até mim e me deu um selinho.

— Bom dia . — ele sorriu de canto.

Ouvi suspiros vindo do nosso lado. Eu despertei e pegando em sua mão o arrastei para o quintal.

— O que você está fazendo? — perguntei a ele tentando absorver aquela loucura.
— Imaginei que estivesse cansada, então resolvi te fazer uma surpresa. — explicou ele tranquilamente ao desamarrar o avental e retirá-lo do corpo — Não gostou?
— Desde quando você cozinha? — perguntei a ele.
— Eu nunca disse que não cozinhava. — argumentou ele voltando seu olhar para porta.

Virei minha face na mesma direção e vi minhas amigas lá nos espionando.

— Acho melhor continuarmos mais tarde. — sugeriu ele.
— Tem razão, você tem uma casa para reformar. — eu me afastei dele.
. — ele segurou em minha mão — Esta com raiva, não está?
— Você já me conhece, não é?! — eu me soltei dele e voltei para dentro.

Meu olhar de reprovação para minhas amigas as deixaram em silêncio. Permiti que tomassem o café, mas eu deixei de lado e voltei para meu quarto. Não demorou muito até que Sophie entrou para falar comigo.

— O que houve ? — perguntou ela preocupada — O que você falou para ele?
— Nada. — bufei um pouco — Só fiquei chateada por ele estar cozinhando.
— Isso é ciúmes dona ?! — Sophie colocou a mão na cintura me olhando desconfiada.
— Não, não é. — eu caminhei até a janela não acreditando na insinuação dela — Por favor, Sophie.
— Por favor, digo eu . — insistiu ela — Você ficou toda desconfortável com os comentários da Freya ontem no bar, e agora está toda irritada por ele ter cozinhado para suas amigas.
— Estou irritada por ele me propor cozinhar para ele todas as noites sendo que ele sabe cozinhar. — argumentei.
— Nossa, que fraco esse argumento. — ela cruzou os braços.

Eu sabia que sempre que Sophie cruzava os braços, é porque viria um sermão daqueles.

— Vocês dois tinham um acordo e não era da sua conta se ele sabia fritar um ovo Miller, ou você se lembra da história toda?! — ela tinha razão.

Odiava admitir.

— Agora pare de agir de forma infantil, você e a mais madura de todas nós. — pediu ela de forma severa — Admita, está gostando mesmo dele e está com ciúmes.
— E se estiver?! Olhe para mim, o que posso oferecer?
— Deixe de pensar nos contras e comece a pensar nos pós. — ela veio até mim e segurou em minha mão — Não é a toa que ele disse…
— Real até quando eu quiser. — completei.

Senti meu coração acelerar ao lembrar da sua voz.

— Deixe de ser chata e impertinente com sua própria felicidade. — repreendeu ela com firmeza — Agora dê o segundo passo e se jogue na cama dele.
— Sophie?! — eu dei um tapa no seu ombro.
— Desculpa, estava com uma fanfic que estou seguindo na cabeça. — ela riu maliciosa.
— Pare de ler essas coisas, estão te deixando pior do que já é. — eu ri dela.
— Mas agora sério, não deixei que o externo afetar o que vocês estão construindo. — aconselhou — Posso ver a sinceridade no olhar de para você.
— Será que…
— Pare com esse será… É amiga, ele está apaixonado por você, pode apostar. — afirmou ela — Eu ficarei um mês sem ler minhas fanfics se estiver errada.
— Fechado.
— Mas se eu ganhar… — ela me lançou um olhar malicioso.
— Não vem, eu não vou fazer nada com ele. — já me adiantei conhecendo-a muito bem.
— Nossa, eu só ia te desafiar a apresentar ele aos seus pais. — ela se fez de ofendida — Nem sou tão pervertida assim.
— Eu te conheço Sophie. — disse.

Ela soltou uma gargalhada maldosa.

— Estamos aqui conversando, e as outras? — perguntei.
— Já foram. — respondeu com tranquilidade — Botei todo mundo pra fora depois do café, só a Marg que ficou arrumando a cozinha.
— Obrigada. — sorri de leve para ela e lhe dei um abraço forte — Você é a melhor amiga do mundo!!
— Eu sei disso.
— Cadê a modéstia Sophie?
— Deixei em casa com o Will. — ela riu de novo — Agora vou indo, vou deixar a Marg em casa e segui para o hospital, Will quer almoçar comigo.
— Bom domingo e descanse, cuide da ressaca.
— Minha querida, o café do seu namorado curou todas. — brincou ela.

Eu ri disso. Seguimos juntas para sala, Marg nos esperava. Seu olhar sonolento estava ali, minha irmã nunca foi de ficar até tarde acordada. Mas estava feliz por ela ter se divertido tanto e esquecido os problemas.

— Podemos ir minha carona?
— Claro. — Sophie me abraçou novamente — Pensa no que conversamos.
— Ok. — disse a ela.

Abracei Marg me despedindo e as levei até a porta. Meus filhos chegaram pouco depois do almoço, o domingo passou tão rápido que quando dei por mim, já era segundo e eu estava me arrumando para ir para redação. Era o dia de sermos apresentados ao novo editor chefe. Eu não estava muito animada com aquilo. Para ser honesta, eu estava desanimada com tudo naquele dia. Desde a pequena DR com , não o tinha visto mais tarde e nem pela manhã ao sair de casa. Onde será que ele tinha ido, ou será que estava evitando a chata e implicante que eu tinha sido?

está tudo nem? — perguntou Lizzi perguntou.
— Sim, por que? — a olhei.
— Está calada e um pouco distraída hoje. — alegou ela.
— Sim, também notei isso. — concordou Hill — Problemas em casa?
— Mais ou menos. — disse ao suspirar fraco — Mas está tudo bem sim.
— Senhoritas. — Osvald se aproximou de nós — O novo chefe solicita reunião com todos os departamentos no auditório.
— Eh, a hora da verdade é agora. — disse Beth.
— Que o Senhor nos proteja. — disse Hill.

Seguimos todas para o auditório no quarto andar. O novo editor chefe foi anunciado pelo diretor do RH: Frederick Brown. Eu não o reconheci de nenhum outro jornal. Mas segundo os comentários preciso de Lizzi, ele já tinha trabalhado no NY Times e o no El Paris, ambos jornais conceituados. Porém, sua fama em tratar os funcionários não era boa, tinha até casos de assédio em suas cotas. Isso me chocou um pouco e me deixou apreensiva. Se fosse verdade, seria desconfortável trabalhar com um homem assim.

— Bom dia a todos. — disse Frederick segurando o microfone — Estou honrado por ter sido contratado pelo NT Post, aprecio muito este jornal e quero trazer para ele mais do que tem agora, quero levá-lo ao reconhecimento mundial...

Todos aplaudiram, seu discurso e após ele apresentar suas metas, voltamos para nossas atividades. Claro que não somente eu, como também as meninas ficamos revoltadas com o descaso que ele tinha feito em relação ao caderno da mulher. Dizendo que o carro chefe do jornal era a sessão de esportes e que teria mais foco a partir de agora. O caderno da mulher que tinha conquistado seu espaço em dois dias da semana, agora seria publicado somente na terça-feira, o dia de maior baixa nas vendas do jornal.

— É impressão minha ou esse novo editor está querendo sabotar o caderno da mulher? — perguntou Lizzi nervosa.
— Não é impressão sua, ele realmente quero isso. — disse também raivosa — Como pode negligenciar os dados diante dele.
— O pior é que não podemos nem reclamar. — Hill se sentou na sua cadeira e bufou — Já prevejo duas de terror nessa redação.
—Não me fale em terror amiga, minha vida não está sendo fácil — Beth reclamou — Eu sou somente uma estagiária.
— Até estou sentindo falta do perfeccionismo da Genevieve agora. — confessou Sunny — Ela era chata, mas data atenção para o nosso caderno.
— Também sinto falta dela. — disse Hill.
— Vamos aguentar até onde der meninas, precisamos desse emprego. — as motivei.

Sim, precisamos muito! Pensei comigo. Eu já tinha conquistado minha independência e lutaria por ela até o fim. Meus filhos mereciam esse exemplo de minha parte. A tarde passou rápida também e percebi que levaria trabalho para casa. No final do expediente, salvei os arquivos no google drive e desliguei o computador, peguei minha bolsa e segui para o elevador. Para meu azar, o novo editor chefe entrou juntamente comigo. Ele falava ao celular aparentemente com uma mulher, conseguia sentir a malícia em suas palavras para ela.

Antes de voltar para casa, liguei para Finn e pedi que me encontrasse em uma cafeteria próximo ao Central Park. Meu amigo tinha enviado uma mensagem um tanto eufórica sobre a reforma do café. Assim que o avistei com uma pasta preta na mão, me aproximei dele.

— Finn. — o abracei de leve e sorri — Demorei?
— Nada, você é sempre muito pontual. — ele riu — Vamos entrar?
— Claro.

Escolhemos uma mesa no mezanino da cafeteria e nos sentamos. Ele colocou a pasta em cima da mesa e soltou um suspiro empolgado.

— Você não vai acreditar no que aconteceu. — iniciou ele.
— Me diga e eu falo se acredito ou não. — eu ri dele.
— Consegui um investidor para o Liberdad Café. — contou ele.
— Sério? — fiquei feliz por ele e boquiaberta também — Mas tão rápido?
— Não foi tão rápido assim. — ele me olhou sério — Mas, o seu vizinho nosso arquiteto me apresentou umas pessoas ontem à noite, conversa vai, conversa vem, entramos no assunto sobre o café e uma das pessoas lá se interessou.
?! — agora eu estava surpresa.

Desde quando tinha intimidades com Finn para apresentá-lo pessoas?

— Sim, e parabéns pelo namoro, ele me parece ser um cara bem legal, apesar de ser mais novo que você. — comentou ele.
— Vamos deixar esse assunto de lado. — pedi — Desde quando são tão amigos assim?
— Desde que ele se ofereceu para ser meu arquiteto. — Finn cruzou os braços me olhando desconfiado — Isso não é ciúmes é?
— Claro que não. — desconversei — Só estranhei, nenhum dos dois ter comentado comigo.
— Olha, para não ficar com coisas na cabeça, saiba que nossas conversas masculinas são saudáveis. — contou.
— Não precisa me dizer Finn.
— Só quero manter a boa amizade de ambos. — brincou ele.
— Se continuarmos com esse assunto eu descolo uma namorada para você aqui e agora. — brinquei de volta.

Nós rimos.

— Me tira a curiosidade, o que tem nessa pasta? — perguntei.
— Ah, meu plano de negócios e alguns desenhos da nova cafeteria. — explicou ele voltando a ficar empolgado — Eu apresentei mais cedo para o investidor. Bem, sendo honesto com minhas melhor amiga, uma investidora.
— Hum… — o olhei tentando reproduzir um dos olhares maliciosos de Sophie para ele.
— Não me olhe assim . — ele já se adiantou — Não quero romances sabe que meu coração está fechado. Isto é puramente profissional.
— E o que pretende fazer com o Liberdad? — perguntei.
— Ela disse que está disposta a investir se elevarmos o nível do Liberdad, ela quer ficar a frente do cardápio, por ser formada em gastronomia ou algo assim. — explicou — Fiquei impressionado, seu namorado conhece muita gente em Manhattan.
— Bem, ele é arquiteto, deve ser pelo trabalho dele.
— E vou te falar, ele é um arquiteto muito elogiado e requisitado. — contou meu amigo.

Era intrigante isso. Finn saber mais sobre que eu mesma, o que me assustava um pouco.

— Que louco não é. — sussurrei.
— Eu fui até o escritório onde ele trabalha perto da Estação Central, o lugar era bem bonito e moderno. — continuou contando sua descoberta — Uma recepcionista lá disse que ele costuma a trabalhar em casa e mandar os projetos por email, pois não gosta de ser incomodado no momento de inspiração dele.
— Uau. — aquilo era ainda mais intrigante.
— Como sabe que ele é muito requisitado? — perguntei.
— Um escritório em área nobre com uma estrutura daquelas, se esse seu vizinho não foi rico, ele está escondendo alguma coisa. — declarou com franqueza — Vocês conversam sobre isso ou é mais físico o relacionamento de vocês?
— Finn, olha a sua pergunta?! — o repreendi.
— Como se a gente já não tivesse conversado sobre coisas muito mais íntimas sobre mim e minha ex. — ele cruzou os braços me olhando sério.

Finn era como Sophie, o irmão que sempre quis ter. Nosso nível de intimidade era alto como com Sophie, mas ainda tinha meus segredos não revelados a ele.

— Bem, eu… Ainda estamos nos conhecendo. — confessei a ele — E no mais, vai ser real até quando eu quiser.
— Oi?
— Ah… — tinha me esquecido que essa parte da história Finn ainda não sabia.

Eu tinha confiança de contar este segredo a ele. Assim como Sophie, no momento em que meu amigo conheceu Carl, ele de cara desaprovou. Contei toda a história “” para ele, desde o dia em que o vizinho se mudou até a manhã anterior com o café preparado por ele. Finn riu bastante de várias partes, principalmente dos meus questionamentos sobre ele saber cozinhar.

— Você está apaixonada por ele, consigo ver nos seus olhos. — ele riu de novo.
— Sophie disse a mesma coisa. — afirmei.
— E está esperando mais o que mara mostrar ao ridículo do Carl que você está muito mais feliz sem ele? — Finn ficou sério, mantendo a serenidade no olhar.
— Estou pensando sobre isso, mas antes preciso conversar com primeiro. — disse.
— Hum…

Ele abriu a pasta e começou a me explicar o novo plano de negócios dele. Mostrou as alterações que a investidora tinha proposto e com brilho nos olhos o contrato que assinou com ela. Para mim, meu amigo estava indo rápido demais, entretanto, no mundo dos negócios tudo era assim. Me despedi dele, após receber uma mensagem de Joseph no celular, dizendo que tinha pedido pizza para o jantar.

Quando cheguei em casa, comi os restos mortais da pizza que encontrei no forno e segui para o segundo andar. Sunny estava dormindo já, minha joaninha havia tido um dia cansativo com os ensaios da sua apresentação. E eu tinha chegado tarde em casa e teria que passar a madrugada revisando um artigo que estava escrevendo para o caderno da mulher.

Parei na porta do quarto de Joseph e fiquei o observando jogar. Caminhei até ele lhe dei um beijo no topo de sua cabeça. Logo meu filho retirou o headfone do ouvido.

— Boa noite mãe. — disse ele mantendo os olhos no monitor.
— Boa noite querido, não vá dormir muito tarde. — o alertei — Amanhã você tem a prova de direção.
— Não se preocupe, vou passar de primeira. — disse ele confiante.
— Eu sei disso. — me afastei dele e segui para porta.

Saí do seu quarto fechando a porta e entrei no meu.
Caminhei até o banheiro tomei um banho quente e coloquei uma roupa mais leve. Ao passar pela janela, vi o vizinho parado no quintal de sua casa, olhando para cerca quebrada. Será que ele estava planejando bater na porta. Coloquei um casaco de crochê e desci as escadas. Saí para o quintal e parei em frente a cerca, o olhando com seriedade. Ele sorriu de canto com meu gesto e caminhou até sua casa, entrando.

Fiquei em choque a primeiro momento, mas me movi indo até lá. Entrando em sua cozinha, ele permaneceu encostado na ilha de braços cruzados me olhando sério também. Respirei fundo, tinha não só que enfrentar ele, mas também meus medos internos de sofrer novamente.

— Boa noite. — disse ele.
— Boa noite. — respondi.
— Deseja alguma coisa?! — perguntou ele.
— Precisamos conversar. — fui direta — Você disse real até quando eu quiser, não disse?
— Sim, e não volto atrás na minha palavra. — sua voz firme me estremeceu.
— Eu não conheço você, como podemos fazer isso ser real? — indaguei — Eu tenho dois filhos e preciso pensar neles.
— O que quer saber sobre mim? — ele foi mais direto ainda — Basta perguntar.

Aquilo me pegou de surpresa. Era louco a forma com que ele tratava tudo naturalmente.

— Por que eu?! — essa era minha maior curiosidade — Você pode ter a mulher que quiser.
— E por que eu não posso querer ter você? — retrucou ele se afastando da ilha e dando alguns passos até mim — Me responda. E não diga que é por ser mais velha que eu, nem por ter dois filhos.
— Eu… — me senti desnorteada com a sua aproximação.
— Não tem argumentos para se impedir de ser amada por mim. — continuou ele se aproximando mais.

Eu já não sabia onde estava minhas forças para resistir a ele. E talvez nem me importaria mais saber porque ele estava interessado em mim. Ele segurou em minha cintura me aproximando mais dele e me beijou com intensidade. Rendida fiquei em seus braços, sentindo meu corpo acompanhar a investida dele. Então me afastei de repente, um pouco assustada com aquilo.

— Desculpa, eu… — respirei fundo, retomando o fôlego.
— Não se preocupe, eu entendo. — ele se manteve próximo, com os braços envolvidos em minha cintura — É tudo muito novo para você.
— Sim. — sussurrei tentando absorver tudo aquilo.

Com certeza essa parte da história não iria alimentar a fanfic de Sophie. Ri baixo de leve.

— O que foi?! — perguntou ele.
— Nada. — disse — Um pensamento bobo.
— Hum… Estou curioso me diga o que é. — insistiu.
— Sophie disse que nosso relacionamento é uma fanfic. — comentei — Mas não conte a ela que te falei.
— Segredo nosso. — seu olhar passava confiança para mim.
— Estou começando a acreditar que ela tem razão. — brinquei.
— Até quando você quiser. — sussurrou ele em meu ouvido me fazendo arrepiar.

Assenti com a face.

Lewis. — disse ele me olhando com serenidade — Este é meu nome completo.
— Lewis. — sussurrei.
— Sim. — ele sorriu — Tenho 25 anos e estou apaixonado por você, e quero que passei o natal comigo e minha família.
— O natal?! — fiquei surpresa.
— Você não quer saber sobre mim?! — perguntou ele.
— Quero mais… — respirei fundo — Eu nem sei como reagir a isso, não posso deixar meus filhos e passar o natal com sua família.
— Eles virão com a gente. — disse ele — , eu sei que seus filhos são uma parte importante da sua vida, jamais vou me colocar entre vocês.
— Isso não é um sonho, não é? — perguntei.
— Não, é real até quando quiser. — ele riu se afastando de mim — Mas, quero que cozinhe para mim hoje.
— Por que será que já imaginava que pediria isso. — eu ri junto.
— Acredite ou não, você fica mais sexy enquanto cozinha. — ele me olhou com malícia.

Será que esse era o propósito da sua sugestão do acordo? Me ver cozinhando para ele?

— Seu safado. — sussurrei fazendo ele rir mais.

ficou encostado no beiral da janela, me observando cozinhar. Alguns minutos depois comigo ainda preparando tudo. O celular dele tocou.

— Sim. — disse ele ao atender — Eu já resolvi este problema, Cedric foi para Seattle hoje pela manhã, mas deve chegar aí antes do natal, ele tinha outra coisas para resolver antes.

Ele ficou em silêncio ouvindo.

— Sim, estou me alimentando direito, e farei isso daqui a pouco. — disse ele novamente.

Eu sabia que era uma resposta saudável, mas porque aquilo me soou em um maldoso duplo sentido?

— Sim, ando com muitos projetos atualmente em Manhattan, mas existe um em especial que… — eu estava de costas e fui sentindo ele se aproximar mais de mim — Me impede de ir ver vocês, não posso dizer agora que projeto é esse, mas posso dizer que estou extremamente concentrado nele.

tocou em minha cintura, e no susto eu deixei a colher em minha mão cair. Eu ouvi uma risada vindo dele e o olhei séria. Mas aquele olhar para mim me derretia facilmente. Peguei a colher do chão e lavei na pia. Desliguei a trempe do fogão e disse em sussurro que o seu jantar estava pronto.

Me afastei para sair de lá, porém ele mesmo ao telefone, me segurou pela mão e me puxou para perto.

— Te ligo amanhã. — disse ele encerrando a ligação.

Seu olhar intenso se manteve em mim de uma forma arrasadora.

— Hoje você janta comigo. — disse ele.

Eu não tinha nem mesmo reação para recusar. Só conseguia pensar na bendita frase: Real até quando eu quiser.

Eu evito o seu olhar fingindo que não estou interessado em você,
Veja bem, eu preciso arriscar tudo que tenho.
Só para passar por você, oh yeah,
Você é tão diferente das outras mulheres.
- Lotto / EXO



10. S.O.S

Na manhã seguinte, me ponderei em não comentar sobre o jantar na casa de . Mesmo Joseph me olhando desconfiado no café da manhã. Eu me sentei à mesa com meus dois filhos e joguei limpo sobre tudo o que estava acontecendo. Não podia mentir para eles.

— Então, a senhora fez um trato com o vizinho antes, e agora o namoro que era falso se tornou real? — disse Molly tentando absorver toda a história.
— Basicamente isso querida. — voltei meu olhar preocupado para Joseph.
— Desde quando a senhora pensou que o namoro falso continuaria falso até o final? — perguntou Joseph — Sei que é clichê o que vou dizer, mas os filmes de comédia romântica estão aí para comprovar o que falo.
— Joseph?! — o repreendi.

Já me bastava Sophie insistindo que minha vida era uma fanfic, meu filho querendo transformar em romance de hollywood era demais para mim.

— O Joe está certo mamãe. — Molly me olhou de forma sapeca — E o vizinho também gosta da senhora?
— Ao que tudo indica, sim, ele se confessou para mim ontem. — respondi com firmeza.
— Por isso jantou com ele? — indagou Joseph.
— E sim, e ficamos somente no jantar. — assegurei a eles.

Claro que os olhares de para mim indicavam segundas intenções, mas o deixei isolado em seu canto e voltei para minha casa após comermos o que tinha preparado.

— E vai se casar com ele? — perguntou Molly — Vou ter mais irmãos?
— Molly? — a repreendi — Não seja tão rápida querida, relacionamentos não são assim.
— A senhora se casou com o papai grávida do Joe. — argumentou ela.
— Não quer dizer que vá se repetir dessa vez também. — assegurei a ela.

Confesso que tinha traumas a respeito disso. E nem mesmo queria pensar sobre o assunto.

— Vamos tomar nosso café antes que esfrie. — alertei.

As semanas se passaram e finalmente o tão esperado concurso de talentos de Molly chegou. Minha joaninha estava linda com o figurino presenteado por Sophie. Minha amiga me ajudou a prepará-la e juntas seguimos em seu carro para escola. Enviei uma mensagem para Carl o lembrando que tinha uma filha, por isso era necessário sua presença lá. Estranhei não ter visto desde a manhã, a casa estava fechada e ele não havia me enviado nenhuma mensagem.

Quando chegamos na escola, a professora de Molly a levou para o backstage improvisado atrás do palco do auditório, recém reformado. Me sentei na primeira fileira com Sophie e ficamos esperando. Mais pais e alunos foram chegando e se acomodando também. Fiquei olhando em volta, procurando por ele, voltei meu olhar para a tela do telefone esperando por pelo menos uma ligação.

— Não acredito que está assim por que aquele inútil do Carl não apareceu. — resmungou Sophie.
— Não, meus olhos procuram outra pessoa. — assegurei a ela.
? Já chegamos nesse nível? — ela me olhou com malícia.
— Não começa Sophie. — fiquei um pouco insegura, será que ele havia se esquecido.

Minutos depois a diretora apareceu dando início as apresentações. Olhei para um grupinho de adolescentes à esquerda e Joseph estava no meio, certamente era mais divertido estar com seus amigos do que com a mãe e sua amiga doida. Carl para minha surpresa chegou duas apresentações antes da de Molly. Assim que minha joaninha se apresentou, não me segurei de orgulho e fui às escondidas para o backstage. Ser conhecida da diretora tinha suas vantagens.

— Minha joaninha, você arrasou! — disse a ela a abraçando apertado — Vai ser próxima estrela da Disney!
— Sério mamãe!? — ela abriu um sorriso largo de felicidade.
— Sim, você foi impecável. — pisquei de leve para ela.

Eu a abracei mais um pouco e voltei para meu lugar. Meus elogios foram confirmados assim que as apresentações se encerraram e Molly ganhou o segundo lugar, perdendo somente para um menino de talento vocal que cantou Amazing Grace com uma voz maravilhosa. No pátio da escola, Sophie a parabenizou mais um pouco e Carl se aproximou de nós.

— Olá joaninha, parabéns. — ele abraçou a filha — Me deixou orgulhoso.
— Obrigada papai. — ela retribuiu o abraço — Da próxima vez vou ganhar o primeiro lugar.
— Disso eu não duvido. — disse Sophie confiante.
— Oi . — Carl me olhou sério, seu olhar estava estranho.

Ele se moveu para se aproximar mais de mim, porém algo fez seu corpo travar.

— Desculpe não ter me sentado com você, querida. — apareceu do meu lado e me deu um selinho, deixando seu braço direito me envolver pelas costas e segurando em minha cintura — Mas vi tudo das portas do fundo.
— Fiquei preocupada que não tivesse conseguido vir. — disse sentindo-me meio tensa pelo gesto dele.
— Oi Carl. — o olhou com tranquilidade.

Vi os olhos de Carl ferver de raiva.

— Preciso voltar ao escritório. — disse ele ao se afastar de nós — Te vejo amanhã joaninha.

Ele nem esperou Molly se despedir direito e sumiu entre as pessoas que estavam por lá.

— Nossa, o que um vizinho não faz. — Sophie falou em voz alta, mas só depois percebeu isso.

Meu olhar foi atravessado para ela.

— Desculpa, me escapou. — ela soltou uma gargalhada maldosa.
— Sem problemas. — me olhou — Está tudo bem?
— Sim. — assenti.
— Então, posso convidá-las para o almoço? — perguntou ele.
— Claro. — Sophie se adiantou de responder em meu lugar, só depois ela reparou meu olhar de desaprovação para ela — Se a quiser é claro.
— Vamos sim, vou chamar o Joseph. — disse me afastando deles.

Foi bom e proveitoso deixar que se entrosasse e se apresentasse mais formalmente aos meus filhos. Com a ajuda de Sophie o ambiente ficou descontraído e divertido. Joseph tinha descoberto em nosso vizinho um possível rival para jogar FIFA, Street Fighter e Mortal Kombat com ele. O que me chocou muito ao saber que era fã de alguns games desde a infância. Mas claro, ele ainda era jovem, não tinha nada de mal nisso. 

O final de semana passou rápido. Segunda pela manhã estava eu terminando meu artigo sobre câncer de mama, para a edição especial de aniversário do Caderno Mulher. 

— Você vai precisar de mais alguma ajuda? — perguntou Lizzi assim que me entregou a pesquisa que tinha feito para mim.
— Não, eu vou inserir sua pesquisa após o almoço e apresentar ao chefe. — disse a ela, desligando o monitor do computador e pegando minha bolsa.
— Não vai almoçar com a gente? — perguntou Sunny.
— Não, hoje tenho outro compromisso. — sorri de leve para elas.

Eu não ia comentar ali na redação, mas meu almoço seria com . Quando saí do prédio do jornal, ele já me aguardava com sua moto. Coloquei o capacete e montei na garupa, já estava me habituando aquela sensação de liberdade. Chegamos em frente a um edifício bonito e moderno. Logo me lembrei do que Finn comentou sobre seu escritório de arquitetura. Minha suposição foi confirmada assim que descemos da moto e na recepção fomos recebidos pela secretária dele.

me mostrou todo o lugar que tinha sido projetado por ele e construído pela construtora da família. Surreal para mim confirmar que ele realmente tinha uma família aparentemente rica. era tão humilde e simples, principalmente no jeito de se vestir e a educação e gentileza que tratava as pessoas. A maioria dos ricos de Manhattan que conhecia, eram esnobes. Ele desviava totalmente disso.

— E aqui é minha sala. — disse ele ao entrarmos.

Moderna, minimalista e aconchegante. Era tudo que eu conseguia notar e descrever. O espaço também era amplo e muito bem aproveitado com a disposição dos móveis.

— Você gosta mesmo do conceito menos é mais. — comentei.
— Conhece Mies Van Der Rohe? — perguntou ele.
— Sou jornalista, tenho que conhecer um dos maiores arquitetos da história. — expliquei a ele.
— Tem arquitetos que não o conhece. — ele riu, depois ficou sério — Agora conhece metade de mim. 
— Não, eu diria que conheço 35% apenas. — o corrigi.
— Só 35?! — ele se fez de indignado — Você não sabe o quão é difícil alguém entrar nessa sala?
— Não, mas gostei de saber agora. — eu sorri para ele — Fico feliz em poder te conhecer.
— Quando vou poder conhecer suas amigas do jornal? — perguntou ele se aproximando mais de mim.
— Em breve. — eu barrei sua aproximação com minha mão — Antes preciso preparar o terreno.

Brinquei. Ele sorriu de canto e pegando em minha mão, me puxou para perto e me beijou com suavidade. Em segundos fomos cortados por sua assistente que entrou para avisar que nosso almoço tinha chegado. respirou fundo e pediu para que trouxesse em sua sala. Nosso cardápio foi comida japonesa. Fazia tempos que não comia.

Ele quis me levar de volta para o jornal, porém não deixei. Segui de táxi e na redação, terminei meu artigo. Assim que imprimi tudo, fui até a sala do chefe para lhe apresentar o que tinha escrito. Notei que ele tinha mudado toda a decoração da sala e estranhei. Foi então que o inimaginável me aconteceu.

— Eu venho lhe observando senhorita Miller. — disse Frederick ainda sentado em sua cadeira — Você é uma mulher muito interessante e atraente, para ser apenas divorciada.
— Me desculpe a franqueza senhor, mas gostaria que mantivesse o profissionalismo, minha vida privada não lhe diz respeito, e se acha algo sobre mim que não seja sobre o que escrevo, guarde para si. — fui seca e rigorosa nas palavras.
— E vejo que é reservada também. — ele se levantou da cadeira e se aproximou de mim — É uma pena que tenha falado assim, com as palavras certas pode ser uma mulher muito interessante, poderia ter tudo o que quiser nessa redação.

Senti meu corpo ferver de raiva por suas insinuações. 

— Eu só quero fazer o meu trabalho. — disse mostrando o artigo em minhas mãos.
— Que pena. — ele se aproximou mais e tocou em minha face.

Senti meu corpo paralisar de repente, nunca tinha acontecido isso comigo.

— Eu poderia dar uma chance ao seu caderno. — ele foi se aproximando mais e mais até que tentou forçar um beijo.

Eu consegui me desviar dele e empurrei, então lhe dei um tapa em seguida.

— Nunca mais toque em mim. — disse nervosa e com medo do que ele pudesse me fazer.

Ele arrancou o artigo de minha mão e o rasgou em minha frente o jogando no cesto de livro depois.

— Isso é o que faço com mulheres como você. — disse ele com arrogância — Saia da minha redação.
— Com prazer. — disse me afastando dele e saindo pela porta.

Corri para o banheiro feminino e só então que meu lado emocional reagiu e eu desabei a chorar. Estava novamente desempregada. Tinha passado por uma situação horrível. Não queria me sentir vulnerável novamente, mas era assim que me sentia. Logo as meninas apareceram preocupadas comigo. No início me neguei a dizer o que tinha acontecido, não queria que nenhuma delas se prejudicassem. Mas se eu me calar, poderia acontecer com elas também. Contei tudo o que aconteceu. 

Lizzi ficou tão nervosa e com raiva que queria ir na sala de Frederick para socar sua cara. Mas não a deixaria fazer isso, a vida se encarregaria de dar o troco para ele. 

— Isso não pode ficar assim. — disse Sunny revoltada também.
— Vou apresentar minha carta de demissão, mas antes farei a denúncia de assédio. — assegurei a elas — Mesmo que não dê em nada, farei a minha parte em denunciar.
— Estamos com você. — Beth me abraçou novamente — E vou me demitir também.
— Beth, e seu estágio? — a olhei preocupada.
— Como posso trabalhar em um lugar com um sádico como esse? — ela tinha razão — Não me importo, depois arrumo outro.
— Eu também. — disse Sunny — Não fico aqui sem a .
— Contem comigo. — disse Hill.
— Mexeu com uma, mexeu com todas. — finalizou Lizzi.

Eu olhei para elas emocionada. Seguimos juntas para o RH do jornal. Fiz minha denúncia, dei meu depoimento e também registrei a ocorrência na delegacia depois. Mandei uma mensagem a Sophie explicando resumidamente o que tinha acontecido e falando da demissão. Ela pediu que eu passasse em sua casa mais tarde. Ao final da tarde entregamos nossa carta de demissão e juntamos nossas coisas. Hill estava de carro, colocamos tudo em seu porta-malas. Ficamos um tempo sentadas nos bancos da recepção do prédio, olhando o tempo passar.

— E agora?! — perguntei.
— Vamos comemorar. — sugeriu Lizzi — Abriu um bar aqui perto maravilhoso.
— Hum… Ouvi falar que é muito bom mesmo. — disse Sunny — Vamos comemorar nossa demissão.
— Viva!! — disse Beth animada — Quem sabe não é um sinal, azar nas finanças sorte no amor. 

Brincou ela nos fazendo rir.

— Não seria azar no jogo? — corrigi ela.
— Na fase que eu ando, tá dando no mesmo. — assegurou ela.

Nós rimos novamente. Entramos no carro de Hill e seguimos para o lugar proposto por Lizzi. Assim que chegamos, estava cheio de gente na fila de entrada. Curiosamente Lizzi conhecia um dos seguranças, que nos deixou entrar facilmente. Tinha muita gente dentro e só era sete da noite. Elas pareciam despreocupadas por nossa condição financeira atual, porém eu só conseguia pensar nas contas chegando no final do mês comigo sem saber como pagar.

— Vamos fazer um brinde. — propôs Lizzi ao levantar seu copo.

Elas tinham pedido algumas bebidas, e eu fiquei a água de coco, a única coisa além de água normal que não tinha álcool. Alguém tinha que se manter sóbria ali. 

— Vamos. — concordou Beth em sua segunda dose de gin.
— Ok. — levantei meu modesto copo e brindei com elas.

Lizzi, Sunny e Beth logo se levantaram e foram para pista de dança improvisada. Hill permaneceu sentada ali na mesa, jogando olhares para um jovem do outro lado do bar. Me senti meio desconfortável assim que o jovem se aproximou de nós e começou a conversar com ela. Me levantei discretamente da mesa com a desculpa de pegar mais água de coco.

— Obrigada. — disse assim que o barman me atendeu e se afastou.

Me sentei na banqueta e fiquei olhando a todos. Em todas as vezes que frequentei lugares assim, era sempre com Sophie e as outras. Estava sendo uma experiência louca sair com as meninas do jornal. Agora elas já estavam em minha vida, e tinham se tornado amigas para mim. 

— Oi gata. — disse um homem ao se aproximar de mim.
— Me desculpe, falou comigo? — o olhei confusa.
— E com quem mais seria? — ele sorriu — Vejo que suas amigas te deixaram sozinha.
— Não estou sozinha.
— Tem certeza. — ele se aproximou mais e eu levantei da banqueta de afastando dele — Adoraria que não se aproximasse.
— Que isso, só estou aqui para conversar. — disse ele ao segurar em meu braço.
— Algum problema aqui? — perguntou o barman vendo que eu estava incomodada com a insistência do homem — Anthony.

Então este era o nome do sujeito. Para o barman saber o nome, é porque ele era mesmo causador de confusão.

— Não. — respondeu Anthony para ele.
— Agradeço. — olhei para o barman — Eu estava indo ao banheiro.

Me afastei dele e entrei no banheiro feminino. Me tranquei em um reservado e retirando o celular da bolsa...

. — disse quase sussurrando.
?! Que barulho é esse? Está tudo bem?
— Não.
O que houve?
— Eu estou em um bar, minhas amigas do trabalho me trouxeram, estamos em uma comemoração, mas sinto que não deveria ter vindo.
Aconteceu alguma coisa?
— É que elas se apartaram de mim e um homem estranho se aproximou, eu tentei dispensar ele, mas ele parece não entender que eu não quero. — senti um certo desespero em minha voz — Eu quero ir embora, mas estou com medo dele me seguir até em casa e…
Eu vou te buscar. — disse me interrompendo — Onde você está agora?
— Dentro do banheiro feminino.
Me mande o endereço pelo whatsapp, chego em dez minutos. — ele encerrou a ligação.

Mais que depressa eu digitei o endereço e enviei a ele. Contei os dez minutos e saí do banheiro. Olhei entre as pessoas, aparentemente o cara chato tinha desaparecido, voltei para o bar assim seria mais fácil de me encontrar. Assim que me sentei na banqueta, o homem inconveniente chamado Anthony apareceu novamente.

— Aí está você! Achei que tivesse te perdido. — ele se sentou na banqueta ao lado — Posso te pagar uma bebida agora?
— Não, obrigada. — recusei — Eu não bebo.
— Há sempre uma primeira vez gata. — ele esticou a mão direita para me tocar, porém foi parado por outra mão.
— Desculpe a demora querida. — a voz firme de soou perto do meu ouvido, assim como sua outra mão tocando em minha cintura.

Eu não sabia se ficava aliviada de ouví-la, ou estremecida pela entonação.

— Seu amigo está te incomodando? — manteve seu olhar sério para o homem, que se soltou dele — Venha, vamos para um lugar mais tranquilo.
— Sim.

deslizou sua mão por minhas costas e pegou em minha mão, me guiando para fora daquele lugar.

— A fila ainda está enorme. — disse assim que saímos e pude observar melhor a frente da Moonlight Club — Como conseguiu entrar?

Perguntei curiosa.

— Eu conheço o dono daqui, tenho o meu nome na lista vip. — respondeu com propriedade.
— Sério?
— Fui eu que fiz o projeto desse prédio, ele é um cliente antigo. — explicou ele.
— Falando assim, parece até que você tem 40 anos de profissão. — brinquei.
— Eu não, mas meu pai sim. — ele riu. 
— Ele é arquiteto também?
— Não, ele é engenheiro civil. — ele sorriu de leve — Não precisa me contar o motivo de estar aqui se não quiser.

Um frio veio na minha barriga com ele falando assim. Será que Sophie tinha dito algo.

— Posso te contar depois? — perguntei.

permaneceu em silêncio, pegou o seu capacete e colocou, depois me entregou o outro.

— Vou te levar para casa. — disse ele montando na moto.
— Bem. — eu mantive o capacete em minha mão — Eu não queria ir para casa agora.
— Para onde quer que eu te leve? — perguntou me olhando.
— Não sei, mas estou aberta a sugestões. — respondi colocando o capacete.
— Sobe aí. — ele deu um sorriso meio malicioso que me deixou apreensiva, mas assenti assim mesmo.

Com o coração acelerado.

 

Mostre seu lado selvagem,
Isto é legal e penetrante,
Meu garoto. Tirem os garotos do sério! 
- The Boys / Girl's Generation



11. Chef Lewis

Mesmo com o capacete, conseguia sentir a brisa passar por mim naquela moto. continuava a acelerar mais e mais, consequentemente eu me agarrava mais nele. Acho que era proposital, pelas suas risadas baixas a cada vez que puxava sua jaqueta. Não senti o tempo passar, mas notei que demorou até que ele tomasse uma direção certa e chegamos ao destino final.

Ao descer da moto e retirar o capacete, me deparei com um restaurante fechado. Estranhei a primeiro momento e fiquei insegura de entrar. deixou a moto próximo à entrada e me olhou intrigado. Certamente ele percebeu minha insegurança.

— O que foi? — perguntou ele — Não precisa ficar com medo.
— Lembra dos 35%? — comentei com ele, meu olhar estava mesmo confuso e estranho, admito.

Ele riu com suavidade e segurou a minha mão.

— Olha, se eu fosse um psicopata e fosse te matar, não seria aqui, pode ter certeza. — ele riu mais da minha cara — Você disse que eu poderia escolher.
— Mas não imaginei que me traria em um lugar assim. — retruquei.
— Que namorada mais exigente. — brincou ele me fazendo rir agora — Me deixe te surpreender.

Assenti com a face e o deixei me guiar para dentro do lugar. Meu coração acelerou um pouco ao passarmos pela porta. A parte da recepção e o salão com as mesas parecia em reformas, com várias coisas fora do lugar, empoeirado e tudo revirado. Mas quando chegamos na cozinha, parecia outro lugar. Nunca imaginei que uma cozinha industrial pudesse ser tão linda, limpa e majestosa. Digna dos melhores chefs franceses.

— Uau. — disse olhando ao redor.

Por mais que em minhas veias havia sangue de jornalista, o universo da gastronomia conseguia me envolver de uma forma inexplicável. De repente me deu uma louca vontade de cozinhar ali.

— Eu… — se pronunciou ele me fazendo sentar em uma banqueta ali perto — Quero que fique aqui e me observe.
— O que vai fazer? — perguntei curiosa.
— Vou cozinhar para minha namorada. — ele sorriu de canto — Ela ficou com ciúmes de algumas panquecas que fiz para suas amigas.

Eu soltei uma gargalhada espontânea. Não acreditava que ele estava mesmo fazendo aquilo. era um sonho, um sonho que me deixava com medo de acordar para a realidade em minha vida.

— Hum… — mordi o lábio inferior o observando se afastar e colocar o avental branco — Surpreenda-me chef Lewis.
— Com prazer bella senhorita! — ele sorriu e voltou sua atenção para umas sacolas ao canto da geladeira.

Me debrucei sobre a bancada de trabalho de aço inox e fiquei o olhando. havia me dito que eu ficava sexy enquanto cozinhava. Ele não tinha noção do que me causava naquele momento. Um homem como ele cozinhando para mim era mais do que sexy. Se Sophie entrasse em minha mente agora para ver meus pensamentos pecaminosos, diria que estava lendo uma de suas fics restritas mais obscuras. 

Acho que deveria me comportar internamente.

— Você está bem silenciosa. — comentou ele enquanto fatiava em lâminas o pedaço de peito de frango.

O que será que ele planejava preparar?

— Estou apreciando a paisagem. — brinquei de forma ousada.
— Hum… — ele sorriu de canto mantendo o olhar no que fazia — Se eu soubesse que gostava dessa paisagem, tinha feito a mais tempo.

Não diga isso… Não alimente minha imaginação… Isso não ajuda.

— O que você pretende com isso?! — cruzei os braços o olhando.
— Te proporcionar as melhores noites da sua vida. — ele parou o trabalho com as mãos e me olhou.

Aquele olhar intenso e malicioso, que me deixava sem fôlego e ao mesmo tempo assustada.

— Se ficar me olhando assim, vai atrasar o jantar. — brinquei com ele.
— Temos a noite toda pela frente. — ele se afastou da bancada e se aproximou de mim — A não ser, que tenha outros planos para amanhã de manhã.
. — o parei com minha mão.
— Do que está com medo? — perguntou ele deixando o olhar mais suave.
— Não estou com medo de nada. — sorri de leve.

Ele segurou em minha mão e tomando impulso, me beijou de surpresa. Rendida, retribui o beijo e mantive meu rosto próximo ao dele depois. Meu coração acelerado e meu corpo trêmulo.

— O jantar. — sussurrei.

Ele riu com leveza e se afastou.

— Da próxima vez, será na minha casa. — alertou ele — Assim, não terá como fugir de mim.

Ele manteve um sorriso presunçoso no rosto e continuou a cozinhar. Em poucos minutos, o lugar todo foi tomado pelo aroma atrativo dos temperos que utilizava. Ele parecia conhecer bem cada uma das técnicas que utilizava, o que me intrigava um pouco. Desde quando sabia cozinhar com a perfeição de um verdadeiro chef de cozinha?

— Estou curiosa agora. — comentei o olhando colocar as batatas ao forno para gratinar, regadas a azeite grego e vinho branco.
— Sobre? — indagou.
— Onde aprendeu a cozinhar. — expliquei a ele — A forma que prepara as coisas, não é de uma dona de casa comum como eu.

Brinquei com a colocação.

— Quer saber mais 5% sobre mim? — brincou ele.
— Quero.
— Minha mãe é chef, e dona deste restaurante. — contou ele com tranquilidade.

Meu corpo gelou quando ele usou a palavra mãe. O que me lembrou de seu convite para o natal. A insegurança voltou, ao pensar em como sua mãe reagiria a mim. Particularmente, eu não seria contra Joseph se relacionar com uma mulher mais velha. Claro que somente após a maioridade. Entretanto, nem todas as mães são compreensíveis e apoiam as escolhas dos filhos, como eu.

— Sua mãe… — respirei fundo.

Agora me sentia uma colegial assustada.

— Não precisa ficar nervosa, minha mãe é uma pessoa legal. — contou ele — Ela está abrindo esta filial aqui em Manhattan, mas vai continuar na matriz em Los Angeles.
— Hum… — me encolhi um pouco.

Agora estava explicado suas habilidades com a cozinha. E ainda teve coragem de dizer que nosso acordo de eu cozinhar para ele, era por me achar sexy de avental. Mercenário.

— Quer aproveitar para perguntar mais alguma coisa? — continuou ele, concentrado no que fazia.
— Tem irmãos? — perguntei.
— Alguns… Talvez…
?!

Ele riu de mim.

— Só vai conhecer minha família, se vier para nosso natal. — assegurou ele.
— Isso é uma chantagem?! — perguntei indignada.
— Bem… — ele me olhou — Chantagem seria se eu me recusasse a te beijar se caso não fosse comigo, mas não sei se resistiria assim.

Ele sorriu com malícia.

— Você é irresistível. — afirmou com firmeza.

Meu coração acelerou um pouco com aquilo.

— Termine logo nosso jantar, estou ficando com fome. — disse mudando de assunto.

Ele riu de mim e continuou. De entrada, saboreamos salada caesar com croûtons, o prato principal contou com filé de frango à parmegiana, com arroz e batatas gratinadas. Tinha que admitir, ele cozinhava bem. Se aprendeu com a mãe, posso afirmar que se igualava ao meu filho Joseph no aprendizado.

— Então? — perguntou ele.
— Congratulations. — sorri de leve para ele — Foi bom enquanto durou.
— Pode durar o tempo que quiser. — ele sorriu de volta para mim — Eu sou todo seu, e posso ser a sobremesa.

Senti meu corpo arrepiar de leve, e respirei fundo. O olhar de não ajudava nem um pouco. Ele se aproximou mais para me beijar, porém meu celular tocou na hora. Era uma chamada de casa. 

— Joseph?! — disse ao atender.
Mãe, tem algo de errado com a Molly, ela está passando mal. — disse meu filho mantendo a calma, mas com um tom preocupado.
— O que ela está sentindo? — perguntei já me preocupando.
Ela está vomitando desde a hora que cheguei da escola, e está com febre também. — explicou.
— Joseph, pegue os documentos da sua irmã e os seus, chame um táxi e leve ela ao hospital agora. — ordenei já me levantando da banqueta e pegando minha bolsa — Eu encontro vocês lá.
Tudo bem. — assentiu meu filho.
— O que aconteceu? — perguntou , assim que encerrei a ligação.
— Molly está passando mal, preciso ir. — expliquei a ele.
— Eu te levo. — disse pegando os capacetes.

Assenti sem hesitar. Eu tinha que chegar o mais rápido possível no hospital. Ele manteve a velocidade alta, se assegurando dos perigos do trânsito. Quando chegamos no hospital, Joseph também chegava com a irmã. 

— Joaninha, o que está sentindo? — perguntei ao pegá-la no colo — Mamãe está aqui!
— Minha barriga dói. — disse ela em sussurro.
— Vamos levá-la para dentro. — disse ao cumprimentar com o olhar meu filho.

Assenti e entramos.
O médico pediatra de plantão nos atendeu prontamente. Para minha surpresa sempre, ele conhecia . O dr. Collins era simpático e educado, muito eficiente e conseguiu deixar Molly calma diante dos exames que teve que submetê-la. O diagnóstico final foi intoxicação alimentar. A forma que seu corpo encontrou para repelir e combater, foi através dos vômitos e da febre. Eles fizeram um breve procedimento de lavagem estomacal para limpar todos os vestígios restantes. Meu coração se partiu ao vê-la tão amuadinha com tudo aqui.

— Bem, esta mocinha vai ficar no soro por esta noite e amanhã se estiver tudo bem com ela, poderá ter alta. — disse o dr. Collins ao escrever algo em seu prontuário.
— Mas ela está mesmo bem? — disse me mantendo ao lado de minha filha, deitada na maca.

Continuei acariciando os cabelos dela.

— Sim, o pior já passou. — assegurou o dr. — O fato dela ter vomitado foi nossa sorte, se as substâncias tivessem ficado mais tempo em seu organismo, o estrago poderia ser pior.
— Joaninha, não pode sair comendo as coisas sem saber se estão saudáveis. — eu a olhei com suavidade, mesmo tentando repreendê-la, estava com o coração apertado.
— Desculpa mamãe, eu estava com fome. — seu olhar choroso me deixou rendida.
— Está tudo bem agora. — lhe dei um beijo na testa — Mamãe vai cuidar de você.

Eu sorri para minha filha e pisquei de leve, então olhei para o dr.

— Agradeço pelos cuidados com ela. — disse um pouco mais aliviada.
— Dr. Collins?! — uma funcionária entrou no quarto — Me desculpe atrapalhar, mas preciso que um dos pais assinem os documentos de internação e atendimento.

Ela falou: Um... dos... pais? Voltei meu olhar assustado para . Será que ela achou que ele é o pai de Molly?

— Eu resolvo isso. — disse com firmeza — Fique com ela.

Ele saiu do quarto seguindo a funcionária para a recepção. Foi então que me lembrei toquei que não tinha plano de saúde e nem dinheiro para pagar as contas do hospital. Mais uma vez a realidade batia na minha porta de uma forma arrasadora. Engoli meu orgulho e revolta por minha situação financeira e enviei uma mensagem a Carl, dizendo o que tinha acontecido. Pedindo que viesse e pagasse a conta do hospital. 

Não demorou muito, até que ele chegou. Deixei Joseph com Molly no quarto e segui para a recepção. Me deparei com Carl e se encarando em silêncio.

— Agradeço por vir. — disse ao Carl.
— Eu sou o pai dela, é meu dever. — disse ele com o olhar prepotente.

Pelo menos tem consciência disso.

— Mas parece que outra pessoa pagou a conta antes que eu chegasse. — disse ele num tom raivoso.
?! — olhei para ele que se manteve ao meu lado.
— A recepcionista me pediu que pagasse antecipadamente enquanto preenchia a ficha. — explicou ele com tranquilidade.
— Me diga o valor que pagarei de volta. — disse Carl com sua arrogância.
— Não precisa, fiz isso pela . — retrucou .
— Ah, pela . — Carl riu de forma debochada.
— O que está querendo insinuar Carl? — perguntei a ele, já me irritando com aquele olhar superior.
— Agora entendo o motivo da minha filha estar internada. — disse ele.
— O que? — eu fiquei ainda mais perplexa — Você pode explicar melhor?
— Que belo papel de mãe, exemplar, agora estou vendo como cuida de nossos filhos, deixando Molly quase morrer intoxicada enquanto fica se agarrando com o vizinho da casa ao lado. — ele cuspiu suas palavras cheias de veneno.

Senti tomar impulso com seus punhos fechados. Certamente querendo socar a cara de Carl. Eu o impedi, colocando a mão em seu tórax, o parando no meio do caminho. Não queria causar uma confusão ali. Minha filha estava se convalescendo de um mal-estar.

— Deixa que eu resolvo. — assegurei a , então olhei para Carl — Minha vida particular não te interessa, e não interfere em nada no meu papel como mãe, é sim meu namorado, e posso afirmar que ele está bem mais presente na minha vida e na dos nossos filhos, do que você jamais esteve.

— Vai embora Carl. — disse num tom firme com ele — Assim que nossa filha tiver alta, te mando uma mensagem.

Ele engoliu seco, de punhos fechados, olhando a aproximação do segurança do hospital. Se virou e seguiu em direção a saída. Eu respirei fundo, me sentindo cansada. me amparou com seus braços e me abraçou forte.

— Está tudo bem. — sussurrou ele para mim — Estarei aqui até quando quiser.
— Obrigada — sussurrei de volta.

Eu decidi passar a noite com Molly e pedi para levar Joseph para casa. Na manhã seguinte, mandei uma mensagem para Sophie, Molly teria que passar mais algum tempo no hospital até que sua flora intestinal estivesse restabelecida. Mais uma dor de cabeça para mim. Sem emprego, com a filha internada. O mundo parecia querer desabar sobre minha cabeça.

— Amiga, vim assim que pude. — disse ela ao entrar no quarto de Molly.

Minha filha estava dormindo.

— Sophie. — caminhei até ela e a abracei — Eu não sei se aguento sobreviver a tudo isso.
— Calma amiga. — ela me abraçou forte — O que aconteceu? Você me falou um monte de coisas ao mesmo tempo, só consegui focar na Molly. Ela está bem?
— Sim, está. Felizmente está se recuperando bem. — respondi a ela.
— Vamos tomar um café? Sua cara avisa que precisa. — brincou ela ao sorrir para mim.
— Vamos, Molly ainda está dormindo, vou pedir a enfermeira para observá-la. — assenti.

Seguimos para a cafeteria do hospital e sentamos em uma mesa vazia. Pedimos dois cappuccinos e um brownie para cada uma.

— Ok, agora desabafa e me conta tudo do início. — pediu ela.
— Qual início? — perguntei inocente.
— Até domingo à noite você estava bem e animada com o artigo do jornal, agora está desempregada com a filha no hospital. — disse ela.

Eu suspirei fraco e comecei a contar toda a história, sem muitos detalhes nas partes envolvendo o vizinho para que ela mantivesse o foco. Quando cheguei na parte do editor Frederick, depois do homem do bar e encerrando com a frase de Carl na noite anterior… Os olhos raivoso de Sophie me deram medo, mas ela não estava errada. 

— Eu ainda não entendo como você teve a coragem de impedir de socar ele. — ela parecia mais revoltada comigo.
— Sophie, estamos em um hospital, minha filha em repouso, o que eu menos queria era mais confusão. — expliquei a ela — Além do mais, as palavras de Carl deixaram de me afetar já faz tempo, o fato dele ter dito aquilo, só mostra que está com dor de cotovelo por meu namoro.
— Isso é um fato. — ela soltou uma gargalhada, mas se ponderou — Aquele ridículo do Carl achou que você entraria em depressão sem ele, e se afundaria correria atrás dele, pedindo para voltar.
— Ao contrário, agora estou vivendo a vida que nunca vivi ao lado dele. — completei — Vivendo minha liberdade.
— Viva a liberdade. — ela elevou o copo de cappuccino e sorriu animada — Mas e agora? Como fica, sem jornal, desempregada… Carl está pagando as contas do hospital né?
— Para ser honesta, quem está pagando é . — confessei.
— Não brinca? — ela ficou boquiaberta — Gente, de onde esse saiu tem mais?
— Pare de bobeira Sophie. — eu bati no ombro dela — Deixa o Will saber disso.
— Ai, foi brincadeira. — ela riu debochada — Will sabe que só tenho olhos para ele e o Tony Stark, sou uma mulher muito fiel.
— Sei. — ri dela — E como estão indo?
— Bem, tirando minha sogra e sua cobrança sobre querer netos, estou muito bem. — disse ela.
— Tem certeza? — eu a olhei mais séria — Sempre que tocamos nesse assunto, você foge dele e diz só que não está pronta para ter filhos. 
— E não estou mesmo, ainda tenho muito para curtir antes de acordar de madrugada para trocar fraldas. — ela cruzou os braços — Não tenho essa vocação.
— Pois quando você segurar aquele bebê fofinho nos braços e sentir o calor do corpo dele, tenho certeza que nem vai se lembrar das fraldas. — ri de leve para ela, que me fez careta.

Dois dias acompanhando Molly no hospital, e finalmente ela teve alta. Voltamos para casa de táxi, não queria incomodar . Liguei para Carl pedindo que passasse em minha casa para pegar a receita médica. Nossa filha teria que tomar alguns remédios ainda. Ele disse que não podia e que estava viajando. Achei estranho aquilo, e mais uma vez me peguei preocupada com minha situação financeira. Como eu conseguiria manter a casa agora.

— Aqui mãe. — disse Joseph ao entrar em casa com algumas sacolas na mão.
— O que é isso? — perguntei ao pegar as sacolas.
— Os remédios da Molly. — respondeu ele.
— E como conseguiu dinheiro para isso? — perguntei a ele intrigada.
— Com meu trabalho. — respondeu com tranquilidade.
— Trabalho? — como assim?
— Consegui um trabalho de meio período em uma construtora, indicação do seu namorado. — explicou ele — É depois da aula e não atrapalha meus estudos, e aos sábados estou ganhando uma grana corando gramas também.
— Joseph…
— Não precisa se sacrificar por nós. — meu filho se aproximou de mim e segurou em minha mão — Eu quero te ajudar mãe.
— Querido, deveria estar focado nos estudos, eu sou a sua mãe, essas questões de dinheiro… — tentei argumentar, mas o olhar dele era firme diante de mim — Tudo bem, mas se eu ver que vai te atrapalhar em algo.
— Não vai, eu juro. — assegurou ele — Ainda serei o melhor aluno da turma.

Eu sorri de leve e lhe dei um beijo na testa.

— Você é o melhor filho do mundo. — disse a ele com toda certeza.
— Isso me deixou com ciúmes. — disse ao aparecer na porta para a cozinha.

Eu o olhei assustada.

— Não me olhem assim, vocês deixaram a porta da cozinha aberta. — alertou ele.
— Acho que fui eu. — admiti.
— Eu tenho que ir agora mãe, meu trabalho de meio período me espera. — disse Joe se afastando de mim.
— Até mais tarde e cuidado. — o olhei com carinho até sair e fechar a porta.

Então voltei meu olhar sério para .

— O que eu fiz de errado agora? — perguntou ele vindo até mim.
— Que história é essa de conseguir um emprego para meu filho? — disse parando-o com minha mão direita.
— Eu ia te contar, mas ele me pediu segredo até ele contar pessoalmente. — explicou ele — Não queria trair a confiança do seu filho.

Aquilo me balançou.

— Tudo bem. — abaixei a mão — E que construtora é essa?
— De um amigo do meu pai, sempre executa meus projetos, assim tenho alguém pra ficar de olho nele e não vão deixar que se machuque, a remuneração também é boa. — ele sorriu e piscou de leve — Ainda está brava?
— Como sabe quando estou brava?! — perguntei curiosa.
— Você fica atraente brava. — ele sorriu de canto.
— Pare com essas colocações para mim. — me afastei dele — Mas… Obrigada pelo problema com o hospital.

O valor excedente também havia sido pago por ele. Isso me deixava um pouco envergonhada.

— Está tudo bem, foi um prazer ajudar. — disse ele tranquilamente.

Eu suspirei e sentei no sofá. Fechei meus olhos e um turbilhão de pensamentos veio em minha mente. Até que tudo ficou estático e em branco, quando me beijou de surpresa. Retribui o beijo, sentindo seu corpo mais próximo do meu, me fazendo arrepiar um pouco quando sua mão tocou em minha cintura. 

— Mamãe?! — a voz de Molly nos fez afastar da forma mais rápida possível.
— Oi querida. — olhei para ela e depois para ele que segurava o riso — Está tudo bem?
— Estou com fome. — disse ela.
— Então, o tio vai te preparar a melhor sopa de legumes do mundo. — ele se levantou do sofá — E te garanto que é melhor que da sua mãe.
— Sério?! — Molly se empolgou um pouco — Eu duvido.
— Então venha comigo e observe o chef Lewis em ação. — disse ele ao segurar em sua mão e levá-la para cozinha.

Eu me pegue boba e paralisada apreciando a cena. Quantas vezes desejei que Carl agisse assim com nossa família, mas era sempre tão frio. Balancei a cabeça negativamente afastando os pensamentos de comparação. Carl era passado, e a única coisa que compartilhava com ele, eram nossos filhos. Me levantei do sofá e fui para cozinha, me sentei na cadeira ao lado de Molly e fiquei observando o vizinho abusado preparar a tal sopa.

Quando ele terminou e serviu minha joaninha, ela tomou tudo sem dar um pio.

— Então?! — perguntou ansiosa por seu comentário.
— Hum… Acho que já pode se casar com a mamãe. — disse ela abrindo um largo sorriso — Está mesmo mais gostosa.
— Ah, traidora. — olhei para ela me fazendo de ofendida e indignada.
— Você ouviu?! — me olhou com malícia — Ela disse que podemos nos casar.
— Pare de dar essas ideias mocinha, e venha comigo que a ordem médica é repouso. — ela a peguei pela mão e a levei para o quarto.

Deixei o notebook próximo da sua cama para que pudesse ver alguns desenhos na Netflix. Então voltei para a cozinha e me deparei com lavando as vasilhas sujas. 

— Se continuar assim, vou deixar você arrumar toda a casa, que está uma bagunça. — comentei brincando.
— Você quer? — ele desligou a torneira e me olhou sério.
— Era brincadeira. — disse a ele.
— Eu nunca brinco. — ele sorriu de leve e veio me dar um selinho — Descanse que eu arrumo sua casa.
, para, não precisa. — eu segurei em sua mão — Daqui a pouco vou ter que concordar com a Sophie e dizer que isso aqui virou uma fanfic. 
— Por que?
— É surreal o que está fazendo por mim. — disse a ele.
— Esqueça o tradicional e vamos viver a nossa realidade. — ele segurou em minha cintura e me aproximou dele — Me deixe cuidar de você.
— Não sei se…
— Não diga nem mais uma palavra. — ele sorriu de canto — Agora, deite naquele sofá e deixe que seu namorado faxine sua casa.
— O que você pretende com isso, me fazer fantasiar coisas em minha cabeça? — indaguei.
— Hum… Eu não tinha pensado nesse contexto, senhorita você está me saindo muito provocante agora, depois sou eu que tenho pensamentos pecaminosos. — ele brincou.
— Eu não disse nada comprometedor. — em minha defesa.
— Mas tenho certeza que pensou. — ele se afastou de piscou de leve — Se quiser mais alguma coisa de mim além de beijos, só me chamar.

Ele saiu da cozinha me deixando mais sem reação ainda.

Estava me limitando a mão pensar no “mais alguma coisa além de beijos”.

Pele com pele
Meu coração se desarma
Você me faz bem
Acendes luzes na minha alma 
- Creo en Ti / Lunafly



12. Jantar dos Amigos

Mais do que impressionada, eu estava estática. Ver faxinando minha casa, era como viver um daqueles filmes de comédia romântica que Sophie amava fazer maratonas. Tirei uma foto discreta dele lavando a privada do lavabo do andar de baixo e enviei a minha amiga. Suas respostas foram vários emoticons safados. Que vergonha olhar para tela do meu celular. Permaneci no sofá o observando até que finalmente ele terminou e sentou ao meu lado. Agindo como se nada tivesse acontecido.

— Olhando-o assim, nem parece estar cansado. — comentei mantendo o olhar nele.
— Tem algumas coisas pelas quais eu certamente não estaria cansado. — confessou ele voltando seu olhar para mim.
— Tarado. — disse chocada.
? — ele me olhou confuso — Do que acha que estou falando? Eu ia dizer que não estou cansado demais para comer, minha barriga tem dado sinais de fome.

Ele lançou um olhar desconfiado.

— Você viu duplo sentido no que eu disse? — ele riu — Olha só…
— Não comece com insinuações. — o cortei me levantando do sofá — Isso é culpa da Sophie, tenho andado muito com ela.

Ele não me deixou afastar e pegando em minha mão, me puxou para cima dele. Caí em seu colo e ele aproveitando a deixa, me beijou de leve. Depois eu comecei a rir de leve, cortando totalmente o clima dele.

— O que foi?! — perguntou ele confuso.
— Você está cheirando a banheiro e suor. — continuei rindo mais ainda, e ele riu junto.

Então movendo nosso corpo, ele deitou minhas costas no sofá, ficando por cima e me olhando com intensidade.

— Podemos tomar banho juntos. — sugeriu ele sorrindo de canto.
— Abusado. — eu o empurrei, fazendo-o cair no tapete.

Ele riu de mim e se levantou.

— Vou me retirar então. — ele fez um olhar de menino abandonado.
— Volte depois do banho, eu te preparo um lanche. — eu disse e ele me olhou — Você merece depois de limpar toda a casa. — expliquei.
— Acho que merecia bem mais que um lanche. — sugestivo ele.
— Vá tomar banho, e que seja um banho frio. — disse apontando para a porta da cozinha.

Ele saiu em gargalhadas, comigo rindo junto também. Eu fiquei na cozinha por alguns minutos preparando seu lanche. Foi quando notei a porta do porão entreaberta. Tinha o visto carregando sacos pretos e pesados para lá. Fiquei curiosa para saber o que realmente era. Minha casa não estava tão suja assim. Para minha surpresa, não tinha feito só uma simples faxina, mas juntado alguns objetos e roupas que tinha deixados em cima do guarda-roupas dos quartos. 

Eram coisas que não usávamos mais. Ia estocando lá.

— Você guarda muita coisa desnecessária. — comentou ele aparecendo na escada que descia para o porão.
— Você encontrou tudo isso? — estava boquiaberta.
— Vou ser sincero, não vai poder deixar aqui no porão. — terminou de descer e seguiu até mim — Já sabe o que vai fazer?
— Tem coisas aqui que estão praticamente novas, seria uma pena jogar no lixo. — comentei ao olhar para o abajur de joaninha de Molly que estragou e nunca mandei para o conserto.
— Porque não monta um bazar de garagem? — sugeriu ele — Assim se desfaz daquilo que ainda vale algo e ganha dinheiro.
— Hum… — pensei no que disse — Não é uma má ideia, preciso mesmo de dinheiro.
— Tenho certeza que se você procurar por mais coisas, vai encontrar. — instigou ele.
— Hum… Vou propor essa sugestão aos meus filhos logo mais à noite e…
— E?
— Você me ajudaria? A consertar os que estão estragados para vendê-los também? — perguntei.
— Claro, mais quero um beijo em troca. — barganhou.
— Só um? — me fiz de chateada — Eu estava disposta a dar dois.
— Então vou querer dois. — ele se aproximou mais e me puxou pela cintura.
— Não, não, vai ser somente um agora. — dei um selinho rápido nele e ri — Pronto, negócio fechado.
— Como se somente isso me satisfizesse. — ele me olhou com malícia e me beijou com mais intensidade e doçura. 

Após o beijo, voltamos para a cozinha e ele comeu o lanche. 

A semana passou lenta e calma. Recebi algumas mensagens das meninas do jornal, dizendo que estavam fazendo alguns trabalhos freelancer. Sunny me indicou alguns em que ela atuava como diagramadora, e aceitei os trabalhos de revisora de textos. Lizzi me enviou alguns também que me ajudaram a pagar as contas. Tinha juntado economias com o que sobrava do salário do NT Post, o que ajudava também. 

como prometido, me ajudou com o conserto de algumas coisas, o restante que não tinha salvação foi para o caminhão do lixo. Eu juntei algumas roupas minhas também, da joaninha que não lhe serviam mais e de Joe. Fiquei admirada e emocionada quando Molly pegou de própria vontade os brinquedos que não brincava mais e me entregou em uma caixa, para que vendesse. Ela também queria ajudar da forma que podia. Joseph juntou alguns jogos guardados no fundo da gaveta e vendeu em um site para gamers, assim como seu super Nintendo ganhado do avô. 

Ver meu filho se desfazendo de algo que gostava tanto, me cortou o coração. Me senti deprimida e chateada comigo mesma. Não poder ser uma mãe que sustenta seus filhos sem precisar fazer todo aquele sacrifício. O bazar aconteceu naquele final de semana na casa dos meus pais. Eles também se propuseram a ajudar. O espaço da varanda frontal deles era grande e minha mãe conhecia muitas pessoas. 

Fiquei surpresa por ela mesmo ter oferecido para me ajudar.

— Querida, não chore assim. — disse meu pai após meu desabafo na cozinha da casa dele.

Ele me abraçou forte, me fazendo sentir conforto e segurança. Chorei ainda mais.

— Vai ficar tudo bem. — sua voz continuava suave.
— Sou uma péssima mãe. — disse me sentindo culpada por nossa fracassada situação financeira.
— Não diga isso , você é uma mãe maravilhosa que está lutando com bravura para dar um bom exemplo ao seus filhos. — assegurou ele — Nem toda mulher tem a coragem que teve para sair daquele lugar tóxico que é aquele jornal.
— Pai. — meu olhar marejados de lágrimas, sendo secados por ele.
— Eu me orgulho de você minha querida. — disse ele ao sorrir para mim — E sua mãe também, mesmo não querendo admitir.

Eu sorri de leve.

— E a propósito, ela gostou do seu vizinho. — afirmou ele.

Minha mãe? Gostou do ? Por essa eu não esperava.

— Papai, você tem certeza? — perguntei.
— Claro que tenho, aquele olhar sorrateiro dela significa aprovação. — garantiu.

Eu não sabia se ficava aliviada ou mais apreensiva com aquilo. Vindo da minha mãe, esperava tudo. Margareth também participou, levando algumas coisas dela que não usava mais, para que eu vendesse e ficasse com a grana. Sophie também entrou na força tarefa levando algumas coisas que ela e Will não utilizada mais, porém não pôde ficar, pois almoçaria na casa dos pais do marido. 

Mas é claro que minha amiga me convocou para jantar em sua casa acompanhada de e as crianças.

— Você sim, me parece ser um genro digno da minha filha, é uma pena que tenham se conhecido só agora, se fosse há 16 anos atrás ela não teria feito um mal casamento. — comentou minha mãe, assim que entramos para casa, após vender tudo, sabia que ela não perderia a oportunidade — Mas é claro que naquela época você certamente era só uma criança.

Ok. Aquilo já era demais até para ela.

— Pois é, me desculpa por ter atrasado, mas antes tarde do que nunca. — disse ao me puxar pela cintura e me beijar na frente deles.

Que ousado e abusado! Ignorou totalmente o comentário inoportuno de minha mãe. Eu estava transbordando de vergonha, mas não resisti aquele beijo e retribui. Ele abriu um sorriso malicioso depois e piscou de leve. Confesso, meu coração acelerou.

— Bem, acho que está na hora de ir. — disse Marg ao se aproximar do filho, vi no olhar de minha irmã o constrangimento pelo beijo visto — Mark deve chegar de viagem em algumas horas, quero estar em casa quando ele chegar.
— Nós também estamos indo. — disse ao olhar para meus filhos.
— Eu dormi aqui hoje mamãe. — pediu Molly. 
— Deixe-os aqui queria, tire a noite para descansar um pouco. — disse meu pai. 

Margareth me lançou um olhar malicioso e sugestivo, me lembrava Sophie agora. Até minha irmã foi corrompida por minha amiga. 

— Tudo bem então. — olhei para Joseph — Você quer ficar também?
— Pode ser. — disse ele.

Assenti e nos despedimos. Antes que ir embora voltei na cozinha para buscar minha bolsa. Minha mãe já se preparava para fazer o jantar.

— Estou indo, até mais.
. — ela me chamou.
— Lamento pelo que te aconteceu no jornal. — disse num tom brando — Coisas assim não deveria acontecer com nenhuma mulher.
— Agradeço a empatia. — disse honestamente.
— Mas…
— Sim?!

Lá vem bomba. Respirei fundo, me preparando para o que ela iria dizer.

— Quanto ao seu namorado…
— O que tem ? — a olhei seriamente.
— Estou feliz que tenha encontrado um homem legal, gentil, educado e prestativo, sem dúvidas mil vezes melhor que o Carl. — o elogio me pegou de surpresa — Mas me deixa preocupada com você.
— Preocupada?! — me intrigou.
— Fico preocupada de acontecer o mesmo com este rapaz e você engravidar dele também antes de completarem um ano de namoro. — agora ela foi clara e direta em suas palavras — Ele é mais jovem que você .

Este era o fato de minha vida que minha mãe jamais me deixaria esquecer. Seu esporte favorito era me lembrar do meu erro do passado em ter sido mãe muito jovem. Reprimi as lágrimas, tentando não me abalar mais. Já estava sensível por tantos problemas que enfrentava.

— Não se preocupe quanto a isso. — a voz de atrás de mim, fez minhas pernas fraquejarem — Meu desejo é que viva com toda a liberdade que lhe foi negada e realize todos os sonhos reprimidos.

Ele segurou em minha mão, entrelaçando nossos dedos.

— E se ela quiser ter um filho meu, não vou me opor a ideia, pelo contrário, acho fascinante. — seu tom ficou mais intenso com um toque de malícia.
— Admiro suas palavras, eu só quero o melhor para minha filha, e que ela não sofra novamente por ser traída ou algo pior. — explicou minha mãe.
— Ela não vai… — se manteve firme e seguro em suas palavras — É real até quando ela quiser.

Aquela frase ainda me arrepiava.

— Vamos . — disse quase em sussurro.
— Foi um prazer conhecê-la. — disse ele ainda encarando minha mãe — E aproveitando a oportunidade, queria dizer que este ano vai passar o natal comigo e minha família em Los Angeles. 
— Ah. — minha mãe se viu sem reação.
— Boa noite. — disse ele.

Me despedi dela com um sorriso fraco e segui para sala ainda de mãos dadas com ele. Dei boa noite aos meus filhos e pedi que se comportassem. Da casa dos meus pais, seguimos para o apartamento de Sophie. Se eu não aparecesse lá aquele dia, ela me mataria. 

— Vocês vieram! — disse ela empolgada assim que abriu a porta para nós.
— Sim, fiquei com medo da sua ameaça. — disse rindo dela e entrando — Boa noite Will.
. — ele veio me cumprimentar — Quando Sophie disse que viria para o jantar, eu entendi que ela estava cansada da minha comida.
— Deixa de drama Will. — ela o olhou e depois se voltou para o vizinho — Bem vindo .
— Obrigado.
, este é Will, marido da Sophie. — disse os apresentando — Will, este é , meu namorado.
— O famoso . — disse Will ao cumprimentá-lo — Sophie fala tanto de você e da que quase fiquei com ciúmes. 
— Nem precisa. — Sophie fechou a porta e olhou para o marido.
— Queria poder dizer o mesmo a seu respeito. — ficou meio envergonhado.
— Viu, com certeza ela só se lembra do tal Tony Stark. — Will fingiu uma cena de ciúmes — Deveria ter se casado com ele, cansei dessa vida de amante.
— Amor. — Sophie se aproximou dele e envolvendo os braços em seu pescoço, o beijou com intensidade.

Eu ri desviando o olhar com vergonha dos dois.

— Sophie, você tem visitas. — a lembrei, rindo mais.
— Me desculpem, é que este homem é muito temperamental. — brincou ela dando um selinho nele.
— Mais tarde eu te mostro o temperamental. — disse Will com malícia.
— Hum… — minha amiga piscou para ele.

E agora era eu a constrangida no ambiente. 

— Sophie, foco! — eu disse.
— Verdade. — ela riu — Desculpa , mas com o tempo você se acostuma.

Ele assentiu rindo.

— Garotos, divirtam-se que as meninas aqui vão produzir o jantar. — disse minha amiga com ar de mestre cuca.
— As meninas, você quer dizer a não é?! — Will riu dela — Quer enganar a visita? Você não sabe nem fritar um ovo.
— Ai Will, ele não precisava saber na primeira visita. — ela se fez de ofendida — Deleta isso da sua memória.
— Tudo bem. — parecia se divertir com aquele loucura dos meus amigos.

Eu peguei no braço de Sophie e a puxei para a cozinha. Como sempre, tudo que tinha na sua geladeira estava em cima da pia. Comecei a separar as coisas e pensar no que poderia fazer.

— Que pena que as crianças não vieram. — comentou ela me observando — Mas gostei da noite dos adultos.
— Já tem mesmo muito tempo que não dormem na casa dos meus pais. — ignorei o tom malicioso dela.
— Hum… E como foi a venda das coisas?
— Conseguimos vender tudo e rendeu uma grana boa. — respondi mantendo minha concentração no que fazia — Vou deixar guardado para emergência e continuar fazendo os trabalhos freelancer que as meninas estão conseguindo para mim.
— Estou feliz que elas não se esqueceram de você. — Sophie pareceu agradecida também.
— Sim, elas são muito fofas comigo. — assegurei.
— Estou aqui pensando, a gente podia fazer mais vezes esses jantares de adultos, imagina os homens cozinhando na próxima vez. — instigou ela — Will fica… Hum... Me dá até calor vendo ele com avental manejando uma faca.
— Apaga esse fogo Sophie e deixa seus desejos obscuros para depois que eu for embora. — ri da careta que ela me fez.
— E você?! Como será o final da noite?
— Será comigo dormindo na minha cama. — assegurei a ela — Estou morrendo de cansada, passamos a semana inteira preparando esse bazar nos meus pais.
— Que sem graça. — ela me olhou desapontada.
— Já disse para parar de pensamentos obscuros. — a repreendi.
— Tá, e por falar em pais, como foi com sua mãe? E o vizinho? O que ela achou? — o olhar curioso de Sophie estava mais forte.
— Olha, para ser sincera me surpreendi. — confessei ainda em choque — Minha mãe gostou dele.
— O que?! — ela quase soltou um grito, e então se acalmou — A dona Agnes? Tem certeza que estamos falando da mesma pessoa?
— É, também estou reagindo assim. — confirmei — É claro que ela não perdeu a oportunidade de me criticar pela idade dele…
— Sua mãe sendo sua mãe. — comentou Sophie.
— Sim, e acredita que antes de irmos embora ela simplesmente falou que estava preocupada de eu engravidar do em menos de um ano de relacionamento. — olhei para minha amiga indignada — Minha mãe.
— Disso eu não me espanto. — confessou ela — E como você reagiu a isso?
— Eu não reagi, mas sim.
— Oi?! — ela se assustou.

Repetir as palavras de com toda a entonação foi complicado, mas consegui reproduzir a essência disso.

— O vizinho disse isso? — ela estava boquiaberta.
— Sim, com todas essas palavras. — afirmei — E antes disso ele me beijou na frente dos meus pais, depois que ela disse que eu deveria tê-lo conhecido há 16 anos atrás, mas ele era uma criança.
— Queria ter sido uma mosca para ver essa cena. — Sophie lançou um olhar de tristeza — Porque eu tive que ir aquele almoço chato, com toda essa movimentação na casa dos seus pais.

Sua revolta era visível.

— Mas estou te contando agora amiga. — a consolei.
— Não é a mesma coisa, cenas assim nem nas minhas fics acontecem. — ela fechou a cara e cruzou os braços emburrada — O mesmo foi quando me contou que ele fez a faxina em sua casa. 
— Nem sei porque te contei. — ri dela.
— Contou para alimentar minha fanfic da vida real. — explicou ela — E ai de você se me deixar no escuro.

Suas ameaças eram a parte mais engraçada de nossa amizade. 

Os dias se passaram e com as férias de verão, permiti que Joseph passasse na casa dos avós de seu amigo Simon. O curioso é que minha afilhada Jenie, filha do Finn era prima deste menino. Será que ela também ia? Molly passaria as férias na casa dos pais de Carl. Mesmo eles não gostando de mim, era apaixonados pela minha joaninha e faziam muitos dos seus gostos. Eu a deixava passar as férias de verão com eles, pelo amor que tinha por meus dois filhos. Então, tinha certeza que seria bem tratada lá.

Enfim, eu passaria algum tempo sozinha naquela casa. 

--

Após imprevistos, muitas vezes adiando, finalmente a noite do Jantar dos Amigos chegou. 

, finalmente chegou. — disse Freya ao abrir a porta de sua casa na área nobre de Manhattan para nós — Você sempre é tão pontual.
— Boa noite Freya, tivemos outro compromisso antes daqui. — disse a ela, mantendo-me de mãos dadas com .
— Boa noite. — ele se manteve sério para ela como sempre.

já havia mencionado para mim seus pensamentos sobre minhas amigas. Só havia visto elas uma vez na noite das garotas e foi o suficiente para se simpatizar somente por Sophie, e Annia talvez. Entramos e já tinha vários conhecidos dos tempos de colégio. Claro que Freya não convidaria somente o nosso círculo de amizades. Ela ostentaria a casa de seu marido atual, sem medo e sem vergonha.

. — Sophie veio me abraçar.
— Sophie. — soltei de leve a mão de e retribui o abraço de minha amiga — E o Will? Pode vir?
— Ele vai chegar mais tarde, ainda está de plantão. — ela fez uma cara triste — Tem tido muita demanda no hospital, eles estão acabando com meu marido, quase não sobra partes dele para mim.
— Falando assim, você está sendo dramática. — a repreendi — Will sempre te deu atenção.

Ela fez careta e olhou para meu namorado.

, que bom que veio. — disse ela.
— Não deixaria a vir sozinha. — assegurou ele, voltando a segurar minha mão.
— Hum… — os olhos de Sophie brilharam — Vocês dois me orgulham!

A cada amigo que me parava pelo caminho até o jardim, onde acontecia a recepção, eu apresentava sob olhares surpresos e curiosos. Sophie cochichou em meu ouvido que Carl havia chegado sozinho, e já estava entornando todas que podia. Eu soltei um suspiro cansado ou vê-lo com o copo de tequila na mão conversando com James, o marido de Lauren. se manteve todo o tempo perto de mim, até que Rodnei, o marido de Freya o reconheceu de um projeto que meu namorado fez para ele e o arrastou para uma conversa bem animada. Me aproximei das meninas e Sophie estava aos risos com Marg.

— Margareth, achei que não viria. — comentei surpresa ao vê-la.
— Me dei esse encontro de presente, pois não aguento mais aquilo que chamo de marido. — respondeu ela tentando manter a calma — Acabei de chegar e preciso encher a cara.
— Só não te ofereço o quarto de visitas, porque eu e Will temos planos para madrugada, aproveitamos cada segundo das folgas dele entre os plantões. — disse Sophie sem receio de sua malícia na voz.
— Não se preocupe Sophie, a Marg vai lá pra casa — disse Annia eu pegar um drink da bandeja do garçom que passava — Vamos fazer maratona de O diário de Bridget Jones. 
— Aih, eu amo esse filme. — disse Lauren, com um olhar desejoso — É uma pena que não posso ir também, daqui eu e James vamos embarcar para Washington.
— Olha só, nosso deputado nem foi eleito ainda e já está dando seus passeios entre os grandes. — brincou Sophie.
— Pois é, ser um democrata não é fácil. — assegurou ela — E você , ficamos na aposta se traria ou não o namorado.
— E porque ela não traria? — Sophie colocou a mão na cintura.

Aquele era meu fã clube.

— Vamos deixar o assunto meu namorado e falar de outra coisa? — sugeri — Afinal, não estamos aqui para falar da minha vida pessoal.

Sophie me olhou com orgulho e aprovação.

— Então falemos de algo tão legal quanto. — disse Annia — Estou pensando em voltar a trabalhar.
— Sério amiga?! — Lauren a olhou surpresa.
— Sim, andei tendo algumas conversas boas com e decidi voltar a dar aulas. — confirmou ela — Eu sempre gostei, é o que amo fazer, e só me afastei pela doença do George, então vou conversar com a diretora Joyce para retornar em meu cargo como professora de matemática.
— Fico muito feliz por você Annia. — eu a abracei — É libertador ser independente, demorei um pouco para descobrir isso.
— E por falar em liberdade… — Lauren lançou um olhar discreto para o lado — Suas correntes do passado não para de secar você com os olhos, desde que entrou no jardim.
— Não me importo mais com o Carl, que seque bem longe de mim. — disse com confiança.
— Faz bem falar assim. — Marg me apoiou — E vocês não vão acreditar, minha mãe aprovou o .
— Oi? — Lauren ficou boquiaberta com a notícia — Dona Agnes Miller?
— A própria. — confirmou minha irmã.
— O que um vizinho não consegue. — brincou Sophie rindo.
— Quando foi que o assunto voltou para o meu namorado? — olhei sério para elas.
— Desculpa nada, mas esse ano o assunto principal sempre será você. — Annia também riu de mim.

Continuamos a conversar mais um pouco, até que se aproximou de mim e me puxou discretamente para mais perto dele. Me contou superficialmente sobre as novas instalações de sua concessionária, que Rodnei queria que fosse projetada por ele. Só meu vizinho mesmo para fazer negócios em meio ao jantar dos meus amigos. O jantar também foi servido no jardim. estava se esforçando, seu desconforto pelos olhares de Carl para mim era visível. Pouco antes da sobremesa ser servida, uma jovem se aproximou de nós com certa intimidade.

— Lewis?! Não acredito, eu sabia que era você. — disse a garota ao abraçá-lo, sem cerimônias e importar com minha presença.
— Stacy, é surpreendente encontrá-la aqui. — me aproximou mais dele, mantendo nossos dedos entrelaçados — Esta é , minha namorada.
— Uau, namorada. — seu olhar parecia mais surpreso ainda — Prazer .
— Prazer. — disse forçando um sorriso gentil para ela.
— Que loucura, eu nunca imaginei você namorando com uma mulher mais... Velha. — comentou a menina — Sem ofensas.
— Não ofendeu. — já não gostei dela.
é muito mais do que somente mais velha do que eu. — disse ele num tom seco e frio.

Parecia ter ficado bravo com o comentário da aparente amiga.

— Me desculpa. — ela ficou sem graça por isso — Vocês conhecem o John? Eu vim com ele.
— Sim. — eu respondi — O conheço de algum tempo, sou amiga da Lauren.

John trabalhava com James na política, agora como seu assessor de campanha e braço direito. Muito prestativo, mas o achava um mau caráter. Tinha coragem de deixar sua esposa em casa e levar acompanhantes mais jovens nas festas e recepções que comparecia. Homens como ele me davam nojo. E pensando mais a fundo, era o que Carl fazia comigo.

— Hum… , poderíamos falar a sós? Quero perguntar algo pessoal. — pediu Stacy.

me olhou e eu assenti com o olhar. Então o observei se afastar com a amiga. O que me fez corroer de curiosidade. Mas eu não iria invadir a privacidade dele. Mantive todo o meu olhar naquela porta. Eu senti sede, mas como os funcionário só serviam drinks, entrei na cozinha pessoalmente para pegar água. Estava tão distraída que nem percebi a aproximação a pessoa mais desnecessária da festa.

— Olha, olha… Já foi trocada por alguém mais jovem? De novo? — a voz de Carl fez meu sangue ferver de raiva.
— Eu dispenso seus comentários e sua presença. — disse ao me afastar da geladeira e seguir para porta de saída. 
— Espera. — ele segurou forte em meu braço.
— Me solta Carl, você está me machucando. — eu tentei me soltar dele.

Eu senti enjoou do cheiro forte de álcool vindo dele. Era nojento.

— O que?! Eu não vou fazer nada, só quero saber o que ele viu em você. — ele apertou mais avançando em mim — Você consegue satisfazê-lo na cama?

Quanto mais eu relutava para me soltar dele, mais Carl avançava em cima de mim, tentando me beijar. Foi quando a vi a mão de o puxar pelo colarinho da caminha e depois socá-lo, o derrubando no chão.

— Nunca mais toque nela. — disse com os olhos ardendo em raiva.

Sua voz tinha tanta entonação que me fez arrepiar. 

A segurança e conforto que sentia nos braços do meu pai, senti em sua voz.

Creio em você
E neste amor
Que me fez indestrutível
Que deteve minha queda livre.
- Creo en Ti / Lunafly



13. Fanfics

Algumas pessoas presenciaram o soco. James entrou rapidamente e ajudou Carl a se levantar. Ele se mantinha resmungando e me xingando, enquanto era carregado pelo amigo. Sophie permaneceu boquiaberta com a cena. Eu não tinha mais condições físicas e mentais para ficar ali. Olhei para meu braço roxo, percebi que a alça do meu vestido se rasgou na minha luta para me livrar de Carl. olhou para meu ombro e retirando sua jaqueta, me cobriu.

— Você quer ir para casa? — perguntou ele num tom mais baixo.
— Sim, por favor. — disse reprimindo minhas lágrimas.

Tinha que ser forte. Sophie nos acompanhou até a rua.

— Amiga… — ela nem sabia como me consolar.
— Eu estou bem, obrigada Sophie. — assegurei a ela, recebendo seu abraço.
— Obrigada , fez o que eu sempre quis fazer, socar a cara daquele babaca. — disse ela com propriedade.
— Confesso que queria fazer aquilo desde a primeira vez que vi ele. — confessou ele, ao abrir a porta do seu carro para que eu entrasse.

Eu me lembrava daquele dia. O dia em que Carl me rebaixou como mulher. Me lembrar daquilo, trazia mais feridas em mim. Seguimos de volta para casa, eu disse para ele que estava tudo bem, mas insistiu que não entrássemos na minha casa. Estar lá poderia me fazer lembrar o passado em meu casamento fracassado. Querendo ou não, aquela casa me proporcionava essas lembranças às vezes. 

Então, pela primeira vez eu entrei na casa ao lado pela porta da frente. Foi surpreendente, ver como a reforma já estava praticamente no final. Reforma de um homem só. Era a única explicação para tamanha demora em finalizar tudo. 

, eu… — respirei fundo, mas assim que ele fechou a porta e me abraçou…

As lágrimas vieram com tudo. 
O abraço reconfortante dele que me fez acalmar um pouco. retirou a jaqueta de mim e olhou meu braço meio roxo. Seu olhar de raiva havia retornado. Certamente se não tivesse mais pessoas naquele jantar, ele tinha socado ainda mais o Carl.

— Me perdoe. — sussurrou ele, me mantendo aninhada a ele.
— A culpa não foi sua. — disse não entendendo suas palavras.
— Se eu não tivesse te deixado sozinha. — ele realmente se sentia culpado.
. — eu o fiz olhar para mim — Pare com isso, a culpa não é sua.

Me mantive firme em minhas palavras. Não queria que ele pensasse mais nisso. Ele deu um sorriso fechado e deu um beijo suave em minha testa. Mantendo o rosto próximo, foi percorrendo seus lábios por meus rosto até tocá-los em meu ombro. Senti um breve arrepio. Me encolhi de leve, com o coração acelerado. Ele deslizou as mãos em minha cintura me trazendo para mais perto e beijou meu pescoço. Um frio passou por minha barriga. A quanto tempo não sentia isso.

— Eu não farei nada que não queria. — sussurrou ele em meu ouvido.
, eu… — segurei em seus braços.

Uma insegurança bateu em mim.

. — ele se afastou um pouco e me olhou com carinho — Está tudo bem, não precisa ter medo… Mesmo que não aconteça nada, não vou te deixar sozinha essa noite.

Ele foi se aproximando lentamente, até que me beijou com doçura, deixando a intensidade crescer à medida que eu me rendia a ele.

--

— Hum… — resmunguei um pouco me espreguiçando da cama.

Cama?! Mantive meus olhos fechados e apalpei os lençóis. Não reconheci aquela como sendo a minha cama. Se não era a minha?! Abri os olhos de repente no susto. Me vi no quarto de , deitada em sua cama, com a roupa da noite anterior. Bem, aquilo já era um meio alívio. O que significava que não tinha mesmo acontecido nada. A última coisa que me lembrava, era dele ter feito chá de camomila para mim e ter adormecido em seus braços sentada no sofá.

Era bom receber todo aquele cuidado vindo dele.

— Bom dia. — disse ele ao entrar pela porta com uma bandeja de café nas mãos.
— Bom… Bom dia. — me peguei surpresas com sua ação.

Ele se aproximou da cama e colocou a bandeja ao meu lado, se sentando junto.

— Trouxe o nosso café. — disse ao me dar um selinho de leve — O que foi? algum problema?
— Eu não esperava por isso. — confessei.
— Não é porque minha namorada me deixou dormindo no sofá que não posso lhe fazer uma surpresa pela manhã. — brincou ele, piscando de leve.

Eu ri junto. E sem querer ao olhar para a janela e ver a janela do meu quarto, mais uma vez a terrível lembrança do passado veio até mim. Mesmo depois de uma rara noite de sexo, Carl nunca havia feito aquilo para mim.

— Claro que pode. — abri um largo sorriso para ele — Só não posso ficar mal acostumada.
— Bem, se isso garantir que vai passar mais noites aqui, acho que vou te mimar muito. — ele sorriu com malícia.
— Seu bobo. — bati de leve em seu ombro, rindo dele.

Panquecas com geléia de morango e torradas, acompanhadas de suco natural de laranja. Eu me perguntava que horas ele tinha acordado, ou se realmente tinha dormido.

— Quando me trouxe para seu quarto? — perguntei ao dar a primeira garfada na panqueca.
— Na metade do segundo filme. — respondeu ele tomando um gole do suco.
— Eu juro que amo O senhor dos anéis, mas estava abalada demais para ver nove horas de filme. — confessei.
— Você ainda aguentou bem. — ele sorriu para mim e se aproximando me beijou de leve — Então, como é meu beijo pela manhã?!
— Tem gosto de suco de laranja. — respondi brincando.

Nós rimos. Meu celular começou a tocar. Era algumas mensagens de Sophie, dizendo que tinha ligado para minha casa. Um surto em forma de áudio veio, quando eu digitei que havia dormido na casa de . Fiquei até com vergonha dele ter ouvido. segurou o riso e tentou fingir que nada tinha acontecido.

Não me faz passar vergonha amiga. 
ele acabou ouvindo seu áudio

aiiiiiiiiiihhhhhh
desculpa amiga
me empolguei, foi como abrir uma fanfic restrita para ler
a ansiedade das partes hot vem antes

Sophie contenha-se

Mas então, me conta tudo, como foi a primeira noite?
Como ele é na cama?
Foi selvagem ou chá de camomila?

Do que está falando?

Você não dormiu com ele?

Sophie?!
Eu disse que dormi na casa dele 
e não com ele
pare de fantasiar

ai  
que balde de água fria
estou desapontada
era o clima ideal
ele te salvou do mala do Carl
foi pra casa dele
seria a noite de amor perfeita

Só na sua história né

ah querida, se essa fanfic fosse minha
eu já teria quebrado essa cama em dois

credo

credo nada,
com um homem desses

vai olhar para o seu Will
e me deixe seguindo da minha forma
por favor?!

tá bom, sua chata
estraga fanfics
affff 
agora vou ter que fazer uma visita 
ao meu marido no hospital

do que está falando?

Você me deixou com vontades
descobrimos uma salinha interditada
que é maravilhosa pra coisa

me poupe dos detalhes Sophie
vou tomar meu café

seu café deveria ser o vizinho

vou te ignorar
pervertida

Olhei para que se mantinha em silêncio me observando.

— Imagino que tenha achado estranho minhas expressões faciais. — disse me contendo um pouco.
— Achei divertido, estou imaginando a conversa de vocês, ainda mais pelo áudio da sua amiga. — ele não aguentou e riu.
— Que vergonha. — tampei o rosto.

Porém ele se aproximou e retirando a minha mão, me deu um selinho.

— Fique tranquila, isso é normal, amigos sempre colocam muitas expectativas em nossas vidas amorosas. — disse ele com tranquilidade.
— Você já passou por isso? — perguntei curiosa
— Algumas vezes. — respondeu.
— Hum… Me deixou curiosa. — revelei.
— Stacy que chamou em particular para perguntar se nosso relacionamento era verdadeiro. — começou a contar, seu olhar se manteve sereno para mim — Eu já imaginava que ela faria essa pergunta.
— O que você respondeu?
— Real até quando você quiser. — ele sorriu de canto.

Parecia ser sua frase favorita.

— Ela sempre foi somente uma amiga? — indaguei.

A pergunta que não queria calar. Estava insegura.

— Sim. — respondeu direto e preciso.

Respirei aliviada.

— Stacy é somente uma boa amiga. — continuou — Mas, eu já tive um relacionamento conturbado com a irmã mais velha dela.
— Ah… — me pegou de surpresa — Por que conturbada?
— Não sei, divergência de ideias talvez, ou por não haver amor com tanta intensidade e devoção que nosso relacionamento exigia. — respondeu novamente com tranquilidade — Nunca parei para analisar sobre isso, mas foi melhor para ambos não prolongar o que não estava sendo saudável.
— Você ainda sente algo por ela? — essa pergunta me deixou apreensiva de certo modo.
— Não. — ele segurou em minha mão e entrelaçou nossos dedos — Atualmente, preciso confessar que existe somente uma mulher que faz meu coração acelerar, e está na minha frente agora.

Não me conte em deixar o sorriso espontâneo sair em meu rosto. Meu coração também acelerou.

— Vamos tomar nosso café. — disse meio tímida com seu olhar. 

Pouco antes do almoço, recebi um convite de Finn para ver o andamento das obras na cafeteria. tinha alguns assuntos para resolver em seu escritório de arquitetura. Era segunda-feira e o dever o chamava. Passei na minha casa para trocar de roupa e segui para o Liberdad Café. Meu amigo estava lá conferindo para detalhe da obra. Fiquei feliz por ele e por seu sonho não ter sido frustrado.

 — Finn. — disse ao me aproximar.
! — ele me olhou empolgado.

Nos abraçamos como cumprimento e ele me levou para o interior do lugar. Me mostrando cada parte da nova cafeteria. Meu amigo só não me mostrou o novo cardápio, pois segundo ele, era surpresa para inauguração. Mas me fez uma proposta de vender minha receita de panqueca para ele. Prometi que pensaria em sua proposta. O valor era generoso e incluía eu ensinar o modo de preparo, para a sua investidora e agora sócia, chamada Mia Baker.

— Estou muito feliz por você meu amigo. — disse ele também com meus olhos brilhando — Quando a reforma terminar, vai ficar lindo.
— Sim. — ele concordou empolgado — E saiba que se quiser trabalhar aqui novamente, sua vaga é garantida.
— Você já terá uma bela chef ao seu lado, não vai precisar de mim. — assegurei.
— Seu tempero supera todos os chefs de Manhattan, pode apostar. 
— Agradeço pelo elogio. — sorri para ele.
— E como estão as coisas sem seus filhos? — perguntou ele — Jenie me mandou uma mensagem pedindo para estender as férias até o final.
— Joseph também.
— Parece que estão se divertindo sem nós.
— Sim. — concordei.

Nós rimos.

— Molly retorno no próximo final de semana. — contei a ele — Ela foi convidada a participar de um show de talentos no Brooklyn, acredita?
— Sério? Nossa joaninha está ficando famosa? — brincou ele.
— Parece que sim. — eu ri — Os três primeiros lugares do concurso da escola dela foram convidados.
— É assim que começa. — disse ele — Mas quando vier a fama, não a deixe se perder.
— Claro que não, minha filha terá seu tempo para crescer e ser uma criança. — garanti.

Conversamos mais um pouco até que ele precisou ir resolver algum problema. Voltei para casa pela estação de metrô. Tive que caminhar algumas quadras, mas fez bem para minha circulação. Quando cheguei em casa, liguei o notebook para trabalhar na revisão do texto que Sunny tinha me enviado. Foi quando olhei minha caixa de email, lá estava um de Genevieve.

Fiquei surpresa e feliz ao mesmo tempo, fazia tempos que não a via. No corpo do texto do email, ela lamentava por minha demissão e prestou solidariedade pelo que eu tinha vivenciado. Mais à frente, ela me perguntou se eu ainda gostava de escrever artigos. A resposta era óbvia. Peguei meu celular e liguei para ela. 

Genevieve me explicou que estava montando um projeto, mas não queria falar os detalhes, mas precisava de um artigo escrito pela melhor redatora de sua antiga equipe. Ela até ofereceu uma boa quantia generosa por isso. Por mais que eu quisesse prestar esse favor a ela de graça, eu aceitei a grana. Minha situação financeira não me permitia recusar. 

Porém, o mais incrível foi o tema do artigo: Fanfics.

O que?! — gritou Sophie ao telefone quando lhe contei, da ligação para Genevieve.
— Calma Sophie, não surta. — disse mantendo minha voz baixa.
Amiga, você tem noção disso? É a prova de que fanfics vão dominar o mundo. — continuou ela em euforia — É agora que eu vou descer toda a minha lista de indicações para você, começando pelas restritas pra ver se te motiva em seu relacionamento.
— Sophie? — eu a repreendi — Foco, e pare de se preocupar com meu namoro.
— Então, o que deseja saber? — perguntou ela — Eu serei sua mentora.
— Suas palavras me dão medo. — afirmei abertamente.
— Credo , falando assim até parece que vou te desvirtuir. — ela se mostrou ofendida.
— Ok, me conte um pouco sobre suas experiências com fanfics, vou anotar aqui no meu bloco de notas, para iniciar minhas pesquisas.
— Que mané pesquisa, a gente entende fanfic é lendo fanfic, vou te mandar no whatsapp todos os links, comece pelas shortfics, ok?
— Short ou que? — já ia começar ela com suas nomenclaturas.
— Ai amiga, se você quer saber das coisas tem que saber a fundo, primeiro vou te mandar o alphabeto dos termos das fanfics, e depois os links das minhas histórias favoritas.

Nós encerramos a ligação e eu deixei que minha amiga me enviasse tudo. Ela estava se sentindo como uma PhD ensinando sua aprendiz. Mas estava feliz por poder contar com a ajuda de minha amiga. No dia seguinte, acordando bem cedo, comecei minhas pesquisas. Assegurei a Genevieve que entregaria o artigo de cinco páginas em word, com definições, depoimentos e indicações de histórias. 

A última parte me deixou insegura, eu não poderia indicar histórias através das leituras e gostos da Sophie. Eu teria que me afundar nesse universo maluco e conhecer por mim mesma as histórias que nele continha. 

Respirei fundo abrindo o primeiro link. 

E logo a mensagem de restrição apareceu na tela. Um frio na barriga.

Segundo a Sophie, era uma fanfic interativa, em que eu poderia escolher o nome das personagens principais. 

Aquilo me deixou impressionada. 

 

Eu vou tomar deste copo,
Transbordante,
Eu não sei o que fazer esta noite,
It’s the love shot. 
- Love Shot / EXO



14. A Proposta do Ano

Eu passei o dia lendo fanfics, é impressionante como isso vicia as pessoas. Pouco depois do anoitecer, saí do quarto e segui para cozinha. Minha barriga roncava de fome. Assim que cheguei em frente a pia e movi meu olhar para a janela proibida, lá estava em sua cozinha, com um avental, encostado na ilha me olhando de braços cruzados. 

Oh não! Eu havia me esquecido do nosso jantar a dois. Ele queria aproveitar ao máximo de tempo sozinho comigo, antes dos meus filhos voltarem das férias. Voltei no quarto e vesti meu casaco de tricô, então fui para sua casa, passando pela cerca ainda quebrada. Acho que a demora do seu concerto era mesmo proposital. 

— Boa noite. — disse ao entrar — Me desculpa, fiquei tão concentrada em minhas leituras que acabei esquecendo.
— Tudo bem. — ele sorriu de leve e desamarrou o avental o retirando.

Assim, o abdômen dele ficou à mostra. O abusado vizinho estava sem camisa. Proposital? Com certeza. 

— Você não tem roupa? — indaguei segurando o riso.

Ele sorriu de canto, e deixando o avental em cima da ilha, se aproximou de mim para me dar um beijo rápido.

— Não. — respondeu ele — Não tenho roupas. 
— Abusado. — sussurrei — O que temos para o jantar?

Me forcei a ignorar seu corpo a mostra e segui até o fogão.

— O cheiro está convidativo. — confessei.
— Isso é bom. — assegurou ele, ao segurar em minha cintura e beijar de leve meu pescoço — E adivinha o que será de sobremesa?!

Seu tom foi malicioso.

— Não sei se quero descobrir. — quase sussurrei, sentindo o coração acelerar.

Ele riu de mim e se afastou um pouco, então montou os pratos e nos serviu. Estava mesmo delicioso. me convidou para terminar nossa maratona. Foi tentador confesso, mas tinha um compromisso com meu artigo sobre Fanfic. Voltei para casa e sentei na frente do notebook. Coloquei meu bloco de notas ao lado e comecei a digitar o esboço inicial. Eu só tinha mais dois dias e um artigo não era um texto tão fácil assim de produzir, ainda mais quando não se conhece o assunto e é perfeccionista como eu. 

Passei a noite em claro digitando, pesquisando, anotando, lendo e digitando mais um pouco. Na alta madrugada me senti tão cansada que acabei adormecendo em cima do meu trabalho.

Na manhã seguinte, senti meu corpo confortável, o calor de minhas cobertas e achei estranho. Não me lembrava de ter ido para cama. A não ser que… Abri meus olhos e vi sentado na janela do meu quarto.

— Como entrou aqui? — foi a única coisa que consegui dizer no susto.
— Bom dia para você também. — ele riu.

Estava tão charmoso com as roupas leves do verão.

— Bom dia. — disse envergonhada por ele ter me repreendido — Como entrou aqui?
— Antes de viajar, Joseph me deu sua cópia da chave de casa. — explicou — Ele disse que você sempre se esquece de trancar as portas.
— E você tem verificado? — perguntei abismada.
— Sim, todos os dias, prometi a ele. — respondeu serenamente.

Eu não sabia quem era mais fofo, meu filho ou ele. 

— Obrigada por cuidar de mim. — estava mesmo muito agradecida.
— Acredite, o prazer é todo meu. — ele se afastou da janela e caminhou até a porta — Hoje não teremos café na cama.
— Hum… Não disse que eu ia ser mimada? — cruzei os braços me fazendo de série.
— Na minha casa sim, eu disse. — ele sorriu e se aproximou da porta — Tenho outros planos para nossa manhã, te espero lá embaixo.
eu tenho um artigo para terminar. — o lembrei.
— E uma saúde para cuidar. — ele se colocou entre a porta e meu quarto — Te espero lá embaixo.

Frisou minha necessidade de me trocar. Ele segui para as escadas e eu não tive escolha. Levantei da cama e caminhei até o guarda-roupas. Escolhi um vestido floral de tecido leve, peguei minha bolsa, joguei o celular e documentos dentro e segui para sala. Ele se manteve encostado na porta de saída me esperando com as mãos nos bolsos da bermuda que vestia. Céus, suas pernas eram grossas e chamativas. Meu coração acelerou só de olhar a pose que fazia para mim.

— Acho melhor irmos. — disse ao passar por ele e abrir a porta — Antes que eu relute e desista.

Estava evitando olhá-lo um pouco. Havia tido sonhos provocativos com ele na noite anterior. 

— Não. — ele fechou a porta e me puxou para perto — O que você tem?! 
— O que? — tentei não olhá-lo nos olhos, mantendo a inocência — Nada.

Mas meus pensamentos não me ajudavam.

— Então olhe para mim. — insistiu ele.
— O que? — eu o olhei com toda a minha coragem.
— Você é linda. — declarou ele.

E como não se derreter com isso?! 
Desta vez foi mais forte que eu, tomei impulso e o beijei. Senti que ele gostou da minha investida, assim que começou a retribuir com malícia. Fui salva do pecado com quando meu celular começou a tocar. Me afastei dele e olhei para o visor. Era uma mensagem de Sophie perguntando das fanfics. Se ela soubesse o que havia atrapalhado, nunca se perdoaria. Ri discretamente do meu pensamento e abri a porta. Empurrei para fora e seguimos em direção a sua moto.

Nossa primeira parada foi em uma barraca de comida de uma rua próxima ao centro da cidade. Depois me levou a um lugar inesperado: Escola de direção. Eu já havia comentado sobre a minha vontade em aprender a dirigir e tirar minha carteira, mas o dinheiro era contado e não tinha cabeça para pensar nisso. Mais uma vez me surpreendi, ao descobrir que conhecia algumas pessoas dali que lhe deviam favores. Eu teria minhas aulas de direção e legislação gratuitas. Quanto ao exame de direção, segundo meu namorado era um presente de aniversário desde ano. 

Se eu consegui reagir aquilo? Não. Fiquei estática por um tempo, até voltar ao normal e preencher a ficha de cadastro para iniciar as aulas. Realmente foi uma surpresa muito bem preparada. Nosso passeio foi esticado no Central Park, caminhamos um pouco pelo lugar sentindo o frescor da manhã. Finalizamos com um almoço rápido no Starbucks. Então ele me levou de volta para casa, depois seguiu para uma reunião com o Rodnei.

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Sexta-feira chegou, e com ela o finalização do meu artigo. Se eu não bati o recorde da Sophie de mais fics lidas em quatro dias, eu desistiria. Terminei a formatação e revisão gramatical, então enviei para Genevieve por email em pdf. A noite foi em claro, mas desta vez venci o sono e terminei meu trabalho. Depois disso, apenas mandei uma mensagem a dizendo que apagaria e me deitei na cama. 

Os dias foram passando…
Minha joaninha retornou da casa dos pais de Carl, assim como Joseph da casa dos avós do amigo. Início do outono, início das aulas, e foi em grande estilo com a inauguração do novo Liberdad Café. Finn estava tão emocionado, seu olhar orgulhoso para a fachada do novo prédio. Ele juntamente com a Mia, cortaram o grande laço vermelho abriram as portas da cafeteria. 

— Parabéns Finn. — disse o abraçando de leve — Estou muito feliz com este recomeço para o Liberdad Café. 
— Eu que agradeço pelo apoio sempre. — seu olhar emocionado e orgulhoso não desaparecia dos olhos — E pensou na minha proposta.
— Pensei sim, e aceito ela, mas com a condição de me darem os devidos créditos ok?! — disse a ele.
— Claro que sim, suas panquecas serão as estrelas daqui e seu nome estará lá como criadora. — ele me assegurou — Venha, quero que conheça a Mia pessoalmente.

Ele me levou até a sua nova investidora, agora sócia. A jovem aparentava ter a mesma idade de , mas segundo Finn, tinha um olhar muito afiado para os negócios. Eu me lembrava de tê-la visto em algum lugar, mas não sabia qual. Mas era filha de pessoas importantes da elite de Manhattan.

— Mia Baker. — disse ele ao me apresentar ela — Esta é , minha amiga que te falei.

Simpática e educada a primeira vista. Fiquei feliz ao saber que meu amigo trabalharia com uma pessoa dedicada e responsável, mesmo com pouca idade.

— É um prazer . — disse a jovem — também me falou sobre você, estou feliz pelo namoro dos dois.
— Ah, agradeço e o prazer é meu. — sorri para ela em cumprimento.

Começamos a conversar um pouco sobre minha receita especial de panquecas e como nasceu. Trocamos algumas figurinhas gastronômicas e descobri que ela havia trabalhado como estagiária no restaurante da mãe de . Meu corpo tremeu ao saber que a senhora Bridget Lewis era um tanto quanto séria e severa com seus funcionários, exigindo o máximo de perfeição deles. Começo a imaginar seu nível de exigência para a mulher que se relaciona com seu filho.

Tudo estava lindo na inauguração.

O final de semana passou rápido novamente. Na segunda, recebi uma mensagem de Genevieve no whatsapp, me convidando para um café após o almoço. Quando cheguei no Starbucks próximo a Estação Central, fiquei surpresa ao vê-la em uma mesa com as meninas do jornal. Me aproximei delas e as cumprimentei. Todas me deram um abraço caloroso e nos sentamos. Genevieve fez o pedido para nós e esperamos até sermos servidas, então ela se pronunciou.

— Bem, eu fiquei sabendo sobre o ocorrido no NT Post, e estou envergonhada por você ter passado por isso . — iniciou Genevieve.
— Não se preocupe, aquilo não me afetou, só fico preocupada por ele não arcar com sua falta de carácter. — disse com chateação.
— Sim, infelizmente a sociedade ainda é bastante machista, nós mulheres temos que lutar sempre e arduamente para termos o respeito que é nosso por direito. — concordou ela — Mas, virando esta páginas, estou aqui reunida com a melhor equipe de redação que já trabalhei, e quero fazer uma proposta para vocês.
— Hum… Já ficou interessante. — brincou Lizzi.
— Sim. — concordou Hill.
— E o que seria? — perguntei curiosa.
— Depois que saí do NT Post e viajei a Paris, comecei a pensar no que poderia fazer profissionalmente, e algumas ideias vieram em minha mente. — Genevieve começou a explicar — Então estou com um projeto de lançar um jornal online voltado somente para o público feminino…
— Um jornal? Não seria revista? — Sunny a olhou confusa.
— Sim, um jornal, revistas femininas têm aos montes, e eu quero diferencial. — assegurou Genevieve sua ideia — Um jornal online falando de todos os assuntos corriqueiros de um jornal tradicional, mas com a linguagem feminina, e meu desejo é vocês sejam minha equipe nessa empreitada. O que acham?

Nós nos olhamos, demonstrando certa animação.

— Eu nunca vi, mas gostei da proposta. — disse como porta voz de todas — E pelo olhar das meninas, nós aceitamos.
— Era isso que eu queria ouvir. — disse ela ao abrir um largo sorriso para nós — Inicialmente será um pouco trabalhoso, vamos estruturar tudo em nosso jornal, cada sessão.
— Genevieve, a ideia é maravilhosa, mas quero realidades, teremos dinheiro para isso? Servidor, marketing, tudo? — perguntei um pouco insegura, eu sabia de minhas condições financeiras.
— Não se preocupem com o dinheiro, eu tenho algumas economias que serão nosso suporte, sempre tive vontade de ter meu próprio jornal. — garantiu ela — E quanto ao restante da equipe, estou reunindo outras mulheres tão habilidosas quanto vocês para trabalhar conosco. Teremos uma equipe técnica para cuidar da hospedagem e programação do site, uma equipe de marketing e design gráfico para diagramação online e artes que serão feitas para os artigos e notícias. Fiquem tranquilas que em breve teremos uma grande reunião para que eu explique melhor tudo.
— Já estou ansiosa por isso. — disse Lizzi quase eufórica.
— Genevieve, eu não sei se já pensou nisso, mas mulheres também gostam de esportes e se tivermos esse caderno, gostaria de indicar uma amiga que estuda comigo, ela é muito ligada nesses assuntos e no colegial foi até capitã de líderes de torcida. — disse Beth.
— Me passe o contato dela. — pediu Genevieve.
— Que tal um brinde a base de café? — propôs Sunny ao levantar seu copo.
— Sim. — concordamos todas.

Nós brindamos em meio aos sorrisos de alegria e animação para nosso novo projeto. 

E lá no fundo eu sentia que era o início de mais uma nova fase em minha vida.

É isso
Ligue o motor e pise no acelerador
Tudo é especial
Nós ficamos bem juntos
O que você quiser
Eu vou fazer dar certo. 
- Love Me Right / EXO



15. Dia de Ação de Graças

Genevieve adiantou mais algumas informações sobre o jornal online e nos pediu indicações de mulheres talentosas que pudessem fazer parte da equipe. Passamos o resto da tarde conversando e compartilhando as expectativas para o futuro. As meninas me chamaram para comemorar as novidades em um bar recém inaugurado que Lizzi indicou. Porém, me recusei pois já tinha compromisso de jantar na casa dos meus pais para falar do nosso anual jantar de ação de graças. Mandei uma mensagem a avisando que não estaria em casa com as crianças, e outra para meu pai dizendo que estava a caminho. 

Quando cheguei, meus filhos já estavam despojados no sofá vendo algum filme desconhecido. Os abracei de leve e cumprimentei Margareth que estava desacompanhada do marido naquela noite, somente com seu filho. 

— E onde está seu marido? — perguntei a ela curiosa, desviando meu olhar para o pequeno Jacob com os olhos atentos na televisão.
— Viajando a trabalho. — respondeu ela, não dando tanta importância nisso.

O casamento de Margareth já vinha apresentando problemas há algum tempo, principalmente pela postura de Mark no trabalho. Seu machismo ostensivo era repugnante, principalmente por duvidar da competência profissional de minha irmã. Pelo que sabia, Margareth uma excelente funcionária que contemplava a transportadora com diversas ideias que deram certo e lhes renderam lucros. Mas claro que o orgulho masculino de seu marido não a deixaria viver o sucesso profissional tão sossegadamente.

— E não era para você ter ido? — perguntei confusa.

Geralmente quando um viajava, o outro também ia.

— Não, pedi demissão. — disse ela com tranquilidade.
— O que? — me peguei boquiaberta.
— E eu ainda acho isso uma loucura. — disse minha mãe ao entrar na sala, estava com seu avental do corpo e um olhar repreensivo.

Claro que para ela seria uma loucura os atos de Marg. Dona Agnes não criou uma filha para ser tão rebelde assim e pedir demissão por ter problemas de compatibilidade com o seu chefe. Mas o fato é que o chefe era marido de Margareth, e o relacionamento profissional estava atrapalhando o conjugal. E para mim, foi uma sábia decisão.

— A senhora sabe que já estou cansada de tanta crítica depreciativa de Mark, para ele uma mulher não é capaz de nada a não ser ficar em casa cuidando dos filhos e do marido. — ela me olhou com culpa, após se dar conta que descreveu minha antiga vida — Sem ofensas , mas não nasci para ser boa, recatada e do lar como você. Quando Mark se casou comigo, sabia que eu não deixaria de trabalhar.
— Não me ofendeu, para ser honesta, estou descobrindo que vida de dona de casa também não é assim uma maravilha. — confessei soltando uma risada discreta.
— Ele que lute para achar um diretor financeiro tão bom quanto eu. — disse ela, com firmeza.
— Ainda acho que deveria ter ficado e o feito engolir as críticas com seu trabalho impecável. — insistiu nossa mãe.

Era algo a se levar em consideração. Quando o assunto era depreciar as filhas dela, somente a própria tinha o direito disso e mais ninguém. Se alguém falasse mal da gente, ela nos defenderia mesmo estando erradas.

— Mas e agora? — perguntei voltando meu olhar para Marg — Está desempregada?
— Recebi algumas propostas de trabalho essa semana, de empresas concorrentes. — respondeu com um sorriso debochado.
— E está pensando em se unir a concorrência? — fiquei chocada.
— Por mais tentador que seja, eu quero mudar de setor, andei pensando em trabalhar para lojas de departamento, ao do tipo que não envolva tanto logística. — explicou ela seus planos para o futuro — Quero abrir meu leque de possibilidades assim como você fez com seus trabalhos freelancer.

Por essa eu não esperava. Minhas escolhas atuais estão influenciando minha irmã mais velha perfeita. Nossa mãe retornou para a cozinha e nosso pai chamou Joseph para a garagem, fiquei intrigada com tanto mistério entre os dois. Eu e Margareth saímos para a varanda da frente e nos sentamos no banco de madeira, olhando a rua. Ela parecia precisar desabafar mais, porém longe de nossa mãe.

— Tem certeza que está tudo bem? — perguntei a ela demonstrando preocupação no olhar — Ou está assim só pela mudança de emprego.
— Ah … — ela soltou um suspiro cansado — Tenho andado tão cansada com tudo isso, desgaste profissional, desgaste no casamento, descobrimos finalmente o problema de saúde de Jacob, mas agora começa o tratamento, e também a falta de empatia, de carinho e atenção do Mark.
— Nem como te ajudar quanto a isso. — disse a ela pegando em sua mão com gentileza e amparo.
— Só de me ouvir e me emprestar suas amigas como a Sophie e a Annia, ajuda muito, passar essas últimas semanas mais próximas a vocês, com certeza foi o que me ajudou a segurar a barra e aguentar tudo. — confessou ela.
— E como foi esse diagnóstico do Jacob? — perguntei.

Meu sobrinho era uma criança tão adorável quanto meus filhos. Era triste saber que tinha mesmo um problema de saúde.

— Sim, depois de tantos exames, descobrimos que ele tem intolerância a lactose, o que fez com que sua dieta mudasse radicalmente. — ela parecia reprimir suas lágrimas — Como eu digo ao meu filho que ele não pode tomar chocolate quente, por causa da porcentagem de leite misturado ao cacau?
— Marg, lamento estar passando por tudo isso, quando Molly foi para o hospital com intoxicação alimentar, eu fiquei desesperada. — revelei a ela meu lado materno também.
— Com você foi mais fácil . — ela me olhou com os olhos marejados de lágrimas — Você tinha uma pessoa ao seu lado para te apoiar, você tem o , já eu… A única coisa que eu tive foi o Mark dizendo que eu sou uma péssima mãe que não percebi isso antes, por estar totalmente focada no meu trabalho.
— Desde quando uma mulher não pode ser mãe e trabalhar fora ao mesmo tempo? — disse indignada com essas falas do meu cunhado — Já vi várias mães que são solteiras e cuidam dos filhos sozinhas, não precisam de macho pra isso. 
— Pois foi o que ele disse e isso foi a gota. — ele soltou um suspiro fraco — Não quero um homem do meu lado que não me apoia em meus sonhos e realizações, só me critica em tudo que eu faço, diz que sou uma péssima mãe e só lembra que sou mulher quando quer sexo. 

Ela tentava conter seu tom de voz, o mantendo baixo, mas tinha traços de revolta e frustração. 

— Como posso fazer sexo com ele, minutos depois de dizer que sou inútil profissionalmente? Parece que o prazer dele é me diminuir para se sentir o macho alpha da casa, que nojento. — desabafou mais ela, sua voz ficou mais fraca e as lágrimas começaram a cair — Se você alguma vez pensou que eu tenho a família perfeita, está enganada. 
— Ninguém é perfeito Marg, só Deus. — eu deslizei meu corpo e encostei minha cabeça em seu ombro — Mas, tenha esperança, as coisas podem mudar agora que não vão trabalhar mais.
— Hum… — ela suspirou novamente — E se… Eu não quiser que melhore?
— Por que não iria querer? — ergui meu corpo e a olhei confusa — Margareth, está mesmo com aquela ideia de se separar?
— Ainda não sei, mas para ter um casamento de aparências, prefiro não ter… — ela mordeu o lábio inferior — E também…
— E também?! — mantive minha atenção fixa nela.
— Você se lembra do Brian?! — ela desviou o olhar para suas mãos, e mexeu na aliança em seu dedo.
— Brian?! Aquele seu amigo de infância, que se mudou no final do fundamental? — perguntei me lembrando vagamente dele.
— O próprio. — confirmou ela com um olhar suspeito de adolescente — Esbarramos recentemente no Starbucks e conversamos um pouco.
— E? — permaneci atenta imaginando o que viria a seguir.

Eu não me lembrava muito de Brian, mas me lembrava que foi o primeiro amor da vida de Margareth. Os dois eram inseparáveis desde crianças quando se conheceram. Ele tinha se mudado para casa ao lado com os avós, pois seus pais faleceram em um acidente de carro.

— Ele disse que ainda está solteiro… E que nunca conseguiu encontrar alguém que me tirasse de seus pensamentos. — ela deu um sorriso malicioso.
— Marg, você disse a ele que é casada? — perguntei já me preocupando com ela.
— Sim, eu disse… — ela desviou o olhar.
— Margareth? — insisti.
— Eu disse a ele que meu casamento estava passando por uma fase complicada. — explicou ela com mais detalhes — Errada eu não estou.
— Mais falar assim é um convite para ele investir em você. — argumentei — Ainda mais depois de falar que ainda é apaixonado pela senhora casada.
— Ai , não me recrimine, ok? Eu estou sensível, carente e tenho como marido um homem que só pensa em mim quando quer sexo. — expôs ela suas frustrações — O que você faria em meu lugar? Ah, não, você já fez, arranjou um namorado.
— Mas no meu caso eu estava divorciada já e não casada. — retruquei com razão.
— Olha, eu não estou traindo o Mark se é isso que pensa. — devolveu ela ponderando mais a voz — Eu apenas expus ao Brian minhas condições mentais, psicológicas e sentimentais atualmente.
— Só não quero que se machuque no final. — disse com a voz mais suave.
— Eu já estou machucada , oito anos sendo machucada verbalmente pelo Mark, e só agora me dei conta disso. — continuou ela — E agradeço a você por isso.
— A mim? — estranhei.
— Sua força em se levantar após o divórcio, me mostrou que eu também sou uma mulher forte e talentosa. — reconheceu ela suas qualidades — Eu achava que precisava do reconhecimento do Mark para ser uma profissional de excelência, mas agora vejo que não preciso dele nem mesmo dormir com ele para me sentir uma mulher de verdade.

Eu fiquei em choque com essa revelação. Não imaginava que Margareth passava por tanta frustração em seu casamento. Ser a esposa somente na cama era pior que nem ser procurada por seu marido… Bem, as duas coisas são terríveis.

— E eu que achei que meu casamento seria como dos nossos pais. — disse ela.
— Bem, nosso dedo nasceu podre. — eu ri e ela também — Mas olhando agora, mamãe também não gostou muito quando você apresentou Mark pela primeira vez, se lembra?
— Sim, ela me perguntou se eu realmente iria trabalhar com meu futuro marido. — revelou Marg — Ela não achou a ideia muito boa não, e me lembrando agora, nossa mãe sempre gostou do Brian, ainda mais quando ele a chamava de tia Ag.
— Nossa mãe gostava do Brian, e hoje gosta do … Bem que as pessoas falam que o sexto sentido das mães nunca falham. — comentei.
— Sim… No final, nossa mãe sempre teve razão, mas nos deixou trilhar o caminho que a gente queria. — completou Marg — Contrariada, mas deixou.

Disso eu tinha que concordar. Por mais que nossa mãe fosse rígida, às vezes cruel em seus comentários, ela sempre desejou o melhor para nossas vidas. Voltamos para dentro e jantamos todos juntos. Ficou acordado o jantar de ação de graças na casa dos nossos pais. E minha mãe fez questão de me pedir para convidar . Surpreendente. Seria bom passar aquele dia com eles, já que o natal seria bem longe de NY.

Os dias passaram. Domingo pela manhã, fui surpreendida com acompanhado de um pinheiro de dois metros, no quintal da minha casa.

— De onde tirou isso? — perguntei quando saí na porta dos fundos e o vi.
— Molly me disse que não tinham uma árvore para o natal desse ano, pois o Carl havia destruído a que tinham no ano passado. — explicou ele — Então, resolvi trazer uma.
— Nem sei o que dizer. — e não sabia mesmo, ele era surreal.
— Me ajuda a levar para dentro? — pediu ele.
— E isso vai caber na minha sala? — perguntei.
— Sim, eu já fiz os cálculos. — ele sorriu de canto.
— Ok, senhor arquiteto. — assenti indo lhe ajudar.

Com algumas dificuldades e ajuda de Joseph, conseguimos instalar o pinheiro ao lado da janela da sala. Ficou realmente perfeito e foi uma motivação para Mollay que correu para o porão a fim de pegar os enfeites de natal guardados. Era louco, pois nem tinha chegado dezembro e ele já havia levado aquela árvore, mas segundo meu namorado, sua família tinha uma leve tradição de montar a árvore na semana do dia de ação de graças. 

— Vamos montar agora? — perguntou Molly animada.
— Claro joaninha, foi por isso que eu trouxe. — respondeu sebastian com um sorriso satisfeito por tê-la deixado contente com a surpresa.
— Eu posso participar também. — Joseph fez uma cara de irmão mais velho ciumento.
— Claro que pode Joe. — ela sorriu — E você também mamãe! É o que as famílias fazem, montam a árvore juntos.

Assentimos e começamos a diversão. Eu não imaginava que era tão cativante com crianças, menos ainda comunicativo com adolescentes. E nessa altura do dia, já tinha percebido que a surpresa da árvore não era para mim e sim para meus filhos. O vizinho da casa ao lado nem teve trabalho para conquistá-los, mas continuava dedicado a fazê-los sorrir como me fazia. Isso aquecia meu coração mais e mais.

— Ficou linda! — elogiei ao olhar para a decoração feita no árvore.
— Demais. — concordou meu namorado — E agora? O que vamos comer?
— Como assim o que vamos comer? — o olhei confusa.
— Eu ainda não tomei café da manhã. — respondeu ele com tranquilidade.
— Panquecas! — gritou Molly em euforia.

Assenti para eles e arrastei todos para cozinha comigo. Outro momento de diversão ao puxar Joseph como meu assistente e ver Molly e sentados nos observando preparar o café. Sim, pela primeira vez em muito tempo o sentimento de família feliz tomou conta de mim. E curiosamente tinha uma grande importância nisso.

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— Senhor… Agradecemos por nossa família e amigos, por este dia tão abençoado e por sempre o Seu amor reinar em nosso lar. — disse meu pai ao fazer a oração de agradecimento, com todos assentados à mesa — Agradecemos também pelo alimento e que nunca venha nos faltar. Amém!
— Amém! — dissemos todos juntos.
— Que bom que pode vir . — comentou minha mãe com um sorriso contente — Achei que deixaria vir sozinha com as crianças, mas também não seria a primeira vez.

Começou. Soltei um suspiro fraco e sem paciência para as alfinetadas dela. carinhosamente segurou em minha mão pousada em cima da mesa e sorriu para mim.

— No que depender de mim, ela nunca estará sozinha. — ele manteve o olhar em mim, intenso e profundo.
— Era exatamente isso que eu queria ouvir. — disse minha mãe, ao esticar o braço e indo servir o prato do meu pai — Mark deveria estar aqui para aprender com o namorado de sua irmã. 
— Acho que nem assim ele aprenderia. — Margareth deu de ombros — E ele não tem feito nenhuma falta mesmo. 
— Marg?! — a olhei.
— Só disse a verdade. — minha irmã serviu o prato do filho.

Minha mãe tinha feito alguns pratos especiais devido a nova dieta de Jacob. 

— Meu jovem, Molly me contou sobre a tradição da árvore da sua família. — disse meu pai a — Achei interessante e engraçado montarem antes do dia de ação de graças.
— Sim, é uma tradição dos meus antepassados. — disse ele confirmando — Os irlandeses são muito ligados a tradições.
— Sua família é irlandesa? — minha mãe o olhou admirada.
— Metade. — respondeu — Meus avós maternos são irlandeses, já a família do meu pai é britânica.
— Isso explica seu cavalherismo. — comentou Margareth sem nenhuma vergonha.
— Sim, britânicos são mesmo uns lordes. — concordou minha mãe.
— Hum… Elogiando tanto assim, ficarei com ciúmes. — brincou meu pai.
— Oh querido, sabe que você sempre será meu eterno gentleman. — minha mãe sorriu para ele com um brilho no olhar.

Era lindo o amor dos dois. Me espelhava bastante no casamento deles, pois com tantas diferenças, ambos conseguiram conquistar um relacionamento sólido e de respeito mútuo. O amor ainda ardia dentro deles e pelo olhar de um para o outro, a paixão também.

— Vovó, o frango está uma delícia. — disse Molly, voltando a atenção para ela — Melhor que a da mamãe.
— Traidora, agora todo mundo cozinha melhor que eu? — a olhei me fazendo de ofendida.
— Desculpa mamãe, mas não é todo mundo, só a vovó e o . — continuou minha filha, me deixando ainda mais envergonhada.

ao meu lado segurou o riso e piscou para Molly.

? — minha mãe o olhou — Agora fiquei surpresa e curiosa.
— Se quiser, cozinho para os meus sogros, se eu passar no teste poderei me casar com a filha de vocês? A Molly já deixou. — brincou ele, lançando um sorriso sugestivo para mim.
— Eu já adianto que gosto de comida apimentada. — disse meu pai segurando o riso.
— Sou muito bom em gastronomia coreana, eles amam uma pimenta na comida. — disse seguro de suas habilidades.

Isso que deixou boquiaberta.

— Isso é que é um genro de verdade. — disse minha mãe ao lançar seu olhar para Marg — E por falar em genro de verdade, eu cruzei com seu amigo de infância do supermercado ontem.
— Meu amigo?! — Marg se fez de desentendida.
— Brian. — esclareceu ela — Ele está muito bonito, cresceu bem, e continua um cavalheiro como , me deu carona e ajudou a trazer as compras para dentro.
— O Brian?! — Marg desviou o olhar para mim discretamente.

Minha irmã parecia com medo do que viria a seguir.

— Ele mesmo, Brian Sollary. — confirmou nossa mãe com um olhar tranquilo — Fiquei surpresa quando ele me disse que ainda estava solteiro por não achar ninguém a altura da minha filha mais velha. 
— Nossa. — Marg tentou disfarçar sua reação.
— Agnes, não comece, nossa filha é casada. — alertou meu pai com seriedade.
— Eu sei, só estou dizendo o que ele mesmo me contou, sabe que não aumento em nada. — minha mãe o olhou.

Isso era verdade. Por mais que não parecesse, ela odiava fofocas inventadas.

— E consegui ver no olhar dele que ainda é apaixonado por nossa filha. — ela soltou um suspiro — Que pena que foi o Carl o traidor e não o Mark, assim Margareth estaria divorciada, se bem que foi um alívio para ter descoberto as amantes daquele sujeito, assim agora eu tenho um genro decente.
— Mãe?! — tanto eu como Margareth a repreendemos.
— E eu falei alguma mentira? — nossa mãe nos olhou.

começou a rir juntamente com Joseph. O que me fez morrer de vergonha, e minha irmã também. Que nossa mãe não tinha papas na língua tudo bem, mas que ela pensava isso sobre o casamento de Margareth era impressionante. Seguimos com o jantar, com meu pai se desculpando a todo momento pelos assuntos malucos que minha mãe jogava na roda. E com e deixando-a sem reação em todas as vezes que ela me criticava.

Assim que voltamos para casa, deixei sebastian na sala e levei Molly para o quarto. Tanto ela quanto Joseph pareciam bem cansados. Dei um beijo de boa noite em ambos e desci as escadas. me esperava na porta que dava para a cozinha. Seu olhar tinha um brilho incomum, e no canto do rosto um sorriso singelo e discreto.

— Obrigada por ter ido ao jantar, e desculpe pelos comentários da minha mãe. — disse ao me aproximar dele.
— Não se desculpe, é estranho, mas consigo perceber que ela te ama. — ele tocou em minha face — Está preocupada com sua irmã?
— É tão visível assim? — perguntei de volta.
— Sim, todos os seus olhares e expressões, consigo ler todos. — ele deslizou seus dedos até meus lábios — Sei até mesmo quando quer um beijo meu.
— Hum…

Eu não tive nem mesmo tempo de argumentar. Ele me beijou com suavidade, envolvendo seus braços em minha cintura. De doce, seu beijo começou a ficar ousado e malicioso. 

— Neste dia, e em todos os outros, agradeço a Deus por ter entrado em sua vida. — sussurrou ele, ao manter nossos rostos colados — Eu te amo, .

Eu não conseguia reagir a isso. Somente sentia meu coração acelerar.

É como se eu não conseguisse respirar, desde meu nascimento até agora...
É a minha primeira vez sentindo algo assim,
Meu cérebro e pensamentos estão preenchidos por você,
Preenchidos pelas suas expressões e suas risadas. 
- My Answer / EXO



16. A Sogra

Dois dias para o natal e dentro de mim um nervosismo se instalou. Confesso que havia medo em mim, conhecer a mãe de seria um marco importante em nosso inesperado relacionamento. Pela manhã após acordar, me espreguicei na cama e senti não estar sozinha. Abri os olhos e me deparei com minha joaninha embrulhada em minha coberta toda encolhida e apagada. Certamente havia invadido o meu quarto no meio da noite. Molly não tinha o costume de dormir em minha cama, apenas em ocasiões extremas de pesadelo.

— Bom dia joaninha. — disse em sussurro, beijando de leve sua bochecha.
— Bom dia mamãe. — disse ela se espreguiçando.
— Teve algum pesadelo? — perguntei.
— Eu sonhei que o tinha ido embora e a senhora estava chorando. — contou ela — Ele vai embora mamãe.
— Não querida. — sorriu de leve para tranquilizar a filha. 

Até quando eu quiser. Pensou ela, na frase que estremecia seu corpo. Ela abraçou sua filha com carinho.

— Você gosta do por perto? — perguntei.
— Eu sempre vejo um sorriso no seu rosto quando ele está perto. — explicou ela com um olhar brilhoso — E gosto mais dele que do papai. 

Isso me pegou de surpresa. Mantive o sorriso no rosto e me levantei da cama. Troquei de roupa no banheiro e desci as escadas, seguindo para a cozinha. Joseph já se encontrava acordado e preparando nosso café. Me aproximei dele e o abracei.

— Bom dia querido. — disse o observando preparar suas panquecas.
— Bom dia mãe. — ele sorriu para mim — Molly teve pesadelo?
— Sim, mas está tudo bem agora. — respondi. 
— Vamos mesmo passar o natal com o ? — ele desligou a trempe e me olhou. 
— Sim, mas somente se você e sua irmã estiverem confortáveis para ir. — expliquei. 

Não deixaria meus filhos sozinhos no natal. 

— Molly não para de falar sobre isso. Claro que estamos animados para ir. — Joseph sorriu ao colocar o prato de panquecas na mesa — Está pensando em desistir?
— Não. — respondi com certeza - Mas claro que a opinião de vocês é importante. 
— Eu quero conhecer a família do . — disse Molly ao entrar na cozinha. 

Nós rimos dela e nos sentamos nas cadeiras. Saboreamos o nosso café da manhã com tranquilidade e muitos risos. As horas passaram e após o almoço, ajudei Molly a arrumar sua mala, então conferi a minha. O inverno estava mais rigoroso esse ano, então tratei de colocar as roupas mais quentes nas malas. Ao entardecer, veio nos buscar, e assim seguimos de avião para Los Angeles, com o destino final em Malibu. Foi lindo ver meus filhos encantados com a paisagem, mesmo noturna. Era a segunda vez deles longe de Manhattan. A primeira vez foi para a Disney quando Molly tinha dois anos.

— Chegamos. — disse assim que entramos na casa de sua mãe que ficava em frente a praia.
— Uau. — Molly correu para varanda — Dá pra ver a praia daqui. Olha Joe. 

Meu filho seguiu a irmã. Assim que colocou as malas ao lado da escada, se aproximou de mim e me pegando pela cintura me deu um selinho rápido.

— Está tudo bem? — perguntou ele ao me olhar preocupado — Se quiser, podemos ficar em um hotel.
— Não, não quero te afastar da sua mãe, ela foi tão solícita em nos convidar a ficar aqui. — sorri de leve para ele.
— Ainda está com medo de conhecê-la? — perguntou ele.
— Quem disse que estava com medo? — o olhei séria, porém suavizei o rosto — Estou tentando permanecer tranquila.
— Que bom. — ele beijou meu pescoço — Pois você vai dormir comigo. 

Ele deu um sorriso malicioso e piscou de leve. Nem mesmo pude reagir e protestar, pois as crianças retornavam para sala. Seguimos para o andar de cima, a fim de conhecer os quartos. A casa não era tão grande assim, mas confortável e ampla. Tinham quatro quartos e três banheiros, contando com a suíte de sua mãe. Aproveitamos para acomodar algumas coisas no quarto e me deixou à vontade para me trocar, se retirando primeiro e descendo para a cozinha. Eu troquei de roupa, colocando um conjunto de moletom e também retornei para o andar debaixo.

— Molly está tão empolgada com a praia, mas como posso deixá-la ir, não em meio a neve. — comentei ao vê-lo já com um avental no corpo, preparando algo para comermos.
— Deixe que ela caminhe na praia pelo menos. — ele me olhou com carinho — Quem sabe no próximo verão…

Seu olhar sugestivo me estremeceu um pouco. Sorri de leve e me sentei na banqueta para observá-lo.

— Estou me lembrando de quando cozinhou para mim pela primeira vez… — comentei — O restaurante da sua mãe já ficou pronto?
— Estamos na fase final. — respondeu ele voltando o olhar para o lanche que preparava — Talvez no próximo mês seja inaugurado.
— Hum… 

Não demorou muito até que lanchamos os sanduíches de presunto defumado que ele preparou com chocolate quente. Eu já estava me preocupando com a ausência de sua mãe. Porém, pouco depois das dez, ela adentrou sua casa, com suas sacolas nas mãos e falando ao celular. Meu corpo gelou assim que seu olhar intimidador chegou em mim. Bridget Lewis, a maior chef de cozinha da Califórnia estava em minha frente, e o mais louco é que já havia visto uma reportagem do NT Post sobre ela. Ela me olhou de cima para baixo discretamente e depois desviou o olhar para meus filhos. 

. — ela seguiu para ele e o abraçou — Que saudade querido.
— Eu também mãe. — ele sorriu retribuindo o abraço dela — Quero que conheça e seus filhos Molly e Joseph.
— Prazer, senhora Lewis. — disse estendendo a mão em cumprimento.
— Prazer. — ela apertou a minha mão e sorriu para meus filhos — Já comeram? Trouxe alguns pratos do restaurante.
— Já comemos sim. — respondeu ele — Vamos nos recolher agora.
— Eu preparei os três quartos para vocês, deixei o de ao lado do seu, já que sua irmã não virá. — disse ela num tom firme.
ficará comigo. — disse ele ao segurar em minha mão.
— Ah querido, não queremos que ela se sinta desconfortável não é, acho que seria mais prudente ela ficar no quarto ao lado. — o olhar de sua mãe se voltou para mim numa forma de ameaça.
— Claro, e também não quero tirar a privacidade dele. — eu soltei a minha mão da dele e o olhei com carinho — Será melhor assim, vou me sentir mais confortável.
— Se é o que você quer, eu respeito. — disse ele ao me olhar com seriedade.
— Tudo resolvido então. — ela abriu um largo sorriso de satisfação e seguiu para a cozinha.

Nesta altura, eu já estava me sentindo mais do que intimidada. Seguimos para os quartos, e enquanto deixava minha mala no quarto ao lado, fui dar boa noite aos meus filhos.

— Está tudo bem mãe? — perguntou Joseph.
— Sim, porque? — o olhei confusa.
— A mãe do pareceu não gostar da gente. — disse Molly.
— Pequena, não é isso, ela só ficou preocupada com o nosso bem estar aqui. — forcei um sorriso para eles — Durmam bem, amanhã vamos passear na praia.
— Eba! — Molly deu um pulo da cama.
— Vamos joaninha, dormir. — ri de leve e beijei sua testa — Fique tranquilo Joseph, está tudo bem.

Dei um abraço nele e me retirei do quarto deles. Segui para o meu, me deparando com ainda lá.

— Não me olhei assim, é a casa da sua mãe, vamos respeitar a vontade dela. — disse ao me aproximar dele.
— Não quero que se sinta coagida, não me importo de ir para um hotel. — disse ele com firmeza.
— Não me senti coagida, é minha primeira vez aqui, acho que será melhor assim, preciso conquistar a confiança dela primeiro. — expliquei a ele.
— Então… Quer dizer que no verão… — ele me puxou pela cintura — O verão está muito longe, meu desejo é derreter a neve com o nosso amor.

Fui interrompida por um beijo apaixonado e intenso dele, como sempre. Senti que ele realmente queria esquentar as coisas entre nós, mas sempre sendo respeitoso e pedindo permissão a cada carícia mais maliciosa. Me afastei um pouco dele e desejei boa noite, ao perceber a sombra de sua mãe passando pela porta. 

Na manhã seguinte, Molly me acordou primeiro. E sem mais delongas, trocamos de roupa e seguimos eu e meus dois filhos para uma caminhada na praia. pediu para ir na frente, pois precisava resolver alguns assuntos do escritório de última hora. Foi lindo ver Molly brincando com a neve, juntamente com Joseph, fazendo um boneco Olaf, versão joaninha. Fiquei parada observando eles se divertindo. Não conseguia me lembrar qual o último natal que passamos assim, tão felizes e em sorrisos o tempo todo. A triste lembrança de Carl quebrando a árvore enfeitada no último natal, fez meu coração se apertar. Porém, o brilho nos olhos de Molly foi o suficiente para espantar as más lembranças.

Passamos um bom tempo ali, porém o céu foi fechando e dando sinais de nevasca se aproximando. Voltamos para a casa da senhora Lewis, na porta ouvi vozes alteradas vindo de dentro e assim que entramos, ambos se calaram no mesmo momento.

— Voltamos. — disse meio sem graça, porém forçando um sorriso de quem não ouviu nada — Sentimos sua falta lá, você disse que iria.
— Me desculpe, imprevistos no trabalho, tive que resolver. — explicou — Como foi?
— Divertido. — disse Molly empolgada.
— Porém, o céu está estranho, parece que vem uma nevasca. — completei.
— Eu vou jogar no quarto mãe. — disse Joseph num tom baixo.

Meu filho era bastante transparente em suas expressões. E já havia percebido que ele não tinha gostado da mãe de . Tentei disfarçar as coisas, mas parecia que até não estava satisfeito com as ações da senhora Lewis. As horas se passaram, como véspera de natal e com uma tempestade de neve do lado de fora, nossa única opção era maratona Pixar sugerido por Molly. Joseph permaneceu no quarto jogando e a senhora Lewis na cozinha testando algumas receitas. Minha joaninha acabou dormindo no terceiro filme e a levou em seus braços para o quarto.

. — a senhora Lewis entrou na sala ao perceber que estava sozinha.
— Sim? — eu me levantei do sofá e a olhei — Precisa de alguma coisa?
— Sim, mas infelizmente não pode me ajudar. — disse ela com aspereza na voz — Se é que me entende.
— Me desculpe, mas não a entendo. — disse inocente — Por que não posso ajudá-la?
, serei direta e honesta com você, meu sonho nunca foi que meu se relacionasse com uma mulher divorciada e com dois filhos na bagagem. — ela foi mais do que direta e honesta — Não acho que seja a mulher ideal para ele, nem que possa fazê-lo feliz.
— Somente eu sei quem pode ou não me fazer feliz mãe. — a voz de soou atrás de mim, arrepiando meu corpo.
— Querido, não foi o que eu quis dizer. — sua mãe tentou contornar a situação.
— Foi sim, exatamente o que quis dizer. — ele parou ao meu lado e segurou firme em minha mão, certamente para que dessa vez eu não soltasse — A é a mulher que eu escolhi amar, não me importo com o que pensa sobre isso, tenho certeza que serei feliz com ela. 
. — sussurrei tentando acalmá-lo.

Ele realmente parecia nervoso com sua mãe, mesmo mantendo o tom de voz tranquilo.

— Nós vamos para outro lugar. — anunciou ele.
— Mas filho, está uma tempestade lá fora e amanhã é natal. — questionou ela.
— Não vou ficar em um lugar onde esta mulher ao meu lado não é bem-vinda, e menos ainda vou permitir que continue coagindo ela. — disse ele com segurança — Eu a conheço mãe, e sei que é assim que faz.

Oh eu não me importo
Mesmo que eu tenha que ir para longe
Eu serei o único homem
Que estará ao seu lado.
- Call Me Baby / EXO



17. Natal Especial

Foi loucura, mas sim. Enfrentamos a nevasca no carro que alugou e nos hospedamos na casa de um amigo que viajara para Londres. Com a casa vazia, teríamos o lugar somente para nós quatro. Mesmo sendo um pouco afastada da praia, era um lugar aconchegante e bem confortável. Logo que entramos, Joseph acendeu a lareira a pedido meu. Eu segui para um dos quartos e coloquei Molly ainda sonolenta na cama e a cobri com carinho. Enquanto isso, colocou as malas no lugar.

— Não queria ter causado tudo isso. — sussurrei para ele.
— A culpa não é sua. — ele sorriu de leve e acariciou minha face — Não se sinta assim.
— Como conseguiu esse lugar tão rápido? — perguntei.
— Quando foram para praia, aproveitei para ligar para algumas pessoas enquanto resolvia o problema do projeto. — explicou ele — Me lembrei de um amigo, o dono dessa casa.
— Está arrependido de termos vindo? — perguntei a ele preocupada.
— Se eu soubesse que minha mãe faria isso. — sua voz estava um pouco baixa.
— A culpa também não é sua. — segurei em sua mão e o beijei de leve.

Ele retribuiu o beijo envolvendo seus braços em minha cintura. Nossos rostos ficaram próximos um do outro, que podia sentir sua respiração ofegante. Meu coração acelerou no mesmo instante. Mantive meus olhos fechados por um tempo, com tudo silencioso ao nosso redor. Só conseguia sentir suas mãos deslizarem em minhas costas, fazendo meu corpo arrepiar.

— Eu te amo. — sussurrou ele em meu ouvido.

Sua voz tinha uma entonação envolvente que me estremecia por inteiro.

… — sussurrei de volta.
— Eu sei que você me quer na mesma intensidade que eu te quero. — afirmou ele seguro de suas palavras, seu olhar sereno e sincero — Me deixe te amar .

Antes que eu pudesse dizer algo, meu celular tocou. O clima foi parcialmente quebrado, quando me afastei dele e peguei minha bolsa. Ao atender, somente ouvi os soluços de Sophie do outro lado da linha.

— Sophie?! — me afastei de e caminhei até a janela da sala — O que aconteceu, amiga?
— Eu, definitivamente odeio minha sogra. — disse ela em prantos do outro lado.
— Onde você está? — perguntei mais do que preocupada.
— Eu não sei. — um breve silêncio se formou — Eu apenas saí da casa dos meus sogros e…
— Sophie, o Will deve estar morrendo de preocupação com você. — alertei ela — Ele não merece passar por isso, ele te ama muito.
— Eu sei, mas eu não aguento mais, talvez eu não seja a mulher ideal para ele. — confessou ela seus pensamentos negativos — Ele sempre quis ter filhos e eu nunca dei a ele.
— Não diga isso amiga, vocês se amam e o Will entende que não esteja pronta para ser mãe. — tentei acalmá-la.
— Você não entende , eu nunca estarei pronta para ser mãe, porque eu sou estéril. — ela desabou a chorar mais ainda.

Aquilo me pegou de surpresa.

— Não é que eu não queira ter, o que eu mais queria é dar ao Will os filhos que ele tanto sonha, mas eu não posso, vim com defeito de fábrica. — ela soltou uma gargalhada maluca.

Sophie sendo Sophie sempre. Mesmo em lágrimas continuava fazendo brincadeiras com a própria tristeza.

— Eu não sei o que dizer amiga, como te ajudar. — disse a ela com uma voz solidária — Eu não estou em Manhattan como sabe.
— Não se preocupe comigo, mandei uma mensagem pra Annia vir me buscar, eu te liguei porque precisava desabafar com a minha irmã do coração. — explicou ela — Mas tudo bem, eu vou ficar bem, só preciso ficar longe do Will esta noite.
— Em plena véspera de natal amiga? — questionei a ela — Sophie, você não pode ficar sozinha no natal.
— Estarei com a Annia até a noite, depois eu digo ao Will para me buscar. — ela respirou fundo.
— Tem certeza?
— Sim.

Queria poder ajudá-la melhor. Estar em casa para lhe dar apoio, mas não conseguia nem mesmo me apoiar direito. As horas se passaram e acabei adormecendo no sofá nos braços de . Ele me levou para cama. No meio da madrugada, senti seus braços me aconchegando, com seu corpo aninhado ao meu. Ele realmente havia dormido ao meu lado. Logo pela manhã fui surpreendida ao acordar com um café na cama oferecido por meus filhos e meu namorado. Meu coração se encheu de alegria ao vê-los ali. Os três sentaram na cama e juntos tomamos o café. 

Manhã de natal e até mesmo ver uma árvore montada na sala me surpreendeu. havia comprado uma árvore logo pela manhã, de um cliente de seu escritório que tinha loja na cidade. Era louco pensar que ele conhecia muitas pessoas e tinha muitos contatos pelo país. Ao final da tarde, com o tempo mais estável, saímos pelas ruas a desejar feliz natal. Em um piscar de olhos, pegou uma bolinha de neve e jogou em Molly. Assim que a joaninha percebeu quem foi o causador, uma guerra de bola de neve se formou entre nós, com muitas risadas e alguns escorregões pela neve. Foi um longo dia de diversão com as crianças e ele, um momento que nunca imaginei que teria.

— Estou com fome mamãe. — disse Molly assim que passamos por um restaurante aberto no dia.
— Que tal celebrar o natal ao estilo italiano? — sugeriu ao olhar a placa do restaurante.
— Seria interessante. — disse Joseph ao guardar seu celular no bolso da jaqueta.
— Vamos ao macarrão. — brinquei, fazendo-os rir.
— Vamos! — exclamou Molly com entusiasmo.

Mais um momento de descontração entre nós, com direito a um senhor vestido de papai Noel cantando canções tradicionais italianas, como O Sole Mio. Foi bonito e emocionante todo aquele momento. Ainda ganhamos um pote de biscoitos italianos feito com anis. 

— Nos divertimos muito hoje. — disse assim que entramos em casa.
— Eu gostei muito daquele biscoito que ela nos deu. — disse Molly.
— Estou de olho na senhorita para não comer tudo de uma vez. — disse a ela já levando o pote de biscoitos para a cozinha — Não podemos abusar do açúcar.
— Eu prometo não comer tudo. — assegurou ela — Vou deixar para o Joseph também.
— E eu não ganho? — a olhou com tristeza.
— Os irmãos têm prioridade. — brincou Joseph.
— Que maldade comigo. — fez bico.
— Eu vou deixar para você também . — disse ela sorrindo de leve.
— Ok, quero a mocinha tomando um banho quente e indo para cama. — ordenei a ela — Está tarde e amanhã voltamos para Manhattan logo pela manhã.
— Ah mãe. — ela resmungou, mas sob o meu olhar e um sorriso cativante de , acabou aceitando.

Joseph se despediu de nós e seguiu para mais uma partida especial de natal do seu jogo. Após supervisionar minha joaninha e lhe dar um beijo de boa noite, voltei para o quarto. , ainda não tinha terminado de ajustar as coisas na cozinha, então aproveitei para trocar de roupa. Assim que terminei e olhei para meu reflexo no espelho, vi ele encostado na porta do quarto. Um frio na barriga passou por mim.

— Está a muito tempo aí? — perguntei um pouco tímida.
— Tempo suficiente. — sua voz mais entonada, ele fechou a porta e passou a volta na chave.

Meu coração já acelerou com isso. Ainda mais vê-lo se aproximar de mim. Como a casa estava totalmente quente pelo sistema de aquecimento instalado, então tive a liberdade de colocar o pijama com a blusa de alça. Aproveitando isso, parou em minha frente e tocando na alça caída, pousou sua mão em meu braço, e deu um beijo leve em meu ombro. Subindo para meu pescoço, percorrendo seus lábios até chegar em minha boca. 

Meu corpo arrepiou com seu toque suave e ao mesmo tempo audacioso. Internamente, eu ainda me sentia insegura e incapaz de continuar, porém, quanto mais ele avançava e pedia permissão para continuar, mais eu lutava contra meus medos e concedia espaço para ele. havia entrado na minha vida da forma mais louca e surreal possível, nem sabia explicar como ele havia se apaixonado por mim. Mas ali estava ele, somente transmitindo todo o seu amor, através de suas carícias e beijos intensos.

— Eu te amo. — sussurrou ele, por várias vezes em meu ouvido, estremecendo-me ainda mais por dentro.

E por mais que eu não conseguisse ainda dizer as mesmas palavras, com a intensidade que ele dizia, eu transmiti meus sentimentos por ele naquela noite. O presente natalino de um para o outro, era exatamente a intensa e sublime entrega mútua que fizemos naquela singela noite de natal.

Minha resposta é você,
Eu te mostrei tudo de mim,
Você é o meu tudo, eu tenho certeza,
Eu serei mais cuidadoso e te protegerei,
Então o seu coração nunca será machucado,
Eu nunca me senti assim antes,
Como se minha respiração fosse parar. 
- My Answer / EXO



18. Mudanças

Acordei sentindo acariciar minhas costas, ao deslizar seu dedo indicador pela linha central. Mantive os olhos fechados apenas sentindo seu toque em meu corpo e um leve beijo em meu pescoço.

— Eu sei que está acordada. — sussurrou ele em meu ouvido.

Não me contive em abrir um largo sorriso e me remexer na cama para olhá-lo. Estava curiosa.

— Como sabia? — perguntei.
— Você sorri enquanto dorme, além do mais, vi seu corpo arrepiar a dois segundos atrás, e sua respiração ficou mais forte. — explicou com um olhar sereno.
— Tem certeza de que não é um psicopata? — brinquei admirada com sua observação relacionada a mim.
— Se for, você é a minha vítima. — ele jogou seu corpo em cima do meu, deixando nossos rostos colados — E não vou te deixar escapar.

Um beijo intenso iniciou de sua parte e retribui com a mesma vontade. Eu ainda não sabia como havia conseguido lidar com minhas inseguranças, as corrosivas palavras de Carl insistiam em martelar minha mente. Isso causava resistência em pensar se era uma mulher capaz de ir além das expectativas que aquele misterioso vizinho depositou em mim. demonstrou um domínio sobre meu corpo que desconhecia e jamais imaginava que um homem tivesse capacidade para isso. 

Para ser sincera, eu nunca imaginei que dormiria com outra pessoa além de Carl. Sempre achei que meu casamento seria pra vida toda até que a morte nos separe como o dos meus pais. Mas agora, sentindo a intensa persuasão dos seus beijos em mim fazendo-me entregar por inteira, um certo medo surgia bem lá no fundo. Medo de me machucar novamente depois de ter cedido a ele o que tanto ansiava obter da divorciada da casa ao lado.

— Está muito silenciosa agora. — ele ergueu seu corpo e beijou meu ombro.
— Estava pensando em coisas inoportunas. — disse num tom baixo, puxando um pouco o lençol para me cobrir — Preciso ver como estão meus filhos e preparar o café da manhã.
— Não queria sair desse quarto agora. — disse ele com um olhar intenso para mim.
— Vida continua senhor vizinho e eu tenho dois filhos para alimentar. — me afastei dele e levantei — Te aconselho a tomar um banho, assim vai se sentir mais relaxado.
— E quem disse que estou tenso? — ele manteve seu olhar para mim — A única coisa que desejo é a mulher à minha frente.
— Terá que esperar, a mulher em sua frente tem filhos como prioridade. — eu ri dele e coloquei uma roupa qualquer que encontrei pela frente.

Somente ao chegar na cozinha que me toquei que havia colocado o suéter dele ao invés do meu. E senti uma queimação de vergonha em meu rosto, assim que o olhar do meu filho veio em minha direção. A curiosidade e análise de Joseph me deixava nervosa.

— Não precisa ficar com vergonha mãe, eu sei exatamente o que adultos fazem no quarto sozinhos. — brincou ele, segurando o riso — Só peço que sejam menos barulhentos, Molly ainda é uma criança e seria complicado explicar para ela as vozes altas de vocês.

Agora que eu desejava colocar minha cara dentro de um buraco. Nunca imaginei ser repreendida por meu filho e com tanta sutileza. 

— Eu… — senti minha voz travar.
— A culpa foi minha, me desculpe. — disse ao aparecer na cozinha e me abraçar por trás — Prometo que seremos mais cuidadosos.
— Hum… — Joseph nos avaliou com o olhar, ainda segurando o riso — Ah, Molly teve outro pesadelo novamente, ela veio dormir no meu quarto já que a porta de vocês estava trancada.

Mais uma vez eu senti um aperto no meu coração. Já se contava duas semanas que Molly estava tendo esses pesadelos malucos.

— Vá até sua filha, eu preparo o café. — sugeriu num tom mais sereno.
— Molly ainda está dormindo? — perguntei a Joseph.
— Não, ela está vendo desenho. — respondeu meu filho desviando o olhar para o celular.

Deixei ambos na cozinha, já temendo que tivessem algum tipo de conversa relacionada a noite anterior. Por mais que Joseph já fosse mais crescido, era vergonhoso conversar sobre minha intimidade com meu filho. Mas estava feliz por ele não ter nenhum tipo de preconceito quanto a isso. O que me fez lembrar da mãe de e a forma que me tratou. Certamente se tivéssemos continuado em sua casa, essa noite jamais teria acontecido.

— Joaninha?! — dei dois toques na porta do quarto e sorri para ela — Tudo bem? Bom dia querida.
— Bom dia mamãe. — ela desviou o olhar da tela do notebook para mim e sorriu de leve — Eu tive outro daquele pesadelo.
— Joseph me contou. — caminhei até ela e me sentei ao seu lado na cama — Como foi o sonho desta vez?
— Eu sonhei que estava chorando, seu rosto estava machucado. — ela começou a lacrimejar — Mamãe, eu não quero que se machuque.
— Querida. — eu a abracei forte acariciando seus cabelos — Nada vai acontecer, vamos ficar bem, foi só um sonho ruim.
— Eu procurei o no sonho e ele tinha ido embora, então acordei me lembrando da mãe dele que não gostou da gente. — continuou ela com um olhar mais triste ainda.
— O continua aqui querida, vamos esquecer esse pesadelo. — sorri de leve para ela e segurando em sua mão, a levantei da cama — Vamos tomar nosso café da manhã.

Ela assentiu com um sorriso mais alegre e seguimos juntas para a cozinha. Depois de comer, me ofereci para lavar as vasilhas sujas. Assim que terminei, ouvi meu celular tocando e era uma ligação da Sophie. As coisas ficaram tão complexas ontem que me esqueci totalmente de ligar para ela e saber se melhorou.

— Sophie. — disse ao atender — Como está hoje?
Me sinto bem melhor, nada como um dia após o outro e uma noite de amor fofo com meu marido. — respondeu ela contendo a euforia.
— Você voltou para casa? — perguntei.
Não, estou na casa da Annia ainda. — respondeu ela.
— Você e o Will ficaram aí? — agora eu estava chocada.
Bem, eu não queria ligar para ele, quem fez isso foi a Annia. — explicou ela — E de madrugada, eu fui surpreendida com um homem totalmente sedento invadindo meu quarto dizendo que sou a mulher da vida dele, com ou sem filhos. 

Ela parecia estar nas nuvens.

Acho que foi nossa melhor noite em anos, nunca o vi tão entusiasmado. — continuou ela.
— Me poupe dos detalhes Sophie. — eu ri dela, fazendo uma careta.

Voltei meu olhar para a porta e vi encostado na parede me olhando.

— E para onde Annia foi? — perguntei curiosa.
Agora de manhã quando saímos do quarto, tinha um bilhete dela dizendo que tinha saído com um amigo. — respondeu — O que me intrigou, pois quando eu lhe dei boa noite, ouvi alguns passos dela pelo corredor, será que Annia está de namorado novo?
— Seria legal nossa amiga ter outra pessoa em sua vida, ela sofreu tanto com a morte do George. — observei se aproximar de mim e me abraçar pela cintura, meu coração acelerou um pouco — Mas e o Will?! Mais alguma reação dele.

Tentei agir com naturalidade, mas estava sendo complicado.

Ele está bem e teve uma conversa nada amigável com sua mãe, sobre suas cobranças em cima de mim. — respondeu ela — Mas eu quero mesmo é saber de você? Como foi conhecer a sogra? E o vizinho, vocês já avançaram?
— Ruim para a primeira e sim para a segunda. — disse de forma enigmática, pois ele estava mesmo atento à nossa conversa.

Sophie ficou muda por um momento, certamente tentando entender a resposta, e depois soltou um grito que me assustou.

— Sophie?! — a repreendi.
Sophie nada… — disse ela do outro lado da linha— Você tem noção de que a minha fic está salva! Finalmente ! E como foi? Quero detalhes, gosto das partes restritas.
— Sem parte restrita para você Sophie, se contenha e volte para seu marido, eu vou desligar. — eu disse a ela, segurando o riso, sentindo beijar de leve meu pescoço.
Não seja má amiga, eu tenho esperado por esse momento há tempos, foi como esperar uma autora atualizar uma fic na parte mais definitiva da história. — resmungou ela chateada — Você não faz ideia do que é ler uma fic tão boa e descobrir que não é atualizada a oito anos.

Não me contive e ri dela.

— Bom dia Sophie, volto para Manhattan amanhã pela manhã. — disse a ela.
Amanhã não é domingo, mas quero dia do sorvete no Central Park. — seu tom de ordem foi bem claro para mim.
— Tudo bem Sophie, dia do sorvete no Central Park, vou estar lá. — assegurei a ela.
Aproveite em dobro amiga, você merece saborear cada pedaço desse homem. — ela soltou uma gargalhada maldosa.
— Sophie?! — chamei sua atenção novamente.

Encerrei a ligação em risos.

— Sua amiga é muito legal e engraçada. — comentou — Suas expressões são tão divertidas quando fala ao telefone com ela.
— Sophie consegue me constranger sempre. — admiti, e mudando o assunto — Temos que arrumar as malas, vamos voltar à noite.
— Pensei em dar uma volta na praia antes de irmos, o que acha? — perguntou ele.
— Casal ou coletivo? — perguntei.
— Eu jamais deixaria de contar com a presença dos seus filhos. — assegurou ele com firmeza.

Assenti com um sorriso e segui para sala. As crianças ficaram animadas com a caminhada antes de partirmos. Agora com a presença de , nossa volta pela praia ficou ainda mais divertida e interessante.

--

— Até que enfim. — disse Sophie assim que cheguei no ponto de encontro no Central Park.

Minha amiga parecia mais do que ansiosa para me ver e eu sabia o motivo disso.

— Desculpa o atraso, deixei Molly na casa dos meus pais, ela quer ficar o resto da semana com eles. — expliquei a ela — Vamos ao sorvete?
— Claro. — ela segurou em meu braço e me arrastou com ela.

Assim que compramos um sorvete para cada, nos sentamos em um banco para conversar melhor.

— Eu sei que está ansiosa para saber sobre meu natal em Malibu, mas eu também estou ansiosa para saber mais sobre essa história toda de não poder ter filhos. — já iniciei a conversa, antes que ela determinasse o curso das coisas — Por que não me contou isso antes amiga?
— Nós descobrimos isso a pouco tempo. — começou ela a sua explicação — Eu confesso que realmente não queria ter filhos, mas o Will foi me convencendo e vi que era algo bonito ser mãe, e toda vez que o via perto de uma criança, tinha mais certeza ainda que ele nasceu para ser pai.
— Então começaram a tentar. — presumi.
— Tentar nunca foi o problema. — ela soltou uma risada maliciosa — Felizmente até hoje, sempre mantivemos o desejo um pelo outro, mas quando eu percebi que minha menstruação continuava vindo, comecei a me sentir mal… Por causa de uma doença que teve na infância, Will achou que o problema poderia ser com ele, mas meu marido é uma máquina de filhos, se quiser.
— Então descobriram que o fator era com você. — contatei a olhando com gentileza — Nem sei o que dizer.
— No início eu realmente fiquei abalada, mas o Will em nem um momento deixou de ser o cavalheiro que ele é, sempre dizendo que filhos não mudaria nada em nosso casamento… Mas eu sei , que é isso que ele quer, mesmo se esforçando para não me deixar mal, Will quer ser pai e eu não posso lhe dar isso. — seus olhos lacrimejaram, porém ela os limpou rapidamente — Enfim, vida que segue não é. agora você, conta tudo.
— Ah… Sophie, acredita que a mãe de disse que sonhava com outra mulher para o filho?! — deixei transparecer um olhar triste.

Comecei a contar toda a história desde o início, aparando na parte em que saímos no meio da nevasca para a casa do amigo dele.

— Não brinca, que megera. — ela ficou boquiaberta — E eu que achei que a encrenca seria com a dona Agnes.
— Eu também. — concordei com ela.
— Nossa, como pode um gentleman com o ser filho de alguém assim? — ela parecia ainda mais chocada do que eu — Com certeza puxou o pai.

Brincou ela e nós rimos.

— E depois?! — ela mordeu os lábios inferiores com um olhar instigante.
— Já disse Sophie, sem parte restrita para você. — eu ri do bico que ela fez.
— Sua mercenária, pare de estragar a história. — ela continuou com o olhar indignado para mim — Sonhei tanto com a consumação desse shipp.
— Ai, sua boba. — eu ri dela — Só posso te dizer que… Ultrapassou as expectativas.
— AAAAAHHHHHHHHHH!!! — ela soltou um grito atraindo os olhares para nós.
— Sophie, que vergonha. — a repreendi.
— Vergonha era o que você estava me fazendo passar, negando amor para o pobre vizinho. — ela riu com sarcasmo — Que de pobre não tem nada.

Eu ri junto com ela.

— E o que mais? — seu olhar continuou curioso.
— Como assim o que mais?
— Ai , só isso de expectativas? Fala mais, ele é mais calminho ou mais bruto?
— Sophie eu não vou contar mais nada a você. — disse voltando meu olhar para o sorvete que já derretia em minha mão.
— Ah, vai contar sim. — seu tom ficou mais sério.
— Amiga, você não consegue entender a confusão que está na minha cabeça agora. — suspirei fraco — Ter me permitido ficar mais íntima dele só me deixou ainda mais agoniada e preocupada.
— Por que? Ele te ama, você ama ele… Você ama ele não é? — seu olhar ficou sério.
— Eu sei que tenho sentimentos por , mas… Ainda tenho medo de me machucar de novo, de me tornar dependente e vulnerável a ele como fui do Carl. — expliquei a ela meus temores.
— Você quer comparar os dois? , o é maravilhoso, tudo que você precisava e o mais louco, sua mãe aprovou ele, não tem como dar errado. — Sophie argumentou.
— Eu também achei que Carl era o homem da minha vida. — retruquei.
— Você está caçando motivos para sofrer isso sim, além do mais, metade das pessoas que conhecemos não gosta do Carl e achava que você era mulher demais para ele. — continuou minha amiga com propriedade.
— Eu só não quero mais me machucar Sophie, só isso. — disse a ela, dando um sorriso fraco.

Os dias passaram e um novo ano se abriu para todos. 

Eu estava feliz, pois logo na primeira semana boas notícias chegaram trazendo possíveis mudanças em minha vida. E sim, neste ano eu estava disposta a mudar muita coisa, foi o juramento que fiz ao olhar para os fogos da virada. A começar pela carta da Yonsei University para Joseph, o aceitando no curso na área de computação e TI com uma singela bolsa de estudos com direito a alojamento no dormitório masculino do campus. Aquilo me deixou mais do que feliz por meu filho. Ele iria seguir o caminho que desejava e teria todo o meu apoio.

Apesar de já estar com saudades sem ele nem ter ido. Meu pequeno garoto voaria para o outro lado do mundo em busca dos seus sonhos.

— Não precisa se apressar tanto Joseph, as passagens que a universidade mandou são para o próximo mês e ainda tem o baile de formatura. — disse a ele ao me sentar na mesa do café.
— O calendário escolar na Coréia é bem diferente daqui mãe. — explicou ele — Não estarei aqui nem para as aulas do último trimestre, quem dirá o baile de formatura.
— Mas eu pensei que iríamos somente para fazer a matrícula e voltar para casa. — fiquei estática com a notícia.
— A senhora vai comigo, mas voltará sozinha, minhas aulas já se iniciam em março e estou mega empolgado por isso. — disse ele.
— Eu vou sentir sua falta, Joe. — disse Molly com um olhar triste.
— Eu também joaninha, mas pense pelo lado bom, assim que arrumar um emprego, vou alugar um apartamento e poderão passar as férias comigo. — ele piscou de leve para a irmã, que abriu um largo sorriso.
— Eba! — disse Molly se empolgando.

Eu apenas sorri com os olhos brilhando de orgulho de ver meu filho vivendo seus sonhos. Como prometido, passei o acesso total de sua conta no banco, para que pudesse administrá-la por si mesmo. Eu sabia que Joseph seria mais do que responsável com todo aquele dinheiro guardado para a faculdade. E mesmo que Carl não aceitasse sua ida para tão longe, o dinheiro pertencia a nosso filho e ajudaria com os gastos futuros.

Com a partida de Joseph, seríamos somente eu e Molly naquela casa, e já estava analisando o que faria com minha vida e meu futuro. Eu queria me sentir livre e com possibilidades que nunca tive antes. E com isso, meus pensamentos não paravam de martelar sobre meu relacionamento com , sobre como eu me sentia agora com nossa aproximação mais íntima. Sobre o medo que tinha de me tornar dependente dele e novamente me machucar. Eram tantos os pensamentos e angústias que me deixavam louca.

Faltava-se dois dias para a grande reunião do novo jornal online de Genevieve. E eu tinha que tomar minha decisão. Se eu queria uma nova vida em um novo ano, precisava ser forte e corajoso para lutar e viver isso.

. — disse ao entrar na cozinha da minha casa com o olhar confuso — Está tudo bem, não entendi sua mensagem.
— Sim, está… Eu só quero conversar com você. — disse estendendo a mão para que ele se sentasse na cadeira, como de fato o fez.
— Diga. — seu olhar ficou mais sereno e atento a mim.
— Como sabe, Joseph está indo para outro país estudar, e as coisas têm acontecido de uma forma acelerada em minha vida desde que me divorciei. — comecei de forma subjetiva.
— Sim.
— E agora com a possibilidade do jornal, e outros trabalhos por fora, eu percebi que preciso de um tempo para mim, para entender quem sou eu e o que quero para o meu futuro… — continuei, buscando as palavras adequadas em minha mente — Eu saí de um casamento que me feriu muito e não tive meu tempo sozinha de recuperação, então você apareceu e…
— Você quer terminar. — disse ele já entendendo o que eu queria dizer.
— Me perdoe por isso, eu só estou tão assustada com tudo que vem acontecido e depois do natal não consigo pensar em outra coisa… — me calei, assim que ele se levantou da cadeira e deu um passo para mais perto de mim, que permaneci sentada o olhando.
— Real até quando você quiser, este foi o combinado, não precisa se desculpar. — ele deu um beijo suave no topo da minha cabeça — Meu desejo sempre será a sua felicidade.

Ele se afastou e saiu pela porta antes mesmo que eu pudesse dizer mais alguma coisa. Senti um aperto no meu coração e os olhos cheios de lágrimas. 

Comecei a chorar, mantendo o olhar fixo na porta, como se alguma coisa tivesse sido arrancada de mim. 

E foi eu mesmo que arranquei.

Não sei por quê (não sei por quê)
Me diga por quê (me diga por quê)
Por que o amor acaba?
Por que as coisas
Desaparecem?
Tão bonito?
É apenas um sonho
O amor é como um sonho.
- Evanesce / Super Junior



Continua aqui >>> capítulo 19 em diante



Nota da autora:
E agora?? Spoilers no grupo do whatsapp!!!
Bjinhos...
By: Pâms!!!!
Jesus bless you!!!




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