Última atualização: 02/02/2019

1. Into The New World

06:45 pm.

Mais uma vez eu me remexia naquela poltrona desconfortável do avião. Não imaginava que passar horas ali seria mais doloroso que calculei, porém felizmente sobrevivi, esperando mais cinco minutos para aterrissar no Aeroporto Internacional de Incheon. Sim, eu estava me mudando para a Coréia do Sul, após anos de estudo e dedicação, trabalho e algumas cartas de recomendações, recebi um convite para lecionar em uma escola infantil particular na cidade de Daejeon. Esse trabalho me ajudaria bastante em minha dissertação de mestrado, apesar do grande desafio para minha carreira como professora.

— Yuri?! — disse ao chegar perto de uma moça que segurava um cartaz com meu nome.
— Oh, . — ela abriu um largo sorriso para mim — Sim sou eu, fiquei preocupada com seu voo pelo mau tempo.
— Felizmente deu tudo certo a aterrissagem. — sorri de volta ajeitando a bolsa no ombro.
— Me dê essa mala, vou te ajudar. — disse ela pegando a mala pequena — O táxi está a nossa espera.
— Obrigado. — peguei a outra mala e a segui pelo saguão do aeroporto.
— Estou ansiosa pelo seu primeiro dia, você vai adorar a nossa escola. — sua empolgação era evidentemente maior que a minha, o que me deixava motivada.

Yuri foi um dos meus poucos contatos no tempo em que estava me preparando para a mudança, algo bom, pois sua mãe me convidou para morar com ela, assim não ficaria sozinha em meu tempo indeterminado no país. Assim que chegamos, sua mãe, senhora Sora, me recebeu com alegria e gentileza, o que me pegou de surpresa foi ela ter me abraçado, como se fosse da família. Talvez ela quisesse me fazer sentir em casa, já estava realmente longe de casa e a partir daquele momento, elas seriam o mais perto de família que eu teria.

— Ah, que bom que chegou em segurança. — ela continuou sorrindo com um olhar gentil — Como foi a viagem?! Deve ter sido cansativo passar mais duas horas a caminho de Daejeon.
— Sim, foi mesmo um pouco cansativo, não consegui dormir direito no avião, mas pelo menos pude estudar mais um pouco. — respondi encostando minha mala grande na porta.
— Venha, vou te mostrar o nosso quarto. — disse Yuri enquanto se dirigia ao corredor, carregando minha outra mala.

Era de se esperar que dividiríamos o mesmo quarto, Yuri já havia mencionado que o apartamento onde vivia com a mãe era um pouco pequeno, e que o terceiro quarto era do seu irmão que estava para voltar do exército. Mesmo sendo para duas, o quarto não era tão pequeno assim, uma beliche já nos aguardava e ela logo anunciou que a cama de cima era dela. Assenti sem problema e ri da sua cara de criança feliz, ao olhar para a cama.

— Posso dizer que está bem mais animada que eu?! — ri dela novamente.
— Me desculpe pela minha euforia, é que sempre quis ter uma irmã, mas não rolou. — ela fez uma carinha de triste — Meus pais sempre acharam que dois era um número bom e suficiente.
— Seus pais foram espertos. — brinquei — Mas, acho que te entendo um pouco, eu sou filha única.
— Deve ser pior ainda… Pelo menos eu tenho o oppa, que sempre me ajudou. — ela se sentou na cadeira em frente a escrivaninha e ficou me olhando.
— Oppa… — sussurrei rindo — Tenho que me acostumar com essas formas de tratamento.  
— Acho bom mesmo. — advertiu ela — Porque você é minha unnie agora.
— Nossa, me sinto lisonjeada por isso. — voltei minha atenção para as malas — Ahh… Posso arrumar isso amanhã?!
— Não só pode como deve, precisa descansar, amanhã de manhã teremos reunião na escola com a diretora. — informou ao retirar seu celular do bolso e começar a mexer nele — E ela não gosta de atrasos.
— Ah… Já imagino como ela é. — sussurrei novamente.

Era só o que me faltava. Claro que eu não era daquelas pessoas que sempre chegava atrasada, mas cidade nova, rotina nova, tinha minhas dúvidas quanto minha pontualidade. Porém, não iria me preocupar com isso agora, tomei um banho quente e relaxante, me aconcheguei com roupas quentes, mesmo sendo final de inverno, o frio ainda reinava na cidade de Daejeon.

— Estou impressionada com você. — disse Yuri assim que terminamos de arrumar a cozinha do jantar.

Havia me oferecido para lavar as vasilhas sujas, já que Sora ajumma, como havia pedido para chamá-la, me acolheu de forma tão calorosa, já queria retribuir minha gratidão, mesmo que de forma pequena.

— Impressionada com o que?! — a olhei confusa.
— Sua pronúncia, é difícil estrangeiros falarem tão bem coreano. — comentou.
— Vou me lembrar de agradecer meu monitor da faculdade. — ri baixo.
— Hummmm… — ela riu.
— Nem comece Yuri. — a repreendi rindo também — Ele só foi um amigo que me ajudou muito.
— Ahh, quer dizer que está solteira? — seu olhar curioso estava atento aos meus movimentos, enquanto enxugava a louça.
— Quer dizer que não deixei ninguém me esperando no Brasil. — expliquei — Nada mais a declarar.
— Estou ainda mais ansiosa para te apresentar ao oppa. — ela vibrou enquanto fechava a geladeira.
— Nem comece senhorita Yuri. — a olhei séria — Nada de ser cupido, o que sua mãe vai achar de mim.
— Somos amigas, eu gostei de você.
— Não quer dizer que serei namorada do seu irmão. — a repreendi.
— Duvido que vai continuar pensando assim após conhecer ele. — ela cruzou os braços.

Segurei o riso. Yuri já havia mencionado sobre seu irmão que paralisou a carreira promissora de advogado para se alistar no exército, onde passaria dois anos servindo seu país. O que me deixou admirada, não somente por ele, mas por todos que serviam de forma honrosa por amor a sua nação.

- x -

— Primeiro, gostaria de dar boas-vindas oficialmente para a nova professora de literatura, senhorita Miller. — disse a diretora Lee Hana, estendendo suavemente sua mão em minha direção.
— Agradeço mais uma vez pelo convite e trabalharei duro para não decepcioná-los. — breve e sucinta, como se deve, me curvei de leve em respeito a todo e logo me sentei novamente na cadeira.

Sim, estava nervosa, mas não deixaria que isso estragasse minha performance. Queria causar boa impressão no primeiro dia e com a ajuda de Yuri, tudo sairia muito bem, ela era fantástica e muito comunicativa, não era à toa que era assistente da diretora Lee. Passamos a manhã naquela reunião, com a diretora Lee repassando os deveres e direitos dos funcionários da Song Elementary School, destacando principalmente a boa postura que os professores deveriam mostrar perante os pais.

Era de se esperar que para o primeiro dia não oficial de trabalho, me entupiram de papeis para preencher e assinar. Sorte que Yuri me explicou cada parágrafo do contrato oficial de trabalho, além da cartilha informativa para os professores com algumas regras particulares, algo cansativo de ser lido, entretanto precisamente decorado por mim. Pouco depois do almoço, convenci Yuri de me mostrar um pouco da cidade, ou melhor, me ensinar o caminho de volta para casa e alguns pontos de referência que me ajudariam a não ficar perdida pela cidade.

Foi quando eu realmente me perdi dela, um piscar de olhos que minha atenção se voltou para uma criança que chorava no meio da calçada, sozinha e aparentemente abandonada. Dei um giro procurando por Yuri, mas ela misteriosamente já havia sumido do meu campo de visão; um adulto perdido era tranquilo, mas meu coração apertou ao ver aquela garotinha chorando e as pessoas passando por ela como se não a vissem. Atravessei a rua e me aproximei dela com cautela, para não assustá-la.

— Oi princesinha. — disse ao parar alguns passos dela, que continuava a chorar — O que faz aqui sozinha?

Quanto mais eu tentava falar com ela, mas ela chorava, até que algumas pessoas que passavam começaram a nos olhar de forma estranha, o que me deixou com medo de pensarem que eu estava sequestrando ela. Então eu comecei a procurar nos bolsos da minha calça e dentro da minha bolsa, o que fez a garotinha me olhar confusa querendo saber o que eu tanto procurava.

— Oh, tem que estar aqui. — revirei mais um pouco até que encontrei uma flor de papel que sempre carregava comigo — Achei, uma flor para uma florzinha.

Estiquei para que ela pegasse, mesmo tímida e com receio pegou curiosa para descobrir o que era, essa foi minha deixa para me aproximar mais um pouco.

— Onde estão seus pais?! — olhei em minha volta, procurando algum sinal — O que faremos agora?! Não posso te levar para a polícia, até eu estou perdida, vão achar que eu te sequestrei.

Suspirei fraco, pensando no que poderia fazer, enquanto isso ela continuou concentrada na flor que havia lhe dado, então eu me sentei bem em sua frente e fiquei a observando, logo ela notou e me olhou temerosa.

— Não se preocupe, não vou te deixar sozinha, ficarei aqui com você até seus pais aparecerem. — sorri para ela, que logo foi sentando de frente para mim, segurando a flor em sua mão — Então mocinha, qual o seu nome?

Ela continuou me olhando em silêncio. Mesmo fazendo uma graduação de licenciatura, ter trabalhado com crianças grande parte dos meus estágios, além de alguns cursos de pedagogia, eu não sabia o que fazer. A primeira impressão, era uma criança saudável e certamente assustada por estar longe dos pais, mas após quase duas horas com ela ali no meio da calçada, não sabia o que fazer, até que...

— Posso te mostrar uma coisa?! — perguntei esticando a mão para que me entregasse a flor — Prometo devolvê-la.

Ela assentiu me entregando a flor, até o momento era uma flor pequena e entreaberta, então eu puxei uma parte do papel fazendo a flor abrir mais.

— Ohhh… — disse ao fazer a “mágica” — Agora você tem uma flor mais bonita ainda.
— Sunny. — gritou uma voz masculina vindo em nossa direção.

De imediato a garotinha se levantou e olhou para trás, assim que chegou perto, o homem a abraçou apertado, pude ver em seu olhar a mistura de preocupação com alívio.

— Querida onde estava? Porque fez isso? — disse ele tentando ponderar a voz, em seu estado alterado de um pai desesperado.
— Quem é você?! — disse uma mulher se colocando ao lado do homem — Por acaso estava tentando sequestrar nossa Sunny?
— O que?! — eu me levantei um tanto indignada — Espera aí, quem deixou a criança chorando no meio da rua não foi eu.

Claro que eu não iria aceitar desaforos, e nesta altura já tinha pessoas nos olhando.

— E quem me garante que você não a tirou de onde estava?! — a mulher me acusou novamente.
— Os negligentes são vocês e quem leva a culpa sou eu?! — retruquei — Quem são os pais aqui que deixaram essa criança sozinha.
— Vocês duas querem parar. — o homem gritou entre nós e logo Sunny voltou a chorar, ele soltou um suspiro de cansaço — Calma querida, nós já vamos para casa.
— Não, sem antes prestar queixa por sequestro. — a mulher manteve seu olhar venenoso em mim.
— Sim, claro e eu vou prestar outra por abandono de incapaz. — retruquei.
— Já disse para pararem. — o homem olhou para ela e depois para mim — Eu não sei quem você é, mas estava com minha filha.
— Unnie. — disse Yuri ao se aproximar de toda aquela confusão — Unnie o que está acontecendo, te procurei por todo lado.
— Acredite você que parei minha vida para ajudar essa criança e agora estou sendo acusada de sequestro. — mantive meu olhar para o homem, com certa ironia — Porém
— Sim, eu vi. — uma senhora que mantinha sua barraquinha do que parecia doces caseiros, ali perto se aproximou de nós — Eu vi, quando a criança chegou aqui chorando e ficou parada por um longo tempo, até que essa moça se aproximou para ajudar, ela ficou longas horas sentada no chão fazendo-a companhia.

Finalmente alguém do meu lado.

— Temos uma testemunha, com isso acho que já resolvemos a questão, essa ajumma viu tudo e nem a conhecemos. — Yuri pegou seu celular — E se quiserem mais, podemos ligar para nosso emprego onde temos muitos álibis, para dizer que passamos a manhã trabalhando. Qual mesmo foi o horário que essa criança desapareceu?

Tentei esconder o sorriso de satisfação em meu rosto, mesmo sendo fofa e meiga, Yuri sabia ser séria e afrontosa quando queria, não poderia esperar menos da assistente da diretora mais durona que existe. Por dentro eu queria xingar horrores aqueles dois irresponsáveis que se achavam mais da Sunny, além de abraçar aquela ajumma que me defendeu, porém, minha preocupação com a criança era maior do que tudo naquela hora.

— Me desculpem, tenho certeza que isso foi... — disse o homem, ponderando sua voz — Um mal entendido, não é Gain.
— Mas… — a mulher tentou argumentar com ele.
— Gain. — seu olhar sério para ela, pela primeira vez no meio daquela confusão toda, me fez observar as linhas do seu rosto, ele era um tanto quanto charmoso e bonito.
— Sim, claro. — ela assentiu voltando seu olhar para mim — Me desculpe o mal entendido, estava um pouco nervosa com tudo isso.
— Sunny, vamos para casa agora. — ele abaixou para ficar na altura dela, finalmente conseguindo acalmá-la de novo — Vai ficar tudo bem, ok?!

Sunny assentiu ainda retraída, então voltou seu olhar para mim, como um vislumbre estranho de esperança, algo que eu não entendia de imediato, mas sentia que aquela garotinha talvez estivesse me agradecendo por ter passado aquelas horas com ela. Ela se afastou do pai e se aproximou de mim, foi então que eu entendi o que ela queria dizer, então estiquei a flor aberta a entregando.

— Cuide bem desta flor mocinha. — sorri de leve e pisquei para ela.

Assim que Sunny pegou a flor, assentiu com a cabeça e sorriu de volta, foi o sorriso mais fofo e acolhedor que eu recebi na vida, principalmente vindo de uma criança que acabara de me conhecer. Ela voltou para perto do pai e segurou em sua mão, então voltou sua atenção para flor em sua mão.

— Bem eu… Gostaria de agradecer, pelo que fez por minha filha. — o homem se curvou em agradecimento, algo que jamais imaginaria que pudesse acontecer comigo — Obrigado.
— O que fiz por ela, faria por qualquer outra criança. — sem modéstia, faria mesmo.
— Nem chegou direito e já está criando confusão unnie. — Yuri brincou, assim que os pais problema se afastaram com Sunny.
— Eu juro que só queria ajudar. — me expliquei em minha defesa, e virando para a senhora dos doces — Ajumma, muito obrigado por me defender.
— Oh, eu só estava dizendo a verdade, foi você quem acalmou a criança, até eu tentei pouco antes de você chegar e a menina não parava de chorar, afastou muitos clientes. — reclamou ela, voltando seu olhar para a barraquinha ainda com vários pacotes de doce.
— Hum… Em forma de agradecimento, levarei um pouco dos pacotes que a senhora tem.
— Sério?! — ela me olhou espantada.
— Sim. — assenti — Quanto custa cada um?!

Yuri dividiu os gastos comigo e juntas compramos a quantidade necessária para que eu pudesse levar para meus alunos, já que as aulas iniciariam na segunda, eu teria mais dois dias para me preparar. Assim que chegamos em casa, contamos o que aconteceu para Sora ajumma, que imediatamente ficou indignada com a reação da mulher.

— Posso ser sincera?! — disse me sentando no tapete da sala — Aquela mulher não tinha cara de mãe, sei lá se eu estiver errada, Deus me perdoe, mas não tinha não.
— Hum… Ela não parecia muito preocupada com a criança, parecia mais preocupada com você por ter cuidado da pequena. — Yuri soltou uma risada maldosa — Será que a omma desnaturada ficou com ciúmes? Aquele ajusshi tinha mais cara de oppa, é bem bonito.
— Isso eu tenho que concordar. — sorri com certa malícia, porém me contive — Mas, vida que segue, só fico triste pela Sunny, ela não parecia muito feliz e tinha um olhar triste, talvez pelo susto de ter se perdido dos pais.
— Isso já passou, vocês duas vão trocar de roupa que o jantar está quase pronto. — ordenou Sora ajumma.

Juntas eu e Yuri batemos continência e seguimos em risos para o quarto. Logo após o jantar, me sentei na cama e fiquei mexendo no celular, trocando algumas mensagens com meus pais pelo whatsapp. No momento em que toquei no assunto ocorrido, minha mente se transportou novamente para a cena desta tarde, quando encontrei Sunny chorando e quando seu pai lhe abraçou ao encontrá-la. Um breve sorriso escapou no meu rosto, me fazendo voltar para a realidade, onde várias mensagens da minha mãe já aguardavam minha resposta.

— Está pensando no pai desnaturado?! — brincou Yuri ao aparecer de sua cama com a cabeça para baixo.
— Yah!! — disse me apossando de uma expressão que meu monitor adorava usar comigo — Pare de ter ideias erradas, ele é um homem casado e sabemos como é a tal Gain, além do mais, ele não me parece um pai desnaturado.
— Hum… — ela riu — Então estava mesmo pensando nele.
— Não vou negar, me veio a cena dele abraçando a Sunny quando a encontrou. — confirmei.
— Você se afeiçoou a garota né?! — ela voltou a se deitar novamente.
— Confesso que tenho um carinho grande por crianças, acho que se não fosse professora, talvez seria pediatra, mas tenho tanto trauma de agulha e sangue que desisti da medicina. — brinquei.
— Pelo menos seguiu o caminho que gosta. — comentou ela.
— Você não?! — perguntei curiosa.
— Digamos que quando eu fiz administração, não era para ser assistente da diretora Lee, eu almejava mais ser assistente de um Chaebol e ele se apaixonar por mim e eu ter o casamento dos meus sonhos. — respondeu detalhadamente.
— E o que seria chaebol? — perguntei tentando lembrar o significado da palavra.
— Chaebol são grandes conglomerados dirigidos por família ricas e milionárias, e os herdeiros são chamados assim. — explicou.
— Você anda vendo muito dorama amiga.
— Não custa nada sonhar unnie, vai que acontece comigo um daqueles romances tipo no dorama O Que Há De Errado Com A Secretária Kim? — ela soltou uma risada — Seria um sonho me casar com o Park SeoJoon!

Nós rimos e conversamos mais um pouco até que eu caí no sono. Meus dias que seguiram foram para organizar minhas roupas no armário e meus livros na estante, ou seja, organizar minha nova rotina e descansar minha mente para o que estava por vir. Eu seria professora de literatura e daria aula para crianças de 7 a 12 anos, não sabia o que aguardava, mas já havia provado um pouquinho da exigência da diretora Lee. O que me faz ter a certeza que trabalharia duro, para que as crianças fossem instruídas por mim da melhor forma possível.

— Bom dia crianças. — disse com certa empolgação ao me posicionar em frente a turma.
— Bom dia professora Miller. — disseram em coral.
— Que fofo. — sussurrei me controlando internamente.

Tinha que admitir que a disciplina coreana era surreal e nova para mim, mas estava me divertindo com aquele primeiro dia, primeiramente com a recepção do ajusshi Han, professor de esportes e treinador do time de basquete. Após a segunda aula, a diretora Lee me chamou em sua sala, estranhei Yuri não estar na recepção, e logo ao entrar na sala, levei um choque ao ver dois rostos conhecidos.

— Ah, aqui está ela. — a diretora se levantou da poltrona onde estava sentada — Senhor Kim, esta é a senhorita Miller, nossa nova professora de literatura, ela ficará responsável pela pequena Sunny.

O que?!
Sim, aquele era o mesmo homem que há dois dias estava em meus pensamentos com sua filha perdida, e sim, eu estava estática. Voltei meu olhar para Yuri, mas a mesma estava tão surpresa quanto eu, e o mais louco de tudo é que o senhor Kim também estava com o mesmo olhar que nós duas, tentando entender como poderia aquilo estar acontecendo.

— Prazer professora Miller, eu sou o Kim , pai da Sunny. — disse ele mantendo seu olhar confuso em mim.

Meu coração disparou, sua voz estava mais grossa e firme, voltei meu olhar para a pequena Sunny e lá estava a flor que eu havia lhe dado em sua mão direita, enquanto segurava com a outra a mão do seu pai.

"Há uma longa estrada em nossa frente
Com um futuro desconhecido, não irei mudar
Não posso desistir."
- Into The New World / Girls' Generation



Indestructible

— Olá novamente pequena. — disse me aproximando de Sunny, agachei ficando na sua altura e sorri para ela, que timidamente sorriu de volta — Vejo que está cuidando muito bem dessa flor, tão linda quanto você.

Eu senti uma respiração profunda vindo dele, que permanecia ao lado da filha me observando, então me levantei e o olhei, respirei fundo também, precisava ser o mais profissional possível.

— Bem, como você ficará responsável por Sunny, deixarei que conversem sobre a nossa nova aluna. — a diretora se dirigiu para a porta — Vamos Yuri, precisamos providenciar os documentos da transferência de Sunny.
— Sim, senhora. — Yuri me lançou um olhar de boa sorte e seguiu a diretora, saindo depois dela.

Voltei meu olhar para Sunny, tentando não desviar minha atenção dela, que mantinha seu olhar na flor em sua mão.

— Bem… É um tanto surpreendente. — disse ele como se procurasse as palavras certas — Eu nem sei por onde começar.
— Porque não começamos do início. — eu ri um pouco para descontrair, estendendo a mão para que sentasse no sofá, e me sentando também — Prazer, eu sou a professora Miller, de literatura, mas pode me chamar de se preferir.
— Kim , mas pode me chamar somente de . — ele se sentou, mantendo seu olhar em mim — Novamente queria me desculpar pelo outro dia, eu estava desnorteado, e mesmo nervosa a Gain não deveria ter dito aquela palavras tão duras.
— Por favor, não se desculpe por um erro que não foi seu, apesar de ter ficado irritada pelo tratamento dela, posso compreender o desespero de uma mãe. — ou talvez só esteja me forçando a entender.
— Mãe?! A Gain não é a mãe da Sunny. — ele riu de leve.
Não?! — por essa eu não esperava — Madrasta?
— Também não. — ele riu novamente — Gain é minha sócia, uma amiga de muito tempo, tem me ajudado a cuidar de Sunny.

Oh! Novamente sem reação… Voltei meu olhar para Sunny que se mantinha de pé entre suas pernas brincando com a flor.

— Eu posso entender o que aconteceu com a mãe dela?! — perguntei ponderadamente — Se não for intromissão.
— Eu, prefiro não falar sobre isso, não sem antes… — ele respirou fundo — Não que eu não confie em você, mas…
— Por favor, não se explique, você não me conhece direito e sou uma estranha para sua filha, entendo perfeitamente. — o olhei com segurança — Quantos anos a Sunny tem?!
— Seis anos. — ele acariciou o cabelo da filha com carinho — Como eu disse para a diretora, eu não consegui encontrar nenhuma creche onde ela se adaptasse, Sunny de alguma forma sempre foge, então um amigo me indicou essa escola.
— Essa pequena é muito especial, posso sentir isso. — mantive meu olhar singelo nela — Bem, como professora responsável, prometo ajudá-los.
— Mais uma vez obrigado. — aquele tom soava gratidão sincera, algo que me deixou ainda mais motivada a ajudar Sunny a se adaptar a nossa escola.

A diretora Lee logo retornou com seus documentos para que assinasse, aproveitei o momento para discretamente, pegar Yuri pelo braço e a arrastar até o banheiro da sala dos professores.

— O que?! — disse ela embasbacada após eu contar a verdadeira história da mulher ciumenta.
— Isso mesmo, ela não é nada dele, só sócia, o que está me irritando ainda mais. — respirei fundo.
— Agora mais do que nunca, eu preciso saber quem ele é, o que ele faz, se é rico ou não. — Yuri começou com suas loucas teorias like a dorama.
— Lá vem você com suas loucuras de chaebol. — cruzei os braços a olhando séria — Yuri, estamos falando de uma criança, de um pai e uma sócia que nem faz parte da família.
— O que não significa que ela não queria ser. — ela me olhou — Aposto que ela gosta dele, mas ele não gosta dela.
— E o que isso me importa? — respirei fundo, controlando meus pensamentos — De onde que a diretora tirou essa ideia de me colocar responsável pela Sunny?
— Deveria estar feliz, já está afeiçoada a criança. — retrucou.
— Você não me respondeu. — meu olhar sério continuava.
— Digamos que nenhum dos outros professores quis ficar responsável.
— Ah claro, porque não pensei no óbvio, temos um problema, jogue para a professora nova. — sussurrei.

Meu problema não era ficar responsável pela Sunny, eu estava amando a ideia, meu problema era não saber como faria para ajudar aquela criança e ao mesmo tempo lidar com seu pai e o fato de não saber mais sobre a vida deles. Havia aprendido com uma pedagoga que crianças com dificuldade de comunicação, frequentemente carregam grandes traumas em sua vida. Sunny só tinha seis anos e pela reação de , certo que já havia passado por algo difícil em sua vida, o que fez meu coração ficar ainda mais apertado.

- x -

— Me diz que não é cinco da manhã?! — resmunguei da cama ao desligar o despertador do celular.
— Adoraria, mas não, já são cinco da manhã. — Yuri desceu da cama e seguiu cambaleando até a porta — Não acredito que o fim de semana passou tão rápido.
— Nem eu, e hoje ficarei o dia todo com a Sunny. — me espreguicei ainda deitada — Hoje é meu dia de trabalho que mais amo, porém, minha falta de criatividade em realizar uma atividade que estimule ela a falar, está me matando.
— Porque você não faz o óbvio e prático e leva ela em uma fonoaudióloga ou psicóloga infantil? — sugeriu Yuri.
— O pai dela já fez tudo isso, por isso eu estou cuidando dela, tecnicamente sou o último fôlego de esperança, ou algo do tipo. — suspirei fraco.
— Então, tenta tirar ela das quatro paredes da escola. — Yuri abriu o armário e começou a escolher a roupa que vestiria — Você não sabe a rotina dela com o pai, e pelo que observamos ele parece ser uma pessoa bem ocupada, então, vai que a menina esteja somente precisando de um pouco de afeto e carinho?!
— Pode ser, o fato dela não ter mãe e a sócia ser uma figura feminina meio estranha, também pode ser um agravante. — observei — Já estamos indo para a quarta semana, percebi que nos dias que Gain vem buscar ela, Sunny fica mais retraída e com um olhar de decepção.
— Talvez por ela querer ver o pai… — completou.
— Também. — concordei pensando no que faria.

Assim que deixou sua filha na escola, pedi para que assinasse uma autorização para uma aula ao ar livre, algo que me custou um longo argumento sobre como seria benéfico para Sunny sair do ambiente relativamente aprisionador que a escola poderia lhe causar. Como assegurei, era um experimento que queria fazer, para que aumentasse o grau de confiança dela em mim, e o destino escolhido foi o Daejeon O-World. Nada como um zoológico para deixar uma criança animada, feliz e interessada ao mesmo tempo.

— Está pronta recruta Sunny. — bati continência para ela, que assentiu batendo continência também.

A flor que havia lhe dado, estava devidamente sendo segurada pela mão esquerda, como todos os dias, isso de alguma forma me dava forças e energia para continuar e me empenhar mais. Paguei nossa entrada e adentramos o parque, mas não sozinhas, o senhor Han havia se prontificado para nos acompanhar, assim a diretora ficaria mais tranquila, e com a autorização assinado pelo pai, eu poderia ter um dia tranquilo com essa pequena.

A cada jaula que passávamos eu tentava desembolar uma história mais maluca que a outra, enfatizando o quão importante era a família para os animais, rolou até uma versão nova e improvisada de o rei leão. O que mais me deixou satisfeita foi ver alguns sorrisos e olhares curiosos dela, Sunny estava se divertindo aquele dia, o que significava que a sugestão de Yuri de sairmos da escola estava funcionando e eu pretendia seguir adiante, nas próximas segundas.

— Chegamos. — disse assim que o senhor Han estacionou o carro em frente ao portão da escola.

Voltei meu olhar para o retrovisor.

— Muito obrigado Han ajusshi. — agradeci.
— Não precisa agradecer, a companhia de vocês foi bem melhor que ficar sentado na cadeira da sala dos professores corrigindo exercícios. — ele soltou uma gargalhada engraçada, nos fazendo rir junto — E contem comigo para a próxima semana.
— Isso se a diretora Lee e o pai dela concordarem. — enfatizei já pedindo a Deus ajuda para convencê-los.
— Tenho certeza que vão, sou sua testemunha que hoje foi um dia de muito aprendizado para essa criança. — senhor Han sorriu ao abrir a porta do carro.

Eu sorri ao abrir a porta do meu lado e desci do carro com Sunny, logo avistei seu pai em frente ao carro dele nos esperando. Pedi para que conversasse comigo e a diretora, eu precisava relatar o micro avanço de Sunny no zoológico, assim como minha ideia de ter as aulas ao ar livre. Claro que a diretora Lee colocou inúmeros empecilhos envolvendo questões de segurança e da tradição da escola no quesito educação. Entretanto o que me intrigou foi o olhar atento e observador de para mim, enquanto eu contra argumentava a diretora Lee.

— Admito que nenhuma das outras escolas me propuseram fazer isso, mas… — ele voltou seu olhar para a filha — Se você acha que pode ajudar Sunny, eu darei meu consentimento.
— Senhor Kim?! O senhor tem certeza?! — a diretora parecia mais surpresa que eu com sua resposta.
— Sim. — confirmou sua decisão — Se for ajudar minha Sunny.
— Eu reforço minha promessa de dar o meu melhor pela Sunny. — disse segura de minhas palavras — E vi como ela se divertiu hoje e aprendemos muitas coisas juntas.

Sunny, que estava ao lado do pai, voltou seu olhar para e sorriu, certamente agradecendo pelo dia maravilhoso que tivemos juntas.

— Então, precisaremos que assine outro termo de autorização, e você professora Miller assinará um termo de responsabilidade pelas aulas ao ar livre com a criança. — a diretora Lee sempre arrumava uma forma de não se comprometer e nem o nome da escola, então claro que seria o meu pescoço na forca.

Assentimos juntos e esperamos que Yuri preparasse os papeis, enquanto isso eu fiquei brincando com Sunny. Era incrível como ela havia se apegado a minha flor e sempre a segurava na mão esquerda, algo que já estava me intrigando a muito tempo. Outra coisa que me intrigava era o olhar fixo que sempre mantinha em mim, observador e silencioso são as características iniciais que havia selecionado para descrevê-lo. Apesar de toda a curiosidade que mantinha dentro de mim, já me dava por satisfeita ter chegado àquele ponto, ele já confiava em deixar Sunny comigo passeando pela cidade.

- x -

— Acredite ou não, aulas ao ar livre são mais cansativas que em sala. — comentei com Yuri assim que entramos em casa — Minhas costas doem.
— Mas com certeza se divertiu bem mais. — retrucou ela.
— Sim, você precisava ver os olhos brilhando de Sunny quando nos aproximávamos dos animais. — concordei — Foi tão mágico.
— Oppa?! — Yuri parou no centro da sala olhando para o corredor — Você chegou quando?
— Hoje de manhã. — o homem deu alguns passos saindo do corredor dos quartos e adentrando a sala, ele ainda trajava o uniforme militar, era alto e tinha que concordar quando Yuri disse que era bonito.
— Oppa, quero te apresentar unnie. — Yuri me olhou sorridente, não sabia se era por seu irmão estar de volta ou por ela finalmente apresentá-lo a mim.
— Prazer. — eu me curvei de leve, então percebi que ele tinha esticado a mão em cumprimento.

Yuri riu baixo da nossa falta de coordenação.

— Prazer, sou o . — ele manteve a mão estendida e logo eu retribui o cumprimento — Espero que esteja se sentindo confortável em nossa casa.
— Claro, Yuri e Sora ajumma estão sendo muito acolhedoras comigo. — sorri em agradecimento por sua preocupação e me voltei para Yuri — Eu vou colocar as coisas no quarto, preciso preparar a aula de amanhã.

Me afastei deles e segui para o corredor. Fiquei tão focada em proporcionar um dia de diversão a Sunny que acabei me esquecendo dos outros alunos, eu não sabia muita coisa da literatura coreana, nada além do que estudei na universidade e das dicas do meu querido monitor. Certo que passaria a noite estudando ainda mais para não deixar que meu rendimento em sala caísse, sem contar com a incansável supervisão do vice-diretor, o senhor Chang. Ele me parece bem entusiasmado em seguir cada passo meu pela escola, o que já está me deixando louca.

As horas se passaram e bem depois do jantar, resolvi ficar na sala de estar trabalhando para não acordar Yuri, minha amiga parecia bem mais cansada do que eu, certamente era cansaço mental e psicológico por ter que trabalhar diretamente com a diretora Lee.

— Que concentração. — comentou ao aparecer na entrada do corredor, encostado na parede de braços cruzados.
— Ah… Eu não queria atrapalhar o bom sono da Yuri, então resolvi vir trabalhar aqui. — continuei sentada no chão onde estava e olhei em minha volta para aquele tanto de papel espalhado — Mas, não posso garantir minha organização no processo.
— Acredite, Yuri consegue ser mais bagunceira. — brincou ele dando mais alguns passos em minha direção — Você parece cansada.
— É tão visível?! — ri baixo — Preciso melhorar meu cronograma de afazeres diários, mas tenho um problema em só conseguir ser produtiva à noite.
— Senhorita coruja. — brincou.
— Agradeço o elogio. — eu ri — É estranho, mas sempre fui assim… Eu não te acordei, não é?
— Não. — respondeu se dirigindo para a cozinha — Estou acostumado a acordar no meio da noite para fazer a ronda, você sai do exército, mas o exército não sai de você.
— Te entendo, deve ter sido dias difíceis para você lá, a Yuri me contou como o exército é rígido e bastante intenso. — comentei tentando ponderar minhas palavras.
— Não é fácil mesmo, mas me sinto honrado por ter defendido meu país, mesmo que somente por dois anos. — concordou.
— Admirável esse amor de vocês pela nação. — sorri de leve e voltei meu olhar para minha bagunça — Isso me faz querer não decepcionar meus novos alunos.
— Hum… Então você ensina literatura. — ele se aproximou mais um pouco e encostou na parede da porta, ficando de frente para mim.
— Digamos que estou no caminho, só preciso seguir nas direções corretas. — enfatizei — Ainda conheço pouco da cultura de vocês.
— Talvez eu possa te ajudar. — disse tranquilamente — Tenho uma velha amiga de escola que trabalha na biblioteca pública, ela sempre foi muito boa em literatura no ensino médio.
— Sério?! — o olhei — Nossa, vai me ajudar muito mesmo.
— Hum… — ele me manteve o olhar em mim como se me analisasse.
— O que? O que foi? — olhei em minha volta tentando entender.
— Nada, só estou aqui pensando… — ele voltou o olhar para o relógio de parede — Você está com fome? Já se passou um longo tempo desde que jantamos.
— Nossa… — passei a mão de leve em minha barriga — Agora que está falando, acho que estou mesmo precisando recarregar as energias.
— Que tal uma volta, conheço alguns lugares que funcionam essa hora e vendem uma comida bem gostosa. — convidou ele retirando a chave de sua moto do bolso da calça.
— Devo considerar o fato desse convite já ter sido meramente planejado? — disse apontando para a chave.
— Eu já estava mesmo pensando em ir, então… Pensei que pudéssemos fazer companhia um para o outro. — explicou de forma vergonhosa, mas mantendo a naturalidade na voz — Você aceita?
— Acho que um passeio noturno pode ser bom para refrescar minha mente cheia de preocupações. — brinquei me levantando do chão — Só preciso pegar minha bolsa, não posso sair sem meus documentos, mesmo que você seja responsável por mim.

Saí rindo em direção ao quarto, tentei fazer o mínimo de barulho possível para não acordar Yuri, então troquei rapidamente de blusa e peguei o tênis antes da minha bolsa transversal. Caminhamos por alguns minutos até chegar a uma barraquinha de rua, que para minha surpresa estava com bastantes pessoas, foi complicado encontramos um lugar para sentar, mas logo ao cantinho avistou uma mesinha vaga.

— Incrível essa vida noturna em Daejeon, achei que fosse só no Brasil que os barzinhos ficassem lotados de madrugada. — comentei assim que fomos servidos, nosso pedido foi lámen tradicional coreano.
— Bem, acho que só no verão a noite fica mais movimentada ainda que na primavera. — explicou ele se sentando na banqueta em minha frente.
— Obrigado por me trazer aqui, essa é a primeira vez que saio de casa para me divertir e não trabalhar. — desviei meu olhar para as mesas ao lado, vendo um casal mais à frente rindo de algo.
— Assim como o exército não foi para mim, imagino que não esteja sendo fácil se adaptar à nova vida. — comentou ele.
— Só de viver longe de casa já é complicado. — olhei para o hashi com certo receio, já havia treinado um pouco, mas não levava jeito para isso.
— O que foi? — perguntou curioso.
— Estou com medo de fazer bagunça.
— Não se preocupe… — ele riu — Coma com a colher, com tempo você pega a prática.
— Espero que sim. — ri pegando a colher que estava na bandeja.

Deliciosa. Essa era a palavra certa para classificar aquela comida, bem temperada e com um toque louco de pimenta que me fez tossir em alguns momentos, Yuri já tinha me dito que coreanos era loucos por comidas apimentadas, mas não imaginava tanto. pediu duas garrafas de soju, a bebida mais cheia de álcool deles, apreciado pela nação inteira, mas logo já informei que não bebia, então a senhora dona da barraquinha gentilmente conseguiu uma lata de coca para mim.

— Yuri me disse que você se formou em direito. — comentei ao iniciar uma conversa aleatória sobre nós — O que te fez largar tudo e ir para o exército?!
— É louco, mas inicialmente foi, por causa do meu coração. — respondeu ponderadamente.
— Seu coração? Você está doente? — o olhei preocupada.
— Não. — ele riu de imediato.
— Talvez um pouco cego, mas, não doente.
— Como assim cego?
— Estava apaixonado. — explicou melhor — Por uma amiga do trabalho, então resolvi ir para o exército com o desejo de me tornar um homem honrado para ela, mas…
— Vocês terminaram? — perguntei, vendo a mudança no seu olhar, mostrando tristeza e frustração.
— Sim, ela disse que dois anos era muito tempo para um amor sobreviver a distância. — respondeu — Então, dois meses depois que entrei no exército ela se casou.
— Uau. — aquilo me chocou.

Me segurei para não fazer nenhum comentário inoportuno, respirei fundo e pensei em mudar o rumo da conversa.

— Você pretende voltar a ativa e advogar novamente? — perguntei.
— É o que gosto de fazer. — respondeu com segurança — Vou começar a avaliar algumas propostas de trabalho.
— Hum, homem importante. — sorri de leve.
— Tenho alguns amigos que tem amigos, que conhecem pessoas. — ele riu — E você? Como veio parar aqui?
— Você me trouxe de moto para cá, não lembra? — brinquei, o fazendo rir mais — Bem, inicialmente eu sempre gostei de crianças e de ensinar, dava aulas de reforço quando estava no ensino médio, então minha mãe me incentivou a fazer algum curso que fosse licenciatura, assim eu seria professora.
— Interessante.
— É, se não fosse o fato de mexer com cadáver ou sangue, eu poderia ter partido para pediatria, entretanto, gosto bastante de literatura por isso segui esse caminho. — continuei — E para contrariar meus pais, escolhi o coreano como o idioma estrangeiro para estudar.
— Uau, agora estou curioso para entender o que a motivou a isso.
— Tenho duas amigas no Brasil que são loucas por kpop, fazíamos faculdade juntas e me influenciaram a escolher o hangul. — respondi.
— Uahh, então terei que agradecê-las.
— Pelo que? Me influenciar? — surpresa eu estava.
— Sim, estou desfrutando de sua companhia graças a elas. — ele sorriu de forma tímida e fofa.
— Um agradecimento duplo então. — peguei a lata de coca e levantei em sinal de brinde.

Ele pegou sua garrafa de soju e brindou comigo, mantendo seu olhar em mim. era bastante educado e muito gentil, além de suas histórias sobre os dois anos de exército serem bastante interessantes. Foram longas horas de conversa enquanto caminhávamos pelas ruas de Daejeon, eu sabia que pela manhã estaria um bagaço de tão cansada e com sono, porém aquele momento de descontração parecia mais revigorante que uma noite de sono.

- x -

— Pronto, agora pode ir contando. — disse Yuri ao puxar a cadeira da estação ao lado e sentar perto de mim.
— Contar o que?! — desviei meu olhar do monitor e voltei para ela — Do que está falando?
— Do seu encontro com meu irmão, achou mesmo que não vi vocês dois saindo cedo e voltando às cinco da manhã? Vocês nem dormiram em casa, estou morrendo de curiosidade! Já posso te chamar de cunhada?
— Claro que não. — fiquei boquiaberta com a euforia louca dela — Yuri por favor, eu e seu irmãos somente saímos para comer, e caminhamos um pouco.
— Só isso?! — ela me olhou meio desapontada.
— O que mais esperava. — desviei meu olhar para a porta da sala dos professores, Sunny estava parada ao lado do professor Han.

Era aula de esportes da turma que ela deveria frequentar, e propus que ela ficasse com ele para se enturmar, mas certamente não rolou muito. Me levantei da cadeira e segui até eles.

— Então pequena Sunny, como foi a aula? — perguntei já sabendo que nem um som sairia dela — Ajusshi Han?!
— Eu acho que ela só se sente à vontade perto de você. — assegurou — Você vai precisar de mais paciência para lidar com isso.
— Obrigado senhor Han, ainda que não tenha dado certo, demos mais um passo hoje. — voltei meu olhar para ela — Não é Sunny.

Ela voltou seu olhar para mim e sorriu. Voltaria então para meu plano A, fazer a Sunny assistir todas as minhas aulas diárias para assim trabalhar seu entrosamento com outras crianças. Já tinha notado que ela parecia uma criança solitária, precisava saber um pouco mais sobre sua rotina em casa para conseguir ajudar da melhor forma possível, mas não sabia como poderia me aproximar do seu pai e fazê-lo confiar mais em mim. Além da curiosidade em saber o que tinha acontecido com a mãe da pequena.

Mais semanas se passaram.
Consegui que me prometesse buscar Sunny todos os dias, assim como estava a levando para aula, seria mais um momento em que ambos teria a oportunidade de estarem juntos, já que ele passava muito tempo no trabalho e pouco com a filha. Seu vínculo com ela era evidentemente frágil, mais uma preocupação para mim, Sunny precisava vê-lo como uma figura paterna que lhe transmita segurança e principalmente amor. Mas como eu ensinaria um pai a fazer isso, se eu nem era mãe?!

Pior, não poderia me intrometer assim tão abertamente no relacionamento de pai e filha deles, o que me deixava ainda mais agoniada sem saber o que fazer.

— Bem, eu… Queria fazer outro pedido. — disse pouco antes de se afastar com a filha.
— Sim?! Preciso assinar mais alguma autorização? — perguntou.
— Não. — tomei coragem — Desta vez eu… Queria que fosse conosco.
— Em uma aula ao ar livre? — ele demonstrou surpreso pelo convite e ao mesmo tempo confuso.
— Sim… Vai ser bom para ela ter uma experiência assim com o pai. — reforcei a importância — Me desculpe a intromissão, mas percebi que passar muito tempo longe dela e Sunny precisa da sua atenção, de pai.
— Eu agradeço que queira ajudar e posso sentir que minha filha está mais calma ultimamente e nesse tempo todo não tentou fugir novamente, contudo, não posso fazer o que está me pedindo. — ele se manteve sério.
, estamos falando de um dia somente, não acredito que não possa fazer isso pela Sunny, ela é sua filha. — retruquei cheia de indignação.
— Sim, ela é minha filha. — ele segurou firme na mão da criança — Por isso, não acho que deva se envolver onde não deve professora Miller, minha relação com Sunny só diz respeito a mim.

Mesmo seu olhar duro, tinha traços de tristeza, talvez Sunny não seja a única ferida naquela família. Se ele já estava me tratando assim por somente questionar o tempo que passa com a filha, imagine se eu perguntasse novamente o que aconteceu com a mãe dela. Ele a pegou no colo e se afastou de nós, Sunny me olhou tristonha enquanto apertava a flor de papel em sua mão.

— O que eu fiz?! — sussurrei para mim mesma.

Já sabia que passaria o fim de semana preocupada com a pequena, minha mente fervilhava de preocupação, para piorar meu corpo dolorido pelo resfriado que peguei sem necessidade.

Domingo pela manhã Sora ajumma viajou para casa de sua irmã em Busan, segundo ela, precisava de umas férias. Do que eu não sabia, mas estava feliz por sua animação em viajar. Logo após o almoço Yuri saiu para um encontro, minha amiga estava radiante com seu vestido novo que comprou para a ocasião, em suas palavras aliviadas, já fazia tempos que ela esperava pelo convite do tal funcionário da empresa de entretenimento. É engraçado imaginar minha amiga sendo namorada de um quem sabe k-idol, mais ainda, torcer pelo seu romance as escondidas, digno de dorama.

— Voltou cedo. — disse ao adentrar a sala e ver misteriosamente na cozinha preparando algo no fogão — Olha só quem sabe cozinhar.

Brinquei.

— Eu que estou surpreso por estar em casa. — ele me olhou de relance, então voltou sua atenção para a panela — Aceita spaguetti?
— Além de chefe sabe gastronomia italiana. — o fiz rir.
— Aprende-se muita coisa no exército sabia? — ele continuou mexendo a panela que parecia ser do molho.
— Imagino. — dei alguns passos até ele, ouvindo mais nitidamente o barulho da chuva que caía do lado de fora — Eu até pensei em dar uma volta, mas começou a chover e desanimei, Yuri provavelmente vai demorar para voltar.
— Aposto que vai usar isso de pretexto para conhecer o dormitório de algum grupo de kpop. — ele riu.
— Você sabe quem é esse tal funcionário?
— Ela sempre fala a mesma coisa, que não pode contar para proteger ele. — ele suspirou fraco — Tenho medo que minha irmã se machuque com essas suas fantasias amorosas de dorama.
— Eu não a recrimino, acho fofo os romances de dorama. — retruquei — Apesar da maioria ser repetitivo, a mocinha pobre que apaixona pelo ceo da companhia, egocêntrico e sarcástico, com uma mãe ou tia que impede o amor deles, e ainda tem uma mulher para ser a rival.
— Nossa, não é só minha irmã que anda fazendo maratonas de doramas. — comentou rindo.
— Digamos que eu veja para treinar minha pronúncia. — me expliquei.
— Sei. — ele desligou o fogo e me olhou cruzando os braços.
— Estou falando sério. — fiz cara de emburrada — Então, nosso jantar está pronto?
— Bon appétit, senhorita. — ele abriu um largo sorriso, me fazendo sorrir junto.

Em um piscar de olhos tocaram a campainha da porta, achei estranho de início, já que Yuri havia saído com a chave e assegurou que não estava ninguém. Segui até a porta e assim que abri, meu corpo gelou ao ver Sunny toma molhada pela chuva parada na porta e chorando.

— Pequena?! O que faz aqui a essa hora?! — me estiquei e olhei no corredor, vendo-o vazio a coloquei para dentro — Como chegou até aqui?

Ela esticou a mão com um papel, notei que não estava com a flor de papel que havia lhe dado no dia em que nos conhecemos.

— Quem é essa criança? — perguntou .
— Minha aluna. — peguei o papel e li meu endereço anotado nele, fiquei curiosa para saber como ela tinha conseguido aquele endereço, e como ela tinha conseguido chegar em minha casa — Venha Sunny, temos que tirar essas roupas molhadas.

Por um momento me peguei desnorteada com a situação, mas antes de pensar em fazer o óbvio e ligar para o seu pai, eu iria cuidar daquela doce criança da forma mais carinhosa possível. Se Sunny veio atrás de mim, é porque conquistei sua confiança e seu afeto, então não iria decepcioná-la, muito menos negligenciá-la.

Seguraria sua mão, mesmo que me custasse ir contra seu pai.

"Este indestrutível e inquebrável
Vínculo que nunca vai se quebrar
Nossas almas são almas gêmeas (almas gêmeas)
Por exemplo,
Mesmo se parecer que você está prestes a cair de um penhasco
Eu definitivamente não vou soltar a sua mão

Indestrutível...
Porque eu vou proteger você até o fim."
- Indestructible / Girls' Generation



Continua...



Nota da autora:
Aqui estou com mais uma história da saga cidades. Espero que estejam gostando, fiquem atentos nas minhas fics que saírem na categoria Originais aqui do FFOBS!!! Vejo vocês na próxima história!!!
Bjinhos...
By: Pâms!!!!
Jesus bless you!!!




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*as outras fics vocês encontram na minha página da autora!!


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